O conde de monte cristo
Alexandre Dumas



O Conde de Monte-Cristo


Ttulo original: Le Comte de Monte-Cristo

Traduo de Adelino dos Santos Rodrigues

Traduo Portuguesa c de P.E.A,. de 1999

Capa: estdios P.E.A

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Editor: Francisco Lyon de Castro

Publicaes Europa-Amrica, Lda,
Apartado 8
2726-901 mem martins
portugal

Edio n.o: 151051/7183

Abril de 1999

Execuo tcnica:
Grfica Europam, Lda.,
Mira-Sintra - Mem Martins

Dep. legal n.o 136659/99





O Conde de Monte-cristo

Um romance do Destino. Vtima e vingador, Edmond Dants, o
personagem central, encarna ele prprio, o destino.

A histria de um homem bom a quem roubam a liberdade e o amor.
No cativeiro trava amizade com o abade Faria, que lhe oferece
ajuda para a fuga.

Um homem que regressar coberto de riquezas, vingador
impiedoso,
para alm de toda a lei humana ou divina.





Captulo I


Marselha. - A Checada


Em 24 de Fevereiro de 1815, o vigia de Nossa Senhora da Guarda
assinalou o trs mastros Pharaon, vindo de Esmirna, Trieste
e Npoles.

Como de costume, um piloto costeiro largou imediatamente do
porto, passou rente ao Castelo de If e abordou o navio entre o
cabo de Morgion e a ilha de Rion.

Tambm como de costume, a plataforma do Forte de S. Joo
encheu-se imediatamente de curiosos. Porque em Marselha a
chegada
de um navio era sempre um grande acontecimento, sobretudo
quando
esse navio, como no caso do Pharaon, fora construdo,
aparelhado e estivado nos estaleiros da velha Phoce e
pertencia
a um armador da cidade.

Entretanto, o navio aproximava-se. Transpusera sem dificuldade
o estreito que alguma erupo vulcnica abrira entre a ilha de
Calasareigne e a ilha de Jaros, deixara para trs Pomgue e
avanava com os seus trs mastros, a sua bojarrona e a sua
bergantina, mas to devagar e com um ar to triste que os
curiosos, com esse instinto que pressente a desgraa,
perguntavam
a si mesmos que acidente teria acontecido a bordo. No entanto,
os entendidos em navegao reconheciam que, se houvera algum
acidente, no se dera com o prprio navio, pois este
aproximava-se com todas as condies de um navio perfeitamente
governado, a ncora prestes a ser largada e os cabos gurups
soltos; e junto do piloto, que se preparava para dirigir o
Pharaon atravs da entrada estreita do porto de Marselha,
encontrava-se um jovem desembaraado e de olhar atento, que
vigiava cada movimento do navio e repetia cada ordem do
piloto.

A vaga inquietao que pairava sobre a multido atingira
especialmente um dos espectadores da esplanada de S. Joo, e
de
tal modo que no lhe permitiu esperar a entrada do navio no
porto. Saltou para um barquito e mandou remar ao encontro do
Pharaon, que alcanou defronte da enseada da Rserve.

Ao ver aproximar-se aquele homem, o jovem marinheiro deixou o
seu
lugar ao p do piloto e, de chapu na mo, encostou-se 
amurada
do navio.

Era um rapaz de dezoito a vinte anos, alto, esbelto, de belos
olhos negros e cabelo cor de bano. Havia em toda a sua pessoa
esse ar calmo e resoluto caracterstico dos homens habituados
desde a infncia a enfrentar o perigo.

- Ah,  voc, Dants! - gritou o homem do barco. - Que
aconteceu,
a que se deve esse ar de tristeza que paira a bordo?

- Uma grande desgraa, Sr. Morrel! - respondeu o jovem.
- Uma grande desgraa, sobretudo para mim. Por alturas de
Civita-Vecchia perdemos o nosso querido comandante Leclre.


- E a carga? - perguntou vivamente o armador?

- Chegou a bom porto, Sr. Morrel, e creio que a esse respeito
ficar contente; mas o pobre comandante Leclre...

- Que lhe aconteceu? - perguntou o armador com ar visivelmente
aliviado. - Que aconteceu a esse digno comandante?

- Morreu.

- Caiu ao mar?

- No, senhor. Morreu de febre cerebral, no meio de horrveis
sofrimentos.

Depois, virando-se para os seus homens:

- Ol, eh! - gritou. - Todos a postos para a ancoragem!

A tripulao obedeceu. Acto contnuo, os oito ou dez
marinheiros
que a compunham correram uns para as escotas, outros para os
braos, outros para as adrias, outros para os cutelos e
finalmente outros para as carregadeiras das velas.

O jovem marinheiro deitou um olhar breve ao comeo da manobra
e,
vendo que as suas ordens estavam a ser executadas, tornou a
virar-se para o seu interlocutor.

- E como aconteceu essa desgraa? - continuou o armador,
retomando o dilogo no ponto em que o jovem marinheiro o
deixara.

- Meu Deus, senhor, da forma mais imprevista! Depois de uma
longa
conversa com o comandante do porto, o comandante Leclre
deixou
Npoles muito agitado; passadas vinte e quatro horas a febre
atacou-o; trs dias depois estava morto... Fizemos-lhe o
funeral
do costume e repousa, decentemente embrulhado no pano de uma
maca, com um pelouro de trinta e seis aos ps e outro 
cabea,
por alturas da ilha de El Giglio. Trazemos, para entregar 
viva, a sua Cruz de Honra e a sua espada. Valia bem a pena -
continuou o jovem, - com um sorriso melanclico - andar dez
anos
a guerrear os Ingleses para no fim morrer na cama como toda a
gente.

- Pois sim, mas que quer, Sr. Edmond - prosseguiu o armador,
que
parecia cada vez mais conformado --, somos todos mortais e 
preciso que os mais velhos dem lugar aos novos. Sem isso no
haveria progresso; e uma vez que me garante que a carga...

- ...est em bom estado, Sr. Morrel, asseguro-lhe. Aconselho-o
a no negociar esta viagem com menos de 25.000 francos de
lucro.

Depois, como acabassem de ultrapassar a torre redonda:

- Preparar para colher as velas da gvea, o cutelo e a
bergantina! - gritou o jovem marinheiro. - Vamos!

A ordem foi executada quase com tanta rapidez como num navio
de
guerra.

- Amainar e colher tudo!

 ltima ordem todas as velas desceram e o navio avanou
quase
insensivelmente, impelido apenas pelo impulso que trazia.

- E agora se quiser subir, Sr. Morrel - disse Dants ao ver a
impacincia do armador --, aqui tem o seu guarda-livros, Sr.
Danglars, que sai do seu camarote e que lhe dar todas as
informaes que desejar. Quanto a mim, tenho de vigiar a
ancoragem e de pr o navio de luto.

O armador no esperou que lho dissessem duas vezes. Agarrou o
cabo que lhe deitou Dants e, com uma destreza que faria
inveja
a um homem do mar, subiu os degraus fixados no bojo do navio,
enquanto o jovem, reassumindo o seu lugar de imediato, cedia a
palavra quele que anunciara sob o nome de Danglars e que,
saindo
do seu camarote, avanava efectivamente ao encontro do
armador.

O recm-chegado era um homem de vinte e cinco a vinte e seis
anos, de expresso bastante sombria, obsequioso para com os
superiores e insolente para com os subordinados. Por isso,
alm
do cargo de guarda-livros, sempre motivo de repulsa para os
marinheiros, era geralmente to malvisto pela tripulao
quanto,
pelo contrrio, Edmond Dants era estimado.

- Ento, Sr. Morrel - disse Danglars --, j sabe a desgraa
que
nos aconteceu, no  verdade?

- Sei, sei. Pobre comandante Leclre! Era um excelente e digno
homem!

- E um bom marinheiro, sobretudo, envelhecido entre o cu e o
mar, como convm a um homem encarregado dos interesses de uma
casa to importante como a casa Morrel  Filhos - respondeu
Danglars.

- Mas - disse o armador, seguindo com a vista Dants, que
procurava o seu ancoradouro --, mas parece-me que no 
necessrio ser to velho marinheiro como voc diz, Danglars,
para
um homem saber do seu ofcio. A est o nosso amigo Edmond que
me parece saber do seu como um homem que no necessita de
pedir
conselhos a ningum.

- Sim - redarguiu Danglars, deitando a Dants  um olhar
oblquo
onde brilhou um relmpago de dio --, sim,  novo e por isso
julga-se capaz de tudo. Mal o comandante morreu assumiu o
comando
sem consultar ningum e fez-nos perder dia e meio na ilha de
Elba, em vez de rumar directamente para Marselha.

- Quanto a tomar o comando do navio - disse o  armador - era o
seu dever como imediato; quanto a perder dia e meio na ilha de
Elba fez mal; a menos que o navio tenha tido necessidade de
reparar alguma avaria.

- O navio estava to bem como eu estou e como desejo que
esteja
o Sr. Morrel. Esse dia e meio foi perdido por puro capricho,
pelo
prazer de ir a terra e mais nada.

- Dants - disse o armador virando-se para o rapaz --, chegue
aqui.

- Perdo, senhor - respondeu Dants --, irei dentro de um
instante.

Depois, dirigindo-se  tripulao:

- Ancorar!

A ncora caiu imediatamente e a corrente deslizou com rudo.
Apesar da presena do piloto, Dants manteve-se no seu posto
at
esta ltima manobra estar concluda. Depois:

- Descer a flmula a meio mastro, pr a bandeira a meia haste
e
cruzar as vergas!

- Como v - disse Danglars --, j se julga comandante, como
acabo
de lhe dizer.

- E -o de facto - redarguiu o armador.

- Sim, caso tenha o seu acordo e o do seu scio, Sr. Morrel.

- E porque lhe no daramos o lugar? - replicou o armador. - 
novo, bem sei, mas parece-me capaz de desempenhar
perfeitamente
o cargo.


Passou uma nuvem pela testa de Danglars.

- Perdo, Sr. Morrel - disse Dants, aproximando-se. - Agora
que
o navio j est ancorado, estou s suas ordens. Chamou-me, no
 verdade?

Danglars deu um passo atrs.

- Queria perguntar-lhe por que motivo se detiveram na ilha de
Elba - respondeu Morrel.

-Ignoro-o, senhor. Cumpri apenas a ltima ordem do comandante
Leclre, que ao morrer me entregou um pacote para o grande
marechal Bertrand.

- Viu-o, portanto, Edmond?

- Quem?

- O grande marechal.

- Vi.

Morrel olhou  sua volta e puxou Dants  parte.

- E como est o imperador? - perguntou vivamente.

- Bem, tanto quanto me foi dado julgar pelos meus olhos.

- Quer dizer que tambm viu o imperador?

- Entrou em casa do marechal quando l me encontrava.

- E voc falou-lhe?

- Bom, quem me falou foi ele, senhor - respondeu Dants,
sorrindo.

- E que lhe disse?

- Interrogou-me acerca do navio, de quando partia para
Marselha,
da rota seguida e da carga que transportava. Creio que se
estivesse vazio e fosse meu a sua inteno seria compr-lo.
Mas
disse-lhe que no passava de um simples imediato e que o navio
pertencia  casa Morrel  Filhos. "Ah! Ah!, conheo-a!",
exclamou. "Os Morrels so armadores de pais para filhos e
houve
um Morrel que serviu no mesmo regimento que eu quando estive
de
guarnio em Valence."

- Por Deus,  verdade! - exclamou o armador, contentssimo. -
Era
Policar Morrel, meu tio, que foi capito. Dants, se disser ao
meu tio que o imperador se lembrou dele, ver como o velho
resmungo desata a chorar. Pronto, pronto - prosseguiu o
armador,
batendo amistosamente no ombro do rapaz --, fez bem, Dants,
em
seguir as instrues do comandante Leclre e escalar a ilha de
Elba, embora se se soubesse que entregou um pacote, ao
marechal
e conversou com o imperador, isso o pudesse comprometer.

- Em que quer o senhor que isso me comprometa - redarguiu
Dants
- se nem sequer sei o que continha o pacote e o imperador s
me
interrogou acerca de coisas que perguntaria ao primeiro que
lhe
aparecesse? Mas, perdo -prosseguiu Dants --, a esto a
sanidade e a alfndega.
D-me licena, no  verdade?

- Claro, claro, meu caro Dants.

O jovem afastou-se e, como ele se afastasse, Danglars tomou a
aproximar-se.

- Ento, parece que lhe deu boas razes acerca da sua escala
em
Porto Ferraio...

- Excelentes, meu caro Sr. Danglars.

- Ah, tanto melhor! - exclamou este. - Porque  sempre
desagradvel ver um companheiro no cumprir o seu dever.

- Dants cumpriu o seu - respondeu o armador - e no h nada a
dizer.

- A propsito do comandante Leclre, no lhe entregou uma
carta
dele?

- Quem?

- Dants.

- A mim, no! Quer dizer que havia uma carta?

- Julgava que, alm do pacote, o comandante Leclre lhe
confiara
uma carta.

- De que pacote fala, Danglars?

- Daquele que Dants entregou ao passar por Porto Ferraio.

- Como sabe que tinha de entregar um pacote em Porto Ferraio?

Danglars corou.

- Passava diante da porta do comandante, que estava
entreaberta,
e vi-o entregar o pacote e a carta a Dants.

- No me disse nada a esse respeito - redarguiu o armador mas
se
tem essa carta entregar-ma-.

Danglars reflectiu um instante.

- Nesse caso, Sr. Morrel, peo-lhe que no diga nada disto a
Dants. Provavelmente, enganei-me

Neste momento o jovem regressava. Danglars afastou-se.

- Ento, meu caro Dants, j est livre? - perguntou o
armador.

- Estou, sim, senhor.

- No demorou muito tempo.

- Pois no. Entreguei aos funcionrios da Alfndega a lista
das
nossas mercadorias, e quanto  sanidade mandara com o piloto
um
homem a quem entreguei os nossos documentos.

- Ento j no tem mais nada que fazer aqui?

Dants deitou um olhar rpido  sua volta.

- No, est tudo em ordem - respondeu.

- Nesse caso, pode vir jantar connosco?

- Desculpe-me, Sr. Morrel, desculpe-me, peo-lhe, mas devo a
minha primeira visita a meu pai. Mas nem por isso fico menos
reconhecido pela honra que me concede.

-  justo, Dants,  justo. Sei que  um bom filho.

- E... sabe se ele est bem... o meu pai? - perguntou Dants,
com
certa hesitao.

- Creio que sim, meu caro Edmond, embora o no tenha visto.

- Sim, gosta de estar fechado no seu quartito.

- O que prova, pelo menos, que no lhe faltou nada durante a
sua
ausncia.

Dants sorriu.

- Meu pai  orgulhoso, senhor. Mesmo que lhe faltasse tudo
duvido
que pedisse qualquer coisa a quem quer que fosse no mundo,
excepto a Deus.

- Bom, depois dessa primeira visita contamos consigo.

- Desculpe-me novamente, Sr. Morrel, mas depois desta primeira
visita tenho uma segunda que me no  menos grata ao corao.

- Ah,  verdade, Dants? Esquecia-me de que h nos Catales
algum que o deve esperar com no menos impacincia do que o
seu
pai: a bela Mercds.

Dants sorriu.

- Ah, ah! - exclamou o armador. - Agora j me no admira que
ela
tenha vindo trs vezes pedir-me notcias do Pharaon. Apre,
Edmond, escusa de se queixar, tem ali uma bonita amante!

- No  minha amante, senhor - observou gravemente o jovem
marinheiro --,  minha noiva.

-  tudo a mesma coisa - comentou o armador, rindo.

- Mas no para ns, senhor - respondeu Dants.

- Pronto, pronto, meu caro Edmond - prosseguiu o armador - no
o retenho mais. Cuidou to bem dos meus negcios que merece
que
lhe d todo o tempo de que precisar para tratar dos seus.
Precisa
de dinheiro?

- No, senhor. Tenho todos os meus vencimentos de viagem, isto
, perto de trs meses de soldo.

- Voc  um rapaz ajuizado, Edmond.

- Acrescente que tenho um pai pobre, Sr. Morrel.

- Sim, sim, sei que  um bom filho. Pronto, v ver o seu pai.
Tambm tenho um filho e levaria muito a mal a quem, depois de
uma
viagem de trs meses, o retivesse longe de mim.

- Nesse caso, se me d licena... - disse o jovem
cumprimentando.

- Dou, se no tem mais nada a dizer-me.

- No.

- O comandante Leclre no lhe deu, ao morrer, uma carta para
mim?

- Foi-lhe impossvel escrever, senhor. Mas isso recorda-me que
desejo pedir-lhe quinze dias de licena.

- Para se casar?

- Primeiro; depois para ir a Paris.

- Pois sim, pois sim, tome o tempo que quiser, Dants.
Levaremos
bem seis semanas a descarregar o navio e no voltaremos ao mar
antes de trs meses... Mas daqui a trs meses tem de estar de
volta. O Pharaon - continuou o armador, batendo no ombro do
jovem marinheiro - no poderia partir sem o seu comandante.

- Sem o seu comandante! - exclamou Dants, com os olhos
brilhantes de alegria. - Veja bem o que diz, senhor, pois
acaba
de corresponder s mais secretas esperanas do meu corao.
Ser
sua inteno nomear-me comandante do Pharaon?

- Se fosse sozinho, estender-lhe-ia a mo, meu caro Dants, e
dir-lhe-ia: "Est feito." Mas tenho um scio e voc conhece o
provrbio italiano: "Che a compgno a padrne." Mas pelo
menos
metade do caminho est andado, porque de dois votos j pode
contar com um. Confie em mim para obter o outro.

- Oh, Sr. Morrel! - exclamou o jovem marinheiro com as
lgrimas
nos olhos, pegando nas mos do armador. -Agradeo-lhe, Sr.
Morrel, em nome de meu pai e de Mercds.

- Est bem, est bem, Edmond. H um Deus no Cu para as
pessoas
dignas, que diabo! V ver o seu pai, v ver Mercds e
procure-me
depois.

- No quer que o leve a terra?

- No, obrigado. Fico a tratar das minhas contas com Danglars.
Ficou satisfeito com ele durante a viagem?

- Conforme o sentido que d  pergunta, senhor. Se  como bom
camarada, no, pois parece-me que no gosta de mim desde o dia
em que cometi a tolice, depois de uma pequena discusso que
tivemos, de lhe propor que nos detivssemos dez minutos na
ilha
de Monte-Cristo para resolvermos a questo, proposta que no
andei bem em fazer-lhe e que ele teve razo em recusar. Se  a
respeito do guarda-livros que me faz a pergunta, creio no
haver
nada a dizer e que ter motivos para se sentir satisfeito com
a
forma como ele se desempenha da sua tarefa.

- Mas... Vejamos, Dants, se fosse comandante do pharaon
conservaria Danglars com prazer? - perguntou o armador.

- Comandante ou imediato, Sr. Morrel - respondeu Dants terei
sempre a maior considerao por aqueles que possurem a
confiana
dos meus armadores.

- Est bem, est bem, Dants, vejo que  um excelente rapaz
sob
todos os aspectos. No o rebento mais; v, pois bem vejo que
est
sobre brasas.

- Posso contar com a minha licena? - perguntou Dants.

- Pois sim.

- Permite-me que me sirva do seu barco?

-  vontade.

- Adeus, Sr. Morrel, e mil vezes obrigado.

- Adeus, meu caro Edmond, felicidades!

O jovem marinheiro saltou para o barco, sentou-se  popa e
mandou
seguir para a Cannebire. Dois marinheiros inclinaram-se
imediatamente sobre os remos e a embarcao deslizou to
rapidamente quanto possvel por entre os numerosos barcos que
obstruam a espcie de rua estreita que conduzia, atravs de
duas
filas de navios, da entrada do porto ao cais de Orlees.

O armador seguiu-o com a vista sorrindo, at Dants alcanar a
muralha, saltar para as lajes do cais e desaparecer
imediatamente
no meio da multido variegada que das cinco da manh s nove
da
noite enche a famosa Rua da Cannebire, de que tanto se
orgulham
os fcios modernos, os quais dizem com a maior seriedade do
mundo
e com a pronncia que d tanto caracter s suas palavras: "Se
Paris tivesse a Cannebire seria uma pequena Marselha."

Ao virar-se, o armador viu atrs de si Danglars, que
aparentemente parecia esperar as suas ordens, mas que na
realidade seguia tambm com a vista o jovem marinheiro.

Simplesmente, havia uma grande diferena na expresso do duplo
olhar que seguia o mesmo homem.


Captulo II

O pai e o filho


Deixemos Danglars, a braos com o gnio do dio, tentar soprar
contra o companheiro alguma maligna suposio ao ouvido do
armador e sigamos Dants, que, depois de percorrer a
Cannebire
em todo o seu comprimento,
entrou na Rua de Noailles, em seguida numa casita situada ao
lado
das Alamedas de Meilhan, subiu rapidamente os quatro andares
de
uma escada escura e, segurando-se ao corrimo com uma das mos
e comprimindo com a outra as pulsaes do corao, parou
diante
de uma porta entreaberta que deixava ver um quartito at ao
fundo.

Era naquele quarto que morava o pai de Dants.
A notcia da chegada do Pharaon ainda no chegara aos
ouvidos
do velhote, o qual, empoleirado numa cadeira, se entretinha a
prender com mo trmula algumas capuchinhas e clematites que
trepavam ao longo do ripado da janela.

De sbito, sentiu-se agarrado pela cintura e ouviu uma voz bem
conhecida exclamar atrs dele:

- Meu pai, meu bom pai!

O velho soltou um grito e virou-se; depois, ao ver o filho,
deixou-se transportar nos seus braos, muito trmulo e
palidssimo.

- Que tens, pai? - perguntou o rapaz, inquieto. - Ests
doente?

- No, no, no, meu querido Edmond, meu filho, meu menino,
no.
Mas no te esperava, e a alegria, a surpresa de te ver assim
de
repente... Ah, meu Deus, parece-me que vou morrer!

- Pronto, sossega, pai! Sou eu, sou mesmo eu! Sempre ouvi
dizer
que a alegria no faz mal e por isso entrei assim, sem
preparao. Vamos, sorri-me em vez de me olhares dessa
maneira,
com os olhos esgazeados. Estou de volta e vamos ser felizes.

- Ah, ainda bem, rapaz! - exclamou o velho. - Mas vamos ser
felizes como? No me deixas mais? Anda, conta-me em que
consiste
a tua felicidade!

- Que o Senhor me perdoe - disse o rapaz - por me regozijar
com
uma felicidade conseguida  custa do luto de uma famlia! Mas
Deus sabe que no desejei essa felicidade. Uma vez, porm, que
aconteceu, no est mais na minha mo, no consigo afligir-me.
O digno comandante Leclre morreu, meu pai, e  provvel que
graas  proteco do Sr. Morrel me dem o seu lugar.
Compreende,
meu pai? Comandante aos vinte anos! Com cem luses de soldo e
parte dos lucros! No  mais do que podia realmente esperar um
pobre marinheiro como eu?

- Sim, meu filho, sim, de facto  uma felicidade - disse o
velhote.

- Por isso, quero que com o primeiro dinheiro que ganhar tenha
uma casinha com jardim para plantar as suas clematites, as
suas
capuchinhas e as suas madressilvas... Mas que tens, pai,
dir-se-ia que te sentes mal...

- Calma, calma! Isto no  nada.

Mas as foras faltaram-lhe e o velho deixou-se cair para trs.

- Ento, ento! - exclamou o rapaz. - Tome um copo de vinho,
meu
pai; vai ver que o reanima. Onde tem o vinho?

- No, obrigado, escusas de o procurar; no  preciso -
redarguiu
o velho, procurando reter o filho.

- No  preciso, no  preciso... Ento, pai, diga-me onde
est
- e abriu dois ou trs armrios.

- Intil... - murmurou o velho - j no h vinho.

- Como, j no h vinho?! - surpreendeu-se Dants,
empalidecendo por seu turno e olhando alternadamente para as
faces cavadas e macilentas do  velho e para os armrios
vazios.
- Como  que j no h vinho? Tiveste falta de dinheiro, meu
pai?

- No tenho falta de nada desde que ests aqui - respondeu o
velhote.

- No entanto - balbuciou Dants, limpando o suor que lhe
escorria
da testa --, no entanto, deixei-lhe duzentos francos quando
parti
h trs meses.

- Sim, sim, Edmond,  verdade. Mas quando partiste
esqueceste-te
de uma pequena dvida em casa do vizinho Caderousse. Ele
lembrou-ma e disse-me que se a no pagasse por ti iria pedir o
pagamento ao Sr. Morrel. Ento, compreendes, com medo que isso
te prejudicasse...

- Que fez?

- Que fiz? Paguei-a eu.

- Mas eu devia cento e quarenta francos a Caderousse exclamou
Dants.

- Pois devias - balbuciou o velhote.

- E pagou-lhos dos duzentos francos que lhe deixei?

O velhote acenou que sim com a cabea.

- De modo que viveu trs meses com sessenta francos! -
murmurou o rapaz.

- Bem sabes que me contento com pouco - disse o velhote.

- Oh, meu Deus, meu Deus, perdoai-me! - exclamou Edmond,
caindo
de Joelhos diante do pobre homem.

- Que fazes?

- Oh, dilacerou-me o corao!

- Mas agora ests aqui - observou o velhote, sorrindo. - Agora
est tudo esquecido porque tudo est bem.

- Sim, estou aqui - disse o rapaz. - Estou aqui com um
excelente
futuro e algum dinheiro. Tome, pai. Tome, tome e mande buscar
imediatamente qualquer coisa.

E despejou em cima da mesa as algibeiras, que continham uma
dzia
de moedas de ouro, cinco ou seis moedas de cinco francos e
alguns
trocos.

O rosto do velho Dants iluminou-se.

- De quem  isso? - perguntou.

- Mas...  meu!...  teu!...  nosso!... Tome, compre comida.
Sejamos felizes. Amanh haver mais.

- Devagar, devagar... - contraps o velhote, sorrindo. - Com
tua
licena, servir-me-ei moderadamente da tua bolsa. Se me vissem
comprar demasiadas coisas ao mesmo tempo, julgariam que me vi
obrigado a esperar o teu regresso para as adquirir.

- Faz como quiseres. Mas antes de mais nada toma uma criada,
pai.
No quero que continues sozinho. Tenho caf de contrabando e
excelente tabaco num bauzinho no poro. Dar-tos-ei amanh. Mas
caluda que vem a algum!

-  Caderousse. Deve ter sabido da tua chegada e vem, sem
dvida,
dar-te as boas-vindas.

- Deus nos livre dos lbios que dizem uma coisa enquanto o
corao sente outra - murmurou Edmond. - Mas no importa,  um
vizinho que noutros tempos nos ajudou; que seja bem-vindo.

Com efeito, quando Edmond acabava esta frase em voz baixa
apareceu enquadrada na porta do patamar a cabea negra e
barbuda
de Caderousse. Era um homem de vinte e cinco a vinte seis
anos.
Trazia na mo um bocado de  tecido que, na sua qualidade de
alfaiate, se preparava para transformar numa banda de casaca.

- Com que ento de volta, hem, Edmond - disse com um aceno
marselhs dos mais pronunciados e um amplo sorriso que lhe
descobriu os dentes brancos como marfim.

-  como v, vizinho Caderousse, e pronto a ser-lhe agradvel
no
que quer que seja - respondeu Dants, escondendo mal a sua
frieza
debaixo desta oferta de servios.

- Obrigado, obrigado. Felizmente, no preciso de nada, e s
vezes
at so os outros que precisam de mim...

Dants esboou um gesto.

- No digo isto por ti, rapaz - prosseguiu o outro. -
Emprestei-te dinheiro, pagaste-mo. So coisas que se trazem
entre
bons vizinhos e estamos quites.

- Nunca estamos quites para com aqueles que nos obsequiaram -
declarou Dants. - Porque quando j lhos no devemos dinheiro
devemos-lhe reconhecimento.

- Que adianta falar disso? O que l vai, l vai! Falemos antes
do leu feliz regresso, rapaz. Passava por acaso pelo porto
para
ir comprar fazenda castanha quando encontrei o amigo Danglars.

" -Tu em Marselha?

" - Claro, como vs - respondeu-me.

" - Julgava-te em Esmirna.

" - Acabo de chegar de l.

" - E Edmond, onde est?

" - Em casa do pai, sem dvida - respondeu Danglars. - E foi
ento que resolvi c vir - continuou Caderousse - para ter o
prazer de apertar a mo a um amigo!

- Este bom Caderousse gosta tanto de ns - observou o velhote.

- Claro que gosto de vocs e tambm que os estimo, atendendo a
que as pessoas honestas so raras! Mas parece que
enriqueceste,
rapaz... - continuou o alfaiate, deitando um olhar de esguelha
ao punhado de ouro e prata que Dants pusera em cima da mesa.

O jovem notou o relmpago de cupidez que iluminou os olhos
negros
do vizinho.

-- Por Deus - disse negligentemente --, esse dinheiro no 
meu.
Manifestava ao pai o receio de que lhe tivesse faltado alguma
coisa na minha ausncia e, para me tranquilizar, ele despejou
a
bolsa em cima da mesa. Vamos, pai - continuou Dants --,
guarde
esse dinheiro no seu mealheiro. A no ser que o vizinho
Caderousse tenha, por sua vez, necessidade dele, pois nesse
caso
est s suas ordens.

- No - rapaz - disse Caderousse --, no tenho necessidade de
nada. Graas a Deus, o Estado cuida dos seus homens. Guarda o
teu
dinheiro, guarda; nunca  de mais. O que me no impede de te
agradecer a tua oferta como se a tivesse aceitado.

- Era de boa vontade - declarou Dants.

- Acredito. Eis-te ento em excelentes relaes com o Sr.
Morrel,
hem?... Espertalho!...

O Sr. Morrel foi sempre muito bondoso para comigo - respondeu
Dants.

- Nesse caso, no devias recusar o seu jantar.

- Como recusar o seu jantar? - interveio o velho Dants. -
Convidou-te para jantar?

- Convidou, meu pai - respondeu Edmond, sorrindo do espanto
que
causava ao pai as grandes honras de que era alvo.

- E por que recusaste, filho? - perguntou o velhote.

- Para chegar mais cedo junto de si meu pai - respondeu o
rapaz.
- Tinha pressa de o ver.

- O bom do Sr. Morrel deve ter ficado contrariado com isso -
insinuou Caderousse. - E quando se visa ser comandante  um
erro
contrariar o armador...

- Expliquei-lhe o motivo da minha recusa e ele compreendeu-o,
espero - redarguiu Dants.

- Convm no esquecer que para se ser comandante  necessrio
adular um bocadinho os patres...

- Espero ser comandante sem isso - respondeu Dants.

- Tanto melhor, tanto melhor! Ser um prazer para todos os
velhos
amigos e sei de algum l em baixo, atrs da Cidadela de S.
Nicolau, que no ficar nada aborrecido com isso...

- Mercds? - perguntou o velhote.

- Sim, meu pai - respondeu Dants. - E com sua licena, agora
que
j o vi, agora que sei que est de sade e que tem tudo quanto
precisa, permita-me que v visitar os Catales.

- Vai, meu filho - disse o velho Dants --, e que Deus te
abenoe
na tua mulher como me abenoou no meu filho.

- Sua mulher? - interveio Caderousse. - Como vai depressa, Tio
Dants! Ainda o no , parece-me!

- No. Mas  muito provvel que no tarde a s-lo -respondeu
Edmond.

- No importa, no importa - observou Caderousse. -Fazes bem
em
despachar-te, rapaz.

- Porqu?

- Porque Mercds  uma bonita rapariga e s bonitas raparigas
no faltam apaixonados. Ela, sobretudo, tem-nos s dzias.

- Deveras? - disse Edmond, com um sorriso em que se notavam
uns
ligeiros laivos de inquietao.

- Claro! - confirmou Caderousse. - E bons partidos, at. Mas,
compreendes, vais ser comandante e nessas condies quem  que
te ia recusar?...

- O que quer dizer - comentou - Dants com um sorriso que
disfarava mal a sua inquietao - que se no fosse
comandante...

- Eh, eh! - gargalhou Caderousse.

- Vamos, vamos - atalhou o rapaz --, tenho melhor opinio do
que
voc acerca das mulheres em geral e de Mercds em particular
e
estou convencido de que, seja ou no comandante, ela me
permanecer fiel.

- Tanto melhor, tanto melhor! - exclamou Caderousse. - 
sempre
bom um homem ter f quando se vai casar. Mas no importa!
Acredita no que  te digo, rapaz: no percas tempo a ir
anunciar-lhe a tua chegada e a dar-lhe conta das tuas
esperanas.

- Vou j -- disse Edmond.

Beijou o pai, cumprimentou Caderousse com um aceno e saiu.

Caderousse ficou mais um instante. Depois, despediu-se do
velho
Dants, desceu por seu turno e foi ter com Danglars, que o
esperava  esquina da Rua Senac.

- Ento, viste-o? - perguntou Danglars.

- Acabo de o deixar - respondeu Cadcroussc.

- Falou-te da sua esperana de ser comandante?

- Falou e como se j o fosse.

- Pois que tenha pacincia - redarguiu Danglars. - Parece-me
que
vai um bocadinho depressa de mais...

- Demnio, mas se a coisa lhe foi prometida pelo Sr.
Morrel!...

- De maneira que est contentssimo?

- Ser melhor dizer que est insolente. J me ofereceu os seus
servios como se fosse uma grande personagem e ofereceu-se at
para me emprestar dinheiro como se fosse um banqueiro.

- E tu recusaste?

- Evidentemente, embora pudesse muito bem aceitar, atendendo a
que fui eu quem lhe ps na mo as primeiras moedas de prata em
que tocou. Mas agora o Sr. Dants j no precisar de ningum,
vai ser comandante.

- Ora, ainda o no ! - atalhou Danglars.

- Palavra que seria bem feito que o no fosse - declarou
Caderousse. - De contrrio, ningum poder com a sua vida.

- Pois se ns quisermos - insinuou Danglars - ficar o que  e
talvez at se torne menos do que ...

- Que dizes?

- Nada, falo comigo mesmo. Continua apaixonado pela bela
catal?

- Est louco por ela. Foi v-la. Mas ou me engano muito ou
espera-o um desgosto desse lado.

- Explica-te.

- Para qu?

-  mais importante do que julgas. No gostas do Dants, pois
no?

- No gosto dos arrogantes.

- Ento, desembucha, diz-me o que sabes acerca da catal.

- No sei nada de muito positivo; apenas tenho visto coisas
que
me levam a crer, como te disse, que o futuro comandante ter
um
desgosto nas imediaes do Caminho das Vieilles-infirmeries.

- Que viste? Vamos, diz.

- Bom, vi que todas as vezes que Mercds vem  cidade a
acompanha um moceto de olhos negros, corado, muito moreno,
muito
ardente, com todo o ar de catalo e a quem ela trata por "meu
primo".

- Sim?... E achas que esse primo a corteja?

- Suponho que sim. Que diabo pode fazer um rapago de vinte e
um
anos a uma bonita rapariga de dezassete?

- E dizes que Dants foi aos Catales?

- Saiu antes de mim.

- Se fssemos para o mesmo lado, pararamos na Rserve e
enquanto
bebssemos um copo de vinho de La Malgue esperaramos
notcias...

- E quem no-las daria?

- Ficaramos no caminho e veramos na cara de Dants o que se
tivesse passado...

- Vamos - disse Caderousse. - Mas s tu que pagas...

- Claro - respondeu Danglars.

E ambos se dirigiram em passo rpido para o local indicado.
Chegados l, mandaram vir uma garrafa e dois copos.

O Tio Pamphile vira passar Dants ainda no havia dez minutos.

Certos de que Dants se encontrava nos Catales, sentaram-se
debaixo da folhagem nascente dos pltanos e dos sicmoros, nos
ramos dos quais um alegre bando de pssaros cantava um dos
primeiros dias bonitos de Primavera.

Captulo III


Os Catales


A cem passos do local em que os dois amigos, de olhos postos
no
horizonte e ouvido  escuta, saboreavam o vinho espumante de
La
Malgue, erguia-se atrs de uma colina escalvada e roda pelo
sol
e pelo mistral a aldeia dos Catales.

Um dia, uma colnia misteriosa partiu de Espanha e desembarcou
na lngua de terra onde ainda hoje se encontra. Vinha ningum
sabia donde e falava uma lngua desconhecida. Um dos chefes,
que
entendia o provenal, pediu  comuna de Marselha que lhos
desse
aquele promontrio nu e rido em que, como os marinheiros
antigos, acabavam de varar os seus barcos. O pedido foi
satisfeito e trs meses mais tarde erguia-se uma aldeiazinha 
volta dos doze ou quinze barcos trazidos por aqueles ciganos
do
mar.

Essa aldeia construda de forma estranha e pitoresca, meio
moura,
meio espanhola,  aquela que vemos hoje ser habitada por
descendentes desses homens, que falam a lngua dos pais. H
trs
ou quatro sculos que se conservam fiis a esse
promontoriozinho,
sobre o qual desceram como um bando de aves marinhas, sem se
misturarem em nada com a populao marselhesa, casando entre
si
e conservando os costumes e o traje dos seus avs, tal como
conservaram a sua linguagem.

Queiram os nossos leitores seguir-nos atravs da nica rua da
aldeiazinha e entrar connosco numa destas casas a que o sol
deu
por fora essa bela cor de folha morta particular aos
monumentos
da regio e por dentro uma camada de tmpera, essa tinta
branca
que constitui o nico ornamento das pousadas espanholas.

Uma bonita rapariga de cabelo negro como o azeviche e olhos
aveludados como os das gazelas encontrava-se encostada, de p,
a um tabique e esfregava entre os dedos afilados e de um
desenho
antigo uma urze inocente cujas flores arrancava e cujos restos
juncavam j no cho. Alm disso, os seus braos nus  at ao
cotovelo - os seus braos morenos, mas que pareciam modelados
pelos da Vnus de Arles - fremiam numa espcie de impacincia
febril e ela batia no cho com o p flexvel e arqueado de uma
maneira que se entrevia a forma pura, orgulhosa e ousada da
perna, metida numa meia de algodo encarnado com baguettes
cinzentas e azuis.

A trs passos dela, sentado numa cadeira que balouava num
movimento brusco, apoiando o cotovelo num velho mvel
carunchoso,
um latago de vinte e dois anos olhava-a com um ar em que se
misturavam a inquietao e o despeito. Os seus olhos
interrogavam, mas o olhar firme e lixo da rapariga dominava o
seu
interlocutor.

- Vejamos, Mercds - dizia o rapaz --, a Pscoa vem a e 
altura de pensar na boda. Responde-me!

- J te respondi cem vezes, Fernand, e na verdade  preciso
que
sejas muito inimigo de ti mesmo para continuares a
interrogar-me!

- Pois repete-o mais uma vez, suplico-te, repete-o novamente
para
que o acredite. Diz-me pela centsima vez que recusas o meu
amor,
que a tua me aprovava; d-me bem a entender que te 
indiferente
a minha felicidade, que a minha vida e a minha morte no
significam nada para ti. Ah, meu Deus, meu Deus! Ter sonhado
dez
anos ser teu marido, Mercds, e perder essa esperana que era
o nico objectivo da minha vida!

- Pelo menos no fui eu, Fernand, que alguma vez alimentei
essa
esperana - respondeu Mercds. - No tens a censurar-me uma
nica coqueteria para contigo. Sempre te disse: "Gosto de ti
como
um irmo, mas no exijas de mim outra coisa que no seja esta
amizade fraterna, pois o meu corao pertence a outro." No
foi
o que sempre te disse, Fernand?

- Foi, bem sei, Mercds - respondeu o rapaz. - Sim, tiveste
para
comigo o mrito cruel da franqueza. Mas esqueces que entre os
Catales constitui uma lei sagrada casarem entre si?

- Enganas-te Fernand, no se trata de uma lei, trata-se apenas
de um hbito. E, acredita no que te digo, no invoques esse
hbito a teu favor. Foste chamado s fileiras, Fernand. A
liberdade que te concedem no passa de mera tolerncia. De um
momento para o outro podes ser chamado. Uma vez soldado, que
farias de mim, isto , de uma pobre rf, triste, sem fortuna,
possuindo como nica riqueza uma cabana quase em runas, donde
pendem algumas redes velhas, herana miservel deixada por meu
pai  minha me e pela minha me a mim? H um ano que ela
morreu
e desde ento lembra-te, Fernand, vivo quase da caridade
pblica!
s vezes finges que te sou til, mas para teres o direito de
dividir a pesca comigo. E eu aceito, Fernand, porque s filho
de
um irmo do meu pai, porque fomos criados juntos e sobretudo
porque te desgostaria muito se recusasse. Mas sinto bem que o
peixe que vou vender e com que obtenho o dinheiro que me
permite
comprar o cnhamo que fio, sinto bem, Fernand, que  uma
esmola.

- E que importa, Mercds, se, por mais pobre e isolada que
sejas, me convns assim, mais do que a filha do mais orgulhoso
armador ou do mais rico banqueiro de Marselha? De que
precisamos
ns? De uma mulher honesta e de uma boa dona de casa. Onde
encontraria algum melhor do que tu nesses dois aspectos?

- Fernand - respondeu Mercds abanando a cabea --, uma
mulher
torna-se m dona de casa e no pode comprometer-se a ser
honesta
quando ama outro homem em vez do seu marido. Contenta-te com a
minha amizade porque, repito-te,  tudo o que te posso
oferecer,
e eu s ofereo aquilo que estou certa de poder dar.

- Compreendo - disse Fernand. - Suportas com pacincia a tua
misria, mas tens medo da minha. Pois bem, Mercds, amado por
ti tentarei a fortuna; dar-me-s sorte e enriquecerei. Posso
tirar melhor partido da minha profisso de pescador; posso
empregar-me numa casa comercial; posso eu prprio tornar-me
comerciante!

- No podes tentar nenhuma dessas coisas, Fernand. s soldado
e
se ainda ests nos Catales  porque no h guerra. Continua a
ser pescador; no te entregues a sonhos que te fariam parecer
a
realidade ainda mais terrvel, e contenta-te com a minha
amizade,
pois no te posso dar outra coisa.

- Tens razo, Mercds, serei marinheiro. Terei, em vez do
traje
dos nossos pais, que desprezas, um chapu de oleado, uma blusa
s riscas e uma jaqueta azul com ancoras nos botes. No 
assim
que me devo vestir para te agradar?

- Que queres dizer? - perguntou Mercds, deitando-lhe um
olhar
imperioso. - Que queres dizer? No te compreendo.

- Quero dizer, Mercds, que s s to dura e cruel para mim
porque esperas algum que se veste assim. Mas esse que esperas
talvez seja inconstante, e se o no , mar s-lo- por ele.

- Fernand, julgava-te bom, mas enganava-me! - gritou Mercds.
- Fernand, s um mau corao chamaria em auxlio do seu cime
as
cleras de Deus! Sim, no o escondo mais, espero e amo aquele
que
dizes, e se ele no voltar, em vez de o acusar da inconstncia
a que te referes, direi que morreu amando-me.

O jovem catalo fez um gesto de raiva.

- Compreendo-te, Fernand odeia-lo porque no te amo e ests
disposto a cruzar a tua navalha catal com o seu punhal! Mas
aonde te levar isso? A perderes a minha amizade se sares
vencido e a veres a minha amizade transformar-se em dio se
sares vencedor. Acredita no que te digo: procurar brigar com
um
homem  uma pssima maneira de agradar  mulher que ama esse
homem. No, Fernand, no cedas assim aos teus maus
pensamentos.
Se no me podes ter como mulher, contenta-te com ter-me por
amiga
e irm. E depois - acrescentou com os olhos nublados e cheios
de
lgrimas
--, espera, espera, Fernand. Como disseste h pouco, o mar 
prfido, e j l vo quatro meses que ele partiu; e nesses
quatro
meses contei muitas tempestades!

Fernand permaneceu impassvel. No procurou enxugar as
lgrimas
que rolavam pelas faces de Mercds. E no entanto daria um
copo
do seu sangue por cada uma dessas lgrimas. Mas essas lgrimas
corriam por outro.

Levantou-se, deu uma volta na cabana e tornou a parar diante
de
Mercds, de olhos sombrios e punhos fechados.

- Vejamos, Mercds - disse por fim --, responde-me mais uma
vez:
isso est decidido?

- Amo Edmond Dants - respondeu friamente a jovem - e nenhum
outro a no ser Edmond ser meu marido.

- E am-lo-s sempre?

- Enquanto viver.

Fernand baixou a cabea como um homem desanimado e soltou um
suspiro que mais parecia um gemido. Depois, de repente,
levantou
a cabea e perguntou, com os dentes apertados e as narinas
frementes:

- E se morreu?

- Se morreu, morrerei tambm.

- E se te esqueceu?

- Mercds! - gritou uma voz alegre fora de casa. -
Mercds!

- Ah! - exclamou a jovem, corando de alegria e estremecendo de
amor. - Bem vs que no me esqueceu, pois est aqui!

E correu para a porta, que abriu gritando:

- Aqui, Edmond, estou aqui!

Fernand, plido e fremente, recuou como um viajante  vista de
uma serpente e foi de encontro  cadeira, na qual caiu
sentado.

Edmond e Mercds estavam nos braos um do outro. O sol
ardente
de Marselha, que penetrava atravs da abertura da porta,
inundava-os de uma torrente de luz. De incio no viram nada
do
que os rodeava; uma felicidade imensa isolava-os do mundo e s
dirigiam um ao outro frases entrecortadas, impulsos de uma
alegria to viva que chegavam a parecer expresses de dor. Mas
de sbito Edmond descobriu a silhueta escura de Fernand, que
se
recortava na sombra, plida e ameaadora. Num gesto de que ele
prprio no tinha conscincia, o jovem catalo pousava a mo
na
faca que trazia  cintura.

- Ah, perdo! - exclamou Dants, franzindo por sua vez o
sobrolho. - No tinha notado que ramos trs.

Depois, virando-se para Mercds, perguntou:

- Quem  este senhor?

- Este senhor ser o teu melhor amigo, Dants, porque  meu
amigo, meu primo, meu irmo.  Fernand, isto , o homem que
depois de ti, Edmond, mais amo no mundo. No o reconheces?

- Ah, com certeza! - respondeu Edmond.

E sem largar Mercds, cuja mo apertava numa das suas,
estendeu
num gesto de cordialidade a outra ao catalo.

Mas, em vez de corresponder a esse gesto amistoso, Fernand
ficou
mudo e imvel como uma esttua.

Ento, Edmond passeou o seu olhar investigador de Mercds,
comovida e trmula, para Fernand, sombrio e ameaador.
Esse simples olhar revelou-lhe tudo.

A clera subiu-lhe  cabea.

- No teria vindo com tanta pressa a tua casa, Mercds, se
soubesse que encontrava nela um inimigo.

- Um inimigo! - exclamou Mercds, dirigindo um olhar irado ao
primo. - Um inimigo em minha casa, dizes tu, Edmond? Se
acreditasse nisso, dar-te-ia o brao e iria contigo para
Marselha, deixaria esta casa para nunca mais c voltar.

Os olhos de Fernand relampejaram.

- E se te acontecesse alguma desgraa, meu Edmond - continuou
a
jovem, com a mesma fleuma implacvel que provava a Fernand que
lera at ao  mais fundo do seu sinistro pensamento-, se te
acontecesse alguma desgraa subiria ao cabo de Morgion e
atirar-me-ia de cabea nos rochedos.

Fernand empalideceu horrivelmente.

- Mas ests enganado, Edmond - prosseguiu --, no tens nenhum
inimigo aqui. S c est Fernand, o meu irmo, que te vai
apertar
a mo como a um amigo dedicado.

Proferidas estas palavras, a jovem fixou o seu olhar imperioso
no catalo que, como que fascinado por esse olhar, se
aproximou
lentamente de Edmond e lhe estendeu a mo.

O seu dio, semelhante a uma vaga impotente, embora furiosa,
quebrava-se contra o ascendente que aquela mulher exercia
sobre
ele.

Mas assim que tocou na mo de Edmond, que sentiu que fizera
tudo
o que podia fazer, correu para fora de casa.

- Oh! - gritava correndo como um insensato e metendo os dedos
nos
cabelos. - Oh, quem me livrasse deste homem! Que infelicidade
a
minha! Que infelicidade a minha!

- Eh, catalo! Eh, Fernand! Aonde vais a correr assim?
-perguntou
uma voz.

O rapaz parou de repente, olhou  sua volta e viu Caderousse
sentado a uma mesa com Danglars, debaixo de uma latada de
folhagem.

- Eh! - insistiu Caderousse. - Por que no te aproximas?
Ests assim com tanta pressa que nem tens tempo de
cumprimentar
os amigos?

- Sobretudo quando tm ainda uma garrafa quase cheia diante de
si - acrescentou Danglars.

Fernand olhou os dois homens com ar aparvalhado e no disse
nada.

- Parece muito excitado - observou Danglars, tocando com o
joelho
em Caderousse. - No nos teremos enganado e, ao contrrio do
que
prevamos, ter sido Dants; quem levou a melhor?

- Demnio, temos de tirar isso a limpo! - disse Caderousse.

E virando-se para o rapaz:

- Ento, catalo, decides-te ou no?

Fernand enxugou o suor que lhe escorria da testa e entrou
lentamente debaixo da latada, cuja sombra pareceu
restituir-lhe
um pouco de calma aos sentidos e a frescura um pouco de
bem-estar
ao corpo exausto.

- Bons dias - cumprimentou. - Chamaram-me, no chamaram?

E mais caiu do que se sentou numa das cadeiras que rodeavam a
mesa.

- Chamei-te porque corrias como um louco e porque receei que
te
fosses atirar ao mar - redarguiu Caderousse, rindo. - Que
diabo,
os amigos no so s para oferecer um copo de vinho, so
tambm
para nos impedir de beber trs ou quatro pintas de gua!

Fernand soltou um gemido que mais pareceu um soluo e deixou
cair
a cabea nos braos pousados em cruz em cima da mesa.

- Se queres que te diga, Fernand - prosseguiu Caderousse,
encetando a conversa com a brutalidade grosseira da gente do
povo, a quem a curiosidade faz esquecer toda a diplomacia --,
tens o ar de um amante derrotado!

E sublinhou o gracejo com uma grande gargalhada.

- Ora - interveio Danglars --, um rapaz dessa pinta
no nasceu para ser infeliz no amor. Ests a brincar,
Caderousse.


- Estou? - redarguiu este. - Pois escuta como ele suspira...
Ento, ento, Fernand, levanta o nariz e responde-nos. No 
amvel no responder aos amigos que nos perguntam como estamos
de sade.

- A minha sade vai bem - disse Fernand, crispando os punhos,
mas
sem levantar a cabea.

- Ah! Ests a ver, Danglars? - disse Caderousse, piscando o
olho
ao amigo. - Fernand, que vs aqui e  um bom e digno catalo,
um
dos melhores pescadores de Marselha, est apaixonado por uma
linda rapariga chamada Mercds. Mas, infelizmente, parece que
a linda rapariga est, por sua vez, apaixonada pelo imediato
do
Pharaon. E como o pharaon entrou hoje mesmo no porto...
compreendes?

- No, no compreendo-respondeu Danglars.

- O pobre Fernand deve ter sido posto com dono - concluiu
Caderousse.

- E depois? - interveio Fernand, levantando a cabea e fitando
Caderousse como um homem que procura algum sobre quem
descarregar a sua clera. - Mercds no depende de ningum,
pois
no?  absolutamente livre de amar quem quiser.

- Ah, se encaras o caso assim isso  outra coisa! - redarguiu
Caderousse. - Julgava-te um catalo; e tinham-me dito que os
Catales no eram homens que se deixassem suplantar por um
rival.
Disseram-me at que sobretudo tu, Fernand, eras terrvel nas
tuas
vinganas.

Fernand sorriu palidamente.

- Um apaixonado nunca  terrvel - observou.

- Pobre rapaz! - disse Danglars, fingindo lamentar o jovem do
mais fundo do corao. - Que queres, no esperava ver
regressar
assim Dants, de repente. Talvez o julgasse morto, infiel,
quem
sabe! Essas coisas so tanto mais dolorosas quanto mais de
surpresa nos acontecem.

- Em todo o caso - insinuou Caderousse, que bebia enquanto
falava
e em quem o famoso vinho de La Malgue comeava a produzir
efeito
--, em todo o caso, dou-lhes a minha palavra de que Fernand
no
 o nico a quem a feliz chegada de Dants contraria. No 
verdade, Danglars?

- Claro que  verdade, e quase me atreveria a dizer que isso
lhe
dar azar...

- Mas no importa - prosseguiu Caderousse, deitando um copo de
vinho a Fernand e enchendo pela oitava ou dcima vez o seu
prprio copo, enquanto Danglars mal tocara no seu. - No
importa
porque entretanto ele casa com Mercds, a bela Mercds. Pelo
menos foi para isso que voltou.

Enquanto Caderousse falava, Danglars envolvia num olhar
penetrante o jovem Fernand, no corao do qual as palavras do
alfaiate calam como chumbo derretido.

- Quando  a boda? - perguntou.

- Oh, ainda no est marcada! - murmurou Fernand.

- No est, mas estar - salientou Caderousse --, to certo
como
Dants ser o comandante do pharaon no  verdade, Danglars?

Danglars acusou a estocada inesperada e virou-se para
Caderousse,
cujo rosto observou, para ver se o golpe fora premeditado. Mas
s viu inveja naquela cara j quase estupidificada pela
embriaguez.

- Pois bem - disse, enchendo os copos --, bebamos ao
comandante
Edmond Dants, marido da bela catal!

Caderousse levou o copo  boca com mo pouco firme e
despejou-o
de um golo. Fernand pegou no seu e partiu-o no cho.

-Eh eh, eh!-gargalhou Caderousse.-Mas que veio ali, no cimo da
colina, na direco dos Catales? Olha, Fet-nand, que tens
melhor
vista do que eu. Creio que comeo a ver tudo turvo e como
sabes
o vinho  traioeiro... Parecem dois namorados que caminham ao
lado um do outro, de mos dadas. Deus me perdoe, no
desconfiam
que os vemos e beijam-se!

Danglars no perdia nenhum sinal de angstia de Fernand, cujo
rosto se descompunha a olhos vistos.

- Conhece-os, Sr. Fernand? - Perguntou.

- Conheo - respondeu este, com voz surda. - So o Sr. Edmond
e
Mademoiselle Mercds.

- Ora vejam! - exclamou Caderousse. - E eu que os no
reconhecia.. Ol, Dants! Ol, linda menina! Venham at aqui
um
bocadinho e digam-nos quando  a boda, pois o Sr. Fernand 
to
teimoso que no nos quer dizer.

- Fazes favor de te calar? - interveio Danglars, simulando
conter
Caderousse, que com a tenacidade dos bbedos se inclinava para
fora da latada. - V se te tens de p e deixa os apaixonados
amarem-se tranquilamente. Pe os olhos aqui no Sr. Fernand e
segue-lhe o exemplo;  um homem razovel.

Talvez Fernand, de cabea perdida, aguilhoado por Danglars
como
o touro pelos bandarilheiros, fosse finalmente explodir, tanto
mais que j se levantara e parecia dobrar-se sobre si para
saltar
sobre o rival; mas Mercds, risonha e decidida, levantou a
bela
cabea e deixou ver o seu olhar puro e resplandecente.

Ento Fernand lembrou-se da ameaa que ela fizera, de morrer
se
Edmond morresse, e deixou-se cair, desanimado, no seu lugar.

Danglars olhou sucessivamente para os dois homens: um
embrutecido
pela embriaguez, o outro dominado pelo amor.

- No conseguirei nada destes idiotas - murmurou - e no 
muito
seguro para mim estar aqui entre um bbedo e um poltro. Eis
um
invejoso que se embebeda com vinho, quando deveria inebriar-se
com fel, e um imbecil a quem acabam de roubar a amante diante
do
nariz e que se limita a choramingar e a lamentar-se como um
garoto. E no entanto possui olhos chamejantes como esses
espanhis, esses sicilianos e esses calabreses, que se vingam
to
bem, e punhos capazes de esmagar a cabea de um boi to
seguramente como a maa de um magarefe. Decididamente, o
destino
de Edmond est traado: casar com aquela linda rapariga, ser
comandante e rir-se- de ns. A menos que... - um sorriso
lvido
desenhou-se nos lbios de Danglars - a menos que eu interfira
nele - acrescentou.

- Ol! - continuava a gritar Caderousse, semilevantado e com
os
punhos na mesa. - Ol, Edmond! No vs os amigos ou j te
tornaste to orgulhoso que no lhes falas?

- No, meu caro Caderousse - respondeu Dants. - No me tornei
orgulhoso, mas sinto-me feliz e a felicidade cega, creio,
ainda
mais do que o orgulho.

- Ainda bem! A est uma boa explicao - admitiu Caderousse.
-
Eh, bons dias, Sr.a Dants!

Mercds cumprimentou gravemente.

- Esse no  ainda o meu nome - redarguiu - e na minha terra
isso
d azar, dizem. No se deve chamar as raparigas pelo nome do
noivo antes de o noivo ser seu marido. Trate-me apenas por
Mercds, peo-lhe.

- Temos de perdoar essas coisas ao nosso bom vizinho
Caderousse
- interveio Dants. - Engana-se to pouco!...

- Quer dizer que a boda est para breve, Sr. Dants? -
perguntou
Danglars, cumprimentando os dois jovens.

- Ser o mais depressa possvel, Sr. Danglars. Hoje
realizar-se-o os esponsais em casa do meu pai e amanh ou
depois
de amanh, o mais tardar, o jantar de noivado, aqui, na
Rserve.
Espero que os amigos no faltem e escusado ser dizer que est
convidado, Sr. Danglars. E tu tambm, Caderousse.

- E Fernand? - perguntou Caderousse, rindo com voz pastosa. -
E
Fernand tambm?

- O irmo da minha mulher  meu irmo - declarou Edmond - e
tanto
Mercds como eu o veramos com profundo pesar afastar-se de
ns
em semelhante momento.

Fernand abriu a boca para responder, mas a voz morreu-lhe na
garganta e no conseguiu articular uma nica palavra.

- Hoje os esponsais, amanh ou depois de amanh o noivado...
Demnio, est com muita pressa, comandante!

- Danglars - redarguiu Edmond, sorrindo --, digo-lhe o mesmo
que
Mercds disse h pouco a Caderousse: no me trate pelo posto
que
ainda no me pertence, pois dar-me-ia azar.

- Perdo - respondeu Danglars --, queria dizer simplesmente
que
parecia com muita pressa. E, que diabo, temos tempo: o
pharaon
no se far ao mar antes de trs meses.

- Tem-se sempre pressa de ser feliz, Sr. Danglars, porque
quando
se sofreu durante muito tempo tem-se muita dificuldade em
acreditar na felicidade. Mas no  apenas o egosmo que me
impele
- tambm tenho de ir a Paris.

- A Paris?!  a primeira vez que l vai, Dants?

- .

- Tem l que fazer?

- Nada meu, apenas uma ltima comisso do nosso pobre
comandante
Leclre. Como deve compreender, Danglars, trata-se de um
encargo
sagrado. Mas esteja tranquilo, no me demorarei mais do que o
tempo de ir e vir.

- Sim, sim, compreendo - disse em voz alta Danglars.

E depois, baixinho:

- Vai a Paris para entregar, sem dvida, ao seu destinatrio a
carta que o grande marechal lhe deu. Por Deus, essa carta
d-me
uma ideia, uma excelente ideia! Ah!, Dants, meu amigo, ainda
no
figuras no registo do pharaon sob o nmero 1.

Depois virando-se para Edmond, que j se afastava, gritou-lhe:

- Boa viagem!

- Obrigado - respondeu Edmond, virando a cabea e acompanhando
este movimento com um gesto amistoso.
Em seguida os dois namorados continuaram o seu caminho, calmos
e alegres como dois eleitos que sobem ao Cu.


Captulo IV

A Conspirao


Danglars seguiu Edmond e Mercds com a vista at os dois
namorados desaparecerem numa das esquinas do Forte de S.
Nicolau.
Depois virou-se e olhou para Fernand, que se deixara cair,
plido
e fremente, na sua cadeira, enquanto Caderousse balbuciava a
letra de uma cano bquica.

- Ora a est, meu caro senhor - disse Danglars a Fernand um
casamento que me no parece fazer a felicidade de toda a
gente...

- A mim desespera-me - confessou Fernand.

- Quer dizer que ama Mercds?

- Adoro-a!

- H muito tempo?

- Sempre a amei, desde que nos conhecemos.

- E est para a a arrepelar os cabelos em vez de procurar
remdio para o caso! Que diabo, no julgava que as pessoas da
sua
nao procedessem assim!

- Que quer que faa? - perguntou Fernand.

- Sei l! Porventura o caso me diz respeito? No sou eu,
parece-me que estou apaixonado por Mademoiselle Mercds, mas
sim
o senhor. Procurai, diz o Evangelho, e encontrareis.

- J encontrei.

- O qu?

- Desejaria apunhalar o "homem", mas a mulher disse-me que se
acontecesse alguma coisa ao noivo se mataria.

- Ora, ora! Essas coisas dizem-se, mas no se fazem!

- No conhece Mercds, senhor: desde o momento que ameaou,
cumpriria a sua ameaa.

- Imbecil! - murmurou Danglars. - Quero l saber que se mate
ou
no, contanto que Dants no seja comandante.

- E antes de Mercds morrer - prosseguiu Fernand em tom de
firme
deciso --, morreria eu.

- O que  o amor! - exclamou Caderousse em voz cada vez mais
avinhada. - Se isso no  amor, j no sei quem sou!

- Vejamos - disse Danglars --, o senhor parece-me um rapaz
simptico e diabos me levem se no gostaria de o ajudar;
mas...

- Sim - disse Caderousse --, vejamos...

- Meu caro - prosseguiu Danglars --, ests trs quartos
bbedo;
acaba a garrafa e fic-lo-s por completo. Bebe e no te metas
no que fazemos, porque para o fazer  preciso ter a cabea bem
no seu lugar.

- Eu bbedo? - protestou Caderousse. - Ora essa! Fica sabendo
que
era capaz de beber mais quatro das tuas garrafas, que no so
maiores do que frascos de gua-de-colnia! Tio Pamphile,
vinho.

E juntando o gesto  palavra, Caderousse bateu com o copo na
mesa.

- Dizia ento, senhor?... - disse Fernand, esperando com
avidez
o seguimento da frase interrompida.

- Que dizia eu? J me no lembro. Este bbedo do Caderousse
fez-me perder o fio dos meus pensamentos.

- Sou to bbedo como tu. Tanto pior para aqueles que tm medo
do vinho.  porque tm algum mau pensamento que receiam que o
vinho lhes descubra.

E Caderousse ps-se a cantar os dois ltimos versos de uma
cano
popular na poca:

Todos os maus bebem gua,
Como bem o provou o dilvio.

- Dizia, senhor - insistiu Fernand --, que gostaria de me
ajudar.
Mas acrescentou...

- Sim, mas acrescentei... para o ajudar  preciso que Dants
no
case com aquela que o senhor ama, e parece-me que o casamento
pode muito bem no se realizar sem que Dants morra.

- S a morte os separar - disse Fernand.

-Meu amigo, voc raciocina como se no tivesse nada na cabea
-
atalhou Caderousse --, e aqui o Danglars, que  um finrio, um
manhoso, um espertalho, vai-lhe provar que est enganado.
Prova,
Danglars. Respondo por ti. Diz-lhe que no  necessrio que
Dants morra; alis, seria uma pena que Dants morresse.  bom
rapaz e gosto dele.  sade de Dants!

Fernand levantou-se com impacincia.

- Deixe-o - interveio Danglars, retendo o rapaz. - De resto
por
mais bbedo que esteja no faz grande diferena. A ausncia
separa to bem como a morte... Suponha que existia entre
Edmond
e Mercds os muros de uma priso; estariam to separados como
se houvesse entre eles a pedra de um tmulo.

- Pois sim, mas sai-se da priso - observou Caderousse, que se
agarrava  conversa com os restos da sua inteligncia. E
quando
aquele que sai da priso se chama Edmond Dants, vinga-se.

- Que importa! - murmurou Fernand.

- De resto - prosseguiu Caderousse --, sob que acusao se
meteria Dants na priso? No roubou, nem matou, nem
assassinou.

- Cala-te - ordenou Danglars.

- No me quero calar - redarguiu Caderousse. - Quero que me
digam
sob que acusao meteriam Dants na priso. Gosto de Dants.

tua sade, Dants!

E despejou novo copo de vinho.

Danglars verificou pelos olhos inexpressivos do alfaiate os
progressos da embriaguez e prosseguiu, virando-se para
Fernand:

- Ento, j viu que no h necessidade de o matar?

- De facto no h se, como o senhor dizia h pouco, houver
maneira de conseguir que Dants seja preso. O senhor sabe qual
 essa maneira?

- Procurando bem, ser possvel encontr-la - respondeu
Danglars.
- Mas - continuou - por que diabo me hei-de meter nisso?
Porventura  alguma coisa comigo?

- No sei se  alguma coisa consigo ou no - replicou Fernand,
agarrando-o por um brao --, mas o que sei  que o senhor tem
qualquer motivo especial de dio contra Dants. Quem odeia no
se engana a respeito dos sentimentos dos outros.

- Eu motivos de dio contra Dants? Palavra que no tenho
nenhum.
Vi-o infeliz, meu amigo, e a sua infelicidade interessou-me,
mais
nada. Mas unia vez que julga que procedo em meu prprio
benefcio, passe muito bem, meu caro amigo, desenrasque-se
como
puder.

E Danglars simulou levantar-se por sua vez.

- No se v embora, espere! - pediu Fernand, retendo-o. - No
fim
de contas, pouco me importa que queira ou no queira mal a
Dants; quero-lhe eu, confesso-o bem alto. Descubra a maneira
e
eu executo-a, contando que no haja morte de homem, pois
Mercds
jurou que se mataria se algum matasse Dants.

Caderousse, que deixara cair a cabea em cima da mesa,
levantou-a
e, olhando Fernand e Danglars com os olhos mortios e
embrutecidos, observou:

- Matar Dants? Quem fala aqui em matar Dants? No consinto
que
o matem. E meu amigo, ainda esta manh se ofereceu para
compartilhar o seu dinheiro comigo, como compartilhei o meu
com
ele. No consinto que matem Dants!

- E quem fala em mat-lo, imbecil? - redarguiu Danglars. -
Trata-se apenas de uma brincadeira. Bebe  sua sade -
acrescentou, enchendo o copo de Caderousse - e deixa-nos
tranquilos.

- Sim, sim,  sade de Dants! - exclamou Caderousse,
despejando
o copo. -  sua sade!...  sua sade!...

- Mas o meio... o meio? - insistiu Fernand.

- Ainda o no encontrou?

- No, o senhor  que se encarregou disso.

-  verdade - concordou Danglars. - Os Franceses tm esta
vantagem sobre os Espanhis: enquanto os Espanhis ruminam, os
Franceses inventam.

- Ento invente - redarguiu Fernand, com impacincia.

- Criado, uma pena, tinta e papel! - pediu Danglars.

- Uma pena, tinta e papel... - murmurou Fernand.

- Sim, sou guarda-livros: a pena, a tinta e o papel so as
minhas
ferramentas, e sem as minhas ferramentas no sei fazer nada.

- Uma pena, tinta e papel! - gritou por sua vez Fernand.

- Tm o que desejam em cima daquela mesa - disse o criado,
indicando os objectos pedidos.

- Ento d-no-los.

O criado pegou no papel, na tinta e na pena e colocou-os em
cima
da mesa da latada.

- Quando penso - comentou Caderousse, deixando cair a mo em
cima
do papel - que h aqui com que matar um homem mais seguramente
do que  se o esperassem no recanto de um bosque para o
assassinar!... Sempre tive mais medo de uma pena, dum tinteiro
e de uma folha de papel do que de uma espada ou de uma
pistola.

- O velhaco no est ainda to bbedo como parece - observou
Danglars. - D-lhe de beber, Fernand.

Fernand voltou a encher o copo de Caderousse e este, como bom
bebedor que era, levantou a mo de cima do papel e levou-a ao
copo.

O catalo seguiu-lhe o gesto at Caderousse, quase vencido por
aquele novo ataque, pousar, ou antes deixar cair, o copo em
cima
da mesa.

- Ento? - perguntou o catalo, vendo que o resto da razo de
Caderousse comeava a desaparecer depois do ltimo copo de
vinho.

- Ento, dizia eu - prosseguiu Danglars - que se, por exemplo,
depois de uma viagem como a que acaba de lazer Dants, e
durante
a qual escalou Npoles e a ilha de Elba, algum o denunciasse
ao
procurador rgio como agente bonapartista...

- Denuncio-o eu! - disse vivamente o rapaz.

- Pois sim, mas nesse caso obrigam-no a assinar a denncia e
acareiam-no com o denunciado. E claro que lhe fornecerei o
necessrio para sustentar a sua acusao, o problema no 
esse,
mas Dants no ficar eternamente na priso, mais dia menos
dia
sair, e no dia em que sair... pobre daquele que o l fez
entrar!

- Oh, no peo outra coisa seno que me procure para lutarmos!
- declarou Fernand.

- Claro! E Mercds? Mercds que o odiar se voc tiver a
infelicidade de arranhar sequer a pele do seu bem-amado
Edmond?

- Tem razo - admitiu Fernand.

- No, no - prosseguiu Danglars. - Se est decidido a fazer
semelhante coisa o melhor  pegar tranquilamente, como eu
fao,
nesta pena, molh-la na tinta e escrever com a mo esquerda,
para
que a letra no seja conhecida, uma denunciazinha assim
concebida...

E Danglars, juntando o exemplo  palavra, escreveu com a mo
esquerda, com letra inclinada para trs que no tinha qualquer
analogia com a sua caligrafia habitual, as seguintes linhas,
que
passou a Fernand e que Fernand leu a meia voz:

O Sr. Procurador Rgio  avisado por um amigo do trono e da
religio de que um tal Edmond Dants, imediato do navio
Pharaon, chegado esta manh de Esmirna depois de escalar
Npoles e Porto Ferraio, foi encarregado por Murat de entregar
uma carta ao usurpador e pelo usurpador de entregar outra
carta
ao comit bonapartista de Paris.

Ter-se- a prova do seu crime prendendo-o, pois encontrar-se-
essa carta com ele ou em casa do pai, ou no seu camarote a
bordo
do Pharaon.

- Assim, sim - prosseguiu Danglars. - Assim a sua vingana
teria
sentido, porque de modo algum recairia sobre si e o caso
seguiria
o seu curso  sozinho. Bastaria dobrar esta carta, como eu
fao,
e escrever por fora: "Ao Sr. Procurador Rgio." Estaria tudo
resolvido.

E Danglars escreveu o endereo, gracejando.

- Sim, estaria tudo resolvido! - gritou Caderousse, que num
derradeiro esforo de inteligncia seguira a leitura e
compreendera instintivamente a desgraa que semelhante
denncia
poderia ocasionar. Sim estaria tudo resolvido; simplesmente,
seria uma infmia!

E estendeu o brao para pegar na carta.

- Por isso - disse Danglars, colocando-a fora do alcance da
mo
de Caderousse --, por isso, o que digo e o que fao no passa
de
uma brincadeira, e seria o primeiro a lamentar se acontecesse
alguma coisa a esse bom Dants! Assim, olha...

Pegou na carta, amarrotou-a nas mos e atirou-a para um canto
da
latada.

- Agora estamos de acordo - disse Caderousse. - Dants  meu
amigo e no quero que lhe faam mal.

- E quem diaho pensa fazer-lhe mal? Nem eu nem Fernand! -
redarguiu Danglars, levantando-se e olhando para o rapaz, que
ficara sentado, mas cujos olhos devoravam de soslaio o papel
denunciador cado a um canto.

- Nesse caso - acrescentou Caderousse --, que nos dem vinho.
Quero beber  sade de Edmond e da bela Mercds.

- J bebeste de mais, bbedo - volveu-lhe Danglars --, e se
continuas a beber assim ters de dormir aqui, pois no te
aguentars nas pernas.

- Quem, eu? - replicou Caderousse, levantando-se com a
fatuidade
dos bbedos. - Eu no me aguentar nas pernas! Aposto que sou
capaz de subir ao campanrio de Accoules e sem cambalear!

- Est bem, aposto, mas amanh? - acedeu Danglars. - Hoje so
horas de voltar para casa; d-me o brao e vamos.

- Vamos - concordou Caderousse --, mas no preciso do teu
brao
para nada. - Vens, Fernand? Vens connosco at Marselha?

- No, regresso aos Catales - respondeu Fernand.

- Fazes mal. Vem connosco at Marselha, anda.

- No tenho nada que fazer em Marselha e nem me apetece l ir.

- Como tu dizes isso! No te apetece, hem! Pobre rapaz?
Pronto, faz o que quiseres! Liberdade para toda a gente!
Anda, Danglars, e deixemos o cavalheiro regressar aos
Catales,
visto no lhe apetecer...

Danglars aproveitou aquele momento de boa vontade de
Caderousse
para se arrastar na direco de Marselha.
Simplesmente, para proporcionar a Fernand um caminho mais
curto
e mais fcil, em vez de voltar pelo Cais da Rive-Neuve,
regressou pela Porta de Saint-Victor. Caderousse segui-o,
cambaleando, agarrado ao seu brao.

Depois de dar uma vintena de passos, Danglars virou-se e viu
Fernand precipitar-se para o papel, que meteu na algibeira.
Em seguida, correu imediatamente para fora da latada e
dirigiu-se
para o lado do Pillon.

- Aonde  que ele vai? - perguntou Caderousse. - Mentiu-nos,
disse que ia para os Catales e vai para a cidade! Eli,
Fernand,
vais enganado, meu rapaz!

- Tu  que no vs bem - observou Danglars. - Vai direitinho
pelo
caminho das Vieilles-infirmeries.

-  verdade - admitiu Caderousse. - Pois olha que juraria que
o
vi virar  direita. Decididamente, o vinho  um traidor.

- Vamos, vamos - murmurou Danglars. - Agora creio que as
coisas
esto bem encaminhadas e que basta deix-las seguir sozinhas.



Captulo V

O banquete de noivado


No dia seguinte o tempo estava bom. O Sol levantou-se puro e
brilhante e os seus primeiros raios, de um vermelho-prpura,
recamaram de rubis as extremidades espumantes das vagas.

O banquete fora preparado no primeiro andar daquela mesma
Rserve
cuja latada j conhecemos. Era uma grande sala iluminada por
cinco ou seis janelas, por cima de cada uma das quais
(explique
o fenmeno quem puder!) se encontrava escrito o nome de uma
das
grandes cidades de Frana.

Uma balaustrada de madeira, como o resto da construo, seguia
ao longo das janelas.

Embora o banquete estivesse marcado para o meio-dia, desde as
onze horas da manh que a balaustrada regurgitava de
passeantes
impacientes. Eram marinheiros privilegiados do pharaon e
alguns soldados amigos de Dants. Para honrar os noivos, todos
tinham envergado os seus mais belos fatos.

Entre os futuros convivas circulava o rumor de que os
armadores
do Pharoan honrariam com a sua presena o banquete de
noivado
do seu imediato; mas tratava-se da sua parte de to grande
honra
concedida a Dants que ningum ousava ainda acreditar nisso.

No entanto, quando chegou com Caderousse, Danglars confirmou a
notcia. Estivera de manh com o prprio Sr. Morrel e o Sr.
Morrel dissera-lhe que viria almoar  Rserve.

Com efeito, pouco depois deles o Sr. Morrel entrou por sua vez
na sala e foi saudado pelos marinheiros do Pharaon com um
"hurra!" unanime de aplauso. A presena do armador era para
eles
a confirmao do rumor que corria j de que Dants seria
nomeado
comandante. E como Dants era muito estimado a bordo, aquela
boa
gente agradecia assim ao armador de que uma vez por acaso a
sua
escolha estivesse de acordo com os desejos deles. Assim que o
Sr.
Morrel entrou, Danglars e Caderousse foram unanimemente
encarregados de prevenir o noivo. Era essa a sua misso:
preveni-lo da chegada da importante personagem cujo
aparecimento
produziria to viva sensao e dizer-lhe que se despachasse.

Danglars e Caderousse saram a correr, mas ainda mal tinham
dado
cem passos quando, por alturas do armazm da plvora,
depararam
com um grupinho que se aproximava.

O grupinho era constitudo por quatro jovens amigas de
Mercds
e catals como ela, e acompanhava a noiva, a quem Edmond dava
o
brao, junto da noiva vinha o Tio Dants e atrs Fernand com o
seu sorriso maligno.

Mas nem Mercds; nem Edmond reparavam no sorriso maligno de
Fernand. As pobres crianas estavam to felizes que s se viam
um ao outro e o cu belo e puro que os abenoava.

Danglars e Caderousse desempenharam-se da sua misso de
embaixadores. Em seguida, depois de trocarem um aperto de mo
muito enrgico e amistoso com Edmond, retiraram-se, Danglars
para
tomar lugar ao p de Fernand e Caderousse para se colocar ao
lado
do Tio Dants, centro da ateno geral.

O velhote envergava uma bela casaca de tafet canelado,
adornada
com grandes botes de ao facetados. As pernas, magras mas
nervosas, ostentavam magnficas meias de algodo mosqueado,
que
cheiravam  lgua a contrabando ingls. Do chapu de trs
bicos
pendia-lhe um lao de fitas brancas e azuis.

Finalmente, apoiava-se numa bengala torcida e retorcida em
cima
com o pedum antigo. Dir-se-ia um desses janotas que se
pavoneavam em 1796 nos jardins pouco antes reabertos do
Luxemburgo e das Tulherias.

Como j dissemos, Caderousse esgueirara-se para junto dele.
Caderousse a quem a esperana de uma boa refeio acabara de
reconciliar com os Dants; Caderousse a quem restava na
memria
uma vaga lembrana do que se passara na vspera, tal como ao
acordarmos de manh e encontramos no esprito da sombra do
sonho
que tivemos durante o sono.

Aproximando-se de Fernand, Danglars deitara ao amante
desdenhado
um olhar profundo. Fernand que caminhava atrs do futuro casal
completamente esquecido por Mercds, que no egosmo juvenil e
encantador do amor s tinha olhos para o seu Edmond; Fernand
que
estava plido, mas que de vez em quando corava em acessos
sbitos, que desapareciam e davam lugar a uma palidez
crescente.
A intervalos olhava para os lados de Marselha e ento
apoderava-se-lhe dos membros uma tremura nervosa e
involuntria.
Fernand parecia esperar ou pelo menos prever qualquer grande
acontecimento.

Dants vestia com simplicidade. Como pertencia  marinha
mercante, o seu traje era meio militar, meio civil e dava-lhe
um
aspecto, para mais realado pela alegria e pela beleza da
noiva,
deveras atraente.

Mercds estava linda, parecia uma dessas gregas de Chipre ou
de
Keos, de olhos de bano e lbios de coral. Caminhava com esse
passo livre e franco com que caminham as Arlesianas e as
Andaluzas. Uma rapariga citadina talvez procurasse esconder a
sua
alegria debaixo de um vu ou pelo menos do veludo das
plpebras,
mas Mercds sorria e olhava todos os que a rodeavam e o seu
sorriso e o seu olhar diziam to francamente quanto o poderiam
dizer estas palavras: "Se so meus amigos, regozijem-se
comigo,
porque na verdade sou feliz!"

Assim que os noivos e aqueles que os acompanhavam chegaram 
vista da Rserve, o Sr. Morrel desceu e foi por sua vez ao
encontro deles, seguido dos marinheiros e dos soldados com que
ficara e aos quais renovara a promessa j feita a Dants de
que
este sucederia ao comandante Leclre. Ao v-lo chegar, Edmond
largou o brao da noiva e passou-o para o do Sr. Morrel. O
armador e a jovem deram ento o exemplo e subiram  frente a
escada de madeira que levava  sala onde o banquete estava
servido e que rangeu durante cinco minutos sob os passos
pesados
dos convivas.

- Meu pai - disse Mercds, parando a meio da mesa e
dirigindo-se
ao velho Dants --, fique  minha direita, peo-lhe. Quanto 
minha esquerda reservo-a para aquele que me serviu de irmo -
declarou com uma doura que penetrou profundamente no corao
de
Fernand como um punhalada.

Os seus lbios empalideceram e sob o tom bistrado do seu rosto
desagradvel foi possvel ver mais uma vez o sangue
desaparecer
pouco a pouco para afluir ao corao.

Entretanto, Dants executara a mesma manobra:  sua direita
colocara o Sr. Morrel:  sua esquerda, Danglars. Depois, com a
mo, fizera sinal a todos para se sentarem onde quisessem.

Pouco depois corriam  volta da mesa os saisiches de Arles,
de
carne bem curada e aroma acentuado: as lagostas de carapaa
fascinante; as palurdas de concha rosada; os ourios-do-mar,
que
parecem castanhas no seu invlucro espinhoso; as amijoas, que
tm a pretenso de substituir com vantagem, na opinio dos
gastrnomos do Meio-Dia, as ostras do Norte; enfim, todos
esses
acepipes delicados que as vagas lanam nas margens arenosas e
que
os pescadores reconhecidos designam pelo nome genrico de
mariscos.

- Que estranho silncio! - observou o velhote, saboreando um
copo
de vinho dourado como o topzio que o Tio Pamphile em pessoa
acabava de colocar diante de Mercds. - Dir-se-ia que no
esto
aqui trinta pessoas que s desejam rir...

- Eh, um marido nem sempre est alegre! - exclamou Caderousse.

- A verdade - confessou Dants -  que me sinto neste momento
demasiado feliz para estar alegre. Se  isto que quer dizer,
vizinho, tem razo. A alegria causa s vezes um efeito
estranho,
oprime como a dor.

Danglars observou Fernand, cuja natureza impressionvel
absorvia
e reflectia todas as emoes.

- Ento, ainda receia alguma coisa? - perguntou a Dants. -
Parece-me, pelo contrrio, que tudo corre de acordo com os
seus
desejos!

-  precisamente isso que me assusta - respondeu Dants. -
Parece-me que o homem no nasceu para ser to facilmente
feliz!
A felicidade  como esses palcios das ilhas encantadas que
tm
as portas guardadas por drages.  necessrio lutar para a
conquistar e eu, para ser franco, no sei por que mereci a
felicidade de ser marido de Mercds.

- O marido, o marido... - interveio Caderousse, rindo - ainda
no, meu comandante. Experimenta fazer de marido e vers como
sers recebido!

Mercds corou.

Fernand agitava-se na cadeira, estremecia ao mais pequeno
rudo
e de vez em quando limpava as grossas bagas de suor que lhe
perlavam a testa como as primeiras gotas de uma chuvada
tempestuosa.

- Palavra, vizinho Caderousse - redarguiu Dants --, que no
vale
a pena desmentir-me por to pouco. Mercds ainda no  minha
mulher,  certo... - puxou do relgio - mas s-lo- dentro de
hora e meia!

Todos soltaram um grito de surpresa, com excepo do Tio
Dants,
que exibiu os dentes, ainda bonitos, numa grande gargalhada.
Mercds sorriu e no corou. Fernand apertou convulsivamente o
cabo da sua faca.

- Dentro de uma hora? - sobressaltou-se Danglars,
empalidecendo
por seu turno. - Como assim?

- Sim, meus amigos - respondeu Dants. - Graas ao crdito do
Sr.
Morrel, o homem, depois do meu pai, a quem mais devo no mundo,
todas as dificuldades esto aplanadas. Comprmos os banhos e o
maire de Marselha espera-nos s duas e meia na Cmara
Municipal. Ora como acaba de dar uma hora e um quarto, no
creio
enganar-me muito dizendo que dentro de uma hora e trinta
minutos
Mercds se chamar Sr.a Dants.

Fernand fechou os olhos. Uma nuvem de fogo queimou-lhe as
plpebras. Encostou-se  mesa para no desfalecer e, apesar de
todos os seus esforos, no pde conter um gemido abafado que
se
perdeu no meio do rudo dos risos e dos parabns dos convivas.

- Isto  que  desembarao, hem? - comentou o Tio Dants. - 
o
que se chama no perder tempo, no acham? Chegado ontem de
manh,
casado hoje s trs horas! No me venham c dizer que os
marinheiros no so despachados!

- Mas as outras formalidades? - objectou timidamente Danglars.
- O contrato, as escrituras?...

- O contrato? - redarguiu Dants, rindo. - O contrato est
pronto. Mercds no tem nada e eu tambm no!
Casamo-nos em regime de comunho e pronto! Foi coisa que no
levou muito tempo a escrever nem custar muito cara.

Esta sada suscitou uma nova exploso de alegria e de bravos.

- Portanto, o que tommos por um banquete de noivado  muito
simplesmente um banquete de casamento - observou Danglars.

- No - contraps Dants. - No perdero nada com isto,
estejam
tranquilos. Amanh de manh parto para Paris. Quatro dias para
ir, quatro dias para voltar, um dia para me desempenhar
conscienciosamente da misso de que estou encarregado e em 1
de
Maro estarei de volta; em 2 de Maro, portanto, o verdadeiro
banquete de casamento.

A perspectiva de novo festim redobrou a hilaridade ao ponto de
o Tio Dants, que no incio do banquete se queixava do
silncio
reinante, fazer agora, no meio da conversao geral, vos
esforos para formular o seu voto de prosperidade a favor dos
futuros esposos.

Dants adivinhou o pensamento do pai e correspondeu-lhe com um
sorriso cheio de amor. Mercds comeou a ver as horas no
relgio
de cuco da sala e fez um sinalzinho a Edmond.

Havia  roda da mesa a hilaridade ruidosa e a liberdade
individual que acompanham, entre as pessoas de condio
inferior,
o fim dos repastos. Aqueles que no gostavam do seu lugar
tinham-se levantado da mesa e procurado outros vizinhos. Toda
a
gente comeava a falar ao mesmo tempo e ningum se dava ao
trabalho de responder ao que o seu interlocutor lhe dizia, mas
apenas aos seus prprios pensamentos.

A palidez de Fernand quase passara para as faces de Danglars.
Quanto ao prprio Fernand, j no vivia e parecia um condenado
s penas eternas no meio de um mar de fogo. Fora um dos
primeiros
a levantar-se e passeava de um lado para o outro da sala
procurando isolar o ouvido do barulho das canes e do choque
dos
copos.

Caderousse aproximou-se dele no momento em que Danglars, que
parecia fugir, acabava de se lhe juntar a um canto da
sala.

- Na verdade - disse Caderousse, a quem a modstia de Dants e
sobretudo o bom vinho do Tio Pamphile tinham levado todos os
restos de rancor que a felicidade inesperada de Dants lhe
fizera
germinar na ama --, na verdade, Dants  um excelente rapaz. E
quando o vejo sentado ao p da noiva digo para comigo que no
estaria certo pregar-lhe a partida que vocs tramavam ontem.

- Por isso, bem viste que a coisa no teve seguimento -
redarguiu
Danglars. - O pobre Sr. Fernand estava to transtornado que de
princpio me fez pena; mas uma vez que tomou a sua deciso, a
ponto de apadrinhar o seu rival, no tenho mais nada a dizer.

Caderousse olhou para Fernand, que estava lvido.

- O sacrifcio  tanto maior - continuou Danglars - quanto
mais
bonita , na realidade, a noiva. Apre, sempre me saiu um
felizardo o espertalho do meu futuro comandante! Gostaria de
me
chamar Dants apenas durante doze horas.

- Vamos? - perguntou a voz meiga de Mercds. - So duas horas
e esperam-nos dentro de um quarto de hora.

- Sim, sim, vamos! - disse Dants, levantando-se vivamente.

- Vamos! - repetiram em coro todos os convivas.

No mesmo instante, Danglars, que no perdia de vista Fernand,
sentado no bordo da janela, viu-o abrir muito os olhos,
levantar-se como que convulsivamente e voltar a cair sentado
no
parapeito da janela. Quase imediatamente soou na escada um
rudo
abafado: o eco de passos pesados e um rumor de vozes confuso,
misturados com o tenir de armas, sobrepuseram-se s
exclamaes
dos convivas, apesar de ruidosas, e atraram a ateno de
todos,
que se remeteram a um silncio inquieto.

O barulho aproximou-se. Soaram trs pancadas na porta. Cada um
olhou para o vizinho com ar atnito.

- Em nome da lei! - gritou uma voz vibrante  qual nenhuma
outra
respondeu.

A porta abriu-se imediatamente e um comissrio, com a sua
faixa
 cintura, entrou na sala seguido de quatro soldados armados,
comandados por um cabo.

A inquietao cedeu o lugar ao terror.

- Que se passa? - perguntou o armador indo ao encontro do
comissrio, que conhecia. - Trata-se com certeza de algum
equvoco, senhor.

- Se houver equvoco, Sr. Morrel - respondeu o comissrio
creia
que ser prontamente reparado. Entretanto, sou portador de um
mandado de captura. E embora seja com pesar que me desempenho
da
minha misso, nem por isso tenho menos de a desempenhar. Qual
dos
senhores  Edmond Dants?

Todos os olhares se viraram para o jovem que, muito
impressionado, mas sem perder a dignidade, deu um passo em
frente
e disse:

- Sou eu, senhor, que me quereis?

- Edmond Dants - prosseguiu o comissrio --, em nome da lei,
est preso!

- Prende-me? - redarguiu Edmond, com uma ligeira palidez. -
Mas
prende-me porqu?

- Ignoro, senhor, mas sab-lo- no seu primeiro
interrogatrio.


O Sr. Morrel compreendeu que no havia nada a fazer contra a
inflexibilidade da situao. Um comissrio com a sua faixa 
cintura j no  um homem,  a esttua da lei, fria, surda e
muda.

O velho, pelo contrrio, precipitou-se para o oficial; h
coisas
que o corao de um pai ou de uma me nunca compreendem.
Pediu e suplicou, mas as suas lgrimas e as suas splicas no
podiam nada. Contudo, o seu desespero era to grande que o
comissrio se comoveu.

- Senhor - disse-lhe --, sossegue. Talvez o seu filho se tenha
esquecido de cumprir alguma formalidade aduaneira ou sanitria
e muito provavelmente, depois de prestar todas as informaes
que
pretendam dele, ser posto em liberdade.

- Ol!... Que significa isto? - perguntou, franzindo o
sobrolho,
Caderousse a Danglars, que simulava surpresa.

- Sei l! - respondeu Danglars. - Estou como tu: vejo o que se
passa, no compreendo nada e fico confuso.

Caderousse procurou com a vista Fernand: desaparecera.

Toda a cena da vspera se lhe apresentou ento no esprito com
terrvel lucidez.

Dir-se-ia que a catstrofe acabava de afastar o vu que a
embriaguez da vspera colocara entre ele e a sua memria.

- Oh, oh!... - exclamou com voz rouca. - Ser isto o resultado
da brincadeira de que falavam ontem, Danglars? Nesse caso, ai
de
quem a ps em prtica, porque  muito triste.

- No digas isso! - protestou Danglars. Sabes perfeitamente
que
rasguei a carta.

- No a raspaste - corrigiu Caderousse. Limitaste-te a
atir-la
para um canto.

- Cala-te, tu no viste nada, estavas bbedo.

- Onde est Fernand? - perguntou Caderousse.

- Sei l! - respondeu Danglars. - Provavelmente foi  sua
vida.
Mas em vez de perdermos tempo com isso vamos ajudar esses
pobres
infelizes.

Com efeito, durante esta conversa, Dants apertara, sorrindo,
a
mo a todos os seus amigos e constitura-se prisioneiro
dizendo:

- Fiquem tranquilos, o erro explicar-se- e provavelmente nem
sequer entrarei na cadeia.

- Com certeza, estou convencido disso! - disse Danglars, que
na
altura se aproximava, como dissemos, do grupo principal.

Dants desceu a escada, precedido pelo comissrio de polcia e
rodeado pelos soldados. Uma carruagem com a portinhola aberta
esperava  porta. Subiu para ela, dois soldados e o comissrio
subiram depois dele, a portinhola fechou-se e a carruagem
tomou
o caminho de Marselha.

- Adeus, Dants! Adeus, Edmond! - gritou Mercds
debruando-se
da balaustrada.

O prisioneiro ouviu este ltimo grito, sado como um soluo do
corao dilacerado da noiva. Deitou a cabea fora da
portinhola
e gritou, antes de desaparecer numa das esquinas do Forte de
S.
Nicolau:

- At  vista, Mercds!

- Esperem aqui por mim - disse o armador. - Meter-me-ei na
primeira carruagem que encontrar, correrei a Marselha e
voltarei
com notcias.

- V! - gritaram todas as vozes. - V e volte depressa!
Depois das duas sadas houve um momento de terrvel torpor
entre
todos os que ficaram.

O velho e Mercds permaneceram durante algum tempo absortos,
cada um na sua prpria dor. Mas por fim os seus olhos
reencontraram se, ambos se reconheceram como duas vtimas
atingidas pelo mesmo golpe e lanaram-se nos braos um do
outro.

Entretanto, Fernand regressou, encheu um copo de gua, bebeu-o
e foi sentar-se numa cadeira.

O acaso fez com que, ao sair dos braos do velhote, Mercds
se
deixasse cair numa cadeira vizinha.

Num momento instintivo, Fernand recuou a dele.

- Foi ele - disse a Danglars o alfaiate Caderousse, que no
perdera de vista o catalo.

- No creio - respondeu Danglars. - Seria demasiado estpido.
Em
todo o caso, que o golpe recaia sobre quem o desferiu.

- Esqueces-te daquele que o aconselhou - redarguiu Caderousse.

- Diabos te levem, como se um homem fosse responsvel por tudo
o que diz no ar!

- E , quando o que diz no ar fere algum.

Entretanto, os grupos comentavam a priso em todos os tons.

- E voc, Danglars, que pensa disto? - perguntou uma voz.

- Por mim - respondeu Danglars - creio que ter trazido alguns
fardos de mercadorias proibidas.

- Mas se fosse isso voc dev-lo-ia saber, Danglars, visto ser
o guarda-livros.

- Sim,  verdade, mas o guarda-livros s conhece as
mercadorias
que lhe declaram. Sei que carregamos algodo e mais nada; que
o
carregamento foi embarcado em Alexandria pelo Sr. Pastret e em
Esmirna pelo Sr. Pascal; no me perguntem mais nada.

- Oh, agora me lembro! - murmurou o pobre pai, agarrando-se a
esse destroo. - Agora me lembro ter-me dito ontem que trazia
para mim uma caixa de caf e uma caixa de tabaco.

- V? - disse Danglars. - Deve ser isso. Na nossa ausncia a
alfndega ter feito uma visita a bordo do Pharaon e
descoberto a marosca.

Mas Mercds no acreditava em nada daquilo. Refreada at ali,
a sua dor desfez-se de sbito em soluos.

- Ento, ento,  preciso ter esperana! - disse sem saber
muito
bem o que dizia o Tio Dants.

- Sim, esperana - repetiu Danglars.

- Esperana - tentou murmurar Fernand.

Mas a palavra sufocava-o. Agitou os lbios e no conseguiu que
nenhum som lhe sasse da boca.

- Senhores! - gritou um dos convivas que ficara de atalaia na
balaustrada. - Senhores, uma carruagem! Ah,  o Sr. Morrel!
Coragem, coragem! Traz-nos com certeza boas notcias.

Mercds e o velho pai correram ao encontro do armador, que
encontraram  porta. O Sr. Morrel estava muito plido.


- Ento? - perguntaram ao mesmo tempo.

- Ento, meus amigos - respondeu o armador abanando a cabea
--
o caso  mais grave do que ns pensvamos.

- Mas, senhor, ele est inocente! - gritou Mercds.

- Acredito - respondeu o Sr. Morrel. - Mas acusam-no...

- De qu? - perguntou o velho Dants.

- De ser agente bonapartista.

Aqueles dos meus leitores que viveram na poca em que se passa
esta histria recordar-se-o que terrvel acusao era ento
aquela que o Sr. Morrel acabava de formular.

Mercds soltou um grito; o velho deixou-se cair numa cadeira.

- Ah! - murmurou Caderousse. - Vocs enganaram-me, Danglars, e
pregaram a partida a Dants. Mas no quero ver morrer de dor
esse
velho e essa rapariga e vou dizer-lhes tudo.

- Cala-te, desgraado - ordenou-lhe Danglars, agarrando a mo
de
Caderousse --, ou no respondo por mim. Quem te diz que Dants
no  realmente culpado? O navio escalou a ilha de Elba e ele
desembarcou e ficou um dia inteiro em Porto Ferraio. Se lhe
encontrassem alguma carta comprometedora, aqueles que o
tivessem
defendido passariam por seus cmplices.

Com o instinto apurado do egosmo, Caderousse compreendeu a
perfeita solidez deste raciocnio. Fitou Danglars com olhos
embrutecidos pelo medo e pela dor e por um passo que dera em
frente deu dois atrs.

- Esperemos ento - murmurou.

- Sim, esperemos - disse Danglars. - Se estiver inocente,
p-lo-o em liberdade; se for culpado,  intil
comprometermo-nos
por um conspirador.

- Ento saiamos porque no posso ficar mais tempo aqui.

- Sim, vamos - concordou Danglars, encantado por encontrar um
companheiro de retirada. - Vamos e eles que se arranjem como
puderem.

Saram. Fernand, que reassumira o seu papel de amparo da
jovem,
pegou na mo de Mercds; e reconduziu-a aos Catales. Os
amigos
de Dants, pela sua parte, acompanharam s Alamedas de Meilhan
o velho quase desfalecido.

Em breve se espalhou por toda a cidade o boato de que Dants
fora
preso como agente bonapartista.

- Acredita em semelhante coisa, meu caro Danglars? - perguntou
o Sr. Morrel, juntando-se ao seu guarda-livros e a Caderousse,
pois ele prprio regressava apressadamente  cidade a fim de
procurar saber alguma notcia directa de Edmond atravs do
substituto do procurador rgio, Sr. de Villefort, que conhecia
superficialmente. - Acredita em semelhante coisa?

- Ora essa, senhor! - respondeu Danglars. - J lhe tinha dito
que
Dants, sem nenhum motivo, aportara  ilha de Elba e que essa
escala me parecera suspeita.

- Mas deu conta das suas suspeitas a mais algum alm de mim?

- Nem por sombras, senhor - respondeu Danglars, baixinho. - O
senhor bem sabe que por causa do seu tio, Sr. Policar Morrel,
que
serviu o outro e que no oculta as suas ideias, h quem
desconfie
que lamenta a sorte  de Napoleo. Recearia prejudicar Edmond
e depois o senhor. H coisas que um subordinado tem o dever de
dizer ao seu armador e esconder rigorosamente dos outros.

- Muito bem, Danglars, muito bem! - aprovou o armador. - Voc

um excelente rapaz. Por isso, pensei antecipadamente em si, no
caso do pobre Dants vir a ser comandante do Pharaon.

- Como assim, senhor?

- Sim, perguntei previamente a Dants o que pensava a seu
respeito e se teria alguma repugnncia em conserv-lo no seu
lugar. Porque, no sei porqu, julguei ter notado certa frieza
entre vocs.

- E que lhe respondeu ele?

- Que efectivamente julgava ter tido, numa circunstncia que
me
no revelou, algumas razes de queixa a seu respeito, mas que
qualquer pessoa que tivesse a confiana do armador teria a
dele.

- Hipcrita! - murmurou Danglars.

- Pobre Dants! - suspirou Caderousse. - No h dvida que era
um excelente rapaz.

- Pois sim, mas entretanto o Pharaon est sem comandante -
observou o Sr. Morrel.

- Oh - disse Danglars --,  preciso esperar, pois s podemos
partir daqui a trs ms e entretanto Dants ser posto em
liberdade!

- Decerto. Mas at l?

- Bom, at l estou s suas ordens, Sr. Morrel - respondeu
Danglars. - Sabe perfeitamente que sou capaz de dirigir um
navio
to bem como qualquer comandante de longo curso de fresca
data.
Alm disso, utilizando os meus prstimos ter a vantagem de
no
estar em favor com ningum quando Edmond sair da priso: ele
ocupar o seu lugar e eu o meu e pronto.

- Obrigado, Danglars - disse o armador. - De facto, isso
concilia
tudo. Tome, pois, o comando com minha autorizao e vigie o
desembarque. No  foroso que sempre que acontece alguma
catstrofe aos indivduos os negcios sofram.

- Esteja descansado, senhor. Mas poderemos ao menos ver o
pobre
Edmond?

- Responder-lhe-ei daqui a pouco, Danglars. Vou procurar falar
com o Sr. de Villefort e interceder junto dele a favor do
prisioneiro. Bem sei que  um monrquico arrebatado, mas que
diabo, por mais monrquico e procurador rgio que seja tambm

um homem e no o creio mau.

- Pois no - admitiu Danglars --, mas ouvi dizer que era
ambicioso e isso assemelha-se muito.

- Enfim, veremos - disse o Sr. Morrel, suspirando. - V para
bordo que J l vou ter.

E deixemos os dois amigos para tomar o caminho do Palcio da
Justia.

- Ests a ver o aspecto que o caso adquiriu? - disse Danglars
a
Caderousse. - Ainda queres agora defender Dants?



Captulo VI


O substituto do Procurador Rgio



Na Rua do Grand-Cours, defronte da Fonte das Medusas, numa
dessas velhas casas de arquitectura aristocrtica edificadas
por
Puget, celebrava-se tambm no mesmo dia e  mesma hora um
banquete de noivado.

Simplesmente, em vez de os actores destoutra cena serem gente
do
povo, marinheiros e soldados, pertenciam  alta sociedade
marselhosa. Eram antigos magistrados que se tinham demitido
dos
seus cargos durante a usurpao, velhos oficiais que tinham
desertado das fileiras para se alistarem nas do exrcito de
Cond
e jovens educados pela famlia ainda mal tranquilizada acerca
da
sua existncia, apesar dos quatro ou cinco substitutos que
pagara, no dio a esse homem de que cinco anos de exlio
fariam
um mrtir e quinze anos de restaurao um deus.

Estava-se  mesa e a conversa seguia o seu curso, animada por
todas as paixes, as paixes da poca, paixes tanto mais
terrveis, vivas e encarniadas no Meio-Dia quanto  certo
que
havia quinhentos anos os dios religiosos alimentavam os dios
polticos.

O imperador, rei da ilha de Elba depois de ter sido soberano
de
parte do mundo, reinando sobre uma populao de cinco a seis
mil
almas depois de ter ouvido gritar "Viva Napoleo!" por cento e
vinte milhes de sbditos e em dez lnguas diferentes, era
tratado ali como um homem perdido para sempre para a Frana e
para o trono. Os magistrados salientavam os erros polticos,
os
militares falavam de Moscovo e Leipzig e as mulheres do seu
divrcio de Josefina. Parecia quela sociedade monrquica
alegre
e triunfante, no pela queda do homem, mas sim pelo
aniquilamento
do prncipe, que a vida recomeava para ela e que saa de um
sonho desagradvel.

Um velho, condecorado com a cruz de S. Lus, levantou-se e
props
aos convivas um brinde  sade do rei Lus XVIII. Era o
marqus
de Saint-Mran.

Por via desse brinde, que recordava ao mesmo tempo o exilado
de
Hartwell e o rei pacificador da Frana, estabeleceu-se grande
rumor, os copos ergueram-se  moda inglesa e as mulheres
desmancharam os seus ramalhetes e juncaram com eles a toalha.
Foi
um entusiasmo quase potico.

- Eles teriam de admitir, se estivessem aqui - disse a
marquesa
de Saint-Mran, mulher de olhar severo, lbios finos e
aspecto
aristocrtico e ainda elegante, apesar dos seus cinquenta anos
--, teriam de admitir, todos esses revolucionrios que nos
expulsaram e que por nossa vez deixamos conspirar
tranquilamente
nos nossos velhos castelos que compraram por uma cdea no
tempo
do Terror, que a verdadeira dedicao esteve no nosso lado,
pois
ns ligmos o nosso destino ao da monarquia que se
desmoronava,
ao passo que eles, pelo contrrio, saudaram o sol nascente e
fizeram a sua fortuna enquanto ns perdamos a nossa. E tambm
teriam de admitir que para nos o nosso rei era unicamente
Lus,
o Bem-amado, enquanto para eles o seu usurpador nunca passou
de
Napoleo, o maldito. No  verdade, Villefort?

- Que diz, Sr.a Marquesa?... Perdoai-me, mas no estava a
seguir
a conversa.

- Ento, deixe essas crianas, marquesa - interveio o velho
que
fizera o brinde. - Essas crianas vo-se casar e muito
naturalmente tm mais de que falar do que de poltica.

- Peo-lhe perdo, minha me - disse uma linda rapariga de
cabelo
louro e olhos de veludo nadando num fluido nacarado. -
Restituo-lhe o Sr. de Villefort, que monopolizei por um
instante.
Sr. de Villefort, a minha me est a falar consigo.

- Estou pronto a responder-lhe, minha senhora, se se dignar
repetir a sua pergunta, que mal ouvi - disse o Sr. de
Villefort.

- Ests perdoada, Rene - declarou a marquesa, com um sorriso
terno que se no esperaria ver florir naquele rosto severo.
Mas
o corao da mulher  assim: por mais rido que o bafo dos
preconceitos e as exigncias da etiqueta o tornem, possui
sempre
um recanto frtil e ridente, aquele que Deus consagrou ao amor
materno. - Esto perdoados... Pois eu dizia, Villefort, que os
bonapartistas no tinham nem a nossa convico, nem o nosso
entusiasmo, nem a nossa dedicao.

- Mas, minha senhora, tm pelo menos uma coisa que substitui
tudo
isso: o fanatismo. Napoleo  o Maomet do Ocidente; , para
todos
esses homens vulgares, mas de ambies supremas, no s um
legislador e um mestre, mas tambm um modelo, o modelo da
igualdade.

- Da igualdade! - exclamou a marquesa. - Napoleo o modelo da
igualdade! E que reserva ento para o Sr. de Robospierre?
Parece-me que lhe rouba o lugar para o dar ao corso; de
qualquer
modo, parece-me que se trata pelo menos de uma usurpao.

- No, minha senhora - respondeu Villefort. - Deixo cada um no
seu pedestal: Robospierre coloca Lus XVI no seu cadafalso;
Napoleo coloca Vedme na sua coluna, simplesmente, um
praticou
a igualdade que rebaixa e o outro a igualdade que eleva. Um
rebaixou os reis ao nvel da guilhotina, o outro o povo ao
nvel
do trono... Mas isso no significa - acrescentou Villefort,
rindo
- que ambos no sejam infames revolucionrios e que o 9 do
Termidor e o 4 de Abril de 1814 no constituam dois dias
felizes
para a Frana e dignos de ser igualmente festejados pelos
amigos
da ordem e da monarquia. E explica tambm por que motivo,
apesar
de ter cado para nunca mais se levantar, assim espero,
Napoleo
conservou os seus fanticos. Que quer, marquesa? Cromwell, que
no era mais de metade de tudo o que foi Napoleo, tambm
tinha
os seus!

- Sabe que tudo isso que acaba de dizer, Villefort, cheira a
revoluo  lgua? Mas perdoo-lhe: no se pode ser filho de
girondino sem se conservar alguns dos seus gostos.

A fronte de Villefort cobriu-se de vivo rubor.

- Meu pai era girondino, minha senhora,  verdade -redarguiu
--,
mas foi proscrito por esse mesmo Terror que vos proscrevia, e
pouco faltou para no lhe colocarem a cabea no mesmo
cadafalso
que viu cair a do pai da Sr.a Marquesa.

-  verdade - admitiu a marquesa, sem que to sangrenta
recordao provocasse a menor alterao no seu rosto. - Em
todo
o caso, seria por motivos diametralmente opostos que ambos
subiriam ao cadafalso, e a prova  que toda a minha famlia
permaneceu fiel aos prncipes exilados, enquanto o
seu pai se apressou a aderir ao novo governo e depois de o
cidado Noirtier ser girondino o conde Noirtier tornou-se
senador.

- Minha me - interveio Rene --, bem sabe que se combinou no
voltar a falar dessas ms recordaes.

- Minha senhora - prosseguiu Villefort --, junto-me a
Mademoiselle de Saint-Mran para lhe pedir muito humildemente
o esquecimento do passado. Que adianta estarmos com
recriminaes
a respeito de coisas em que a prpria vontade de Deus 
importante? Deus pode modificar o futuro, mas no pode
modificar
o passado. Ns, homens, o que podemos , seno reneg-lo, pelo
menos deitar-lhe um vu por cima. Pela minha parte afastei-me
no
s da opinio, mas tambm do nome do meu pai. Meu pai foi ou
at
talvez ainda seja bonapartista e chama-se Noirtier; eu sou
monrquico e chamo-me Villefort. Deixe morrer no velho tronco
um
resto de seiva revolucionria e veja apenas, minha senhora, o
rebento que se afasta desse tronco, sem poder, e quase direi
sem
querer, separar-se dele por completo.

- Bravo, Villefort! - exclamou o marqus. - Bravo, bem
respondido! Tambm eu tenho pregado constantemente  marquesa
o
esquecimento do passado sem nunca o conseguir. Espero que seja
mais feliz do que eu.

- Sim, est bem - condescendeu a marquesa --, esqueamos o
passado. No desejo outra coisa e foi, de facto, o que se
combinou. Mas que pelo menos Villefort seja inflexvel no
futuro.
No se esquea, Villefort, de que respondemos por si perante
Sua
Majestade; de que tambm Sua Majestade se dignou esquecer, a
nosso pedido, e estender-lhe a mo, tal como eu esqueo a seu
pedido. Simplesmente, se lhe cair algum conspirador nas mos,
lembre-se de que tem tantos mais olhos postos em si quanto se
sabe pertencer a uma famlia que talvez esteja relacionada com
esses conspiradores.

- Infelizmente, minha senhora - respondeu Villefort --, a
minha
profisso e sobretudo o tempo em que vivemos ordenam-me que
seja
severo. S-lo-ei. Tenho j algumas acusaes polticas a
sustentar a esse respeito tenho dado as minhas provas.
Desgraadamente estamos longe do fim.

- Acha? - perguntou a marquesa.

- Muito o receio. Napoleo, na ilha de Elba, est pertssimo
da
Frana. A sua presena quase  vista das nossas costas
alimenta
a esperana dos seus partidrios. Marselha est cheia de
oficiais
a meio soldo que todos os dias, sob qualquer pretexto ftil,
procuram questes com os monrquicos. Da duelos entre pessoas
de classes elevadas, dai assassnios entre o povo.

- Pois sim - disse o conde de Salvieux, velho amigo do Sr. de
Saint-Mran e camareiro do Sr. Conde de Artois --, pois sim,
mas
como sabem a Santa Aliana pensa transferi-lo.

- Sim, falava-se disso aquando da nossa partida de Paris -
declarou o Sr. de Saint-Mran. - Mas para onde?

- Para Santa Helena.

- Santa Helena? Que  isso? - perguntou a marquesa.

- Uma ilha situada a duas mil lguas daqui, para l do equador
- respondeu o conde.

- Ainda bem. Como disse Villefort, foi uma grande imprudncia
deixar semelhante homem entre a Crsega, onde nasceu, e
Npoles,
onde ainda reina o cunhado, e diante da Itlia, de que queria
fazer um reino para o filho.

- Infelizmente - observou Villefort --, temos os tratados de
1814
e no  possvel tocar em Napoleo sem desrespeitar esses
tratados.

- Pois vamos desrespeit-los! - replicou o Sr. de Salvieux. -
Acaso ele esteve com tantas contemplaes quando se tratou de
fuzilar o infeliz duque de Enghien?

- Pronto, est combinado - interveio a marquesa. - A Santa
Aliana desembaraa a Europa de Napoleo e Villefort
desembaraa
Marselha dos seus partidrios. O rei reina ou no reina; se
reina, o seu governo deve ser forte e os seus agentes
inflexveis.  o nico meio de prevenir o mal.

- Infelizmente, minha senhora - observou, sorrindo, Villefort
--,
um substituto do procurador rgio chega sempre quando o mal j
est feito.

- Nesse caso, compete-lhe repar-lo.

- Poderia dizer-lhe tambm, minha senhora, que no reparamos o
mul, vingalllo-lo apenas.

- Oh, Sr. de Villefort - exclamou uma jovem e bonita conviva,
filha do conde de Salvieux e amiga de Mademoiselle de
Saint-Mran, veja se consegue arranjar um bom julgamento
enquanto estivermos em Marselha! Nunca entrei num tribunal e
dizem que  muito curioso.

-  de facto muito curioso, mademoiselle - concordou o
substituto. -  Porque em vez de uma tragdia fictcia, se
trata
de um drama autntico; cm vez de dores fingidas, trata-se de
dores reais. O homem que se l v, em lugar de, uma vez o pano
descido, regressar a casa, jantar em famlia e deitar-se
tranquilamente para recomear no dia seguinte, regressa 
priso
onde se encontra o carrasco. Como sabe, para as pessoas
nervosas,
que procuram emoes, no existe espectculo que se lhe
compare.
Fique descansada, mademoiselle, se as circunstncias o
permitirem, proporcionar-lho-ei.

- O senhor brinca, mas esse espectculo causa calafrios! -
exclamou Rene, empalidecendo.

- Que quer... trata-se de um duelo... J pedi cinco ou seis
vezes
a pena de morte para rus polticos ou outros... Pois bem,
quem
sabe quantos punhais se preparam a esta hora na sombra ou
esto
j apontados contra mim?

- Oh, meu Deus! - exclamou de novo Rene, empalidecendo cada
vez
mais. - Fala a srio, Sr. de Villefort?

- O mais seriamente possvel, mademoiselle - respondeu o jovem
magistrado, de sorriso nos lbios. - E com os bons julgamentos
que Mademoiselle de Salvieux deseja para satisfazer a sua
curiosidade e que eu desejo para satisfazer a minha ambio, a
situao s se agravar. Julga que todos esses soldados de
Napoleo, habituados a enfrentar cegamente o inimigo,
reflectem
quando queimam um cartucho ou quando atacam  baioneta?
Porventura reflectiro mais para matar um homem que julgam seu
inimigo pessoal do que para matar um russo, um austraco ou um
hngaro que nunca viram? Alis, assim  preciso, pois de
contrrio a nossa profisso no se justificaria. Eu prprio,
quando vejo brilhar nos olhos do ru o relmpago da raiva,
sinto-me animadssimo, exalto-me. J se no trata de um
julgamento, trata-se de um combate; luto contra ele, ele
riposta,
insisto, e o combate termina, como todos os combates, por uma
vitria ou uma derrota. Aqui tem o que  pleitear!  o perigo
que
d a eloquncia. Um acusado que me sorrisse depois da minha
rplica levar-me-ia a supor que falara mal, que o que dissera
fora frouxo, sem  vigor, insuficiente. Pense, pois, na
sensao
de orgulho que experimenta um procurador rgio convencido da
culpabilidade do ru quando v empalidecer e inclinar-se o seu
culpado sob o peso das provas e os raios da sua eloquncia...
Essa cabea que se baixa cair.

Rene soltou um gritinho.

- Assim  que  falar - disse um dos convivas.

- Eis o homem que  preciso em tempos como os nossos! -
observou
um segundo.

- Por isso - disse um terceiro --, no seu ltimo julgamento
foi
soberbo, meu caro Villefort. Lembra-se, retiro-lhe aquele
homem
que assassinara o pai... Pois o caso  que voc o matou
literalmente antes de o carrasco lhe tocar.

- Oh, quando se trata de parricidas pouco me importo! -
exclamou
Rene. - No h suplcio suficientemente grande para
semelhantes
homens. Mas para os pobres acusados polticos!...

- Isso  ainda pior, Rene, porque o rei  o pai da nao e
querer derrubar ou matar o rei  querer matar o pai de trinta
e
dois milhes de homens.

- Oh,  a mesma coisa, Sr. de Villefort! - redarguiu Rene. -
Promete-me ser indulgente com aqueles que lhe recomendar?

- Fique descansada - respondeu Villefort com o seu sorriso
mais
encantador --, faremos juntos os meus requisitrios.

- Minha querida - interveio a marquesa --, cuide dos seus
colibris, dos seus ces e dos seus trapos e deixe o seu futuro
marido cumprir o seu dever. Hoje as armas descansam e  a vez
da
toga. A este respeito existe uma frase latina de grande
profundidade...

- Cedant arma togoe - disse Villefort, inclinando-se.

- No me atrevo a falar latim - declarou a marquesa.

- Creio que preferiria que fosse mdico - prosseguiu Rene. -
O
anjo exterminador, por mais anjo que seja, sempre me meteu
muito
medo.

- Querida Rene! - murmurou Villefort, envolvendo a jovem num
olhar apaixonado.

- Minha filha - disse o marqus --, o Sr. de Villefort, ser o
mdico moral e poltico desta provncia. Acredita que  um
papel
digno de ser representado.

- E ser uma maneira de fazer esquecer o que desempenhou o pai
- acrescentou a incorrigvel marquesa.

- Minha senhora - redarguiu Villefort com um sorriso triste
--,
j tive a honra de lhe dizer que o meu pai abjurara, pelo
menos
assim o espero, os erros do seu passado; que se tornara um
amigo
zeloso da religio e da ordem, melhor monrquico do que eu,
talvez, pois ele -o com arrependimento e eu sou-o apenas com
paixo.

E depois desta frase torneada, Villefort, para apreciar o
efeito
da sua facndia, olhou os convivas como depois de uma frase
equivalente olharia o auditrio no tribunal.

- Bom, meu caro Villefort - interveio o conde de Salvieux foi
precisamente isso que respondi anteontem nas Tulherias ao
ministro da Casa Real, que me levantava algumas objeces
acerca
da singular aliana entre a filha de um girondino e a filha de
um oficial do exrcito de Cond. E o ministro compreendeu
perfeitamente. Alis, tal unio  do agrado de Lus XVIII,
pois o rei, que sem que suspeitssemos escutava a nossa
conversa,
interrompeu-nos dizendo: "Villefort" - notem que o rei no
pronunciou o nome de Noirtier e pelo contrrio sublinhou o de
Villefort --, "Villefort", disse o rei, "far uma boa
carreira.
Trata-se de um rapaz j amadurecido e da minha confiana. Vi
com
prazer o marqus e a marquesa de Saint-Mran tomarem-no como
genro e ter-lhes-ia aconselhado essa aliana se no tivessem
sido
os primeiros a pedir-me licena para a contrair."

- o rei disse isso, conde? - exclamou Villefort, extasiado.

- Foram as suas prprias palavras, e se o marqus quiser ser
franco confessar que o que acabo de dizer se harmoniza
perfeitamente com o que o rei lhe disse a ele prprio quando
lhe
falou, h seis meses, de um projecto de casamento entre a
filha
e voc.

-  verdade - confirmou o marqus.

- Oh, deverei tudo a esse digno prncipe! Por isso, que no
farei
para o servir!

- Ora at que enfim! - disse a marquesa. -  assim que gosto
de
o ver. Se neste momento aparecesse um conspirador, seria
bem-vindo.

- Pois eu, minha me - atalhou Rene --, peo a Deus que a no
escute e envie ao Sr. de Villefort apenas uns ladrezecos,
modestos falidos e tmidos vigaristas. Se assim acontecer,
dormirei tranquila.

-  como se desejasse ao mdico enxaquecas, sarampos e picadas
de vespas, tudo coisas que afectam apenas a epiderme -
observou
Villefort, rindo - Ora se, pelo contrrio, me quiser ver
procurador rgio deseje-me dessas doenas terrveis cuja cura
honra o mdico.

Neste momento, e como se o acaso nada mais tivesse esperado do
que a formulao do desejo de Villefort para o satisfazer,
entrou
um criado que lhe disse algumas palavras ao ouvido. Villefort
pediu licena para deixar a mesa e voltou pouco depois de
rosto
aberto e lbios sorridentes.

Rene olhou-o com amor. Porque visto assim, com os seus olhos
azuis, a sua tez mate e as suas suas pretas, que lhe
emolduravam o rosto, era realmente um elegante e bonito jovem.
Por isso, todo o esprito da jovem pareceu ficar suspenso dos
seus lbios enquanto esperava que ele explicasse a causa do
seu
desaparecimento momentneo.

- Bom - disse Villefort --, h pouco ambicionava,
mademoiselle,
ter por marido um mdico. Ora eu tenho com os discpulos de
Esculpio (ainda se falava assim em 1815) pelo menos esta
semelhana: nunca me pertence o momento que passa, vm
incomodar-me mesmo junto de si, mesmo no meu banquete de
noivado.

- E por que motivo o incomodaram, senhor? - perguntou a linda
jovem, com uma ligeira inquietao.

- Oh, por causa de um doente que, a crer no que me disseram,
se
deve encontrar em estado desesperado! Desta vez trata-se de um
caso grave e a doena anda perto do cadafalso!

- Oh, meu Deus! - exclamou Rene, empalidecendo.

- Sim?! - disseram em unssono os convivas.

- Parece que se acaba de descobrir, muito simplesmente, uma
conspiraozinha bonapartista...

- Ser possvel? - perguntou a marquesa.

- Aqui est a carta denunciadora.

E Villefort leu:

O Sr. Procurador Rgio  avisado por um amigo do trono e da
religio de que um tal Edmond Dants, imediato do navio
Pharaon, chegado esta manh de Esmirna depois de escalar
Npoles e Porto Ferraio foi encarregado por Murat de
entregar
unta carta ao usurpador e pelo usurpador de entregar outra
carta
ao comit bonapartista de Paris.

Ter-se- a prova do seu crime prendendo-o pois
encontrar-se- essa carta com ele ou em casa do pai ou no seu
camarote a bordo do Pharaon.

- Mas - disse Rene - essa carta, que alis no passa de uma
carta annima,  dirigida ao Sr. Procurador Rgio e no a si.

- Sim, mas o procurador rgio est ausente. Na sua ausncia a
epstola foi entregue ao seu secretrio, a quem compete abrir
as
cartas. Abriu portanto esta, mandou-me procurar e, como se no
encontrasse, ordenou a priso.

- Assim, o culpado est preso? - perguntou a marquesa.

- Quer dizer, o acusado - corrigiu Rene.

- Est, sim, minha senhora - respondeu Villefort --, e como
tive
a honra de dizer h pouco a Mademoiselle Rene, se se
encontrar
a carta em questo o doente est muito doente.

- E onde se encontra esse infeliz? - perguntou Rene.

- Em minha casa.

- V, meu amigo - disse o marqus --, no falte aos seus
deveres
por nossa causa, quando o servio do rei o espera noutro lado.
V pois onde o espera o servio do rei.

- Oh, Sr. de Villefort, seja indulgente, lembre-se de que  o
dia
do seu noivado! - exclamou Rene, juntando as mos.

Villefort contornou a mesa e, aproximando-se da cadeira da
jovem,
no espaldar da qual se apoiou, respondeu:

- Para lhe poupar uma preocupao, farei tudo o que puder,
querida Rene. Mas se os indcios forem seguros e a acusao
verdadeira, ter de se cortar essa erva daninha bonapartista.

Rene estremeceu ao ouvir a palavra "cortar", porque a erva
que
se tratava de cortar era uma cabea.

- Ora, ora!-interveio a marquesa.-No d ouvidos a essa
menina:
ela tem de se ir habituando.

E a marquesa estendeu a Villefort a mo seca, que ele beijou
sem
desfitar Rene e dizendo-lhe com os olhos: " a sua mo que
beijo, ou pelo menos que desejaria beijar neste momento."

- Tristes auspcios! - murmurou Rene.

- Na verdade, menina - disse a marquesa --,  de uma
infantilidade desesperante. Muito gostaria de saber que tem o
destino do Estado a ver com as fantasias sentimentais e as
suas
pieguices de corao.

- Oh, minha me! - murmurou Rene.

- Piedade para a m monrquica, Sr.a Marquesa - pediu
Villefort.
- Prometo-lhe desempenhar-me conscienciosamente da minha
misso
de substituto do procurador rgio, isto , ser horrivelmente
severo.

Mas ao mesmo tempo que o magistrado dirigia estas palavras 
marquesa o noivo olhava de soslaio para a noiva e o seu olhar
dizia; "Esteja tranquila, Rene, em ateno ao seu amor serei
indulgente."

Rene correspondeu a esse olhar com o seu mais terno sorriso e
Villefort saiu com o paraso no corao.


Captulo VII

O interrogatrio

Assim que Villefort se viu fora da sala de jantar tirou a
mscara
de felicidade e tomou o ar grave de um homem chamado  Suprema
funo de se pronunciar sobre a vida do seu semelhante. Ora,
apesar da mobilidade da sua fisionomia - mobilidade que o
substituto, como deve fazer um bom actor, por mais de uma vez
estudara diante do espelho --, desta vez teve dificuldade em
franzir o sobrolho e carregar o semblante. Com efeito,
exceptuando a recordao da linha poltica seguida pelo pai e
que
podia, se dela no se afastasse completamente, prejudicar-lhe
o
futuro, Clrard de Villefort era naquele momento to feliz
quanto
um homem poderia ambicionar. J rico por si mesmo, ocupava aos
vinte e sete anos um lugar elevado na magistratura e ia casar
com
uma linda rapariga que amava no apaixonadamente, mas sim com
a
razo, como um substituto do procurador rgio pode amar, e
alm
da sua beleza, que era notvel, Mademoiselle de Saint-Mran,
sua
noiva, pertencia a uma das famlias mais cotadas da poca. Por
outro lado, sem contar com a influncia do pai e da me, que
como
no tinham outro filho podiam reservar toda inteira ao genro,
a
jovem levaria ainda ao marido um dote de cinquenta mil escudos
que graas s "esperanas", essa palavra atroz inventada pelos
casamenteiros, poderia ser completado um dia com uma herana
de
meio milho.

Todos estes elementos reunidos constituam portanto para
Villefort um total de felicidade deslumbrante, a ponto de lhe
parecer ver manchas no Sol quando olhara demoradamente a sua
vida
interior com os olhos da alma.

Encontrou  porta o comissrio de polcia que o esperava. A
presena do funcionrio policial f-lo cair imediatamente das
alturas do terceiro cu na terra material em que nos movemos.
Comps a expresso como dissemos e declarou aproximando-se do
oficial de justia:

- Aqui estou, senhor. Li a carta e fez bem em prender esse
homem.
Agora d-me acerca dele e da conspirao todos os pormenores
que
obteve.

- Acerca da conspirao, senhor, ainda no sabemos nada; todos
os papis que encontrmos ao preso foram fechados num nico
mao
e entregues, selados, no gabinete de V. Ex.a Quanto ao
arguido,
V. Ex a deve ter visto pela prpria carta que o denunciado 
um
tal Edmond Dants, imediato
do trs mastros pharaon que se dedica ao comrcio de
algodo
com Alexandria e Esmirna e pertence  casa Morrel  Filhos, de
Marselha.

- Antes de servir na marinha mercante serviu na marinha de
guerra?

- Oh, no, senhor?  ainda muito novo.

- De que idade?

- Dezanove ou vinte anos, no mximo.

Neste momento, e como Villefort, seguindo a Grand-Rue,
tivesse
chegado  esquina da Rua dos Conseils, um homem que parecia
esperar a sua passagem abordou-o. Era o Sr. Morrel.

- Ah, Sr. de Villefort! - exclamou o excelente homem ao ver o
substituo. - Ainda bem que o encontro! Imagine que acaba de se
cometer o equvoco mais estranho, mais inaudito: prenderam o
imediato do meu navio, Edmond Dants.

- Bem sei - respondeu Villefort - e vou interrog-lo.


- Oh, senhor - continuou Morrel, levado pela sua amizade para
com
o jovem --, no conhece o acusado como eu conheo! Imagine o
homem mais afvel, o mais probo, e quase me atrevo a dizer o
homem que melhor sabe do seu oficio de toda a marinha
mercante...
Oh, Sr. de Villefort, recomendo-lhe muito sinceramente e de
todo
o meu corao!

Como pudemos ver, Villetort pertencia  classe nobre da cidade
e Morrel  classe plebeia. O primeiro era um monrquico ultra
e
o segundo suspeito de secreto bonapartismo. Villefort olhou
desdenhosamente para Morrel e respondeu-lhe com frieza:

- Como sabe, senhor, pode-se ser afvel na vida privada, probo
nas relaes comerciais e sabedor da sua profisso e nem por
isso
ser menos um grande culpado, politicamente talando. Sabe-o,
no
 verdade, senhor?

E o magistrado sublinhou as ltimas palavras, como se quisesse
aplic-las ao prprio armador, enquanto o seu olhar
perscrutador
parecia querer penetrar at ao fundo do corao daquele homem
que
ousava interceder por outro quando devia saber que ele prprio
necessitava de indulgncia.

Morrel corou, pois no se sentia com a conscincia muito
tranquila a respeito das suas opinies polticas. Alm disso,
a
confidncia que lhe fizera Dants acerca da sua conversa com o
grande marechal e das poucas palavras que lhe dirigira o
imperador ainda lhe perturbava um pouco o esprito. No
entanto,
acrescentou, em tom do mais profundo interesse:

- Suplico-lhe, Sr. de Villefort, seja justo como deve ser, bom
como sempre foi e "restitua-nos" depressa o pobre Dants!

O "restitua-nos" soou revolucionariamente ao ouvido do
substituto
do procurador rgio.

- Eh, eh, restitua-nos!... - disse baixinho. - Esse Dants
ser
filiado nalguma seita de carbonrios para que o seu protector
empregue assim sem pensar a frmula colectiva?
Prenderam-no numa taberna, disse-me, segundo creio, o
comissrio.
Em numerosa companhia, acrescentou. Deve ser alguma loja.

Depois, em voz alta, respondeu:

- Senhor, pode estar absolutamente tranquilo que no ter
recorrido inutilmente  minha justia se o acusado estiver
inocente. Mas se, pelo contrrio, for culpado... Vivemos numa
poca difcil, senhor, em que a  impunidade seria um exemplo
fatal. Nesse caso, serei obrigado a cumprir o meu dever.

E em seguida, como tivesse chegado  porta de sua casa,
contgua
ao Palcio da Justia, entrou majestosamente, depois de
cumprimentar com uma polidez gelada o pobre armador, que ficou
como que petrificado no lugar onde o deixara Villefort.

A antecmara estava cheia de gendarmes e agentes de polcia.
No
meio deles, guardado  vista e envolto em olhares chamejantes
de
dio, via-se de p, calmo e imvel, o prisioneiro.

Villefort atravessou a antecmara, deitou um olhar oblquo a
Dants e, depois de receber um mao de papis que lhe entregou
um agente, desapareceu dizendo:

-- Tragam o prisioneiro.

Por mais rpido que tivesse sido esse olhar, bastara a
Villefort
para fazer uma ideia do homem que ia interrogar. Reconhecera a
inteligncia naquela testa ampla e franca, a coragem naquele
olhar fixo e naquele sobrolho franzido e a sinceridade
naqueles
lbios carnudos e entreabertos que deixavam ver uma dupla
fileira
de dentes brancos como o marfim.

A primeira impresso fora favorvel a Dants; mas Villefort
ouvira dizer tantas vezes, como uma frase de profundo sentido
poltico que se devia desconfiar do primeiro impulso, visto
ser
o mais prudente, que aplicou a mxima  impresso sem ter em
conta a diferena que havia entre as duas palavras.

Sufocou portanto os bons instintos que lhe queriam invadir o
corao para dai lhe tomarem de assalto o esprito, comps
diante
do espelho a sua cara dos grandes dias e sentou-se, sombrio e
ameaador,  secretria.

Um instante depois dele entrou Dants.

O jovem continuava plido, mas calmo e sorridente.
Cumprimentou
o seu juiz com natural delicadeza e em seguida procurou com os
olhos uma cadeira, como se estivesse na sala do armador
Morrel.

S ento encontrou o olhar inexpressivo de Villefort, esse
olhar
caracterstico dos magistrados, que no querem que lhes leiam
o
pensamento e que por isso transformam os olhos num vidro
despolido. Aquele olhar revelou-lhe que se encontrava diante
da
justia, figura de maneiras sombrias.

- Quem  e como se chama? - perguntou Villefort, folheando os
apontamentos que o agente lhe entregara ao entrar e que no
espao
de uma hora se tinham tornado volumosos, de tal modo a
corrupo
da espionagem se apodera depressa do corpo dos infelizes
chamados
arguidos.

- Chamo-me Edmond Dants, senhor - respondeu o jovem, em voz
calma e sonora --, e sou imediato a bordo do navio Pharaon
pertencente  firma Morrel  Filhos.

- A sua idade? - continuou Villefort.

- Dezanove anos - respondeu Dants.

- Que fazia quando foi preso?

- Assistia ao banquete do meu prprio noivado, senhor -
respondeu
Dants em voz ligeiramente comovida, de tal forma era doloroso
o contraste entre esses momentos de alegria e aquela cerimnia
lgubre, de tal forma o  rosto sombrio do Sr. de Villefort
fazia brilhar em todo o seu esplendor a cara radiante de
Mercds.

- Assistia ao seu banquete de noivado - repetiu o substituto,
estremecendo a seu pesar.

- Sim, senhor, estou prestes a casar com uma mulher que amo h
trs anos.

Villefort, apesar de se mostrar habitualmente impassvel,
ficou
impressionado com a confidncia, com a voz comovida de Dants,
surpreendido no meio da sua felicidade, e essa voz fez-lhe
vibrar
uma fibra simptica no fundo da alma. Tambm ele se ia casar,
tambm ele era feliz, e acabavam de perturbar a sua felicidade
a fim de o levarem a contribuir para a destruio da alegria
de
um homem que, como ele, tocava j a felicidade.

Este paralelismo filosfico, pensou, produziria grande efeito
no
seu regresso ao salo do Sr. de Saint-Mran. E comps
antecipadamente no esprito, enquanto Dants esperava novas
perguntas, as palavras antitticas com o auxlio das quais os
oradores constroem essas frases sedentas de aplausos que por
vezes fazem crer numa verdadeira eloquncia.

Composto o seu pequeno speech interior, Villefort sorriu do
efeito e disse, dirigindo-se a Dants:

- Continue, senhor.

- Que deseja que continue?

- A esclarecer a justia.

- A justia que me diga em que ponto deseja ser esclarecida e
dir-lhe-ei tudo o que sei. Simplesmente - acrescentou tambm
com
um sorriso --, previno-a de que no sei grande coisa.

- Serviu no tempo do usurpador?

-- ia ser incorporado na marinha de guerra quando ele caiu.

- So conhecidas as suas opinies polticas extremistas -
insinuou Villefort, a quem ningum dissera nada a tal
respeito,
mas que no achava despropositado afirm-lo como quem formula
uma
acusao.

- As minhas opinies polticas, senhor? Bom,  quase
vergonhoso
diz-lo, mas nunca tive o que se chama uma opinio. Tenho
apenas
dezanove anos, como j tive a honra de lhe dizer; no sei
nada,
no estou destinado a desempenhar qualquer papel; o pouco que
sou
e que serei, se me derem o lugar que ambiciono, dev-lo-ei ao
Sr.
Morrel. Por isso, todas as minhas opinies, no direi
polticas,
mas pessoais, limitam-se a estes trs sentimentos: amo o meu
pai,
respeito o Sr. Morrel e adoro Mercds. Aqui tem, senhor, tudo
o que posso dizer  justia; como v,  pouco interessante
para
ela

 medida que Dants falava, Villefort observava-lhe o rosto,
ao
mesmo tempo to afvel e to franco, e sentia acudirem-lhe 
memria as palavras de Rene que sem o conhecer lhe pedira
indulgncia para com o arguido. Com a prtica que o substituto
j possua do crime e dos criminosos, via em cada palavra de
Dants surgir a prova da sua inocncia. Com efeito, aquele
rapaz,
quase se poderia dizer, aquela criana, simples, natural e
eloquente, com essa eloquncia do corao que nunca se
encontra
quando se procura, cheio de afeio para todos porque era
feliz
e porque a felicidade torna bons os prprios maus, derramava
at
sobre o seu juiz a suave afabilidade que lhe  transbordava
do
corao Edmond no linha no olhar, na voz e nos gestos, por
mais
rude e severo que Villefort tivesse sido para com ele, a no
ser
atenes e bondade para com aquele que o interrogava.

"Por Deus", disse Villefort para consigo, "aqui est um rapaz
encantador que talvez me permita sem grande dificuldade, assim
espero, ser agradvel a Rene e satisfazer a primeira
recomendao que me fez, o que me poder valer um bom aperto
de
mo diante de toda a gente e um beijo terno num canto."

E com esta doce esperana o rosto de Villefort desanuviou-se.
E
assim, quando abandonou o fio do seu pensamento e olhou para
Dants, este, que seguia todos os movimentos da fisionomia do
seu
juiz, sorria como o prprio pensamento de Villefort.

- Tem alguns inimigos? - perguntou o substituto.

- Inimigos, eu? - redarguiu Dants. - Tenho a sorte de ser
demasiado insignificante para que a minha posio mos arranje.
Quanto ao meu temperamento, talvez um pouco vivo, sempre
tentei
suaviz-lo no trato com os meus subordinados. Tenho dez ou
doze
marinheiros sob as minhas ordens; interrogue-os, senhor, e
dir-lhe-o que me estimam e respeitam, no como um pai, sou
demasiado novo para isso, mas sim como um irmo mais velho.

- Mas,  falta de inimigos, talvez tenha invejosos. Ia ser
nomeado comandante aos dezanove anos, o que  um cargo elevado
na sua idade, e ia casar com uma linda mulher que o ama, o que
 uma felicidade rara em qualquer parte deste mundo. Estas
duas
preferncias do destino podem ter-lhe granjeado invejosos.

- Sim, tem razo. Deve conhecer os homens melhor do que eu 
possvel. Mas se esses invejosos se encontram entre os meus
amigos, confesso-lhe que prefiro no os conhecer para no ser
obrigado a odi-los.

- Engana-se. Tanto quanto possvel, devemos ver sempre claro 
nossa volta. E na verdade o senhor parece-me um jovem to
digno
que me vou desviar em seu benefcio das regras habituais da
justia e ajud-lo a fazer brotar a luz dando-lhe conhecimento
da denncia que o trouxe  minha presena. Aqui est o papel
acusador. Reconhece a letra?

E Villefort tirou a carta da algibeira e apresentou-a a
Dants,
que a olhou e leu. Passou-lhe uma sombra pela testa e
respondeu:

- No, senhor, no conheo esta letra; est disfarada, embora
seja bastante firme. De qualquer modo, foi traada por mo
experiente. Sinto-me feliz - acrescentou, olhando com
reconhecimento para Villefort - por tratar com um homem como o
senhor, pois com efeito o meu invejoso  um autntico inimigo.

E o relmpago que passou pelos olhos do jovem ao pronunciar
estas
palavras permitiu a Villefort distinguir tudo o que havia de
violenta energia debaixo da afabilidade inicial.

- E agora - disse o substituto - responda-me francamente,
senhor,
no como um arguido ao seu juiz, mas sim como um homem numa
posio falsa responde a outro homem que se interessa por ele:
que h de verdade nesta acusao annima?

E Villefort atirou com repugnncia para cima da secretria a
carta que Dants acabava de lhe restituir.

- Tudo e nada, senhor. Eis a verdade pura, pela minha honra de
marinheiro, pelo meu amor por Mercds e pela vida do meu pai.

- Fale, senhor - disse em voz alia Villefort.

Depois, baixinho, acrescentou:

- Se Rene me pudesse ver, sem dvida ficaria contente comigo
e
nunca mais me chamaria cortador de cabeas!

- Bom, o comandante Leclre adoeceu com uma febre cerebral ao
sairmos de Npoles. Como no tnhamos mdico a bordo e no
quis
escalar nenhum porto da costa, pois tinha pressa de chegar 
ilha
de Elba, a doena agravou-se e ele chamou-me a sua presena.

"-- Meu caro Dants - disse-me --, jure-me pela sua honra
fazer
o que lhe vou dizer. Esto em jogo altos interesses.

"-- Juro-lhe, comandante - respondi-lhe.

"-- Muito bem! Como depois da minha morte lhe pertence o
comando
do navio, na qualidade de imediato, assuma-o, aproe  ilha de
Elba, desembarque em Porto Ferraio, procure o grande marechal
e
entregue-lhe esta carta.  possvel que lhe entreguem outra
carta
e o encarreguem de qualquer misso. Essa misso estava-me
reservada, Dants; cumpra-a em meu lugar e toda a honra disso
ser sua.

"-- Assim farei, comandante, mas talvez no consiga chegar to
facilmente como pensa junto do grande marechal.

"-- Aqui tem um anel que lhe mandar entregar - disse o
comandante - e que remover todas as dificuldades.

"-- E ao dizer estas palavras entregou-me um anel.

-- Era tempo: duas horas mais tarde o delrio apoderou-se dele
e no dia seguinte morreu.

- Que fez ento?

- O que devia fazer, senhor, o que qualquer outro faria no meu
lugar. Custe o que custar, as splicas de um moribundo so
sagradas; mas entre os marinheiros os pedidos de um superior
so
ordens que se devem cumprir. Fiz-me portanto de vela para a
ilha
de Elba, onde cheguei no dia seguinte, proibi a sada de toda
a
gente a bordo e desci sozinho a terra. Como previra,
levantaram-me algumas dificuldades para me introduzir junto do
grande marechal, mas mandei-lhe o anel que devia servir-me de
sinal de reconhecimento e todas as portas se abriram diante de
mim. Recebeu-me, interrogou-me acerca das ltimas
circunstncias
da morte do infeliz Leclre e, como este previra, entregou-me
uma
carta que me encarregou de levar pessoalmente a Paris.
Prometi-lho, porque isso equivalia a cumprir as ltimas
vontades
do meu comandante. Desembarquei e regularizei rapidamente
todos
os assuntos de bordo; depois, corri a ver a minha noiva, que
encontrei mais bonita e apaixonada do que nunca. Graas ao Sr.
Morrel, passamos por cima de todas as dificuldades
eclesisticas.
Enfim, senhor, assistia como lhe disse ao banquete do meu
noivado, ia casar-me dentro de uma hora e contava partir
amanh
para Paris quando por via dessa denncia, que o senhor parece
desprezar agora tanto como eu, fui preso.

- Sim, sim - murmurou Villefort --, tudo isso me parece ser
verdade, e se o senhor  culpado,  de imprudncia, embora
essa
imprudncia seja legtima devido s ordens do seu comandante.


Entregue-me essa carta que lhe deram na ilha de Elba, d-me a
sua
palavra de que se apresentar  primeira convocao e volte
para
junto dos seus amigos.

- Quer dizer que estou livre, senhor?! - exclamou Dants, no
cmulo da alegria.

- Est, mas primeiro d-me essa carta.

- Deve estar diante de si, senhor, pois apreenderam-ma com os
meus outros papis e reconheo alguns deles nesse mao.

- Espere - disse o substituto a Dants, que pegava nas luvas e
no chapu. - Espere. A quem  dirigida?

- Ao Sr. Noirtier, Rua Coq-Hron, em Paris.

Um raio que casse sobre Villefort no o fulminaria mais
rpida
e imprevistamente. Deixou-se cair na poltrona, donde se
soerguera
para chegar ao mao de papis apreendidos a Dants, remexeu-o
precipitadamente e tirou dele a carta fatal,  qual deitou um
olhar cheio de indizvel terror.

- Sr. Noirtier, Rua Coq-Hron, n.o 13 - murmurou,
empalidecendo
cada vez mais.

- Sim, senhor - confirmou Dants, atnito. - Conhece-o?

- No - respondeu vivamente Villefort. - Um fiel servidor do
rei
no conhece conspiradores.

- Trata-se portanto de uma conspirao? - perguntou Dants,
que
comeava, por se julgar livre, a sentir-se novamente dominado
por
um terror maior do que ao princpio. - Seja como for, senhor,
como j lhe disse ignoro completamente o contedo da
correspondncia de que fui portador.

- Pois sim, mas sabe o nome daquele a quem era dirigida! -
redarguiu Villefort, com voz abafada.

- Para lha entregar pessoalmente, senhor, era indispensvel
que
o soubesse.

No mostrou esta carta a ningum? - perguntou Villefort,
lendo-a
e empalidecendo  medida que a lia.

- A ningum senhor, dou-lhe a minha palavra de honra!

- Toda a gente ignora que era portador de uma carta vinda da
ilha
de Elba e endereada ao Sr. Noirtier?

- Toda a gente, senhor, excepto quem ma entregou.

-  demasiado,  ainda demasiado! - murmurou Villefort.

A fronte de Villefort nublava-se cada vez mais  medida que se
aproximava do fim: os seus lbios brancos, as suas mos
trmulas
e os seus olhos ardentes faziam passar pelo esprito de Dants
as mais dolorosas apreenses.

Terminada a leitura, Villefort deixou cair a cabea nas mos e
ficou um instante acabrunhado.

- Oh, meu Deus! Que se passa senhor? - perguntou timidamente
Dants.

Villefort no respondeu. Mas passados alguns instantes
levantou
o rosto plido e descomposto e releu segunda vez a carta.

- E diz que no sabe o que contm esta carta? - insistiu
Villefort.

- Dou-lhe a minha palavra de honra, repito, senhor, de que o
ignoro - respondeu Dants. - Mas que tem o senhor, meu Deus?
Sente-se mal, quer que toque, quer que chame?

- No, senhor - respondeu Villefort, levantando-se vivamente.
-
No se mexa, no diga nada;  a mim que compete dar ordens
aqui
e no ao senhor.

- Era apenas para o ajudar, senhor - protestou Dants,
magoado.

- No preciso de nada, foi apenas uma indisposio passageira.
Ocupe-se de si e no de mim, responda.

Dants esperou o interrogatrio anunciado por estas palavras,
mas
inutilmente: Villefort voltou a deixar-se cair na poltrona,
passou a mo gelada pela testa coberta de suor e releu a carta
pela terceira vez.

- Oh, se ele soubesse o que contm esta carta? -  murmurou. -
Se
soubesse alguma vez que Noirtier  o pai de Villefort, seria
eu
quem estaria perdido, perdido para sempre!

E de vez em quando olhava para Edmond, como se o seu olhar
pudesse quebrar a barreira invisvel que encerra no corao os
segredos que a boca guarda.

- oh, deixemo-nos de hesitaes! - exclamou de sbito.

- Mas, em nome do Cu, senhor - pediu o pobre rapaz --, se
desconfia de mim, se tem suspeitas a meu respeito,
interrogue-me
e estou pronto a responder-lhe.

Villefort fez um esforo violento sobre si mesmo e disse num
tom
que pretendia tornar firme:

- Senhor, as acusaes mais graves resultam para si do seu
interrogatrio e no est portanto na minha mo, como de
incio
esperei, p-lo imediatamente em liberdade; antes de tomar
semelhante medida devo consultar o juiz de instruo.
Entretanto,
j viu de que forma o tenho tratado...

- Oh, sim, senhor, e agradeo-lhe, pois tem sido para mim
muito
mais amigo do que um juiz! - declarou Dants.

- Pois bem, senhor, vou conserv-lo mais algum tempo preso,
mas
o menos que puder. A principal acusao que existe contra si 
esta carta, e como v...

Villefort aproximou-se da chamin, lanou-a ao fogo e
deixou-se
estar at a carta ficar reduzida a cinzas.

- E como v - continuou - destruo-a.

- Oh, o senhor  mais do que justia,  a bondade! - exclamou
Dants.

- Mas escute-me - prosseguiu Villefort.-Depois de semelhante
acto, decerto compreende que pode confiar em mim, no 
verdade?

- Oh, senhor, ordene e cumprirei as suas ordens!

- No - disse Villefort aproximando-se do rapaz --, no so
ordens o que lhe quero dar, so conselhos, compreende?

- Diga-os e conformar-me-ei com eles como se fossem ordens.

- Vou conserv-lo aqui, no Palcio da Justia, at  noite.
Talvez mais algum o venha interrogar: diga tudo o que me
disse,
mas nem uma palavra acerca da carta.

- Prometo-lhe, senhor.

Agora era Villefort que parecia suplicar, era o arguido que
tranquilizava o juiz.

- Compreende - disse, deitando um olhar s cinzas, que ainda
conservavam a forma do papel e que esvoaavam por cima das
chamas
--, agora a carta desapareceu, s o senhor e eu sabemos que
ela
existiu. Ningum lha  tornar a apresentar. Negue-a, pois,
se
lhe falarem dela, negue decididamente e estar salvo.

- Negarei, senhor esteja tranquilo - prometeu Dants.

- Muito bem, muito bem - aprovou Villefort, levando a mo ao
cordo de uma campainha.

Depois, detendo-se um momento de tocar:

- Era a nica carta que tinha - perguntou.

- A nica.

- Jure.

Dants estendeu a mo.

- Juro - disse.

Villefort tocou.

O comissrio da polcia entrou.

Villefort aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa ao
ouvido
a que o comissrio respondeu com um simples aceno de cabea.

- V senhor -- disse Villefort a Dants.

Dants inclinou-se, deitou um ltimo olhar de reconhecimento a
Villefort e saiu.

Assim que a porta se fechou atrs dele, as foras faltaram a
Villefort, que caiu quase sem sentidos numa poltrona.

Passado um instante, murmurou:

- Oh, meu Deus, de que dependem a vida e a fortuna!... Se o
procurador rgio estivesse em Marselha, se o juiz de instruo
tivesse sido chamado em meu lugar, estaria perdido: aquele
papel,
aquele papel maldito precipitar-me-ia no abismo. Ah, meu pai,
meu
pai! Ser sempre um obstculo  minha felicidade neste mundo e
deverei lutar eternamente com o seu passado?

Depois, de sbito, um claro inesperado pareceu passar-lhe
pelo
esprito e iluminou-lhe o rosto; desenhou-se-lhe um sorriso na
boca ainda crispada e os seus olhos assustados tornaram-se
fixos
e pareceram deter-se num pensamento.

-  isso - disse. - Sim, essa carta que me devia perder talvez
faa a minha fortuna. Vamos, Villefort, mos  obra.

E depois de se assegurar de que o arguido j no estava na
antecmara, o substituto do procurador rgio saiu por seu
turno
e dirigiu-se rapidamente para casa da noiva.


Captulo VIII


O Castelo de If

Ao atravessar a antecmara, o comissrio de polcia fez sinal
a
dois gendarmes, os quais se colocaram um  direita e o outro 
esquerda da Dants. Abriu-se uma porta que punha em
comunicao
os aposentos do procurador rgio com o Palcio da Justia e
seguiram durante algum tempo por um desses  grandes
corredores
sombrios que arrepiam aqueles que os percorrem, mesmo quando
no
tm nenhum motivo para se arrepiar.

Assim como os aposentos de Villefort comunicavam com o Palcio
da Justia, tambm o Palcio da Justia comunicava com a
priso,
edifcio sombrio contguo ao palcio e que olhava
curiosamente,
com todas as suas aberturas medonhas, o campanrio dos
Accouies
que se erguia diante dele.

Depois de vrias voltas, Dants viu o corredor por onde seguia
desembocar numa porta com um postigo de ferro. O comissrio de
polcia bateu com uma aldraba de ferro trs pancadas que
soaram
para Dants como se fossem desferidas no seu prprio corao.
A
porta abriu-se e os dois gendarmes empurraram levemente o
prisioneiro, que hesitou novamente. Dants transps o temvel
limiar e a porta tornou a fechar-se atrs dele. Respirava-se
ali
outro ar, um ar meftico e pesado: estava numa priso.

Conduziram-no a um quarto bastante limpo, mas gradeado e
aferrolhado. No entanto, o aspecto do alojamento no o
assustou.
Alis, as palavras do substituto do procurador rgio,
proferidas
numa voz que parecera a Dants to cheia de interesse,
ecoavam-lhe aos ouvidos como uma suave promessa de esperana.

Eram j quatro horas quando Dants fora conduzido  sua cela.
Estava-se, como j dissemos, em 1 de Maro. O prisioneiro no
tardou a encontrar-se s escuras.

Ento o sentido do ouvido substituiu nele o sentido da vista,
que
acabava de perder. Ao menor rudo que chegava at ele,
convencido
de que o vinham pr em liberdade, levantava-se vivamente e
dava
um passo para a porta; mas em breve o rudo ia morrendo noutra
direco e Dants tornava a deixar-se cair no banco.

Por fim, cerca das dez horas da noite, quanto Dants comeava
a
perder a esperana, ouviu-se novo rudo que lhe pareceu
dirigir-se para a sua cela. Com efeito, soaram passos no
corredor
que se detiveram diante da sua porta. Uma chave girou na
fechadura, os ferrolhos rangeram e a macia barreira de
carvalho
abriu-se e deixou entrar de sbito na cela a luz deslumbrante
de
dois archotes.

Ao claro desses dois archotes, Dants viu brilhar os sabres e
os mosquetes de quatro gendarmes.

Dera dois passos em frente, mas ficou imvel no seu lugar ao
ver
aquele aumento de foras.

- Vm buscar-me? - perguntou Dants.

- Vimos - respondeu um dos gendarmes.

- Da parte do Sr. Substituto do Procurador Rgio?

- Creio que sim.

- Bom, estou pronto a acompanh-los - declarou Dants.

A convico de que vinham busc-lo da parte do Sr. de
Villefort
tirava todo o receio ao infeliz rapaz. Avanou, pois, de
esprito
calmo e andar desembaraado e colocou-se ele prprio no meio
da
escolta.

 porta esperava uma carruagem com o cocheiro no seu lugar e
um
polcia sentado ao lado do cocheiro.

-  para mim que esta carruagem est aqui? - perguntou Dants.

- ,  para si - respondeu um dos gendarmes. - Suba.


Dants quis fazer algumas observaes, mas a portinhola
abriu-se
e sentiu-se empurrado. No havia possibilidade nem sequer
inteno de opor resistncia, pelo que se encontrou num
instante
sentado ao fundo da carruagem, entre dois gendarmes. Os outros
dois sentaram-se no banquinho fronteiro e o pesado veiculo
comeou a rodar com um rudo sinistro.

O prisioneiro olhou para as janelas; eram gradeadas. Mudara
apenas de priso. A nica diferena era aquele rodar e
transport-lo para destino ignorado. Atravs dos vares
apertados
a ponto de mal poder passar a mo entre eles, Dants
reconheceu
no entanto que percorriam a Rua Caisserie e que pela Rua
Tamaris
desciam para o cais.

Em breve distinguiu atravs das suas grades e das do monumento
junto do qual se encontrava as luzes da Consigne.

A carruagem parou e o polcia desceu e aproximou-se da casa da
guarda. Saiu uma dzia de soldados que formaram alas. Ao
claro
dos candeeiros do cais, Dants viu reluzirem-lhes as
espingardas.

"Ser por minha causa que se exibe semelhante fora militar?",
perguntou Dants a si mesmo.

Ao abrir a portinhola fechada  chave, o polcia respondeu a
esta
interrogao, embora sem pronunciar uma nica palavra, pois
Dants viu entre as duas alas de soldados um caminho aberto
para
ele, da carruagem ao porto.

Os dois gendarmes que estavam sentados no banco da frente
foram
os primeiros a descer, depois fizeram-no descer a ele e por
fim
seguiram-no os que se sentavam a seu lado.
Encaminharam-se para um escaler que um marinheiro da alfndega
mantinha junto do cais, seguro por uma corrente. Os soldados
viram passar Dants com ar de curiosidade aparvalhada.
Instalaram-no num instante  popa do barco, sempre no meio de
quatro gendarmes, enquanto o polcia se mantinha  proa. Um
empurro violento afastou o barco da muralha e quatro
remadores
remaram vigorosamente na direco de Pilon. A um grito soltado
do barco a corrente que fechava o porto desceu e Dants
encontrou-se no chamado Frioul, isto , fora do porto.

O primeiro impulso do prisioneiro ao ver-se ao ar livre fora
um
impulso de alegria. O ar era quase a liberdade. Respirou,
pois,
a plenos pulmes aquela brisa fresca, que trazia nas asas
todos
os aromas desconhecidos da noite e do mar. No tardou, porm,
a
soltar um suspiro ao passar diante da Rserve, onde fora to
feliz naquela mesma manh, durante a hora que precedera a sua
priso. Atravs de duas janelas abertas chegava at ele o
barulho
alegre de um baile.

Dants juntou as mos, ergueu os olhos ao cu e rezou.

O escaler continuava a sua rota. Ultrapassara a Caveira e
estava
defronte da enseada do Pharo. Ia contornar a bateria, o que
era
uma manobra incompreensvel para Dants.

- Para onde me levam? - perguntou a um dos gendarmes. - Em
breve
o saber.

- Mas ento...

- Estamos proibidos de lhe dar qualquer explicao.

Dants era meio soldado. Interrogar subordinados aos quais
fora
proibido responder pareceu-lhe uma coisa absurda e por isso
calou-se.

Ento, acudiram-lhe ao esprito os pensamentos mais estranhos.
Como se no podia fazer grande viagem em semelhante barco e
no
havia nenhum navio ancorado do lado para onde se dirigiam,
pensou
que o iam desembarcar num ponto afastado da costa e dizer-lhe
que
estava livre. No se encontrava amarrado nem tinham feito
qualquer tentativa para o algemar, o que lhe parecia de bom
augrio. Alis, no lhe dissera o substituto, que to bom fora
para ele, que contanto que no pronunciasse o nome fatal de
Noirtier nada tinha a temer? No destrura Villefort, na sua
presena, aquela carta perigosa, nica prova existente contra
ele?

Esperou, pois, mudo e pensativo, procurando devassar com os
olhos
de marinheiro conhecedor das trevas e habituado ao espao a
escurido da noite.

Tinham deixado  direita a ilha Ratonneau, onde ardia um
farol,
e, seguindo quase ao longo da costa, haviam chegado  altura
da
enseada dos Catales. Ali, os olhares do prisioneiro
tornaram-se
mais perscrutadores, era ali que estava Mercds, e
parecia-lhe
a cada instante ver desenhar-se na margem sombria a forma vaga
e indecisa de uma mulher.

Porque no diria um pressentimento a Mercds que o seu
apaixonado passava a trezentos passos dela?

Brilhava uma nica luz nos Catales. Observando a posio
dessa
luz, Dants reconheceu que ela iluminava o quarto da noiva.
Mercds era a nica que velava em toda a coloniazinha. Se
gritasse com fora, o jovem poderia fazer-se ouvir pela noiva.

Uma vergonha injustificada conteve-o. Que diriam os homens que
o olhavam se o ouvissem gritar como um insensato?
Ficou portanto mudo e com os olhos cravados naquela luz.

Entretanto, o barco continuava a sua rota. Mas o prisioneiro
no
pensava no escaler, pensava em Mercds. Um acidente de
terreno
fez desaparecer a luz. Dants virou-se e verificou que o barco
se dirigia para o largo.

Enquanto olhava, absorto nos seus prprios pensamentos, tinham
substitudo os remos por velas e o barco avanava agora
impelido
pelo vento.

Apesar da repugnncia que Dants experimentava em dirigir ao
gendarme novas perguntas, aproximou-se dele e disse-lhe,
pegando-lhe na mo:

- Camarada, em nome da sua conscincia e da sua qualidade de
soldado peo-lhe que tenha compaixo de mim e me responda. Sou
o comandante Dants, bom e leal francs, apesar de acusado de
no
sei que traio. Para onde me levam? Diga-mo e, palavra de
marinheiro, cumprirei o meu dever e resignar-me-ei com a minha
sorte.

O gendarme coou a orelha e olhou para o seu camarada. Este
fez
um gesto que significava pouco mais ou menos: "Parece-me que
no
ponto em que estamos no h inconveniente." O outro virou-se
ento para Dants e disse-lhe:

- O senhor  marselhs e marinheiro e ainda nos pergunta para
onde vamos?

- Pergunto porque, pela minha honra, ignoro-o.

- Nem, desconfia?

- De modo nenhum.

- No  possvel.

- Juro-lhe pelo que tenho de mais sagrado no mundo.
Responda-me,
por piedade!

- Mas as ordens?

- As ordens no o probem de me informar do que saberei dentro
de dez minutos, de meia hora ou talvez de uma hora. Apenas me
poupar, entretanto, sculos de incerteza. Peo-lhe como se
fosse
meu amigo. Repare, no pretendo revoltar-me nem fugir. De
resto,
no posso. Para onde vamos?

- A menos que tenha uma venda nos olhos ou que nunca tenha
sado
do porto de Marselha, deve no entanto adivinhar para onde vai.

- No.

- Nesse caso, olhe  sua volta.

Dants levantou-se, olhou naturalmente para o ponto para onde
parecia dirigir-se o barco e, cem toesas  sua frente, viu
erguer-se a rocha negra e escarpada em que se elevava, com uma
superfetao do slex, o sombrio Castelo de If.

Aquela forma estranha, aquela priso envolta em to profundo
terrir, aquela fortaleza que havia trezentos anos impunha as
suas
lgubres tradies a Marselha, aparecendo assim de repente a
Dants, que no pensava nela, produziu-lhe o efeito que produz
ao condenado  morte o aspecto do cadafalso.

-Ah, meu Deus, o Castelo de If! - exclamou. - E que vamos l
fazer?

o gendarme sorriu.

- Vo-me encarcerar l? - continuou Dants. - Mas o Castelo de
If  uma priso de Estado destinada apenas aos grandes
criminosos
polticos. Ora, eu no cometi nenhum crime. No Castelo de If
existem, porventura, juzes de instruo ou quaisquer outros
magistrados?

- Suponho que s existe um governador, carcereiros, uma
guarnio
e bons muros. Vamos, vamos, amigo, no mostre tanto espanto;
porque na verdade far-me-ia supor que retribui a minha
condescendncia troando de mim.

Dants apertou a mo do gendarme como se lha quisesse partir.

- Pretende - insistiu - que me conduzem ao Castelo de If para
l
me encerrar?

-  provvel - respondeu o gendarme. - Seja como for,
camarada,
 intil apertar-me a mo com tanta fora.

- Sem mais investigaes, sem mais formalidades? - perguntou o
jovem.

- As formalidades esto preenchidas e as investigaes
concludas.

- Assim, apesar da promessa do Sr. de Villefort?...

- No sei se o Sr. de Villefort lhe fez alguma promessa -
redarguiu o gendarme --, mas o que sei  que vamos para o
Castelo
de If. Eh, l, que est a fazer?! A mim, camaradas, a mim!

Num gesto rpido como um relmpago, mas que no entanto fora
previsto pelo olhar experiente do gendarme, Dants quisera
lanar-se ao mar. Mas quatro mos vigorosas seguraram-no no
momento em que os seus ps deixavam o fundo do barco e
fizeram-no
cair dentro dele bramindo de raiva.

- Ora a est! - exclamou o gendarme, pondo-lhe um joelho no
peito. - Ora a est como cumpre a sua palavra de marinheiro.
Vamo-nos l fiar em  gente de falinhas mansas... Pois agora,
meu caro amigo, se fizer um movimento, um s, meto-lhe uma
bala
na cabea. No cumpri a minha primeira ordem, mas garanto-lhe
que
cumprirei a segunda.

E baixou efectivamente a carabina na direco de Dants, que
sentiu encostar-se-lhe a ponta do cano  tmpora.

Por um instante sentiu a tentao de fazer o movimento
proibido
e de acabar assim, violentamente, com a desgraa inesperada
que
se abatera sobre ele e o tomara de sbito nas suas garras de
abutre. Mas precisamente por essa desgraa ser inesperada,
Dants
pensou que no podia ser duradoura.
Depois, acudiram-lhe ao esprito as promessas do Sr. de
Villefort; por ltimo, foroso  diz-lo, a morte no fundo de
um
barco, dada pela mo de um gendarme, pareceu-lhe indecorosa e
indigna.

Deixou-se cair no fundo do barco, soltando um bramido de raiva
e mordendo as mos com furor.

Quase no mesmo instante um choque violento sacudiu o escaler.
Um
barqueiro saltou para a rocha que a proa da embarcao acabava
de tocar, uma corda chiou ao desenrolar-se  volta de um
moito
e Dants compreendeu que tinham chegado e amarravam o barco.

Com efeito, os guardas, que o seguravam ao mesmo tempo pelos
braos e pela gola da veste, obrigaram-no a levantar-se e a
desembarcar e arrastaram-no para os degraus que subiam at 
porta da cidadela, enquanto o polcia, armado com um mosqueto
de baioneta calada, seguia atrs dele.

Alis, Dants no esboou sequer uma resistncia que seria
intil: a sua lentido devia-se mais  inrcia do que 
oposio.
Estava aturdido e cambaleava como um brio. Viu de novo os
soldados escalonarem-se nos taludes ngremes, sentiu os
degraus
obrigarem-no a levantar os ps e notou que transpunha uma
porta
e que essa porta se fechava atrs de si, mas tudo isto
maquinalmente, como que atravs de um nevoeiro, sem nada
distinguir de positivo. J nem sequer via o mar, essa dor
imensa
dos prisioneiros, que olham o espao com o sentimento terrvel
de que so impotentes para o transpor.

Houve um breve alto, durante o qual procurou concentrar
ideias.
Olhou  sua volta: estava num ptio quadrado, formado por
quatro
altas muralhas. Ouvia-se o passo lento e regular das
sentinelas
e todas as vezes que passavam diante dos dois ou trs reflexos
que projectavam nas muralhas o claro de duas ou trs luzes
que
brilhavam no interior do castelo via-se cintilar o cano das
suas
espingardas.

Esperaram ali dez minutos, pouco mais ou menos. Certos de que
Dants j no podia fugir, os gendarmes tinham-no largado.
Pareciam esperar ordens. Essas ordens chegaram.

- Onde est o prisioneiro? - perguntou uma voz.

- Est aqui - responderam os gendarmes.

- Que venha comigo; vou conduzi-lo ao seu alojamento.

- V - disseram os gendarmes, empurrando Dants.

O prisioneiro seguiu o indivduo, que o conduziu efectivamente
a uma sala quase subterrnea cujas paredes nuas e suadas
pareciam
impregnadas de um vapor de lgrimas. Uma espcie de lampio
pousado num banco e cuja mecha nadava numa gordura ftida
iluminava as paredes luzidias da horrvel sala e  mostrava a
Dants o seu acompanhante, espcie de carcereiro subalterno,
mal
vestido e de cara desagradvel.

- Aqui tem o seu quarto para esta noite - informou.  tarde e
o
Sr. Governador est deitado. Amanh, quando acordar e tomar
conhecimento das ordens que lhe dizem respeito, talvez o mude
de
instalao. Entretanto, aqui tem po. H gua naquela bilha e
palha ali ao canto.  tudo o que um prisioneiro pode desejar.
Boas noites.

E antes de Dants pensar em abrir a boca para lhe responder,
antes de ver onde o carcereiro pousava o po, antes de se dar
conta do stio onde estava a bilha e antes de volver os olhos
para o canto onde se encontrava a palha destinada a servir-lhe
de cama, o carcereiro pegou no lampio, saiu, fechou a porta e
privou o prisioneiro da luz baa que lhe mostrara como que ao
claro de um relmpago as paredes encharcadas da sua priso.

Encontrou-se ento sozinho no meio das trevas e do silncio,
to
mudo e to sombrio como as abbadas cujo frio glacial sentia
descer sobre a testa escaldante.

Quando os primeiros raios da alvorada trouxeram um pouco de
claridade quele antro, o carcereiro voltou com a ordem de
deixar
o prisioneiro onde se encontrava. Dants nem sequer mudara de
sitio. Uma mo de ferro parecia t-lo pregado no mesmo local
onde
na vspera se detivera. Apenas o seu olhar profundo se
ocultava
debaixo de um inchao causado pelo vapor hmido das suas
lgrimas. Estava imvel e olhava para o cho.

Passara assim toda a noite de p e sem dormir um s instante.
O
carcereiro aproximou-se dele, andou  sua volta, mas Dants
no
pareceu v-lo.

Bateu-lhe no ombro, Dants estremeceu e abanou a cabea.

- No dormiu? - perguntou-lhe o carcereiro.

- No sei - respondeu Dants.

O carcereiro olhou-o com espanto.

- No tem fome? - continuou.

- No sei - respondeu novamente Dants.

- Quer alguma coisa?

- Queria ver o governador.

O carcereiro encolheu os ombros e saiu.

Dants seguiu-o com a vista, estendeu as mos para a porta
entreaberta, mas a porta fechou-se.

Ento o peito pareceu rasgar-se-lhe num longo soluo. As
lgrimas
que lhe enchiam o peito brotaram como dois riachos.
Ajoelhou-se,
encostou a testa ao cho e rezou durante muito tempo. Repassou
no esprito toda a sua vida passada e perguntou a si mesmo que
crime cometera na vida, to jovem ainda, que merecesse to
cruel
punio.

O dia passou-se assim. Comeu apenas alguns nacos de po e
bebeu
alguns golos de gua. To depressa ficava sentado e absorto
nos
seus pensamentos como caminhava a toda a volta da priso, qual
fera encerrada numa jaula de ferro.

Havia sobretudo um pensamento que o punha fora de si: o de que
durante a travessia, onde, na ignorncia do local para onde o
conduziam, permanecera to calmo e tranquilo, poderia ter-se
dez
vezes deitado ao mar e, uma vez na gua, graas  sua percia
de
nadador, graas ao hbito que o tornara um dos  mais hbeis
mergulhadores de Marselha, desaparecer debaixo de gua, fugir
aos
guardas, alcanar a costa, escapar-se, esconder-se em qualquer
enseada deserta, esperar um navio genovs ou catalo, alcanar
a Itlia ou a Espanha, e de l escrever a Mercds para que se
lhe juntasse. Quanto  sua vida em qualquer pais era coisa que
no o preocupava. Em toda a parte os marinheiros eram raros e
falava italiano como um toscano e espanhol como um natural de
Castela-a-Velha. Viveria livre e feliz com Mercds e com o
pai,
pois o pai tambm iria ter com ele, ao passo que assim estava
prisioneiro, encerrado no Castelo de li, naquela priso
intransponvel, sem saber o que era feito do pai nem de
Mercds,
e tudo isso porque acreditara na palavra de Villefort. Era de
enlouquecer. Por isso, Dants rebolava-se furioso na palha
fresca
que lhe trouxera o carcereiro.

No dia seguinte,  mesma hora, o carcereiro voltou.

- Ento, est hoje mais razovel do que ontem? -
perguntou-lhe.

Dants no respondeu.

- Que diabo, um pouco de coragem! - insistiu o carcereiro. -
Deseja alguma coisa que esteja ao meu alcance? Vamos, diga.

- Desejo falar com o governador.

- O qu? J lhe disse que  impossvel - redarguiu o
carcereiro
com impacincia.

-Impossvel porqu?

- Porque pelos regulamentos da priso no  permitido aos
prisioneiros pedir isso.

- Ento, que  permitido aqui? - perguntou Dants.

- Melhor alimentao, pagando, passear e s vezes livros.

- No preciso de livros, no tenho nenhuma vontade de passear
e
acho a minha alimentao boa. Portanto, s quero uma coisa:
ver
o governador.

- Se continua a repetir-me sempre a mesma coisa, no lhe trago
mais de comer - ameaou-o o carcereiro.

- Se no me trouxeres mais de comer - ripostou Dants --,
morrerei de fome e pronto!

O tom em que Dants proferiu estas palavras provou ao
carcereiro
que o seu prisioneiro se daria por feliz se morresse.
Por isso, como qualquer prisioneiro rendia, bem feitas as
contas,
cerca de dez soldos por dia ao seu carcereiro, o de Dants
avaliou o prejuzo que lhe acarretaria tal morte e insistiu em
tom mais ameno:

- Oua, o que deseja  impossvel. Portanto, no insista, pois
no h exemplo de, a pedido de um prisioneiro, o governador ir
 sua cela. Mas se o senhor se portar bem permitir-lhe-o o
passeio e  possvel que um dia, enquanto passeia, o
governador
passe... Ento, poder dirigir-lhe a palavra e se ele lhe
quiser
responder  l com ele.

- Mas quanto tempo posso esperar assim sem que esse acaso se
verifique? - perguntou Dants.

- Sei l! - respondeu o carcereiro. - Um ms, trs meses, seis
meses, talvez um ano...

-  demasiado - redarguiu Dants. - Quero v-lo imediatamente.

- Bom, o melhor  no se entregar assim a um nico desejo
impossvel ou antes de quinze dias estar louco.

- Achas? - perguntou Dants.

- Sim, louco.  sempre assim que comea a loucura; temos c
um
exemplo disso. Foi por estar constantemente a oferecer um
milho
ao governador, se o pusesse em liberdade, que o crebro do
abade
que esteve nesta cela antes do senhor se avariou.

- E h quanto tempo deixou esta cela?

- Dois anos.

- Puseram-no em liberdade?

- No, meteram-no numa masmorra.

- Escuta - disse Dants. - No sou um abade nem sou um louco.
Talvez o venha a ser, mas infelizmente, neste momento, ainda
estou em meu perfeito juzo. Vou fazer-te outra proposta.

- Qual?

- No te oferecerei um milho, porque no to poderia dar; mas
oferecer-te-ei cem escudos se quiseres, na primeira vez que
fores
a Marselha, descer at aos Catales e entregar uma carta a uma
rapariga chamada Mercds. Nem sequer uma carta, apenas duas
linhas.

- Se levasse essas duas linhas e fosse descoberto, perderia o
meu
lugar, que  de mil libras por ano, sem contar com os
extraordinrios e com a alimentao. Como v, seria um grande
imbecil se me arriscasse a perder mil libras para ganhar
trezentas.

- Nesse caso, escuta e toma bem nota disto - disse Dants. -
Se
recusas levar duas linhas a Mercds ou pelo menos preveni-la
de
que estou aqui, um dia esperar-te-ei escondido atrs da minha
porta e quando fores a entrar quebrar-te-ei a cabea com este
banco.

- Ameaas!... - exclamou o carcereiro, dando um passo atrs e
pondo-se na defensiva. - Decididamente, no est bom da
cabea.
O abade comeou como o senhor e dentro de trs dias o senhor
estar doido varrido como ele. Felizmente no faltam masmorras
no Castelo de If.

Dants pegou no banco e f-lo girar  volta da cabea.

- Est bem, est bem! - disse o carcereiro. - Pronto, uma vez
que
insiste, vou prevenir o governador.

- Depressa! - redarguiu Dants, voltando a pousar o banco no
cho
e sentando-se nele, de cabea baixa e olhos esgazeados, como
se
realmente tivesse enlouquecido.

O carcereiro saiu e regressou pouco depois com quatro soldados
e um cabo.

- Por ordem do governador - disse --, desam o prisioneiro
para
o andar por baixo deste.

- Para as masmorras, ento - observou o cabo.

- Sim, para as masmorras. Devem pr-se os loucos ao p dos
loucos.

Os quatro soldados agarraram Dants, que caiu numa espcie de
atonia e os acompanhou sem resistncia.

Fizeram-no descer quinze degraus e abriram a porta de uma
masmorra na qual entrou murmurando:

- Tem razo, devem pr-se os loucos ao p dos loucos.

A porta voltou a fechar-se e Dants caminhou em frente com as
mos estendidas at tocar na parede. Ento, sentou-se num
canto
e ficou imvel,  enquanto os seus olhos se habituavam pouco
a
pouco  obscuridade e comeavam a distinguir os objectos.

O carcereiro tinha razo: faltava muito pouco para que Dants
enlouquecesse.



captulo IX

A festa de noivado


Como dissemos, Villefort retomara o caminho da praa
Grand-Cours
e quando entrou em casa da Sr.a de Saint-Mran encontrou os
convivas, que deixara  mesa, a tomar o caf na sala.

Rene esperava-o com uma impacincia que era compartilhada por
todo o resto da sociedade. Foi, pois, acolhido com uma
exclamao
geral.

- Ento, cortador de cabeas, sustentculo do Estado, Bruto
monrquico, que aconteceu? - perguntou um. - Vamos, diga!

- Estamos ameaados por um novo regime de Terror? -  indagou
outro.

- O papo da Crsega saiu da sua caverna? inquiriu terceiro.

- Sr.a Marquesa - disse Villefort, aproximando-se da sua
futura
sogra --, suplico-lhe me desculpe de ser obrigado a deix-la
assim... Sr. Marqus, poderei ter a honra de lhe dizer duas
palavras em particular?

- Oh! Quer dizer que o caso  realmente grave? -  perguntou a
marquesa, notando a sombra que obscurecia a testa de
Villefort.

- To grave que sou obrigado a pedir-lhes licena para me
ausentar uns dias. Por aqui podem ver - continuou, virando-se
para Rene - se o caso  ou no grave.

- Parte, senhor? - perguntou Rene, incapaz de ocultar o abalo
que lhe causava aquela noticia inesperada.

- Infelizmente, menina - respondeu Villefort. -  preciso.

- E aonde vai? - perguntou a marquesa.

-  segredo de justia, minha senhora. No entanto, se algum
aqui
tem alguma coisa para Paris, um dos meus amigos partir esta
noite e encarregar-se- disso com prazer.
Toda a gente se entreolhou.

- Pediu-me que o ouvisse por um momento? - lembrou o marqus.

- Pedi. Passemos ao seu gabinete, por favor.

O marqus tomou o brao de Villefort e saiu com ele.

- Ento, que se passa? - perguntou quando chegaram ao
gabinete.
- Vamos, fale.

- Coisas que creio da mais alta gravidade e que exigem a minha
partida neste instante para Paris. Agora, marqus, desculpe a
indiscreta brutalidade da pergunta: possui ttulos do Estado?

- Toda a minha fortuna est em ttulos da dvida pblica;
seiscentos a setecentos mil francos, pouco mais ou menos.

- Venda-os marqus. Venda-os ou ficar arruinado.

- Mas como quer que os venda daqui?

- Tem um corrector, no tem?

- Tenho.

- D-me uma carta para ele, e que venda sem perda de um
minuto,
sem perda de um segundo. Poderei chegar at demasiado tarde.

- Demnio, nesse caso no percamos tempo! - exclamou o
marqus.

Sentou-se  secretria e escreveu uma carta ao seu corrector
na
qual lhe ordenava que vendesse a todo o custo.

- Agora que tenho esta carta - disse Villefort, guardando-a
cuidadosamente na carteira - preciso doutra.

- Para quem?

- Para o rei.

- Para o rei?

- Sim.

- Mas no me atrevo a escrever assim a Sua Majestade.

- Por isso, no  ao senhor que a peo, mas encarrego-o de a
pedir ao Sr. de Salvieux.  necessrio que me d uma carta com
o auxlio da qual possa penetrar at junto de Sua Majestade
sem
ser submetido a todas as formalidades de pedido de audincia
que
me podem fazer perder um tempo precioso.

- Mas no tem o ministro da Justia, que entra quando quer nas
Tulherias e por intermdio do qual poder, de dia e de noite,
chegar junto do rei?

- Tenho, sem dvida, mas para qu partilhar com outro o mrito
da notcia de que sou portador? Compreende o que quero dizer?
O
ministro relegar-me-ia muito naturalmente para segundo plano e
privar-me-ia de todo o proveito no caso. S lhe digo uma
coisa,
marqus: a minha carreira estar assegurada se conseguir ser o
primeiro a chegar s Tulherias, porque prestarei ao rei um
servio que lhe no ser permitido esquecer.

- Nesse caso, meu caro, v fazer as malas. Entretanto,
chamarei
Salvieux e pedir-lhe-ei que escreva a carta que dever
servir-lhe
de salvo-conduto.

- Bom, no perca tempo, pois dentro de um quarto de hora tenho
de tomar a sege de posta.

- Mande parar a carruagem diante da porta.

- Sem dvida nenhuma... Desculpar-me- junto da marquesa, no

verdade? E tambm junto de Mademoiselle de Saint-Mran, que
deixo num dia como este com bem profundo pesar.

- Encontrar ambas no meu gabinete e poder despedir-se delas.

- Mil vezes obrigado. Trate da minha carta.

O marqus tocou. Apareceu um lacaio.

- Diga ao conde Salvieux que o espero... V agora - continuou
o
marqus dirigindo-se a Villefort.

- Bom,  s o tempo de ir e vir.

E Villefort saiu a correr. Mas  porta pensou que um
substituto
do procurador rgio que fosse visto a caminhar em passos
precipitados se arriscaria a perturbar o repouso de toda a
cidade. Retomou portanto o seu passo normal
j de si solene.

 sua porta distinguiu na sombra como que um branco fantasma
que
o esperasse de p e imvel.

Era a bela rapariga catal que, no tendo notcias de Edmond,
esgueirara-se ao cair da noite do Pharo para vir saber
pessoalmente o motivo da priso do seu amado.

Ao aproximar-se Villefort, afastou-se da parede a que se
encostava e veio cortar-lhe o caminho. Dants falara da noiva
ao
substituto e Mercds no teve necessidade de se apresentar
para
que Villefort a reconhecesse. Ficou surpreendido com a
dignidade
daquela mulher e quando ela lhe perguntou que era feito do seu
amado pareceu-lhe ser ele o acusado e ela o juiz.

- O homem a que se refere - declarou Villefort, bruscamente -

um grande criminoso e no posso fazer nada por ele, menina.

Mercds deixou escapar um soluo e como Villefort procurasse
seguir o seu caminho ela deteve-o segunda vez.

- Mas ao menos onde est, para que me possa informar se se
encontra morto ou vivo? - perguntou.

- No sei, j me no pertence - respondeu Villefort.

E perturbado por aquele olhar meigo e por aquela atitude
suplicante, afastou Mercds, entrou e fechou rapidamente a
porta, como que para deixar do lado de fora aquela dor que lhe
traziam.

Mas a dor no se deixou repelir assim. Como o dado mortal de
que
fala Virglio, o homem ferido levou-a consigo.
Villefort entrou, fechou a porta, mas quando chegou  sala as
pernas fraquejaram-lhe por seu turno. Soltou um suspiro que
parecia um soluo e deixou-se cair numa poltrona.

Ento, no fundo daquele corao doente nasceu o primeiro germe
de uma lcera mortal. Aquele homem que sacrificava  sua
ambio,
aquele inocente que pagava pelo seu pai culpado, apareceu-lhe
plido e ameaador, dando a mo  noiva, plida como ele, e
arrastando atrs de si o remorso, no o que faz saltar o
doente
como os furiosos da fatalidade antiga, mas sim esse tinido
abafado e doloroso que em certos momentos atinge o corao e o
deixa contuso, ao recordar uma aco passada, contuso cujas
dores lancinantes cavam um mal que se vai aprofundando at 
morte.

Ento, houve na alma daquele homem ainda um instante de
hesitao. J diversas vezes pedira, e isso sem outra emoo
do
que a da luta do juiz com o acusado, a pena de morte contra os
rus; e esses rus, executados graas  eloquncia
avassaladora
com que dominara os juzes ou o jri, nem sequer lhe tinham
deixado uma sombra na fronte, porque eram culpados, ou pelo
menos
Villefort assim os considerava.

Mas desta vez o caso era muito diferente: acabava de aplicar a
um inocente uma pena de priso perptua, a um inocente que ia
ser
feliz e a quem roubava no s a liberdade, mas tambm a
felicidade. Desta vez j no era juiz, era carrasco.

Pensando nisto, sentia a palpitao abafada que descrevemos, e
que at ali desconhecera, ecoar-lhe no fundo do corao e
encher-lhe o peito de vagas apreenses.  assim, atravs do
violento sofrimento instintivo, que o ferido  avisado e
jamais
aproxima sem tremer o dedo da ferida aberta e sangrenta antes
de
ela fechar.

Mas a ferida que recebera Villefort era daquelas que no
fecham,
ou que s fecham para reabrir mais sangrentas e dolorosas do
que
anteriormente.

Se naquele momento a suave voz de Rene lhe tivesse soado aos
ouvidos pedindo-lhe compaixo; se a bela Mercds tivesse
entrado
e lhe tivesse dito: "Em nome de Deus que nos v e nos julga,
restitua-me o meu noivo"; sim, aquela fronte que as
circunstncias inclinavam at meio ter-se-ia curvado por
completo
e as mos geladas daquele homem teriam sem dvida, com r isco
de
tudo o que da pudesse resultar para ele, assinado o mandado
de
soltura de Dants. Mas nenhuma voz murmurou no silncio e a
porta
s se abriu para entrar o criado de quarto de Villefort, que
lhe
veio dizer que os cavalos de posta j estavam atrelados 
calea
de viagem.

Villefort levantou-se, ou antes, saltou como um homem que
vence
uma luta intima, correu para a secretria, meteu nas
algibeiras
todo o ouro que se encontrava numa gaveta, andou um instante
sobressaltado, pelo aposento, com a mo na testa e proferindo
palavras sem sentido, e por fim, sentindo que o criado acabava
de lhe pr a capa pelos ombros, saiu, meteu-se na carruagem e
ordenou com voz breve ao cocheiro que seguisse para a Rua do
Grand-Cours, para casa do Sr. de Saint-Mran.

O pobre Dants estava condenado.

Como o Sr. de Saint-Mran lhe prometera, Villefort encontrou
a
marquesa e Rene no gabinete. Ao ver Rene, o jovem
estremeceu,
pois julgou que ela lhe tosse pedir de novo a liberdade de
Dants. Mas, ai de ns, devemos confess-lo para vergonha do
nosso egosmo, a linda rapariga estava preocupada com uma
coisa:
a partida de Villefort.

Amava Villefort e Villefort partia no momento de se tornar seu
marido. Villefort no podia dizer quando voltaria e Rene, em
vez
de lamentar Dants, amaldioou o homem que devido ao seu crime
a separava do amado.

E Mercds?

A pobre Mercds encontrara Fernand, que a seguira,  esquina
da
Rua de Loge, regressara aos Catales e, com a morte na alma,
desesperada, atirara-se para cima da cama.

Fernand ajoelhara diante dessa cama e, apertando a mo gelada
de
Mercds, que esta no se lembrava de retirar, cobria-lha de
beijos ardentes que Mercds nem sequer sentia.

A jovem passou a noite assim. O candeeiro apagou-se quando o
azeite se acabou, mas Mercds no deu mais pela obscuridade
do
que dera pela luz e o dia voltou sem que desse por ele.

A dor pusera-lhe diante dos olhos uma venda que s a deixava
ver
Edmond.

- Ah, ests a!... - disse por fim, virando-se para o lado de
Fernand.

- Desde ontem que te no deixo - respondeu Fernand, com um
suspiro doloroso.

O Sr. Morrel dera-se por vencido. Soubera que depois do seu
interrogatrio Dants fora levado para a priso. Correra ento
a casa de todos os seus amigos, apresentara-se em casa das
pessoas de Marselha susceptveis de possurem influncia, mas
j
se espalhara o boato de que o rapaz fora preso como agente
bonapartista, e como nessa poca os mais optimistas
consideravam
um sonho insensato qualquer tentativa de Napoleo para
recuperar
o trono, s encontrara por toda a parte frieza, medo ou
repdio
e regressara a casa desesperado e reconhecendo que a situao
era
grave e ningum podia fazer nada.

Pela sua parte, Caderousse estava deveras inquieto e
atormentado.
Em vez de sair, como fizera o Sr. Morrel; em vez de tentar
qualquer coisa a favor de Dants, embora, alis, nada pudesse
fazer por ele, fechara-se em casa com duas garrafas de cssis
e
procurara afogar a inquietao na embriaguez. Mas no estado de
esprito em que se encontrava duas garrafas eram pouqussimo
para
o porem inconsciente. Ficara portanto demasiado brio para ir
buscar mais vinho e insuficientemente embriagado para que a
embriaguez lhe extinguisse as recordaes, apoiado nos
cotovelos
diante das duas garrafas vazias postas em cima de uma mesa
coxa
e vendo danar,  luz da vela de pavio comprido, todos os
espectros que Hoffmann espalhou pelos seus manuscritos hmidos
de ponche como uma poalha negra e fantstica.

S Danglars no estava atormentado nem inquieto. Danglars
estava
at alegre, pois vingara-se de um inimigo e assegurara a bordo
do Pharaon o lugar que temia perder. Danglars era um desses
homens calculistas que nascem com uma pena atrs da orelha e
um
tinteiro no lugar do corao. Neste mundo tudo era para ele
subtraco ou multiplicao, e um nmero parecia-lhe muito
mais
precioso do que um homem, quando esse nmero podia aumentar o
total que o homem podia diminuir.

Portanto, Danglars deitara-se  hora habitual e dormia
tranquilamente.

Depois de receber a carta do Sr. Salvieux, beijar Rene nas
duas
faces, beijar a mo da Sr.a de Saint-Mran e apertar a do
marqus, Villefort corria pela estrada de Aix.

o Tio Dants morria de dor e inquietao.

Quanto a Edmond, sabemos o que lhe aconteceu.


Captulo X

O Gabinetezinho das Tulherias


Deixemos Villefort na estrada de Paris, onde, graas a no
olhar
a despesas, viaja a toda a velocidade, e penetremos atravs
das
duas ou trs salas que o precedem no gabinetezinho das
Tulherias,
de janela arqueada, to bem conhecido por ter sido o gabinete
favorito de Napoleo e de Lus XVIII e ser hoje o de Lus
Filipe.

A, nesse gabinete, sentado diante de uma mesa de nogueira que
trouxera de Hartwell e que, por uma dessas manias familiares
s
grandes personagens, lhe era especialmente querida, o rei Lus
XVIII escutava bastante superficialmente um homem de cinquenta
a cinquenta e dois anos, de cabelos grisalhos, figura
aristocrtica e aspecto impecvel, enquanto anotava  margem
um
volume de Horcio, edio Gryphius, bastante incorrecta apesar
de valiosa, e que se prestava muito s sagazes observaes
filolgicas de Sua Majestade.

- Diz ento, senhor... - interveio o rei.

- Que estou deveras inquieto, sire.

- Sim? Ter sonhado com sete vacas gordas e sete vacas magras?


- No, Sire, pois isso s nos anunciaria sete anos de
fertilidade e sete anos de penria, e, com um rei to
previdente
como Vossa Majestade, a penria no  de temer.

- Ento de que outro flagelo se trata, meu caro Blacas?

- Sire, tenho todos os motivos para crer que se est a
formar
uma tempestade para os lados do Meio-Dia.

- No, meu caro duque, creio que est mal informado -
respondeu
Lus XVIII. - Pelo contrrio, sei positivamente que o tempo
est
excelente para esses lados.

Como homem de esprito que era, Lus XVIII apreciava o gracejo
fcil.

- Sire - voltou  carga o Sr. de Blacas --, quanto mais no
fosse para tranquilizar um fiel servidor, Vossa Majestade no
poderia enviar ao Linguadoque,  Provena e ao Delfinado
homens
de confiana que lhe fizessem um relatrio acerca do estado de
espirito dessas trs provncias?

- Conimus surdis - respondeu o rei, continuando a anotar o
seu
Horcio.

- Sire - redarguiu o corteso rindo, para ter o ar de
compreender o hemistquio do poeta de Vensia --, Vossa
Majestade
pode ter perfeitamente razo contando com a sensatez da
Frana;
mas eu creio no estar completamente enganado receando
qualquer
tentativa desesperada.

- Da parte de quem?

- Da parte de Bonaparte ou pelo menos do seu partido.

- Meu caro Blacas, impede-me de trabalhar, com os seus
terrores
- observou o rei.

- E a mim, Sire, Vossa Majestade impede-me de dormir, com a
sua confiana.

- Espere, meu caro, espere. Tenho uma nota muito feliz a
respeito
do "Pastor quum traheret". Espere e continuar depois.

Fez-se um instante de silncio, durante o qual Lus XVIII
escreveu, com letra to pequena quanto possvel uma nova nota

margem do seu Horcio. Depois dessa nota escrita, disse
levantando-se com o ar satisfeito de um homem que julga ter
tido
uma ideia quando se limitou a comentar a ideia de outro:

- Continue, meu caro duque. Continue, escuto-o.

- Sire - comeou Blacas, que por um instante alimentara a
esperana de confiscar Villefort em seu proveito --, sou
forado
a dizer-lhe que no so de modo algum simples boatos sem
fundamento, simples palavras no ar que me preocupam.  um
homem
bem pensante, merecedor de toda a minha confiana e
encarregado
por mim de vigiar o Meio-Dia (o duque hesitou ao pronunciar
estas palavras), que chega pela posta para me dizer: "Um
grande
perigo ameaa o rei."  por isso que estou aqui, Sire.

- "Mala ducis ari domum - continuou Lus XVIII a anotar.

- Vossa Majestade ordena-me que no volte a insistir neste
assunto?

- No, meu caro duque; mas estenda a mo.

- Qual?

- A que quiser, ali,  esquerda.

- Aqui, Sire?

- Digo-lhe  esquerda e voc procura  direita... Quero dizer

minha  esquerda. A... Acertou. Deve encontrar a o
relatrio
do ministro da Polcia datado de ontem... Mas veja, a est o
prprio Sr. Dandr... No foi o Sr. Dandr que disse? -
interrompeu-se Lus XVIII, dirigindo-se ao contnuo que,
efectivamente, acabava de anunciar o ministro da Polcia.

- Foi, Sire, o Sr. Baro Dandr - repetiu o contnuo.

- Vem a propsito, baro - prosseguiu Lus XVIII com um
sorriso
imperceptvel. - Entre, baro, e conte ao duque o que sabe de
mais recente acerca do Sr. Bonaparte. No nos dissimule nada
da
situao, por mais grave que seja. Vejamos, a ilha de Elba 
um
vulco do qual vamos ver sair a guerra chame jante e toda
eriada: "Bella, horrida bella?"

O Sr. Dandr balouou-se muito graciosamente nas costas de uma
poltrona em que apoiava as mos e disse:

- Vossa Majestade dignou-se consultar o relatrio de ontem? -
Sim, sim. Mas diga ao duque, que o no consegue encontrar, o
que
continha o relatrio. Descreva-lhe em pormenor o que faz o
usurpador na sua ilha.

- Senhor - disse o baro ao duque --, todos os servidores de
Sua
Majestade se devem regozijar com as notcias que nos chegaram
recentemente da ilha de Elba. Bonaparte...

O Sr. Dandr olhou para Lus XVIII que, ocupado a escrever uma
nota, nem sequer levantou a cabea.

- Bonaparte - continuou o baro - aborrece-se mortalmente.
Passa
dias inteiros a ver trabalhar os seus mineiros de Porto
Longone.

- E coa-se para se distrair - observou o rei.

- Coa-se? - estranhou o duque. - Que quer dizer Vossa
Majestade?

- Sim, sim, meu caro duque. Esquece-se de que esse grande
homem,
esse heri, esse semideus, sofre de uma doena de pele que o
devora, o "purigo"?

- Mas h mais, Sr. Duque - continuou o ministro da Polcia. -
Temos quase a certeza de que dentro de pouco tempo o usurpador
estar louco.

- Louco?

- Doido varrido. A sua cabea enfraquece; to depressa se
desfaz
em lgrimas como ri a bandeiras despregadas. Outras vezes
passa
horas  beira-mar a lanar seixos  gua, e quando o seixo faz
cinco ou seis ricochetes parece to satisfeito como se tivesse
ganho um outro Marengo ou um novo Austerlitz. Decerto
concordam
que se trata de sinais de loucura.

- Ou de sensatez, Sr. Baro, ou de sensatez - observou Lus
XVIII
rindo. - Era atirando seixos ao mar que se entretinham os
grandes
capites da Antiguidade. Vejam Plutarco, na vida de
Cipio-o-Africano.

O Sr. de Blacas ficou pensativo entre as duas hipteses.
Villefort, que lhe no quisera dizer tudo para que o outro no
lhe roubasse o lucro completo do seu segredo, dissera-lhe no
entanto o suficiente para lhe dar graves inquietaes.

- Vamos, vamos, Dandr - insistiu Lus XVIII.
- Blacas ainda no est convencido. Passe  converso do
usurpador.

O ministro da Polcia inclinou-se.

- A converso do usurpador! - murmurou o duque, olhando o rei
e
Dandr, que alternavam como dois pastores de Virglio. - O
usurpador converteu-se?

- Absolutamente, meu caro duque.

- Aos bons princpios? Explique isso, baro.

- Aqui tem o que aconteceu, Sr. Duque - principiou o ministro
com
a maior seriedade do mundo. - Ultimamente, Napoleo passou uma
revista e como dois ou trs dos seus velhos caturras, como
lhes
chama, manifestassem vontade de regressar a Frana,
autorizou-os
e exortou-os a servir o seu bom rei. Foram estas as suas
prprios
palavras, Sr. Duque, garanto-lhe.

- Ento, Blacas, que me diz a isto? - perguntou o rei,
triunfante, deixando por um instante de compulsar o calhamao
aberto diante de si.

- Digo, Sire, que ou o Sr. Ministro da Polcia ou eu
estamos
enganados. Mas como  impossvel que seja o ministro da
Polcia,
que tem  sua guarda a vida e a honra de Vossa Majestade, 
provvel que o erro seja meu. No entanto, Sire, no lugar de
Vossa Majestade gostaria de interrogar a pessoa de quem lhe
falei. Insisto at em que Vossa Majestade lhe conceda essa
honra.

- Com muito prazer, duque. Sob os seus auspcios, receberei
quem
o senhor quiser. Mas quero receb-lo de armas na mo. Sr.
Ministro, no tem um relatrio mais recente do que este? Este
tem
j a data de 20 de Fevereiro e estamos em 3 de Maro!

- No, Sire, mas espero um de um momento para o outro. Sa
de
manh e talvez tenha chegado na minha ausncia.

- V  Prefeituria e se no tiver chegado... bom - continuou,
rindo, Lus XVIII --, faa um. No  assim que resolve o
problema?

- Oh, Sire! - protestou o ministro. - Graas a Deus, quanto
a esse relatrio no  preciso inventar nada. Todos os dias as
nossas reparties se enchem com as denncias mais
circunstanciadas, provenientes de uma multido de pobres
diabos
que esperam um pouco de reconhecimento por servios que no
prestam, mas que desejariam prestar. Confiam no acaso e
esperam
que um dia qualquer acontecimento inesperado d uma espcie de
realidade s suas predies.

- Pois sim. V, senhor - disse Lus XVIII --, e lembre-se de
que
o espero.

- Irei num p e virei noutro, Sire. Dentro de dez minutos
estarei de volta.

- E eu, Sire - disse o Sr. de Blacas --, vou buscar o meu
mensageiro.

- Espere, espere! - atalhou Lus XVIII. - Na verdade, Blacas,
parece-me que devo modificar as suas armas: dar-lhe-ei uma
guia
de asas abertas segurando nas garras uma presa que procura
inutilmente escapar-lhe, com esta divisa: "Tenax".

- Sire, sou todo ouvidos - disse o Sr. de Blacas, que mal
continha a sua impacincia.

- Gostaria de o consultar acerca desta passagem: "Molli
fugiens
anhelitu". Como sabe, trata-se de um veado que foge diante de
um lobo. O senhor no  caador e monteiro-mor? Que lhe
parece,
a esse duplo titulo, o "molli anhelitu".

- Admirvel, Sire. Mas o meu mensageiro  como o veado de
que
Vossa Majestade fala, pois acaba de percorrer 220 lguas em
posta, e isso apenas em trs dias.

- J  vontade de apanhar uma estafa e uma carga de
preocupaes,
meu caro duque, quando temos o telgrafo que no gasta mais de
trs ou quatro horas, e isso sem que o seu flego se altere
absolutamente nada.

- Ah, Sire, recompensa muito mal esse pobre rapaz que vem
de
to longe  e com tanto ardor para dar a Vossa Majestade um
aviso til. Quanto mais no seja em ateno para com o Sr. de
Salvieux, que mo recomenda, recebei-o bem, suplico-vos.

- O Sr. de Salvieux, o camareiro do meu irmo?

- O prprio.

- Com efeito, ele est em Marselha.

-  de l que me escreve.

- Fala-lhe tambm dessa conspirao?

- No, mas recomenda-me o Sr. de Villefort e encarrega-me de o
introduzir junto de Vossa Majestade.

- Sr. de Villefort? - sobressaltou-se o rei. - Esse mensageiro
chama-se Sr. de Villefort?

- Chama, sire.

- E  ele que vem de Marselha?

- Em pessoa.

- Porque no me disse imediatamente o seu nome? - inquiriu o
rei,
deixando transparecer no rosto um princpio de inquietao.

- sire, julgava esse nome desconhecido de Vossa Majestade.

- De modo nenhum, de modo nenhum, Blacas. Trata-se de um
esprito
srio, elevado, sobretudo ambicioso. E, evidentemente, voc
conhece de nome o pai dele.

- O pai dele?

- Sim, Noirtier.

- Noirtier, o girondino? Noirtier, o senador?

- Exactamente.

- E Vossa Majestade empregou o filho de semelhante homem?

- Blacas, meu amigo, voc no percebe nada disto. J lhe disse
que Villefort era ambicioso. Para levar a gua ao seu moinho,
Villefort sacrificar tudo, mesmo o pai.

- Ento, sire, devo mand-lo entrar?

- Imediatamente, duque. Onde est ele?

- Deve esperar-me l em baixo, na minha carruagem.

- V busc-lo.

- Sem demora.

O duque saiu com a vivacidade de um rapaz; o ardor do seu
realismo sincero dava-lhe vinte anos.

Lus XVIII ficou s, passando os olhos pelo seu Horcio
entreaberto e murmurando: "Justum et tenacem propositi virum."

O Sr. de Blacas tornou a subir com a mesma rapidez com que
descera; mas na antecmara foi obrigado a invocar a autoridade
do rei. A sobrecasaca poeirenta de Villefort, todo o seu
traje,
onde nada estava de acordo com a apresentao de corte, ferira
as suas susceptibilidades do Sr. de Brz, que ficou espantado
com a pretenso daquele jovem de aparecer assim vestido diante
do rei. Mas o duque arredou todas as dificuldades com uma
nica
palavra: "Ordem de Sua Majestade." E apesar das observaes
que
continuou a fazer o mestre de cerimnias, para honrar os
princpios, Villefort foi introduzido.

O rei estava sentado no mesmo lugar onde o deixara o duque. Ao
abrir a  porta, Villefort encontrou-se precisamente diante
dele. O primeiro impulso do jovem magistrado foi deter-se.

- Entre, Sr. de Villefort, entre - disse o rei.

Villefort cumprimentou, deu alguns passos em frente e esperou
que
o rei o interrogasse.

- Sr. de Villefort - continuou Lus XVIII --, o duque de
Blacas
pretende que o senhor tem qualquer coisa importante a
dizer-nos.

- Sire, o Sr. Duque tem razo e espero que Vossa Majestade
seja o primeiro a reconhec-lo.

- Antes de mais nada, senhor, o mal  assim to grande, na sua
opinio, como me querem fazer crer?

- Sire, julgo-o instante; mas graas  diligncia que fiz,
julgo no ser irreparvel.

- Fale  vontade, senhor - disse o rei, que comeava ele
prprio
a ceder  emoo que perturbava o rosto do Sr. de Blacas e
alterara a voz de Villefort. - Fale e sobretudo comece pelo
princpio: gosto de ordem em todas as coisas.

- Sire - disse Villefort --, apresentarei a Vossa Majestade
um relatrio fiel, mas suplico-lhe me desculpe se a
perturbao
que me domina lanar alguma obscuridade nas minhas palavras.

Uma olhadela deitada ao rei depois deste exrdio insinuante
assegurou a Villefort a benevolncia de seu augusto ouvinte.
Continuou:

- Sire, dirigi-me o mais rapidamente possvel para Paris a
fim
de informar Vossa Majestade de que no exerccio das minhas
funes descobri no uma dessas conspiraes vulgares e sem
consequncias, como as que se tramam todos os dias nas ltimas
camadas do povo e do Exrcito, mas sim uma verdadeira
conspirao, uma tempestade que ameaa nada menos do que o
trono
de Vossa Majestade. sire, o usurpador armou trs navios.
Medita qualquer projecto, talvez insensato, mas tambm
terrvel,
por mais insensato que seja. A esta hora deve ter deixado a
ilha
de Elba. Para ir aonde? Ignoro, mas com certeza para tentar um
desembarque, quer em Npoles, quer nas costas da Toscana, quer
mesmo em Frana. Vossa Majestade no ignora que o soberano da
ilha de Elba conservou relaes com a Itlia e com a Frana.

- Sim. senhor, bem o sei - declarou o rei, muito
impressionado-e
ainda recentemente me avisaram de que se realizavam reunies
bonapartistas na Rua de Saint-Jacques. Mas continue,
peo-lhe.
Como soube desses pormenores?

- sire, so o resultado de um interrogatrio a que submeti
um
homem de Marselha que vigiava havia muito tempo e que mandei
prender no prprio dia da minha partida. Esse homem,
marinheiro
turbulento e de um bonapartismo que se me tornou suspeito,
esteve
secretamente na ilha de Elba, onde falou com o grande
marechal,
que o encarregou de uma misso verbal para um bonapartista de
Paris cujo nome no consegui obrig-lo a dizer. Mas a misso
consistia em encarregar esse bonapartista de preparar os
espritos para um regresso (note que estou a reproduzir o
interrogatrio. sire), para um regresso que no pode deixar
de estar prximo.

- E onde est esse homem? - perguntou Lus XVIII.

- Na priso, sire.

- E o caso pareceu-lhe grave?

- To grave, sire, que tendo-me surpreendido no meio de uma
festa de famlia, no prprio dia do meu noivado, deixei tudo,
noiva e amigos, adiei tudo para outra altura, a fim de vir
depor
aos ps de Vossa Majestade, juntamente com os meus temores, a
certeza da minha dedicao.

- De facto - disse Lus XVIII --, no havia um projecto de
unio
entre o senhor e Mademoiselle de Saint-Mran?

- A filha de um dos mais fiis servidores de Vossa Majestade.

- Sim, sim. Mas voltemos a essa conspirao, Sr. de Villefort.

- sire, receio que seja mais do que uma conspirao...

- Nestes tempos - disse o rei, sorrindo --, uma conspirao 
coisa fcil de planear, mas mais difcil de conduzir ao seu
fim,
exactamente porque recolocados h pouco tempo no trono dos
nossos
antepassados, temos os olhos abertos ao mesmo tempo para o
passado, para o presente e para o futuro. H dez meses que os
meus ministros redobram de vigilncia para que o litoral do
Mediterrneo esteja bem guardado. Se Bonaparte desembarcasse
em
Npoles, a coligao em peso estaria em p de guerra antes de
ele
chegar sequer ao Piombino. Se desembarcasse na Toscana, poria
o
p em territrio inimigo. Se desembarcasse em Frana, ser com
um punhado de homens, e venc-lo-emos facilmente, execrado
como
 pela populao. Tranquilize-se portanto, senhor. Mas nem por
isso conte menos com o nosso reconhecimento real.

- Ah, c est o Sr. Dandr! - exclamou o duque de Blacas.
Nesta altura apareceu, com efeito, no limiar da porta o Sr.
Ministro da Polcia, plido, trmulo, e cujo olhar vacilava
como
se tivesse sido vitima de um deslumbramento.

Villefort deu um passo para se retirar, mas um aperto de mo
do
Sr. de Blacas reteve-o.


Captulo XI

O Papo da Crsega


Ao ver o ar transtornado daquele rosto, Lus XVIII empurrou
violentamente a mesa diante da qual se encontrava.

- Que tem, Sr. Baro? - perguntou. - Parece muito
transtornado.
Essa perturbao, essa hesitao, tm alguma coisa a ver com o
que dizia o Sr. de Blacas e com o que acaba de me confirmar o
Sr.
de Villefort?

Pela sua parte, o Sr. de Blacas aproximava-se vivamente do
baro,
mas o terror do corteso impedia de triunfar o orgulho do
estadista. Com efeito, em semelhantes circunstncias era muito
mais vantajoso para ele ser humilhado pelo ministro da Polcia
do que humilh-lo em tal caso.

- sire... - balbuciou o baro.

- Fale! - ordenou Lus XVIII.

Cedendo ento a um impulso de desespero, o ministro da Polcia
 precipitou-se aos ps de Lus XVIII, que recuou um passo e
franziu o sobrolho.

- Quer fazer o favor de falar? - insistiu.

- Oh, sire, que horrvel desgraa! Nunca me penitenciarei
suficientemente. nunca me resignarei!

- Senhor - disse Lus XVIII --, ordeno-lhe que fale.

- Pois bem, sire, o usurpador deixou a ilha de Elba em 28
de
Fevereiro e desembarcou em 1 de Maro.

- Onde? - perguntou vivamente o rei.

- Em Frana, sire, num portinho perto de Antibes, no golfo
Juan.

- O usurpador desembarcou em Frana, perto de Antibes, no
golfo
Juan, a duzentas e cinquenta lguas de Paris, no dia 1 de
Maro,
e o senhor s sabe disso hoje, 3 de Maro!... Senhor, o que me
diz  impossvel: ou lhe fizeram um relatrio falso ou o
senhor
endoideceu.

- Infelizmcnte, sire,  a pura verdade!

Lus XVIII fez um gesto indizvel de clera e terror e
aprumou-se
como se um golpe imprevisto o tivesse atingido ao mesmo tempo
no
corao e no rosto.

- Em Frana! - exclamou. - O usurpador em Frana! Mas ento
ningum vigiava esse homem? Quem sabe se no estariam feitos
com
ele...

- Oh, sire - interveio o duque de Blacas --, no se pode
acusar de traio um homem como o Sr. Dandr! sire,
estvamos
todos cegos e o ministro da Polcia compartilhou a cegueira
geral, mais nada.

- Mas... - comeou Villefort; depois, detendo-se de sbito. -
Ah,
perdo, sire! - exclamou inclinando-se. - O meu zelo
domina-me. Que Vossa Majestade se digne desculpar-me.

- Fale, senhor, fale  vontade - disse o rei. - J que foi o
nico a prevenir-nos do mal, ajude-nos a encontrar-lhe o
remdio.

- sire - declarou Villefort --, o usurpador  detestado no
Meio-Dia. Parece-me portanto que se se aventurar no Meio-Dia
se poder sublevar facilmente contra ele a Provena e o
Linguadoque.

- Sim, sem dvida - concordou o ministro --, mas ele avana
por
Cap e Sisteron.

- Ele avana, ele avana... - repetiu Lus XVIII. - Quer dizer
que marcha sobre Paris?

O ministro da Polcia guardou um silncio que equivalia  mais
completa confisso.

- E o Delfinado, senhor? - perguntou o rei a Villefort. - Acha
que se poder sublevar como a Provena?

- sire, custa-me dizer a Vossa Majestade uma verdade cruel,
mas o esprito do Delfinado est longe de valer o da Provena
e
a do Linguadoque. Os montanheses so bonapartistas, sire.

- Claro - murmurou Lus XVIII --, informou-se bem... E quantos
homens traz consigo?

- No sei, sire - respondeu o ministro da Polcia.

- Como? No sabe?! Esqueceu-se de se informar desse pormenor?
Verdade seja que  de pouca importncia - acrescentou com um
sorriso demolidor.

- sire, no me pude informar a esse respeito. O despacho
anunciava  simplesmente o desembarque e a estrada tomada
pelo
usurpador.

- E como chegou s suas mos esse despacho? - perguntou o rei.

O ministro baixou a cabea e um vivo rubor invadiu-lhe a
testa.

- Pelo telgrafo, sire - balbuciou.

Lus XVIII deu um passo em frente e cruzou os braos como
teria
feito Napoleo.

- Assim - disse empalidecendo de clera --, sete exrcitos
coligados derrubaram esse homem; um milagre do Cu
recolocou-me
no trono dos meus avs depois de vinte anos de exlio; durante
esses vinte e cinco anos estudei, sondei, analisei os homens e
as coisas desta Frana que me estava prometida. Para qu? Para
no fim de tudo isto uma fora que tinha na mo rebentar e
destruir-me!

- sire,  a fatalidade - murmurou o ministro, sentindo que
semelhante peso, leve para o destino, bastava para esmagar um
homem.

- Mas ento  verdade o que diziam de ns os nossos inimigos:
"No aprenderam nem esqueceram nada?" Se tivesse sido
atraioado
por pessoas elevadas por mim s dignidades, que deveriam velar
por mim mais cuidadosamente do que por si mesmas, porque a
minha
fortuna era a sua, antes de mim no eram nada e depois de mim
nada seriam, mas cair miseravelmente por incapacidade, por
inpcia! Ah, sim, senhor, tem razo,  uma fatalidade.

O ministro mantinha-se curvado debaixo deste espantoso
antema.

O Sr. de Blacas enxugava a testa coberta de suor. Villefort
sorria intimamente porque sentia crescer a sua importncia.

- Cair - continuava Lus XVIII, que ao primeiro relance de
olhos
sondava o princpio para onde se inclinava a monarquia --,
cair
e saber da queda pelo telgrafo! Oh, preferiria subir o
cadafalso
do meu irmo Lus XVI a descer assim a escadaria das
Tulherias,
corrido pelo ridculo!... O ridculo, que o senhor no sabe o
que
 em Frana, embora o devesse saber.

- sire, sire - murmurou o ministro --, por piedade!...

- Aproxime-se, Sr. de Villefort - continuou o rei,
dirigindo-se
ao jovem que de p, imvel e atrs observava o andamento
daquele
dilogo onde pairava, perdido, o destino de um reino --, e
diga
a este senhor que se podia saber com antecedncia tudo o que
ele
no soube.

- sire, era materialmente impossvel adivinhar projectos
que
esse homem ocultava a toda a gente.

- Materialmente impossvel! Ora ai est uma grande frase,
senhor.
Infelizmente, h grandes frases assim como h grandes homens;
j
medi umas e outros. Materialmente impossvel a um ministro,
que
tem uma administrao, reparties, agentes, informadores,
espies e um milho e quinhentos mil francos de fundos
secretos
saber o que se passa a sessenta lguas das costas da Frana!
Pois
bem, veja, senhor, aqui tem quem no tinha nenhum desses
recursos
 sua disposio; aqui tem, senhor, um simples magistrado que
a
tal respeito sabia mais do que o senhor com toda a sua polcia
e que me teria salvado a coroa se tivesse tido como o senhor o
direito de dirigir um telgrafo.

O olhar do ministro da Polcia virou-se com expresso de
profundo
desprezo para Villefort, que inclinou a cabea com a modstia
do
triunfo.

- No digo isto em sua inteno, Blacas - continuou Lus XVIII
--,  porque se voc nada descobriu, ao menos teve a feliz
ideia
de perseverar a sua desconfiana. Outro que fosse talvez
tivesse
considerado a revelao do Sr. de Villefort insignificante ou
ento sugerida por uma ambio venal.

Estas palavras aludiam s que o ministro da Polcia
pronunciara
com tanta confiana uma hora antes.

Villefort compreendeu o jogo do rei. Outro talvez se tivesse
deixado empolgar pela embriaguez do elogio; mas ele temia
fazer
do ministro da Polcia um inimigo mortal, embora sentisse que
este estava irremediavelmente perdido. Com efeito, o ministro
que
na plenitude do seu poder no soubera adivinhar o segredo de
Napoleo, poderia nas convulses da sua agonia, descobrir o de
Villefort. Para isso, bastar-lhe-ia interrogar Dants. Veio,
pois, em socorro do ministro em vez de o enterrar.

- sire - disse Villefort --, a rapidez dos acontecimentos
deve
provar a Vossa Majestade que s Deus os poderia impedir
levantando uma tempestade. O que Vossa Majestade julga da
minha
parte o efeito de uma profunda perspiccia deve-se pura e
simplesmente ao acaso. Aproveitei esse acaso como servidor
dedicado e mais nada. No me conceda mais do que mereo,
sire,
para nunca voltar atrs na primeira ideia que tiver concebido
a
meu respeito.

O ministro da Polcia agradeceu ao jovem com um olhar
eloquente
e Villefort compreendeu que tora bem sucedido no seu projecto,
isto , que sem perder nada do reconhecimento do rei acabava
de
fazer um amigo com que, se fosse caso disso, poderia contar.

- Est bem - disse o rei. - E agora, meus senhores -
prosseguiu
virando-se para o Sr. de Blacas e para o ministro da Polcia
--,
j no me so necessrios, podem-se retirar. O que resta fazer
 da competncia do ministro da Guerra.

- Ainda bem, sire - disse o Sr. de Blacas --, que podemos
contar
com o Exrcito. Vossa Majestade sabe como todos os relatrios
o
do como dedicado ao seu governo.

- No me venha com relatrios! Agora, duque, - sei a confiana
que se pode ter neles. Eh! Mas a propsito de relatrios, Sr.
Baro, que soube de novo acerca do caso da Rua Saint-Jacques?

- Acerca do caso da Rua Saint-Jacques! - deixou escapar
Villefort, sem conter uma exclamao.

Mas deteve-se de sbito e disse:

- Perdo, sire, a minha dedicao a Vossa Majestade faz-me
constantemente esquecer, no o respeito que lhe devo e que
est
muito profundamente gravado no meu corao, mas sim as regras
da
etiqueta.

- No se preocupe com isso, senhor - redarguiu Lus XVIII. -
Hoje
adquiriu o direito de interrogar.

- sire - respondeu o ministro da Polcia --, vinha
precisamente dar hoje a Vossa Majestade as novas informaes
que
recolhi a esse respeito quando a ateno de Vossa Majestade
foi
desviada para a terrvel catstrofe do golfo. Agora essas
informaes j no tm nenhum interesse para o rei.

- Pelo contrrio, senhor, pelo contrrio - replicou Lus
XVIII.
- Esse caso parece-me ter relao directa com aquele de que
nos
ocupamos e a morte do general Quesnel talvez nos ponha na
pista
de uma grande conspirao
interna.

Ao ouvir o nome do general quesnel, Villetort estremeceu.

- Com efeito, sire - prosseguiu o ministro da Polcia --,
tudo
leva a crer que essa morte  o resultado no de um suicdio,
como
a principio pareceu, mas sim de um assassnio. Ao que parece,
o
general Quesnel saa de um clube bonaparlista quando
desapareceu.
Nessa mesma manh fora procurado por um homem desconhecido que
lhe marcara encontro na Rua Saint-Jacques. Infelizmente, o
criado de quarto do general, que o penteava no momento em que
o
desconhecido foi introduzido no gabinete, ouviu-o
perfeitamente
indicar a Rua Saint-Jacques, mas no fixou o nmero.

 medida que o ministro da Polcia dava ao rei Lus XVIII
estas
informaes, Villefort, que parecia suspenso dos seus lbios,
corava e empalidecia.

O rei virou-se para ele.

- No lhe parece, como a mim, Sr. de Villefort, que o general
Quesnel, que se poderia crer ligado ao usurpador, mas que na
realidade me pertencia de corpo e alma, foi vtima de uma
cilada
bonapartista?

-  provvel, sire - respondeu Villefort. - Mas no se
sabe
mais nada?

- Estamos na pista do homem que marcou o encontro.

- Na sua pista? - repetiu Villefort.

- Sim. O criado deu os seus sinais. E um homem de cinquenta a
cinquenta e dois anos, moreno, de olhos negros cobertos de
sobrancelhas espessas e bigode. Envergava sobrecasaca azul e
usava na lapela uma roseta de oficial da Legio de Honra.
Ontem
seguiu-se um indivduo cujos sinais correspondiam exactamente
aos
que acabo de dar, mas desapareceu  esquina da Rua da
Jussienne
com a do Coq-Hron.

Villefort apoiara-se nas costas de uma poltrona. Porque 
medida
que o ministro da Polcia falava sentia as pernas faltarem-lhe
debaixo do corpo. Mas quando viu que o homem escapara 
perseguio do agente que o seguia, respirou.

- Procure esse homem, senhor - disse o rei ao ministro da
Polcia. - Porque se, como tudo me leva a crer, o general
Quesnel, que nos seria to til neste momento, foi vtima de
um
assassino, bonapartista ou no, quero que os seus assassinos
sejam cruelmente punidos.

Villefort necessitou de todo o seu sangue-frio para no deixar
transparecer o terror que lhe inspirava a recomendao do rei.

- Coisa estranha! - continuou o monarca com um gesto de humor.
- A Polcia julga ter dito tudo quando diz: "Cometeu-se um
assassnio." E tudo ter feito quando acrescenta: "Estamos na
pista dos culpados."

- sire, pelo menos nesse caso Vossa Majestade ficar
satisfeito, assim espero.

- Veremos. No o retenho mais tempo, baro. Sr. de Villefort,
deve estar cansado dessa longa viagem; v descansar.
Instalou-se
com certeza em casa de seu pai?

Uma sombra passou pelos olhos de Villefort.

- No, sire - respondeu. - Hospedei-me no Hotel de Madrid,
na
Rua de Tournon.

- Mas viu-o?

- sire, a primeira coisa que fiz foi dirigir-me a casa do
Sr.
Duque de Blacas.

- Mas v-lo-, ao menos?

- No o penso, sire.

- Ah,  justo! - exclamou Lus XVIII, sorrindo de maneira que
demonstrava que todas estas perguntas reiteradas no tinham
sido
feitas sem inteno. - Esquecia-me de que o senhor no est de
boas relaes com o Sr. Noirtier. Trata-se de um novo
sacrifcio
feito  causa monrquica de que devo recompens-lo.

-- sire, a bondade que Vossa Majestade me testemunha 
recompensa que ultrapassa tanto todas as minhas ambies que
no
tenho mais nada a pedir ao rei.

- No importa, senhor, e no o esqueceremos, esteja tranquilo.
Entretanto - o rei tirou a cruz da Legio de Honra que usava
habitualmente na casaca azul, junto da cruz de S. Lus e por
cima
da placa da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo e de S.
Lzaro e entregou-a a Villefort --, entretanto tome esta cruz.

- sire - observou Villefort --, Vossa Majestade engana-se,
essa cruz  a de oficial.

-  verdade, senhor - disse Lus XVIII --, mas mesmo assim
aceite-a. No tenho tempo para mandar vir outra. Blacas, no
se
esquea de providenciar para que seja passado o alvar ao Sr.
de
Villefort.

Os olhos de Villefort cobriram-se de lgrimas de orgulhosa
alegria. Pegou na cruz e beijou-a.

- E agora - perguntou - quais so as ordens que me faz a honra
de me dar Vossa Majestade?

- Descanse o tempo que precisar e lembre-se de que sem fora
em
Paris para me servir me poder ser da maior utilidade em
Marselha.

- sire - respondeu Villefort inclinando-se --, deixarei
Paris
dentro de uma hora.

- V, senhor - disse o rei --, e se o esquecer (a memria dos
reis  curta) no receie fazer-se-me lembrado... Sr. Baro,
mande
procurar o ministro da Querra. Blacas, fique.

- Ah, senhor - disse o ministro da Polcia a Villefort  sada
das Tulherias --, entrou com o p direito, tem a sua fortuna
feita!

- Por muito tempo? - murmurou Villefort, despedindo-se do
ministro, cuja carreira terminara, e procurando com a vista
uma
carruagem para regressar a casa.

Passava um fiacre no cais. Villefort fez-lhe sinal e o fiacre
aproximou-se. Villefort deu o seu endereo, atirou-se para o
fundo da carruagem e deu largas aos seus sonhos de ambio.
Dez
minutos depois estava em casa. Mandou preparar os cavalos para
dali a duas horas e ordenou que lhe servissem o
pequeno-almoo.

Ia sentar-se  mesa quando a campainha da porta da rua tocou,
accionada por uma mo franca e firme. O criado de quarto foi
abrir e Villefort ouviu uma voz pronunciar o seu nome.

"Quem poder j saber que estou c?", interrogou-se o jovem.

Neste momento o criado de quarto voltou a entrar.

- Ento -- perguntou Villefort --, quem era? Quem tocou? Quem
procura por mim?

- Um desconhecido que no quer dizer o seu nome.

- Como! Um desconhecido que no quer dizer o seu nome? E que
me
quer esse desconhecido?

- Falar com o senhor.

- Comigo?

- Sim.

- Ele disse o meu nome?

- Perfeitamente.

- E que aparncia tem esse desconhecido?

- Trata-se de um homem dos seus cinquenta anos.

- Baixo? Alto?

- Mais ou menos da altura do senhor.

- Louro ou moreno?

- Moreno, muito moreno: cabelo preto, olhos pretos,
sobrancelhas
pretas.

- E vestido - perguntou vivamente Villefort --, vestido de que
maneira?

- Com uma grande sobrecasaca azul abotoada de alto a baixo e
condecorado com a Legio de Honra.

-  ele - murmurou Villefort empalidecendo.

- Por Deus - disse aparecendo  porta o indivduo cujos sinais
j demos por duas vezes --, que maneiras!  hbito em
Marselha
os filhos fazerem o pai esperar na antecmara?

- Meu pai! - exclamou Villefort. - No me enganei... j
calculava
que fosse o senhor.

- Ento, se j esperavas que fosse eu - redarguiu o
recm-chegado, pousando a bengala num canto e o chapu numa
cadeira --, permite-me que te diga, meu caro Grard, que no 
muito amvel da tua parte fazeres-me esperar assim.

- Deixe-nos, germain - disse Villefort.

O criado saiu dando sinais visveis de espanto.


Captulo XII

Pai e filho


O Sr. Noirtier, porque era efectivamente ele prprio quem
acabava
de entrar, seguiu com a vista o criado at ele fechar a porta.
Depois, receando sem dvida que escutasse na antecmara, foi
atrs dele abrir a porta. A precauo no se revelou intil,
pois
a rapidez com que mestre Germain se retirou provou que no
estava
de modo algum isento do pecado que perdeu os nossos primeiros
pais.

O Sr. Noirtier deu-se ento ao incmodo de ir ele prprio
fechar
a porta da antecmara, tornou a fechar a do quarto de cama,
correu os ferrolhos e estendeu novamente a mo a Villefort,
que
seguira todos estes movimentos com uma surpresa de que ainda
se
no recompusera.

- Demnio, sabes, meu caro Grard - disse ao jovem, fitando-o
com
um  sorriso cuja expresso era muito difcil de definir --,
que
no tens ar de estar satisfeito por me ver?

- Claro, meu pai - respondeu Villefort - que estou encantado.
Mas
estava to longe de esperar a sua visita que me deixou um
pouco
surpreendido.

- Mas, meu caro amigo - prosseguiu o Sr. Noirtier sentando-se
--,
parece-me que te poderia dizer outro tanto. Como! Anuncias-me
o
teu noivado em Marselha para 28 de Fevereiro e em 3 de Maro
ests em Paris?

- No se queixe por estar aqui, meu pai - disse Grard
aproximando-se do Sr. Noirtier --, pois foi por sua causa que
vim
e talvez esta viagem o salve.

- Deveras? - redarguiu o Sr. Noirtier recostando-se
indolentemente na poltrona onde estava sentado. - Deveras?
Conte-me isso, Sr. Magistrado, que deve ser curioso.

-- Meu pai, j ouviu falar de certo clube bonapartista situado
na Rua Saint-Jacques?

- Nmero 53? J e at sou seu vice-presidente.

- Meu pai, o seu sangue-frio arrepia-me.

- Que queres, meu caro, quando se foi proscrito pelos
montanheses, se saiu de Paris numa carroa de feno e se foi
Perseguido nas charnecas de Bordus pelos esbirros de
Robespierre, habituamo-nos a muitas coisas. Continua, v. Que
aconteceu nesse clube da Rua Saint-Jacques?

- O que aconteceu foi que chamaram l o general Quesnel e que
o
general Quesnel saiu s nove horas da noite de casa e foi
encontrado dois dias depois no Sena.

- Quem te contou essa bonita histria?

- O prprio rei, senhor.

- Pois em troca da tua histria - continuou Noirtier - vou
dar-te
uma notcia.

- Meu pai, julgo saber j o que me vai dizer.

- Oh! J sabes do desembarque da Sua Majestade o imperador?

- Silncio, meu pai, suplico-lhe, primeiro por si e depois por
mim. Sim, j sabia dessa notcia e at a soube primeiro do que
o senhor. H trs dias que percorro a galope o caminho de
Marselha a Paris, com a raiva de no poder lanar duzentas
lguas
 minha frente o pensamento que me queima o crebro.

- H trs dias! Ests louco? H trs dias o imperador ainda
no
tinha embarcado!

- No importa, eu sabia do projecto.

- Como?

- Por uma carta dirigida ao senhor vinda da ilha de Elba.

- A mim?

- A si, e que encontrei na carteira do portador. Se essa carta
tivesse cado nas mos doutro, a esta hora, meu pai, talvez j
estivesse fuzilado.

O pai de Villefort desatou a rir.

- Vamos, vamos...-disse. - Parece que a Restaurao aprendeu
com
o Imprio a forma de resolver rapidamente as coisas...
Fuzilado!
Como vais depressa, meu caro! E essa carta onde est?
Conheo-te
demasiado para temer que a tenhas deixado por a.

- Queimei-a para que no restasse dela um nico fragmento.
Porque
essa carta era a sua condenao.

- E a perda do teu futuro - respondeu friamente Noirtier. -
Sim,
compreendo. Mas no tenho nada a temer, visto protegeres-me.

- Fao mais do que isso, senhor: salvo-o.

- Oh, diabo, o caso est a tornar-se dramtico? Explica-te.

- Voltemos a esse clube da Rua Saint-Jacques, senhor.

- Parece que esse clube preocupa muito os senhores da Polcia.
Porque o no procuraram melhor? T-lo-iam encontrado.

- No o encontraram, mas esto-lhe no rasto.

- E a frase sacramental, j se sabe: quando a Polcia se
encontra
em apuros, diz que est no rasto e o Governo espera
tranquilamente o dia em que ela vem dizer, de orelha murcha,
que
esse rasto se perdeu.

- Pois sim, mas encontraram um cadver. O general Quesnel foi
assassinado e em todos os pases do mundo isso chama-se crime.

- Assassinado, dizes tu? Mas nada prova que o general tenha
sido
assassinado. Todos os dias se encontram pessoas no Sena, umas
que
se atiraram ao rio por desespero, outras que se afogaram por
no
saberem nadar.

- Meu pai, sabe muito bem que o general se no afogou por
desespero e que ningum toma banho no Sena em Janeiro. No,
no,
no se iluda: essa morte est bem qualificada como assassnio.

- E quem a qualificou assim?

- O prprio rei.

- o rei! Julgava-o suficientemente filsofo para compreender
que
em poltica no h assassnio. Em poltica, meu caro, sabe-lo
to
bem como eu, no h homens, mas sim ideias. No h
sentimentos,
mas sim interesses. Em poltica no se mata um homem,
suprime-se
apenas um obstculo, mais nada. Queres saber como as coisas se
passaram? Pois bem, vou-te dizer. Julgvamos poder contar com
o
general Quesnel; tinham-no-lo recomendado da ilha de Elba. Um
de
ns foi a sua casa e convidou-o a assistir na Rua
Saint-Jacques a uma reunio onde encontraria amigos. Ele foi
e
l revelaram-lhe todo o plano: a partida da ilha de Elba, o
desembarque projectado, etc. Depois de ouvir tudo, de se
inteirar
de tudo, de no haver mais nada a explicar-lhe, respondeu que
era
monrquico. Ento, todos se entreolharam. Pedem-lhe que jure
nada
revelar; acede, mas de to m vontade, com franqueza, que  de
tentar Deus jurar assim.

"bom, apesar de tudo deixaram o general sair livre,
completamente livre. Se no regressou a casa, que queres que
te
diga, meu caro? No h dvida que saiu de junto de ns.
Ter-se-
enganado no caminho, simplesmente. Assassnio! Na verdade,
surpreendes-me, Villefort. Tu, substituto do procurador rgio,
forjar uma acusao sobre to ms provas... Nunca me passaria
pela cabea dizer-te, quando exerces o teu ofcio de
monrquico
e mandas cortar a cabea a um dos meus: "Meu filho, cometeste
um
assassnio!" No, digo sempre: "Muito bem, senhor, combateste
vitoriosamente; desforrar-nos-emos amanh."

- Mas, meu pai, acautele-se; essa desforra ser terrvel
quando
chegar a nossa vez.

- No te compreendo.

- Conta com o regresso do usurpador?

- Confesso que conto.

- Engana-se, meu pai. No penetrar dez lguas dentro de
Frana
sem ser perseguido, acossado como uma fera.

- Meu caro amigo, neste momento o imperador est na estrada de
Grenoble, em 10 ou 12 estar em Lio e em 20 ou 25 em Paris.

- As populaes vo-se sublevar...

- Para irem ao seu encontro.

- S tem consigo alguns homens e mandaro exrcitos contra
ele.

- Que o escoltaro para entrar na capital. Na verdade, meu
caro
Grard, no passas ainda de uma criana. Vocs julgam-se bem
informados porque um telgrafo lhes disse, trs dias depois do
desembarque: "O usurpador desembarcou em Cannes com alguns
homens; vamos em sua perseguio." Mas onde est ele? Que faz?
A esse respeito vocs no sabem nada. Perseguem-no,  tudo o
que
sabem. Pois persegui-lo-o assim at Paris sem queimar uma
escorva.

- Grenoble e Lio so cidades fiis e que lhe oporo uma
barreira
intransponvel.

- Grenoble abrir-lhe- as portas com entusiasmo e Lio em peso
ir ao seu encontro. Acredita-me, estamos to bem informados
como
vocs e a nossa polcia vale bem a vossa. Queres uma prova?
Vocs
quiseram esconder-me a tua viagem e no entanto soube da tua
chegada cerca de meia hora depois de transpores a barreira.
No
deste o teu endereo a ningum, excepto ao teu postilho, e
como
vs sabia onde encontrar-te, e a prova disso  que chego a tua
casa precisamente no momento em que vais sentar-te  mesa.
Toca,
pois, e pede segundo talher; comeremos juntos.

- Com efeito - respondeu Villefort, olhando o pai com surpresa
--, com efeito parece-me muito bem informado.

- Mas, meu Deus, no h nada mais simples! Vocs, que detm o
poder, s dispem dos meios que proporciona o dinheiro; ns,
que
o esperamos, s temos aqueles que proporciona a dedicao.

- A dedicao? - disse Villefort, rindo.

- Sim, a dedicao.  assim que se chama, em termos honestos,
a
ambio que espera.

E o pai de Villefort estendeu pessoalmente a mo para o cordo
da campainha, a fim de chamar o criado que o filho se no
resolvia a chamar.

Villefort deteve-lhe o brao.

- Espere meu pai - disse o jovem. - Mais uma palavra.

- Diz.

- Por muito incompetente que seja a Polcia monrquica, sabe
no
entanto uma coisa terrvel.

- Qual?

- Os sinais do homem que na manh do dia em que desapareceu o
general Quesnel se apresentou em sua casa.

- Ah! Ela sabe isso, essa excelente Polcia? E quais so esses
sinais?

- Tez morena, cabelo, suas e olhos negros, sobrecasaca azul
abotoada at ao queixo, roseta de oficial da Legio de Honra
na
lapela, chapu de abas largas e bengala de bambu.

- Ah, ah! Ela sabe isso? - comentou Noirtier.-Ento por que
motivo no deitou a mo a esse homem?

- Porque o perdeu de vista ontem ou anteontem  esquina da Rua
Coq-Hron.

- Bem te dizia que a vossa Polcia  estpida.

- Sim, mas pode encontr-lo de um momento para o outro.

- Claro - concordou Noirtier, olhando despreocupadamente  sua
volta. - Claro, se esse homem no estivesse precavido, mas
est.
E - acrescentou sorrindo - vai mudar de cara e de traje.

Aps estas palavras, levantou-se, tirou a sobrecasaca e a
gravata, dirigiu-se para uma mesa na qual estavam preparadas
todas as peas do necessrio  toilette do filho, pegou numa
navalha de barba, ensaboou a cara e com a mo perfeitamente
firme
cortou as suas comprometedoras que davam  Polcia uma pista
to preciosa.

Villefort assistia a tudo com um terror que no era isento de
admirao.

Cortadas as suas, Noirtier deu outro arranjo ao cabelo; ps,
em vez da gravata preta, uma gravata de cor que se via 
superfcie de uma mala aberta; envergou, em vez da sobrecasaca
azul abotoada, uma sobrecasaca de Villefort, castanha e ampla;
experimentou diante do espelho o chapu de abas reviradas do
filho, pareceu satisfeito com a maneira como lhe ficava e,
deixando a bengala de bambu no canto da chamin onde a
largara,
fez silvar na mo nervosa um pingalinzinho com o qual o
elegante
substituto dava aos seus passos a desenvoltura que era uma das
suas principais qualidades.

- Pronto! disse virando-se para o filho, estupefacto, quando
esta
espcie de metamorfose  vista se consumou. - Pronto! Achas
que
a Polcia me reconhecer agora?

- No, meu pai - balbuciou Villefort. - Pelo menos assim o
espero.

- Agora, meu caro Grard - continuou Noirtier --, recorro 
tua
prudncia para fazer desaparecer todos os objectos que deixo 
tua guarda.

- Oh, esteja tranquilo, meu pai! - respondeu Villefort.

- Sim, sim! E agora creio que tens razo e que podes, com
efeito,
ter-me salvado a vida. Mas descansa que te retribuirei o favor
proximamente.

Villefort abanou a cabea.

- No acreditas?

- Espero, pelo menos, que se engane.

- Tornars a ver o rei?

- Talvez.

- Queres passar a seus olhos por um profeta?

- Os profetas da desgraa so mal vistos na corte, meu pai.  -
Pois sim, mas mais dia menos dias far-lhes-o justia. E na
hiptese de segunda restaurao passars por um grande homem.

- Bom, que devo dizer ao rei?

- Diz-lhe isto: "sire, enganam-no acerca das disposies da
Frana, da opinio das cidades e do esprito do Exrcito.
Aquele
que chamam em Paris o papo da Crsega, a quem chamam ainda o
usurpador em Nevers, chama-se j Bonaparte em Lio e imperador
em Crenoble. Julga-o acossado, perseguido, em fuga; ele avana
com a rapidez da guia que  o seu smbolo. Os soldados que
julga
mortos de fome, esmagados de fadiga, prontos a desertar,
aumentam
como os tomos de neve  volta da bola que se precipita.
sire,
parta; abandone a Frana ao seu verdadeiro senhor, quele que
no
a comprou, mas a  conquistou. Parta, sire, no porque
corre
qualquer perigo - o seu adversrio  bastante forte para ser
clemente --, mas sim porque seria humilhante para um neto de
S.
Lus dever a vida ao homem de Arcole, Marengo e Austerlitz."
Diz-lhe isto, Grard, ou antes, no digas nada. Oculta a tua
viagem; no te gabes do que vieste fazer e do que fizeste em
Paris; retoma a posta; se queimaste o caminho para vir, devora
o espao para regressar, reentra em Marselha de noite; penetra
em tua casa por uma porta das traseira e deixa-te l ficar
muito
quietinho, muito apagado, muito escondido e sobretudo muito
inofensivo, porque desta vez, juro-te, agiremos como pessoas
enrgicas e que conhecem os seus inimigos. Vai, meu filho;
vai,
meu caro Grard, e mediante esta obedincia s ordens paternas
ou, se preferires, a deferncia para com os conselhos de um
amigo, manter-te-emos no teu lugar. Ser - acrescentou
Noirtier
sorrindo - uma maneira de me salvares segunda vez se a bscula
poltica te recolocar um dia em cima e a mim em baixo. Adeus,
meu
caro Grard. Na tua prxima viagem hospeda-te cm minha casa.

E, ditas estas palavras, Noirtier saiu com a tranquilidade que
no o deixara um instante enquanto durara aquela conversa to
difcil.

Villefort, plido e agitado, correu  janela, entreabriu a
cortina e viu-o passar calmo e impassvel pelo meio de dois ou
trs homens de m catadura, emboscados ao canto dos marcos e 
esquina das ruas, que talvez estivessem ali para prender o
homem
das suas pretas, da sobrecasaca azul e do chapu de abas
largas.

Villefort permaneceu assim, de p e arquejante, at o pai
desaparecer no cruzamento da Rua de Bussy. Ento, correu para
os
objectos abandonados por ele, meteu no mais profundo da mala a
gravata preta e a sobrecasaca azul, torceu o chapu que
escondeu
na parte de baixo de um armrio, partiu a bengala de bambu em
trs bocados que lanou ao lume, ps um bon de viagem, chamou
o criado de quarto, proibiu-lhe com um olhar as mil perguntas
que
tinha vontade de fazer, pagou a conta do hotel e saltou para a
sua carruagem, que o esperava pronta a partir. Soube em Lio
que
Bonaparte acabava de entrar em Grenoble e, no meio da agitao
que reinava ao longo de toda a estrada, chegou a Marselha
dominado por todas as angstias que entram no corao do homem
com a ambio e as primeiras honras.


Captulo XIII


Os Cem Dias


O Sr. Noirtier era um bom profeta e as coisas caminharam
depressa
como ele dissera. Todos conhecem o regresso da ilha de Elba,
regresso estranho, miraculoso, que sem exemplo no passado,
ficar
provavelmente sem imitao no futuro.
Lus XVIII s fracamente tentou deter aquele golpe to rude; a
sua pouca confiana nos homens tirava-lhe a confiana nos
acontecimentos. A realeza,  ou antes, a monarquia mal
acabada
de reconstituir por ele, tremeu nos seus alicerces ainda pouco
firmes e um nico gesto do imperador fez ruir todo o edifcio,
mistura informe de velhos preconceitos e ideias novas.
Villefort
no teve portanto do seu rei mais do que um reconhecimento no
s intil de momento, mas at perigoso, e aquela cruz de
oficial
da Legio de Honra que teve a prudncia de no mostrar, embora
o Sr de Blacas, como lhe recomendara o rei, lhe tivesse
mandado
enviar oportunamente o alvar.

Napoleo teria decerto destitudo Villefort sem a proteco de
Noirtier, tornado todo-poderoso na corte dos Cem Dias, devido
aos
perigos que correra e aos servios que prestara. Assim, como
lhe
prometera, o girondino de 93 e o senador de 1806 protegeu
aquele
que o prolegera na vspera.

Todo o poder de Villefort se limitou portanto, durante esta
revivescncia do Imprio, cuja segunda queda, alis, foi bem
fcil de prever, a abafar o segredo que Dants estivera
prestes
a divulgar.

S o procurador rgio foi demitido, por suspeita de pouco
entusiasmo no seu bonapartismo.

Entretanto, mal o poder imperial foi restabelecido, isto ,
assim
que o imperador se instalou nas Tulherias que Lus XVIII
acabava
de deixar, e lanou as suas ordens, nmerosas e divergentes,
do
gabinetezinho onde, juntamente com Villefort, introduzimos os
nossos leitores, e em cima de cuja mesa de nogueira encontrou
ainda aberta e meio cheia a tabaqueira de Lus XVIII,
Marselha,
apesar da atitude dos seus magistrados, comeou a sentir
acenderem-se em si os tachos da guerra civil sempre mal
extintos
no Meio-Dia. Pouco falhou ento para que as represlias no
excedessem alguns apupos com que se importunavam os
monrquicos
que se fechavam em casa e alguns insultos pblicos com que se
perseguiam os que se atreviam a sair.

Numa reviravolta muito natural, o digno armador que dissemos
pertencer ao Partido Popular encontrou-se por sua vez nesse
momento, no diremos todo-poderoso, porque o Sr. Morrel era
homem
prudente e um bocadinho tmido, com todos aqueles que
acumularam
uma lenta e laboriosa fortuna comercial, mas em condies, por
mais excedido que fosse pelos zelosos bonapartistas que o
apodavam de moderado, em condies, dizia, de erguer a voz
para
fazer ouvir uma reclamao. Essa reclamao, como facilmente
se
adivinha, referia-se a Dants.

Villefort ficara de p apesar da queda do seu superior, e o
seu
casamento, embora continuasse decidido, fora no entanto adiado
para tempos mais propcios. Se o imperador conservasse o
trono,
glrard precisaria doutra aliana, e o pai encarregar-se-ia
de
lha arranjar; se segunda restaurao reconduzisse Lus XVIII a
Frana, a influncia do Sr. de Saint-Mran duplicaria, assim
como a dele, e a unio tornava-se mais vantajosa do que nunca.

O substituto do procurador rgio era portanto momentaneamente
o
primeiro magistrado de Marselha quando uma manh a sua porta
se
abriu e lhe anunciaram o Sr. Morrel.

Qualquer outro apressar-se-ia a ir ao encontro do armador e
com
essa solicitude deixaria transparecer a sua fraqueza. Mas
Villefort era um homem superior que possua, seno a prtica,
pelo menos o instinto de todas as coisas. Mandou-o, pois,
esperar
na antecmara, como faria no tempo da Restaurao, embora no
estivesse a atender ningum, mas pela simples razo de que era
 hbito um substituto do procurador rgio fazer esperar na
antecmara. Depois, passado um quarto de hora, que empregou a
ler
dois ou trs jornais de tendncias diferentes, mandou
introduzir
o armador.

O Sr. Morrel esperava encontrar Villefort abatido; encontrou-o
como o encontrara seis semanas antes, isto , calmo, firme e
cheio de fria polidez, a mais intransponvel de todas as
barreiras que separam o homem educado do homem vulgar.

Entrara no gabinete de Villefort convencido de que o
magistrado
tremia ao v-lo, e era ele, muito pelo contrrio, que se
encontrava trmulo e impressionado diante daquela personagem
interrogadora que o esperava com o cotovelo apoiado na
secretria.

Parou  porta. Villefort olhou-o como se tivesse certa
dificuldade em o reconhecer. Por fim, depois de alguns
segundos
de exame e silncio, durante os quais o digno armador virou e
revirou o chapu nas mos, Villefort disse:

- O Sr. Morrel, creio?

- Sim, senhor, eu prprio - respondeu o armador.

- Aproxime-se - continuou o magistrado, fazendo com a mo um
gesto protector - e diga-me a que circunstncia devo a honra
da
sua visita.

- No adivinha, senhor? - perguntou Morrel.

- No fao a mais pequena ideia, o que no impede que esteja
inteiramente  sua disposio para lhe ser agradvel, se for
coisa que esteja na minha mo.

- A coisa depende inteiramente de si, senhor - disse Morrel.

- Explique-se ento.

- Senhor - continuou o armador, recuperando a presena de
esprito  medida que falava e sentindo-se fortalecido pela
justia da sua causa e pela clareza da sua posio --, deve
lembrar-se de que dias antes de se saber do desembarque de Sua
Majestade, o imperador, vim solicitar a sua indulgncia para
um
pobre rapaz, um marinheiro, imediato a bordo do meu brigue.
Era
acusado, como se deve recordar, de relaes com a ilha de
Elba.
Ora essas relaes, que nessa poca eram um crime, so hoje
ttulos de favor. O senhor servia ento Lus XVIII e no o
poupou; era o seu dever. Hoje serve Napoleo e deve
proteg-lo;
 tambm o seu dever. Venho, pois, perguntar-lhe que  feito
dele.

Villefort fez um violento esforo sobre si mesmo.

- O nome desse homem? - perguntou. - Tenha a bondade de me
dizer
O seu nome.

- Edmond Dants.

Evidentemente Villefort gostaria tanto de enfrentar, num
duelo,
o fogo do seu adversrio a vinte e cinco passos como de ouvir
pronunciar assim aquele nome  queima-roupa. Contudo, nem
sequer
pestanejou.

"Desta forma no podero acusar-me de ter feito da priso
desse
rapaz uma questo puramente pessoal", disse Villefort para
consigo mesmo.

- Dants? - repetiu. - Edmond Dants, diz o senhor?

- Sim, senhor.

Villefort abriu ento um volumoso registo colocado numa
estante
prxima, consultou um mapa, do mapa passou a uma pilha de
processos e por  fim, virando-se para o armador,
perguntou-lhe
com ar mais natural deste mundo:

- Tem a certeza de no estar enganado, senhor?

Se Morrel fosse um homem mais arguto ou estivesse melhor
esclarecido acerca do caso, teria achado estranho que o
substituto do procurador rgio se dignasse responder-lhe sobre
matria completamente estranha s suas atribuies, e teria
perguntado a si mesmo por que motivo Villefort o no remetia
para
os registos de presos, para os governadores de priso ou para
o
perfeito do departamento. Mas Morrel, procurando em vo o
temor
em Villefort, no viu mais, desde o momento em que todo o
temor
parecia ausente, do que a condescendncia. Villefort estava
bem
senhor de si.

- No, senhor - respondeu Morrel --, no estou enganado.
Alis,
conheo o pobre rapaz h dez anos e tenho-o ao meu servio h
quatro. Vim h seis semanas - recorda-se? - pedir-lhe que
fosse
clemente, como venho hoje pedir-lhe que seja justo com o pobre
rapaz. Por sinal o senhor recebeu-me bastante mal e
respondeu-me
desabridamente. Oh, como os monrquicos eram duros nesse tempo
para com os bonapartistas!

- Senhor - respondeu Villefort, aparando o golpe com a sua
presteza e o seu sangue-frio habituais --, fui monrquico
enquanto julguei os Bourbons no s os herdeiros legtimos do
trono, mas tambm os eleitos da nao. Mas o regresso
miraculoso
de que acabamos de ser testemunhas provou-me que me enganava.
O
gnio de Napoleo venceu: o monarca legtimo  o monarca
amado.

- No imagina o prazer que me d ouvi-lo falar assim! -
exclamou
Morrel com a sua ingnua franqueza. - Agora j no temo pela
sorte de Edmond.

- Espere - prosseguiu Villefort, folheando outro registo. -
J
me lembro: era um marinheiro, no era, e ia casar com uma
catal?
Sim, sim... Oh, agora me recordo! O caso era muito grave...

- Como assim?

- Como sabe, depois de sair de minha casa foi conduzido s
prises do Palcio da Justia.

- Sim, e depois?

- Depois... fiz o meu relatrio para Paris e enviei os
documentos
encontrados em seu poder. Era o meu dever, compreende... E
oito
dias depois da sua priso o prisioneiro desapareceu.

- Desapareceu! - exclamou Morrel. - Que tero feito do pobre
rapaz?

- Oh, sossegue! Deve ter sido levado para Fenestrelles, para
Pignerol ou para as ilhas de Santa Margarida, o que se chama
desterrado em termos administrativos, e um belo dia v-lo-
aparecer para reassumir o comando do seu navio.

- Venha quando vier, o lugar est-lhe guardado. Mas porque no
voltou j? Parece-me que o primeiro cuidado da justia
bonapartista deveria ser pr em liberdade os que foram
encarcerados pela justia monrquica.

- No acuse precipitadamente, meu caro Sr. Morrel - atalhou
Villefort. - Em todas as coisas  preciso proceder legalmente.
A ordem de encarceramento veio de cima,  portanto tambm de
cima
que deve vir a ordem de libertao. Ora, Napoleo regressou
apenas h quinze dias; logo, as cartas de abolio ainda mal
tiveram tempo de ser
expedidas.

- Mas - perguntou Morrel - no h meio de apressar as
formalidades, agora que triunfmos? Tenho alguns amigos,
alguma
influncia; posso obter a anulao do mandado de captura.

- No houve mandado de captura.

- Do registo, ento.

- Em matria poltica, no h registo de presos. s vezes, os
governos tm interesse em fazer desaparecer um homem sem que
deixe vestgios da sua passagem. Mandados e registos guiariam
as
buscas.

- No tempo dos Bourbons talvez fosse assim, mas agora...

-  assim em todos os tempos, meu caro Sr. Morrel. Os governos
seguem-se e assemelham-se. A mquina penitenciria montada no
reinado de Lus XIV ainda hoje funciona, exceptuando a
Bastilha.
O imperador tem sido sempre mais rigoroso com o regulamento
das
suas prises do que foi o prprio grande rei, e o nmero de
encarcerados de que no h vestgios nos registos 
incalculvel.
Tanta benevolncia teria at desfeito certezas, e Morrel nem
sequer tinha suspeitas.

- Mas ento, Sr. de Villefort, que conselho me daria para
abreviar o regresso do pobre Dants?

- Apenas um, senhor: faa uma petio ao ministro da justia.

- Oh, senhor, todos ns sabemos o que acontece s peties!...
O ministro recebe duzentas por dia e nem sequer l quatro.

- Sim - admitiu Villefort --, mas ler uma petio enviada por
mim, informada por mim, recomendada directamente por mim.

- E o senhor encarregar-se-ia de fazer chegar essa petio?

- Com o maior prazer. Dants podia ser culpado ento, mas hoje
est inocente e tenho o dever de fazer restituir a liberdade
quele que foi meu dever meter na priso.

Villefort, precavia-se assim do perigo de um inqurito pouco
provvel, mas possvel, um inqurito que o perderia
irremediavelmente.

- Mas como se escreve ao ministro?

- Sente-se aqui, Sr. Morrel - disse Villefort, cedendo o seu
lugar ao armador. - Vou-lhe ditar.

- Ter essa bondade?

- Sem dvida. No percamos tempo. J perdemos
demasiado.

- Sim, senhor. Lembremo-nos que o pobre rapaz espera, sofre e
desespera talvez.

Villefort estremeceu  ideia daquele prisioneiro
amaldioando-o
no silncio e nas trevas. Mas fora j demasiado longe para
recuar. Dants devia ser esmagado pelas engrenagens da sua
ambio.

- Pronto, senhor - disse o armador, sentado na poltrona de
Villefort com uma pena na mo.

Villefort ditou ento uma petio em que, como nada tinha a
recear, exagerava o patriotismo de Dants e os servios por
ele
prestados  causa bonapartista. Nessa petio, Dants era
transformado num dos agentes mais activos do regresso de
Napoleo. Era evidente que, ao ver semelhante documento, o
ministro se apressaria a fazer imediatamente justia, se
justia
ainda no fora feita.

Terminada a petio, Villefort releu-a em voz alta.

-  isto mesmo. E agora confie em mim.

- E a petio partir brevemente, senhor?

- Hoje mesmo.

- Informada por si?

- A melhor informao que posso dar, senhor,  certificar
veracidade de tudo o que diz na petio.

E Villefort sentou-se por seu turno e escreveu num canto da
petio o seu certificado.

- E agora, senhor, que mais  preciso fazer? - perguntou
Morrel.

- Esperar - respondeu Villefort. - Respondo por tudo.

Esta garantia restituiu a esperana a Morrel, que deixou o
substituto do procurador rgio encantado com ele e foi
anunciar
ao velho Tio Dants que no tardaria a rever o filho.

Quanto a Villefort, em vez de a mandar para Paris, conservou
cuidadosamente em seu poder a petio que, sendo capaz de
salvar
Dants no presente, o comprometeria
irremediavelmente no futuro, supondo uma coisa que o aspecto
da
Europa e o andamento dos acontecimentos permitiam j supor,
isto
, segunda restaurao.

Dants continuou portanto preso. Metido nas profundezas da sua
masmorra, nem sequer ouviu o estrondo formidvel da queda do
trono de Lus XVIII e o ainda mais formidvel do
desmoronamento
do Imprio.

Mas Villefort, esse, seguiu tudo com olhar vigilante, escutou
tudo com ouvido atento. Por duas vezes, durante a curta
apario
imperial a que se chamou os Cem Dias, Morrel voltou  carga,
insistindo sempre pela libertao de Dants, e de ambas as
vezes
Villefort o tranquilizou com promessas e esperanas. Por fim,
chegou Waterloo e Morrel no reapareceu em casa de Villefort.
O
armador fizera pelo seu jovem amigo tudo o que era humanamente
possvel fazer. Fazer novas tentativas depois da segunda
Restaurao seria comprometer-se inutilmente.

Lus XVIII voltou a subir ao trono. Villefort, para quem
Marselha
estava cheia de recordaes que para ele se tinham
transformado
em remorsos, pediu e obteve o lugar de procurador rgio em
Toulouse, que se encontrava vago.
Quinze dias depois de se instalar na sua nova residncia casou
com Mademoiselle Rene de Saint-Mran, cujo pai estava melhor
visto na corte do que nunca.

Foi assim que Dants, durante os Cem Dias e depois de
Waterloo,
permaneceu preso, esquecido, seno dos homens, pelo menos de
Deus.

Danglars compreendeu todo o alcance do golpe que vibrara em
Dants, ao ver Napoleo regressar a Frana. A sua denncia
acertara em cheio e, como todos os homens de certa tendncia
para
o crime e de mdia inteligncia na vida corrente, chamou a
essa
coincidncia estranha um "decreto da Providncia".

Mas quando Napoleo chegou a Paris e a sua voz soou de novo,
imperiosa e forte, Danglars teve medo. Esperava a cada
instante
ver aparecer Dants, Dants sabedor de tudo, Dants ameaador
e
capaz de todas as vinganas. Ento manifestou ao Sr. Morrel o
desejo de deixar o servio do mar e conseguiu que ele o
recomendasse a um negociante espanhol, ao servio do qual
entrou como angariador de encomendas, em fins de Maro, isto
,
dez ou doze dias depois do regresso de Napoleo s Tulherias.
Partiu, depois, para Madrid e mais ningum ouviu falar dele.

Quanto a Fernand, no compreendeu nada. Dants estava ausente,
era tudo o que desejava. Que fora feito dele? Nem sequer o
procurou saber. Apenas durante todo o compasso de espera que
lhe
proporcionava a sua ausncia se esforou em parte por enganar
Mercds acerca dos motivos da sua ausncia e em parte a
forjar
planos de emigrao e de fuga. De tempos a tempos tambm - e
essas eram as horas sombrias da sua vida - sentava-se na ponta
do cabo Pharo, lugar donde se distinguia simultaneamente
Marselha
e a aldeia dos Catales, a pensar, triste e imvel como uma
ave
de rapina, se no veria voltar, por um desses dois caminhos, o
belo jovem de andar desenvolto e cabea altiva que para ele se
transformara no mensageiro de uma cruel vingana. Ento os
planos
de Fernand detinham-se. Estoiraria a cabea a Dants com um
tiro
de espingarda e suicidar-se-ia em seguida, dizia para consigo,
procurando disfarar o assassnio. Mas Fernand enganava-se:
esse
homem nunca seria assassinado porque continuava a esperar.

Entretanto, no meio de tantas flutuaes dolorosas, o Imprio
convocou uma derradeira classe de soldados e todos os homens
em
condies de pegar em armas lanaram-se para fora de Frana 
voz
trovejante do imperado. Fernand partiu como os outros, deixou
a
sua cabana e Mercds rodo pelo sombrio e terrvel pensamento
de que depois da sua partida o seu rival regressaria e casaria
com aquela que ele amava.

Se Fernand alguma vez tivesse de se matar, seria deixando
Mercds que o faria.

As suas atenes para com Mercds, a compreenso com que
parecia
aceitar a sua infelicidade, o cuidado com que procurava ir ao
encontro dos seus mais pequenos desejos, tinham produzido o
efeito que produzem sempre nos coraes generosos as
aparncias
do devotamento. Mercds sempre fora amiga de Fernand, e a
essa
amizade por ele juntou-se, aumentando-a, um novo sentimento: o
reconhecimento.

- Meu irmo - disse ela, prendendo a mochila do soldado nos
ombros do catalo --, meu irmo, meu nico amigo, no te faas
matar, no me deixes sozinha neste mundo, onde choro e ficarei
s se j c no estiveres.

Estas palavras, proferidas no momento da partida, deram
algumas
esperanas a Fernand. Se Dants no voltasse, Mercds poderia
vir um dia a ser dele.

Mercds ficou sozinha naquela terra nua, que nunca lhe
parecera
to rida, e com o mar imenso por horizonte. Lavada em
lgrimas,
com essa multido de que nos contam a histria dolorosa,
viam-na
vaguear constantemente  volta da aldeiazinha dos Catales,
umas
vezes parada debaixo do sol ardente do Meio-Dia, de p,
imvel,
muda como uma esttua, a olhar para Marselha, outras vezes
sentada  beira-mar, a escutar os queixumes das guas, eternos
como a sua dor, e perguntando-se sem cessar se no valeria
mais
inclinar-se para a frente, deixar-se levar pelo seu prprio
peso,
abrir o abismo e engolfar-se nele, do que sofrer assim todas
as
cruis alternativas de uma espera sem esperana.

No foi coragem o que faltou a Mercds para pr em prtica
tal
projecto, foi a religio que veio em seu auxlio e a salvou do
suicdio.

Caderousse foi convocado, como Fernand. Simplesmente, como
tinha
mais oito anos do que o catalo e era casado, s fez parte do
terceiro turno e enviaram-no para as costas.

O velho Dants, que j s era amparado pela esperana,
perdeu-a
com a queda do imperador.

Passados cinco meses, dia a dia depois de ter sido separado do
filho e quase  mesma hora em que tora preso, soltou o
derradeiro
suspiro nos braos de Mercds.

O Sr. Morrel chamou a si todas as despesas do funeral e pagou
as
pobres dividazinhas que o velhote fizera durante a sua doena.

Havia mais do que beneficncia em proceder assim; havia
coragem.
O Meio-Dia estava em logo, e socorrer, mesmo no seu leito de
morte, o pai de um bonapartista to perigoso como Dants era
um
crime.


Captulo XIV

O prisioneiro furioso e o prisioneiro louco


Cerca de um ano depois do regresso de Lus XVIII verificou-se
a
visita do Sr. Inspector-Geral das Prises.

Dants ouviu do fundo da sua masmorra arrastar e ranger, todos
os preparativos que faziam em cima muito barulho, mas que em
baixo seriam rudos inapreciveis para qualquer outro ouvido
que
no fosse o de um prisioneiro, habituado a escutar no silncio
da noite a aranha que tece a sua teia e a queda peridica da
gota
de gua que leva uma hora a formar-se no tecto da sua
masmorra.

Adivinhou que se passava entre os vivos qualquer coisa
extraordinria. Habitava havia tanto tempo uma tumba que bem
se
podia considerar morto.

Com efeito, o inspector visitava um aps outro quartos, celas
e
masmorras. Foram interrogados vrios prisioneiros: aqueles que
a sua brandura ou a sua estupidez recomendava  benevolncia
da
administrao. O inspector perguntou-lhes como eram
alimentados
e que reclamaes tinham a fazer.

Responderam unanimemente que a alimentao era detestvel e
que
reclamavam a sua liberdade.

O inspector perguntou-lhos ento se no tinham mais nada a
pedir-lhe.

Abanaram a cabea. Que outra riqueza alm da liberdade podem
reclamar prisioneiros?

O inspector virou-se sorrindo e disse ao governador:

- No sei porque nos obrigam a fazer estas inspeces inteis.
Quem v um prisioneiro v cem; quem ouve um prisioneiro ouve
mil;
 sempre a mesma coisa: mal alimentados e inocentes. Tem mais?

- Sim, temos os prisioneiros perigosos ou loucos, que
conservamos
nas masmorras. ;

- Bom - disse o inspector com ar de profundo cansao cumpramos
a nossa misso at ao fim; desamos s masmorras.

- Espere - contraps o governador --, deixe ir ao menos buscar
dois homens. s vezes os prisioneiros, por estarem fartos da
vida e para serem condenados  morte, cometem actos de
desespero
inteis. O senhor poderia ser vtima de um desses actos.

- Tome portanto as suas precaues - disse o inspector.

De facto mandaram buscar - dois soldados e comearam por
descer
uma escada to malcheirosa, to infecta, to bafienta que s a
passagem por semelhante lugar afectava desagradavelmente ao
mesmo
tempo a vista, o olfacto e a respirao.

- Oh! - suspirou o inspector detendo-se a meio da descida. -
Quem
diabo pode viver aqui?

- Um conspirador dos mais perigosos e que nos est
especialmente
recomendado como um homem capaz de tudo.

- Est sozinho?

- Certamente.

- H quanto tempo se encontra aqui?

- H um ano, pouco mais ou menos.

- E foi metido nesta masmorra logo que entrou?

- No, senhor, mas sim depois de ter querido matar o chaveiro
encarregado de lhe trazer a comida.

- Tentou matar o chaveiro?

- Sim, senhor. Aquele mesmo que nos alumia. No  verdade,
Antoine? - perguntou o governador.

- Quis matar-me sem motivo - sublinhou o chaveiro.

- Ora vejam! Mas nesse caso esse homem est louco?

-  pior do que um louco,  um demnio - acrescentou o
chaveiro.

- Quer apresentar queixa? - perguntou o inspector ao
governador.

- E intil senhor, j est suficientemente castigado assim.
De resto, neste momento encontra-se quase louco e segundo a
experincia que nos do as nossas observaes antes de passar
outro ano aqui estar completamente alienado.

- Por Deus, tanto melhor para ele - disse o inspector. - Uma
vez
completamente louco, sofrer menos.

Era, como se v, um homem cheio de humanidade este inspector,
e
bem digno das funes filantrpicas que desempenhava.

- Tem razo, senhor - concordou o governador - e a sua
reflexo
prova que estudou profundamente a matria.
Tambm temos numa masmorra separada desta apenas um vintena de
ps e para a qual se desce por outra escada um velho abade,
antigo chefe de partido em Itlia, est aqui desde 1811,
endoideceu por volta de fins de 1813 e que desde esse momento
no
 fisicamente reconhecvel. Dantes chorava, agora ri,
emagrecia,
engordou. Quer v-lo em vez deste? A sua loucura  divertida e
no o entristecer nada.

- Verei um e outro - respondeu o inspector. -  necessrio
fazer
as coisas conscienciosamente.

O inspector andava na sua primeira inspeco e queria dar boa
ideia de si s autoridades.

- Vejamos portanto este em primeiro lugar - acrescentou.

- Como queira - respondeu o governador.

E fez sinal ao chaveiro, que abriu a porta.

Ao ouvir rangerem as fechaduras macias e chiarem os gonzos
ferrugentos ao girarem nos seus eixos, Dants, que se
encontrava
agachado a um canto da masmorra onde recebia com indizvel
prazer
o delgado raio de luz que se filtrava atravs de um estreito
respiradouro gradeado, levantou a cabea. Ao ver um homem
desconhecido, iluminado por dois chaveiros que empunhavam
archotes e ao qual o governador falava de chapu na mo,
acompanhado por dois soldados, Dants adivinhou de quem se
tratava e, vendo finalmente apresentar-se uma ocasio de
implorar
a uma autoridade superior, saltou para a frente com as mos
juntas.

Os soldados cruzaram imediatamente as baionetas, pois julgaram
que o prisioneiro avanava para o inspector com ms intenes

O prprio inspector deu um passo atrs.

Dants viu que o tinham apresentado como um homem temvel.

Ento, reuniu no olhar tudo o que o corao do homem pode
conter
de mansido e humildade e, exprimindo-se numa espcie de
eloquncia religiosa, que surpreendeu os assistentes, procurou
comover a alma do visitante.

O inspector escutou o discurso de Dants at ao fim. Depois,
virando-se para o governador, disse a meia voz:

- Voltar  devoo; est j disposto a sentimentos mais
suaves.
Como v, o medo produz o seu efeito nele. Recuou diante das
baionetas; ora, um louco no recua diante de nada. A tal
respeito
fiz observaes muito curiosas em Charenton.

Depois, virando-se para o prisioneiro:

- Em resumo, que pede?

- Peo me digam que crime cometi; peo que me dem juizes;
peo
que o meu processo seja instrudo; peo finalmente que me
fuzilem
se sou culpado ou que me ponham em liberdade se estou
inocente.

-  bem alimentado? - perguntou o inspector.

- Creio que sim; no sei nada a esse respeito, mas isso pouco
importa. O que deve importar, no s a mim, pobre prisioneiro,
mas tambm a todos os funcionrios que servem a justia e ao
prprio rei que governa,  que um inocente no seja vtima de
uma
denncia infame e no morra aferrolhado amaldioando os seus
carrascos.

- Est hoje muito humilde - observou o governador --, mas nem
sempre esteve assim. Falava de modo muito diferente, meu caro,
no dia em que quis agredir o seu guarda.

--  verdade, senhor - reconheceu Dants --, e peo
humildemente
perdo a esse homem que sempre foi bom para mim... Mas, que
quer,
estava louco, estava furioso!

- E j o no est?

- No, senhor, porque o cativeiro me vergou, quebrou,
aniquilou... H tanto tempo que estou aqui!

- Tanto tempo?... Em que data foi preso? - perguntou o
inspector.

- Em 28 de Fevereiro de 1815, s duas horas da tarde.

O inspector fez as contas.

- Estamos em 10 de Julho de 1816... Que diz? Est preso apenas
h dezassete meses.

- Qual dezassete meses! - exclamou Dants. - Ah, o senhor no
sabe o que so dezassete meses de priso! Dezassete anos,
dezassete sculos, sobretudo para um homem como eu, prestes a
ser
feliz, para um homem que, como eu, ia casar com a mulher
amada,
para um homem que via abrir-se diante de si uma carreira
respeitvel e que perdeu tudo de um momento para o outro; que
do
meio do dia mais belo caiu na noite mais profunda, que viu a
sua
carreira destruda, que no sabe se aquela que o amava o ama
ainda, que ignora se o seu velho pai est morto ou vivo.
Dezassete meses de priso para um homem habituado ao ar do
mar,
 independncia do marinheiro, ao espao,  imensidade, ao
infinito! Senhor, dezassete meses de priso  mais do que
merecem
todos os crimes que designam pelos nomes mais odiosos da
lngua
humana. Tenha, pois, piedade de mim, senhor e obtenha-me no
indulgncia, mas sim rigor; no o perdo, mas sim um
julgamento.
Juizes, senhor, s peo juzes. No se pode recusar juzes a
um
acusado.

- Est bem, veremos - respondeu o inspector.

Depois virando-se para o governador:

- Para ser franco, o pobre diabo mete-me pena. Quando
subirmos,
h-de mostrar-me o seu registo de presos.

- Certamente - concordou o governador --, mas creio que
encontrar contra ele notas terrveis.

-- Senhor - continuou Dants --, sei que no pode fazer-me
sair
daqui por sua prpria deciso; mas pode transmitir o meu
pedido
s autoridades, pode provocar um inqurito, pode, enfim,
fazer-me
submeter a julgamento. Um julgamento,  tudo o que peo. Que
saiba que crime cometi e a que pena sou condenado; porque,
como
sabe, a incerteza  o pior de todos os suplcios.

- Iluminem-me - disse o inspector.

- Senhor - gritou Dants --, adivinho pelo tom da sua voz que
est comovido. Senhor, diga-me que tenha esperana.

- No lhe posso dizer isso - redarguiu o inspector --, posso
apenas prometer-lhe examinar o seu processo.

- Oh, ento, senhor, estou livre, estou salvo!

- Quem o mandou prender? - perguntou o inspector.

- O Sr. de Villefort - respondeu Dants. - Procure-o e fale
com
ele.

- O Sr. de Villefort j no est em Marselha h um ano, mas
sim
em Toulouse.

- No me admira - murmurou Dants. - O meu nico protector foi
afastado.

- O Sr. de Villefort tinha algum motivo de dio contra si? -
perguntou o inspector.

- Nenhum, senhor, e at foi benevolente comigo.

- Poderei portanto confiar nas notas que deixou a seu respeito
ou nas informaes que me der?

- Inteiramente, senhor.

- Est bem, aguarde.

Dants caiu de joelhos, levantou as mos ao cu e murmurou uma
prece na  qual recomendava a Deus aquele homem que descera
na
priso semelhante ao Salvador ao ir libertar as almas do
Inferno.

A porta voltou a fechar-se; mas a esperana que descera com o
inspector ficara fechada na masmorra de Dants.

- Deseja ver o registo de presos agora ou passar  masmorra do
abade? - perguntou o governador.

- Acabemos com as masmorras de uma vez - respondeu o
inspector.
- Se subisse  luz do dia, talvez j no tivesse coragem de
continuar a minha triste misso.

- Oh, o abade no  um prisioneiro como o outro! A sua loucura
 menos confrangedora do que a razo do seu vizinho.

- E qual  a sua loucura?

- Uma loucura estranha: julga-se possuidor de um tesouro
imenso.
No primeiro ano do seu cativeiro mandou oferecer um milho ao
Governo se o Governo o pusesse em liberdade; no segundo ano,
dois
milhes; no terceiro, trs milhes, e assim sucessivamente.
Vai
no quinto ano de cativeiro; portanto, pedir-lhe- para lhe
falar
em segredo e oferecer-
-lhe- cinco milhes.

- Ah, ah!  curioso, com efeito! - riu o inspector. E como
tratam esse milionrio?

- Por abade Faria.

- O n.o 27! - disse o inspector.

-  aqui. Abra, Antoine.

O chaveiro obedeceu e o olhar curioso do inspector mergulhou
na
masmorra do "abade louco".

Era assim que se designava geralmente o prisioneiro.

No meio da cela, num crculo traado no cho com um bocado de
gesso tirado da parede, encontrava-se deitado um homem quase
nu,
de tal forma as suas roupas se tinham transformado em
farrapos.
Desenhava no crculo linhas geomtricas muito ntidas e
parecia
to ocupado a resolver o seu problema quanto Arquimedes o
estava
quando foi morto por um soldado de Marcelo. Por isso, no se
mexeu, nem mesmo ao ouvir o barulho que a porta da masmorra
fez
ao abrir-se, e s pareceu despertar quando a luz dos archotes
iluminou com uma claridade que no era habitual o solo hmido
em
que trabalhava. Ento virou-se e fitou com surpresa a nmerosa
companhia que lhe acabava de entrar na cela.

Levantou-se precipitadamente, pegou num cobertor colocado aos
ps
do seu leito miservel e envolveu-se nele rapidamente para
aparecer em estado mais decente aos olhos dos estranhos.

- Que deseja? - perguntou o inspector, sem variar a sua
frmula.

- Eu, senhor? - respondeu o abade com ar surpreendido - No
desejo nada.

- No compreendeu - prosseguiu o inspector. - Sou agente do
Governo e a minha misso  descer s prises e escutar as
reclamaes dos prisioneiros.

- Oh, ento, senhor, isso  outra coisa! - exclamou vivamente
o
abade. - Espero que nos consigamos entender.

- V? - disse baixinho governador. - Isto no comea como lhe
anunciei?

- Senhor - continuou o prisioneiro --, sou o abade Faria,
natural
de Roma. Fui vinte anos secretrio do cardeal Rospigliosi e
preso, no sei muito bem porqu, em princpios do ano de 1811.
Desde esse momento que reclamo a minha liberdade s
autoridades
italianas e francesas.

- Porqu s autoridades francesas? - perguntou o governador.

- Porque fui preso no Piombino e presumo que como Milo e
Florena o Piombino se tornou a capital de qualquer
departamento
francs.

O inspector e o governador entreolharam-se rindo.

 - Demnio, meu caro - observou o inspector --, as suas
notcias
da Itlia no so frescas.

- Datam do dia em que rui preso, senhor - redarguiu o abade
Faria. - E como Sua Majestade o Imperador criara o reino de
Roma
para o filho que o cu acabava de lhe dar, presumo que
prosseguindo o curso das suas conquistas realizou o sonho de
Maquiavel e de Csar Brgia, que era tornar toda a Itlia um
s
e nico reino.

- Senhor - disse o inspector --, felizmente a Providncia
imps
algumas alteraes a esse plano gigantesco de que me parece
partidrio bastante entusiasta.

-  o nico meio de tornar a Itlia um Estado forte,
independente
e feliz - respondeu o abade.

-  possvel - admitiu o inspector --, mas no vim aqui para
fazer consigo um curso de poltica ultramontana e sim para lhe
perguntar, o que j fiz, se tem alguma reclamao a apresentar
sobre a maneira como  alimentado e se encontra alojado.

- A alimentao  o que  em todas as prises - respondeu o
abade. -  Isto , muito m. Quanto ao alojamento,  hmido,
como
v, mas mesmo assim bastante aceitvel para uma masmorra.
Agora,
porm, no se trata disso, mas sim de revelaes da mais alta
importncia e do mais alto interesse que desejo fazer ao
Governo.

- A est - disse baixinho o governador ao inspector.

-  por isso que me sinto to feliz por o ver - continuou o
abade --, embora me tenha interrompido na altura em que fazia
um
clculo muito importante que, se for bem sucedido, talvez
modifique o sistema de Newton. Pode conceder-me o favor de uma
palavrinha em particular?

- Hem, que dizia eu? - observou o governador ao inspector.

- O senhor conhece a sua gente - respondeu este ltimo
sorrindo.

E dirigindo-se ao abade Faria:

- Senhor, o que me pede  impossvel.

- No entanto - insistiu o abade --, trata-se de fazer ganhar
ao
governo uma importncia enorme, uma soma de cinco milhes,
por
exemplo...

- Formidvel! - exclamou o inspector, virando-se por sua vez
para
o governador . -O senhor previu at a importncia.

- Vejamos - prosseguiu o abade, notando que o inspector fazia
um
movimento para se retirar. - No  necessrio que estejamos
absolutamente ss; o Sr. Governador poder assistir  nossa
conversa.

- Meu caro senhor - interveio o governador --, para seu mal,
sabemos antecipadamente e de cor o que vai dizer. Trata-se dos
seus tesouros, no  verdade?

Faria olhou aquele homem zombeteiro com olhos onde um
observador
desinteressado teria decerto visto brilhar a fasca da razo e
da verdade.

- Sem dvida - respondeu - De que quer o senhor que eu fale a
no
ser disso?

- Sr. Inspector - continuou o governador --, posso contar-lhe
essa histria to bem como o abade, pois h quatro ou cinco
anos
que me enche os ouvidos com ela.

- Isso prova, Sr. Governador - redarguiu o abade --, que 
como
essas pessoas de que fala a Escritura, que tm olhos e no
vem
e tm ou idos e no ouvem.

- Meu caro senhor - disse o inspector --, o Governo  rico e
graas a Deus, no precisa do seu dinheiro. Guarde-o, pois,
para
o dia em que sair da priso.

Os olhos do abade dilataram-se. Pegou na mo do inspector.

- Mas se no sair da priso - observou --, se, contra toda a
justia, me retiverem nesta masmorra e aqui morrer sem legar o
meu segredo  ningum, esse tesouro perder-se-? No 
prefervel
que o Governo o aproveite e eu tambm? Irei at seis milhes,
senhor. Sim, renunciarei a seis milhes e contentar-me-ei com
o
resto se me restiturem  liberdade.

- Palavra - disse o inspector a meia voz --, se no
soubssemos
que este homem est louco era caso para acreditar. Fala em tom
to convicto que parece dizer a verdade.

- No estou louco, senhor, e digo a verdade - insistiu Faria,
que, com a finura de ouvido peculiar aos prisioneiros, no
perdera uma nica das palavras do inspector. - O tesouro de
que
lhe falo existe realmente e proponho-me assinar um acordo
convosco em virtude do qual me conduziro ao stio designado
por
mim. Escavar-se- a terra diante dos nossos olhos e se eu
mentir,
se no se encontrar nada, se eu for um louco, como os senhores
dizem, ento tornaro a meter-me nesta mesma masmorra, onde
ficarei eternamente e morrerei sem pedir mais nada aos
senhores
nem a ningum.

O governador desatou a rir.

- Est muito longe daqui o seu tesouro? - perguntou.

- A cem lguas, pouco mais ou menos - respondeu Faria.

- A coisa no est mal imaginada - observou o governador. - Se
todos os prisioneiros quisessem divertir-se a passear os seus
guardas durante cem lguas, e se os guardas consentissem em
fazer
semelhante passeio, seria uma excelente oportunidade para os
prisioneiros arranjarem maneira de se evadir na primeira
ocasio,
a qual, decerto, no deixaria de surgir.

-  um meio conhecido - comentou o inspector - e o cavalheiro
nem sequer tem o mrito da inveno.

Depois, virando-se para o abade:

- Perguntei-lhe se era bem alimentado.

- Senhor - respondeu Faria --, jure-me sobre o Cristo
libertar-me
se lhe tiver dito a verdade e indicar-lhe-ei o stio onde o
tesouro est enterrado.

-  bem alimentado? - repetiu o inspector.

- Senhor, no arrisca nada assim e bem v que no  para
arranjar
uma oportunidade de fugir que lhe fao esta proposta, pois
ficarei na priso enquanto fizer a
viagem.

- No respondeu  minha pergunta - observou com impacincia o
inspector.

- Nem o senhor  minha proposta! - exclamou o abade. - Seja
portanto maldito como os outros insensatos que me no quiseram
acreditar! J que no quer o meu ouro, guard-lo-ei; recusa-me
a liberdade, Deus mandar-ma-. V-se embora, no tenho mais
nada
a dizer.

E o abade largou o cobertor, voltou a pregar no seu bocado de
gesso e foi-se sentar de novo no meio do seu crculo, onde
continuou entregue s suas linhas e aos seus clculos.

- Que est a fazer? - perguntou a inspector ao retirar-se.

- A contar os seus tesouros - respondeu o governador.

Faria retribuiu o sarcasmo com um olhar carregado do mais
supremo
desprezo.

Saram. O carcereiro fechou a porta atrs deles.

- Deve ter, com efeito, possudo alguns tesouros - disse o
inspector ao subirem a escada.

- Sim, deve ter sonhado que os possua -- respondeu o
governador
- e no dia seguinte acordou louco.

- Efectivamente - admitiu o inspector com a simplicidade de
quem
admite a corrupo --, se fosse realmente rico no estaria
preso.

Assim terminou a aventura para o abade Faria. Continuou
prisioneiro e depois desta visita a sua reputao de louco
divertido ainda mais aumentou.

Calgula ou Nero, esses grandes pesquisadores de tesouros,
esses
desejosos do impossvel, teriam dado ouvidos s palavras do
pobre
homem e ter-lhe-iam concedido o ar que pretendia, o espao que
avaliava em to alto preo e a liberdade que se propunha pagar
to cara. Mas os reis dos nossos dias, mantidos nos limites do
provvel, j no tm a audcia da vontade. Temem o ouvido que
escuta as ordens que do, o olho que perscruta as suas aces;
j no sentem a superioridade da sua essncia divina; so
homens
coroados e mais nada. Dantes, julgavam-se, ou pelo menos
diziam-se, filhos de Jpiter e possuam qualquer coisa do deus
seu pai.

No se controla facilmente o que se passa para l das nuvens;
hoje os reis deixam-se contactar facilmente.

Ora, como sempre repugnou ao governo desptico mostrar  luz
do
dia os efeitos da priso e da tortura; como h poucos exemplos
de uma vtima das inquisies ter conseguido reaparecer com os
ossos esmagados e as carnes cobertas de chagas ensanguentadas,
tambm a loucura, essa lcera nascida na imundcie das
masmorras
em consequncia das torturas morais, se esconde quase sempre
cuidadosamente no local onde surgiu ou, se de l sai,  para
se
ir encerrar em qualquer hospital sombrio onde os mdicos no
reconhecem nem o homem, nem o pensamento no destroo informe
que
lhe entrega o carcereiro cansado.

O abade Faria, que enlouquecera na priso, estava condenado,
pela
sua prpria loucura, a priso perptua.

Quanto a Dants, o inspector cumpriu a sua palavra. Quando
subiu
ao gabinete do governador, quis ver o registo do preso.

A nota respeitante ao prisioneiro era assim concebida:

edmond dants: Bonapartista fantico. Tomou parte activa
no
regresso da ilha de Elba.

Manter no maior segredo e sob a mais rigorosa vigilncia.

Esta nota estava escrita com letra e tinta diferentes das do
resto do registo, o que provava que fora acrescentada depois
da
encarcerao de Dants.

A acusao era demasiado positiva para tentar contrari-la. O
inspector escreveu, pois, por baixo:

Nada a fazer.

Esta visita reanimara, por assim dizer, Dants. Desde que
entrara
na priso esquecera-se de contar os dias; mas o inspector
dera-lhe uma nova data e Dants no a esquecera. Escreveu
atrs
de si, na parede, com um bocado de gesso tirado do tecto, "30
de
Julho de 1816", e a partir desse momento fez um risco todos os
dias, para a medida do tempo lhe no escapar.

Os dias passaram, depois as semanas e depois os meses. Dants
continuava a esperar. Comeara por fixar  sua libertao um
prazo de quinze dias. Se dedicasse ao seu caso metade do
interesse que parecera experimentar, quinze dias deviam ser
suficientes ao inspector. Passados esses quinze dias, disse
para
consigo que era absurdo da sua parte pensar que o inspector se
ocupara dele antes de regressar a Paris. Ora, o seu regresso a
Paris s se poderia verificar quando conclusse a inspeco, e
esta poderia durar um ms ou dois. Concedeu-se portanto trs
meses em vez de quinze dias.

Passados os trs meses veio em seu auxlio outro raciocnio
que
o levou a conceder-se seis meses, mas passados esses seis
meses,
contando os dias um aps outro, verificou que esperara dez
meses
e meio. E durante esses dez meses e meio nada se modificara no
regime da sua priso, nenhuma notcia animadora lhe fora dada.
O carcereiro, interrogado, mostrou-se mudo como de costume.
Dants comeou a duvidar dos seus sentidos, a julgar que o que
tomava por uma recordao da sua memria no passava de uma
alucinao do seu crebro e que o anjo consolador que
aparecera
na sua priso descera nela trazido pela asa de um sonho.

Passado um ano o governador foi substitudo; obtivera a
direco
do forte de Ham. Levou consigo vrios dos seus subordinados e
entre outros o carcereiro de Dants. Chegou novo governador.
Como
lhe parecesse demasiado trabalhoso fixar os nomes dos
prisioneiros, passou a design-los apenas pelos nmeros.
Aquele
horrvel "hotel" dispunha de cinquenta quartos; os seus
ocupantes
passaram a ser designados pelo nmero do quarto que ocupavam,
e
o infeliz rapaz deixou de se chamar pelo seu nome de Edmond ou
pelo seu apelido de Dants e passou a chamar-se o n.o 34.


Captulo XV

O nmero 34 e o nmero 27


Dants passou por todos os graus do infortnio a que esto
sujeitos os prisioneiros esquecidos numa priso.

Comeou pelo orgulho, que  um complemento da esperana e uma
conscincia da inocncia: em seguida princpiou a duvidar da
sua
inocncia, o que no justificava mal as ideias do governador
acerca da alienao mental; por fim, caiu do alto do seu
orgulho
e pediu, no ainda a Deus, mas sim aos homens: Deus  o
derradeiro recurso. O infeliz que deveria comear pelo Senhor,
s consegue confiar nele depois de esgotar todas as outras
esperanas.

Dants pediu, pois, que se dignassem tir-lo da sua masmorra e
o metessem noutra, ainda que fosse mais escura e profunda. Uma
mudana mesmo desvantajosa, era sempre uma mudana e
proporcionaria a Dants uma distraco de alguns dias. Pediu
que
lhe concedessem o passeio, o ar, livros, instrumentos. Nada
disso
lhe foi concedido. Mas no importava, continuava a pedir.
Habituara-se a falar ao seu novo carcereiro, embora este fosse
ainda, se possvel, mais mudo do que o antigo. Mas falar a um
homem, mesmo a um mudo, era tambm um prazer. Dants falava
para
ouvir o som da sua prpria voz. Tentara falar quando estava
sozinho, mas tivera medo.

Muitas vezes, quando estava em liberdade, Dants; fizera um
bicho
de sete cabeas daqueles amontoados de prisioneiros
constitudos
por vagabundos, bandidos e assassinos, cujos prazeres ignbeis
incluem orgias indescritveis e amizades medonhas. Pois acabou
por desejar ser lanado numa dessas enxovias, a fim de ver
outras
caras alm da do carcereiro impassvel que se recusava
terminantemente a falar. Invejava os trabalhos forados, com o
seu fato infamante, a sua corrente no p e a sua marca no
ombro.
Ao menos os galerianos viviam no meio dos seus semelhantes,
respiravam o ar, viam o cu. Os galerianos eram muito felizes.

Um dia suplicou ao carcereiro que pedisse lhe dessem um
companheiro, fosse qual fosse, ainda que esse companheiro
tivesse
de ser o abade louco de que ouvira falar. Sob a pele do
carcereiro, por mais coricea que fosse, continuava a haver um
homem. Este tinha muitas vezes, do fundo do corao, e embora
o
seu rosto nada tivesse deixado transparecer a tal respeito,
lamentado aquele pobre rapaz para quem o cativeiro era to
duro.
Transmitiu o pedido do 34 ao governador; mas este, prudente
como
se fosse um poltico, imaginou que Dants pretendia amotinar
os
prisioneiros, tramar qualquer conspirao, ter o auxlio de um
amigo em qualquer tentativa de evaso, e recusou.

Dants esgotara o crculo dos recursos humanos. Como dissemos
que
acabaria por acontecer, virou-se ento para Deus.

Todas as ideias piedosas espalhadas pelo mundo, que buscam os
infelizes vencidos pelo destino, vieram ento acalmar-lhe o
esprito. Recordou-se das preces que a me lhe ensinara e
encontrou-lhes um sentido que outrora ignorara. Porque para o
homem feliz a prece no passa de um conjunto de palavras
montono
e vazio de sentido, at ao dia em que a dor explica ao
infortunado a linguagem sublime com o auxlio da qual ele fala
a Deus.

Rezou portanto, no com fervor, mas sim com raiva. Rezando em
voz
alta, j se no assustava com as suas palavras. Ento, caa em
espcies de xtases. Via Deus, deslumbrante, em cada palavra
que
pronunciava. Todos os actos da sua vida humilde e perdida
atribua-os  vontade desse Deus poderoso, extraa da
ensinamentos, propunha-se tarefas a cumprir e no fim de cada
prece insinuava o pedido interesseiro que os homens encontram
com
muito mais frequncia maneira de dirigir aos homens do que a
Deus: "E perdoai-nos as nossas ofensas, assim como ns
perdoamos
aos que nos tem ofendido."

Mas, apesar das suas preces ferventes, Dants continuou
prisioneiro.

Ento, o seu esprito tornou-se sombrio e formou-se-lhe uma
nuvem
espessa diante dos olhos. Dants era um homem simples e sem
educao; o passado permanecera para ele coberto com esse vu
escuro que s a cincia ergue. Na solido da sua masmorra e no
deserto do seu pensamento, no podia reconstituir os tempos
passados, ressuscitar os povos extintos, reconstruir as
cidades
antigas, que a imaginao engrandece e poetisa, e que nos
passam
diante dos olhos, gigantescas e iluminadas pelo togo do cu,
como
os quadros babilnicos de Martinn. Ele s tinha o seu passado,
to curto; o seu presente, to sombrio, e o seu futuro, to
duvidoso: dezanove anos de luz a meditar talvez numa noite
eterna! Nenhuma distraco podia portanto vir ajud-lo. O seu
esprito enrgico, ao qual nada seduziria mais do que voar
atravs dos tempos, era obrigado a permanecer prisioneiro como
uma guia numa gaiola. Aterrava-se ento a uma ideia,  da sua
felicidade destruda sem motivo aparente e devido a uma
fatalidade inaudita. Encarniava-se  volta desta ideia,
virava-a
e revirava-a por todos os lados, devorava-a por assim dizer
sofregamente, como no inferno de Dante o implacvel Ugolino
devora o crnio do arcebispo Roger. Dants tivera apenas uma
f
passageira baseada no poder; perdeu-a como outros a perdem
depois
do xito. Simplesmente, no tirara proveito dela.

A raiva sucedeu ao ascetismo. Edmond proferia blasfmias que
faziam recuar de horror o carcereiro. Quebrava o corpo contra
as
paredes da sua priso. Atribua com furor as culpas a tudo o
que
o rodeava, e sobretudo a si mesmo,  menor contrariedade que
lhe
fizesse experimentar um gro de areia uma palhinha ou um sopro
de ar. Ento, a carta denunciadora que vira, que lhe mostrara
Villefort, em que tocara, acudia-lhe de novo ao esprito e
cada
linha chamejava sobre a muralha como o "Mane, Thecel, Phares"
de
Baltasar. Dizia para consigo que fora o dio dos homens e no
a
vingana de Deus que o mergulhara no abismo onde se
encontrava.
Votava esses homens desconhecidos a todos os suplcios
forjados
pela sua ardente imaginao e ainda lhe parecia que os mais
terrveis eram excessivamente suaves e sobretudo demasiado
curtos
para eles. Porque depois do suplicio vinha a morte, e a morte
era, seno o repouso, pelo menos a insensibilidade, segundo
lhe
parecia.

A calma era a morte e que quem quer punir cruelmente deve
recorrer a outros meios diferentes da morte, caiu na
imobilidade
sombria das ideias de suicdio. Ai daquele que na vertente da
desgraa se detm em to sombrias ideias! E como um desses
mares
mortos que se estendem como o azul das torrentes puras, mas
nos
quais o nadador sente os ps se enterrarem cada vez mais numa
vasa betuminosa que o puxa para si, o aspira e engole. Uma vez
 assim apanhado, se o socorro divino no vem em seu auxlio
est tudo acabado, e cada esforo que tenta o mergulha mais
profundamente na morte.

Todavia, esse estado de agonia moral  menos terrvel do que o
sofrimento que o precede e talvez do que o castigo que se lhe
seguir.  uma espcie de consolao vertiginosa que nos
mostra
o abismo escancarado e no fundo do abismo o nada. Chegado ai,
Edmond encontrou certa consolao nessa ideia. Todos os seus
sofrimentos, bem como o cortejo de espectros que arrastavam
atrs
de si, pareceram sumir-se do canto da sua priso onde o anjo
da
morte podia pousar o p silencioso. Dants observou com calma
a
sua vida passada, com terror a sua vida futura, e escolheu o
ponto intermdio que parecia ser um lugar de asilo.

- s vezes - dizia ento para consigo --, nas minhas viagens
longnquas, quando era ainda um homem e esse homem, livre e
forte, gritava a outros homens ordens que eram cumpridas, vi o
cu cobrir-se, o mar estremecer e bramir, a tempestade
formar-se
num canto do cu e, como uma guia gigantesca, bater os dois
horizontes com as suas duas asas. Ento sentia que o meu navio
no passava de um refgio impotente, pois o meu navio, leve
como
uma pena na mo de um gigante, tambm tremia e estremecia. No
tardava que, acompanhado do barulho medonho das vagas, o
aspecto
dos rochedos cortantes me anunciasse a morte, e a morte
aterrorizava-me. Empregava todos os esforos para lhe escapar
e
reunia todas as toras do homem e toda a inteligncia do
marinheiro para lutar com Deus!... Porque ento era feliz,
porque
voltar  vida era voltar  felicidade, porque no chamara
aquela
morte, no a escolhera, porque, enfim, me parecia duro dormir
naquele leito de algas e seixos, porque me indignava - eu que
me
julgava uma criatura feita  imagem de Deus - servir depois da
minha morte de pasto aos alcatrazes e aos abutres. Mas hoje o
caso  diferente: perdi tudo o que podia fazer-me amar a vida,
hoje a morte sorri-me como uma ama  criana que vai embalar.
Mas
hoje morro como quero, e adormeo exausto e quebrado como
adormecia depois de uma daquelas noites de desespero e raiva
durante as quais chegava a contar trs mil voltas no meu
quarto,
isto , trinta mil passos, ou seja cerca de dez lguas.

Desde que este pensamento germinou no esprito do jovem este
tornou-se mais tratvel, mais sorridente. Aceitou melhor o
leito
duro e o po negro, comeu menos, deixou de dormir e achou
quase
suportvel aquele resto de existncia que tinha a certeza de
abandonar quando lhe apetecesse, como deixamos uma pea de
roupa
velha.

Havia duas maneiras de morrer. Uma era simples: tratava-se de
prender o leno a um varo da janela e enforcar-se. A outra
consistia em fingir comer e deixar-se morrer de fome. A
primeira
repugnou profundamente a Dants.

Criara-se no horror aos piratas, gente que se enforca nas
vergas
dos navios. O enforcamento era portanto para ele uma espcie
de
suplcio infamante que recusava aplicar a si mesmo. Adoptou,
pois, a segunda e p-la em execuo naquele prprio dia.

Tinham decorrido cerca de quatro anos nas alternativas que
relatmos. Ao fim do segundo, Dants deixara de contar os dias
e recara na ignorncia do tempo de que outrora o tirara o
inspector.

Dants dissera: "Quero morrer", e escolhera o seu gnero de
morte. Ento, encarara-o bem de frente e, com medo de voltar
atrs na sua deciso, jurara a si mesmo morrer assim. "Quando
me
servirem as refeies da manh e da tarde", pensara, "atirarei
a comida pela janela e parecerei que comi."

Procedeu como prometera a si prprio proceder. Duas vezes por
dia, atravs da aberturazinha gradeada que s lhe permitia
distinguir o cu, lanava fora a comida, primeiro alegremente,
depois com reflexo e depois com pesar. Precisou de recorrer 
lembrana do juramento que fizera a si mesmo para ter a
coragem
de prosseguir o terrvel desgnio. A fome canina tornava-lhe
apetecveis  vista e tentadores ao olfacto aqueles alimentos
que
dantes lhe repugnavam. s vezes, conservava durante uma hora
na
mo o prato que os continha, ele olhos cravados no naco de
carne
ou no peixe infecto, bem como no po negro e bolorento. Eram
os
derradeiros instintos da vida que ainda lutavam nele e que de
vez
em quando derrubavam a sua resoluo. Ento, a sua masmorra j
lhe no parecia to sombria e o seu estado parecia-lhe menos
desesperado. Ainda era novo; devia ter vinte e cinco anos e
restavam-lhe pouco mais ou menos cinquenta anos para viver, ou
seja, duas vezes mais do que j vivera. Durante esse enorme
lapso
de tempo, quantos acontecimentos poderiam forar as portas,
derrubar as muralhas do Castelo de If e restituir-lhe a
liberdade! Ento, aproximava os dentes da comida que, Tntalo
voluntrio, ele prprio afastava da boca. A lembrana do seu
juramento acudia-lhe ao esprito e aquela natureza generosa
tinha
demasiado medo de se desprezar a si mesma para faltar a esse
juramento. Gastou, pois, rigoroso e implacvel, a pouca
existncia que lhe restava e chegou um dia em que j no teve
toras para se levantar e lanar pela janela o jantar que lhe
traziam.

No dia seguinte j no via e quase no ouvia. o carcereiro
julgou tratar-se de uma doena grave; Edmond esperava uma
morte
prxima.

O dia passou-se assim. Edmond sentia um vago entorpecimento
que
no deixava de lhe proporcionar certo bem-estar. Os arrancos
nervosos do seu estmago tinham diminudo e os ardores da sede
haviam-se acalmado. Quando fechava os olhos via uma quantidade
de luzes brilhantes idnticas aos fogos-ftuos que percorrem
de
noite os terrenos pantanosos. Era o crepsculo desse pais
desconhecido chamado a morte. De sbito,  noite, por volta
das
nove horas, ouviu um rudo abafado na parede junto da qual
estava
deitado.

Tantos bichos imundos tinham vindo fazer barulho na priso que
pouco a pouco Edmond habituara-se a dormir sem que o seu sono
fosse perturbado por to pouco. Mas desta vez, quer porque os
seus sentidos estivessem excitados pela abstinncia, quer
porque
realmente o rudo fosse mais forte do que de costume, quer
ainda
porque naquele momento supremo tudo adquirisse importncia,
Edmond soergueu a cabea para ouvir melhor.

Tratava-se de um arranhar sempre igual que parecia denotar
quer
uma garra enorme, quer um dente poderoso, quer finalmente a
presso de qualquer instrumento nas pedras.

Apesar de enfraquecido, o crebro do jovem foi assaltado por
essa
ideia banal constantemente presente no esprito dos
prisioneiros:
a liberdade. Aquele barulho chegava to precisamente no
momento
em que todo o rudo ia cessar para ele que lhe parecia que
Deus
se mostrava enfim compadecido dos  seus sofrimentos e lhe
enviava aquele barulho para o avisar de que se detivesse 
beira
da sepultura onde o seu p j vacilava. Quem sabe se um dos
seus
amigos, um desses entes queridos em que pensara tantas vezes,
no
se ocupava dele naquele momento e procurava encurtar a
distncia
que os separava.

Mas no, Edmond enganava-se sem dvida e tratava-se de um
desses
sonhos que pairam  porta da morte.

Contudo, Edmond continuava a ouvir o rudo. Este durou cerca
de
trs horas e depois Edmond ouviu uma espcie de
desmoronamento,
depois do qual o rudo cessou.

Poucas horas mais tarde recomeou mais forte e mais prximo.
J
Edmond se interessava por aquele trabalho que lhe fazia
companhia
quando, de sbito, o carcereiro entrou.

Havia cerca de oito dias que resolvera morrer e quatro que
comeara a pr o projecto em execuo sem que Edmond dirigisse
a palavra quele homem, no lhe respondesse quando lhe
perguntara
de que doena julgava sofrer e se virasse para a parede quando
o outro o olhara com demasiada ateno. Mas naquele dia o
carcereiro poderia ouvir aquele barulho abafado, alarmar-se,
pr-lhe termo e destruir assim, talvez, no sei que esperana,
cuja simples ideia fascinava os derradeiros momentos de
Dants.

o carcereiro trazia o pequeno-almoo.

Dants soergueu-se na cama, engrossou a voz e desatou a falar
de
tudo quanto lhe veio  cabea: da m qualidade da comida que o
carcereiro trazia, do frio que se rapava naquela masmorra,
etc.,
sempre murmurando e resmungando para ter o direito de gritar
mais
alto e cansando a pacincia do carcereiro, que precisamente
naquele dia solicitara para o prisioneiro doente um caldo e
po
fresco e lhe trazia esse caldo e esse po.

Felizmente, o homem julgou que Dants delirava, pousou a
comida
em cima da mesa coxa em que tinha o hbito de a colocar e
retirou-se.

De novo livre, Edmond ps-se a escutar com alegria.

O rudo tornara-se to distinto que naquele momento o jovem j
o ouvia sem esforo.

"No h dvida", disse para consigo, "se o rudo continua,
apesar
de j ser dia,  porque algum pobre prisioneiro como eu
trabalha
para se libertar. Oh, se estivesse perto dele como o
ajudaria!"

Depois, de repente, uma nuvem sombria passou sobre esta aurora
de esperana naquele crebro habituado  desgraa e que s
dificilmente poderia recuperar as alegrias humanas: assaltou-o
bruscamente a ideia de que o barulho poderia ser provocado
pelo
trabalho de alguns operrios que o Governo empregasse nas
reparaes de uma cela contgua.

Era fcil assegurar-se disso; mas como arriscar uma pergunta?
Claro que era muito simples esperar a chegada do carcereiro,
faz-lo escutar o rudo e ver a cara que faria. Mas
proporcionar-se semelhante satisfao no seria atraioar
interesses demasiados preciosos por uma satisfao to curta?
Infelizmente a cabea de Edmond, campnula vazia, estava
dominada
pelo zumbido de uma ideia. Encontrava-se to fraco que o seu
esprito pairava como um vapor e no conseguia condensar-se 
volta de um pensamento. Edmond viu apenas um meio de dar
clareza
 sua reflexo e lucidez ao seu  julgamento. Olhou para o
caldo
ainda fumegante que o carcereiro acabava de deixar em cima da
mesa, levantou-se, aproximou-se dele cambaleante, pegou na
malga,
levou-a aos lbios e engoliu a beberagem que continha com uma
indizvel sensao de bem-estar.

Teve ento a coragem de ficar por ali. Ouvira dizer que pobres
nufragos recolhidos, extenuados pela fome, tinham morrido por
haverem devorado vorazmente uma alimentao demasiado
substancial. Edmond pousou em cima da mesa o po que tinha j
quase ao alcance da boca e voltou a deitar-se. Desistira de
morrer.

No tardou a sentir a luz entrar-lhe no crebro. Todas as suas
ideias vagas e quase inapreensveis retomavam o seu lugar
naquele
tabuleiro de xadrez maravilhoso, onde uma casa a mais talvez
seja
suficiente para estabelecer a superioridade do homem sobre os
animais. Conseguiu pensar e fortificar o pensamento com o
raciocnio.

Ento, disse para consigo:

" necessrio tentar a experincia, mas sem comprometer
ningum.
Se o trabalhador for um operrio vulgar, bastar-me- bater na
minha parede e imediatamente ele interromper a sua tarefa
para
procurar adivinhar quem bate e com que fim bate. Mas se o seu
trabalho no for s lcito, mas tambm encomendado,
retom-lo-
imediatamente. Se, pelo contrrio, for um prisioneiro, o
barulho
que eu fizer assust-lo-. Receando ser descoberto,
interromper
o seu trabalho e s o retomar  noite, quando julgar toda a
gente deitada e a dormir."

Edmond levantou-se imediatamente de novo. Desta vez as pernas
j
no lhe vacilavam nem tinha vises de fogos-ftuos. Dirigiu-se
para um canto da cela, arrancou uma pedra minada pela humidade
e foi bater na parede mesmo no sitio onde o barulho era mais
sensvel.

Bateu trs vezes.

Logo  primeira, o barulho cessou como que por encanto.

Edmond escutou com toda a sua alma. Passou uma, duas horas sem
que nenhum novo rudo se ouvisse; Edmond provocara do outro
lado
da muralha um silncio absoluto.
Cheio de esperana, Edmond comeu um pouco de po e bebeu
alguns
golos de gua. Graas  poderosa constituio de que a
natureza
o dotara encontrou-se pouco depois como anteriormente.

Passou o dia e o silncio manteve-se.

Anoiteceu e o barulho no recomeou.

" um prisioneiro", disse Edmond para consigo com indizvel
alegria.

Desde ento a cabea exaltou-se-lhe e a vida tornou-se-lhe
violenta  fora de ser activa.

A noite passou sem que se ouvisse o menor rudo.

Edmond no pregou olho.

Amanheceu; o carcereiro entrou com a comida. Edmond j
devorara
os alimentos antigos e devorou os novos escutando sem cessar,

espera de um rudo que no voltava, receando que tivesse
cessado
para sempre, percorrendo dez ou doze lguas na sua masmorra,
sacudindo durante horas inteiras os vares de ferro do seu
respiradouro, recuperando a elasticidade e o vigor dos seus
membros por meio de um exerccio esquecido havia muito tempo,

dispondo-se enfim a retomar, corpo a corpo, o seu destino
futuro,
como faz, estendendo os braos e esfregando o corpo com leo,
o
lutador que vai entrar na arena. Depois, nos intervalos desta
actividade febril, escutava se o rudo voltava,
impacientando-se
com a prudncia daquele prisioneiro que no adivinhava que
fora
distrado da sua obra de libertao por outro prisioneiro que
tinha, pelo menos, tanta pressa de ser livre como ele.

Passaram-se assim trs dias, setenta e duas horas mortais,
contadas minuto a minuto.

Por fim, uma noite, quando o carcereiro acabava de fazer a sua
ltima visita e Dants colava pela centsima vez o ouvido 
muralha, pareceu-lhe que um abalo imperceptvel se repercutia
na
sua cabea, encostada s pedras silenciosas.

Dants recuou, para acalmar o crebro agitado, deu algumas
voltas
na cela e recolocou o ouvido no mesmo stio.

J no havia dvida: fazia-se qualquer coisa do outro lado. O
prisioneiro reconhecera o perigo da sua manobra e optara por
qualquer outra. Sem dvida, para continuar a sua obra com mais
segurana, substitura a alavanca pelo escopro.

Animado por esta descoberta, Edmond resolveu ajudar o
infatigvel trabalhador. Comeou por afastar a cama, atrs da
qual lhe parecia decorrer a obra de libertao, e procurou com
os olhos um objecto com o qual pudesse atacar a muralha,
arrancar
o cimento hmido, desprender finalmente uma pedra.

No viu nada. No tinha faca nem qualquer outro instrumento
cortante. De ferro s tinha os vares e quanto a estes j se
assegurara muitas vezes que estavam bem presos e no valia a
pena
tentar abal-los.

Todo o seu mobilirio se compunha de uma cama, uma cadeira,
uma
mesa, um balde e uma bilha.

A cama tinha respigas de ferro, mas essas respigas
encontravam-se
presas  madeira por parafusos. Seria necessria uma chave de
fenda para tirar os parafusos e arrancar as respigas.

Na mesa e na cadeira, nada; o balde tivera noutros tempos uma
asa, mas essa asa desaparecera.

S havia um recurso para Dants: quebrar a bilha e com um dos
bocados de barro talhado em ngulo meter mos  obra.

Deixou cair a bilha no cho e a bilha voou em pedaos.

Dants escolheu dois ou trs cacos aguados, escondeu-os na
enxerga e deixou os outros espalhados pelo cho. A quebra da
bilha era um acidente to natural que ningum se preocuparia
com
ele.

Edmond tinha toda a noite para trabalhar; mas na escurido a
tarefa corria mal, pois tinha de trabalhar s apalpadelas e
no
tardou a sentir que embotava o instrumento informe numa
argamassa
mais dura. Recolocou, pois, a cama no seu lugar e esperou que
amanhecesse. Com a esperana, voltara-lhe tambm a pacincia.

Durante toda a noite escutou e ouviu o mineiro desconhecido
que
continuava a sua obra subterrnea.

Amanheceu e o carcereiro entrou. Dants disse-lhe que ao beber
na vspera pela prpria bilha esta lhe escapara das mos,
cara
e partira-se. O carcereiro  foi, resmungando, buscar uma
bilha
nova, e nem sequer se deu ao incmodo de levar os bocados da
velha.

Voltou pouco depois, recomendou mais cuidado ao prisioneiro e
saiu.

Dants escutou com indizvel alegria o chiar da fechadura, que
dantes lhe apertava o corao todas as vezes que se fechava.
Ouviu afastar-se o rudo dos passos; depois, quando o rudo se
extinguiu, saltou para a cama, que desviou, e  claridade do
fraco raio de luz que peneirava na cela pde ver o trabalho
intil que fizera na noite anterior, atacando o corpo da pedra
em vez da argamassa que lhe rodeava as extremidades.

A humidade tornara essa argamassa frivel.

Dantes verificou, com o corao a pulsar-lhe de alegria, que a
argamassa se soltava em fragmentos - fragmentos que eram quase
tomos, verdade seja... Mas ao cabo de meia hora, porm Dants
j arrancara pouco mais ou menos um punhado. Um matemtico
poderia calcular que aproximadamente em dois anos daquele
trabalho, supondo que se no encontrasse rocha, seria possvel
abrir uma passagem de dois ps quadrados e vinte ps de
profundidade.

O prisioneiro censurou-se por no ter empregado naquele
trabalho
as longas horas passadas, sempre mais lentas, que perdera na
esperana, na orao e no desespero.

Havia cerca de seis anos que se encontrava fechado naquela
masmorra: que trabalho, por mais lento que fosse no teria
feito!

Esta ideia deu-lhe novo ardor.

Em trs dias conseguiu, com inauditas precaues, retirar toda
a argamassa e pr a pedra a nu. A muralha era feita de
pequenas
pedras de construo, no meio das quais, para aumentar a
solidez,
tinham colocado, a intervalos, grandes blocos de pedra
aparelhados. Era uma dessas pedras que quase descarnara e que
se
tratava agora de fazer sair do seu alvolo.

Dants experimentou com as unhas, mas as unhas eram
insuficientes
para isso.

Os cacos da bilha, introduzidos nos intervalos, quebravam-se
quando Dants pretendia utiliz-los como alavanca.

Passado uma hora de tentativas inteis, Dants levantou-se,
com
o suor da angstia na testa.

Iria ser detido assim logo ao princpio e teria de esperar,
inerte e intil, que o vizinho, que se esfalfava do seu lado,
talvez, fizesse tudo?

Passou-lhe ento uma ideia pelo esprito. Ficou de p a
sorrir.
A sua testa hmida de suor secou por si mesma.

O carcereiro trazia todos os dias a sopa de Dants numa
caarola
de folha-de-flandres. Essa caarola continha a sua sopa e a
doutro prisioneiro, pois Dants notara que ou estava
completamente cheia ou meio vazia, conforme o carcereiro
comeava
a distribuio da comida por ele ou pelo seu companheiro.

A caarola tinha um cabo de ferro. Era esse cabo de ferro que
Dants ambicionava e que pagaria, se lhos exigissem em troca,
com
dez anos de vida.

O carcereiro deitou o contedo da caarola no prato de Dants.
Depois de comer a sopa com uma colher de pau, Dants lavava o
prato, que servia assim todos os dias.

 noite, Dants ps o prato no cho, a meio caminho entre a
porta e a mesa. Ao entrar, o carcereiro ps o p em cima do
prato
e partiu-se em mil bocados.

Desta vez no havia nada a dizer contra Dants: fizera mal em
deixar o prato no cho,  verdade, mas o carcereiro tambm no
vira onde punha os ps.

O carcereiro limitou-se portanto a resmungar.

Em seguida olhou  sua volta para ver onde poderia deitar a
sopa;
mas a baixela de Dants limitava-se quele nico prato e no
havia por onde escolher.

- Deixe a caarola - sugeriu Dants. - Lev-la- quando me
trouxer amanh o pequeno-almoo.

O conselho ia ao encontro da preguia do carcereiro, que assim
no tinha necessidade de subir, descer e tornar a subir.
Deixou a caarola.

Dants estremeceu de alegria.

Desta vez comeu rapidamente a sopa e a carne que, segundo o
hbito das prises, deitavam na sopa. Em seguida, depois de
esperar uma hora para ter a certeza de que o carcereiro no
mudava de ideias, afastou a cama, pegou na caarola,
introduziu
a ponta do cabo entre a pedra aparelhada liberta de argamassa
e
as pedras de construo vizinhas e comeou a utiliz-la como
alavanca.

Uma pequena oscilao provou a Dants que as coisas corriam
bem.

De facto, ao cabo de uma hora a pedra estava fora da parede,
onde
deixaram um buraco de mais de p e meio de dimetro.

Dants apanhou com cuidado toda a argamassa, transportou-a
para
os cantos da cela, raspou a terra acinzentada com um dos
fragmentos da bilha e cobriu a argamassa de terra.

Depois, disposto a tirar proveito daquela noite em que o
acaso,
ou antes, o excelente truque que imaginara, lhe pusera nas
mos
um instrumento to precioso, continuou a cavar com energia.

Ao amanhecer, recolocou a pedra no buraco, empurrou a cama
contra
a parede e deitou-se.

O pequeno-almoo consistia num naco de po. O carcereiro
entrou
e deixou-o em cima da mesa.

- Ento, no traz outro prato? - perguntou Dants.

- No - respondeu o carcereiro. - Parte tudo, j partiu a
bilha
e foi o causador de lhe partir o prato. Se todos os
prisioneiros
dessem tanta despesa, no sei aonde o Governo havia de ir
buscar
dinheiro. Deixo-lhe a caarola, onde lhe deitarei a sopa.
Assim,
talvez j no parta a sua baixela.

Dants ergueu os olhos ao cu e juntou as mos debaixo do
cobertor.

Aquele pedao de ferro que lhe deixavam fazia-lhe nascer no
corao um impulso de reconhecimento ao Cu mais vivo do que o
que alguma vez lhe causara no passado as maiores venturas que
experimentara.

Notara, porm, que desde que comeara a trabalhar o
prisioneiro
j no trabalhava.

Que interessava, isso no era motivo para interromper a sua
tarefa. Se o vizinho no vinha ter com ele, iria ele ter com o
vizinho.

Trabalhou todo o dia sem descanso.  noite, graas ao seu
novo
instrumento, tirara da muralha mais de dez punhados de
fragmentos
de pedra de construo, gesso e cimento.

Quando chegou a hora de visita, endireitou o melhor que pde o
cabo da caarola e colocou o recipiente no seu lugar habitual.
O carcereiro deitou nele a costumada rao de sopa e carne -
ou
antes, de sopa e peixe, pois aquele era dia de jejum, um dos
trs
dias de jejum semanais a que sujeitavam os prisioneiros. Seria
mais um meio de calcular o tempo, se h muito Dants no
tivesse
renunciado a tal clculo.

Deitada a sopa, o carcereiro retirou-se.

Desta vez, Dants quis ter a certeza se o vizinho deixara
realmente de trabalhar.

Escutou.

Estava tudo silencioso como durante os trs dias em que o
trabalho fora interrompido.

Dants suspirou. Era evidente que o vizinho desconfiava dele.
No entanto, no desanimou e continuou a trabalhar toda a
noite.
Mas aps duas ou trs horas de escavar, encontrou um
obstculo:
o ferro j no mordia, deslizava numa superfcie plana.

Dants apalpou com as mos e reconheceu que atingira uma viga.

A viga atravessava, ou antes, barrava inteiramente o buraco
que
Dants comeara.

Agora era preciso escavar por cima ou por baixo.

O pobre rapaz nunca pensara em semelhante obstculo.

- Oh, meu Deus, meu Deus, pedi-vos tanto que esperava me
tivsseis ouvido! - exclamou. - Meu Deus, depois de me terdes
tirado a liberdade da vida, meu Deus! Depois de me terdes
tirado
a calma da morte, meu Deus! Por que me chamastes  existncia,
meu Deus? Tende piedade de mim e no me deixeis morrer no
desespero!

- Quem fala de Deus e de desespero ao mesmo tempo? - perguntou
uma voz que parecia vir de baixo da terra e que, abafada pelo
local, chegava aos ouvidos do jovem com um acento sepulcral.

Edmond sentiu os cabelos eriarem-se-lhe na cabea e recuou
nos
joelhos.

- Oh, ouvi falar um homem!... - murmurou.

Havia quatro ou cinco anos que Edmond s ouvia falar o
carcereiro, e para um preso o carcereiro no  homem:  uma
porta
viva ajustada  sua porta de carvalho;  um varo de carne
entre
os vares de ferro.

- Em nome do Cu - gritou Dants --, quem falou, que volte a
falar, embora a sua voz me tenha assustado! Quem  o senhor?

- E o senhor? - perguntou a voz.

- Um pobre prisioneiro - respondeu Dants, que pela sua parte
no
punha nenhuma dificuldade em responder.

- De que pais?

- Francs.

- O seu nome?

- Edmond Dants.

- A sua profisso?

- Marinheiro.

- H quanto tempo est aqui?

- Desde 28 de Fevereiro de 1815.

- O seu crime?

- Estou inocente.

- Mas de que o acusam?

- De conspirar para regresso do imperador.

- Como? Para o regresso do imperador?... O imperador j no
est
no trono?

- Abdicou em Fontainebleau em 1814 e foi exilado para a ilha
de
Elba. Mas h quanto tempo est o senhor aqui que ignora tudo
isto?

- Desde 1811.

Dants estremeceu. Aquele homem tinha mais quatro anos de
priso
do que ele.

- Bom, no escave mais - disse a voz, falando muito depressa.
-
Diga-me apenas a que altura se encontra a escavao que fez.

- Rente ao cho.

- Como est escondida?

- Atrs da minha cama.

- Afastaram alguma vez a sua cama do seu lugar desde que o
senhor
est na cela?

- Nunca.

- Para onde d a sua cela?

- Para uma passagem coberta.

- E a passagem coberta?

- Para o ptio.

- Pouca sorte! - murmurou a voz.

- Oh, meu Deus, que diz?! - exclamou Dants.

- Digo que me enganei, que a imperfeio dos meus desenhos me
levou a resultados errados, que a falta de uma bssola me
perdeu,
que uma linha de erro no meu plano equivaleu na realidade a
quinze ps e que tomei a parede que o senhor abriu pela da
cidadela!

- Mas ento iria dar ao mar!

- Era o que eu queria.

- E se tivesse conseguido?

- Deitava-me a nado, alcanava uma das ilhas que rodeiam o
Castelo de If, quer a ilha de Daume, quer a ilha de Tiboulen,
quer at a costa, e estava salvo.

- Conseguiria nadar at l?

- Deus dar-me-ia foras. E agora est tudo perdido!

- Tudo?

- Sim. Tape o seu buraco, com precauo, no trabalhe mais,
no
faa nada e espere as minhas notcias.

- Quem , ao menos? Ao menos diga-me quem !

- Sou... sou... n.o 27.

- Desconfia de mim? - perguntou Dants.

Edmond julgou ouvir como que um riso amargo transpor a abbada
e subir at ele.

- Oh, sou um bom cristo! - gritou, adivinhando
instintivamente
que aquele homem tencionava abandon-lo. - Juro-lhe por Cristo
que mais depressa me deixarei matar do que entrever aos seus
carrascos e aos meus a sombra da verdade. Mas em nome do Cu
no
me prive da sua presena, no me prive da sua voz,
suplico-lhe,
pois cheguei ao limite das minhas foras e juro-lhe que
partirei
a cabea contra a muralha e o senhor ser culpado da minha
morte.

- Que idade tem? A sua voz parece a de um rapaz.

- No sei a minha idade, porque no contei o tempo desde que
estou aqui. O que sei  que ia fazer dezanove anos quando fui
preso, em 28 de Fevereiro de 1815.

- Ainda no completou vinte e seis anos - murmurou a voz. --
bom, nessa idade ainda se no  um traidor.

- Oh, no, no! Juro-lhe - repetiu Dants. - J lhe disse e
repito que mais depressa me deixarei fazer em bocados do que o
atraioarei.

- Fez bem em falar-me; fez bem em pedir-me, porque ia formar
outro plano e afastar-me de si. Mas a sua idade
tranquiliza-me.
Irei ter consigo; espere por mim.

- Quando?

- Tenho de calcular as nossas probabilidades. Depois lhe darei
sinal.

- Mas no me abandonar, no me deixar sozinho, vir ter
comigo
ou permitir-me- que v ter consigo? Fugiremos juntos, e se
no
pudermos fugir falaremos, o senhor das pessoas que lhe so
queridas e eu das minhas. Decerto tem algum que lhe 
querido?...

- Estou s no mundo.

- Ento, seremos amigos. Se for novo, serei seu camarada; se
for
velho, serei seu filho. O meu pai deve ter setenta anos, se
ainda
 vivo. No amava mais ningum a no ser ele e uma rapariga
chamada Mercds. O meu pai no me esqueceu, tenho a certeza;
mas
ela, s Deus sabe se ainda pensa em mim. Am-lo-ei como amava
o
meu pai.

- Pois sim, amanh - disse o prisioneiro.

Estas poucas palavras foram proferidas com um acento que
convenceu Dants. No perguntou mais nada, levantou-se, tomou
as
mesmas precaues com os fragmentos tirados da parede do que
as
que j tomara com os anteriores e empurrou a cama contra a
muralha.

Desde ento, Dants entregou-se por completo  sua felicidade.
Nunca mais estaria s, decerto, talvez at conseguisse ser
livre.
Na pior das hipteses, se continuasse prisioneiro, teria um
companheiro. Ora o cativeiro compartilhado no passa de meio
cativeiro. Os queixumes em comum so quase preces; preces que
se
rezam a dois so quase aces de graas.

Dants andou durante todo o dia de um lado para o outro na sua
cela, com o corao a pular de alegria. De vez em quando, a
alegria sufocava-o. Sentava-se ento na cama e comprimia o
peito
com a mo. Ao mais pequeno rudo que ouvia na passagem
coberta,
saltava para a porta. Uma vez ou duas, o receio de que o
separassem daquele homem que no conhecia, mas que no entanto
estimava j como um amigo, passou-lhe pela cabea. Se isso
acontecesse, estava decidido: no momento em que o carcereiro
afastasse a cama e baixasse  a cabea para examinar o
buraco,
partir-lha-ia com a laje em que estava pousada a bilha.

Conden-lo-iam  morte, bem o sabia; mas no morreria de
aborrecimento e desespero desde o momento em que aquele rudo
miraculoso o restitura  vida.

O carcereiro veio  noitinha. Dants estava na cama, donde lhe
parecia que guardava a melhor cobertura inacabada.
Decerto fitou o visitante importuno com olhar estranho, pois o
homem disse-lhe:

- Ento, est cada vez mais louco?

Dants no respondeu; receava que a emoo da sua voz o
atraioasse.

O carcereiro retirou-se abanando a cabea.

Quando anoiteceu, Dants julgou que o vizinho aproveitaria o
silncio e a escurido para reatar a conversa consigo, mas
enganava-se; a noite passou sem que nenhum rudo respondesse 
sua febril expectativa. Mas no dia seguinte, depois da visita
da
manh, quando afastou a cama da muralha, ouviu trs pancadas a
intervalos regulares e precipitou-se de joelhos

-  o senhor? - perguntou. - Estou aqui!

- O seu carcereiro j se foi embora? - perguntou a voz.

- J - respondeu Dants - e s voltar  tardinha. Temos doze
horas de liberdade.

- Posso portanto trabalhar? - insistiu a voz.

- Pode, sim, e imediatamente, agora mesmo, suplico-lhe.

Acto contnuo a poro de terra em que Dantes, meio metido na
abertura, apoiava as mos pareceu ceder debaixo dele. Recuou,
enquanto uma massa de terra e pedras soltas se precipitava num
buraco acabado de, abrir por baixo da abertura que ele prprio
fizera. Ento, no fundo desse buraco escuro e cuja
profundidade
no podia calcular, viu aparecer uma cabea, ombros e
finalmente
um homem completo, que saiu com bastante agilidade da
escavao
praticada.


Captulo XVI

Um sbio italiano


Dants recebeu nos braos o novo amigo tanto e to
impacientemente esperado e puxou-o para a sua janela, a fim de
que a pouca luz que penetrava na cela o iluminasse por
completo.

Era um homem baixinho, de cabelos embranquecidos mais pelo
sofrimento do que pela idade, olhos penetrantes ocultos sob
sobrancelhas espessas j grisalhas e barba ainda preta que lhe
descia at ao peito. A magreza do rosto, sulcado por rugas
profundas, e a linha ousada dos seus traos caractersticos
revelavam um homem mais habituado a exercer as suas faculdades
morais do que fsicas. A testa do recm-chegado estava coberta
de suor.

Quanto ao seu vesturio, era impossvel distinguir a sua forma
primitiva, pois caa em farrapos.

Parecia ter, pelo menos, sessenta e cinco anos, embora certo
vigor nos movimentos denotasse que talvez tivesse menos idade
do
que a que o fazia parecer o longo cativeiro.

Acolheu com uma espcie de prazer as exclamaes entusiastas
do
rapaz; a sua alma gelada pareceu por um instante aquecer e
derreter-se ao contacto com aquela alma ardente. Agradeceu-lhe
a sua cordialidade com certo calor, apesar de a sua decepo
ter
sido grande por encontrar segunda masmorra onde julgava
encontrar
a liberdade.

- Antes de mais nada - disse --, vejamos se h maneira de
fazer
desaparecer aos olhos dos seus carcereiros os vestgios da
minha
passagem. Toda a nossa tranquilidade futura assenta na
ignorncia
do que se passou.

Inclinou-se ento para a abertura, pegou na pedra, que
levantou
facilmente apesar do seu peso, e meteu-a no buraco.

- Esta pedra foi arrancada com muita negligncia - declarou,
abanando a cabea.-No tem ferramentas?

- E o senhor, tem-nas? - perguntou Dants, atnito.

- Arranjei algumas. Exceptuando uma lima, tenho tudo o que
preciso: escopro, alicate, alavanca...

- Oh, gostaria de ver esses produtos da sua pacincia e da sua
indstria - declarou Dants.

- Olhe, para comear aqui tem um formo.

E mostrou-lhe uma lmina forte e aguada, encabada num bocado
de
madeira de faia.

- De que fez isto? - perguntou Dants.

- De uma das dobradias da minha cama. Foi com este
instrumento
que abri todo o caminho que me conduziu aqui: cinquenta ps,
aproximadamente.

- Cinquenta ps! - exclamou Dants, com uma espcie de terror.

- Fale baixo, rapaz, fale mais baixo;  frequente escutarem s
portas dos prisioneiros.

- Sabem que estou sozinho.

- No importa.

- Diz que escavou cinquenta ps para chegar aqui?

- Sim. Tal , pouco mais ou menos, a distncia que separa a
minha
cela da sua. Simplesmente, calculei mal a minha curva, por
falta
de instrumento de geometria para estabelecer a minha escala de
propores: em vez de quarenta ps de elipse, encontrei
cinquenta. Julgava assim, como lhe disse, chegar  parede
exterior, fur-la e atirar-me ao mar. Mas segui ao longo da
passagem coberta para onde d a sua cela, em vez de passar por
baixo. Todo o meu trabalho est perdido porque essa passagem
d
para um ptio cheio de guardas.

-  verdade - concordou Dants. - Mas a passagem s acompanha
um
lado da minha cela e a minha cela tem quatro.

- Sim, sem dvida, mas em primeiro lugar aqui est um que tem
como muralha o rochedo. Seriam precisos dez anos de trabalho a
dez mineiros munidos de todas as ferramentas prprias para
furar
o rochedo. Este deve ficar encostado aos alicerces dos
aposentos
do governador. Cairamos nas caves, que fecham evidentemente 
chave, e seriamos apanhados. O outro lado d... Espere, para
onde
d o outro lado?

-- Esse lado era aquele onde se abria a seteira atravs da
qual
entrava a luz - seteira que ia sempre estreitando at ao
momento
que dava entrada  luz e pela qual uma criana no conseguiria
decerto passar. Alm disso, guarneciam-na trs ordens de
vares
de ferro capazes de tranquilizar a respeito de uma evaso por
esse meio o carcereiro mais desconfiado.

Ao mesmo tempo que fazia a pergunta, o recm-chegado ia
arrastando a mesa para debaixo da janela.

- Suba para cima da mesa - disse a Dants.

Dants obedeceu, subiu para cima da mesa e, adivinhando as
intenes do companheiro, encostou-se  parede e estendeu-lhe
as
mos.

Aquele que dera como nome o nmero da sua cela e cujo
verdadeiro
nome Dants ainda ignorava, subiu ento mais lestamente do que
a sua idade poderia fazer pressagiar, com uma habilidade de
gato
ou de lagarto, primeiro para cima da mesa, depois da mesa para
as mos de Dants e depois das mos para os ombros, curvado em
dois, porque a abbada da cela o impedia de se endireitar,
meteu
a cabea entre a primeira ordem de vares e conseguiu assim
ver
de cima para baixo.

Passado um instante, retirou vivamente a cabea.

- Oh, oh! - exclamou. - Bem me parecia...

Deixou-se escorregar ao longo do corpo de Dants para cima da
mesa e da mesa saltou para o cho.

- Bem lhe parecia o que? - perguntou o rapaz, ansioso,
saltando
por seu turno atrs dele.

O velho prisioneiro meditava.

- Sim,  isso... - disse por fim. - O quarto lado da sua cela
d
para uma galeria exterior, espcie de caminho de ronda, onde
passam as patrulhas e fazem guarda sentinelas.

- Tem a certeza?

- Vi a barretina do soldado e a extremidade da espingarda e
retirei-me precipitadamente com receio de que ele tambm me
visse.

- E agora? - perguntou Dants.

- Bem v que  impossvel fugir pela sua cela.

- Ento... - continuou o rapaz, em tom interrogativo.

- Ento - redarguiu o velho prisioneiro --, que seja feita a
vontade de Deus!

E uma expresso de profunda resignao espalhou-se pelo rosto
do
velhote.

Dants olhou aquele homem que renunciava assim e com tanta
filosofia a uma esperana alimentada havia tanto tempo.
Olhou-o com um espanto laivado de admirao.

- Quer agora dizer-me quem ? - perguntou Dants.

- Oh, meu Deus, quero, se isso ainda lhe pode interessar;
agora
que j no posso ser-lhe til em nada!

- Pode ser-me til confortando-me e amparando-me, pois
parece-me
forte entre os fortes.

O abade sorriu tristemente.

- Sou o abade Faria - apresentou-se o prisioneiro - e desde
1811
que me encontro, como sabe, no Castelo de If. Mas primeiro
estive
trs anos  encerrado na Fortaleza de Fenestrelle. Em 1811
transferiram-me do Piemonte para Frana. Foi ento que soube
que
o destino, que nessa poca lhe parecia submisso, dera um filho
a Napoleo e que esse filho fora designado no bero rei de
Roma.
Estava longe de suspeitar ento do que voc me disse h pouco,
isto, , que passados quatro anos o colosso seria derrubado.
Quem
reina agora em Frana? Napoleo II?

- No, Lus XVIII.

- Lus XVIII, o irmo de Lus XVI! Os decretos do Cu so
estranhos e misteriosos. Qual foi a inteno da Providncia
abaixando o homem que elevara e elevando o que abaixara?

Dants seguia com os olhos aquele homem que esquecia por
instantes o seu prprio destino para se preocupar assim com os
destinos do mundo.

- Sim, sim - continuou --.,  como na Inglaterra: depois de
Carlos I, Cromwell; depois de Cromwell, Carlos II, e depois de
Carlos II talvez qualquer genro, qualquer parente, qualquer
prncipe de Orange. Um stathouder que se far rei. E ento
novas concesses ao povo, ento uma constituio, ento a
liberdade! Voc ver isso, rapaz - declarou virando-se para
Dants fitando-o com olhos brilhantes e profundos como deviam
ser
os dos profetas. - Ainda est em idade de o ver e v-lo-.

- Sim, se sair daqui.

- Tem razo - admitiu o abade Faria. - Estamos presos, embora
haja momentos em que o esqueo e, porque os meus olhos
trespassam
as muralhas que me encerram, me julgue em liberdade.

- Mas por que est preso?

- Eu? Porque sonhei em 1807 o projecto que Napoleo quis
realizar
em 1811. Porque, como Maquiavel no meio de todos esses
principelhos que faziam da Itlia um ninho de reinozinhos
tirnicos e fracos, quis um grande e nico imprio, slido e
forte. Porque julguei encontrar o meu Csar Brgia num parvo
coroado, que simulou compreender para melhor me trair. Era o
projecto de Alexandre VI e Clemente VII. Esse projecto nunca
ir
por diante, pois empreenderam-no inutilmente e Napoleo no o
pde acabar. Decididamente, a Itlia est amaldioada!

E o velhote baixou a cabea.

Dants no compreendia como podia um homem arriscar a vida por
semelhantes interesses.  certo que se conhecia Napoleo por o
ter visto e lhe ter falado, ignorava completamente, em
contrapartida, quem eram Clemente VII e Alexandre VI.

- O senhor no  - perguntou Dants, comeando a perfilhar a
opinio do carcereiro, que era a opinio geral no Castelo de
If
- o padre que dizem estar... doente?

- Que dizem estar louco,  o que quer dizer, no  verdade?

- No me atrevia... - confessou Dants, sorrindo.

- Sim, sim - continuou Faria, com um riso amargo. - Sim, sou
eu
que passo por louco; sou eu que divirto h tanto tempo os
hspedes desta priso, e que divertiria as criancinhas se
houvesse crianas na morada da dor sem esperana.

Dants permaneceu um instante imvel e calado.

- Quer dizer que renuncia a fugir? - perguntou.

- Vejo a fuga impossvel. E rebelarmo-nos contra Deus
tentarmos
o que Deus no quer que se realize.

- No vale a pena desanimar. Seria tambm pedir demasiado 
Providncia querer triunfar  primeira tentativa. No pode
recomear noutro sentido o que fez neste?

- Sabe porventura o que fiz para falar assim de recomear?
Sabe
que levei quatro anos a fazer as ferramentas que possuo? Sabe
que
h dois anos que raspo e escavo uma terra dura como o granito?
Sabe que tive de descarnar pedras que noutros tempos julgaria
impossvel remover, que passei dias inteiros nesse labor
titnico
e que s vezes  noite me sentia feliz quando tinha retirado
uma
polegada quadrada dessa velha argamassa, tornada to dura como
a prpria pedra? Sabe que para esconder toda essa terra e
todas
essas pedras tive de furar a abbada de uma escada, em cujo
tambor todos esses escombros foram pouco a pouco lanados,
pelo
que agora o tambor est cheio e eu no saberia onde meter nem
mais um punhado de p? Sabe, finalmente, que julgava chegar ao
fim de todos os meus trabalhos, que me sentia com a forca
exacta
para executar essa tarefa e que Deus, no s recua esse
objectivo
como ainda o transporta no sei para onde? Oh, digo-lhe e
repito-lhe que daqui em diante no farei mais nada para tentar
reconquistar a minha liberdade, visto a vontade de Deus ser
que
a perca para sempre!

Edmond baixou a cabea para no confessar quele homem que a
alegria de ter um companheiro o impedia de compartilhar, como
deveria, a dor que experimentava o prisioneiro por no
conseguir
fugir.

O abade Faria deixou-se cair na cama de Edmond e Edmond fiou
de
p.

O jovem nunca pensara na fuga. H coisas que parecem de tal
modo
impossveis que nem sequer nos ocorre a ideia de as tentar e
que
evitamos instintivamente. Furarmos cinquenta ps debaixo de
terra; dedicarmos a essa operao trs anos de trabalho para
chegarmos, se formos bem sucedidos, a um precipcio aberto a
pique sobre o mar, precipitarmo-nos de cinquenta, sessenta ou
talvez cem ps para nos esmagarmos caindo de cabea sobre
qualquer rochedo, se primeiro nos no matar a bala de uma
sentinela; sermos obrigados, se conseguirmos escapar a todos
esses perigos, a nadar uma lgua - tudo isso seria mais do que
suficiente para nos resignarmos, e como vimos Dants quase
levara
essa resignao at  morte.

Mas agora que o jovem vira um velho agarrar-se  vida com
tanta
energia e dar-lhe o exemplo das solues desesperadas, ps-se
a
reflectir e a avaliar a sua coragem. Outro tentara o que ele
nem
lhe passara pela cabea fazer; outro, menos novo, menos forte,
menos destro do que ele, arranjara, a poder de habilidade e
pacincia, todos os instrumentos de que necessitara para essa
incrvel operao que apenas uma medida mal tirada fizera
malograr; ora se outro conseguira tudo isso, nada era
impossvel
a Dants. Faria furara cinquenta ps; ele furaria cem. Aos
cinquenta anos, Faria dedicara trs  sua obra; ele, que tinha
apenas metade da idade de Faria, dedicar-lhe-ia seis. Faria,
abade, sbio, homem de igreja, no receava correr o risco da
travessia do Castelo de If para a ilha de Daume, de Ratonneau
ou
de Lemaire; ele, Edmond, marinheiro; ele, Dants, ousado
mergulhador que muitas vezes fora buscar um ramo de coral ao
fundo do mar, hesitaria em nadar uma lgua? De que tempo
precisava para nadar uma lgua? Uma hora? Pois bem, no
passara
 horas inteiras no mar sem pr p em terra? No, no, Dants
no necessitava de ser encorajado pelo exemplo. Tudo o que
outro
fizesse ou pudesse fazer, Dants f-lo-ia.

O jovem reflectiu um instante.

- Encontrei o que o senhor procurava - disse ao velho.

Faria estremeceu.

- Voc? - disse, levantando a cabea com um ar que indicava
que
se Dants dizia a verdade o desanimo do seu companheiro no
seria
de longa durao. - Voc? Vejamos, que foi que encontrou!

- A galeria que furou para vir da sua cela at aqui estende-se
no mesmo sentido da galeria exterior, no  verdade?

- .

- E s deve distar dela uns quinze passos?

- No mximo.

- Bom, mais ou menos a meio da galeria abrimos um caminho que
forme como que o brao de uma Cruz. Desta vez, tirar melhor
as
suas medidas. Desembocamos na galeria exterior, matamos a
sentinela e fugimos. Para que o plano resulte  preciso apenas
coragem, e essa tem-na o senhor; vigor, e esse no me falta.
Isto
sem falar j da pacincia, de que j deu provas e eu darei as
minhas.

- Um instante - atalhou o abade. - Voc ignora, meu caro
companheiro, de que espcie  a minha coragem e como tenciono
empregar a minha fora. Quanto  pacincia, creio ter sido
bastante paciente recomeando todas as manhs a tarefa da
noite
e todas as noites a tarefa do dia. Mas ento, oua bem o que
lhe
digo, rapaz, parecia-me que servia Deus libertando uma das
suas
criaturas que, estando inocente, no pudera ser condenada.

- Mas ento - perguntou Dants --, as coisas no esto no
mesmo
p? Foi porventura reconhecido culpado desde que me encontrou?

- No, mas tambm no o quero vir a ser. At aqui julgava ter
de
me haver apenas com coisas, mas agora voc prope-me haver-me
com
homens. Furei uma parede e destru uma escada, mas no furarei
um peito nem destruirei uma existncia.

Dants fez um leve gesto de surpresa.

- Como, podendo ser livre prender-se-ia com semelhante
escrpulo
- perguntou.

- Tal como voc prprio - redarguiu Faria. - Por que motivo
no
agrediu, uma noite, o seu carcereiro com o p da sua mesa,
vestiu
as roupas dele e tentou fugir?

- Porque a ideia no me acudiu - respondeu Dants.

- Porque tem tal horror instintivo a semelhante crime, tal
horror
que nem sequer pensou nele - prosseguiu o velhote.
- Porque nas coisas simples e permitidas os nossos apetites
naturais advertem-nos de que nos no devemos desviar da linha
do
nosso direito. O tigre, que derrama sangue por natureza,
porque
 essa a sua condio, o seu destino, s precisa de uma coisa:
que o faro o previna de que tem uma presa ao seu alcance.
Salta
imediatamente sobre ela, cai-lhe em cima e despedaa-a. E o
seu
instinto e obedece-lhe. Mas ao homem, pelo contrrio, repugna
o
sangue. No so de modo algum as leis sociais que repudiam o
assassnio, so as leis naturais.

Dants ficou contuso. Era, com efeito, a explicao do que se
estava a passar sem ele saber no seu esprito, ou antes, na
sua
alma, pois h pensamentos que vm da cabea e outros que vm
do
corao.

- E depois - continuou Faria --, desde que estou preso, h
perto
de doze anos, j revi em esprito todas as evases clebres.
S
raramente vi as evases serem bem sucedidas. As evases que
resultam, as evases coroadas de pleno xito, so as evases
meditadas com cuidado e preparadas lentamente. Foi assim que o
duque de Beaufort fugiu do Castelo de Vincennes, o abade
Dubuquoi
do Fort-l'evque e Latude da Bastilha. H ainda aquelas que
se
devem ao acaso; essas so as melhores. Acredite em mim:
esperemos
uma oportunidade, e se essa oportunidade se apresentar,
aproveitemo-la.

- O senhor pde esperar - observou Dants suspirando. - Esse
longo trabalho era para si uma ocupao de todos os instantes
e
quando no linha o seu trabalho para se distrair tinha as suas
esperanas para se confortar.

- Bom, no me ocupava s disso.

- Que mais fazia?

- Escrevia ou estudava.

- Davam-lhe papel, penas e tinta?

- No, mas eu fazia-os - respondeu o abade.

- O senhor... o senhor faz papel, penas e tinta?! - exclamou
Dants.

- Fao.

- Dants olhou para aquele homem com admirao.
Simplesmente, tinha ainda dificuldade em acreditar no que ele
dizia. Faria notou essa ligeira dvida.

- Quando for  minha cela - disse-lhe o abade --,
mostrar-lhe-ei
uma obra completa, resultado dos pensamentos, das
investigaes
e das reflexes de toda a minha vida, que meditei  sombra do
Coliseu de Roma: ao p da Coluna de S. Marcos, em Veneza; nas
margens do Arno, em Florena, etc., e que estava quase certo
de
que um dia os meus carcereiros me deixariam tempo para
executar
entre as quatro paredes do Castelo de If.  um Tratado sobre
a Possibilidade de Uma Monarquia Geral na Itlia. Dar um
grande
volume inquarto.

- E como o escreveu?

- Em duas camisas. Inventei um preparado que torna o pano liso
e compacto como o pergaminho.

-  portanto qumico?

- Um pouco. Conheci Lavoisier e Cabanis.

- Mas para escrever semelhante obra precisou de proceder a
investigaes histricas. Tinha livros para isso?

- Em Roma, tinha cerca de cinco mil volumes na minha
biblioteca.
 fora de os ler e reler, descobri que com cento e cinquenta
obras bem escolhidas se obtm, seno o resumo completo dos
conhecimentos humanos, pelo menos tudo o que  til a um homem
saber. Dediquei trs anos da minha vida a ler e reler esses
cento
e cinquenta volumes, de forma que j os sabia pouco mais ou
menos
de cor quando fui preso. Na priso, com um ligeiro esforo de
memria, recordei-os por completo. Assim, poderia citar-lhe
Tucdides, Xenofonte, Plutarco, Tito Lvio, Tcito, Estrada,
Jornandes, Dante,  Montaigne, Shakespeare, Espinosa,
Maquiavel
e Bossuct. E s lhe cito os mais importantes.

- Mas ento sabe vrias lnguas?

- Falo cinco lnguas vivas: alemo, francs, italiano, ingls
e
espanhol. Com o auxlio do grego antigo compreendo o grego
moderno; simplesmente falo-o mal, mas estudo-o neste momento.

- Estuda-o? - estranhou Dants.

- Sim. Fiz um vocabulrio das palavras que conheo e
dispu-las,
combinei-as, virei-as e revirei-as de forma a bastarem-me para
exprimir o meu pensamento. Sei cerca de trs mil palavras, em
rigor tudo o que preciso, embora, segundo creio, os
dicionrios
registem cem mil. Bom, no serei eloquente, mas far-me-ei
compreender s mil maravilhas e isso basta-me.

Cada vez mais atnito, Edmond comeava a achar quase
sobrenaturais as faculdades daquele homem estranho. Quis
apanh-lo em falta em qualquer coisa e continuou:.

- Mas se no lhe deram penas, como conseguiu escrever esse
tratado to volumoso?

- Fi-las excelentes, a ponto de serem preferidas s penas
vulgares se o material fosse conhecido, com as cartilagens das
cabeas dessas enormes pescadas que s vezes nos do nos dias
de
jejum. Por isso vejo sempre chegar com grande prazer as
quartas-feiras, as sextas-feiras e os sbados, pois do-me a
esperana de aumentar a minha proviso de penas, e os meus
trabalhos histricos so, confesso-o, a minha mais agradvel
ocupao. Recuando no passado, esqueo o presente; percorrendo
livre e independente a Histria, esqueo-me de que estou
preso.

- Mas a tinta? - insistiu Dants. - Como obtm a tinta?

- Dantes, havia uma chamin na minha cela - respondeu Faria. -
Essa chamin foi tapada algum tempo antes da minha chegada,
sem
dvida, mas durante longos anos fizera-se lume nela e todo o
interior ficou coberto de fuligem. Dissolvo a fuligem numa
poro
do vinho que me do todos os domingos e obtenho uma tinta
excelente. Para escrever as notas especiais e que tm
necessidade
de dar nas vistas, pico os dedos e escrevo com o meu sangue.

- E quando poderia ver tudo isso? - perguntou Dants.

- Quando quiser - respondeu Faria.

- Oh, imediatamente! - exclamou o rapaz.

- Nesse caso, acompanhe-me - disse o abade.

E penetrou na galeria subterrnea, onde desapareceu. Dants
seguiu-o.


Captulo XVII

A cela do abade


Depois de passar curvado, mas mesmo assim com bastante
facilidade, pela passagem subterrnea, Dants chegou 
extremidade oposta da galeria que  dava para a cela do
abade.
A, a passagem estreitava e oferecia apenas o espao
suficiente
para um homem poder deslizar rastejando. A cela do abade era
lajeada. Fora levantando uma das lajes colocadas no canto mais
escuro que ele comeara a laboriosa operao de que Dants
vira
o fim.

Mal entrou e se ps de p, o jovem examinou a cela com grande
ateno.  primeira vista, no apresentava nada de especial.

- Bom - disse o abade --,  apenas meio-dia e um quarto e
ainda
temos a. umas horas adiante de ns.

Dants olhou  sua volta  procura do relgio em que o abade
pudera ver as horas de forma to precisa.

- Veja esse raio de luz que entra pela minha janela - disse o
abade - e veja depois as linhas que tracei na parede. Graas a
essas linhas, que se combinam com o duplo movimento da Terra e
a elipse que ela descreve  volta do Sol, sei mais exactamente
a hora do que se tivesse um relgio, porque um relgio
desacerta-se, ao passo que o Sol e a Terra nunca se
desacertam.

Dants nada compreendera desta explicao, pois sempre
julgara,
ao ver o Sol levantar-se detrs das montanhas e pr-se no
Mediterrneo, que era ele que andava e no a Terra. O duplo
movimento do Globo onde morava e de que no entanto se no
apercebia parecia-lhe quase impossvel. Em cada palavra do seu
interlocutor via mistrios da cincia to interessantes de
aprofundar como as minas de ouro e diamantes que visitara numa
viagem que fizera ainda quase criana a Guzarate e a Golconda.

- Vamos - disse ao abade --, tenho pressa de examinar os seus
tesouros.

O abade dirigiu-se para a chamin, deslocou com o formo, que
continuava a trazer na mo, a pedra que formava dantes a
lareira
e que ocultava uma cavidade bastante profunda.

Era nessa cavidade que se encontravam guardados todos os
objectos
de que falara a Dants.

- Que quer ver primeiro? - perguntou-lhe.

- Mostre-me a sua grande obra sobre a monarquia na Itlia.

Faria tirou do precioso esconderijo trs ou quatro rolos de
pano,
enrolados como folhas de papiro. Eram tiras de pano com cerca
de
quatro polegadas de largura e dezoito de cumprimento. Essas
tiras, numeradas, estavam cobertas de uma escrita que Dants
pde
ler, pois fora traada na lngua materna do abade, isto , o
italiano, idioma que, na sua qualidade de provenal, Dants
compreendia perfeitamente.

- Veja - disse-lhe ele --, est tudo aqui. H mais ou menos
oito
dias que escrevi a palavra "fim" no fundo da sexagsima oitava
tira. Para as fazer rasguei duas das minhas camisas e todos os
lenos que possua. Se algum dia voltar a ser livre e houver
em
toda a Itlia um editor que se atreva a editar-me a minha
reputao est feita.

- Claro, bem vejo - respondeu Dants. - E agora mostre-me,
peo-lhe, as penas com que escreveu esta obra.

- Veja - disse Faria.

E mostrou ao jovem uma hastezinha de seis polegadas de
comprimento e da grossura do cabo de um pincel, na extremidade
e  volta do qual se encontrava ligada por uma linha uma das
tais
cartilagens, ainda suja de tinta,  de que o abade falar a
Dants. Era alongada em bico e tendida como uma pena vulgar.

Dants examinou-a e procurou com a vista o instrumento com que
pudera ser talhada to correctamente.

- Ah, sim! - disse Faria. - O canivete, no  verdade?  a
minha
obra-prima. Fi-lo, assim como esta faca, de um velho castial
de
ferro.

O canivete cortava como uma navalha de barba. Quanto  faca,
tinha a vantagem de poder servir ao mesmo tempo de faca e
punhal.

Dants examinou os diversos objectos com a mesma ateno com
que
nas lojas de curiosidades de Marselha examinara noutros
tempos,
vezes, instrumentos executados por selvagens e trazidos dos
mares
do Sul pelos comandantes de longo curso.

- Quanto  tinta - disse Faria --, j sabe como procedo.
Fao-a
 medida que preciso dela.

- Agora h ainda uma coisa que me admira - declarou Dants -
que
os dias lhe tenham chegado para fazer tudo isso.

- Tambm tinha as noites - respondeu Faria.

- As noites? No me diga que  da natureza dos gatos e v
claro
durante a noite!

- No, mas Deus deu, ao homem a inteligncia para o compensar
da
pobreza dos sentidos. Arranjei luz.

- Como?

- Retiro a gordura da carne que me do, derreto-a e obtenho
assim
uma espcie de leo grosso. Olhe, aqui tem a minha vela.

E o abade mostrou a Dants uma espcie de lampio semelhante
aos
da iluminao pblica.

- Mas o lume?

- Aqui tem duas pedras e pano queimado.

- E as acendalhas?

- Simulei uma doena de pele e pedi enxofre, que me
deram.

Dants pousou os objectos que tinha na mo em cima da mesa e
baixou a cabea, esmagado pela perseverana e pela fora
daquele
esprito.

- Mas isto no,  tudo - continuou Faria. - No devemos
guardar
todos os nossos tesouros num nico esconderijo.
Fechemos este.

Empurraram a laje para o seu lugar. O abade espalhou um pouco
de
p por cima dela e depois passou com o p para fazer
desaparecer
qualquer vestgio de soluo de continuidade, dirigiu-se para
a
cama e afastou-a.

Atrs da cabeceira, oculto por uma pedra que o fechava com uma
hermeticidade quase perfeita, havia um buraco, e nesse buraco
uma
escada de corda de vinte e cinco a trinta ps de comprimento.

Dants examinou-a. Era de uma solidez a toda a prova.

- Quem lhe forneceu a corda necessria a este trabalho
maravilhoso? - perguntou Dants.

- Primeiro, utilizei algumas camisas que possua; depois, os
lenis da minha cama, que desfiei durante os trs anos de
cativeiro em Fenestrelle. Quando me transferiram para o
Castelo
de If encontrei maneira de trazer comigo esses fios e
continuei
aqui o trabalho.

- E nunca descobriram que os lenis da sua cama no tinham
bainha?

- Voltava a faz-la.

- Com qu?

- Com esta agulha.

E o abade abriu um farrapo do seu vesturio e mostrou a Dants
uma haste comprida, aguada e ainda enfiada, que trazia
consigo.

- Sim - continuou Faria --, primeiro pensei em descravar esses
vares e fugir pela janela, que  um bocadinho mais larga do
que
a sua, como v, e que teria alargado mais no momento da minha
evaso. Mas descobri que a janela dava para o ptio interior e
renunciei ao meu projecto por ser demasiado arriscado. No
entanto, conservei a escada para uma circunstncia imprevista,
para uma dessas evases de que lhe falei e que o acaso
proporciona.

Embora parecesse examinar a escada, Dants pensava desta vez
noutra coisa. Atravessara-lhe o esprito uma ideia. Aquele
homem
to inteligente, to engenhoso, to profundo, talvez visse
claro
nas trevas da sua prpria desgraa, onde ele mesmo nunca
conseguira distinguir fosse o que fosse.

- Em que pensa? - perguntou-lhe o abade sorrindo e
tomando o absorvimento de Dants por uma admirao levada ao
mais
alto grau.

- Antes de mais nada penso numa coisa: na soma enorme de
inteligncia que teve de despender para atingir o fim que se
propusera. Que no faria portanto livre?

-- Nada, talvez. Esse extravasamento do meu crebro
evaporar-se-ia em futilidades.  necessrio sermos tocados
pela
desgraa para escavarmos certas minas misteriosas ocultas na
inteligncia humana;  necessrio haver presso para fazer
explodir a plvora. O cativeiro concentrou num s ponto todas
as
minhas faculdades que pairavam por aqui e por a.
Entrechocaram-se num espao acanhado e, como sabe, de choque
das
nuvens resulta a electricidade da electricidade o relmpago e
do
relmpago a luz.

- No, no sei nada - disse Dants, abatido pela sua
ignorncia.

- Parte das palavras que profere so para mim palavras vazias
de
sentido. No calcula como  feliz por ser assim to sbio!

O abade sorriu.

- Pensava em duas coisas, no era o que dizia h pouco?

- Era.

- E deu-me a conhecer a primeira. Qual  a segunda?

- A segunda  que o senhor me contou a sua vida e no sabe
nada
a respeito da minha.

- A sua vida, rapaz,  muito curta para encerrar
acontecimentos
de qualquer importncia.

- Encerra uma enorme desgraa - declarou Dants. -  Uma
desgraa
que eu no merecia. E desejaria, para no voltar a blasfemar
contra Deus como fiz algumas vezes, poder atribuir aos homens
a
minha desgraa.

- Diz que est inocente do crime que lhe imputam?

- Completamente inocente, juro sobre a cabea das duas nicas
pessoas que me so queridas: sobre a cabea de meu pai e sobre
a cabea de Mercds.

- Vejamos - declarou o abade, fechando o esconderijo e
empurrando
a cama para o seu lugar --, conte-me a sua histria.

Dants contou ento o que chamava a sua histria e que se
limitava a uma viagem  ndia e a duas ou trs viagens ao
Levante. Finalmente chegou  sua  ltima travessia,  morte
do
comandante Leclre, ao embrulho entregue por ele para o grande
marechal, ao encontro com este,  carta entregue por ele e
dirigida ao Sr. Noirtier e finalmente  sua chegada a
Marselha,
 sua festa de noivado,  sua priso, o seu interrogatrio, 
sua
deteno provisria no Palcio da Justia e por ltimo  sua
priso definitiva no Castelo de If.
Chegado a este ponto, Dants no sabia mais nada, nem mesmo o
tempo a que j estava preso.

Terminado o relato, o abade reflectiu profundamente.

- H - disse ao cabo de um instante - um axioma de direito de
uma
grande profundidade. Voltando ao que lhe dizia h pouco, a
menos
que os meus pensamentos provenham de uma organizao falseada,
 natureza humana repugna o crime. Contudo, a civilizao
moderna
deu-nos necessidades, vcios, apetites fictcios, etc., que
por
vezes conseguem abafar os nossos bons instintos e conduzir-nos
ao mal. Da esta mxima: "Se quereis descobrir o culpado,
comeai
por procurar aquele a quem o crime cometido possa ser til!" A
quem poderia ser til o seu desaparecimento?

- A ningum, meu Deus! Eu era to insignificante.

- No responda assim, porque  resposta falta ao mesmo tempo
lgica e filosofia. Tudo  relativo, meu caro amigo, desde o
rei
que incomoda o seu futuro sucessor at ao empregado que
incomoda
o supranumerrio. Se o rei morre, o sucessor herda uma coroa;
se
o empregado morre, o supranumerrio herda mil e duzentas
libras
de ordenado. As mil e duzentas libras de ordenado so a sua
lista
civil e so-lhe to necessrias para viver como os doze
milhes
de um rei. Cada indivduo, desde o mais baixo ao mais alto
grau
da escala social, rene  sua volta um pequeno mundo de
interesses, com os seus turbilhes e os seus tomos recurvos,
como os mundos de Descartes. Simplesmente, esses mundos vo
sempre aumentando  medida que sobem. Trata-se de uma espiral
invertida que se sustenta na ponta devido a um jogo de
equilbrio. Mas voltemos ao seu mundo. Ia ser nomeado
comandante
do Pharaon, no ia?

- Ia.

- Ia casar com uma bonita rapariga, no ia?

- Ia.

- Algum tinha interesse em que se no tomasse comandante do
Pharaon? Algum tinha interesse em que no casasse com
Mercds? Responda primeiro  primeira pergunta; a ordem  a
chave de todos os problemas. Algum tinha interesse em que se
no
tornasse comandante do Pharaon?

- No. Toda a gente gostava muito de mim a bordo. Se os
marinheiros pudessem escolher um chefe, estou corto de que me
escolheriam a mim. Apenas um homem tinha um motivo para me
querer
mal; tempos antes discutira com ele e desafiara-o para um
duelo
que ele recusara.

- Ora a est! Como se chamava esse homem?

- Danglars.

- Que era a bordo?

- Guarda-livros.

- Se se tivesse tornado comandante conserv-lo-ia no seu
lugar?


- No, se isso dependesse de mim, pois julgara notar algumas
incorreces nas suas contas.

- Muito bem. Agora outra pergunta: algum assistiu  sua
ltima
conversa com o comandante Leclre?

- No, estivemos ss.

- Mas algum poderia ouvir a conversa?

- Podia, porque a porta estava aberta. E at... espere... sim,
sim, Danglars passou precisamente no momento em que o
comandante
Leclre me entregava o embrulho destinado ao grande marechal.

- Bom, estamos no bom caminho - declarou o abade. - Levou
algum
a terra consigo quando aportou  ilha de Elba?

- Ningum.

- Entregaram-lhe uma carta?

- Entregaram, o grande marechal.

- Que fez dessa carta?

- Meti-a na carteira.

- Tinha portanto a carteira consigo? Como  que o marinheiro
podia trazer no bolso uma carteira destinada a guardar uma
carta
oficial?

- Tem razo, a carteira estava a bordo.

- Portanto, foi s a bordo que meteu a carta na carteira?

- Foi.

- De Porto Ferraio a bordo, como levou a carta?

- Na mo.

- Quando subiu a bordo do Pharaon toda a gente viu, pois,
que
levava uma carta?

- Sim.

- Danglars como os outros?

- Danglars como os outros.

- Agora escute bem, reuna todas as suas recordaes: lembra-se
dos termos em que estava redigida a denncia?

- Oh, perfeitamente! Reli-a trs vezes e todas as palavras me
ficaram na memria.

- Repita-ma.

Dants concentrou-se um instante.

- Ei-la textualmente:

O Sr. Procurador Rgio  avisado por um amigo do trono e da
religio de que um tal Edmond Dants, imediato do navio
Pharaon chegado esta manh de Esmirna depois de escalar
Npoles e Porto Ferraio, foi encarregado por Murat de entregar
uma carta ao usurpador e pelo usurpador de entregar outra
carta
ao comit bonapartista de Paris.

Ter-se- a prova do seu crime prendendo-o, pois encontrar-se-
essa carta com ele ou em casa do pai, ou no seu camarote a
bordo
do Pharaon.

O abade encolheu os ombros.

-  claro como a gua - observou. - S um homem dotado de um
corao muito ingnuo e muito bom, como voc, no adivinharia
imediatamente a tramia.

- Acha? - redarguiu Dants. - Oh, seria uma grande infmia!

- Como era a letra habitual de Danglars?

- Uma bonita letra cursiva.

- E a da carta annima?

- Inclinada para trs.

O abade sorriu.

- Disfarada, no  verdade?

- Muito perfeita para ser disfarada.

- Um momento.

Pegou na pena, ou antes, no que chamava assim, molhou-a na
tinta
e escreveu com a mo esquerda, num pano preparado para o
efeito,
as duas ou trs primeiras linhas da denncia.

Dants recuou e olhou quase com terror o abade.

- Oh,  espantoso como essa letra se parece com a outra! -
exclamou.

- Porque a denncia foi escrita com a mo esquerda.
Observei uma coisa - continuou o abade.

- Qual?

- Todas as letras traadas com a mo direita so diferentes,
todas as letras traadas com a mo esquerda assemelham-se.

- Portanto, j viu tudo, j adivinhou tudo?

- Continuamos?

- Oh, sim, sim!

- Passemos  segunda pergunta.

- s ordens.

- Algum estava interessado em que voc no casasse com
Mercds?

- Sim! Um rapaz que a amava: Fernand.

- No  um nome espanhol?

- Ele era catalo.

- Acha que ele era capaz de escrever a carta?

- No! Esse limitar-se-ia a dar-me uma facada.

- Claro, est na natureza espanhola: um assassnio, sim; uma
cobardia, no.

- De resto - continuou Dants --, ignorava todos os pormenores
consignados na denncia.

- Voc no os revelou a ningum?

- A ningum.

- Nem mesmo  sua amante?

- Nem mesmo  minha noiva.

- Foi Danglars.

- Oh, agora tenho a certeza disso!

- Espere... Danglars conhecia Fernand?

- No... Sim... Recordo-me...

- De qu?

- Na antevspera do meu casamento viu-os sentados juntos a uma
mesa debaixo do caramacho do Tio Pamphile. Danglars estava
com
ar amistoso e brincalho e Fernand plido e nervoso.

- Estavam sozinhos?

- No, tinham consigo um terceiro companheiro, muito meu
conhecido, que sem dvida se lhes juntara, um alfaiate chamado
Caderousse. Mas este  estava j bbedo. Espere... espere...
Como no me lembrei disto? Junto da mesa onde bebiam
encontrava-se um tinteiro, papel e penas...

Dants levou a mo  testa e exclamou:

- Oh, os infames, os infames!

- Quer saber mais alguma coisa? - perguntou o abade rindo.

- Quero, claro que quero! Uma vez que o senhor aprofunda tudo,
v claro em todas as coisas, quero saber por que motivo s fui
interrogado uma vez, porque no me deram juzes e como fui
condenado sem julgamento.

- Oh, isso  um pouco mais grave! - exclamou o abade. - A
justia
tem escaninhos sombrios e misteriosos em que  difcil
penetrar.
O que fizemos at aqui relativamente aos seus dois amigos no
passou de uma brincadeira de crianas. A esse respeito, ter
de
me dar indicaes mais precisas.

- Pronto, interrogue-me, pois na verdade o senhor v mais
claro
na minha vida do que eu prprio.

- Quem o interrogou? Foi o procurador rgio, o substituto ou o
juiz de instruo?

- Foi o substituto.

- Era novo ou velho?

- Novo: vinte e sete ou vinte e oito anos.

- Bom, ainda no corrompido, mas j ambicioso - comentou o
abade.
- Quais foram as suas maneiras para consigo?

- Mais afveis do que severas.

- Contou-lhe tudo?

- Tudo.

- E as suas maneiras mudaram no decurso do interrogatrio?

- Alteraram-se apenas por um instante, quando leu a carta que
me
comprometia. Pareceu acabrunhado com a minha desgraa.

- Com a sua desgraa?

- Sim.

- Tem a certeza de que era a sua desgraa que o preocupava?

- Pelo menos deu-me uma grande prova da sua simpatia.

- Qual?

- Queimou a nica pea que me podia comprometer.

- Qual? A denncia?

- No, a carta.

- Tem a certeza?

- F-lo diante de mim.

- Estranho... Esse homem poderia ser maior celerado do que
voc
imagina.

- Palavra de honra que me est a assustar! - exclamou Dants.
-
Estar o mundo povoado de tigres e crocodilos?

- Est. Simplesmente os tigres e os crocodilos de dois ps so
mais perigosos do que os outros.

- Continuemos, continuemos.

- Com muito gosto. Queimou a carta, diz voc?

- Sim, dizendo-me: "Como v, s existe esta prova contra si e
eu
destruo-a." - Essa conduta  demasiado sublime para ser
natural.

- Parece-lhe?

- Tenho a certeza. A quem era endereada a carta?

- Ao Sr. Noirtier, Rua Coq-Hron, n.o 13, em Paris.

- Pode presumir que o seu substituto tivesse algum interesse
em
que a carta desaparecesse?

- Talvez: porque me tez prometer duas ou trs vezes, no meu
interesse, dizia ele, no falar a ningum na carta, e
obrigou-me
a jurar que no pronunciaria o nome inscrito no endereo.

- Noirtier... - repetiu o abade. - Noirtier... Conheci um
Noirtier na corte da antiga rainha da Etrria, um Noirtier que
fora girondino durante a Revoluo. Como se chamava o seu
substituto?

- Villefort.

O abade desatou a r ir.

Dants olhou-o estupefacto.

- Que tem o senhor? - perguntou.

- V esse raio de luz? - inquiriu o abade.

- Vejo.

- Pois bem, agora  tudo mais claro para mim do que esse raio
transparente e luminoso. Pobre criana, pobre rapaz! E esse
magistrado foi bom para si?

- Foi.

- Esse digno substituto queimou, destruiu a carta?

- Sim.

- Esse honesto fornecedor do carrasco obrigou-o a jurar que
nunca
mais pronunciaria o nome de Noirtier?

- Obrigou.

- Esse Noirtier, pobre cego, sabe quem era esse Noirtier? Esse
Noirtier era o pai dele!

Um raio que tivesse cado aos ps de Dants e cavado um abismo
no fundo do qual se abrisse o Inferno, ter-lhe-ia produzido
efeito menos rpido, menos elctrico, menos esmagador, do que
aquelas palavras inesperadas. Levantou-se e agarrou a cabea
com
as mos, como se quisesse impedi-la de rebentar.

- Seu pai! Seu pai! - gritou.

- Sim, seu pai, que se chama Noirtier de Villefort -
acrescentou
o abade.

Ento uma luz fulgurante atravessou o crebro do prisioneiro e
tudo o que at ali lhe parecera obscuro foi de sbito
iluminado
por uma claridade deslumbrante. As tergiversaes de Villefort
durante o interrogatrio, a carta destruda, o juramento
exigido,
a voz quase suplicante do magistrado que, em vez de ameaar,
parecia implorar, tudo lhe veio  memria. Soltou um grito e
cambaleou um instante como um homem brio. Depois, correu para
a abertura que conduzia da cela do abade  sua dizendo:

- Oh, preciso de estar s para pensar em tudo isso!

Mal chegou  sua masmorra atirou-se para cima da cama, onde o
carcereiro o encontrou  tardinha, sentado, de olhos fixos e
as
feies contradas, imvel e mudo como uma esttua.

Durante as horas de meditao que entretanto tinham passado
como
segundos tomara uma terrvel resoluo e fizera um formidvel
juramento.

Uma voz arrancou Dants ao seu devaneio; a do abade Faria que,
tendo recebido por sua vez a visita do carcereiro, vinha
convidar
Dants para jantar  com ele. A sua qualidade de louco
reconhecido e sobretudo de louco divertido valia ao velho
prisioneiro alguns privilgios, como o de receber po um pouco
mais branco e uma garrafinha de vinho ao domingo. Ora era
justamente domingo e o abade vinha convidar o seu jovem
companheiro a compartilhar o seu po e o seu vinho.

Dants seguiu-o. Todas as linhas do seu rosto se tinham
recomposto e retomado o seu lugar habitual, mas com uma
rigidez
e uma firmeza, se assim se pode dizer, que denotavam ter
tomado
uma resoluo. O abade olhou-o fixamente.

- Estou aborrecido por o ter ajudado nas suas investigaes e
por
lhe ter dito o que disse - confessou.

- Porqu? - perguntou Dants.

- Porque lhe infiltrei no corao um sentimento que l no
havia:
a vingana.

Dants sorriu.

- Falemos de outra coisa - pediu.

O abade olhou-o mais um instante e abanou tristemente a
cabea.
Depois, como lhe pedira Dants falou doutra coisa.
O velho prisioneiro era um desses homens cuja conversao,
como
a das pessoas que muito sofreram, continha numerosos
ensinamentos
e encerrava sempre um interesse sempre renovado. Mas como no
era
egosta, aquele infeliz nunca falava das suas desgraas.

Dants escutava todas as suas palavras com admirao. Umas
correspondiam a ideias que j possua e a conhecimentos que
faziam parte da sua condio de marinheiro, mas outras
referiam-se a coisas desconhecidas e, como as auroras boreais
que
iluminam os navegadores nas latitudes austrais, mostravam ao
jovem paisagens e horizontes novos iluminados por clares
fantsticos. Dants compreendeu o prazer que experimentaria
uma
pessoa inteligente em acompanhar aquele esprito elevado nas
alturas morais, filosficas ou sociais em que tinha o hbito
de
se lanar.

- Devia ensinar-me um bocadinho do que sabe - declarou Dants
--,
quanto mais no fosse para no se aborrecer comigo. Parece-me
agora que deve preferir o isolamento a um companheiro sem
educao nem cultura como eu. Se concordar com o que lhe peo,
comprometo-me a nunca mais lhe falar de fugir.

O abade sorriu.

- Infelizmente, meu filho, a cincia humana  muito limitada e
depois de lhe ensinar as matemticas, a fsica, a histria e
as
trs ou quatro lnguas vivas que falo, saberia tanto como eu.
Ora
toda esta cincia no levaria mais de dois anos a passar do
meu
esprito para o seu.

-- Dois anos! - exclamou Dants. - Acha que poderia aprender
todas essas coisas em dois anos?

- Na sua aplicao, no; nos seus princpios, sim. Aprender
no
 saber. H os sabiches e os sbios. Uns so fruto da
memria,
os outros da filosofia.

- Mas no se pode aprender a filosofia?

- A filosofia no se aprende; a filosofia  a reunio das
cincias adquiridas com o talento que as aplica. A filosofia 
a nuvem deslumbrante em que Cristo pousou o p para subir ao
Cu.


- Vejamos, que me ensinar primeiro? - perguntou Dants. Tenho
pressa de comear, sede de cincia.

- Tudo! - respondeu o abade.

Com efeito, logo naquela noite os dois prisioneiros
estabeleceram
um plano de educao que comearam a executar no dia seguinte.
Dants possua uma memria prodigiosa e uma facilidade de
concepo extrema. A disposio matemtica do seu esprito
habilitava-o a compreender tudo atravs do clculo, enquanto a
poesia do marinheiro corrigia tudo o que pudesse haver de
excessivamente material na demonstrao, reduzida  secura dos
nmeros ou  rectido das linhas. Sabia j, alis, o italiano
e
um bocadinho de grego moderno, que aprendera nas suas viagens
ao
Oriente. Com estas duas lnguas, no tardou a compreender sem
demora o mecanismo de todas as outras, e ao cabo de seis meses
comeava a falar espanhol, ingls e alemo.

Como dissera ao abade Faria. quer porque a distraco que lhe
proporcionava o estudo substitusse nele a nsia da liberdade,
quer porque fosse, como j vimos' rgido observador da sua
palavra, nunca falava de fugir e os dias passavam para ele
rpidos e instrutivos. Passado um ano, era outro homem.

Quanto ao abade Faria, Dants notava que, apesar da distraco
que a sua presena trouxera ao seu cativeiro, entristecia de
dia
para dia. Uma ideia pertinaz e constante parecia assediar-lhe
o
esprito. Ca em profundos alheamentos, suspirava
involuntariamente, levantava-se de sbito, cruzava os braos e
passeava sombrio  volta da cela.

Um dia parou de repente no meio de um desses passeios centenas
de vezes repetidos que fazia  roda da cela e exclamou:

- Ah, se no houvesse sentinela!...

- S haver sentinela se o senhor quiser - observou Dants,
que
lhe seguira o pensamento atravs da caixa craniana como
atravs
de um cristal.

- J lhe disse que me repugna um assassnio.

- E no entanto esse assassnio, se fosse cometido, s-lo-ia
pelo
instinto da nossa conservao, por um sentimento de defesa
pessoal.

- No importa, no o cometeria.

- Mas em todo o caso pensa nele?

- Sem cessar, sem cessar - murmurou o abade.

- E descobriu um meio, no descobriu? - disse vivamente
Dants.

- Descobri, se fosse possvel pr na galeria uma sentinela
cega
e surda.

- Ser cega e surda! - respondeu o rapaz, num tom resoluto que
assustou o abade.

- No, no! - gritou. - Impossvel.

Dants quis lev-lo a falar mais a tal respeito, mas o abade
abanou a cabea e recusou.

Passaram trs meses.

-- Voc  forte? - perguntou um dia o abade a Dants.

Sem responder, Dants pegou no formo, torceu-o como uma
ferradura e endireitou-o.

- Seria capaz de se comprometer a s matar a sentinela em
ltima
extremidade?

- Seria, palavra de honra.

- Ento - disse o abade --, poderemos executar o nosso
projecto.

- De quanto tempo precisaremos para o pr em prtica?

- De um ano, pelo menos.

- Quando comeamos a trabalhar?

- Imediatamente.

- Est a ver? Com isso tudo j perdemos um ano! - exclamou
Dants.

- Acha que o perdemos? - redarguiu o abade.

- Oh, perdo, perdo! - desculpou-se Edmond, corando.

- Caluda! - atalhou o abade. - O homem nunca passa de um
homem,
e voc  ainda um dos melhores que conheci. Veja, aqui est o
meu
plano.

O abade mostrou ento a Dants um desenho que fizera: era a
planta da sua cela, da cela de Dants e da galeria que ligava
uma
 outra. A meio da galeria abrira uma passagem estreita
semelhante s que se usavam nas minas. Essa passagem serviria
para os dois prisioneiros se deslocarem debaixo da galeria
onde
passeava a sentinela. Uma vez chegados a, praticariam uma
grande
escavao e soltariam uma das lajes que formavam o pavimento
da
galeria. Em dado momento, a laje abater-se-ia debaixo do peso
do
soldado, que desapareceria engolido pela escavao. Dants
precipitar-se-ia sobre ele no momento em que, ainda aturdido
da
queda, o soldado no se poderia defender, amarr-lo-ia,
amorda-lo-ia, c ento ambos passariam por uma das janelas da
galeria, desceriam ao longo da muralha exterior com o auxlio
da
escada de corda e fugiriam.

Dants bateu palmas e os seus olhos cintilaram de alegria. O
plano era to simples que devia resultar.

Os mineiros deitaram mos  obra no mesmo dia, com tanto mais
ardor quanto  certo o trabalho suceder a um longo repouso e,
segundo todas as probabilidades, no ser mais do que a
continuao do pensamento ntimo e secreto de cada um.

Nada os interrompia excepto a hora a que ambos eram forados a
regressar s suas celas para receber a visita do carcereiro.
Alis, tinham adquirido o hbito de distinguir, pelo rudo
imperceptvel dos passos, o momento em que o homem descia e
nunca
nem um, nem outro fora apanhado de surpresa. A terra que
extraam
da nova galeria, e que acabaria por encher a antiga,
deitavam-na
pouco a pouco e com inauditas precaues por uma ou outra das
duas janelas da cela de Dants ou da cela de Faria.
Pulverizam-na
com cuidado e o vento da noite levava-a para longe sem deixar
vestgios.

Dedicaram mais de um ano a este trabalho executado com um
escopro, uma faca e uma alavanca de madeira como nicos
instrumentos. Durante esse ano, e sem deixarem de trabalhar,
Faria continuou a instruir Dants, falando-lhe ora numa lngua
ora noutra, ensinando-lhe a histria das naes e dos grandes
homens que deixavam de vez em quando atrs de si um desses
rastos
luminosos chamados glria. O abade, homem do mundo e da alta
sociedade, tinha alm disso, nas suas maneiras, uma espcie de
majestade melanclica de que Dants, graas ao esprito de
assimilao de que a natureza o dotara, soube extrair a
polidez
elegante que lhe faltava e os modos aristocrticos que
habitualmente s se adquirem no convvio com as classes
elevadas
ou no contacto com homens superiores.

Ao cabo de quinze meses o buraco estava aberto. A escavao
era
feita por baixo da galeria. Ouvia-se passar e repassar a
sentinela, e os dois trabalhadores, forados a esperar uma
noite
escura e sem luar para tomar a evaso ainda mais segura, s
tinham um receio: que o cho, demasiado delgado, abatesse por
si
mesmo debaixo dos ps do soldado. Obviou-se a esse
inconveniente
colocando como suporte uma espcie de vipazinha encontrada nos
alicerces. Dants estava ocupado a coloc-la quando ouviu de
sbito o abade Faria, que ficara na cela do rapaz, onde se
ocupava por seu turno a aguar uma cavilha destinada a segurar
a escada de corda, cham-lo em tom angustiado. Dants
regressou
rapidamente e deu com o abade de p no meio da cela, plido,
com
a testa coberta de suor e as mos crispadas.

- Oh, meu Deus! - gritou Dants. - Que aconteceu, que tem o
senhor?

- Depressa, depressa! - atalhou o abade. - Escute.

Dants olhou o rosto lvido de Faria, os seus olhos rodeados
por
um crculo azulado, os seus lbios brancos e os seus cabelos
eriados, e ficou to impressionado que deixou cair no cho o
escopro que tinha na mo.

- Mas que se passa? - gritou Edmond.

- Estou perdido! - respondeu o abade. - Oua-me. Vou ser
atacado
por um mal terrvel, talvez mortal. O acesso aproxima-se,
sinto-o. J uma vez me atacou no ano anterior  minha priso.
Para este mal s h um remdio, o que lhe vou dizer. Corra
depressa  minha cela e retire o p da cama. O p  oco e
encontrar dentro dele um frasquinho de cristal meio cheio de
um
licor vermelho. Traga-o. Ou antes, no, no poderia ser
surpreendido aqui. Ajude-me a regressar  minha cela enquanto
disponho ainda de algumas foras. Quem sabe o que acontecer
durante o tempo que durar o acesso?

Sem perder a cabea, apesar de ser enorme a desgraa que o
atingia, Dants desceu a galeria arrastando o seu infeliz
companheiro atrs de si e conduziu-o, com infinita mgoa, at

extremidade oposta. Logo que entrou na cela do abade deitou-o
na
cama.

- Obrigado - agradeceu o abade, tremendo tanto como se
acabasse
de sair de gua gelada. - O mal aproxima-se e vou cair em
catalepsia.  possvel que no faa nenhum movimento, que no
solte nem um gemido, mas tambm  possvel que espume, me
retese
e grite. Procure que no ouam os meus gritos. Isso 
importante,
pois nesse caso talvez me mudassem de cela e ficaramos
separados
para sempre. Quando me vir imvel, frio e morto, assim dizer,
somente nesse instante, note bem, me descerrar os dentes com
a
faca e deitar na boca oito a dez gotas desse licor. Talvez
depois volte a mim.

- Talvez?! - gritou dolorosamente Dants.

- Socorro! Acudam-me! - gritou o abade. - Morro...

O acesso foi to sbito e to violento que o pobre prisioneiro
nem sequer teve tempo de acabar a frase comeada.
Passou-lhe uma nuvem pela testa, rpida e escura como as das
tempestades no mar, a crise dilatou-lhe os olhos, torceu-lhe a
boca e congestionou-lhe as faces. Agitou-se, espumou, gritou.
Mas
tal como ele prprio recomendara, Dants abafou-lhe os gritos
debaixo do cobertor. O ataque durou duas horas. Ento, mais
inerte do que uma massa, mais plido e frio do que o mrmore,
mais quebrado do que uma cana calcada aos ps, caiu,
retesou-se
ainda numa derradeira convulso e ficou lvido.

Edmond esperou que a morte aparente invadisse o corpo e
gelasse
at ao corao. Nessa altura; pegou na faca, introduziu a
lmina
entre os dentes do abade, descerrou com infinito cuidado os
maxilares contrados, contou uma aps outra dez gotas do licor
vermelho e esperou.

Passou uma hora sem que o velhote fizesse o mais pequeno
movimento. Dants receava ter agido demasiado tarde e
olhava-o,
com as mos enterradas no cabelo. Por fim, surgiu uma leve
colorao nas faces do abade, os seus olhos, que tinham
permanecido constantemente abertos e tonos, recuperaram a
expresso, saiu-lhe da boca um suspiro fraco e tez um
movimento.

- Salvo! Salvo! - gritou Dants.

O doente ainda no podia falar, mas estendeu com visvel
ansiedade a mo para a porta. Dants escutou e ouviu os passos
do carcereiro. Eram sete horas e Dants nem tivera
oportunidade
de calcular o tempo.

O rapaz saltou para a abertura, introduziu-se nela, recolocou
a
laje por cima da cabea e regressou  sua cela.

Um instante depois a porta abriu-se e o carcereiro encontrou,
como de costume, o prisioneiro sentado na cama.

Mas assim que ele virou costas, assim que o rudo dos seus
passos
desapareceu na galeria, Dants, devorado pela inquietao,
retomou, sem pensar em comer, o caminho que acabara de
percorrer
e, levantando a laje com a cabea voltou a entrar na cela do
abade.

Este recuperara os sentidos, mas continuava estendido, inerte
e
sem foras, na cama.

- J no esperava tornar a v-lo - disse a Dants.

- Porqu? - perguntou o rapaz. - Contava morrer?

- No, mas como est tudo pronto para a fuga contava que
fugisse.

O rubor da indignao coloriu as faces de Dants.

- Sem o senhor?! gritou. - Julgou-me realmente capaz disso?

- Agora verifico que me enganei - declarou o doente. - Ah,
estou
muito fraco, muito quebrado, completamente exausto!

- Coragem, as suas foras voltaro - animou-o Dants,
sentando-se
junto da cama de Faria e pegando-lhe nas mos.
O abade abanou a cabea.

- Da ltima vez - disse - o ataque durou meia hora e depois
dele
tive fome e levantei-me sozinho. Hoje, no consigo mexer a
perna
nem o brao e tenho a cabea nublada, o que prova um
derramamento
cerebral.  terceira vez ficarei inteiramente paraltico ou
morrerei acto contnuo.

- No, no, sossegue que no morrer. Esse terceiro ataque, se
o tiver, encontr-lo- livre. Salv-lo-emos como desta vez, e
melhor do que desta vez, pois teremos todos os meios
necessrios
para isso.

- Meu amigo - redarguiu o velho --, no se iluda. A crise que
acaba de me atacar condenou-me a priso perptua: para fugir 
necessrio poder andar.

- Pois bem, esperaremos oito dias, um ms, dois meses se for
preciso. Entretanto, as suas foras voltaro. Est tudo
preparado
para a nossa fuga e temos a liberdade de poder escolher a hora
e o momento. No dia em que se sentir com foras suficientes
para
nadar, nesse dia poremos o nosso projecto em prtica.

- Nunca mais nadarei - redarguiu Faria. - Este brao est
paralisado, no por um dia, mas sim para sempre. Levante-o
voc
mesmo e veja o que pesa.

O rapaz levantou o brao, que voltou a cair, insensvel, e
soltou
um suspiro.

- Est agora convencido, no  verdade, Edmond? - perguntou
Faria. - Acredite que sei o que digo. Desde o meu primeiro
ataque
deste mal que no lenho deixado de reflectir. Esperava-o' pois
trata-se de uma herana de famlia: o meu pai morreu 
terceira
crise e o meu av tambm. o mdico que me preparou este
licor,
nem mais nem menos do que o famoso Cabanis, predisse-me o
mesmo
destino.

- O mdico enganou-se! - contraps Dants. - Quanto  sua
paralisia, no me preocupa: p-lo-ei s costas e nadarei
segurando-o.

- Criana - disse o abade. -  marinheiro,  nadador, deve
portanto saber que um homem carregado com semelhante fardo no
daria cinquenta braadas no mar. Deixe de se iludir com
quimeras
que num sequer enganam o seu excelente corao. Ficarei aqui
at
soar a hora da minha libertao, que s pode ser agora a da
morte. Quanto a si, fuja, parta!  novo, desembaraado e
forte.
No se preocupe comigo, restituo-lhe a sua palavra.

- Est bem - declarou Dants. - Est bem. Nesse caso, tambm
ficarei.

Em seguida, levantou-se e estendeu solenemente a mo por cima
do
velho.

- Pelo sangue de Cristo, juro s o deixar depois da sua morte.
Faria observou aquele jovem to nobre, to simples e to digno
e leu-lhe no rosto, animado pela expresso da mais pura
dedicao, a sinceridade do seu afecto e a lealdade do seu
juramento.

- Seja - disse o doente. - Aceito, obrigado.

Depois, segurando-lhe na mo:

-  possvel que seja recompensado por essa dedicao to
desinteressada - disse-lhe. - Agora, como eu no posso e voc
no
quer fugir, devemos tapar o subterrneo aberto por baixo da
galeria. O soldado pode descobrir ao marchar, pela sonoridade
dos
seus passos, que o stio est minado, chamar a ateno de um
inspector e ento seramos descobertos e separados.
Encarregue-se
dessa tarefa, em que infelizmente no o posso ajudar. Trabalhe
toda a noite, se for preciso, e s volte amanh de manh
depois
da visita do carcereiro. Terei uma coisa importante para lhe
dizer.

Dants pegou na mo do abade, que o tranquilizou com um
sorriso,
e saiu com a obedincia e o respeito que votava ao seu velho
amigo.


Captulo XVIII

O tesouro


Quando Dants regressou no dia seguinte de manh  cela do seu
companheiro de cativeiro encontrou Faria sentado, com ar
calmo.

Debaixo do raio de sol que se insinuava atravs da janela
estreita da cela,  segurava aberto na mo esquerda - a
nica,
recordamos, cujo uso lhe restava - um bocado de papel ao qual
o
hbito de ser enrolado num delgado volume imprimira a forma de
um cilindro rebelde a estender-se.

O abade mostrou sem dizer nada o papel a Dants.

- Que  isto? - perguntou o rapaz.

- Veja bem - disse o abade, sorrindo.

- Por mais que olhe - redarguiu Dants - vejo apenas um papel
semiqueimado em que esto traados caracteres gticos com uma
tinta estranha.

- Este papel, meu amigo - disse Faria --, , posso agora
confessar-lhe tudo, porque j o pus  prova, este papel  o
meu
tesouro, do qual a partir de hoje lhe pertence metade.

Um suor frio cobriu a testa de Dants. At quele dia e
durante
muito tempo evitara falar com Faria a respeito daquele
tesouro,
origem da acusao de loucura que pesava sobre o pobre abade.
Com
a sua delicadeza instintiva,
Edmond preferira no tocar nessa corda dolorosamente vibrante,
e pela sua parte Faria calara-se.

O rapaz tomara o silncio do velho por um regresso  razo,
mas
agora, aquelas poucas palavras escapadas a Faria depois de uma
crise to penosa pareciam anunciar uma grave recada de
alienao
mental.

- O seu tesouro? - balbuciou Dants.

Faria sorriu.

- Sim - respondeu. - De todos os pontos de vista voc  um
nobre
corao, Edmond, e compreendo pela sua palidez e pelo seu
estremecimento o que se passa em si neste momento. No,
sossegue,
no estou louco. O tesouro existe, Dants, e se me no foi
dado
possu-lo, voc te-lo-. Ningum me quis ouvir nem acreditar
porque me julgavam louco; mas voc, que deve saber que no o
estou, oua-me e acredite-me depois se quiser.

"Valha-me Deus", disse Edmond para consigo, "recaiu! S me
faltava esta desgraa."

E depois, em voz alta:

- Meu amigo - disse a Faria --, o seu ataque talvez o tenha
fatigado; no quer descansar um bocadinho? Amanh, se quiser,
ouvirei a sua histria, mas hoje s desejo tratar de si. Alis
- continuou sorrindo --, temos assim tanta pressa de um
tesouro?

- Muita, Edmond! - respondeu o velho. - Quem sabe se amanh ou
depois de amanh, talvez, no terei o terceiro ataque?
Lembre-se
de que ento tudo estaria acabado! Sim,  verdade, tenho
pensado
muitas vezes com um prazer amargo nessas riquezas que fariam a
fortuna de dez famlias e perdidas para esses homens que me
perseguiram. Esta ideia servia-me de vingana e eu saboreava-a
lentamente, de noite, na minha masmorra, e no desespero do meu
cativeiro. Mas agora que perdoei ao mundo graas a voc, agora
que o vejo jovem e cheio de futuro, agora que penso em tudo o
que
pode resultar para si de felicidade depois de semelhante
revelao, receio qualquer demora e temo no ter tempo de
assegurar a um proprietrio to digno como voc a posse de
tantas
riquezas ocultas.

Edmond virou a cabea suspirando.

- Persiste na sua incredulidade, Edmond - prosseguiu Faria. -
A
minha  voz no o convenceu? Vejo que quer provas. Pois hem,
leia este papel que ainda no mostrei a ningum.

-- Amanh, meu amigo - respondeu Edmond, a quem repugnava
prestar-se  loucura do velho. - Julguei que tnhamos
combinado
s falar disso amanh.

- Falaremos amanh, mas leia este papel hoje.

" melhor no o irritar", pensou Edmond.

E pegando no papel, a que faltava metade, sem dvida consumida
pelo fogo em qualquer acidente, leu:

Este tesouro, que pode ascender a dois
de escudos romanos,
no canto mais a
da segunda abertura, o qual
lego e cedo em prop
deiro.

25 de abril de 1498

- Ento? - perguntou Faria quando o rapaz terminou a leitura.

- Mas - respondeu Dants - s vejo aqui linhas truncadas,
palavras sem sentido. Os caracteres esto interrompidos pela
aco do logo e so ininteligveis.

- Para si, meu amigo, que os l pela primeira vez, mas no
para
mim que matei a cabea a estud-los durante muitas noites,
reconstitu cada frase e completei cada pensamento.

- E acredita ter descoberto esse sentido interrompido?

- Estou certo disso, como voc mesmo verificar. Mas primeiro
oua a histria deste papel.

- Silncio! - exclamou Dants. - Passos!... Aproximam-se...
Vou-me embora... Adeus!

E Dants, feliz por escapar  histria e  explicao que s
serviriam para lhe confirmar a desgraa do amigo, deslizou
como
uma cobra pela estreita galeria, enquanto Faria, a quem o
terror
restitura uma espcie de actividade, empurrava com o p a
laje
e a cobria com uma esteira, a fim de ocultar  vista a soluo
de continuidade que no tivera tempo de fazer desaparecer.

Era o governador que, tendo sabido pelo carcereiro do acidente
de Faria, vinha assegurar-se pessoalmente da sua gravidade.

Faria recebeu-o sentado, evitou qualquer gesto comprometedor e
conseguiu ocultar ao governador a paralisia que j ferira de
morte metade da sua pessoa. O seu receio era que o governador,
compadecido dele, o quisesse meter numa cela mais saudvel e o
separasse assim do seu jovem companheiro. Felizmente isso no
aconteceu e o governador retirou-se convencido de que o seu
pobre
louco, pelo qual experimentava no fundo do corao certa
simpatia, tivera apenas uma ligeira indisposio.

Entretanto, sentado na cama com a cabea entre as mos, Edmond
procurava ordenar os seus pensamentos. Em Faria era tudo to
racional, to grande e to lgico desde que o conhecia que no
podia compreender to suprema sensatez sob todos os aspectos
aliada ao desatino sob um nico. Era
Faria que estava enganado acerca do seu tesouro ou era toda a
gente que estava enganada acerca de Faria?

Dants permaneceu na sua cela durante todo o dia, sem ousar
voltar  do amigo. Procurava adiar assim o momento em que
adquiriria a certeza de que o abade estava louco. Tal
convico
seria horrvel para ele.

Mas para a noite, depois da hora da visita rotineira, Faria,
ao
vendo aparecer o rapaz, tentou transpor o espao que o
separava
dele. Edmond estremeceu ao ouvir os esforos dolorosos que
fazia
o velho para se arrastar: a perna estava inerte e j s se
podia
ajudar com o brao. Edmond viu-se obrigado a pux-lo para si,
porque de contrrio jamais poderia sair sozinho pela estreita
abertura que desembocava na cela de Dants.

- C estou, impiedosamente encarniado na sua perseguio -
declarou com um sorriso radiante de benevolncia. - Julgou que
podia escapar  minha magnificncia, mas enganou-se. Ora oua.

Edmond viu que no podia recuar. Ajudou o velho a sentar-se na
cama e colocou-se junto dele no banquinho.

- Como sabe - principiou o abade --, era o secretrio, o
familiar, o amigo do cardeal Spada, o ltimo dos prncipes
deste
nome. Devo a esse digno fidalgo toda a felicidade que tive
nesta
vida. No era rico, embora as riquezas da sua famlia fossem
proverbiais e eu tenha ouvido dizer: "Rico como um Spada." Mas
ele, como a voz pblica, no tinha nada em que basear essa
fama
de opulncia. O seu palcio foi o seu paraso. Eduquei-lhe os
sobrinhos, que morreram, e quando ficou s no mundo
restitu-lhe,
por meio de uma submisso absoluta aos seus desejos, tudo o
que
fizera por mim havia dez anos.

"a casa do cardeal em breve deixou de ter segredos para mim.
Vi
muitas vezes Sua Eminncia trabalhar, compulsar livros antigos
e remexer avidamente na poeira dos manuscritos de famlia. Um
dia, quando lhe censurava as suas viglias inteis e a espcie
de abatimento que se lhes seguia, olhou-me sorrindo
amargamente
e abriu-me um livro com a histria da cidade de Roma. A, no
vigsimo captulo, que tratava da vida do Papa Alexandre VI,
havia as seguintes linhas que nunca mais pude esquecer: "As
grandes guerras da Romanha estavam terminadas. Csar Brgia,
que
conclura a sua conquista, necessitava de dinheiro para
comprar
a Itlia toda inteira. O papa necessitava igualmente de
dinheiro
para acabar com Lus XII, rei de Frana, ainda terrvel apesar
dos seus ltimos reveses. Impunha-se portanto fazer uma boa
especulao, o que era difcil nesta pobre Itlia
enfraquecida."

"sua Santidade teve ento uma ideia: resolveu nomear dois
cardeais.

"escolhendo duas das grandes personagens de Roma, dois ricos
sobretudo, eis o que lucrava o Santo Padre com a especulao:
antes de mais nada, podia vender os altos cargos e os empregos
magnficos que os dois cardeais possussem; alm disso, podia
contar vender por preo vantajosssimo os dois chapus.

"a especulao tinha ainda uma terceira parte, que em breve
aparecer.

"o papa e Csar Brgia arranjaram primeiro os dois futuros
cardeais: Jean Rospigliosi, que s por si detinha quatro das
mais
altas dignidades da Santa S, e Csar Spada, um dos mais
nobres
e ricos romanos. Tanto um como outro pressentiam o preo de
semelhante favor do papa, mas eram ambiciosos...  Arranjados
os cardeais, Csar no tardou a encontrar compradores para os
seus cargos.

"Da resultou que Rospigliosi e Spada pagaram para ser
cardeais
e que outros oito pagaram para ser o que eram anteriormente os
dois novos cardeais. Deste modo, entraram oitocentos mil
escudos
nos cofres dos especuladores.

"Passemos  ltima parte da especulao, que j  tempo.
Depois
de cumular de lisonjas Rospigliosi e Spada e de lhes conferir
as
insgnias do cardinalato, o papa, certo de que para liquidarem
a dvida no fictcia do seu reconhecimento deviam ter reunido
e realizado a sua fortuna para se fixarem em Roma - o papa e
Csar Brgia convidaram para jantar os dois cardeais.

"o caso deu origem a um debate entre o Santo Padre e o filho.
Csar achava que se podia utilizar um dos meios que tinha
sempre
 disposio dos seus amigos ntimos, a saber: em primeiro
lugar
a famosa chave com a qual se pedia a certas pessoas que
abrissem
determinado armrio. A chave tinha uma pontinha de ferro,
negligncia do operrio. Quando se fazia fora para abrir o
armrio, cuja fechadura estava perra, a pessoa picava-se nessa
pontinha e morria no dia seguinte. Havia tambm o anel de
cabea
de leo que Csar metia no dedo quando dava certos apertos de
mo. O leo mordia a epiderme dessas mos distinguidas e a
mordedura era mortal ao cabo de vinte e quatro horas.

"Csar props portanto ao pai quer que mandassem os cardeais
abrir o armrio, quer que dessem a cada um um cordial aperto
de
mo, mas Alexandre VI respondeu-lhe: "No olhemos a um jantar
tratando-se desses excelentes cardeais Spada e Rospipliosi.
Qualquer coisa me diz que recuperaremos esse dinheiro. Alis,
esqueceis, Csar, que uma indigesto se declara imediatamente,
enquanto que uma picada ou uma mordedura s resultam passado
um
dia ou dois."

"Csar rendeu-se a este raciocnio e por isso os cardeais
foram
convidados para Jantar.

"Puseram. a mesa na vinha que o papa possua perto de S. Pedro
de Liens, encantadora habitao que os cardeais conheciam bem
devido  sua fama.

"Rospigliosi, deslumbrado com a sua nova dignidade, preparou o
estmago e comps a sua melhor expresso. Spada, homem
prudente
e que amava apenas o sobrinho, jovem capito diante de quem se
abria um futuro risonho, pegou em papel e numa pena e fez o
seu
testamento.

"Em seguida mandou dizer ao sobrinho que o esperasse nas
imediaes da vinha, mas parece que o criado o no encontrou.

"Spada conhecia o hbito dos convites. Desde que o
cristianismo,
eminentemente civilizador, trouxera os seus progressos at
Roma,
j no era um centurio que vinha da parte do tirano dizer:
"Csar quer que morras", mas sim um legado a latere que, de
boca sorridente, vinha comunicar da parte do papa: "Sua
Santidade
deseja que janteis com ele."

"Spada partiu por volta das duas horas para a vinha de S.
Pedro
de Liens. O papa j a o esperava. A primeira pessoa que Spada
viu foi o sobrinho, ricamente vestido, muito gracioso, ao qual
Csar Brgia prodigalizava lisonjas. Spada empalideceu, e
Csar,
que lhe deitou um olhar cheio de ironia, deixou transparecer
que
tudo previra, que a cilada estava bem armada.

"Jantaram. Spada s pudera perguntar ao sobrinho: "Recebestes
o
meu  recado?" O sobrinho respondeu que no e compreendeu
perfeitamente o valor da pergunta. Mas era demasiado tarde,
pois
acabava de beber um copo de excelente vinho que lhe servira o
copeiro do papa. Spada viu no mesmo instante aproximar-se
outra
garrafa, de que lhe oferecerem liberalmente. Uma hora mais
tarde,
um mdico declarava ambos envenenados por cogumelos venenosos.
Spada morreu no limiar da vinha e o sobrinho expirou  sua
porta
fazendo um sinal que a mulher no compreendeu.

"Csar e o papa apressaram-se a devassar a herana, a pretexto
de procurarem os documentos dos defuntos. Mas a herana
consistia
nisto: um bocado de papel em que Spada escrevera: "Lego ao meu
sobrinho bem-amado as minhas arcas e os meus livros, entre os
quais o meu belo brevirio de cantos de ouro, desejando que
guarde essa recordao do seu tio afectuoso."

"Os herdeiros procuraram por toda a parte, admiraram o
brevirio,
fizeram mo baixa nos mveis e admiraram-se que Spada, homem
rico, fosse efectivamente o mais miservel dos tios. Tesouros,
nenhum, excepto os tesouros de cincia encerrados na
biblioteca
e nos laboratrios.

"Mais nada. Csar e o pai procuraram, remexeram e espiolharam,
mas no encontraram nada, ou pelo menos encontraram muito
pouca
coisa: talvez um milhar de escudos, peas de ourivesaria e
aproximadamente outro tanto de dinheiro em prata. Mas o
sobrinho
tivera tempo de dizer  mulher, ao chegar: "Procura entre os
papis do meu tio; h um testamento autntico."

"Procuraram talvez ainda mais activamente do que os augustos
herdeiros, mas em vo. Tudo se resumia a dois palcios e uma
vinha atrs do Palatino. Mas naquela poca os bens imveis
possuam um valor medocre e por isso os dois palcios e a
vinha
ficaram na posse da famlia como indignos da rapacidade do
papa
e do filho.

"Os meses e os anos passaram Alexandre VI morreu envenenado,
como
sabe por engano; Csar, envenenado ao mesmo tempo que ele,
mudou
apenas de pele como uma serpente, e na nova o veneno deixou
malhas semelhantes s que se vem na pele dos tigres.
Finalmente,
obrigado a deixar Roma, viria a morrer obscuramente numa
escaramua nocturna e quase esquecida da histria.

"Depois da morte do papa e do exlio do filho toda a gente
esperava ver a famlia retomar a vida principesca que levava
no
tempo do cardeal Spada; mas no foi assim. Os Spadas
mantiveram-se numa abastana duvidosa, um mistrio eterno caiu
sobre o sombrio caso e a opinio pblica declarou que Csar,
melhor poltico do que o pai, empalmara ao papa a fortuna dos
dois cardeais. Digo dos dois porque o cardeal Rospigliosi, que
no tomara qualquer precauo, foi completamente espoliado.

Faria interrompeu-se, sorrindo, e observou:

- At agora, isto no parece ter-lhe interessado muito, no 
verdade?

- Oh, meu amigo, parece-me, pelo contrrio, que leio uma
crnica
cheia de interesse! - respondeu Dants. - Continue, peo-lhe.

-  o que vou fazer. A famlia habituou-se  obscuridade. Os
anos
passaram. Dos descendentes, uns foram soldados, outros
diplomatas; estes sacerdotes, aqueles banqueiros; uns
enriqueceram, outros acabaram de se arruinar. Chego ao ltimo
da
famlia, quele de quem fui secretrio, ao conde de Spada.

"Ouvira-o lamentar-se muitas vezes da desproporo da sua
fortuna
com a sua categoria e aconselhara-o a colocar os poucos bens
que
lhe restavam em rendas vitalcias. Ele seguiu o meu conselho e
duplicou assim os seus rendimentos.

"O famoso brevirio permanecera na famlia e era o conde de
Spada
quem o possua. Tinham-no conservado de pais para filhos, pois
a clusula estranha do nico testamento encontrado
transformara-o
numa autntica relquia guardada em supersticiosa venerao na
famlia. Era um livro iluminado com as mais belas figuras
gticas, e to pesado, de ouro, que um criado  que o levava
sempre diante do cardeal nos dias de grande solenidade.

"Perante documentos de todos os gneros - ttulos, contratos,
pergaminhos, etc. - guardados nos arquivos da famlia e todos
provenientes do cardeal envenenado, pus-me por meu turno, como
vinte servidores, vinte intendentes e vinte secretrios que me
tinham precedido, a compulsar os maos formidveis
constitudos
por essa papelada. Mas, apesar da actividade e do cuidado com
que
me dedicava s minhas pesquisas, no encontrava absolutamente
nada. No entanto. lera e at escrevera uma histria exacta e
quase efemerdica da famlia dos Brgias, com a nica
finalidade
de me assegurar se a fortuna desses prncipes aumentara  data
da morte do meu cardeal Csar Spada, mas apenas notei a adio
dos bens do cardeal Rospijoiosi, seu companheiro de
infortnio.

"Estava portanto quase certo de que a herana no aproveitara
nem
aos Brgias nem a famlia, mas sim ficara sem dono, como esses
tesouros dos contos rabes que dormem no seio da terra sob a
guarda de um gnio. Espiolhei, conferi e calculei milhares e
milhares de vezes os rendimentos e as despesas da famlia
durante
trezentos anos. Tudo foi intil: eu fiquei na minha e o conde
de
Spada na sua misria.

"O meu patro morreu. Da sua renda vitalcia exceptuara os
seus
documentos de famlia, a sua biblioteca constituda por cinco
mil
volumes e o seu famoso brevirio. Legou-me tudo isso,
juntamente
com um milhar de escudos romanos que possua em dinheiro, com
a
condio de mandar dizer missas anuais e de organizar uma
rvore
genealgica e uma histria da sua casa, o que fiz
escrupulosamente...

"Tranquilize-se, meu caro Edmond, aproximamo-nos do fim.

"Em 1807, um ms antes da minha priso e quinze dias depois da
morte do conde de Spada, em 25 de Dezembro - j vai
compreender
por que motivo esse dia memorvel me ficou na memria --,
relia
pela milsima vez aqueles papis, que arrumava, pois o palcio
pertencia ento a um estrangeiro e eu ia deixar Roma para me
instalar em Florena, levando comigo uma dzia de milhares de
libras que possua, a minha biblioteca e o meu famoso
brevirio,
quando, cansado daquele estudo assduo, maldisposto devido a
um
almoo bastante pesado que comera, deixei cair a cabea nos
braos e adormeci. Eram trs horas da tarde.

"Acordei quando o relgio deu seis horas.

"Ergui a cabea e vi-me mergulhado na escurido mais profunda.
Toquei para que me trouxessem luz, mas ningum apareceu.
Resolvi
ento servir-me a mim mesmo. Seria, de resto, um hbito de
filsofo que acabaria por adquirir. Segurei com uma das mos
uma
vela j preparada e com outra procurei,  falta  de fsforos
que no havia na caixa, um papel que contava acender num resto
de chama que danava na lareira. Hesitava, porm receando, nas
trevas pegar num papel precioso em vez de num papel intil,
quando me lembrei de ter visto no famoso brevirio, que estava
pousado na mesa a meu lado, um papel velho todo amarelecido da
parte de cima, que parecia servir de sinal, e que atravessara
os
sculos conservado no seu lugar pela venerao dos herdeiros.
Procurei s apalpadelas essa folha intil, encontrei-a,
torci-a
e, chegando-a  chama mortia, acendi-a.

"Mas como que por magia,  medida que o fogo subia debaixo dos
meus dedos, vi sarem do papel branco e aparecerem na folha
caracteres amarelados. Ento, o terror apoderou-se de mim.
Apertei o papel nas mos, abafei o fogo, acendi a vela
directamente na lareira, reabri com indizvel emoo a carta
amarrotada e reconheci que uma tinta misteriosa e simptica
traara aquelas letras, somente visveis ao contacto com o
calor
forte. Pouco mais de um tero do papel fora consumido pela
chama.
Era o papel que voc lera esta manh. Releia-o, Dants. Depois
de o reler, completarei as frases interrompidas e o sentido
incompleto.
Faria calou-se e estendeu o papel a Dants, que desta vez
releu
avidamente as seguintes palavras traadas com uma tinta rua,
semelhante  ferrugem:

Hoje, 25 de Abril de 1498, ten
Alexandre VI, e receando que, no
deseje herdar de mim e me re
e Bentivoglio, mortos envenenados,
meu herdeiro universal, que es
por o ter visitado comigo, isto  nas
ilha de Monte-Cristo, tudo o que pos
drarias, diamantes e jias; que s
pode ascender a dois mil
encontrar levantando a vigsima roch
enseadazinha do leste, em linha recta. Foram praticadas
nessas grutas; o tesouro est no canto mais a
o qual tesouro lhe lego e cedo em prop
nico herdeiro.
25 de Abril de 1498.

CES

- Agora - prosseguiu o abade - leia este outro papel. E
apresentou a Dants segunda folha com outros fragmentos de
linhas.

Dants pegou-lhe e leu:

do sido convidado para jantar por Sua Santidade
contente com ter-me obrigado a pagar o chapu,
serve o destino dos cardeais Crapara
declaro ao meu sobrinho Guido Spada,
condi num stio que conhece
gratas da pequena
suo em lingotes ouro amoedado, pe
eu conheo a existncia desse tesouro, que
hes de escudos romanos aproximadamente, e que
a a partir da
duas aberturas
fastado da segunda,
riedade plena como meu

AR SPADA.

Faria no despregava dele o olhar ardente.

- E agora - declarou quando ouviu que Dants chegara a ltima
linha - junte os dois fragmentos e julgue por si mesmo.

Dants obedeceu. Uma vez juntos, os dois fragmentos davam o
seguinte conjunto:

Hoje, 25 de Abril de 1498 ten... do sido convidado para jantar
por Sua Santidade... Alexandre VI e receando que no...
contente
com ter-me obrigado a pagar o chapu ... deseje herdar de mim
e
me re... serve o destino dos cardeais Crapara.... e
Bentivoglio,
mortos envenenados... declaro ao meu sobrinho Cuido Spada...
meu
herdeiro universal que es... condi num stio que conhece...
por
o ter visitado comigo, isto  nas... grutas da pequena ilha de
Monte-Cristo tudo o que pos... suo em lingotes ouro amoedado
pe... drarias diamantes e jias; que s... eu conheo a
existncia desse tesouro que... pode ascender a dois mil...
hes
de escudos romanos aproximadamente, e que... encontrar
levantando a vigsima roch... a a partir da... enseadazinha do
leste, em linha recta. Foram praticadas... duas aberturas...
nessas grutas: o tesouro est no canto mais a... fastado da
segunda,... o qual tesouro lhe lego e cedo em prop... riedade
plena como meu... nico herdeiro.

25 de Abril de 1498.

CES... AR SPADA.

- Ento compreende agora? - perguntou Faria.

- Era a declarao do cardeal Spada e o testamento procurado
havia tanto tempo? - inquiriu Edmond, ainda incrdulo.

- Sim, mil vezes sim!

- Quem o reconstituiu desta maneira?

- Eu, que, com o auxlio do fragmento restante, adivinhei o
resto
calculando o comprimento das linhas pelo do papel e penetrando
no sentido oculto por meio do sentido visvel, tal como nos
orientamos num subterrneo por um raio de luz vindo de cima.

- E que fez quando julgou ter adquirido essa convico?

- Quis partir e parti imediatamente, levando comigo o
princpio
da minha grande obra sobre a unidade de um reino de Itlia.
Mas
havia muito tempo que a Polcia imperial me trazia debaixo de
olho, pois nesse tempo, ao contrrio do
que pretendeu depois, quando lhe nasceu um filho, Napoleo
queria
a diviso das provncias. Por isso, a minha partida
precipitada,
por motivos que a Polcia estava longe de adivinhar quais
fossem,
despertou as suas suspeitas e prenderam-me no momento em que
embarcava para Piombino. Agora - continuou Faria, olhando
Dants
com expresso quase paternal --, agora, meu amigo, sabe tanto
como eu a este respeito. Se alguma vez fugirmos juntos, metade
do meu tesouro  seu; se eu morrer aqui e voc conseguir fugir
sozinho, pertence-lhe na totalidade.

- Mas - objectou Dants, hesitante - esse tesouro no ter
neste
mundo algum possuidor mais legtimo do que ns?

- No, no, sossegue; a famlia extinguiu-se por completo. De
resto, o ltimo conde de Spada nomeou-me seu herdeiro.
Legando-me
o brevirio simblico, legou-me o que ele continha. No, no,
sossegue: se conseguirmos deitar a mo a essa fortuna,
poderemos
goz-la sem remorsos.

- E o senhor diz que o tesouro vale...

- Dois milhes de escudos romanos, mais ou menos treze milhes
na nossa moeda.

- impossvel! - exclamou Dants, assustado com a enormidade
da
verba.

- Impossvel porqu? - prosseguiu o velho. - A famlia Spada
era
uma das mais antigas e poderosas famlias do sculo XV. De
resto
nesse tempo, em que no havia qualquer espcie de especulao
ou
indstria, as acumulaes de ouro e jias no eram raras, e
ainda
hoje h famlias romanas que morreram de fome ao p de um
milho
de diamantes e pedrarias transmitidos vinculativamente, por
no
lhe poderem tocar.

Edmond julgava sonhar; pairava entre a incredulidade e a
alegria.

- Guardei durante tanto tempo este segredo para consigo -
continuou Faria - primeiro para o experimentar e depois para o
surpreender. Se nos tivssemos evadido antes do meu ataque de
catalepsia, l-lo-ia conduzido a Monte-Cristo. Agora -
acrescentou com um suspiro - ser voc quem l me levar.
Ento,
Dants, no me agradece?

- Esse tesouro pertence-lhe, meu amigo - declarou Dants
pertence-lhe s a si, e eu no tenho nenhum direito a ele. No
sou seu parente.

- Voc  meu filho, Dants! - gritou o velho. - Voc  o filho
do meu cativeiro, pois o meu estado condena-me ao celibato.
Deus
enviou-mo para confortar ao mesmo tempo o homem que no podia
ser
pai e o prisioneiro que no podia ser livre.

E Faria estendeu o brao que lhe restava ao rapaz, que se lhe
agarrou ao pescoo chorando.


Captulo XIX


O terceiro ataque

Agora que o tesouro que fora durante tanto tempo objecto das
meditaes do abade podia assegurar a felicidade futura
daquele que Faria amava  realmente como filho, duplicara
ainda de valor a seus olhos. Todos os dias se referia ao
montante do tesouro e explicava a Dants tudo o que com treze
ou catorze milhes de fortuna um homem podia, nos tempos
modernos, fazer de bem aos seus amigos. E ento o rosto de
Dants ensombrava-se, pois vinha-lhe  memria o juramento de
vingana que fizera e pensava pela sua parte quanto nos tempos
modernos um homem com treze ou catorze milhes de fortuna
podia tambm fazer de mal aos seus inimigos.

O abade no conhecia a ilha de Monte-Cristo, mas Dants
conhecia-a. Passara muitas vezes diante dela, pois a ilha
ficava situada a vinte e cinco milhas da Pianosa, entre a
Crsega e a ilha de Elba, e at l arriba a uma vez. A ilha
era, sempre fora e ainda  completamente deserta. Trata-se de
um rochedo de forma quase cnica que parece ter sido trazido
por qualquer cataclismo vulcnico do fundo do abismo 
superfcie do mar.

Dants traava o mapa da ilha a Faria e Faria dava conselhos a
Dants acerca dos meios a empregar para encontrar o tesouro.

Mas Dants estava longe de ser to entusiasta e sobretudo to
confiante como o velho. Claro que estava agora plenamente
convencido de que Faria no se encontrava louco, e a forma
como chegara  descoberta que levara a crer na sua loucura
aumentava ainda mais a sua admirao por ele; mas tambm no
podia acreditar que esse tesouro, supondo que tivesse
existido, ainda existisse, e embora no visse o tesouro como
uma quimera, via-o pelo menos como perdido.

Entretanto, como se o destino quisesse tirar aos prisioneiros
a sua ltima esperana e fazer-lhes compreender que estavam
condenados a priso perptua, nova desgraa os atingiu: a
galeria da beira-mar, que havia muito tempo ameaava runa,
fora reconstruda. Tinham reparado os alicerces e tapado com
enormes blocos de rocha o buraco j meio entulhado por Dants.
Sem essa precauo que, recordemo-nos, fora sugerida ao rapaz
pelo abade, o seu infortnio teria sido ainda muito maior,
pois descobririam a sua tentativa de evaso e sem dvida os
separariam. Uma nova porta, mais forte e inexorvel do que as
outras, ter-se-ia ento fechado sobre eles.

- Como v dizia o rapaz com suave tristeza a Faria --, Deus
quer-me roubar at o mrito do que o senhor chama ainda
dedicao por si. Prometi-lhe ficar eternamente consigo e nada
me impede agora de cumprir a minha promessa. O tesouro no
ser mais meu do que seu, pois nem um nem outro sairemos
daqui. De resto, o meu verdadeiro tesouro, meu amigo, no  o
que me esperava debaixo das rochas enegrecidas de
Monte-cristo, mas sim a sua presena, o nosso convvio de
cinco ou seis horas por dia, apesar dos nossos carcereiros;
so os clares de inteligncia com que me iluminou o crebro,
as lnguas vivas que me implantou na memria e que a
desabrocham com todas as suas ramificaes filolgicas. As
vrias cincias que me tornou to fceis de aprender dada a
profundidade do conhecimento que possui delas e a clareza de
princpios a que as reduziu,  que constituem aquilo em que me
tez rico e feliz.  esse o meu tesouro. Acredite no que lhe
digo e conforme-se: tudo isso vale mais para mim do que
toneladas de ouro e caixas de diamantes, mesmo que no fossem
problemticas como as nuvens que vemos de manh pairar sobre o
mar, que as pessoas tomam por terras firmes e que se evaporam,
se volatizam e se desvanecem  medida que se aproximam delas.
T-lo junto  de mim o mais tempo possvel, ouvir a sua voz
eloquente enriquecer o meu esprito, retemperar-me a alma,
tornar todo o meu ser capaz de grandes e terrveis coisas se
alguma vez for livre, ench-lo to bem que o desespero a que
estava prestes a entregar-me quando o conheci no encontrei
lugar em mim,  essa a minha fortuna. E uma fortuna nada
quimrica, uma fortuna que lhe devo e que  bem real, uma
fortuna que nem todos os soberanos da Terra, mesmo que fossem
Csares Brgias, me conseguiriam roubar.

Assim tiveram os dois infortunados, seno dias felizes, pelo
menos dias que passaram com tanta rapidez como os que se
seguiram. Faria, que durante to longos anos guardara o
segredo do tesouro, no se cansava agora de falar dele. Como
previra, ficara paraltico do brao direito e da perna
esquerda e perdera quase toda a esperana de os utilizar. Mas
continuava a sonhar para o seu jovem companheiro uma
libertao ou uma evaso que lhe permitisse fruir o tesouro
por ambos. Com receio de que a carta se perdesse, obrigara
Dants a decor-la, e Dants sabia-a da primeira  ltima
palavra. Destrura ento a segunda parte, pois assim, mesmo
que algum se apoderasse da primeira, no conseguiria
adivinhar o seu verdadeiro sentido. s vezes, Faria passava
horas inteiras a dar instrues a Dants, instrues que lhe
seriam teis no dia da sua libertao. Uma vez livre, no dia,
na hora, no minuto em que se visse liberto, s deveria ter um
nico pensamento: alcanar Monte-cristo fosse como fosse e
ficar sozinho, sob um pretexto que no desse azo a suspeitas,
e uma vez l, uma vez sozinho, procurar encontrar as grutas
maravilhosas e revistar o local indicado. (O local indicado,
recorde-se, era o canto mais afastado da segunda abertura.)

Entretanto, as horas passavam, seno rpidas, pelo menos
suportveis. Como dissemos, Faria, sem ter recuperado o uso da
mo e do p, recuperara toda a lucidez da sua inteligncia e,
alm dos conhecimentos morais a que j nos referimos em
pormenor, ensinara pouco a pouco ao seu jovem companheiro a
arte paciente e sublime do prisioneiro, que de nada sabe fazer
qualquer coisa. Estavam portanto sempre ocupados, Faria com
medo de se ver envelhecer, Dants com medo de se recordar do
seu passado quase extinto e que j s pairava no mais
recndito da sua memria como uma luz longnqua perdida na
noite. Tudo corria assim como nessas existncias onde o
infortnio nada perturbou e que se escoam maquinais e calmas
sob o olhar da Providncia.

Mas sob essa calma superficial havia no corao do rapaz, e
talvez tambm no do velho, muitos impulsos contidos, muitos
suspiros abafados, que vinham ao de cima quando Faria ficava
sozinho e Edmond regressava  sua cela.

Uma noite, Edmond acordou sobressaltado, julgando ter ouvido
chamar por si.

Abriu os olhos e tentou traspassar a densidade das trevas.

O seu nome, ou antes, uma voz gemebunda que procurava
articular o seu nome, chegou-lhe aos ouvidos.

Ergueu-se na cama, com o suor da angstia a cobrir-lhe a
testa, e escutou. No havia dvida, os gemidos vinham da cela
do companheiro.

- Meu Deus! - murmurou Dants. - Ter ...?

Afastou a cama, tirou a pedra, meteu pela galeria e chegou 
extremidade oposta. A laje estava levantada.

 luz da candeia informe e vacilante de que j falmos,
Edmond viu o  velho plido, ainda de p, agarrado  cama.
Tinha o rosto arrepanhado pelos horrveis sintomas que j
conhecia e que tanto o tinham assustado quando os vira pela
primeira vez.

- Pronto, meu amigo! - disse Faria, resignado. - Compreende,
no  verdade? No preciso de lhe ensinar mais nada!

Edmond soltou um grito doloroso e, perdendo por completo a
cabea, correu para a porta a gritar.

- Socorro! Socorro!

Faria teve ainda foras para o deter pelo brao.

- Silncio, ou est perdido! - disse. - Pensemos apenas em si,
meu amigo, em lhe tornar o seu cativeiro suportvel ou a sua
fuga possvel. Precisaria de anos para refazer sozinho tudo o
que fiz aqui, e que seria destrudo imediatamente quando os
nossos guardies soubessem do nosso entendimento. De resto,
este j tranquilo, meu amigo, a masmorra que vou deixar no
ficar muito tempo vazia; outro desgraado vir ocupar o meu
lugar. A esse aparecer como um anjo salvador. Talvez seja
jovem, forte e paciente como voc e possa ajud-lo na fuga, ao
passo que eu lha dificultaria. Deixar de ter um meio cadver
agarrado a si e a paralisar-lhe todos os movimentos.
Decididamente, Deus faz enfim qualquer coisa por si: d-lhe
mais do que lhe tira e j  tempo de eu morrer.

Edmond pde apenas juntar as mos e gritar:

- Oh, meu amigo, meu amigo, cala-se!

Depois, recuperando a energia por um instante abalada por
aquele golpe imprevisto e a coragem abatida pelas palavras do
velho, disse:

- Oh, se j o salvei uma vez, tambm o salvarei segunda!

E levantou o p da cama, donde tirou o frasco ainda um tero
cheio de licor vermelho.

- Veja, ainda resta alguma desta beberagem salvadora.
Depressa, depressa, diga-me o que devo fazer desta vez. H
novas instrues? Fale meu amigo, escuto-o.

- J no h esperana - respondeu Faria abanando a cabea. -
Mas no importa, Deus quer que o homem que criou no corao do
qual enraizou to profundamente o amor  vida faa tudo o que
puder para conservar essa existncia s vezes to penosa e to
querida sempre.

- Claro, claro! - exclamou Dants. - E salv-lo-ei,
garanto-lhe!

- Pois sim, experimente. O frio apodera-se de mim. Sinto o
sangue afluir-me ao crebro. Este terrvel tremor que me faz
bater os dentes e parece desconjuntar-me os ossos comea a
sacudir-me todo o corpo. Dentro de cinco minutos o mal
manifestar-se- e dentro de um quarto de hora s restar de
mim um cadver.

-Oh!-exclamou Dants, com o corao pungido de dor.

- Proceda como da primeira vez, s com a diferena de que no
esperar tanto tempo. Todas as fontes da vida se encontram j
secas e a morte - continuou mostrando o brao e a perna
paralisados - ter de se encarregar apenas de metade da sua
tarefa. Se depois de me deitar doze gotas na boca, em vez de
dez, vir que no volto a mim, deite o resto. Agora leve-me
para a cama, porque j no consigo estar de p.

Edmond tomou o velho nos braos e deitou-o na cama.

- Agora, amigo, nica consolao da minha vida miservel -
disse Faria --, voc que o Cu me deu um pouco tarde, mas
enfim que me deu, presente inestimvel que lhe agradeo, no
momento de nos separarmos para sempre desejo-lhe toda a
felicidade, toda a prosperidade que merece. Meu filho,
abenoo-o!

O rapaz ajoelhou e encostou a cabea  cama do velho.

- Mas sobretudo, oua bem o que lhe digo neste momento
supremo: o tesouro dos Spadas existe. Deus permite-me que no
haja mais para mim distncia nem obstculo. Vejo-o no fundo da
segunda gruta; os meus olhos traspassam as profundezas da
terra e ficam deslumbrados com tanta riqueza. Se conseguir
fugir, lembre-se de que o pobre abade que toda a gente julgava
louco no o era. Corra a Monte-cristo, aproveite a nossa
fortuna, aproveite-a que j sofreu bastante.

Um estremecimento violento interrompeu o velho. Dants
levantou a cabea e viu que os olhos do abade se injectavam de
vermelho; dir-se-ia que uma onda de sangue acabava de lhe
subir do peito  cabea.

- Adeus! Adeus! - murmurou o velho, apertando convulsivamente
a mo do rapaz. - Adeus!

- Oh, ainda no, ainda no! - gritou Dants. - No nos
abandoneis, meu Deus, socorrei-o... ajudai-o... eu...

- Silncio! Silncio! - murmurou o moribundo. - Que nos no
separem se voc me conseguir salvar!

-Tem razo. Oh, sim, sim, esteja tranquilo que o salvarei!
De resto, embora sofra muito, parece sofrer menos do que da
primeira vez.

- Desengane-se! Sofro menos porque h em mim menos fora para
sofrer. Na sua idade tem-se t na vida,  privilgio da
juventude crer e esperar. Mas os velhos vem mais claramente a
morte. Ei-la... vem a... acabou-se... a vista fog... a razo
abandona-me... A sua mo, Dants!... Adeus!... Adeus!

Erguendo-se num derradeiro esforo em que reuniu todas as suas
faculdades:

- Monte-cristo! No se esquea de Monte-cristo!

E voltou a cair na cama.

A crise foi terrvel: membros contorcidos, plpebras inchadas,
uma espuma ensanguentada, um corpo sem movimentos, foi tudo o
que restou naquele leito de dor em vez do ser inteligente que
nele se deitara pouco antes.

Dants pegou na candeia e colocou-a  cabeceira da cama, numa
pedra saliente e donde a sua luz trmula iluminava com um
reflexo estranho e fantstico aquele rosto descomposto e
aquele corpo inerte e rgido.

Com os olhos fixos, esperou intrepidamente o momento de
administrar o remdio salvador.

Quando julgou chegado esse momento, pegou na faca, descerrou
os dentes do abade, que ofereceram menos resistncia do que da
primeira vez, contou uma aps outra dez gotas e esperou. O
frasco continha ainda pouco mais ou menos o dobro do que
deitara.

Esperou dez minutos, um quarto de hora, meia hora e nada
mexeu. Trmulo, com os cabelos eriados e a testa gelada de
suor, contava os segundos pelas pulsaes do seu corao.

Pensou ento que era tempo de tentar a ltima experincia.
Aproximou o  frasco dos lbios roxos de Faria e, sem
necessitar de lhe descerrar os maxilares, que tinham ficado
abertos, despejou lodo o licor que ele continha.

O remdio produziu um efeito galvnico. Um tremor violento
sacudiu os membros do velho, os seus olhos abriram-se com
expresso assustadora, soltou um suspiro que mais parecia um
grito e em seguida todo aquele corpo trmulo voltou pouco a
pouco  imobilidade.

Somente os olhos permaneceram abertos.

Passaram meia hora, uma hora, hora e meia. Durante esta hora e
meia de angstia, Edmond, inclinado sobre o amigo com a mo no
seu corao, sentiu sucessivamente aquele corpo arrefecer e as
pulsaes do corao, cada vez mais abafadas e profundas,
extinguirem-se.

Por fim, nada sobreviveu; o derradeiro batimento do corao
cessou, o rosto enlivideceu e os olhos ficaram abertos, mas o
olhar morreu.

Eram seis horas da manh, o Sol comeava a romper e os seus
raios mortios invadiam a masmorra e faziam empalidecer a luz
prestes a extinguir-se da candeia. Reflexos estranhos passavam
pelo rosto do cadver, dando-lhe de vez em quando aparncias
de vida. Enquanto durou aquela luta do dia e da noite, Dants
ainda pde duvidar; mas logo que o dia levou a melhor
compreendeu que estava sozinho com um cadver.

Ento, apoderou-se de si um terror profundo e invencvel. No
se atreveu mais a apertar aquela mo que pendia fora da cama,
nem ousou mais pausar os olhos naqueles olhos fixos e brancos
que tentou vrias vezes, mas inutilmente, fechar, e que se
reabriam sempre. Apagou a lamparina, escondeu-a cuidadosamente
e fugiu, tendo o cuidado de colocar o melhor possvel a laje
por cima da cabea.

Alis, era tempo, pois o carcereiro aproximava-se.

Desta vez comeou a sua visita por Dants. Depois de sair da
sua cela, dirigiu-se para a de Faria, a quem ia levar o
pequeno-almoo e roupa.

Nada indicava no homem que tivesse conhecimento do que
acontecera. Saiu.

Dants foi ento dominado por uma indizvel impacincia de
saber o que se iria passar na cela do seu pobre amigo. Voltou
portanto a entrar na galeria subterrnea e chegou a tempo de
ouvir as exclamaes do carcereiro, que pedia socorro.

No tardaram a entrar os outros carcereiros. Em seguida
ouviram-se os passos pesados e regulares habituais dos
soldados, mesmo fora do servio. Atrs dos soldados chegou o
governador.

Edmond ouviu o rudo da cama ao sacudirem o cadver. Ouviu
tambm o governador ordenar que lhe deitassem gua na cara e
depois, vendo que apesar disso o prisioneiro no dava acordo
de si, mandar chamar o mdico.

O governador saiu. Aos ouvidos de Dants chegaram algumas
palavras de compaixo de mistura com risos de troa.

- Pronto, pronto - dizia um --, o louco foi juntar-se aos seus
tesouros. Boa viagem!

- Com todos os seus milhes, nem sequer tem com que pagar a
mortalha - dizia outro.

- Oh, as mortalhas do Castelo de If no so caras -
acrescentou terceira voz.

-- Como se trata de um padre, talvez faam alguma despesa com
ele - observou um dos primeiros interlocutores.

- Nesse caso, ter as honras do saco.

Edmond escutava, no perdia uma palavra, mas no compreendia
grande coisa do que se dizia. As vozes no tardaram a
extinguir-se e pareceu-lhe que os homens tinham deixado a
cela.

Contudo, no se atreveu a entrar; Podiam ter deixado algum
carcereiro de guarda ao corpo.

Manteve-se portanto calado, imvel e contendo a respirao.
Passada uma hora, aproximadamente, o silncio foi quebrado por
um rudo fraco, que foi aumentando.

Era o governador que voltava, acompanhado do mdico e de
vrios oficiais.

Fez-se um momento de silncio. Era evidente que o mdico se
aproximava da cama e examinava o cadver.

As perguntas no tardaram a comear.

O mdico descreveu a doena a que o prisioneiro sucumbira e
declarou que estava morto. Perguntas e respostas sucediam-se
com uma despreocupao que indignava Dants.
Parecia-lhe que toda a gente devia experimentar pelo pobre
abade parte da ateno que lhe dedicava.

--  para mim muito desagradvel o que acaba de me anunciar -
disse o governador, respondendo  certeza manifestada pelo
mdico de que o velho estava realmente morto. - Era um
prisioneiro pacato, inofensivo, divertido com a sua loucura e
sobretudo fcil de guardar.

- Oh - acrescentou o carcereiro --, poder-se-ia at no o
guardar por completo! Deixar-se-ia ficar cinquenta anos aqui,
garanto, sem procurar fazer uma nica tentativa de evaso.

- No entanto - prosseguiu o governador --, creio que seria
conveniente apesar da sua convico (no  que duvide da sua
cincia, mas para salvaguardar a minha prpria
responsabilidade), assegurar-nos se o prisioneiro est
realmente morto.

Reinou um instante de silncio absoluto durante o qual Dants,
sempre  escuta, deduziu que o mdico examinava e palpava
segunda vez o cadver.

- Pode estar tranquilo - disse ento o mdico. - Est morto,
sou eu quem lho garante.

- Como sabe, senhor - insistiu o governador --, em casos
semelhantes a este no nos contentamos com um simples exame. A
despeito de todas as aparncias, queira portanto concluir a
sua misso cumprindo as formalidades prescritas na lei.

- Mandem aquecer os ferros - determinou o mdico. - Mas na
verdade  uma precauo absolutamente intil.

A ordem de aquecer os ferros fez estremecer Dants.

Soaram passos apressados, ouviu-se ranger a porta, algumas
idas e vindas interiores e pouco depois um dos carcereiros
voltou e disse:

- Aqui est o braseiro com um ferro.

Reinou ento um momento de silncio e em seguida ouviu-se o
rechinar das carnes que queimavam e cujo cheiro pesado e
nauseabundo transps at a parede atrs da qual Dants
escutava horrorizado.

Quando o cheiro a carne humana carbonizada lhe feriu as
narinas, o suor brotou da testa do rapaz e este julgou ir
desmaiar.

- Como v, senhor, est bem morto - declarou o mdico. - Esta
queimadura no calcanhar  decisiva. O pobre louco est curado
da sua loucura e liberto do seu cativeiro.

- No se chamava Faria? - perguntou um dos oficiais que
acompanhavam o governador.

- Chamava e, segundo pretendia, tratava-se de um velho nome.
Alis, era muito culto e bastante cordato, at, em tudo o que
no dissesse respeito ao seu tesouro. Mas quando se tratava
deste, foroso  reconhec-lo, era intratvel.

-  aquilo a que chamamos monotonia - informou o mdico. -
Alguma vez tiveram razo de queixa dele? - perguntou o
governador ao carcereiro encarregado de trazer a comida ao
abade.

- Nunca, Sr. Governador - respondeu o carcereiro. - Nunca por
nunca ser! Pelo contrrio: dantes at me divertia muito com as
suas histrias, e um dia em que tinha a minha mulher doente
deu-me uma receita que a curou.

- Ah, ah!...-exclamou o mdico. - Ignorava que tivesse nele um
colega. Espero, Sr. Governador - acrescentou rindo --, que o
trate em conformidade.

- Claro, claro, esteja descansado que ser delicadamente
amortalhado no saco mais novo que conseguirmos arranjar. Est
satisfeito?

- Devemos cumprir essa ltima formalidade na sua presena,
senhor? - perguntou um carcereiro.

- Sem dvida, mas despachem-se; no posso ficar nesta cela
durante todo o dia.

Ouviram-se novas idas e vindas.

Um instante depois chegou aos ouvidos de Dants um rudo de
pano amarrotado, a cama rangeu nas molas, passos pesados como
os de um homem que levanta um fardo soaram no lajedo e em
seguida a cama rangeu de novo sob o peso que nele depositavam.

- Esta noite-disse o governador.

- Haver missa? - perguntou um dos oficiais.

- Impossvel - respondeu o governador. - O capelo do castelo
pediu-me ontem licena para fazer uma viagenzinha de oito dias
a Hyres e at ele voltar no h servio religioso para nenhum
dos meus prisioneiros. O pobre abade, se no fosse to
apressado, teria o seu rquie.

- Ora, ora! - exclamou o mdico com a impiedade habitual na
gente da sua profisso. - Ele era padre: Deus ter em
considerao o seu estado e no dar ao Diabo o prazer de lhe
enviar um sacerdote.

Uma gargalhada secundou a graola.

Entretanto, a operao de amortalhamento prosseguia.

- Esta noite! - repetiu o governador quando os homens
acabaram.

- A que horas? - perguntou um carcereiro.

- Por volta das dez ou onze.

- Velar-se- o morto?

- Para qu? Fechem a cela como se estivesse vivo e pronto.

Ento, os passos afastaram-se, as vozes foram enfraquecendo, o
rudo da porta, com a sua fechadura barulhenta e os seus
ferrolhos rangedores, fez-se
ouvir e um silncio mais triste do que o da solido, o
silncio da morte, invadiu tudo, incluindo a alma enregelada
do jovem.

Ento, levantou lentamente a laje com a cabea e doitou um
olhar investigador  cela.

A cela estava vazia. Dants saiu da galeria.


Captulo XX

O cemitrio do Castelo de If


Em cima da cama, estendido no sentido do comprimento e
fracamente iluminado por uma luz brumosa que penetrava atravs
da janela, via-se um saco de pano grosseiro, debaixo de cujas
amplas pregas se desenhava confusamente uma forma longa e
rgida. Era a mortalha de Faria, essa mortalha que, no dizer
dos carcereiros, era to barata. Assim, estava tudo acabado.
Entre Dants e o seu velho amigo existia j uma separao
material e era-lhe impossvel voltar a ver-lhe os olhos, esses
olhos que tinham ficado abertos como que para verem para alm
da morte. Tambm no poderia apertar mais a mo industriosa
que lhe erguera o vu que cobria tanta coisa oculta. Faria, o
til, o bom companheiro a quem se afeioara to profundamente
j s existia na sua memria. Ento, sentou-se  cabeceira
daquela cama terrvel e mergulhou em sombria e amarga
melancolia.

S! Voltara a ficar s! Tornara a cair no silncio!
Encontrava-se de novo diante do nada!

S! Sem sequer a vista, sem sequer a voz do nico ser humano
que o prendia ainda  terra! No seria prefervel fazer como
Faria, abalar, ir pedir a Deus a revelao do enigma da vida,
embora correndo o risco de passar pela porta lgubre do
sofrimento?

A ideia do suicdio, expulsa pelo amigo, afastada pela sua
presena, voltou ento a erguer-se como um fantasma junto do
cadver de Faria.

- Se morresse - disse --, iria para onde ele foi e com certeza
o encontraria. Mas como morrer?  muito fcil - acrescentou
rindo. - Fico aqui e atiro-me ao primeiro que entrar.
Estrangulo-o e serei guilhotinado.

Mas como acontece que, nas grandes dores como nas grandes
tempestades, o abismo se encontra entre duas vagas. Dants
recuou perante a ideia dessa morte infamante e passou
precipitadamente do desespero a uma nsia ardente de vida e
liberdade.

- Morrer! Oh, no! - exclamou. - No teria valido a pena viver
tanto, sofrer tanto para morrer agora! Morrer era bom quando
da outra vez tomei essa resoluo, h anos. Mas agora seria
realmente demasiado ajudar o meu miservel destino. No, quero
viver e lutar at ao fim! No, quero reconquistar a felicidade
que me roubaram! Antes de pensar em morrer no devo esquecer
que tenho de punir os meus carrascos e talvez tambm (quem
sabe?) de recompensar alguns amigos. Mas agora vo-me esquecer
aqui e s sairei da minha masmorra como Faria.

Mal, porem, acabou de proferir estas ltimas palavras Edmond
ficou imvel, de olhos fixos, como um homem a quem ocorreu uma
i leia sbita, mas a quem essa ideia assusta. De sbito
levantou-se, levou a mo  testa como se tivesse tido uma
vertigem, deu duas ou trs voltas na cela e voltou a deter-se
diante da cama...

- Oh, oh!... - murmurou. - Quem me envia este pensamento? Sois
Vs, meu Deus? Uma vez que s os mortos saem livremente daqui,
tomemos o lugar dos mortos.

E sem perder tempo a analisar esta deciso, como que para no
dar ao pensamento tempo de destruir esta resoluo
desesperada, inclinou-se sobre o horrvel saco, abriu-o com a
faca que Faria fizera, retirou o cadver do saco, levou-o para
a sua cela, deitou-o na cama, cobriu-lhe a cabea com o bocado
de pano com que ele prprio tinha o hbito de se cobrir,
tapou-o com o cobertor, beijou-lhe pela ltima vez a testa
gelada, tentou mais uma vez fechar aqueles olhos rebeldes, que
continuavam abertos, assustadores devido  ausncia de vida,
virou-lhe a cara para a parede a fim de o carcereiro, quando
lhe trouxesse a refeio da noite, julgar que estava a dormir,
como acontecia muitas vezes, voltou  galeria, puxou a cama
contra a muralha, entrou na outra cela, tirou do armrio
agulha e linha, desembaraou-se dos seus andrajos para que
cheirasse debaixo do pano a carne nua, introduziu-se no saco
esventrado, colocou-se na posio do cadver e fechou a
costura por dentro.

Ouvir-se-ia a bater o seu corao se por azar algum entrasse
naquele momento.

Dants poderia perfeitamente ter esperado para depois da
visita da noite, mas receava que entretanto o governador
mudasse de resoluo e levassem dali o cadver.

Ento a sua derradeira esperana estaria perdida.
Eis o que tencionava fazer:

Se durante o trajecto os coveiros descobrissem que
transportavam um vivo em vez de um morto, Dants no lhes
daria tempo de se recomporem da surpresa. Com uma facada
vigorosa abriria o saco de alto a baixo e, aproveitando o
terror dos homens, fugiria. Se o quisessem deter, servir-se-ia
da faca.

Se o conduzissem ao cemitrio e o depositassem numa cova,
deixar-se-ia cobrir de terra. Depois, como era de noite, assim
que os coveiros virassem costas abriria uma passagem atravs
da terra mole e fugiria (esperava que o peso no fosse
exagerado, para poder levant-lo...).

Se se enganasse, se pelo contrrio a terra fosse
excessivamente pesada, morreria asfixiado e pronto,
acabar-se-ia tudo.

Dants no comia desde a vspera, mas assim como no se
lembrara da fome de manh, tambm agora no pensava nela. A
sua posio era to precria que no lhe deixava tempo de
fixar o pensamento em nenhuma outra ideia.

O primeiro risco que Dants corria era que o carcereiro,
quando lhe fosse levar a refeio das sete horas, descobrisse
a substituio operada. Felizmente, quer por misantropia, quer
por cansao, Dants recebera muitas vezes o carcereiro
deitado, e quando assim acontecia, habitualmente o homem
depositava o po e a sopa em cima da mesa e retirava-se sem
lhe falar.

Mas desta vez o carcereiro poderia renunciar aos seus hbitos
de mutismo,  falar a Dants e, vendo que este lhe no
respondia, aproximar-se da cama e descobrir tudo.

Quando as sete horas da noite se aproximaram, as angstias de
Dants comearam realmente. Com uma das mos apoiada no
corao procurava conter-lhe as pulsaes, enquanto com a
outra enxugava o suor da testa, que lhe escorria ao longo das
tmporas. De vez em quando, sentia arrepios percorrerem-lhe
todo o corpo e apertarem-lhe o corao como num torno gelado.
Julgava ento que ia morrer. Mas as horas passaram sem trazer
qualquer movimento ao castelo e Dants deduziu que escapara ao
primeiro perigo. Era um bom augrio. Finalmente, por volta da
hora fixada pelo governador ouviram-se passos na escada e
Edmond compreendeu que chegara o momento. Apelou para toda a
sua coragem e conteve a respirao. Seria ptimo se
conseguisse reter ao mesmo tempo as pulsaes precipitadas das
suas artrias.

Pararam  porta. Os passos eram de duas pessoas. Dants
adivinhou que eram os dois coveiros que o vinham buscar, e a
deduo converteu-se em certeza quando ouviu o barulho que
fazia a pousar a padiola.

A porta abriu-se e uma luz velada chegou aos olhos de Dants.
Atravs da tela que o cobria viu duas sombras aproximarem-se
da cama. Havia uma terceira  porta, de lanterna na mo. Cada
um dos dois homens que se tinham aproximado da cama agarrou o
saco por uma extremidade.

- Isto  que ele  ainda pesado para um velhote to magro! -
observou um deles, levantando-o pela cabea.

- Dizem que cada ano acrescenta meia libra ao peso dos ossos -
comentou o outro, agarrando-o pelos ps.

- J deste o n? - perguntou o primeiro.

- Muito estpido seria eu se nos carregasse com um peso intil
- respondeu o segundo. - D-lo-ei l em baixo.

- Tens razo. Vamos l ento.

"A que n se referiria ele?", perguntou-se Dants.

Transportaram o pretenso morto da cama para a padiola. Edmond
retesava-se para desempenhar melhor o seu papel de defunto.
Pousaram-no na padiola, e o cortejo, iluminado pelo homem da
lanterna, que ia  frente, subiu a escada.

De sbito, o ar fresco e cortante da noite inundou-o. Dants
reconheceu o mistral. Foi uma sensao cheia ao mesmo tempo de
delcias e angstias.

Os carregadores deram uma vintena de passos e por fim pararam
e depositaram a padiola no cho.

Um deles afastou-se e Dants ouviu-lhe os sapatos ecoarem nas
lajes.

"Onde estarei?", interrogou-se.

- Sabes que no  nada leve? - declarou o que ficara ao p de
Dants, sentando-se na beira da padiola.

O primeiro impulso de Dants tora fugir; felizmente,
contivera-se.

- Alumia-me, animal - ordenou o carregador que se afastara --,
ou nunca mais encontro o que procuro.

O homem da lanterna obedeceu  ordem, embora, como vimos,
tivesse sido feita em termos pouco convenientes.

"Que procurar ele?", perguntou-se Dants. "Uma enxada,
decerto."

Uma exclamao de satisfao indicou que o coveiro encontrara
o que procurava.

- At que enfim - observou o outro. - Levou tempo.

- Pois levou - respondeu o primeiro --, mas no perdeu demora.

Aps estas palavras, aproximou-se de Edmond, que ouviu pousar
perto de si um corpo pesado e ressoante. Ao mesmo tempo, uma
corda rodeou-lhe os ps com viva e dolorosa presso.

- Ento, o n est dado? - perguntou o coveiro que permanecera
inactivo.

-- E bem dado -- respondeu o outro. -- Respondo por ele.


- Nesse caso, a caminho.

E a padiola foi levantada e retomou o seu caminho.

Ao cabo de cinquenta passos, pouco mais ou menos, pararam para
abrir uma porta e em seguida recomearam a andar. O rudo das
vagas quebrando-se contra os rochedos em que se erguia o
Castelo chegava mais distintamente aos ouvidos de Dants 
medida que avanavam.

- Est mau tempo! - observou um dos carregadores. - No deve
ser agradvel estar no mar esta noite.

- Pois no, e o abade corre grande risco de se molhar! -
redarguiu o outro, e ambos desataram a rir.

Dants no compreendeu muito bem o gracejo, mas nem por isso
os cabelos se lhe eriaram menos na cabea.

- Pronto, c estamos! - disse o primeiro.

- Mais longe, mais longe - contraps o outro. - Bem sabes que
o ltimo ficou pelo caminho, esmagado nos rochedos, e que o
governador nos disse no dia seguinte que ramos uns madraos.

Deram ainda quatro ou cinco passos mais, sempre subindo, e
depois Dants sentiu que o agarravam pela cabea e pelos ps e
o balouavam.

- Uma - disseram os coveiros.

- Duas...

- Trs!

Ao mesmo tempo, Dants sentiu-se efectivamente lanado num
vcuo enorme, atravessar os ares como uma ave ferida e cair
sempre com um terror que lhe gelava o corao. Apesar de
puxado por baixo por qualquer coisa pesada que lhe precipitava
a rapidez do voo, pareceu-lhe que a queda durava um sculo.
Por fim, com um barulho medonho, entrou como uma seta numa
gua gelada que o fez soltar um grito, abafado imediatamente
pela imerso.

Dants fora lanado ao mar, para o fundo do qual o arrastava
um pelouro de trinta e seis preso aos ps.

O mar era o cemitrio do Castelo de If.


Captulo XXI

A Ilha de Tiboulen


Apesar de aturdido e quase asfixiado, Dants teve no entanto a
presena de esprito de conter a respirao, e como segurava
na mo direita, visto como j dissemos estar preparado para
todas as eventualidades, a faca que herdara de Faria,
esventrou rapidamente o saco e tirou um brao e depois a
cabea. No entanto, apesar dos seus movimentos para levantar o
pelouro, continuou a sentir-se arrastado. Ento, curvou-se,
procurou a corda que lhe amarrava as pernas e, num esforo
supremo, cortou-a precisamente no momento em que sufocava. Em
seguida, com um vigoroso golpe de ps, subiu livre 
superfcie do mar, enquanto o pelouro arrastava para
profundezas desconhecidas o tecido grosseiro que por pouco se
no transformara na sua mortalha.

Dants demorou-se  superfcie apenas o tempo indispensvel
para respirar antes de mergulhar segunda vez. Porque a
primeira precauo que devia tomar era evitar que o vissem.

Quando reapareceu pela segunda vez encontrava-se j a
cinquenta passos, pelo menos do local da queda. Viu por cima
da cabea um cu negro e tempestuoso,  superfcie do qual o
vento varria algumas nuvens rpidas. Por vezes descobria uma
pontinha de azul realada por uma estrela. Diante de si
estendia-se a superfcie sombria e murmurante, cujas vagas
comeavam a aumentar como  aproximao de uma tempestade, ao
passo que atrs de si, mais negro do que o mar, mais negro do
que o cu, se erguia como um fantasma ameaador o gigante de
granito, cuja extremidade sombria parecia um brao estendido
para voltar a agarrar a sua presa. Na rocha mais alta estava
uma lanterna que iluminava duas sombras.

Pareceu-lhe que essas duas sombras se inclinavam para o mar
com inquietao. De facto, aqueles estranhos fogueiros deviam
ter ouvido o grito que soltara ao atravessar o espao. Dants
voltou portanto a mergulhar e fez um trajecto bastante longo
entre duas guas. Esta manobra era-lhe outrora familiar e
atraia habitualmente  sua volta, na enseada do Pharo,
numerosos admiradores, os quais o tinham proclamado muitas
vezes o mais hbil nadador de Marselha,

Quando tornou  superfcie do mar, a lanterna desaparecera.

Precisava de se orientar. De todas as ilhas que rodeavam o
Castelo de If, Ratonneau e Pommgue eram as mais prximas. Mas
Ratonneau e Pommgue eram habitadas e o mesmo acontecia com a
ilhazinha de Daume. As ilhas mais seguras eram portanto as de
Tibouien e Lemaire, mas as ilhas de Tibouien e Lemaire ficavam
a uma lgua do Castelo de If.

Dants nem por isso desistiu de alcanar uma dessas ilhas. Mas
como encontr-las no meio da noite que se adensava a cada
instante  sua volta?

Nesse momento, viu brilhar como uma estrela o farol de
Planier.

Dirigindo-se em linha recta para o farol, deixaria a ilha de
Tibouien um pouco  esquerda; derivando portanto um bocadinho
para a esquerda, deveria encontrar essa ilha no seu caminho.


Mas, como j dissemos, ia pelo menos uma lgua do Castelo de
If a Tibouien.

Muitas vezes, na priso, Faria repetia ao rapaz, ao v-lo
abatido e preguioso: "Dants, no se entregue a esse
amolecimento. Afogar-se- se tentar fugir e no tiver os
msculos bem treinados."

Atravs das ondas pesadas e salgadas estas palavras vieram
soar aos ouvidos de Dants. Apressara-se ento a vir 
superfcie e a fender as vagas para ver se efectivamente no
perdera as foras. Verificou com alegria que a sua inaco
forada lhe no roubara nada da sua pujana e da sua agilidade
e sentiu que continuava a dominar o elemento onde toda a
infncia brincara.

De resto o medo, esse rpido perseguidor, duplicava o vigor de
Dants. Inclinado sobre a crista das ondas, escutava se algum
rumor lhe chegava aos ouvidos. Todas as vezes que se erguia na
extremidade de uma vaga, o seu olhar rpido abarcava o
horizonte visvel e procurava penetrar na espessa escurido.
Cada onda um pouco mais alta do que as outras parecia-lhe um
barco em sua perseguio, e ento redobrava de esforos, que o
afastavam sem dvida, mas cuja repetio rapidamente lhe
esgotaria as foras.

Continuava porm a nadar, embora o castelo terrvel estivesse
j um pouco diludo no vapor nocturno. Porque apesar de o no
distinguir, no deixava de o sentir constantemente.

Passou-se uma hora durante a qual Dants, exaltado pelo
sentimento da liberdade que invadira toda a sua pessoa,
continuou a fender as vagas na direco que se marcara.

"Vejamos", dizia para consigo, "h perto de uma hora que nado,
mas como o vento me  contrrio devo ter perdido um quarto da
minha rapidez. No entanto, a menos que me tenha enganado no
rumo, j no devo estar longe de Tibouien... Mas se me
enganei?"

Um arrepio percorreu todo o corpo do nadador. Tentou deitar-se
de prancha para descansar; mas o mar era cada vez mais forte e
no tardou a compreender que esse meio de recuperar foras,
com o qual contara, era impossvel.

"Pronto, seja!", pensou. "Irei at ao fim, at os meus braos
se cansarem, at s cibras me invadirem o corpo, e depois
deixar-me-ei ir ao fundo!"

E desatou a nadar com a energia e a velocidade do desespero.

De sbito, pareceu-lhe que o cu, j de si to escuro, se
tornava ainda mais negro, que uma nuvem espessa, pesada,
compacta, descia na sua direco. Ao mesmo tempo sentiu uma
dor violenta num joelho. A imaginao, com a sua incalculvel
velocidade, disse-lhe ento que se tratava do choque de uma
bala e que ia ouvir imediatamente a exploso do tiro de
espingarda. Mas a exploso no soou. Dants estendeu a mo e
sentiu uma resistncia, encolheu a outra perna e tocou em
terra. Descobriu ento qual era o objecto que tomara por uma
nuvem.

A vinte passos de si erguia-se uma massa de rochedos
estranhos, que se tomaria por uma lareira imensa petrificada
no momento da sua mais ardente combusto: era a ilha de
Tibouien.

Dants levantou-se, deu alguns passos em frente e deitou-se,
agradecendo a Deus, naquelas pontas de granito que lhe
pareceram naquela altura mais macias do que jamais lhe
parecera o leito mais macio.

Depois, apesar do vento, apesar da tempestade, apesar da chuva
que principiava a cair, quebrado de fadiga como estava,
adormeceu, mergulhou nesse sono delicioso do homem que tem o
corpo entorpecido, mas cuja alma vela com a conscincia de uma
felicidade inesperada.

Uma hora depois, Dants acordou ao som de um enorme trovo. A
tempestade desencadeara-se no espao e fustigava o ar com o
seu chicote deslumbrante. De vez em quando, um relmpago
descia do cu como uma serpente de fogo e iluminava as vagas e
as nuvens que rolavam ao encontro umas das outras como as
vagas de um imenso caos.

Com o seu olho de marinheiro, Dants no se enganara: abordara
a primeira das duas ilhas, que era efectivamente a de
Tibouien. Sabia-a escalvada, deserta e sem possibilidade de
oferecer o mais pequeno asilo; mas quando a tempestade se
acalmasse voltaria a fazer-se ao mar e alcanaria a nado a
ilha Lemaire, tambm rida, mas mais ampla, e consequentemente
mais hospitaleira.

Uma rocha inclinada ofereceu-lhe abrigo momentneo. Dants
refugiou-se debaixo dela e quase imediatamente a tempestade
rebentou em todo o seu furor.

Edmond sentia tremer a rocha sob a qual se abrigava. As vagas
quebravam-se contra a base da gigantesca pirmide e
ricocheteavam at ele. Por mais em segurana que estivesse,
encontrava-se no centro daquele rudo profundo, no meio
daqueles deslumbramentos fulgurantes, dominado por uma espcie
de vertigem. Afigurava-se-lhe que a ilha tremia debaixo dele e
que de um momento para o outro, como um navio ancorado,
quebraria as amarras e seria arrastada para o meio do imenso
turbilho.

Lembrou-se ento que no comia havia vinte e quatro horas:
tinha fome e sede.

Dants estendeu as mos e a cabea e bebeu a gua da
tempestade na cavidade de uma rocha.

Quando ia a levantar-se, um relmpago que pareceu fender o cu
at junto do trono deslumbrante de Deus iluminou o espao. A
luz desse relmpago, entre a ilha Lemaire e o cabo Croisille,
a um quarto de lgua de distncia, Dants viu aparecer, como
um espectro deslizando do alto de uma vaga para o abismo, um
barquito de pesca arrastado simultaneamente pela tempestade e
pelas ondas. Um segundo mais tarde, na crista doutra vaga, o
fantasma reapareceu e aproximou-se com assustadora rapidez.
Dants; quis gritar, procurou qualquer trapo que pudesse
agitar no ar para lhes fazer ver que se iam despedaar, mas
eles prprios viam-no perfeitamente.  luz doutro relmpago o
rapaz viu quatro homens agarrados aos mastros e aos estais; um
quinto mantinha-se agarrado  barra do leme quebrado. Aqueles
homens que via e que o viam, sem dvida, soltavam gritos
desesperados, trazidos pelo vento sibilante, que lhe ferira o
ouvido. No cimo do mastro, torcido como uma cana, batia no ar,
em pancadas precipitadas, uma vela em farrapos. De sbito, as
cordas que ainda a prendiam quebraram-se e ela desapareceu,
arrebatada para as sombrias profundezas do cu, semelhante a
essas grandes aves brancas que se desenham sobre nuvens
negras.

Ao mesmo tempo, ouviu-se um estalido medonho e gritos de
agonia chegaram at Dants. Agarrado como uma esfinge ao seu
rochedo, donde mergulhava no abismo, um novo relmpago
mostrou-se o barquito quebrado e no meio dos destroos cabeas
de rostos desesperados e braos estendidos para o cu.

Depois, tudo desapareceu na noite; o terrvel espectculo
tivera a durao de um relmpago.

Dants precipitou-se pelo declive deslizante dos rochedos, com
risco de cair ele prprio ao mar Olhou e escutou, mas no
ouviu nem viu mais nada; tinham-se acabado os gritos e os
esforos humanos. S a tempestade, essa grande obra de Deus,
continuava a rugir com os ventos e a espumar com as vagas.

Pouco a pouco o vento amainou e o cu cobriu-se para ocidente
de grossas nuvens cinzentas e por assim dizer desbotadas pela
tempestade. O azul reapareceu com as estrelas mais cintilantes
do que nunca. Em breve, para as bandas do leste, uma comprida
faixa avermelhada desenhou no horizonte ondulaes de um
azul-escuro. As vagas saltaram, uma claridade sbita
percorreu-lhes as cristas e transformou as suas franjas
espumosas em crinas de ouro.

Nascia o dia.

Dants ficou imvel e mudo diante do grandioso espectculo,
como se o visse pela primeira vez. De facto esquecera-o desde
que entrara no Castelo de If. Virou-se para a fortaleza e
interrogou simultaneamente com um longo olhar circular a terra
e o mar.

O sombrio edifcio saia do seio das vagas com a majestade
imponente das coisas horrveis, que parecem ao mesmo tempo
vigiar e comandar.

Deviam ser cinco horas da manh. O mar continuava a
acalmar-se.

"Dentro de duas ou trs horas", pensou Edmond, "o carcereiro
entrar na minha cela, encontrar o cadver do meu pobre
amigo, reconhec-lo-, procurar-me- em vo e dar o alarme.
Ento, descobriro o buraco, a galeria. Interrogaro os homens
que me lanaram ao mar e que devem ter ouvido o grito que
soltei. Acto contnuo, barcos cheios de soldados armados
correro atrs do pobre fugitivo, que se sabe perfeitamente
no estar longe. O canho avisar toda a costa de que ningum
deve dar asilo a um homem que seja encontrado a vaguear, nu e
faminto. Os espies e os alguazis de Marselha sero prevenidos
e batero a costa enquanto o governador do Castelo de If
mandar bater o mar. Ento, perseguido no mar e cercado por
terra, que farei? Tenho fome, tenho frio, perdi at a faca
salvadora, que abandonei porque me incomodava para nadar.
Estou  merc do primeiro campons que queira ganhar vinte
francos entregando-me. J no tenho foras, nem ideias, nem
resoluo.  meu Deus, meu Deus, vede se j sofri o bastante
e se podeis fazer por mim mais do que eu posso fazer por mim
prprio!"

No momento em que Edmond, numa espcie de delrio ocasionado
pelo esgotamento das suas energias e pelo vazio do seu
crebro, proferia, ansiosamente virado para o Castelo de If,
esta prece ardente, viu aparecer na extremidade da ilha de
Pommgue, com a sua vela latina desenhada no horizonte e
semelhante a uma gaivota que voa rasando a gua, um naviozinho
que o olhar de um marinheiro s podia reconhecer como uma
tartana genovesa na linha ainda pouco clara do mar. A
embarcao vinha do porto de Marselha
e dirigia-se para o largo impelindo a espuma cintilante diante
da proa aguda que abria caminho mais fcil aos seus flancos
arredondados.

- Oh! - exclamou Edmond. - E dizer que dentro de meia hora
alcanaria aquele navio se no receasse ser interrogado,
reconhecido como fugitivo e reconduzido a Marselha! Que fazer?
Que dizer? Que histria inventar que os possa iludir? Estes
homens so todos contrabandistas, meio piratas. A pretexto de
fazerem cabotagem, saqueiam a costa. Prefeririam vender-me a
praticar uma boa aco estril.

"Esperemos.

"Mas esperar  impossvel! Morro de fome; dentro de poucas
horas as fracas energias que me restam tero desaparecido.
De resto, a hora da visita aproxima-se. O alarme ainda no foi
dado talvez por no desconfiarem de nada. Posso fazer-me
passar por um dos tripulantes do barquito que naufragou esta
noite. A histria no deixar de ter a sua verosimilhana.
Ningum vir contradizer-me, pois afogaram-se todos. Vamos.

Depois destas palavras, Dants olhou para o local onde o
barquito naufragara e estremeceu. O barrete frgio de um dos
nufragos ficara preso na aresta de um rochedo e pertssimo
dali flutuavam alguns destroos da quilha, traves inertes que
o mar impelia contra a base da ilha, onde batiam como
impotentes aretes.

Dants decidiu-se num instante. Deitou-se ao mar, nadou para o
barrete, p-lo na cabea, agarrou numa das traves e nadou de
forma a cortar a linha de rumo que devia seguir o navio.

- Agora, estou salvo - murmurou.

E esta convico deu-lhe foras.

No tardou a ver a tartana que, com o vento quase de proa,
bolinava entre o Castelo de If e a torre de Planier. Por
instantes, Dants receou que, em vez de passar perto da costa,
o naviozinho ganhasse ao largo, como faria se, por exemplo, o
seu destino fosse a Crsega ou a Sardenha. Mas da forma que
manobrava o nadador no tardou a descobrir que desejava
passar, como era hbito dos navios que demandavam a Itlia,
entre a ilha de Jaros e a ilha de Calaseraigne.

Entretanto, o navio e o nadador aproximavam-se insensivelmente
um do outro. Numa das suas bordadas, a embarcao aproximou-se
mesmo cerca de um quarto de lgua de Dants. Este ergueu-se
ento na gua e agitou o barrete em sinal de quem pede
socorro. Mas ningum o viu do navio, que virou de bordo e
recomeou a bolinar. Dants pensou em chamar, mas calculou a
olho a distncia e compreendeu que a sua voz no chegaria ao
navio: primeiro seria levada e abafada pela brisa do mar e
pelo rudo das ondas.

Foi ento que se felicitou pela precauo que tomara de se
estender numa trave. Enfraquecido como estava, talvez no
conseguisse aguentar-se  tona de gua at alcanar a tartana.
E, com toda a certeza, se a tartana, o que era possvel,
passasse sem o ver, no teria foras para regressar  costa.

Embora estivesse mais ou menos certo da rota que seguia o
navio, Dants acompanhou-o com a vista com certa ansiedade at
ao momento em que o viu mudar, de rumo e dirigir-se ao seu
encontro.

Ento, lanou-se tambm ao encontro do navio. Mas antes de se
alcanarem mutuamente, a embarcao comeou a virar de bordo.


Num esforo supremo, Dants ergueu-se imediatamente quase de
p na gua, agitou o barrete e soltou um desses gritos
arrepiantes como os dos marinheiros em perigo e que parecem
lamentos de qualquer gnio do mar.

Desta vez viram-no e ouviram-no. A tartana interrompeu a sua
manobra e aproou para o seu lado. Ao mesmo tempo, Dants viu
que se preparavam para lanar uma chalupa ao mar.

Pouco depois a chalupa, tripulada por dois homens, dirigiu-se
ao seu encontro, batendo o mar com o seu remo duplo. Dants
deixou ento deslizar a trave, de que pensava j no
necessitar, e nadou vigorosamente para poupar metade do
caminho aos que vinham ao seu encontro.

O nadador contara porm com foras quase esgotadas. Foi ento
que teve conscincia de como lhe fora til o bocado de madeira
que flutuava j, inerte, a cem passos de si. Os braos
comeavam a ficar-lhe dormentes e as pernas tinham perdido a
fiexibilidade. Os seus movimentos eram rgidos e sacudidos e
tinha o peito arquejante.

Soltou um grande grito, os dois remadores redobraram de
energia e um deles gritou-lhe em italiano:

- Coragem!

A palavra chegou-lhe aos ouvidos no momento em que uma vaga
que j no tivera fora para transpor lhe passava por cima da
cabea e o cobria de espuma.

Reapareceu batendo o mar com os movimentos desencontrados e
desesperados de um homem prestes a afogar-se, soltou terceiro
grito e sentiu-se mergulhar no mar como se ainda tivesse
agarrado aos ps o pelouro mortal.

A gua passou-lhe por cima da cabea e atravs dela viu o cu
lvido com manchas negras.

Um esforo violento trouxe-o  superfcie. Pareceu-lhe ento
que o agarravam pelos cabelos. Depois, no viu nem ouviu mais
nada; desmaiara.

Quando reabriu os olhos, Dants encontrou-se na coberta da
tartana, que continuava a sua rota. O seu primeiro olhar foi
para verificar que direco seguia: continuava a afastar-se do
Castelo de If.

Dants estava to exausto que a exclamao de alegria que
soltou foi tomada por um gemido de dor.

Como dissemos, estava deitado na coberta e um marinheiro
esfregava-lhe os membros com um cobertor de l. Outro, que
reconheceu ser o que lhe gritara "Coragem!", introduzia-lhe o
gargalo de uma garrafa empalhada na boca. Um terceiro, velho
marinheiro que era ao mesmo tempo o piloto e o patro,
olhava-o com o sentimento de compaixo egosta que
experimentam em geral os homens acerca de um infortnio a que
escaparam na vspera e que os pode atingir no dia seguinte.

Algumas gotas do rum que continha a garrafa reanimaram o
corao desfalecido do jovem ao mesmo tempo que as frices
que o marinheiro, de joelhos diante dele, continuava a
prodigalizar-lhe com o cobertor de l lhe restituam a
elasticidade aos membros.

- Quem  voc? - perguntou-lhe em mau francs o patro.

- Sou um marinheiro malts - respondeu-lhe Dants em mau
italiano. -Vnhamos de Siracusa, carregados de vinho e
panolina. A borrasca desta  noite surpreendeu-nos no cabo
Morgiou e despedamo-nos contra aqueles rochedos que v ali
adiante.

- Donde veio?

- Desses rochedos, onde tive a sorte de me agarrar, enquanto o
nosso pobre comandante quebrava neles a cabea. Os nossos trs
outros companheiros afogaram-se. Creio que sou o nico
sobrevivente. Vi o seu navio e receando ter de esperar muito
tempo naquela ilha isolada e deserta arrisquei-me num destroo
do nosso navio a tentar chegar at aqui. Obrigado - continuou
Dants. - Salvaram-me a vida. Estava perdido quando um dos
seus marinheiros me agarrou pelos cabelos.

- Fui eu - disse um marinheiro de rosto franco e aberto,
emoldurado por longas suas pretas. - E foi mesmo a tempo,
pois voc j ia para o fundo.

-  verdade - reconheceu Dants, estendendo-lhe a mo. 
verdade, meu amigo, e agradeo-lhe pela segunda vez.

- Confesso que quase hesitei - declarou o marinheiro. - Com
essa barba de seis polegadas de comprimento e esses cabelos de
um p, tinha mais o ar de um bandido do que um homem honesto.

Dants recordou-se efectivamente de que desde que entrara no
Castelo de if nunca mais cortara o cabelo nem fizera a barba.

- Tem razo, mas trata-se de uma promessa que fiz a Nossa
Senhora del Pie de la Grotta, num momento de perigo, de passar
dez anos sem cortar o cabelo nem a barba. Hoje que expirava a
promessa  que estive quase a morrer afogado. Que rico
aniversrio!

- E agora, que vamos fazer de si? - perguntou o patro.

- Bom, o que quiser!- respondeu Dants. - O falucho em que
andava embarcado naufragou e o comandante morreu. Como v,
escapei  mesma sorte mas completamente nu. O que vale  que
sou bom marinheiro. Deixe-me no primeiro porto em que tocar e
c arranjarei maneira de embarcar num navio mercante.

- Conhece o Mediterrneo?

- Navego nele desde a infncia.

- E os bons ancoradouros?

- H poucos portos, mesmos os mais difceis, em que no possa
entrar e sair de olhos fechados.

- Nesse caso, patro, se o camarada diz a verdade, que o
impede de ficar connosco? - perguntou o marinheiro que gritara
"Coragem!" a Dants.

- Sim, se diz a verdade... - respondeu o patro, com ar de
dvida. - Mas no estado em que se encontra o pobre diabo toda
a gente promete muito na mira de obter o que puder.

- Darei mais do que prometo - redarguiu Dants.

- Oh, oh! - exclamou o patro, rindo. - Veremos isso.

-- Quando quiser - acrescentou Dants, levantando-se. - Para
onde vo?

- Para Liorne.

- Bom, nesse caso, em vez de andarem aos esses, o que lhes faz
perder um tempo precioso, por que no cerram simplesmente o
vento de bolina?

- Porque iramos cair direitinhos na ilha de Rion.

- Passariam, pelo contrrio, a mais de vinte braas...

- Sendo assim - disse o patro --, pegue no leme e mostre-nos
a sua cincia.

O jovem foi sentar-se ao leme e assegurou-se por meio de uma
leve presso que o navio era obediente. E vendo que sem ser de
primeira categoria no se recusava, comandou:

- Aos braos e s escotas!

Os quatro marinheiros que formavam a tripulao correram para
os seus postos, enquanto o patro os observava.

- Icem! - continuou Dants.

Os marinheiros obedeceram com bastante preciso.

- E agora, amarrem bem!

Esta ordem foi executada como as duas primeiras e o
naviozinho, em vez de continuar a bolinar, comeou a rumar
para a ilha de Rion, junto da qual passou, como predissera
Dants, deixando-a a estibordo, a uma vintena de braas.

- Bravo! - gritou o patro.

- Bravo! - repetiram os marinheiros.

E todos olharam com admirao para aquele homem cujo olhar
recuperara a inteligncia e o corpo um vigor que se estaria
longe de supor nele.

- Como v - disse Dants, largando o leme --, poderei ser-lhes
de alguma utilidade, pelo menos durante a viagem. Se no
quiserem mais nada comigo em Liorne, pois bem, deixar-me-o
l. Prometo com os meus primeiros meses de soldo reembols-los
da minha alimentao at l e das roupas que me cederem.

- Est bem, est bem - disse o patro. - Poderemos
entender-nos se for razovel.

- Um homem vale um homem - declarou Dants. - D-me o mesmo
que d aos camaradas e no se fala mais nisso.

- No  justo - objectou o marinheiro que tirara Dants do
mar. - Voc sabe mais do que ns.

- Por que diabo te metes nisto? Diz-te porventura respeito,
Jacopo? - ralhou o patro. - Cada um  livre de se contratar
pelo salrio que lhe convm.

-  justo - concordou Jacopo. - Foi uma simples observao da
minha parte.

- De acordo, mas farias muito melhor se emprestasses a este
valente rapaz, que est todo nu, umas calas e uma blusa, se
ainda tens algumas de reserva.

- No - respondeu Jacopo -- mas tenho uma camisa e umas
calas.

-  tudo de que preciso - declarou Dants. - Obrigado, amigo.

Jacopo deixou-se escorregar pela escotilha e voltou a subir
pouco depois com as duas peas de roupa, que Dants vestiu com
indizvel prazer.

- E agora, no precisa de mais nada? - perguntou o patro.

- Um naco de po e segunda golada desse excelente rum que j
provei. Porque h muito tempo que no como nada.

Com efeito, havia quarenta e oito horas, aproximadamente.
Trouxeram a Dants um naco de po e Jacopo estendeu-lhe a
garrafa empalhada.

- Leme a bombordo! - gritou o patro, virando-se para o
timoneiro.

Dants deitou uma olhadela para o mesmo lado, levando a
garrafa  boca, mas a garrafa ficou a meio caminho.

- Olhem! - exclamou o patro. - Que se passa no Castelo de If?

Com efeito, uma nuvenzinha branca - nuvem que j atrara a
ateno de Dants - acabava de aparecer coroando as ameias do
bastio sul do Castelo de If.

Um segundo mais tarde, o estampido de uma exploso longnqua
veio morrer a bordo da tartana.

Os marinheiros ergueram a cabea e entreolharam-se.

- Que significa aquilo? - perguntou o patro.

- Deve ter fugido algum prisioneiro esta noite - informou
Dants - por isso disparam o canho de alarme.

O patro deitou uma olhadela ao rapaz, que ao mesmo tempo que
dizia estas palavras levava a garrafa  boca. Viu-o, porm, a
saborear o licor que ela continha com tanta calma e satisfao
que, se teve qualquer suspeita, essa suspeita apenas lhe
atravessou o esprito e morreu imediatamente.

- Irra, este rum  tremendamente forte! - exclamou Dants,
enxugando com a manga da camisa a testa coberta de suor.

- Seja como for - murmurou o patro olhando-o --, se  ele,
tanto melhor, pois adquiri um excelente homem.

A pretexto de estar cansado, Dants pediu que o deixassem
sentar-se ao leme. O timoneiro, encantado por ser substitudo
nas suas funes, consultou o patro com a vista, o qual lhe
acenou com a cabea que podia entregar o leme ao novo
companheiro.

Assim colocado, Dants pde ficar de olhos lixos para o lado
de Marselha.

- A quantos do ms estamos hoje? - perguntou Dants a Jacopo,
que viera sentar-se junto dele, perdendo de vista o Castelo de
If.

- A 28 de Fevereiro - respondeu o interrogado.

- De que ano? - perguntou ainda Dants.

- Como, de que ano?! Pergunta de que ano?

- Pergunto - insistiu o rapaz. - Pergunto de que ano.

- Esqueceu-se do ano em que estamos?

- Que quer, apanhei tamanho susto esta noite que quase perdi a
cabea e fiquei com a memria toda baralhada! Por isso lhe
pergunto em 28 de Fevereiro de que ano estamos.

- Do ano de 1829 - respondeu Jacopo.

Havia catorze anos dia a dia, que Dants fora preso.
Entrara com dezanove anos no Castelo de If e sara com trinta
e trs.

Passou-lhe pelos lbios um sorriso doloroso. Perguntou a si
mesmo que teria sido feito de Mercds durante aquele tempo,
em que decerto o considerara morto.

Depois, brilhou-lhe nos olhos um relmpago de dio ao pensar
nos trs homens a quem devia to longo e cruel cativeiro.

E renovou contra Danglars, Fernand e Villefort o juramento de
implacvel vingana que j pronunciara na priso.

E esse juramento j no era uma ameaa v, pois naquele
momento o melhor veleiro do Mediterrneo no conseguiria pela
certa apanhar a pequena tartana que singrava a todo o pano
para Liorne.


Captulo XXII

Os contrabandistas


Ainda no passara um dia a bordo e j Dants descobrira com
quem estava metido. Sem ter frequentado a escola do abade
Faria, o digno patro da Jeune-Amlie, como se chamava a
tartana genovesa, sabia quase todas as lnguas faladas em
redor desse grande lago chamado Mediterrneo. Desde o rabe ao
provenal. Tal tacto proporcionava-lhe, por lhe permitir
dispensar os intrpretes, gente sempre maadora e por vezes
indiscreta, grandes facilidades de comunicao, quer com os
navios que encontrava no mar, quer com os barquitos com que
contactava ao longo da costa, quer enfim com a gente sem nome,
sem ptria e sem estado aparente, como existe sempre nas
vielas prximas dos portos de mar, e que vive desses recursos
misteriosos e ocultos que dir-se-ia receber em linha recta da
Providncia, visto a olho nu no ter nenhum meio de existncia
visvel. Como se adivinha, Dants encontrava-se a bordo de um
navio de contrabando.

Por isso o patro recebera Dants a bordo com certa
desconfiana. Era muito conhecido de todos os guardas fiscais
da costa e como havia entre ele e esses cavalheiros um jogo de
artimanhas mais hbeis umas do que outras, ao princpio
pensara que Dants fosse um emissrio dos "pica-chourios",
que empregassem aquele meio engenhoso para devassar alguns
segredos do ofcio. Mas a maneira brilhante como Dants se
sara da prova quando comandara a manobra convencera-o por
completo. Depois, quando vira aquele fumo ligeiro pairar como
um penacho por cima do bastio do Castelo de if e ouvira o
estampido distante da exploso, tivera por um momento a ideia
de que acabara de receber a bordo aquele a quem, como nas
entradas e sadas dos reis, se concedia as honras do canho.
Isso, diga-se desde j, preocupava-o menos do que se o
recm-chegado fosse um guarda-fiscal. Mas a segunda suposio
no tardara a desaparecer como a primeira, perante a perfeita
tranquilidade do novo tripulante.

Edmond teve portanto a vantagem de saber o que era o patro
sem que o patro soubesse o que ele era. Por qualquer lado que
o atacassem, quer o velho marinheiro, quer os seus camaradas,
aguentou-se e no fez qualquer confisso; limitou-se a dar
inmeros pormenores acerca de Npoles e de Malta, que conhecia
to bem como Marselha, e agora com uma firmeza que fazia honra
 sua memria e  sua primeira histria. Foi pois o genovs,
apesar de toda a sua subtileza, que se deixou enganar por
Edmond, a favor do qual se depunham a sua pacatez, a sua
experincia nutica e sobretudo a mais hbil dissimulao.

E depois talvez o genovs fosse com essas pessoas prudentes
que s sabem o que devem saber e s acreditam no que lhes
convm acreditar.

Foi pois nesta situao recproca que chegaram a Liorne.

Edmond faria l uma nova experincia: saber se se reconheceria
a si mesmo catorze anos depois de se no ver. Conservava ideia
bastante precisa de que fora na juventude e desejava ver no
que se transformara como homem. Aos olhos dos camaradas a sua
promessa estava cumprida. J estivera em Liorne umas vinte
vezes e conhecia um barbeiro na Rua de S. Fernando. Foi a que
entrou para mandar lazer a barba e cortar o cabelo.

O barbeiro olhou com espanto aquele homem de longa cabeleira
espessa e negra, que lembrava umas belas cabeas de Ticiano.
Naquela poca ainda no era moda usar-se a barba e o cabelo
to compridos; hoje um barbeiro apenas se admiraria se um
homem dotado de to notveis atributos fsicos consentisse em
privar-se deles.

O barbeiro lions deitou as mos  obra sem fazer observaes.

Quando a operao terminou, quando Edmond sentiu o queixo
inteiramente barbeado e o cabelo reduzido ao comprimento
normal, pediu um espelho e olhou-se.

Contava ento trinta e trs anos, como dissemos, e os catorze
anos de priso tinham por assim dizer ocasionado uma grande
transformao moral na sua fisionomia.

Dants entrara no Castelo de If com o rosto redondo, risonho e
despreocupado de um jovem feliz, a quem os primeiros passos na
vida t oram facilitados e que espera do futuro o que
naturalmente deduz do passado. Mas tudo isso mudara.

O seu rosto oval alongara-se, a sua boca risonha adquirira as
linhas firmes e decididas que indicam a resoluo, as suas
sobrancelhas tinham-se arqueado sob uma ruga nica, pensativa,
os seus olhos estavam impregnados de profunda tristeza, do
fundo da qual brotavam de vez em quando relmpagos sombrios,
misantropia e dio, e a sua tez, durante tanto tempo afastada
da luz do dia e dos raios do Sol, adquirira a cor mate
caracterstica, quando o rosto  emoldurado por cabelos
negros, da beleza aristocrtica dos homens do Norte. Alm
disso, a cincia profunda que adquirira espalhava-lhe por todo
o rosto uma aurola de inteligente segurana. Mais, embora
tosse naturalmente de estatura bastante alta, tambm adquirira
o vigor pesado de um corpo que concentra constantemente as
suas foras em si mesmo.

 elegncia das formas nervosas e franzinas sucedera a
solidez das formas arredondadas e musculosas. Quanto  voz, as
preces, os soluos e as imprecaes tinham-na modificado,
dando-lhe ora um timbre de uma doura estranha, ora uma
acentuao rude e quase rouca.

Por outro lado, por viver constantemente na meia-luz e na
escurido, os seus olhos tinham adquirido a singular faculdade
de distinguir os objectos durante a noite, como os da hiena e
os do lobo.

Edmond sorriu ao ver-se: era impossvel que o seu melhor
amigo, se ainda lhe restasse um amigo, o reconhecesse. Nem ele
se reconhecia a si prprio.

O patro da Jeune-Amlie, empenhadssimo em conservar
entre os seus um homem do valor de Edmond,
oferecera-lhe alguns adiantamentos sobre a sua parte nos
lucros futuros, e Edmond aceitara. O seu primeiro cuidado,
assim que saiu do barbeiro que acabava de proceder  sua
primeira metamorfose, foi pois entrar numa loja e comprar um
fato completo de marinheiro. Tal fato, como se sabe,  muito
simples: compe-se de calas brancas, camisa s riscas e
barrete frgio.

Foi assim vestido, depois de restituir a Jacopo a camisa e as
calas que lhe emprestara, que Edmond reapareceu diante do
patro da Jeune-Amlie, a quem foi obrigado a repetir a
sua histria. O patro no queria reconhecer  naquele
marinheiro taful e elegante o homem de barba espessa, cabelo
coberto de algas e corpo a escorrer gua do mar que recolhera
nu e moribundo na coberta do seu navio.

Entusiasmado com o seu bom aspecto, renovou a Dants as suas
propostas de contratao. Mas Dants, que tinha os seus
projectos, s as aceitou por trs meses.

A tripulao da Jeune-Amlie era muito activa e estava
submetida s ordens de um patro que adquirira o hbito de no
perder tempo. Por isso, decorridos apenas oito dias desde a
sua chegada a Liorne, os flancos arredondados do navio
encontravam-se cheios de musselinas estampadas, algodes
proibidos, plvora inglesa e tabaco que a rgie do Estado se
"esquecera" de selar. Tratava-se de fazer sair tudo isso de
Liorne, porto franco, e de o desembarcar nas costas da
Crsega, donde certos especuladores se encarregariam de fazer
passar o carregamento para Frana.

Partiram. Edmond cruzou de novo aquele mar azulino, primeiro
horizonte da sua juventude, que tantas vezes revira em sonhos
na priso. Deixaram  direita a Grgona e  esquerda Pianosa e
rumaram para a ptria de Paoli e Napoleo.

No dia seguinte, ao subir  coberta, o que fazia sempre muito
cedo, o patro encontrou Dants encostado  amurada do navio e
a olhar com expresso estranha um amontoado de rochedos
granticos que o sol nascente inundava de uma luz rosada: era
a ilha de Monte-cristo.

A Jeune-Amlie deixou-a a trs quartos de lgua,
aproximadamente, a estibordo e continuou a navegar para a
Crsega.

Dants pensava, enquanto passava ao largo daquela ilha de nome
to ressoante para ele, que lhe bastaria lanar-se ao mar para
dentro de meia hora se encontrar naquela terra prometida. Mas
que faria l, sem instrumentos para descobrir o seu tesouro
nem armas para o defender? Alm disso, que diriam os
marinheiros? Que pensaria o patro? Era necessrio esperar.

Felizmente, Dants sabia esperar. Esperara catorze anos pela
liberdade: podia muito bem, agora que estava livre, esperar
seis meses ou um ano pela riqueza.

No teria aceitado a liberdade sem a riqueza, se lha tivessem
oferecido?

Alis, no era essa riqueza uma quimera? Nascida no crebro
enfermo do pobre abade Faria, no teria morrido com ele?

De facto a carta do cardeal Spada era singularmente precisa...

E Dants repetia de ponta a ponta, na memria, essa carta, de
que no esquecera uma palavra.

Anoiteceu. Edmond viu a ilha passar por todas as cores que o
crepsculo traz consigo e desaparecer para toda a gente nas
trevas. Mas ele, com o seu olhar habituado  obscuridade da
priso, continuou sem dvida a v-la, pois foi o ltimo a
deixar a coberta.

No dia seguinte acordaram  vista de Aleria. Mantiveram o
mesmo rumo durante todo o dia e  noite acenderam-se fogueiras
na costa. Pela disposio dessas fogueiras reconheceu-se,
decerto, que se podia desembarcar, porque em vez do pavilho
subiu na carangueja uma lanterna e o navio aproximou-se da
costa at ficar ao alcance de um tiro de espingarda.

Dants notara que, sem dvida devido  solenidade daquelas
ocasies, o patro da Jeune-Amlie montara no seu reparo,
ao aproximar-se de terra, duas pequenas colubrinas idnticas a
espingardas de fortaleza, que, sem fazerem grande barulho,
podiam atirar uma boa bala de quarto de libra a mil passos de
distncia.

Mas naquela noite a precauo foi suprflua; tudo se passou
com a maior calma e correco do mundo. Quatro chalupas
aproximaram-se quase sem rudo do navio, que sem dvida para
as honrar deitou a sua prpria chalupa ao mar. O caso  que as
cinco chalupas trabalharam to bem que s duas horas da
madrugada todo o carregamento passara de bordo da
Jeune-Amlie para terra firme.

Nessa mesma noite, de tal modo o patro da Jeune-Amlie
era homem de ordem, procedeu-se  distribuio do bolo: cada
homem recebeu cem libras toscanas de quinho, isto , cerca de
oitenta trancos na nossa moeda.

Mas a expedio ainda no terminara. Aproaram  Sardenha.
Tratava-se de ir recarregar o navio que acabava de se
descarregar.

A segunda operao decorreu com tanto xito como a primeira; a
Jeune-Amlie estava em mar de sorte.

O novo carregamento destinava-se ao ducado de Luca e
compunha-se quase inteiramente de charutos de Havana e vinho
de Xerez e de Mlaga.

Mas a surgiram complicaes com os "pica-chourios", os
eternos inimigos do patro da Jeune-Amlie. Um guarda caiu
morto e dois marinheiros ficaram feridos. Dants foi um desses
marinheiros; uma bala atravessou-lhe a carne do ombro
esquerdo.

Dants ficara quase feliz com a escaramua e quase contente
com a ferida. Ambas lhe tinham ensinado, essas severas
professoras, com que olhos devia encarar o perigo e com que
nimo suportar o sofrimento. Enfrentara o perigo rindo e ao
ser ferido dissera como o filsofo grego: "Dor, no s um
mal."

Alm disso, examinara o guarda ferido de morte e, quer pelo
calor do sangue na aco, quer por arrefecimento dos
sentimentos humanos, a vista do corpo causara-lhe apenas uma
ligeira impresso. Dants encontrava-se no caminho que queria
percorrer e dirigia-se para o objectivo que pretendia atingir:
o corao estava em vias de se lhe petrificar no peito.

Ao v-lo cair, Jacopo julgara-o morto e precipitara-se para
ele, levantara-o, e por fim, uma vez levantado, tratara-o como
um excelente camarada.

O mundo no era portanto to bom como o via o Dr. Pangloss,
mas tambm no era to mau como o via Dants, uma vez que
aquele homem que nada tinha a esperar do companheiro, excepto
herdar a sua parte no bolo, experimentava to viva aflio ao
julg-lo morto.

Felizmente, como dissemos, Edmond encontrava-se apenas ferido.
Graas a certas ervas colhidas em determinadas pocas e
vendidas aos contrabandistas por velhas sardas, o ferimento
no tardou a fechar. Edmond quis ento tentar Jacopo:
ofereceu-lhe em troca dos seus cuidados a sua parte nos
ganhos, mas Jacopo recusou com indignao.

Era devido  espcie de dedicao simptica que Jacopo
dedicara a Edmond desde o primeiro momento em que o vira que
Edmond concedia a Jacopo uma certa afeio. Mas Jacopo no
pedia mais. Adivinhara instintivamente em Edmond a suprema
superioridade da sua posio, superioridade  que Edmond
conseguira esconder dos outros. E com o pouco que Edmond lhe
concedia o bravo marinheiro j ficava satisfeito.

Por isso, durante os longos dias passados a bordo, quando o
navio, correndo com segurana pelo mar azul no necessitava,
graas ao vento de feio que lhe enfunava as velas, mais do
que da ateno do timoneiro, Edmond pegava num mapa martimo e
armava em professor de Jacopo, tal como o abade Faria se
armara em professor com ele. Mostrava-lhe o recorte da costa,
explicava-lhe as variaes da bssola e ensinava-o a ler no
grande livro aberto por cima das nossas cabeas, a que
chamamos cu e onde Deus escreveu no azul com letras de
diamante.

E quando Jacopo lhe perguntava:

- Que adianta ensinar todas essas coisas a um pobre marinheiro
como eu?

Edmond respondia:

- Quem sabe? Talvez um dia sejas comandante de navio. O teu
compatriota Bonaparte conseguiu ser imperador!

Esquecemo-nos de dizer que Jacopo era corso.

Tinham passado j dois meses e meio nestas viagens sucessivas.
Edmond tornara-se to hbil cabotador como fora outrora ousado
marinheiro. Estabelecera relaes com todos os contrabandistas
da costa e aprendera todos os sinais manicos com os auxlio
dos quais os meio-piratas se reconhecem uns aos outros.

Passara e repassara vinte vezes diante da ilha de
Monte-cristo, mas em todas elas nem uma s vez encontrara
oportunidade de l desembarcar.

Tomara portanto uma resoluo: assim que o seu contrato com o
patro da Jeune-amlie caducasse, alugaria um barquito
(Dants podia faz-lo, pois durante as suas diversas viagens
amealhara uma centena de piastras) e, sob qualquer pretexto,
dirigir-se-ia para a ilha de Monte-Cristo.

Uma vez l, procederia com toda a liberdade s suas pesquisas.

No com inteira liberdade, pois seria, sem dvida nenhuma,
espiado por aqueles que o tivessem transportado.

Mas em tais momentos  sempre necessrio arriscar alguma
coisa.

A priso tornara Edmond prudente e gostaria muito de no
arriscar nada.

Mas por mais tratos que desse  imaginao e por mais fecunda
que esta fosse, no via outro meio de chegar  ilha to
cobiada seno fazendo-se l transportar.

Dants debatia-se nestas hesitaes quando o patro, que se
habituara a depositar uma grande confiana nele e que desejava
muito conserv-lo ao seu servio, lhe pegou uma noite pelo
brao e o levou a uma taberna da Via del Oglio em que
habitualmente se reunia a nata dos contrabandistas de Liorne.

Era ali que por via de regra se tratava dos negcios da costa.
Dants j entrara duas ou trs vezes naquela bolsa martima. E
ao ver aqueles ousados piratas que forneciam todo um litoral
num raio de cerca de duas mil lguas perguntara a si mesmo de
que poder no disporia um homem que conseguisse submeter  sua
vontade todos aqueles fios reunidos ou divergentes.

Desta vez tratava-se de um grande negcio, de um navio
carregado de tapetes turcos, tecidos do Levante e de Caxemira.
Era necessrio encontrar um terreno neutro onde a permuta se
pudesse fazer e depois tentar desembarcar esses objectos nas
costas da Frana.

O bolo cra enorme: cinquenta a sessenta piastras por homem se
o negcio fosse bem sucedido.

O patro da Jeune-Amlie props como local de desembarque
a ilha de Monte-cristo, a qual, sendo completamente deserta e
no tendo soldados nem guardas-fiscais, parecia ter sido
colocada no meio do mar, no tempo do Olimpo pago, por
Mercrio, o deus dos comerciantes e dos ladres, classes que
tornamos separadas, seno distintas, mas que a Antiguidade,
segundo parece, tinha na mesma categoria.

Ao ouvir falar em Monte-cristo, Dants estremecera de
alegria. Levantou-se para ocultar a sua emoo e deu uma volta
pela taberna enfumarada, onde todos os idiomas do mundo
conhecidos se fundiam na lngua tranca.

Quando se voltou a reunir aos dois interlocutores, estava
decidido que se arribaria a Monte-cristo e que a expedio se
iniciaria na noite seguinte.

Edmond, consultado, foi de opinio que a ilha oferecia todas
as vantagens possveis e de que as grandes empresas, para
triunfarem, deviam ser conduzidas depressa.

O programa estabelecido no sofreu qualquer alterao. Ficou
combinado que se aparelharia no dia seguinte  noite e que se
procuraria, visto o mar estar calmo e o vento ser favorvel,
chegar no outro dia  noite s guas da ilha neutra.


Captulo XXIII

A ilha De Monte-Cristo


Finalmente, por uma dessas sortes inesperadas que s vezes tm
aqueles sobre os quais o rigor do destino se encarniou
durante muito tempo, Dants ia alcanar o seu objectivo por um
meio simples e natural e pr o p na ilha sem inspirar a
ningum qualquer suspeita.

Apenas uma noite o separava dessa partida to esperada.

Essa noite foi uma das mais febris que passou Dants. Durante
ela, todas as possibilidades boas e ms lhe acudiram
alternadamente ao esprito. Se fechava os olhos, via a carta
do cardeal Spada escrita em caracteres chamejantes na parede;
se adormecia um instante, os sonhos mais insensatos vinham
fervilhar-lhe no crebro. Descia as grutas pavimentadas de
esmeraldas, de paredes de rubis e estalactites de diamantes.
As prolas caiam gota a gota, tal como habitualmente se filtra
a gua subterrnea.

Arrebatado, maravilhado, Edmond enchia as algibeiras de
pedrarias. Depois regressava  luz do dia e as pedrarias
transformavam-se em simples seixos. Ento, procurava tornar a
entrar nas grutas maravilhosas, apenas entrevistas. Mas o
caminho torcia-se em espirais infinitas e a entrada voltara a
ser invisvel. Procurava em vo na memria fatigada a palavra
mgica e misteriosa que abria ao pescador rabe as cavernas
esplndidas de Ali-Bab. Tudo era intil; o tesouro
desaparecido tornara-se novamente propriedade dos gnios da
terra, aos quais tivera por instantes a esperana de o
arrebatar.

O dia rompeu quase to febril como o fora a noite; mas trouxe
a lgica em auxlio da imaginao e Dants conseguiu fixar um
plano at ali vago e flutuante no seu crebro.

Veio a noite e com a noite os preparativos da partida. Esses
preparativos eram um meio de Dants ocultar a sua agitao.
Pouco a pouco adquirira sobre os companheiros autoridade de
comandar como se fosse senhor do navio; e como as suas ordens
eram sempre claras, precisas e fceis de executar, os
companheiros obedeciam-lhe no s com prontido, mas tambm
com prazer.

O velho marinheiro deixava-o agir. Tambm ele reconhecera a
superioridade de Dants sobre os seus, outros marinheiros e
sobre ele prprio. Via no rapaz o seu sucessor natural e
lamentava no ter uma filha para prender Edmond por meio dessa
aliana.

s sete horas da noite ficou tudo pronto; s sete e dez
dobrava-se o farol, precisamente no momento em que o farol se
acendia.

O mar estava calmo, com vento fresco soprando do sudeste.
Navegava-se sob cu azul, onde Deus acendia tambm
alternadamente os seus faris, cada um deles um mundo. Dants
declarou que toda a gente se podia deitar, pois ele
encarregava-se do leme.

Quando o malts (era assim que chamavam a Dants) fazia
semelhante declarao, isso bastava e todos se iam deitar
tranquilamente.

Isso acontecia algumas vezes: lanado do isolamento no mundo,
Dants experimentava de vez em quando imperiosas necessidades
de estar s. Ora, que isolamento haveria que fosse
simultaneamente maior e mais potico do que o de um navio que
flutua isolado no mar, durante a escurido da noite, no
silncio da imensidade e sob o olhar do Senhor?

Desta vez, porm, o isolamento foi povoado pelos seus
pensamentos, a noite iluminada pelas suas iluses e o silncio
animado pelas suas promessas.

Quando o patro acordou o navio navegava a todo o pano. No
havia um pedacinho de tela que no estivesse enfunado pelo
vento. Navegava-se a mais de duas lguas e meia por hora.

A ilha de Monte-cristo crescia no horizonte.

Edmond entregou o navio ao patro e foi deitar-se por sua vez
na sua rede. Mas, apesar de ter passado a noite em claro, no
conseguiu pregar olho um s instante.

Duas horas mais tarde voltou a subir  coberta. O navio
preparava-se para dobrar a ilha de Elba. Encontravam-se por
alturas da Mareciana e para l da ilha plana e verde da
Pianosa. Distinguia-se no azul do cu o cume chamejante de
Monte-cristo.

Dants ordenou ao timoneiro que virasse a bombordo, a fim de
deixar a Pianosa  direita. Calculara que tal manobra
encurtaria a viagem duas ou trs milhas.

Por volta das cinco horas da tarde a ilha encontrava-se
completamente  vista. Distinguiam-se os mais pequenos
pormenores graas  limpidez atmosfrica caracterstica da luz
emitida pelos raios do Sol no acaso.

Edmond devorava com os olhos aquela massa de rochedos que
passava por todas as cores crepusculares, do rosa-vivo ao
azul-escuro. De vez em quando  subiam-lhe  cara golfadas de
sangue, a testa purpureava-se-lhe e uma nuvem escarlate
passava-lhe diante dos olhos.

Nunca jogador que tivesse arriscado toda a sua fortuna num
lance de dados experimentara as angstias que Edmond sentia
nos seus paroxismos de esperana.

Anoiteceu. s dez horas ancorou-se. A Jeune-Amlie era a
primeira a comparecer ao encontro.

Apesar do domnio que tinha habitualmente sobre si mesmo,
Dants no se pde conter: foi o primeiro a saltar para terra
e se a tanto se atrevesse t-la-ia beijado como Bruto.

A noite estava escura; mas s onze horas a Lua ergueu-se do
mar e cobriu-lhe de prata cada frmito. Depois os seus raios,
 medida que se elevava, comearam a reflectir-se, em brancas
cascatas de luz, nos rochedos empilhados daquele outro Plion.

A ilha era familiar  tripulao da Jeune-Amlie, pois
constitua uma das suas habituais estaes. Quanto a Dants,
vira-a em todas as suas viagens no Levante, mas nunca l
desembarcara.

Interrogou Jacopo:

- Onde passamos a noite?

- Mas... a bordo da tartana - respondeu o marinheiro.

- No ficaramos melhor nas grutas?

- Em quais grutas?

- Nas grutas da ilha.

- No conheo tais grutas - respondeu Jacopo.

Um suor frio inundou a testa de Dants.

- No h grutas em Monte-cristo? - insistiu.

- No.

Dants ficou um instante aturdido. Depois pensou que as grutas
podiam ter sido entulhadas mais tarde, devido a qualquer
acidente, ou at fechadas, para maior precauo, pelo cardeal
Spada.

Nesse caso, tudo se resumia em encontrar essa abertura
perdida. Mas seria intil procur-la durante a noite. Dants
adiou portanto a investigao para o dia seguinte. De resto,
um sinal iado a cerca de meia lgua no mar, e ao qual a
Jeune-Amlie respondeu imediatamente com um sinal
idntico, indicou-lhe que chegara o momento de deitar mos ao
trabalho.

O navio retardatrio, tranquilizado com o sinal que devia
dar-lhe a conhecer que se podia aproximar com toda a
segurana, surgiu imediatamente, branco e silencioso como um
fantasma, e ancorou a uns duzentos metros da costa.

O transporte comeou logo a seguir.

Enquanto trabalhava, Dants pensava no hurra de alegria que
com uma s palavra poderia levar todos aqueles homens a soltar
se revelasse em voz alta o pensamento que incessantemente lhe
sussurrava baixinho ao ouvido e ao corao. Mas, ao contrrio
de revelar o magnifico segredo, temia j ter dito demasiado a
tal respeito e despertado suspeitas com as suas idas e vindas,
as suas perguntas repetidas, as suas observaes minuciosas e
a sua preocupao contnua. Felizmente, para esta
circunstancia pelo menos, que nele um passado deveras doloroso
lhe deixara reflectida no rosto uma tristeza  indelvel e
que os lampejos de alegria entrevistos atravs dessa nuvem no
passavam realmente de relmpagos.

Ningum desconfiava portanto de nada, pelo que no dia
seguinte, quando Dants pegou numa espingarda, em chumbo e em
plvora e manifestou o desejo de ir matar uma das numerosas
cabras-monteses que se viam saltar de rochedo em rochedo toda
a gente atribuiu a excurso apenas ao amor da caa ou ao
desejo de isolamento. S Jacopo o acompanhou. Dants no quis
opor-se  sua presena com receio de que a repugnncia cm ser
acompanhado inspirasse algumas desconfianas. Mas assim que
percorreu um quarto de lgua e teve oportunidade de atirar a
matar a um cabrito, mandou Jacopo lev-lo aos companheiros,
para que o cozinhassem e, quando estivesse pronto, lhe dessem
sinal para ir comer a sua parte disparando um tiro de
espingarda. Alguns frutos secos e uma garrafa de vinho de
Monte Pulciano completariam o banquete.

Dants continuou o seu caminho, virando-se de vez em quando.
Chegado ao topo de uma rocha viu mil ps abaixo de si os
companheiros, aos quais acabava de se juntar Jacopo, que se
ocupavam j activamente dos preparativos do almoo, aumentado,
graas  destreza de Edmond, com uma pea fundamental.

Edmond olhou-os um instante com o sorriso bondoso e triste do
homem superior.

"Dentro de duas horas", pensou, "voltaro a partir cinquenta
piastras mais ricos para irem, arriscando a vida, tentar
ganhar mais cinquenta. Depois regressaro seiscentas libras
mais ricos e delapidaro esse tesouro em qualquer cidade, com
o orgulho de sultes e a despreocupao de nababos. Hoje a
esperana leva-me a desprezar a sua riqueza, que me parece a
maior misria; amanh, talvez a decepo me obrigue a olhar
essa grande misria como a felicidade suprema... Mas, oh, no,
isso no acontecer! O sbio, o infalvel Faria, no se havia
de enganar logo nessa nica coisa. De resto, mais valeria
morrer do que continuar a levar esta vida miservel e
inferior."

Deste modo, Dants, que havia trs meses s aspirava 
liberdade, j se no contentava apenas com a liberdade,
aspirava tambm  riqueza. E a culpa no era dele, mas sim de
Deus, que limitando o poder do homem lhe provocou desejos
infinitos! Entretanto, por um caminho aberto entre duas
muralhas de rochas e seguindo um carreiro aberto pela torrente
e que, segundo todas as probabilidades, nunca fora pisado por
p humano, Dants aproximara-se do local onde supunha que as
grutas deviam ter existido. Seguindo junto  costa e
examinando os menores objectos com toda a ateno, julgou
notar em certos rochedos entalhes feitos pela mo do homem.

O tempo que lana sobre todas as coisas fsicas o seu manto de
musgo, tal como sobre as coisas morais o seu manto de
esquecimento, parecia ter respeitado aqueles sinais traados
com certa regularidade e provavelmente com o fim de indicar
uma pista. De tempos a tempos, porm, os sinais desapareciam
sob tufos de murta que desabrochava em grandes ramos
carregados de flores ou debaixo de quenes parasitas. Edmond
tinha ento de afastar os ramos ou de levantar o musgo para
reencontrar os sinais indicadores que o conduziam naquele
outro labirinto. Esses sinais tinham, de resto, dado boas
esperanas a Edmond. Porque no teria sido o cardeal quem os
traara para  que pudessem, no caso de uma catstrofe que
no pudera prever to completa, servir de guia ao sobrinho?
Aquele lugar solitrio era bem o que convinha a um homem que
desejasse esconder um tesouro. Simplesmente, no teriam
aqueles sinais infiis atrado outros olhos alm daqueles para
os quais tinham sido traados e teria a ilha de sombrias
maravilhas guardado fielmente o seu magnfico segredo?

Entretanto, a sessenta passos do porto, aproximadamente,
pareceu a Edmond, sempre oculto dos companheiros pelos
acidentes do terreno, que os entalhes terminavam.
Simplesmente, no conduziam a nenhuma gruta. Um grande rochedo
redondo assente numa base slida era a nica coisa a que
pareciam conduzir. Edmond pensou que em vez de ter chegado ao
fim talvez estivesse, pelo contrrio, apenas no princpio;
deu, pois, meia volta e regressou por onde viera.

Entretanto, os companheiros preparavam o almoo: iam buscar
gua  fonte, transportavam po e fruta para terra e
cozinhavam o cabrito. Precisamente no momento em que o tiravam
do seu espeto improvisado viram Edmond que, ligeiro e
audacioso como uma cabra-monts, saltava de rochedo em
rochedo, e dispararam um tiro de espingarda para o avisar. O
caador mudou imediatamente de direco e correu para eles.
Mas no momento em que todos o seguiam com a vista na espcie
de voo que executava, classificando de temeridade a sua,
habilidade, e como que para dar razo aos seus receios, o p
falhou a Edmond. Viram-no cambalear no cume de um rochedo,
soltar um grito e desaparecer.

Saltaram todos ao mesmo tempo, pois todos gostavam de Edmond
apesar da sua superioridade. No entanto, foi Jacopo quem
chegou primeiro.

Encontrou Edmond estendido, a sangrar e quase sem sentidos;
devia ter cado de doze ou quinze ps de altura.
Introduziram-lhe na boca algumas gotas de rum, e este remdio,
que j demonstrara tanta eficcia sobre ele, produziu o mesmo
efeito da primeira vez.

Edmond abriu os olhos e queixou-se de uma dor aguda no joelho,
de um grande peso na cabea e de picadas insuportveis nos
rins. Quiseram transport-lo para a beira-mar, mas quando lhe
tocaram, embora fosse Jacopo quem dirigia a operao, declarou
gemendo que no se sentia com foras para suportar o
transporte.

Todos compreenderam que era natural que Dants tivesse perdido
o apetite para o almoo, mas ele exigiu que os seus camaradas,
que no tinham as mesmas razes que ele para fazer dieta,
regressassem ao seu lugar. Quanto a ele, afirmou que precisava
apenas de um bocadinho de repouso e que quando regressassem o
encontrariam melhor.

Os marinheiros no se fizeram demasiado rogados. Tinham fome,
e o cheiro do cabrito chegava at eles e entre lobos-do-mar
no se fazem muitas cerimnias.

Uma hora depois voltaram. Mas tudo o que Edmond conseguira
fazer fora arrastar-se uma dezena de passos para se encostar a
uma rocha musgosa. No entanto, longe de diminurem, as dores
de Dants parece que tinham aumentado de violncia. O velho
patro, obrigado a partir de manh para ir descarregar nas
fronteiras do Piemonte e da Frana, entre Nice e Frjus,
insistiu  com Dants para que tentasse levantar-se. O rapaz
fez esforos sobre-humanos para lhe fazer a vontade, mas a
cada esforo tornava a cair, a gemer e plido.

-- Tem os rins partidos - disse baixinho o patro. - No
importa,  um bom companheiro e no devemos abandon-lo.
Vejamos se conseguimos transport-lo para a tartana.

Mas Dants declarou que preferia morrer onde estava do que
suportar as dores atrozes que lhe ocasionaria qualquer
movimento, por mais ligeiro que fosse.

- Bom - disse o patro - acontea o que acontecer, ningum
dir que deixmos sem socorro um bom companheiro. S
partiremos  tardinha.

Esta deciso surpreendeu muito os tripulantes, embora nenhum
deles a desaprovasse, antes pelo contrrio. O patro era um
homem muito rgido e viam-no pela primeira vez renunciar a uma
empresa ou pelo menos adiar a sua execuo.

Por isso Dants no permitiu que por sua causa se cometesse
to grave infraco s regras de disciplina estabelecida a
bordo.

- No - disse ao patro --, fui imprudente e  justo que sofra
as consequncias da minha imprudncia. Deixem-me uma pequena
proviso de bolachas, uma espingarda, plvora e balas para
matar os cabritos, ou mesmo para me defender, e um enxado
para construir, se demorarem muito tempo a vir-me buscar, uma
espcie de casa.

- Mas morrers de fome - objectou o patro.

- Prefiro assim - respondeu Edmond - a sofrer as dores
inauditas que um s movimento me ocasiona.

O patro virou-se para o lado do navio, que balouava, com um
princpio de aparelhagem, no portinho, pronto a fazer-se ao
mar logo que a sua toilette estivesse concluda.

- Que havemos de fazer, malts? - perguntou. - No te podemos
abandonar assim, mas tambm no podemos ficar...

- Partam, partam! - gritou Dants.

- Estaremos pelo menos oito dias ausentes - declarou o patro
- e alm disso teremos de nos desviar da nossa rota para te
vir buscar.

- Escute - disse Dants. - Se dentro de dois ou trs dias
encontrar algum barco de pesca ou outro que venha para estas
paragens, recomende-me. Pagarei vinte e cinco piastras pelo
meu regresso a Liorne. Se no encontrar nenhum barco, volte
por c.

O patro abanou a cabea.

- Oua, patro Baldi, h um meio de conciliar tudo - interveio
Jacopo. - Partam e deixem-me com o ferido que eu trato dele.

- E renunciars  tua parte na diviso para ficares comigo? -
perguntou Edmond.

- Renuncio e sem pesar - respondeu Jacopo.

- Bom, tu s um excelente rapaz, Jacopo - disse Edmond. - Deus
recompensar-te- a tua boa vontade; mas no preciso de
ningum, obrigado. Um dia ou dois de repouso pr-me-o bom e
espero encontrar nestes rochedos certas ervas muito boas
contra as contuses.

E um sorriso estranho passou pelos lbios de Dants.

Apertou a mo a Jacopo com efuso, mas manteve-se inabalvel
na resoluo de ficar e de ficar sozinho.

Os contrabandistas deixaram a Edmond o que ele pediu e
retiraram-se, no sem se virarem vrias vezes e fazerem de
cada vez que se viravam sinais de um cordial adeus, ao qual
Edmond respondia apenas com a mo, como se no pudesse mexer o
resto do corpo.

Depois, quando desapareceram, murmurou rindo:

-  estranho que seja entre tais homens que se encontram
provas de amizade e actos de dedicao.

Em seguida arrastou-se com cuidado at ao alto de um rochedo
que lhe ocultava o aspecto do mar e de l viu a tartana acabar
de aparelhar, levantar ferro, balanar-se graciosamente como
uma gaivota prestes a levantar voo e partir.

Passada uma hora, tinha desaparecido por completo. Pelo menos
do stio onde ficara o ferido era impossvel v-la.

Ento Dants levantou-se, mais rpido e ligeiro do que os
cabritos que saltavam por entre as murtas e os lentiscos,
naqueles rochedos selvagens, pegou na espingarda com uma das
mos e na enxada com a outra e correu para a rocha onde
terminavam os entalhes que descobrira nos rochedos.

- E agora - gritou, lembrando-se da histria do pescador rabe
que lhe contara Faria --, agora: "Abre-te, Ssamo!"



Captulo XXIV

Deslumbramento


O Sol chegara a um tero do seu trajecto, aproximadamente, e
os seus raios de Maio batiam quentes e vivos nos rochedos, que
pareciam sensveis ao seu calor. Milhares de cigarras,
invisveis nas urzes, faziam ouvir o seu murmrio montono e
contnuo. As folhas dos mirtos e das oliveiras agitavam-se
trmulas e faziam um rudo quase metlico. A cada passo que
dava no granito aquecido, Edmond provocava a fuga de numerosos
lagartos que pareciam esmeraldas. Ao longe viam-se saltar
sobre os taludes inclinados as cabras-monteses que s vezes
atraam ali os caadores. Numa palavra, a ilha era habitada,
viva, animada, e no entanto Edmond sentia-se nela sozinho e
debaixo da mo de Deus.

Experimentava no sei que emoo bastante semelhante  do
medo. Tratava-se dessa desconfiana da luz do dia que leva a
supor, mesmo no deserto, que olhos inquisidores esto postos
em ns.

Tal sensao foi to forte que no momento de deitar mos 
obra Edmond parou, pousou a enxada, pegou na espingarda,
trepou mais uma vez  rocha mais elevada da ilha e da lanou
um olhar atento a tudo o que o rodeava.

Mas, devemos diz-lo, o que lhe atraiu a ateno no foi nem a
Crsega potica, da qual podia distinguir at as casas, nem a
Sardenha quase desconhecida que se lhe seguia, nem a ilha de
Elba, de recordaes gigantescas, nem  finalmente a linha
imperceptvel que se estendia no horizonte e que ao olhar
experimentado do marinheiro revelava Gnova, a soberba, e
Liorne, a comercial. No, o que lhe atraiu a ateno foi o
bergantim que partira ao romper do dia e a tartana que acabava
de partir.

O primeiro estava prestes a desaparecer no estreito de
Bonifcio; a outra, seguindo rumo oposto, costeava a Crsega,
que se preparava para contornar.

O que viu tranquilizou Edmond.

Observou os objectos que o rodeavam mais imediatamente. Viu-se
no ponto mais elevado da ilha, cnica e frgil esttua nesse
imenso pedestal. Por baixo de si, nenhum homem;  sua volta,
nenhum barco, nada excepto o mar azulado que vinha bater na
base da ilha e que com esse choque eterno bordava uma franja
de prata.

Desceu com passo rpido, mas cheio de prudncia. Temia mais do
que nunca naquele momento um acidente semelhante ao que to
habilmente e com tanto xito simulara.

Como dissemos, Dants voltara para trs quando chegara ao fim
dos entalhes deixados nos rochedos e verificara que essa linha
conduzia a uma espcie de enseadazinha oculta como um banho de
ninfas antigo. A enseada era suficientemente larga na entrada
e bastante profunda no centro para que um naviozinho do gnero
dos spronares l pudesse entrar e permanecer escondido.
Ento, seguindo o fio das indues - esse fio que nas mos do
abade Faria vira guiar o espirito de forma to engenhosa no
ddalo das probabilidades - pensou que o cardeal Spada,
interessado em no ser visto, procurara aquele enseada,
escondera o seu barquinho, seguira a linha indicada pelos
entalhes e, na extremidade dessa linha, escondera o seu
tesouro.

Fora esta suposio que levara Dants junto do rochedo
circular.

Havia, porm, uma coisa que preocupava Edmond e lhe baralhava
todas as ideias que possua acerca da dinmica: como fora
possvel, sem empregar foras considerveis, iar o rochedo,
que devia pesar cinco ou seis toneladas, da espcie de base
onde assentava?

De sbito Dants teve uma ideia: "Em vez de o fazerem subir,
devem t-lo feito descer", disse para consigo.

Correu para a parte de cima do rochedo e procurou o sitio da
sua primeira base.

De facto, no tardou a descobrir que fora praticada uma
ligeira rampa. O rochedo deslizara da sua base at se deter no
local onde agora se encontrava. Outro rochedo, do tamanho de
uma pedra vulgar, servira-lhe de cunha. Pedras e seixos tinham
sido cuidadosamente reajustados para fazer desaparecer
qualquer soluo de continuidade. Essa espcie de pequena obra
de pedreiro fora coberta com terra vegetal onde a erva
crescera e o musgo se desenvolvera algumas sementes de murta e
lentisco tinham-se fixado e o velho rochedo parecia soldado ao
cho.

Dants retirou a terra com precauo e reconheceu ou julgou
reconhecer todo esse engenhoso artifcio.

Atacou ento com a enxada aquela muralha intermdia cimentada
pelo tempo.

Depois de trabalhar durante dez minutos, a muralha cedeu e
abriu-se um buraco onde cabia um brao.

Dants cortou a oliveira mais forte que encontrou, desramou-a,
introduziu-a no buraco e utilizou-a como alavanca.

Mas a rocha era no s muito pesada como, ainda por cima,
estava calada to solidamente pelo rochedo inferior que
nenhuma tora humana, mesmo a do prprio Hrcules, seria capaz
de a deslocar.

Dants reflectiu ento que era precisamente o calo que se
impunha atacar.

Mas como ?

Dants olhou  sua volta, como fazem os homens embaraado e o
seu olhar pousou num corno de cabrito-monts cheio de plvora
que lhe deixara o seu amigo Jacopo.

Sorriu: a inveno infernal ia ser til.

Com o auxlio da enxada, Dants abriu entre o rochedo superior
e o que lhe servia de base um canal de mina como costumam
fazer os sapadores quando querem poupar ao brao do homem uma
fadiga demasiado grande, e depois encheu-o de plvora. Em
seguida, desfiou o leno, impregnou-o de plvora e fez dele
uma mecha.

Largou toco  mecha e afastou-se.

A exploso no tardou: o rochedo superior foi por momentos
erguido da sua base pela fora incalculvel desencadeada e o
rochedo interior voou em estilhas. Pela aberturazinha que
Dants praticara inicialmente fugiu toda a espcie de insectos
palpitantes e uma cobra enorme, guarda daquele caminho
misterioso, rolou sobre as suas volutas azuladas e
desapareceu.

Dants aproximou-se: o rochedo superior, agora sem apoio,
inclinava-se para o abismo. O intrpido pesquisador
contornou-o, escolheu o stio mais vacilante, apoiou a
alavanca numa das arestas e, como Ssifo, retesou-se com toda
a fora contra o rochedo.

Este, j abalado pela exploso, cambaleou. Dants redobrou de
esforos. Dir-se-ia um daqueles Tits que arrancavam montanhas
da sua base para guerrearem o senhor dos deuses. Por fim o
rochedo cedeu, rolou, saltou, precipitou-se e desapareceu
engolido pelo mar.

Deixou a descoberto um espao circular e  vista uma argola de
ferro cravada no meio de uma laje quadrada.

Dants soltou um grito de alegria e surpresa. Nunca to
magnfico resultado coroara uma primeira tentativa.

Quis continuar, mas as pernas tremiam-lhe tanto, o corao
pulsava-lhe com tanta violncia e cobria-lhe os olhos uma
nuvem to ardente que foi obrigado a parar.

Mas esse momento de hesitao teve a durao do relmpago.
Edmond meteu a alavanca na argola, levantou-a vigorosamente e
a laje soltou-se, abriu-se e descobriu a rampa inclinada de
uma espcie de escada que mergulhava na sombra de uma gruta
cada vez mais escura.

Outro ter-se-ia precipitado e soltado exclamaes de alegria;
Dants deteve-se, plido e desconfiado.

"Ento, sejamos homem!", disse para consigo. "Habituados 
adversidade, no nos deixemos abater por uma decepo. De
contrrio, teramos sofrido para nada. O corao fraqueja
quando, depois de ser dilatado para alm das marcas pelo
hlito tpido da esperana, reentra e se reencerra na fria
realidade. Faria sonhou: o cardeal Spada no escondeu nada
nesta gruta,  talvez at nunca c tenha vindo, ou, se veio,
Csar Brgia, o intrpido aventureiro, o infatigvel e sombrio
ladro, veio c depois dele, descobriu-lhe a pista, seguiu os
mesmos sinais que eu segui, levantou esta pedra como eu
levantei e, descendo primeiro do que eu, no deixou nada para
mim."

Ficou um momento imvel, pensativo, de olhos cravados na negra
abertura, e continuou:

"Ora, agora que j no conto seja com o que for, agora que j
disse para comigo que seria insensato conservar qualquer
esperana, o resto desta aventura  para mim um caso de
curiosidade e mais nada."

Permaneceu imvel e meditativo durante mais algum tempo e
prosseguiu:

"Sim, sim, isto  uma aventura que cabe perfeitamente na vida,
misto de luz e sombra, desse real bandido; nessa teia de
acontecimentos estranhos que constituam a trama matizada da
sua existncia. Esse fabuloso acontecimento encadeou-se sem
dvida nenhuma com outras coisas. Sim, Brgia veio uma noite
qualquer aqui, de archote numa das mos e espada na outra,
enquanto a vinte passos dele, talvez ao p desta rocha, se
conservavam, sombrios e ameaadores, dois esbirros
interrogando a terra, o ar e o mar. Entretanto, o seu senhor
entrava na gruta, tal como eu vou fazer, e quebrava as trevas
com o seu brao temvel e chamejante.

"Sim, mas que ter feito Csar dos esbirros a quem confiou
assim o seu segredo?", perguntou-se Dants.

"O mesmo que fizeram dos amortalhadores de Alarico, que
enterraram com o amortalhado", respondeu-se sorrindo.

"Todavia, se tivesse c vindo", prosseguiu Dants, "e tivesse
encontrado e roubado o tesouro, Brgia, homem que comparava a
Itlia a uma alcachofra e a comia folha a folha; Brgia sabia
to bem quanto o tempo era precioso que no perderia o seu a
recolocar o rochedo na sua base.

"Desamos."

Desceu, com o sorriso da dvida nos lbios e murmurando esta
ltima palavra da sabedoria humana: "Talvez!..."

Mas em vez das trevas que esperava encontrar, em vez de uma
atmosfera opaca  viciada, Dants viu apenas uma luz suave e
azulada. O ar e a luz infiltravam-se no s pela abertura que
acabava de ser praticada, mas tambm pelas fendas dos
rochedos, invisveis do exterior, atravs das quais se via o
azul do cu onde se agitavam os ramos trmulos das azinheiras
e os ligamentos espinhosos e rastejantes das silvas.

Passados alguns segundos de permanncia na gruta, cuja
atmosfera mais tpida do que hmida, mais perfumada do que
bafienta, estava para a temperatura da ilha como a luz azulada
estava para o sol, o olhar de Dants, habituado, como j
dissemos, s trevas, pde sondar os recantos mais ocultos da
caverna. Esta era de granito e as suas facetas palhetadas
cintilavam como diamantes.

"Meu Deus", disse Edmond para consigo, sorrindo, "estes so
sem dvida todos os tesouros que deixou o cardeal. E aquele
bom abade, ao ver em sonhos estas paredes resplandecentes,
forjou as suas ricas esperanas."

Mas Dants recordou-se dos termos do testamento que sabia de
cor: "No canto mais afastado da segunda abertura", dizia o
documento.

Dants penetrara apenas na primeira gruta; era necessrio
agora procurar a entrada da segunda.

Dants orientou-se. A segunda gruta devia, naturalmente,
penetrar no interior da ilha. Examinou os aglomerados de
pedras e foi bater numa das paredes que lhe pareceu ser aquela
onde se devia situar a abertura, disfarada, sem duvida, para
maior precauo.

A enxada ecoou um instante, arrancando ao rochedo um som
abafado. Continuou, mas a pedra era to rija que a testa de
Dants se cobriu de suor. Por fim, pareceu ao mineiro
perseverante que uma poro da muralha grantica respondia com
um eco mais surdo e profundo ao apelo que lhe dirigiam.
Aproximou o olhar ardente da muralha e reconheceu, com o tacto
do prisioneiro, o que talvez mais ningum reconhecesse: que
devia haver ali uma abertura.

No entanto, para no fazer um trabalho intil, Dants, que
como Csar Brgia estudara o valor do tempo, sondou as outras
paredes com a enxada e o cho com a coronha da espingarda,
cavou a areia nos stios suspeitos e, no tendo encontrado nem
reconhecido nada, tornou a atacar a poro da muralha que
emitia o som animador.

Bateu de novo e com mais fora.

Viu ento uma coisa singular: que debaixo das pancadas do
instrumento uma espcie de reboco, idntico ao que se aplica
nas paredes para pintar a fresco, se despegava e caa em
palhetas, ao mesmo tempo que descobria uma pedra esbranquiada
e mole, semelhante s nossas vulgares pedras de cantaria.
Fechara-se a abertura do rochedo com pedras de outra natureza
e em seguida estendera-se sobre essas pedras uma camada de
reboco, e por cima do reboco imitara-se a cor e o aspecto
cristalino do granito.

Dants atacou ento a parede com a extremidade aguada da
enxada, que penetrou uma polegada na porta-muralha.

Era ali que se devia atacar.

Por um mistrio estranho do comportamento humano, quanto mais
as provas de que Faria se no enganara deviam, acumulando-se,
tranquilizar Dants, tanto mais o seu corao desfalecia e se
entregava  dvida e quase ao desnimo. Aquela nova
experincia, que lhe deveria dar uma fora nova, roubou-lhe a
fora que lhe restava. A enxada desceu e quase lhe escapou das
mos. Pousou-a no cho, enxugou a testa e saiu da gruta, dando
a si mesmo o pretexto de ver se ningum o espiava, mas na
realidade porque necessitava de ar, porque sentia estar,
prestes a desfalecer.

A ilha estava deserta e o Sol, no znite, parecia cobri-la com
o seu olho de fogo. Ao longe, barquitos de pescadores abriam
as velas sobre o mar de um azul de safira.
Dants ainda no comera nada; mas estava muito longe de lhe
apetecer comer em semelhante altura. Tomou um golo de rum e
voltou a entrar na gruta com o corao mais fortalecido.

A enxada, que lhe parecera to pesada, tornara-se leve.
Levantou-a como levantaria uma pena e entregou-se
vigorosamente ao trabalho.

Aps algumas enxadadas, verificou que as pedras no se
encontravam cimentadas, mas apenas pousadas umas sobre as
outras e cobertas com o reboco a que j nos referimos.
Introduziu numa das fissuras a ponta da enxada, carregou no
cabo e viu com alegria a pedra cair-lhe aos ps.

Desde ento, Dants no teve mais que tirar cada pedra com o
bico de ferro da enxada, e cada uma foi caindo junto da
anterior.

Dants poderia ter entrado logo que fizera a primeira
abertura; mas demorar esse momento alguns instantes equivalia
a retardar a certeza e agarrar-se  esperana.
Por fim, depois de nova hesitao de um instante, Dants
passou da primeira gruta para a segunda.

A segunda gruta era mais baixa e escura e de aspecto mais
assustador do que a primeira. O ar, que s penetrava nela pela
abertura praticada naquele mesmo instante, tinha o cheiro
meftico que Dants se admirara, de no encontrar na primeira.

Dants deu tempo ao ar exterior para reavivar aquela atmosfera
de morte e entrou.

 esquerda da abertura ficava um canto profundo e sombrio.
Mas, como dissemos, para a vista de Dants no havia trevas.

Sondou com o olhar a segunda gruta. Eslava vazia como a
primeira. O tesouro, se existia, encontrava-se enterrado no
canto escuro.

Chegara a hora da angstia. Dois ps de terra a resolver era
tudo o que restava a Dants entre a suprema alegria e o
supremo desespero.

Avanou para o canto e, como que tomado de uma resoluo
sbita, atacou o solo ousadamente.

 quinta ou sexta enxadada, o ferro encontrou ferro.

Nunca toque a rebate, nunca dobre a finados produziu
semelhante efeito sobre quem ouviu. Se nada tivesse
encontrado, Dants no ficaria com certeza mais plido.

Sondou ao lado do sitio onde j sondara e encontrou a mesma
resistncia, mas no o mesmo som.

" um cofre de madeira com arcos de ferro", pensou.

Neste momento passou uma sombra rpida que interceptou a luz
do dia.

Dants deixou cair a enxada, pegou na espingarda, transps a
abertura e correu para fora.

Uma cabra-monts saltara por cima da primeira entrada da gruta
e pastava a poucos passos dali.

Era uma excelente oportunidade para assegurar o jantar, mas
Dants receou que a detonao da espingarda atrasse algum.

Reflectiu um instante, cortou uma rvore resinosa, correu a
acend-la na fogueira ainda fumegante onde os contrabandistas
tinham cozinhado o almoo e voltou com esse archote.

No queria perder nenhum pormenor do que ia ver.

Aproximou o archote do buraco informe e inacabado e verificou
que se no enganara: as enxadadas tinham batido alternadamente
em ferro e em madeira.

Cravou o archote no cho e entregou-se de novo ao trabalho.
Num instante abriu uma cova de trs ps de comprido por dois
de largo, aproximadamente, e encontrou um cofre de carvalho
com arcos de ferro lavrado. No meio da tampa resplandeciam,
numa placa de prata que a terra no conseguira embaciar, as
armas da famlia Spada, isto , uma espada pousada em pala
sobre um escudo oval, como so os escudos italianos, e
encimada por um chapu de cardeal.

Dants reconheceu-os facilmente. O abade Faria desenhara-lhos
tantas vezes!

A partir daquele momento no havia qualquer dvida: o tesouro
estava efectivamente ali. Ningum toma tantas precaues para
colocar em semelhante stio um cofre vazio.

Num instante, todos os lados do cofre  oram libertos de terra
e Dants viu aparecer sucessivamente a fechadura do meio,
colocada entre dois cadeados, e as asas das faces laterais,
tudo lavrado como se lavrava na poca, em que a arte tornava
preciosos os mais vis metais.

Dants pegou no cofre pelas asas e tentou levant-lo.
Impossvel.

Procurou abri-lo. Fechadura e cadeados eram fortes. Os fiis
guardies pareciam no querer entregar o seu tesouro.

Dants introduziu a parte cortante da enxada entre o cofre e a
tampa, carregou no cabo da enxada e a tampa estalou e
rebentou.

Uma ampla abertura nas tbuas tornou as ferragens inteis e
estas acabaram por ceder por seu turno, embora apertando ainda
nas suas garras tenazes as tbuas partidas na sua queda, e o
cofre ficou destapado.

Apoderou-se de Dants uma febre vertiginosa. Pegou na
espingarda, armou-a e colocou-a junto de si. Primeiro fechou
os olhos, como fazem as crianas para distinguir na noite
cintilante da sua imaginao mais estrelas do que podem contar
num cu ainda claro, depois abriu-os e ficou deslumbrado.

O cofre dividia-se em trs compartimentos.

No primeiro brilhavam rutilantes escudos de ouro de reflexos
fulvos.

No segundo, lingotes mal polidos e bem arrumados, mas que do
ouro s tinham o peso e o valor.

Finalmente no terceiro, meio cheio, Edmond revolveu s
mos-cheias diamantes, prolas e rubis, os quais,
transformados em cascata cintilante, faziam, ao cair uns sobre
os outros, o rudo do granizo nos vidros.

Depois de tocar, apalpar e enterrar as mos trmulas no ouro e
nas pedrarias, Edmond levantou-se e correu novamente atravs
das cavernas com a trmula exaltao de um homem prestes a
enlouquecer. Saltou para um rochedo donde podia observar o mar
e no viu nada; estava s, bem s, com as suas riquezas
incalculveis, inauditas, fabulosas, que lhe pertenciam. Mas
sonhava ou estava acordado? Vivia um sonho fugaz ou abraava
firmemente uma realidade?

Necessitava de rever o seu ouro e no entanto sentia que no
teria foras, naquele momento, para o olhar. Levou por
instantes as mos ao alto da cabea, como que para impedir a
razo de lhe fugir. Depois correu atravs da ilha, sem seguir,
no qualquer caminho, que o no havia na ilha de
Monte-cristo, mas sim uma direco determinada, afugentando
as cabras-monteses e assustando as aves marinhas com os seus
gritos e as suas gesticulaes. Em seguida deu uma volta e
regressou, ainda hesitante, at que se precipitou para a
primeira gruta, depois para a segunda e por fim se deteve
diante daquela mina de ouro e diamantes.

Desta vez caiu de joelhos, comprimiu convulsivamente com as
mos o corao que parecia querer saltar-lhe do peito e
murmurou uma prece que s Deus poderia ouvir.

No tardou a sentir-se mais calmo e portanto mais feliz, pois
s naquele momento comeava a acreditar na sua felicidade.

Ps-se ento a contar a sua fortuna. Havia mil lingotes de
ouro de duas a trs libras cada um. Em seguida empilhou vinte
e cinco mil escudos de ouro, que valeriam, cada um, oitenta
francos da nossa moeda actual, todos com a efgie do Papa
Alexandre VI e dos seus predecessores, e verificou que o
compartimento estava apenas meio vazio. Finalmente, mediu dez
vezes a capacidade das suas mos em prolas, pedrarias e
diamantes, muitos dos quais montados pelos melhores ourives da
poca e por isso mesmo possuam um valor artstico notvel.
mesmo comparado com o seu valor intrnseco.

Dants viu o Sol descer e extinguir-se pouco a pouco. Receava
ser surpreendido se permanecesse na caverna e por isso saiu,
de espingarda em punho. Algumas bolachas e uns goles de vinho,
foram o seu jantar. Depois recolocou a pedra, deitou-se-lhe em
cima e dormiu apenas algumas horas, tapando com o corpo a
entrada da gruta.

Aquela noite foi ao mesmo tempo uma dessas noites deliciosas e
terrveis como aquele homem de emoes fulminantes passara j
duas ou trs na vida.


Captulo XXV

O desconhecido


Nasceu o dia. Dants esperava-o havia muito tempo, acordado.
Logo que brilhavam os primeiros raios de Sol, levantou-se e
subiu, como na vspera, ao rochedo mais alto da ilha, a fim de
explorar os arredores. Como na vspera, tudo estava deserto.

Edmond desceu, levantou a pedra, encheu as algibeiras de
pedrarias, recolocou o melhor que pde as tbuas e as
ferragens do cofre, cobriu-o de terra, calcou-a e deitou-lhe
areia por cima, a fim de tornar o sitio recentemente revolvido
idntico ao resto do solo. Saiu da gruta, recolocou a laje e
amontoou em cima dela pedras de diversos tamanhos.
Introduziu terra nos intervalos, plantou nesses intervalos
mirtos e urzes, regou as plantaes novas para que parecessem
antigas, apagou os sinais dos seus passos, que rodeavam
abundantemente o local e esperou com impacincia o regresso
dos companheiros. Com efeito, agora j se no tratava de
passar o tempo a admirar o ouro e os diamantes, a permanecer
em Monte-cristo como um drago que guardasse inteis
tesouros. Agora era necessrio regressar  vida entre os
homens e tomar na sociedade a categoria, a influncia e o
poder que d neste mundo a riqueza, a primeira e a maior das
foras de que pode dispor a criatura humana.

Os contrabandistas regressaram ao sexto dia. Dants reconheceu
de longe o porte e o andamento da Jeune-Amlie.
Arrastou-se at ao porto como Filoctetes ferido e quando os
companheiros ancoraram anunciou-lhes embora ainda
queixando-se, melhoras sensveis. Depois escutou por seu turno
o relato dos aventureiros. Tinham-se sado bem, era verdade,
mas mal a carga fora descarregada tinham sido avisados de que
um brigue de vigilncia em
Toulon acabava de sair do porto e vinha ao encontro deles.
Tinham fugido a todo o pano, lamentando que Dants, que sabia
dar ao navio uma velocidade to superior, no estivesse l
para dirigir. Com efeito, no tardaram a ver o navio caador,
mas com o auxlio da noite e dobrando o cabo da Crsega,
conseguiram escapar-lhe.

Em suma, a viagem no fora m. E todos, e sobretudo Jacopo,
lamentava que Dants no tivesse ido, a fim de ter a sua parte
nos lucros que o negcio rendera, parte que ascendia a
cinquenta piastras.

Edmond manteve-se impenetrvel; nem sequer sorriu quando
enumeraram as vantagens que teria compartilhado se tivesse
podido deixar a ilha. Mas como a Jeune-Amlie apenas viera
a Monte-cristo para o buscar, reembarcou naquela mesma noite
e acompanhou o patro a Liorne.

Em Liorne procurou um judeu e vendeu por cinco mil francos
cada um quatro dos seus mais pequenos diamantes. O judeu
gostaria de sal cr como  que um marinheiro se encontrava de
posse de semelhantes pedras, mas conteve a curiosidade, pois
ganhava mil francos em cada uma.

No dia seguinte comprou um barco novinho em folha, que deu a
Jacopo, bem como mais cem piastras para que pudesse contratar
uma tripulao. E isto com a condio de Jacopo ir a Marselha
procurar notcias de um velho chamado Louis Dants, residente
nas Alamedas de Meilhan, e de uma rapariga moradora na aldeia
dos Catales e chamada Mercds.

Jacopo julgou sonhar. Edmond contou-lhe ento que se tornara
marinheiro devido a uma cabeada e porque a famlia lhe
recusava o dinheiro necessrio  sua manuteno. Mas que ao
chegar a Liorne recebera a herana de um tio que o nomeara seu
nico herdeiro. A educao elevada de Dants dava a essa
histria tal verosimilhana que Jacopo nem por um instante
duvidou que o seu antigo companheiro lhe no dissesse a
verdade.

Por outro lado, como o contrato de Edmond a bordo da
Jeune-Amlie expirara, o jovem despediu-se do patro, que
comeou por tentar ret-lo, mas que ao saber como Jacopo a
histria da herana perdeu imediatamente a esperana de vencer
a resoluo do seu antigo marinheiro.

No dia seguinte, Jacopo fez-se de vela para Marselha. Deveria
reencontrar-se com Edmond em Monte-cristo.

No mesmo dia, Dants partiu sem dizer para onde ia, depois de
se despedir da tripulao da Jeune-Amlie com uma
esplndida gratificao e do patro com a promessa de lhe dar
qualquer dia notcias suas.

Dants seguiu para Gnova.

Na altura da sua chegada experimentava-se um iatezinho
encomendado por um ingls que, tendo ouvido dizer que os
Genoveses eram os melhores construtores do Mediterrneo,
quisera ter um iate construdo em Gnova. O ingls ajustara o
preo de quarenta mil francos; Dants ofereceu sessenta mil,
com a condio de o navio lhe ser entregue naquele mesmo dia.

O ingls fora dar uma volta pela Sua enquanto esperava que o
navio fosse construdo e s deveria voltar dentro de trs
semanas ou um ms. O construtor pensou que teria tempo de pr
outro no estaleiro. Dants levou o construtor a casa de um
judeu, entrou com ele para os fundos da loja e o judeu contou
sessenta mil francos ao construtor.

Este ofereceu a Dants os seus servios para lhe arranjar uma
tripulao, mas Dants agradeceu-lhe, dizendo-lhe que estava
habituado a navegar sozinho e que a nica coisa que desejava
era que lhe fizessem no camarote,  cabeceira da cama, um
armrio secreto, com trs compartimentos tambm secretos. Deu
as medidas dos compartimentos e estes foram executados no dia
seguinte.

Duas horas mais tarde, Dants saia do porto de Gnova
escoltado pelos olhares de uma multido de curiosos que
queriam ver o cavalheiro espanhol que tinha o hbito de
navegar sozinho.

Dants desenvencilhou-se maravilhosamente. Com a ajuda do
leme, e sem ter necessidade de o deixar, obrigou o navio a
fazer todas as evolues que quis. Dir-se-ia um ser
inteligente pronto a obedecer ao mais pequeno gesto, a ponto
de o prprio Dants concordar que os genoveses mereciam a sua
reputao de primeiros construtores navais do mundo.

Os curiosos seguiram o naviozinho com os olhos at o perderem
de vista, e ento discutiu-se qual seria o seu destino. Uns
inclinaram-se para a Crsega, outros para a ilha de Elba;
estes dispuseram-se a apostar que ia para Espanha, aqueles
teimaram que seguia para frica. Ningum pensou em indicar a
ilha de Monte-cristo.

No entanto, era para Monte-cristo que ia Dants.
Chegou ao fim do segundo dia. O navio era excelente veleiro e
percorrera a distancia em trinta e cinco horas. Dants
reconhecera perfeitamente a costa e, em vez de entrar no porto
habitual, lanou ferro na enseadazinha.

A ilha estava deserta. Ningum parecia ter ali desembarcado
desde que Dants partira. Foi procurar o seu tesouro;
encontrava-se tudo no mesmo estado em que o deixara.
No dia seguinte a sua imensa fortuna foi transportada para
bordo do iate e fechada nos trs compartimentos do armrio
secreto.

Dants esperou mais oito dias. Entretanto, manobrou o iate 
roda da ilha, estudando-o como um picador estuda um cavalo. Ao
fim desse tempo conhecia-lhe todas as qualidades e todos os
defeitos. Dants prometeu a si mesmo aumentar uns e remediar
outros.

Ao oitavo dia, Dants viu um barquito dirigir-se para a ilha
com todas as velas desfraldadas e reconheceu a embarcao de
Jacopo. Fez-lhe um sinal a que Jacopo correspondeu e duas
horas mais tarde o barco estava junto do iate.

Havia uma triste resposta para cada uma das duas perguntas de
Edmond.

O velho Dants morrera.

Mercds desaparecera.

Edmond escutou as duas notcias com ar calmo, mas desceu
imediatamente a terra e proibiu que o acompanhassem.

Duas horas mais tarde voltou. Dois homens do barco de Jacopo
passaram para o iate a fim de ajudarem na manobra e Dants
ordenou que se aproasse a Marselha. Previra a morte do pai;
mas que fora feito de Mercds?

Edmond no poderia dar instrues suficientes a um agente sem
divulgar o seu segredo. De resto, havia mais informaes que
desejava obter e acerca das quais s confiava em si mesmo. O
espelho dissera-lhe em Liorne que no corria o perigo de ser
reconhecido. Alis, tinha agora ao seu dispor todos os meios
de se disfarar. Assim, uma manh, o iate, seguido do
barquito, entrou  ousadamente no porto de Marselha e
deteve-se precisamente defronte do stio onde na noite de
fatal memria o tinham embarcado para o Castelo de If.

No foi sem certo estremecimento que Dants viu aproximar-se
um gendarme no escaler da Sanidade. Mas com a segurana
perfeita que adquirira apresentou-lhe um passaporte ingls que
comprara em Liorne e mediante esse salvo-conduto estrangeiro,
muito mais respeitado em Frana do que o nosso, desceu a terra
sem dificuldade.

A primeira coisa que Dants viu ao pr o p na Cannebire foi
um dos marinheiros do Pharaon o homem servira sob as suas
ordens e vinha a propsito para tranquilizar Dants a respeito
das mudanas que se tinham operado em si. Foi direito ao homem
e fez-lhe vrias perguntas s quais ele respondeu sem sequer
deixar suspeitar, quer nas suas palavras, quer na sua
fisionomia, que se lembrava de ter visto alguma vez aquele que
lhe dirigia a palavra.

Dants deu ao marinheiro uma moeda de ouro para lhe agradecer
as informaes. Um instante depois ouviu o bom homem correr
atrs de si.

Dants voltou-se.

- Desculpe, senhor - disse o marinheiro --, mas com certeza
enganou-se. Deve ter querido dar-me uma moeda de quarenta
soldos e deu-me um duplo napoleo.

- De facto meu amigo, enganei-me - respondeu Dants.
-- Mas como a sua honestidade merece uma recompensa, aqui tem
outro que lhe peo aceite para beber  minha sade com os seus
camaradas.

O marinheiro olhou para Dants to espantado que nem sequer se
lembrou de agradecer e ficou a v-lo afastar-se dizendo:

-  algum nabado vindo da ndia.

Dants continuou o seu caminho. Cada passo que dava
oprimia-lhe o corao uma emoo nova. Todas as suas
recordaes de infncia recordaes indelveis, eternamente
presentes na memria, estavam ali erguiam-se a cada canto da
praa, a cada esquina da rua, em cada cruzamento. Ao chegar ao
fim da Rua de Noailles e ver a Alameda de Meilhan, sentiu os
joelhos vergarem-se-lhe e quase caiu debaixo das rodas de uma
carruagem. Por fim chegou  casa onde morara o pai. As
aristolquias e as capuchinhas tinham desaparecido da
mansarda, onde outrora a mo do pobre homem as tratava com
tanto cuidado.

Encostou-se a uma rvore e ficou algum tempo pensativo, a
olhar os ltimos andares da modesta casita. Por fim dirigiu-se
para a porta, transps o limiar, perguntou se havia alguma
habitao vaga e, apesar de estar ocupada, insistiu tanto em
visitar a do quinto andar que o porteiro subiu e pediu, da
parte de um estrangeiro, s pessoas que l moravam, licena
para mostrar as duas divises que constituam o andar. As
pessoas que ocupavam o pequeno apartamento eram um rapaz e uma
rapariga casados havia apenas oito dias.

Ao ver os dois jovens, Dants soltou um profundo suspiro.

Nada recordava j a Dants o apartamento do pai. O papel no
era o mesmo e todos os velhos mveis, esses amigos de infncia
de Edmond, presentes na sua memria em todos os pormenores,
tinham desaparecido. S as paredes eram as mesmas.  Dants
virou-se para o lado da cama, que ocupava o mesmo lugar da do
antigo inquilino. A seu pesar, os olhos de Edmond encheram-se
de lgrimas. Devia ter sido ali que o velho morrera chamando
pelo filho.

Os dois jovens olhavam com espanto aquele homem de rosto
severo, pelas faces do qual corriam duas grossas lgrimas sem
que ele se importasse Mas como toda a dor traz consigo a sua
religio, os jovens no perguntaram nada ao desconhecido.
Limitaram-se a recuar para o deixar chorar  vontade, e quando
se retirou acompanharam-no e disseram-lhe que poderia voltar
quando quisesse, pois a sua pobre casa Ihc seria sempre
hospitaleira.

Ao passar pelo andar de baixo, Edmond parou diante de outra
porta e perguntou se continuava a morar ali o alfaiate
Caderousse. Mas o porteiro respondeu-lhe que o homem a quem se
referia tivera maus negcios e possua agora uma
estalagenzinha na estrada de Bellegarde a Beaucaire.

Dants desceu, perguntou a morada do proprietrio da casa das
Alamedas de Meilhan, dirigiu-se para l, fez-se anunciar sob o
nome de Lorde Wimore (o nome e o ttulo inscritos no
passaporte) e comprou-lhe o prdio por vinte e cinco mil
francos. Eram, pelo menos, mais dez mil francos do que valia.
Mas se lhe tivessem pedido meio milho, Dants t-lo-ia dado.

No mesmo dia, os inquilinos do quinto andar foram avisados
pelo notrio que lavrara a escritura de que o novo
proprietrio lhos dava a escolher um apartamento em todo o
prdio, sem aumentar de forma alguma a renda, com a condio
de lhe cederem os dois quartos que ocupavam.

Este acontecimento estranho ocupou durante mais de oito dias
todos os frequentadores habituais das Alamedas de Meilhan e
originou mil e uma conjecturas, nenhuma das quais exacta.

Mas o que sobretudo confundiu todos os crebros e perturbou
todos os espritos foi ver-se  tardinha o mesmo homem que se
vira entrar na casa das Alamedas de Meilhan a passear na
aldeola dos Catales e entrar numa pobre casa de pescadores,
onde ficou mais de uma hora a pedir notcias de diversas
pessoas que tinham morrido ou desaparecido havia mais de
quinze ou dezasseis anos.

No dia seguinte, as pessoas em casa de quem entrara para fazer
todas essas perguntas receberam como presente um barco catalo
novinho em folha acompanhado de duas chinchas e de uma xvega.

Essa pobre gente bem gostaria de agradecer ao generoso
perguntador, mas ao deix-los tinham-no visto, depois de dar
algumas ordens a um marinheiro, montar a cavalo e sair de
Marselha pela porta de Aix.

Captulo XXVI

A Estalagem da Ponte do Gard


Aqueles que como eu percorreram a p o Meio-Dia da Franca
devem ter notado entre Bellegarde e Beaucaire, aproximadamente
a meio caminho da aldeia  cidade, mas mais perto de Beaucaire
do que de Bellegarde, uma
estalagenzinha donde pende, numa chapa metlica que range 
menor aragem, uma grotesca representao da ponte de Gard.
Tomando como ponto de referncia o curso do Rdano, a
estalagenzinha est situada do lado esquerdo da estrada, de
costas viradas para o rio. Completa-a o que no Linguadoque se
chama um quintal, isto , o lado oposto quele onde se abre a
porta destinada aos viajantes d para um recinto onde vegetam
algumas oliveiras enfezadas e outras tantas figueiras-bravas,
de folhagem prateada pela poeira. Nos seus intervalos crescem,
e  tudo quanto a legumes, alhos, pimentos e chalotas.
Finalmente, num dos cantos, como uma sentinela esquecida, um
grande pinheiro manso ergue melancolicamente o tronco
flexvel, enquanto a copa, aberta em leque, torra sob um sol
de trinta graus.

Todas essas rvores, grandes ou pequenas, se inclinam
naturalmente na direco onde passa o mistral, um dos trs
flagelos da Provena. Os outros dois, como se sabe ou como se
no sabe, so a Durance e o Parlamento.

Aqui e ali, na plancie circundante, que lembra um grande lago
de poeira, vegetam algumas espigas de trigo candial, que os
horticultores da regio cultivam sem dvida por curiosidade e
cada uma das quais serve de poleiro a uma cigarra que persegue
com o seu canto spero e montono os viajantes perdidos nesta
tebaida.

Havia cerca de sete ou oito anos que a estalagenzinha era
explorada por um homem e uma mulher que tinham apenas como
pessoal uma criada de quartos chamada Trinette e um moo de
estrebaria chamado Pacaud - dupla cooperao que de resto
chegava amplamente para satisfazer as necessidades do servio
desde que um canal aberto entre Beaucaire e Aiguemortes fizera
suceder vitoriosamente os barcos ao transito acelerado e a
embarcao de carga e passageiros  diligncia.

Como que para tornar ainda mais pungentes as queixas do pobre
estalajadeiro que arruinava, o canal passava entre o Rdano,
que o alimentava, e a estrada, que exauria, e a cerca de cem
passos da estalagem de que acabamos de dar uma breve mas fiel
descrio.

O homem que dirigia a estalagenzinha devia contar quarenta a
quarenta e cinco anos, era alto, magro e nervoso, autntico
tipo meridional com os seus olhos encovados e brilhantes, o
seu nariz aquilino e os seus dentes brancos como os de um
animal carnvoro. Os seus cabelos que pareciam, apesar dos
primeiros ataques da idade, no se decidirem a embranquecer,
eram, assim como a barba que usava em forma de colar,
espessos, frisados e entremeados de pouqussimos cabelos
brancos. A sua tez, naturalmente morena, estava ainda coberta
por uma camada de bistre, devido ao hbito que o pobre diabo
adquirira de se manter de manh  noite  porta do
estabelecimento, para ver se, quer a p, quer de carruagem,
chegava algum cliente - espera quase sempre frustrada e
durante a qual se limitava a proteger a cara do calor
escaldante do sol com um leno de assoar vermelho, atado na
cabea,  maneira dos almocreves espanhis. Este homem era o
nosso velho conhecido Gaspard Caderousse.

A mulher, pelo contrrio, que em solteira se chamava Madeleine
Radelle, era uma mulher plida, magra e achacada. Nascida nos
arredores de Arles, embora conservasse os traos primitivos da
beleza tradicional das suas patrcias, vira o rosto
arruinar-se-lhe lentamente devido aos acessos quase contnuos
de uma dessas febres inexorveis to comuns entre as
populaes vizinhas das lagoas de  Aiguemortes e dos
pntanos da Camarga. Conservava-se portanto quase sempre
sentada e a tiritar ao fundo do quarto, situado no primeiro
andar, quer estendida numa poltrona, quer encostada  cama,
enquanto o marido montava  porta o seu quarto de sentinela
habitual, que prolongava com tanto mais prazer quanto  certo
que todas as vezes que se encontrava com a sua azeda metade
esta perseguia-o com as suas eternas queixas contra o destino,
queixas a que o marido respondia habitualmente apenas com
estas palavras filosficas:

"Cala-te, Carconte! E Deus que assim o quer."

Esta alcunha devia-se ao facto de Madeleine Radeile ter
nascido na aldeia da Carconte, situada entre Salon e Lambesc.
Ora, de acordo com um hbito da regio, segundo o qual se
designam quase sempre as pessoas por uma alcunha em vez de as
designar por um nome, o marido substitura por aquele
apelativo o de Madeleine, demasiado suave e eufnico, talvez
para a sua linguagem rude.

Todavia, apesar da sua pretensa resignao aos decretos da
Providncia, no se julgue que o nosso estalajadeiro no
sentia profundamente o estado de misria a que o reduzira o
miservel canal de Beaucaire e que era insensvel aos
incessantes queixumes com que a mulher o perseguia. Era, como
todos os meridionais, um homem sbrio e sem grandes
necessidades, mas exibicionista. Por isso, no tempo da sua
prosperidade no deixava passar nem uma ferra de gado, nem uma
procisso da tarasca sem nelas se mostrar com a Carconte, um
no trajo pitoresco dos homens do Meio-Dia, misto de catalo e
andaluz, e a outra com o encantador trajo das mulheres de
Arles, que parece inspirado na Grcia e na Arbia. Mas pouco a
pouco, correntes de relgio, colares, cintas de mil cores,
corpetes bordados, jaquetas de veludo, meias elegantes,
polainas sarapintadas e sapatos com fivelas de prata tinham
desaparecido e Gaspard Caderousse, no podendo continuar a
mostrar-se  altura do seu esplendor passado, renunciara por
si e pela mulher a todas as pompas mundanas cujo estrpido
alegre ouvia, rodo de inveja, ecoar at  pobre estalagem que
continuava a conservar mais como um abrigo do que como um
negcio.

Caderousse mantivera-se, como era seu hbito, parte da manh
diante da porta, passeando o olhar melanclico de um
relvadozinho pelado, onde debicavam algumas galinhas, at s
duas extremidades do caminho deserto, que se dirigia de um
lado para o sul e do outro para o norte. De sbito, porm, a
voz azeda da mulher obrigou-o a abandonar o seu posto. Entrou
em casa resmungando e subiu ao primeiro andar, mas deixou a
porta escancarada como se quisesse convidar os viajantes a no
a esquecerem quando passassem.

No momento em que Caderousse entrou em casa, a estrada de que
falmos e que ele percorria com a vista encontrava-se to
vazia e solitria como o deserto ao meio-dia. Estendia-se,
branca e infinita, entre duas alas de rvores enfezadas, e
compreendia-se perfeitamente que um via jante, livre de
escolher outra hora do dia, se no aventurasse naquele medonho
Sara.

No entanto, apesar de todas as probabilidades, se Caderousse
tivesse ficado no seu posto poderia ter visto aparecer, do
lado de Bellegarde, um cavaleiro e um cavalo no passo
respeitvel e amistoso que indica as melhores relaes entre o
cavalo e o cavaleiro. O animal era um cavalo castrado e
avanava a passo travado; o cavaleiro era um padre vestido de
preto e coberto com um tricrnio, apesar do calor escaldante
do Sol, ento no seu znite. O andamento de ambos no ia alm
de um trote muito razovel.

Chegado diante da porta o grupo parou. Seria difcil decidir
se foi o cavalo que deteve o homem ou o homem que deteve o
cavalo; mas em todo o caso o cavaleiro ps p em terra e,
puxando o animal pela brida, foi prend-lo ao torniquete de um
guarda-vento escalavrado que j s tinha um gonzo. Em seguida
dirigiu-se para a porta, enxugando com um leno de algodo
encarnado a testa coberta de suor, e bateu trs vezes no
limiar com a ponta ferrada da bengala que segurava na mo.

Acto contnuo, um grande co preto levantou-se e deu alguns
passos rosnando e mostrando os dentes brancos e agudos, dupla
demonstrao hostil que provava quo pouco habituado estava a
conviver.

Imediatamente um passo pesado fez estremecer a escada de
madeira que subia ao longo da parede e que descia, curvado e
s arrecuas, o dono do pobre estabelecimento  porta do qual
se encontrava o padre.

- L vou! - dizia entretanto Caderousse, surpreendidssimo. -
L vou! Fazes favor de te calar, Margottin? No tenha medo,
senhor; ladra mas no morde. Deseja vinho, no  verdade?
Sempre est um destes calores... Ah, perdo! - interrompeu-se
Caderousse ao ver com que espcie de viajante tratava. - No
sabia quem tinha a honra de receber. Que deseja, em que o
posso servir, Sr. Abade? Estou s suas ordens.

O padre olhou o homem durante dois ou trs segundos com uma
ateno estranha e pareceu at procurar atrair sobre si a
ateno do estalajadeiro. Depois, vendo que as feies deste
s exprimiam surpresa por no receber resposta, achou que era
tempo de pr termo a essa surpresa e perguntou com um acento
italiano muito pronunciado:

- O senhor no se chama Caderousse?

- Chamo, senhor - respondeu o estalajadeiro, talvez ainda mais
surpreendido com a pergunta do que com o silncio. - Sou, com
eleito. Gaspard Caderousse para o servir.

- Gaspard Caderousse... Sim, creio serem esses o nome e o
apelido. Morou h tempos nas Alamedas de Meilhan, no 
verdade? No quarto andar?

- Exacto.

- Exercia l a profisso de alfaiate?

- Exercia, mas o negcio foi por gua abaixo. E que faz tanto
calor naquela maldita Marselha que, na minha opinio, as
pessoas acabaro por andar nuas. Mas a propsito de calor, no
deseja refrescar-se, Sr. Abade?

- Pois sim. D-me uma garrafa do seu melhor vinho e
continuemos a conversa, se no se importa, a partir do ponto
onde a deixmos.

- Como quiser, Sr. Abade - respondeu Caderousse.

E para no perder a oportunidade de vender uma das ltimas
garrafas de vinho de Cahors que lhe restavam, Caderousse
apressou-se a levantar um alapo aberto do prprio soalho
daquela espcie de sala do rs-do-cho, que servia ao mesmo
tempo de cozinha.

Quando passados cinco minutos reapareceu, encontrou o abade
sentado num banco, com o cotovelo apoiado numa mesa comprida,
enquanto Margottin, que parecia ter feito as pazes com ele,
talvez por esperar que, contrariamente ao habitual, aquele
viajante singular tomasse qualquer coisa, lhe estendia sobre a
coxa o pescoo descarnado e o olhar langoroso.
- Est sozinho? - perguntou o abade ao estalajadeiro enquanto
este pousava diante dele a garrafa e um copo.

- Oh, meu Deus! Sim, sozinho ou quase, Sr. Abade! Tenho a
minha mulher, mas ela no me pode ajudar em nada, atendendo a
que est sempre doente, a pobre Carconte.

- Ah,  casado! - disse o padre, com uma espcie de interesse,
e deitando  sua volta um olhar que parecia avaliar no seu
escasso valor o modesto mobilirio do pobre casal.

- Parece-lhe que no sou rico, no  verdade, Sr. Abade? -
disse, suspirando, Caderousse. - Mas que quer, no basta um
homem ser honesto para prosperar no mundo.

O abade cravou nele um olhar penetrante.

- Sim, um homem honesto; posso-me gabar disso, senhor -
insistiu o estalajadeiro, sustentando o olhar do abade, com
uma das mos no peito e abanando a cabea de cima para baixo.
- Nos tempos que correm, nem toda a gente pode dizer o mesmo.

-Tanto melhor se  verdade isso que se gaba - redarguiu o
abade --, pois mais tarde ou mais cedo,  minha firme
convico, o homem honesto  recompensado e o mau punido.

-  prprio do seu estado dizer isso, Sr. Abade;  prprio do
seu estado dizer isso - prosseguiu Caderousse com uma
expresso amarga --, mas cada qual  livre de no acreditar no
que o senhor diz.

- Faz mal em falar assim, senhor - redarguiu o abade --, pois
talvez eu prprio seja para si, dentro em breve, uma prova do
que afirmo.

- Que quer dizer? - perguntou Caderousse com ar atnito.

- Quero dizer que antes de mais nada tenho de me assegurar se
o senhor  o homem que procuro.

- Que provas quer que lhe d?

- Conheceu em 1814 ou 1815 um marinheiro chamado Dants?

- Dants!... Se conheci o pobre Edmond! Sem dvida nenhuma!
Era at um dos meus melhores amigos! - exclamou Caderousse,
cujo rosto foi invadido por um vermelho-prpura, enquanto os
olhos claros e firmes do abade pareciam dilatar-se para
abarcarem por completo aquele que interrogava.

- Sim, creio que efectivamente se chamada Edmond.

- Se se chamava Edmond, o pequeno! Claro que chamava! To
certo como eu chamar-me Gaspard Caderousse. E que foi feito
dele, senhor, desse pobre Edmond? - prosseguiu o
estalajadeiro. - Conheceu-o? Ainda  vivo? Est em liberdade?
 feliz?

- Morreu prisioneiro, mais desesperado e miservel do que os
forados que arrastam a grilheta na cadeia de Toulon.

Uma palidez mortal sucedeu no rosto de Caderousse ao rubor que
inicialmente o cobria. Virou-se e o abade viu-o enxugar uma
lgrima com uma ponta do leno encarnado que lhe servia para
cobrir a cabea.

- Pobre rapaz! - murmurou Caderousse.-Pois a tem mais uma
prova do que lhe dizia, Sr. Abade: Deus s  bom para os maus.
Ah - continuou Caderousse, com a linguagem colorida da gente
do Meio-Dia --, o mundo vai de mal a pior! Deviam cair do cu
dois dias de plvora e uma hora de fogo, para acabar com isto
tudo!

- Parece que o senhor gostava muito desse rapaz - observou o
abade.

-  verdade, gostava muito dele - confirmou Caderousse
-- embora tenha de me penitenciar de ter por um instante
invejado a sua felicidade. Mas depois, juro-lhe, palavra de
Caderousse, tenho lamentado muito a sua pouca sorte.

Fez-se um momento de silncio durante o qual o olhar fixo do
abade no cessou um instante de interrogar a fisionomia
mutvel do estalajadeiro.

- E o senhor conheceu o pobre rapaz? - continuou Caderousse.

- Fui chamado ao seu leito de morte para lhe oferecer os
derradeiros socorros da religio - respondeu o abade.

- De que morreu? - perguntou Caderousse, com voz estrangulada.

- De que se morre na priso quando se morre aos trinta anos,
se no da prpria priso?

Caderousse enxugou o suor que lhe corria pela testa.

- O que  estranho no meio de tudo isto - prosseguiu o abade -
 que Dants me jurou sempre no seu leito de morte, sobre o
Cristo cujos ps beijava, ignorar a verdadeira causa do seu
cativeiro.

-  verdade,  verdade - murmurou Caderousse --, no podia
sab-lo. No, Sr. Abade, ele no mentia, o pobre rapaz.

- Foi por isso que me encarregou de esclarecer a sua desgraa,
o que ele nunca pde lazer, e de reabilitar a sua memria, se
essa memria tivesse recebido qualquer mcula.

E o olhar do abade, cada vez mais fixo, devorou a expresso
quase sombria que apareceu no rosto de Caderousse.

- Um rico ingls - continuou o abade - seu companheiro de
infortnio e que saiu da priso aquando da II Restaurao
possua um diamante de grande valor. Ao sair da priso quis
deixar a Dants, que numa doena que contrara o tratara como
um irmo, uma prova do seu reconhecimento e ofereceu-lhe esse
diamante. Dants, em vez de se servir dele para subornar os
carcereiros, que alis poderiam receber-lhe o diamante e
atraio-lo depois, conservou-o sempre preciosamente, para o
caso de sair da priso. Porque se sasse da priso a sua
fortuna estava assegurada s com a venda do diamante.

- Era portanto, como o senhor disse, um diamante de grande
valor? - perguntou Caderousse, com os olhos coruscantes.

- Tudo  relativo - prosseguiu o abade. - De grande valor para
Edmond. O diamante estava avaliado em cinquenta mil francos.

- Cinquenta mil francos! - exclamou Caderousse. - Mas ento...
seria assim do tamanho de uma noz?

- Nem tanto - respondeu o abade. - Mas, vai ver por si mesmo,
pois trago-o comigo.

Caderousse pareceu procurar nas vestes do abade onde estaria a
pedra preciosa.

O abade tirou da algibeira uma caixinha de chagrm preto,
abriu-a e fez brilhar aos olhos deslumbrados de Caderousse a
cintilante maravilha, montada num anel de admirvel trabalho.

- E isso vale cinquenta mil francos?

- Sem a montagem, que por si s tambm tem certo valor -
respondeu o abade.

Fechou o estojo e voltou a meter na algibeira o diamante, que
continuava a brilhar no fundo do crebro de Caderousse.

- Mas como se explica que tenha esse diamante em seu poder Sr.
Abade? - perguntou Caderousse. - Edmond nomeou-o seu herdeiro?

- No, mas sim seu executor testamentrio. "Tenho trs bons
amigos e uma noiva", disse-me. "Estou certo de que todos os
quatro me lamentam amargamente. Um desses bons amigos
chamava-se Caderousse."

Caderousse estremeceu.

- "Outro..." - continuou o abade sem parecer notar a emoo de
Caderousse - "outro chamava-se Danglars e o terceiro"
acrescentou, "apesar de meu rival, estimava-me muito."

Um sorriso diablico iluminou as feies de Caderousse, que
fez um gesto para interromper o abade.

- Espere - atalhou este --, deixe-me acabar, c se tiver alguma
observao a fazer-me, far-ma- depois. "O outro, apesar de
meu rival, tambm me estimava e chamava-se Fernand. Quanto 
minha noiva, o seu nome era..." J no me lembro do nome da
noiva - disse o abade.

- Mercds - informou Caderousse.

- Ah, sim,  isso! - exclamou o abade, que depois soltou um
suspiro abafado. - Mercds...

- E que mais? - perguntou Caderousse.

- D-me uma garrafa de gua - pediu o abade.

Caderousse apressou-se a obedecer.

O abade encheu o copo e bebeu uns golos.

- Aonde amos? - perguntou, pousando o copo em cima da mesa.

- A noiva chamava-se Mercds.

- Sim,  isso. "V a Marselha..." Continua a ser Dants quem
fala, compreende?

- Perfeitamente.

- "Venda o diamante, faa cinco quinhes e divida-os entre
esses bons amigos, os nicos entes que me estimaram no mundo!"

- Como cinco quinhes? - atalhou Caderousse. - O senhor s se
referiu a quatro pessoas...

- Porque a quinta morreu, segundo me disseram... A quinta era
o pai de Dants.

- Sim, desgraadamente! - confirmou Caderousse, impressionado
pelos sentimentos que se entrechocavam em si. - Sim,
desgraadamente o pobre homem morreu.

- Soube do seu falecimento em Marselha - declarou o abade,
fazendo um esforo para parecer indiferente. - Mas a morte foi
h tanto tempo que no pude obter nenhum pormenor... Sabe
alguma coisa acerca do fim do velhote?

- Ora, ora!... A tal respeito ningum sabe mais do que eu!
Morava porta com porta com o pobre homem... Sim, meu Deus,
passado apenas um ano depois da priso do filho, o pobre velho
morreu!

- Mas de qu?

- Os mdicos chamaram  doena... gastrenterite, se me no
engano. Mas aqueles que o conheciam disseram que morreu de
dor. E eu, que quase o vi morrer, digo que morreu...

Caderousse deteve-se.

- Morreu de qu? - insistiu com ansiedade o padre.

- Bom... morreu de fome!

- De fome?! - gritou o abade, saltando do banco. - De fome? Os
mais vis animais no morrem de fome! Os ces que vagueiam
pelas ruas encontram uma mo compassiva que lhos atira um
bocado de po. E um homem, um cristo, morre de fome no meio
de outros homens que se dizem cristos como ele! Impossvel!
Oh,  impossvel.

- O que disse est dito! - redarguiu Caderousse.

- Mas no o devias ter dito! - exclamou uma voz vinda da
escada. - Porque te metes onde no s chamado?

Os dois homens viraram-se e viram atravs das barras do
corrimo a cara doentia da Carconte. Arrastara-se at ali e
escutava a conversa sentada no ltimo degrau, com a cara
apoiada nos joelhos.

- E tu, mulher, porque te intrometes na conversa? - volveu-lhe
Caderousse. - Este senhor pede informaes e a delicadeza
manda que lhas d.

- Pois sim, mas a prudncia manda que lhas recuses. Quem te
diz com que inteno te querem fazer falar, imbecil?

- Com a melhor das intenes, minha senhora, garanto-lhe -
interveio o abade. - O seu marido no tem nada a temer, desde
que responda francamente.

- Ora no tem nada a temer, no tem nada a temer!... Claro que
tem! Comea-se com bonitas promessas e depois diz-se apenas
que no tem nada a temer... Em seguida desaparece-se sem
cumprir nada do que se prometeu e uma boa manh a desgraa cai
sobre um pobre de Cristo sem que ele saiba donde lhe vem.

- Esteja tranquila, boa mulher, que nenhuma desgraa lhos vir
da minha parte, garanto-lhe.

A Carconte resmungou algumas palavras que ningum entendeu,
deixou cair novamente nos joelhos a cabea que levantara por
instantes e continuou a tremer de febre, deixando o marido
livre para continuar a conversa, mas colocada de maneira a no
perder uma palavra.

Entretanto, o abade bebera alguns golos de gua e recuperara a
serenidade.

- Mas ento esse infeliz velho estava assim to abandonado por
toda a gente, a ponto de morrer dessa maneira?

- Oh, senhor, Mercds, a catal, e o Sr. Morrel no o
abandonaram! - prosseguiu Caderousse. - Mas o pobre velho
tomou-se de uma antipatia profunda por Fernand, esse mesmo -
acrescentou Caderousse com um sorriso irnico - que Dants lhe
disse ser um dos seus amigos.

- E no o era? - perguntou o abade.

- Gaspard, Gaspard!... murmurou a mulher do cimo da escada. -
Presta ateno ao que vais dizer.

Caderousse fez um gesto de impacincia, nica resposta que se
dignou conceder  mulher, e respondeu ao abade:

- Pode-se ser amigo daquele cuja mulher se cobia? Dants, que
era um corao de ouro, chamava a toda essa gente amigos...
Pobre Edmond!... Na verdade,  prefervel que no tenha sabido
de nada. Teria muita dificuldade em lhes perdoar  hora da
morte... E, apesar do que dizem - continuou Caderousse  na
sua linguagem a que no faltava uma espcie de poesia rude --,
ainda tenho mais medo da maldio dos mortos do que do dio
dos vivos.

- Imbecil! - gritou a Carconte.

- Sabe ento - continuou o abade - o que Fernand fez contra
Dants?

- Se sei? Creio bem que sim.

- Fale ento.

- Gaspard, procede como quiseres, pois tu  que mandas -
interveio a mulher --, mas se confias em mim no digas mais
nada.

- Desta vez creio que tens razo, mulher - concordou
Caderousse.

- Portanto, no quer dizer mais nada? - perguntou o abade.

- Que adianta falar? - redarguiu Caderousse. - Se o rapaz
fosse vivo e me procurasse para saber concretamente quem eram
os seus amigos e os seus inimigos, no digo que no falasse.
Mas ele est debaixo da terra, segundo o senhor me disse, e j
no pode ter dio, j se no pode vingar. Punhamos uma pedra
em cima de tudo isso.

- Quer ento - disse o abade - que d a essa gente, que o
senhor considera indigna, a esses amigos que considera falsos,
uma recompensa destinada  fidelidade?

-  verdade, tem razo - admitiu Caderousse. - De resto, que
representaria agora para eles o legado do pobre Edmond? Uma
gota de gua no oceano!

- Sem contar que essa gente te pode esmagar com um gesto -
salientou a mulher.

- Como assim? Quer dizer que essa gente se tornou rica e
poderosa?

- Ento no conhece a sua histria?

- No. Conte-ma.

Caderousse pareceu reflectir um instante.

- No. Na verdade, seria demasiado longo - acabou por dizer.

- Tem todo o direito de se calar, meu amigo - disse o abade,
em tom da mais profunda indiferena --, e respeito os seus
escrpulos. Alis, o seu procedimento  o de um homem
verdadeiramente bom. No falemos portanto mais disso. De que
estava eu encarregado? De uma simples formalidade. Venderei
pois o diamante.

E tirou o diamante da algibeira, abriu o estojo e f-lo
brilhar nos olhos deslumbrados de Caderousse.


- Anda ver, mulher! - disse o estalajadeiro, com voz rouca.

- Um diamante! - exclamou a Carconte, levantando-se e descendo
com passo bastante firme a escada. - Que diamante  esse?

- No ouviste, mulher? - disse Caderousse. -  um diamante que
o pequeno nos legou: ao pai, em primeiro lugar, e depois aos
seus trs amigos, Fernand, Danglars e eu, e a Mercds, sua
noiva. O diamante vale cinquenta mil francos.

- Oh, que linda jia! - exclamou a mulher.

- Pertence-nos ento a quinta parte dessa importncia? -
perguntou Caderousse.

- Pertence - respondeu o abade. - Mais a parte do pai de
Dants, que me julgo autorizado a repartir pelos quatro.

- E porqu pelos quatro? - perguntou a Carconte.

- Porque so os quatro amigos de Edmond.

- Os amigos no so aqueles que atraioam! - murmurou
surdamente, por sua vez, a mulher.

- Claro, claro - acrescentou Caderousse. - Era exactamente o
que eu dizia.  quase uma profanao, quase um sacrilgio,
recompensar a traio, o crime talvez.

- Vocs assim querem... - redarguiu tranquilamente o abade,
voltando a guardar o diamante na algibeira da sotaina. - Agora
dem-me as moradas dos amigos de Edmond, a fim de poder
executar as suas ltimas vontades.

O suor corria em grandes gotas pela testa de Caderousse. Viu o
abade levantar-se e dirigir-se para a porta, como que para
deitar uma olhadela ao cavalo, e voltar.

Caderousse e a mulher entreolhavam-se com expresso indizvel.

- O diamante seria inteirinho para ns - disse Caderousse.

- Achas - respondeu a mulher.

- Um padre no viria aqui para nos enganar.

- Faz como quiseres - disse a mulher. - Quanto a mim, no me
meto nisso.

E retomou o caminho da escada, sempre tiritando. Batia os
dentes, apesar do calor escaldante que fazia.

No ltimo degrau parou um instante.

- Pensa bem, Gaspard! - aconselhou ao marido.

- Estou decidido! - respondeu Caderousse.

A Carconte reentrou no quarto suspirando. Ouviu-se o soalho
ranger-lhe debaixo dos ps at chegar  poltrona, onde se
sentou pesadamente.

- Est decidido a qu? - indagou o abade.

- A dizer-lhe tudo - respondeu o estalajadeiro.

- Na verdade, parece-me que  o melhor que tem a fazer -
concordou o padre. - No porque me interesse saber as coisas
que me queria esconder; mas enfim, se puder ajudar-me a
distribuir os legados de acordo com os desejos do testador,
ser melhor.

- Assim espero - respondeu Caderousse, com as faces
incendiadas pelo rubor da esperana e da cupidez.

- Escuto-o - disse o abade.

- Espere - pediu Caderousse. - Poderiam interromper-nos no
ponto mais interessante e seria desagradvel. Alis, ningum
precisa de saber que o senhor esteve aqui.

Dirigiu-se para a porta da estalagem e fechou-a, e para maior
precauo trancou-a tambm.

Entretanto, o abade escolheu um bom lugar para ouvir tudo 
vontade: sentou-se a um canto, de modo a ficar na sombra,
enquanto a luz cairia em cheio no rosto do seu interlocutor.
Com a cabea inclinada e as mos juntas, ou antes, crispadas,
preparava-se para ouvir com toda a ateno.

Caderousse puxou um banco e sentou-se diante dele.

- Lembra-te de que no te incitei a nada - disse a voz trmula
da Carconte, como se pudesse ver, atravs do sobrado, a cena
que se preparava.

- Est bem, est bem - redarguiu Caderousse. - No falemos
mais disso. Assumo toda a responsabilidade.

E comeou.


Captulo XXVII

O relato


- Antes de mais nada - disse Caderousse - devo, senhor,
pedir-lhe que me prometa uma coisa.

- Qual? - perguntou o abade.

- Se alguma vez utilizar algum dos factos que lhe vou revelar,
que ningum saiba que soube esses factos por mim, pois aqueles
de quem lhe vou falar so ricos e poderosos e se me tocassem
s que fosse com a ponta de um dedo quebrar-me-iam como vidro.

- Esteja descansado, meu amigo - declarou o abade. - Sou padre
e as confisses morrem comigo. Lembre-se de que o nosso
objectivo  apenas cumprir dignamente as ltimas vontades do
nosso amigo. Fale pois  vontade, mas sem dio. Diga a
verdade, toda a verdade. No conheo e provavelmente nunca
conhecerei as pessoas de que me vai falar. De resto, sou
italiano e no francs. Perteno a Deus e no aos homens e vou
regressar ao meu convento, donde sa apenas para cumprir as
ltimas vontades de um moribundo.

Esta promessa positiva pareceu dar a Caderousse um pouco de
confiana.

- Bom, nesse caso, quero, direi mesmo mais, devo desengan-lo
a respeito dessas amizades que o pobre Edmond julgava sinceras
e dedicadas.

- Comecemos pelo pai, se no se importa - sugeriu o abade. -
Edmond falou-me muito do velhote, pelo qual nutria profundo
amor.

- A histria  triste, senhor - observou Caderousse, abanando
a cabea. - Conhece-lhe provavelmente os princpios.

- Conheo - respondeu o abade. Edmond contou-me tudo at ao
momento de ser preso, num restaurantezinho perto de Marselha.

- Na Reserva! Oh, meu Deus, sim! Ainda vejo tudo tal qual
como se passou.

- No foi no prprio banquete de noivado?

- Foi. E o banquete, que tivera um comeo alegre, teve um fim
triste: um comissrio de polcia acompanhado de quatro
soldados entrou e prendeu Dants.

-  exactamente a que termina o que sei - declarou o padre. -
O prprio Dants no sabia mais nada alm do que lhe era
estritamente pessoal, pois nunca mais tornou a ver nenhuma das
cinco pessoas de que lhe falei, nem ouviu falar delas.

- Bom, uma vez, Dants preso, o Sr. Morrel correu a obter
informaes, que foram bem tristes. O velho voltou sozinho
para casa, despiu o fato de festa chorando, passou todo o dia
a andar de um lado para o outro no quarto e  noite no se
deitou, pois eu morava por baixo dele e ouvi-o andar toda a
noite. Eu prprio, devo diz-lo, tambm no dormi, porque a
dor do pobre pai me afligia muito e cada um dos seus passos
esmagava-me o corao como se ele me pusesse realmente o p no
peito.

"no dia seguinte, Mercds veio a Marselha implorar a
proteco do Sr. de Villefort, mas no conseguiu nada.
Aproveitou no entanto a oportunidade para visitar o velhote.
Quando o viu to triste e abatido e soube que passara a noite
sem se meter na cama e que no comia desde a vspera, quis
lev-lo para cuidar dele, mas o velho recusou terminantemente.


"-- No - dizia ele --, no sairei de casa, pois  a mim que o
meu pobre filho ama antes de mais nada e se sair da priso  a
mim que correr a ver em primeiro lugar. Que diria se no
estivesse aqui  sua espera?

"eu escutava tudo isto do patamar da escada, porque gostaria
que Mercds convencesse o velho a acompanh-la. O eco
daqueles passos todos os dias por cima da minha cabea no me
deixavam um instante de repouso.

- Mas o senhor mesmo no subia a casa do velho para o
confortar? - perguntou o padre.

- Ah, senhor, s se confortam aqueles que querem ser
confortados e ele no o queria ser! - respondeu Caderousse. -
De resto, no sei porqu, mas parece-me que tinha repugnncia
cm ver-me. Uma noite, ao ouvir os seus soluos, no aguentei
mais e subi; mas quando cheguei  porta j no soluava,
rezava. As palavras eloquentes e as splicas piedosas que
encontrava para se exprimir eram to comoventes que no
saberia repetir-lhas, senhor. Aquilo era mais do que devoo,
era mais do que dor. Por isso, eu que no sou beato falso nem
gosto dos Jesutas, disse para comigo naquele dia: " uma
grande sorte, na verdade, ser s e Deus no me ter dado
filhos, porque se fosse pai e sentisse dor idntica  do pobre
velho, como no poderia encontrar na memria nem no corao
nada do que ele diz a Deus, iria direitinho atirar-me ao mar
para no sofrer mais tempo."

- Pobre pai! - murmurou o padre.

-De dia para dia vivia mais s e isolado. O Sr. Morrel e
Mercds apareciam muitas vezes para o ver, mas a sua porta
estava sempre fechada. E embora eu tivesse a certeza absoluta
de que estava em casa, no respondia. Um dia em que contra o
seu hbito recebeu Mercds e em que a pobre pequena, ela
prpria desesperada, tentava reconfort-lo, o velho disse-lhe:
"Acredita, minha filha, que ele morreu, e que em vez de o
esperarmos  ele quem nos espera. Sinto-me muito feliz porque,
como sou o mais velho, serei por consequncia quem o ver
primeiro."

"por melhor que uma pessoa seja, como sabe, no tarda a
afastar-se daqueles que a entristecem, e o velho Dants acabou
por ficar completamente s. Apenas de tempos a tempos via
subir a casa dele pessoas desconhecidas, que desciam com
qualquer embrulho mal escondido. Compreendi depois que
continham esses embrulhos: o velho vendia pouco a pouco o que
possua para viver. Finalmente, o pobre homem chegou ao fim
dos seus mseros haveres. Devia trs meses de renda e
ameaaram p-lo na rua. Pediu mais oito dias e
concederam-lhos. Soube deste pormenor porque o senhorio foi a
minha casa depois de sair da dele.

"durante os trs primeiros dias, ouvi-o caminhar como de
costume, mas no quarto dia no ouvi mais nada. Arrisquei-me a
subir. A porta estava fechada, mas atravs da fechadura vi-o
to plido e abatido que, julgando-o muito doente, mandei
avisar o Sr. Morrel e corri a casa de Mercds. Ambos vieram
logo. O Sr. Morrel trazia um mdico. Este diagnosticou uma
gastrenterite e prescreveu dieta. Estava l, senhor, e nunca
mais esquecerei o sorriso do velho ao ouvir a receita.

"a partir desse dia passou a abrir a porta. Tinha uma
desculpa para no comer: o mdico prescrevera dieta.

O abade soltou uma espcie de gemido.

- Esta histria interessa-lhe, no  verdade, senhor? -
perguntou Caderousse.

- Interessa, de facto - respondeu o abade. -  comovente.

- Mercds voltou. Encontrou-o to mudado que como da primeira
vez quis mand-lo transportar para casa dela. Essa era tambm
a opinio do Sr. Morrel, que estava disposto a lev-lo 
fora. Mas o velho gritou tanto que tiveram medo. Mercds
ficou  sua cabeceira. O Sr. Morrel saiu depois de fazer sinal
 catal de que deixava uma bolsa em cima da chamin. Mas
fazendo finca p na receita do mdico, o velho recusou-se a
comer. Por fim, aps nove dias de desespero e abstinncia, o
velho amaldioando aqueles que tinham causado a sua desgraa e
dizendo a Mercds: "Se tornares a ver o meu Edmond, diz-lhe
que morro abenoando-o."

O abade levantou-se, deu duas voltas na sala e levou a mo
trmula  garganta seca.

- E o senhor julga que morreu...

- De fome, senhor, de fome - respondeu Caderousse. - No lhe
oculto verdade porque estamos aqui dois cristos.

O abade pegou com mo convulsa no copo de gua ainda meio
cheio, despejou-o de um trago, e conteve-se, com os olhos
avermelhados e as faces plidas.

- Reconhea que foi uma grande infelicidade!-disse com voz
rouca.

- Tanto maior, senhor, quanto  certo no ter Deus sido para
a metido nem achado. Os culpados foram apenas os homens.

- Passemos portanto a esses homens - disse o abade. - Mas
lembre-se - continuou com ar quase ameaador - de que se
comprometeu a dizer-me tudo. Vejamos, quem so esses homens
que fizeram morrer o filho de desespero e o pai de fome?

- Dois homens que o invejavam, um por amor e o outro por
ambio: Fernand e Danglars.

- E de que forma se manifestou essa inveja?

- Denunciaram Edmond como agente bonapartista.

- Mas qual dos dois o denunciou, qual dos dois foi o
verdadeiro culpado?

- Ambos, senhor. Um escreveu a carta e o outro p-la no
correio.

- E onde foi escrita essa carta?

- Na prpria Reserva, na vspera do casamento.

- Est certo, isso est certo. Oh, Faria, Faria, como
conhecias bem os homens e as coisas?...

- Que diz, senhor? - perguntou Caderousse.

- Nada - redarguiu o padre. - Continue.

- Foi Danglars quem escreveu a denncia com a mo esquerda,
para que a sua letra no fosse conhecida, e Fernand quem a
enviou.

- Mas o senhor tambm estava l! - gritou de sbito o abade.

- Eu? - disse Caderousse, atnito. - Quem lhe disse que tambm
l estava?

O abade viu que avanara demasiado.

- Ningum - respondeu. - Mas para estar to bem ao corrente de
todos esses pormenores  necessrio que os tenha testemunhado.

-  verdade - admitiu Caderousse com voz sufocada. - Eu
estava l.

- E no se ops a essa infmia? - indagou o abade. - Nesse
caso  seu cmplice.


- Senhor - disse Caderousse --, ambos me tinham feito beber a
ponto de quase no saber o que fazia. Via apenas atravs de
uma nuvem. Disse tudo o que pode dizer um homem em semelhante
estado, mas responderam-me ambos que era uma partida que
queriam pregar a Dants e da no adviria quaisquer
consequncias.

- Mas no dia seguinte, senhor, no dia seguinte bem viu o que
aconteceu. E no entanto no disse nada, embora estivesse
presente quando o prenderam.

- Tem razo, senhor, de facto estava l e quis falar, quis
dizer tudo, mas Danglars no me deixou. "E se por acaso 
culpado?", disse-me. "Se realmente aportou  ilha de Elba e o
encarregaram de trazer uma carta para o comit bonapartista de
Paris? Se encontram essa carta em seu poder, aqueles que o
defenderem passaro por seus cmplices."
"Eu temia a poltica, tal como ela se fazia ento, confesso, e
calei-me. Foi uma cobardia, admito, mas no foi um crime."

- Compreendo, limitou-se a deixar as coisas seguirem o seu
curso e mais nada.

-  verdade, senhor - confessou Caderousse-, e esse  o meu
remorso de dia e de noite. Peo muitas vezes perdo a Deus,
juro-lhe, tanto mais que essa aco, a nica que tenho
seriamente a censurar-me em toda a minha vida,  sem dvida a
causa da minha adversidade. Expio um instante egosmo. Por
isso, digo sempre  Carconte quando se queixa: "Cala-te,
mulher,  Deus que assim quer."

E Caderousse baixou a cabea, com todos os sinais de
verdadeiro arrependimento.

- Bem, senhor - disse o abade --, falou com franqueza. Quem se
acusa assim, merece perdo.

- Infelizmente - observou Caderousse --, Edmond morreu e no
me perdoou!

- Por ignorncia... - atalhou o abade.

- Mas agora talvez saiba - acrescentou Caderousse. - Dizem que
os mortos sabem tudo.

Fez-se um instante de silncio. O abade levantara-se e
passeava pensativo. Voltou para o seu lugar e sentou-se.

- J se me referiu duas ou trs vezes a um tal Sr. Morrel.
Quem  esse homem? - perguntou.

- Era o armador do Pharaon, o patro de Dants.

- E que papel teve esse homem em todo esse triste caso? -
perguntou o abade.

- O papel de um homem honesto, corajoso e amigo, senhor.
Intercedeu vinte vezes por Edmond. Quando o imperador
regressou, escreveu, suplicou e ameaou, de tal forma que na
II Restaurao o perseguiram encarniadamente como
bonapartista. Dez vezes, como j lhe disse, foi a casa do Tio
Dants; para o retirar de l, e ainda na vspera da sua morte,
como tambm j lhe disse, deixou em cima da chamin uma bolsa
com a qual se pagaram as dvidas do pobre homem e se fez face
ao seu funeral. Assim, o infeliz velho pde morrer ao menos
como vivera, sem prejudicar ningum. Sou eu que tenho a bolsa,
uma grande bolsa de rede encarnada.

- E esse Sr. Morrel ainda  vivo? - perguntou o abade.

-  - respondeu Caderousse.

- Nesse caso - prosseguiu o abade --, deve ser um homem
abenoado por Deus, rico... feliz...

Caderousse sorriu amargamente.

- Sim, feliz como eu - redarguiu.

- O Sr. Morrel deveria ser feliz! - exclamou o abade.

- Est quase na misria, senhor, e, pior do que isso, quase
desonrado.

- Como assim?

- Sim - prosseguiu Caderousse --,  como lhe digo. Depois de
vinte e cinco anos de trabalho; depois de adquirir a mais
respeitvel reputao na praa de Marselha, o Sr. Morrel est
completamente arruinado. Perdeu cinco navios em dois anos,
passou por trs falncias terrveis e a sua nica esperana
cifra-se apenas nesse mesmo Pharaon que comandava o pobre
Dants e que deve regressar da ndia com um carregamento de
cochonilha e ndigo. Se esse navio naufragar como os outros,
estar perdido.

- E esse infeliz tem mulher e filhos? - quis saber o abade.

- Tem uma mulher que no meio de tudo aquilo se comporta como
uma santa, uma filha que ia casar com o homem que amava, mas
cuja famlia j no o quer deixar desposar uma rapariga
arruinada, e tambm um filho que  tenente do Exrcito. Mas.
como deve calcular, tudo isto aumenta a sua dor, em vez de a
mitigar. Pobre e digno homem! Se no tivesse ningum, daria um
tiro nos miolos e pronto.

- Que coisa horrvel! - murmurou o padre.

- A est como Deus recompensa a virtude, senhor - comentou
Caderousse. - Veja, eu que nunca pratiquei uma m aco,
exceptuando a que lhe contei, estou na misria; eu, depois de
ver morrer a minha pobre mulher da febre, sem poder fazer nada
por ela, morrerei de fome como morreu o Tio Dants, enquanto
Fernand e Danglars nadam em ouro.

- Porque diz isso?

- Porque tudo lhes correu bem, ao passo que s pessoas
honestas tudo corre mal.

- Que foi feito de Danglars, o mais culpado, no  verdade, o
instigador?

- Que foi feito dele? Deixou Marselha e empregou-se por
recomendao do Sr. Morrel, que ignorava o seu crime, como
secretrio de um banqueiro espanhol. Durante a guerra de
Espanha encarregou-se de parte dos fornecimentos ao Exrcito
francs e enriqueceu. Ento, com esse primeiro dinheiro, jogou
na Bolsa e triplicou, quadruplicou os seus capitais. Vivo da
filha do seu banqueiro, casou com uma viva, a Sr.a de
Nargonne, filha do Sr. de Servieux, camareiro do actual rei, e
que goza de enorme influncia. Tornou-se milionrio e
fizeram-no baro. Portanto, agora  o baro Danglars, tem um
palcio na Rua do Mont-Blanc, dez cavalos nas cavalarias,
seis lacaios na sua antecmara e no sei quantos milhes nos
seus cofres.

- Ah! - exclamou o abade num tom singular. - E  feliz?

- Se  feliz? Quem pode garantir isso? A felicidade ou a
infelicidade  o segredo das paredes. As paredes tm ouvidos,
mas no tm lngua. Se se  feliz com uma grande fortuna,
Danglars  feliz.

- E Fernand?

- Fernand j no  o mesmo, tambm.

- Mas como pde enriquecer um pobre pescador catalo sem
recursos nem educao? No compreendo, confesso.

- Nem compreende ningum. Deve ter na vida qualquer segredo
estranho que ningum sabe.

- Mas, enfim, por meio de que degraus visveis subiu a essa
alta fortuna ou a essa alta posio?

- A ambas, senhor, a ambas! Possui ao mesmo tempo fortuna e
posio.

- O que me diz parece um conto de fadas.

- A verdade  que o caso tem todo o aspecto disso. Mas escute
que j vai compreender.

"Alguns dias antes do regresso de Napoleo, Fernand foi s
sortes. Os Bourbons deixaram os Catales muito quietinhos, mas
quando Napoleo chegou decretou um recrutamento extraordinrio
e Fernand foi obrigado a partir. Eu tambm parti, mas como era
mais velho do que Fernand e acabava de casar com a minha pobre
mulher, mandaram-me apenas para a costa.

"Fernand foi arregimentado nas tropas activas, passou a
fronteira com o seu regimento e assistiu  batalha de Ligny.

"Na noite que se seguiu  batalha estava de planto  porta
do general que tinha relaes secretas com o inimigo. Nessa
mesma noite o general deveria juntar-se aos Ingleses. Props a
Fernand que o acompanhasse. Fernand aceitou, abandonou o seu
posto e seguiu o general.

"o que levaria Fernand a um conselho de guerra se Napoleo
tivesse permanecido no trono, serviu-lhe de recomendao junto
dos Bourbons. Regressou a Frana com a dragona de alferes; e
como a proteco do general, que gozava de grande influncia,
o no abandonou, era capito em 1823, aquando da guerra de
Espanha, isto , no preciso momento em que Danglars arriscava
as suas primeiras especulaes. Fernand era espanhol e
mandaram-no a Madrid observar o estado de esprito dos seus
compatriotas. Voltou a encontrar Danglars, entendeu-se com
ele, prometeu ao seu general o apoio dos monrquicos da
capital e das provncias, recebeu promessas, assumiu pela sua
parte compromissos, guiou o seu regimento por caminhos s dele
conhecidos nos desfiladeiros guardados pelos monrquicos, e
enfim prestou naquela curta campanha tais servios que depois
da tomada do Trocadero o nomearam coronel e concederam-lhe a
cruz de oficial de Legio de Honra, bem como o ttulo de
conde.

- Que sorte! Que sorte! - murmurou o abade.

- Sim, mas escute que ainda no  tudo. Terminada a guerra de
Espanha, a carreira de Fernand encontrava-se comprometida
devido  longa paz que prometia reinar na Europa. Apenas a
Grcia se encontrava sublevada contra a Turquia e acabava de
iniciar a guerra da sua independncia. Todos os olhos estavam
postos em Atenas. Era moda lamentar e apoiar os Gregos. O
Governo francs, sem os proteger abertamente, como sabe,
tolerava as migraes parciais. Fernand solicitou e obteve
licena para ir servir na Grcia, embora permanecendo sempre
sob o controlo do Exrcito.

"Passado algum tempo soube-se que o conde de Morcerf, como
ento se chamava, entrara ao servio de Ali Pax com o posto
de general instrutor.

"Ali Pax foi assassinado, como sabe; mas antes de morrer
recompensou os servios por Fernand com uma importncia
considervel, com a qual Fernand regressou a Frana, onde o
seu posto de tenente-general lhe foi confirmado.

- De modo que hoje... - comeou o abade.

- De modo que hoje - prosseguiu Caderousse - possui um
magnfico palcio em Paris, na Rua do Helder, n.o 27.

o abade abriu a boca, permaneceu um instante como um homem
que hesita, mas fazendo um esforo sobre si mesmo perguntou:

- E Mercds? Garantiram-me que desaparecera...

- Sim, desapareceu - respondeu Caderousse --, mas como
desaparece o Sol para surgir no dia seguinte mais brilhante.

- Quer dizer que tambm fez fortuna? - inquiriu o abade com um
sorriso irnico.

- Neste momento, Mercds  uma das maiores damas de Paris -
respondeu Caderousse.

- Continue - pediu o abade. - Parece-me ouvir o relato de um
sonho. Mas eu prprio j vi coisas to extraordinrias que as
que me conta me surpreendem menos.

- Ao princpio, Mercds ficou desesperada com o golpe que lhe
roubava Edmond. J lhe falei das suas instncias junto do Sr.
de Villefort e da sua dedicao ao pai de Dants. No meio do
seu desespero atingiu-a nova dor a partida de Fernand, de
Fernand cujo crime ignorava e que considerava um irmo.

"Fernand partiu e Mercds ficou sozinha.

"Passou trs meses a chorar, sem notcias de Edmond nem de
Fernand, tendo apenas diante dos olhos um velho que morria de
desespero.

"Uma noite, depois de estar todo o dia sentada, como era seu
costume, no cruzamento dos dois caminhos que ligam Marselha
aos Catales, regressou a casa mais abatida do que nunca: nem
o noivo, nem o amigo regressavam por um ou por outro desses
dois caminhos e no tinha notcias de nenhum deles.

"De sbito, pareceu-lhe ouvir passos conhecidos. Virou-se com
ansiedade, a porta abriu-se e apareceu Fernand com o seu
uniforme de alferes.

"No era o homem por quem ela chorava, mas era parte do seu
passado que vinha ao seu encontro.

"Mercds agarrou nas mos de Fernand com um transporte que
este tomou por amor, embora no passasse da alegria de j se
no encontrar sozinha no mundo e de tornar a ver finalmente um
amigo, aps longas horas de triste solido. E depois, deve-se
diz-lo, Fernand nunca fora odiado; no era apenas amado.
Outro possua todo o corao de Mercds, mas esse estava
ausente... desaparecera... talvez tivesse morrido. Sempre que
lhe ocorria esta ltima ideia, Mercds rompia em soluos e
torcia as mos de dor, mas tal ideia, que dantes repelia
quando lhe era sugerida por outrem, acudia-lhe agora por si s
o esprito. De resto, pela sua parte o velho Dants no se
cansava de lhe dizer: "O nosso Edmond morreu, porque se no
tivesse morrido voltaria para junto de ns."

"O velho morreu, como j lhe disse. Se tivesse vivido, talvez
Mercds nunca se tivesse tornado a mulher doutro, pois ele
estaria presente para lhe censurar a sua infidelidade. Fernand
compreendeu isso. Quando soube da morte do velho, voltou.
Desta vez era tenente. Na primeira viagem no dissera a
Mercds uma palavra de amor; na segunda recordou-lhe que a
amava.

"Mercds pediu-lhe mais seis meses para esperar e chorar
Edmond.

- Tudo somado - disse o abade com um sorriso amargo - dava
dezoito meses ao todo. Quem pode exigir mais  noiva mais
adorada?

Depois murmurou as palavras do poeta ingls: Frailty thy
name is woman!

- Passados seis meses - prosseguiu Caderousse --, rwalizou-se
o casamento na Igreja dos Accoules.

- A mesma igreja onde devia casar com Edmond - murmurou o
padre. - S havia que mudar o noivo, e pronto.

- Mercds casou-se, portanto - continuou Caderousse. - Mas
embora aos olhos de todos parecesse calma, nem por isso deixou
de desmaiar ao passar diante da Reserva, onde dezoito meses
antes fora festejado o seu noivado com aquele que verificaria
amar ainda se se atrevesse a olhar o fundo do seu corao.

"Fernand, mais feliz mas no mais tranquilo, pois vi-o nessa
poca e temia constantemente o regresso de Edmond, Fernand
tratou imediatamente de expatriar a mulher e de se exilar ele
prprio. Os Catales ofereciam ao mesmo tempo demasiados
perigos e demasiadas recordaes.

"Partiram oito dias depois do casamento.

- Tornou a ver Mercds? - inquiriu o padre.

- Tornei, na altura da guerra de Espanha, em Perpinho, onde
Fernand a deixara. Ela ocupava-se ento da educao do filho.

O abade estremeceu.

- Do filho? - disse.

- Sim - respondeu Caderousse --, do pequeno Albert.

-Mas para instruir esse filho - continuou o abade - tinha ela
prpria de se instruir primeiro... Ora, parece-me ter ouvido
dizer a Edmond que era filha de um modesto pescador, bela mas
inculta.

- oh, nesse caso conhecia muito mal a sua prpria noiva! -
observou Caderousse. - Mercds poderia ser rainha, senhor, se
a coroa devesse assentar apenas nas cabeas mais belas e
inteligentes. A sua fortuna progredia j e ela progredia com a
sua fortuna. Aprendia desenho, msica... aprendia tudo. Alis,
aqui para ns, creio que fazia tudo isso s para se distrair,
para esquecer, que metia tantas coisas na cabea apenas para
combater o que tinha no corao. Mas agora tudo deve ser dito
- continuou Caderousse. - A riqueza e as honrarias
confortaram-na, sem dvida.  rica,  condessa, e no
entanto...

Caderousse deteve-se.

- No entanto, o qu? - perguntou o abade.

- No entanto, estou certo de que no  feliz - respondeu
Caderousse.

- Que o leva a supor isso?

- Bom... quando me encontrei na m de baixo, pensei que os
meus antigos amigos me ajudariam em qualquer coisa.
Apresentei-me em casa de Danglars, que nem sequer me recebeu.
Fui a casa de Fernand, que me mandou cem francos pelo seu
criado de quarto.

- Ento no viu nem um nem outro?

- No. Mas viu-me a Sr.a de Morcerf.

- Como assim?

- Quando sa, caiu-me aos ps uma bolsa. Continha vinte e
cinco luses. Levantei rapidamente a cabea e vi Mercds
fechar a persiana.

- E o Sr. de Villefort? - indagou o abade.

- Oh, esse no fora meu amigo, a esse no o conhecia, a esse
no tinha nada a pedir!

- Mas no sabe o que foi feito dele e a parte que tomou na
desgraa de Edmond?

- No. Sei apenas que algum tempo depois de o mandar prender
casou com Mademoiselle de Saint-Mran e em breve deixou
Marselha.

"Decerto a felicidade lhe sorriu, como aos outros; decerto 
rico como Danglars e considerado como Fernand. S eu, como v,
fiquei pobre, miservel e esquecido de Deus.

- Engana-se, meu amigo - redarguiu o abade. - s vezes, Deus
pode parecer esquecer, quando a sua justia descansa, mas
chega sempre um momento em que Ele se recorda, e aqui est a
prova.

Ao dizer estas palavras, o abade tirou o diamante da algibeira
e apresentou-o a Caderousse.

- Tome, meu amigo - disse-lhe --, tome este diamante porque
ele pertence-lhe.

- Como, a mim s?! - exclamou Caderousse. - Vamos, senhor, no
est a brincar?

- Este diamante devia ser vendido entre os seus amigos. Como
Edmond s tinha um amigo, a diviso  portanto intil. Tome
este diamante e venda-o. Vale cinquenta mil francos,
repito-lhe, importncia que, assim espero, bastar para o
tirar da misria.

- Oh, senhor! - disse Caderousse, estendendo timidamente uma
das mos e enxugando com a outra o suor que lhe perlava testa!
- Oh, senhor, no brinque com a felicidade ou o desespero de
um homem!

- Sei o que  a felicidade e o que  o desespero e nunca
brincarei sem motivo com os sentimentos das pessoas. Tome,
pois, mas em troca...

Caderousse, que tocava j no diamante, retirou a mo.

O abade sorriu.

- Em troca - continuou - d-me essa bolsa de seda encarnada
que o Sr. Morrel deixou em cima da chamin do velho Dants e
que me disse encontrar-se ainda em seu poder.

Cada vez mais atnito, Caderousse dirigiu-se para um grande
armrio de carvalho, abriu-o e deu ao abade uma bolsa
comprida, de seda vermelha desbotada, com duas argolas de
cobre que em tempos tinham sido douradas.

O abade pegou-lhe e em seu lugar deu o diamante a Caderousse.

- Oh, o senhor  um enviado de Deus! - exclamou Caderousse. -
Na verdade, ningum sabia que Edmond lhe dera este diamante e
o senhor poderia ficar com ele.

- Ao que parece, era o que farias - disse baixinho o abade.

Depois levantou-se e pegou no chapu e nas luvas.

- Ah! Tudo o que me disse  bem verdade, no ? Posso
acreditar inteiramente nas suas palavras? - perguntou ainda.

- Olhe, Sr. Abade - respondeu Caderousse - aqui tem ao canto
desta parede um Cristo de madeira benzida, e em cima deste ba
o livro dos Evangelhos da minha mulher. Abra o livro e jurarei
sobre ele, com a mo estendida para o crucifixo, pela salvao
da minha alma e pela minha f de cristo, que lhe contei tudo
como realmente se passou e como o anjo dos homens lhe contar
ao ouvido de Deus no dia do Juzo Final!

- Est bem - disse o abade - convencido pelo seu tom de que
Caderousse dizia a verdade. - Est bem, que esse dinheiro lhe
aproveite! Adeus, volto para longe dos homens, que tanto mal
fazem uns aos outros.

Esquivando-se com grande dificuldade aos entusisticos
agradecimentos de Caderousse, o abade retirou pessoalmente a
tranca da porta, saiu, montou a cavalo, cumprimentou pela
ltima vez o estalajadeiro, que se confundia em despedidas
ruidosas, e partiu na mesma direco em que viera.

Quando se virou, Caderousse viu atrs de si a Carconte, mais
plida e trmula do que nunca.

-  bem verdade o que ouvi?  -perguntou ela.

- O qu? Que nos dava o diamante s para ns? --
redarguiu Caderousse, quase louco de alegria.

- sim.

- Nada mais verdadeiro, porque... ei-lo!

A mulher olhou-o um instante. Depois, perguntou em voz
abafada:

- E se  falso?

Caderousse empalideceu e cambaleou.

- Falso - murmurou --, falso... E por que motivo me daria esse
homem um diamante falso?

- Para saber o teu segredo sem o pagar, imbecil!

Caderousse ficou um instante aturdido sob o peso desta
hiptese.

- Oh - disse passado um instante, pegando no chapu que
colocou por cima do leno encarnado atado  volta da cabea
--, vamos j sab-lo!

- Como?

- Hoje  dia de feira em Beaucaire e esto l joalheiros de
Paris. Vou mostrar-lho. Tu, mulher, guarda a casa. Dentro de
duas horas estarei de volta.

E Caderousse correu para fora de casa e meteu, sempre
correndo, pela estrada oposta  que pouco antes tomara o
desconhecido.

- Cinquenta mil francos! - murmurou a Carconte a ss. - 
dinheiro... mas no  uma fortuna.


Captulo XXVIII

Os registos das prises


No dia seguinte quele em que se passou na estrada de
Bellegarde a Beaucaire a cena que acabamos de contar, um homem
de trinta a trinta e dois anos, envergando fraque azul-claro,
calas amarelo-torrado e colete branco, tendo ao mesmo tempo
aspecto e sotaque britnicos, apresentou-se no gabinete do
maire de Marselha.

- Senhor - disse-lhe --, sou chefe de escritrio da casa
Thomson  French, de Roma. H dez anos que mantemos relaes
com a casa Morrel  Filhos, de Marselha. Temos aproximadamente
uma centena de milhar de francos comprometidos nessas
relaes, e no sem alguma preocupao,  atendendo a que se
diz a casa ameaa runa. Venho portanto propositadamente de
Roma para lhe pedir informaes acerca dessa casa.

- Senhor - respondeu o maire --, sei efectivamente que h
quatro ou cinco anos o azar parece perseguir o Sr. Morrel.
Perdeu sucessivamente quatro ou cinco navios e passou por trs
ou quatro falncias. Mas no me compete, embora eu prprio
seja seu credor por uma dezena de milhar de francos, dar
qualquer informao a respeito do estado da sua fortuna.
Pergunte-me o que penso do Sr. Morrel como maire e
responder-lhe-ei que  um homem probo at ao exagero e que at
agora satisfez todos os seus compromissos com perfeita
pontualidade.  tudo o que lhe posso dizer, senhor. Se deseja
saber mais, dirija-se ao Sr. de Boville, inspector das
prises, Rua de Noailles, n.o 15, que tem, segundo creio,
duzentos mil francos colocados na casa Morrel. Se h realmente
alguma coisa a temer, como esta importncia  mais
considervel do que a minha encontr-lo- provavelmente melhor
informado do que eu a tal respeito.

O ingls pareceu apreciar to grande delicadeza, cumprimentou,
saiu e dirigiu-se no andamento especial dos filhos da
Gr-Bretanha para a rua indicada.

O Sr. de Boville estava no seu gabinete. Ao v-lo, o ingls
fez um gesto de surpresa que parecia indicar no ser a
primeira vez que se encontrava diante da pessoa que vinha
visitar. Quanto ao Sr. de Boville, estava to desesperado que
era evidente que todas as faculdades do seu esprito,
absorvidas no pensamento que o ocupava naquele momento, no
deixavam nem  sua memria nem  sua imaginao vagar para se
ocupar do passado.

Com a fleuma da sua nao, o ingls fez-lhe pouco mais ou
menos nos mesmos termos a pergunta que fizera ao maire de
Marselha.

- Oh, senhor, infelizmente os seus receios no podem ser mais
fundados e tem na sua presena um homem desesperado! -
exclamou o Sr. de Boville. - Tinha duzentos mil francos
colocados na casa Morrel, todo o dote da minha filha que
contava casar dentro de quinze dias. Esses duzentos mil
francos eram reembolsveis, cem mil em 15 deste ms e cem mil
em quinze do prximo ms. Avisei o Sr. Morrel de que desejava
que o reembolso fosse feito pontualmente e ele veio aqui
apenas h meia hora dizer-me que se o navio Pharaon no
entrar daqui at ao dia 15 lhe ser impossvel pagar-me.

- Mas isso assemelha-se muito a um subterfgio - observou o
ingls.

- Diga antes, senhor, que se assemelha a uma falncia! -
gritou o Sr. de Boville, desesperado.

O ingls pareceu reflectir um instante e depois perguntou:

- Assim, senhor, esse crdito inspira-lhe receios?

- Para ser mais exacto, considero-o perdido.

- Bom, nesse caso compro-lho.

- O senhor?

- Sim, eu.

- Mas com uma desvalorizao enorme, sem dvida?

- No, por duzentos mil francos. A nossa casa - acrescentou o
ingls, rindo no se dedica a esse gnero de negcios.

- E o senhor paga...

- Em dinheiro.

E o ingls tirou da algibeira um mao de notas de banco que
devia ascender ao dobro da importncia que o Sr. de Boville
receava perder.

Um relmpago de alegria passou pelo rosto do Sr. de Boville.
No entanto, fez um estoro sobre si mesmo e disse:

- Senhor, devo preveni-lo de que segundo todas as
probabilidades, no cobrar mais de seis por cento dessa
importncia.

- Isso no  comigo - respondeu o ingls. - Isso  com a casa
Thomson  French, em nome da qual procedo. Talvez a ela
interesse precipitar a runa de uma casa rival. Tudo o que sei
senhor,  que estou pronto a entregar-lhe essa importncia em
troca da sua transmisso. Apenas pretendo uma comisso de
corretagem.

- Claro, senhor,  justssimo! - exclamou o Sr. de Boville. -
A comisso  habitualmente de um e meio; quer dois! Quer trs?
Quer cinco? Quer mais, enfim? Diga!

- Senhor - respondeu o ingls, rindo --, sou como a minha
casa, tambm no me dedico a essa espcie de negcios. No, a
minha comisso de corretagem  de natureza muito diferente.

- Diga, senhor. Estou s suas ordens.

- O senhor no  inspector das prises?

- Sou, h mais de catorze anos.

- Possui registos de entrada e sada?

- Sem dvida.

- A esses registos devem estar juntas notas relativas aos
prisioneiros?

- Cada prisioneiro tem o seu processo.

- Bom, senhor, fui educado em Roma pelo pobre diabo de um
abade que desapareceu de sbito. Soube mais tarde que estivera
detido no Castelo de If e desejaria conhecer alguns pormenores
acerca da sua morte.

- Como se chamava?

- Abade Faria.

- Oh, lembro-me perfeitamente dele! - exclamou o Sr. de
Boville. - Estava louco.

- Dizia-se.

- Oh, estava-o, sem dvida nenhuma!

-  possvel. E qual era o seu gnero de loucura?

- Pretendia saber da existncia de um tesouro imenso e
oferecia importncias astronmicas ao Governo se o pusessem
liberdade.

- Pobre diabo! Morreu?

- Sim, senhor, h cinco ou seis meses pouco mais ou menos, em
Fevereiro ltimo.

- Possui uma excelente memria, senhor, para se lembrar assim
das datas.

- Lembro-me desta porque a morte do pobre diabo foi
acompanhada de uma circunstncia singular.

- Pode-se saber qual? - perguntou o ingls com uma expresso
de curiosidade de um observador profundo se admiraria de
encontrar em rosto to fleumtico.

- Oh, meu Deus, claro que sim, senhor! A cela do abade ficava
distante quarenta e cinco a cinquenta ps, aproximadamente, da
de um antigo agente bonapartista, um dos que mais tinham
contribudo para o regresso do usurpador em 1815, homem muito
resoluto e perigoso.

- Deveras? - disse o ingls.

- Sim - respondeu o Sr. de Boville. - Eu prprio tive a
oportunidade de ver esse homem em 1816 ou 1817 e s se descia
 sua cela com um piquete de soldados. Esse homem causou-me
profunda impresso e nunca esquecerei a sua cara.

O ingls sorriu imperceptivelmente.

- Mas dizia, senhor - atalhou --, que as duas celas...

- Estavam separadas por uma distncia de cinquenta ps.
Mas parece que Edmond Dants...

- Esse homem perigoso chamava-se?...

- Edmond Dants. Sim, senhor, parece que Edmond Dants
arranjara ferramentas ou fabricara-as, porque se encontrou uma
galeria atravs da qual os prisioneiros comunicavam um com o
outro.

- Essa galeria fora sem dvida praticada com uma finalidade de
evaso?

-- Exacto. Mas infelizmente para os prisioneiros o abade Faria
teve um ataque de catalepsia e morreu.

- Compreendo. Isso deve ter frustrado os planos de evaso.

- Quanto ao morto, sim - respondeu o Sr. de Boville. - Mas
quanto ao vivo, no. Pelo contrrio, Dants viu nisso um meio
de antecipar a sua fuga. Pensava sem dvida que os
prisioneiros que morriam no Castelo de if eram enterrados num
cemitrio vulgar. Por isso, levou o defunto para a sua cela,
tomou o lugar dele no saco onde fora encerrado e esperou o
momento do funeral.

- Era um meio arriscado e que indicava certa coragem -
observou o ingls.

- Oh, como j lhe disse, senhor, era um homem forte e
perigoso! Felizmente, ele prprio desembaraou o Governo dos
receios que nutria a seu respeito.

- Como assim?

- Como? No compreende?

- No.

- O Castelo de If no tem cemitrio. Os mortos so pura e
simplesmente lanados ao mar depois de se lhos prender aos ps
um pelouro de trinta e seis.

- E depois? - perguntou o ingls, como se fosse de raciocnio
lento.

- E depois?... Prenderam-lhe um pelouro de trinta e seis aos
ps e atiraram-no ao mar!

- Deveras?! - exclamou o ingls.

-  verdade, senhor - continuou o inspector. - Decerto
compreende qual foi a surpresa do fugitivo quando se sentiu
precipitado do cimo dos rochedos. Gostaria de ver a sua cara
nesse momento.

- Seria difcil...

- Mas no tem importncia! - exclamou o Sr. de Boville, a quem
a certeza de recuperar os seus duzentos mil francos punha de
bom humor. - No tem importncia! Imagino-a...

E desatou a rir.

-- E eu tambm - disse o ingls.

E desatou igualmente a rir, mas como riem os Ingleses, isto ,
entredentes.

- Assim - continuou o ingls, o primeiro a deixar de rir --,
assim, o fugitivo morreu afogado?

- Evidentemente.

- De modo que o governador do castelo se livrou ao mesmo tempo
do furioso e do louco?

- Exacto.

- No entanto, deve ter sido lavrada uma espcie de acta do
sucedido, no? - perguntou o ingls.

- Claro, claro, passou-se uma certido de bito. Compreende,
os parentes de Dants, se os tinha, podiam ter interesse em se
assegurar se estava morto ou vivo.

- De forma que podem estar agora tranquilos, se houver
herana. Est morto e bem morto.

- Oh, meu Deus, se est! Atestar-se-lho- quando quiserem.

- Perfeitamente - disse o ingls. - Mas voltaremos aos
registos.

-  verdade. Esta histria desviou-nos disso. Perdo.

- Perdo de qu? Da histria? De modo nenhum, at a achei
curiosa.

- E -o, de facto. Portanto, deseja ver, senhor tudo o que se
relaciona com o seu pobre abade, que era a bondade
personificada, no  verdade?

- Dar-me-ia prazer.

- Entre no meu gabinete que eu mostro-lhe o que pretende.

Ambos entraram no gabinete do Sr. de Boville, onde
efectivamente tudo se encontrava em perfeita ordem: cada
registo tinha o seu nmero e cada processo o seu cacifo. O
inspector convidou o ingls a sentar-se na sua poltrona,
colocou diante dele o registo e o processo relativos ao
Castelo de if e deu-lhe todo o tempo que quisesse para os
consultar, enquanto ele prprio, sentado num canto, lia o seu
jornal.

O ingls encontrou facilmente o processo relativo ao abade
Faria. Mas parece que a histria que lhe contara o Sr. de
Boville o interessava vivamente, porque depois de tomar
conhecimento das primeiras peas continuou a folhear at
chegar ao processo de Edmond Dants. Encontrou a cada coisa
no seu lugar: denncia, interrogatrio, petio de Morrel e
despacho do Sr. de Villefort. Dobrou muito devagarinho a
denncia e meteu-a na algibeira. Leu o interrogatrio e
verificou que o nome de Noirtier no era mencionado nele;
percorreu a petio de 10 de Abril de 1815, em que Morrel, de
acordo com o conselho do substituto, exagerava com excelente
inteno, visto Napoleo reinar ento, os servios que Dants
prestara  causa imperial, servios que o certificado de
Villefort tornava incontestveis, e compreendeu tudo: aquela
petio dirigida a Napoleo e guardada por Villefort
tornara-se depois da II Restaurao uma arma terrvel nas mos
do procurador rgio. No estranhou portanto, ao folhear o
registo, encontrar esta nota aposta ao seu nome:

edmond dants: Bonapartista fantico, tomou parte activa
no regresso da ilha de Elba. Manter no maior segredo e sob a
mais rigorosa vigilncia.

Por baixo destas linhas estava escrito com outra letra: "Em
vista da nota supra, nada a fazer".

No entanto, comparando a letra da nota com a do certificado
escrito por baixo da petio de Morrel, adquiriu a certeza de
que a nota fora escrita pela mesma pessoa que escrevera o
certificado, ou seja, por Villefort.


Quanto  segunda nota, o ingls deduziu que tora escrita por
algum inspector que tomara interesse passageiro pela situao
de Dants, mas que a recomendao da primeira colocara na
impossibilidade de dar seguimento a esse interesse.

Como dissemos, o inspector, por descrio e para no incomodar
o pupilo do abade Faria nas suas investigaes, afastara-se e
lia Le Drapeau blanc.

No viu portanto o ingls dobrar e meter na algibeira a
denncia escrita por Danglars debaixo do caramancho da
-Reserva, que tinha o carimbo dos correios de Marselha, com
a data de 27 de Fevereiro e a hora de tiragem das 6 da tarde.

Mas, devemos diz-lo, mesmo que o tivesse visto ligava to
pouca importncia quele papel e tanta aos seus duzentos mil
francos que se no oporia ao que fizesse o ingls, por mais
incorrecto que fosse.

- Obrigado - disse este fechando ruidosamente o registo. - J
tenho aquilo de que precisava. Agora compete-me cumprir a
minha promessa. Faa-me uma simples transferncia do seu
crdito, em que declare ter recebido o seu montante. Vou
entregar-lhe o dinheiro.

Cedeu o seu lugar  secretria ao Sr. de Boville, que se
sentou sem hesitar e se apressou a lazer a transferncia
pedida, enquanto o ingls contava as notas de banco a um canto
da papeleira.


Capitulo XXJX

A casa Morrel


Quem tivesse deixado Marselha alguns anos antes e conhecesse o
interior da casa Morrel, teria encontrado uma grande mudana
se regressasse e a visse na poca a que chegmos.

Em vez do ar de vida, abastana e felicidade que se exala, por
assim dizer, de uma casa prspera; em vez de caras alegres
mostrando-se por detrs das cortinas das janelas e de
escriturrios atarefados atravessando os corredores de pena
atrs da orelha; em vez do ptio a abarrotar de fardos e cheio
de gritos e risos dos carregadores, encontraria  primeira
vista no sei qu de triste e de morto. No corredor deserto e
no ptio vazio, dos numerosos empregados que outrora enchiam
os escritrios, s dois restavam: um era um rapaz de vinte e
trs ou vinte e quatro anos, chamado Emmanuel Raymond, que
estava apaixonado pela filha de Morrel e que ficara e ficaria
na casa fizessem o que fizessem os pais para o tirar de l; o
outro era um velho cobrador zarolho chamado Cocls, alcunha
que lhe tinham posto os rapazes que povoavam outrora aquela
grande colmeia zumbidora, hoje quase desabitada, e que
substitura to bem e to completamente o seu verdadeiro nome
que havia todas as probabilidades de nem sequer se virar se
algum o chamasse actualmente por esse nome.

Cocls permanecera ao servio do Sr. Morrel, embora se tivesse
verificado na situao do excelente homem uma mudana
singular: subira ao mesmo tempo ao posto de tesoureiro e
descera  categoria de criado.

Mas nem por isso deixara de ser o mesmo Cocls, bom paciente e
dedicado, embora inflexvel a respeito da aritmtica, o nico
ponto em que no recearia enfrentar o mundo inteiro, mesmo o
Sr. Morrel. S conhecia a sua tbua de Pitgoras, que sabia na
ponta da unha, fosse qual fosse a forma como lha virassem e o
erro em que tentassem faz-lo cair.

No meio da tristeza geral que invadira a casa Morrel, Cocls
era o nico que permanecia impassvel. Mas que ningum se
engane a tal respeito: essa impassibilidade no era
consequncia de falta de amizade, mas sim, pelo contrrio, de
uma convico inquebrantvel. Como os ratos que, segundo
dizem, abandonam pouco a pouco o navio antecipadamente,
condenado pelo destino a perecer no mar, de maneira que esses
hspedes egostas j o deixaram por completo no momento em que
levanta ferro, tambm, como dissemos, toda a multido de
escriturrios e empregados que ganhavam a vida em casa do
armador tinham pouco a pouco abandonado o escritrio e o
armazm. Ora, Cocls vira-os afastarem-se todos sem pensar
sequer em averiguar o motivo da sua partida. Como dissemos,
para Cocls tudo se resumia numa questo de nmeros, e como,
nos vinte anos que tinha de casa, sempre vira os pagamentos
efectuarem-se pontualmente e com toda a regularidade, no
admitia que essa regularidade se pudesse interromper e esses
pagamentos suspender, tal como um moleiro que possui uma
azenha alimentada pelas guas de uma ribeira caudalosa no
admite que essa ribeira possa deixar de correr. Com efeito,
at ali nada viera ainda desmentir a convico de Cocls. No
ltimo fim de ms, os pagamentos tinham-se efectuado com
rigorosa pontualidade. Cocls descobrira um erro de setenta
cntimos cometido pelo Sr. Morrel em seu prejuzo, e no mesmo
dia restitura os catorze soldos excedentes ao Sr. Morrel que,
com um sorriso melanclico, os recebera e deixara cair numa
gaveta quase vazia, dizendo:

- Obrigado, Cocls. Voc  a prola dos tesoureiros.

E Cocls retirara-se satisfeitssimo, porque um elogio do Sr.
Morrel, a prola das pessoas honestas de Marselha, lisonjeava
mais Cocls do que a gratificao de cinquenta escudos.

Mas depois daquele fim de ms to vitoriosamente concludo, o
Sr. Morrel passara por momentos cruis. Para fazer face a esse
fim de ms, reunira todos os seus recursos, e ele prprio,
temendo que a noticia da sua penria se espalhasse em Marselha
se o vissem recorrer a semelhantes extremos, fizera uma viagem
 feira de Beaucaire para vender algumas jias pertencentes 
mulher e  filha e parte das suas pratas. Graas a esse
sacrifcio, tudo se passara ainda dessa vez com a maior honra
para a casa Morrel. Mas a caixa ficara completamente vazia. O
crdito, assustado pelos boatos que corriam, retirara-se com
seu egosmo habitual, e para fazer face aos cem mil francos a
reembolsar em 15 do ms corrente ao Sr. de Boville, bem como
aos outros cem mil francos vencveis em 15 do ms seguinte, o
Sr. Morrel s podia contar, na realidade, com a esperana do
regresso do Pharaon, de cuja partida soubera por um navio
que levantara ferro ao mesmo tempo que ele chegara a bom
porto.

Mas esse navio, vindo como o Pharaon de Calcut, j chegara
havia quinze dias, ao passo que do Pharaon no havia
nenhuma notcia.

Foi neste estado de coisas que no dia seguinte quele em que
fechara com o Sr. de Boville o importante negcio a que nos
referimos o enviado da casa Thomson  French, de Roma, se
apresentou em casa do Sr. Morrel.

Foi Emmanuel quem o recebeu. O rapaz, a quem cada nova cara
assustava, porque cada cara nova anunciava um novo credor que,
na sua preocupao, vinha atormentar o patro, o rapaz,
dizamos, quis poupar a esse mesmo patro os incmodos daquela
visita e perguntou ao visitante o que pretendia. Mas o
visitante declarou que no tinha nada a dizer ao Sr. Emmanuel
e que era com o Sr. Morrel em pessoa que desejava falar
Emmanuel chamou, suspirando, Cocls. Cocls apareceu e o rapaz
ordenou-lhe que acompanhasse o estrangeiro ao Sr. Morrel.

Cocls foi  frente e o estrangeiro seguiu-o.

Na escada encontraram-se com uma bonita rapariga de dezasseis
a dezassete anos, que olhou o estrangeiro com inquietao.

Cocls no notou tal expresso do rosto da jovem, que no
entanto pareceu no ter escapado ao estrangeiro.

- O Sr. Morrel est no seu gabinete, no est, Mademoiselle
Julie? - perguntou o tesoureiro.

- Est... Pelo menos creio que est - respondeu a rapariga,
hesitando. - Veja primeiro, Cocls, e se o meu pai l estiver
anuncie esse senhor.

- Anunciar-me seria intil, menina - respondeu o ingls. -  o
Sr. Morrel no conhece o meu nome. Este bom homem tem de dizer
apenas que sou o chefe de escritrio da firma Thomson 
French, de Roma, com a qual a casa do senhor seu pai mantm
relaes.

A jovem empalideceu e continuou a descer, enquanto Cocls e o
estrangeiro continuavam a subir.

Ela entrou no escritrio onde se encontrava Emmanuel e Cocls
puxou de uma chave de que era possuidor, o que denotava a
confiana que o patro depositava nele, abriu a porta situada
no canto do patamar do segundo andar, introduziu o estrangeiro
numa antecmara, abriu segunda porta que fechou atrs de si e,
depois de ter deixado por um instante sozinho o enviado da
casa Thomson  French reapareceu e fez-lhe sinal de que podia
entrar.

O ingls entrou. Encontrou o Sr. Morrel sentado a uma
secretria, plido perante as colunas assustadoras do registo
onde estava inscrito o seu passivo.

Ao ver o estrangeiro, o Sr. Morrel fechou o registo,
levantou-se e puxou uma cadeira. Depois, quando viu o
estrangeiro sentar-se, sentou-se tambm.

Catorze anos tinham modificado muito o digno negociante, o
qual contava trinta e seis anos no incio desta histria e
estava agora prestes a chegar aos cinquenta. Os cabelos
tinham-lhe embranquecido e a sua testa estava sulcada de rugas
de preocupao. Por ltimo, o seu olhar, outrora to firme e
decidido, tornara-se vago e irresoluto e parecia recear
constantemente ser forado a deter-se numa ideia ou num homem.

O ingls olhou-o com um sentimento de curiosidade
evidentemente laivada de interesse.

- Senhor - disse Morrel, a quem tal exame pareceu aumentar o
mal-estar --, pediu para me falar?

- Pedi, senhor. J sabe da parte de quem venho, no  verdade?

- Da parte da casa Thomson  French. Foi pelo menos o que me
disse o meu tesoureiro.

- E disse-lhe a verdade, senhor. A casa Thomson  French tem
de pagar em Frana, durante o corrente ms e no prximo,
trezentos ou quatrocentos mil  francos e, conhecedora da
rigorosa pontualidade da casa Morrel, reuniu todo o papel que
encontrou com a sua assinatura e encarregou-me de,  medida
que esse papel se vencer, o cobrar e dar destino a tais
fundos.

Morrel soltou um profundo suspiro e passou a mo pela testa
coberta de suor.

- Portanto, senhor, possui letras assinadas por mim? -
perguntou Morrel.

-  verdade, senhor, e de montante bastante considervel.

- Quanto? - perguntou Morrel em voz que procurara tornar
firme.

- Vejamos primeiro - atalhou o ingls, tirando um mao de
papis da algibeira - uma transferncia de duzentos mil
francos feita para a nossa casa pelo Sr. de Boville, o
inspector das prises. Reconhece dever esta importncia ao Sr.
de Boville?

- Reconheo, senhor. Trata-se de um investimento feito por ele
em minha casa, a quatro e meio por cento, vai para cinco anos.

- E que o senhor deve reembolsar...

- Metade em 15 deste ms e metade em 15 do ms prximo.

- Exacto. Depois temos aqui trinta e dois mil e quinhentos
francos, a liquidar em fins do ms corrente. Trata-se de
letras assinadas pelo senhor e endossadas  nossa ordem por
terceiros portadores.

- Tambm reconheo esses dbitos - declarou Morrel, a quem o
rubor da vergonha subia  cara ao pensar que pela primeira vez
na sua vida talvez no pudesse honrar a sua assinatura. - 
tudo?

- No, senhor. Tenho ainda para o fim do ms prximo estes
valores que nos foram cedidos pelas casas Pascal e Wild 
Turner, de Marselha, no montante de cerca de cinquenta e cinco
mil francos. Ao todo, duzentos e oitenta e sete mil e
quinhentos francos.

 impossvel de descrever o que sofria o pobre Morrel durante
esta enumerao.

- Duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos francos - repetiu
maquinalmente.

- Sim, senhor - respondeu o ingls. - Ora - continuou depois
de um momento de silncio --, no lhe ocultarei, Sr. Morrel,
que sem deixar de ter em conta a sua probidade, at agora sem
mcula,  voz pblica em Marselha que o senhor no est em
condies de satisfazer os seus compromissos.

Perante esta declarao quase brutal, Morrel empalideceu
horrivelmente.

- Senhor - redarguiu --, at agora, e h mais de vinte e
quatro anos que recebi esta casa das mos do meu pai, que ele
prprio geriu durante trinta e cinco anos, at agora nenhuma
letra assinada por Morrel  Filhos foi apresentada  cobrana
sem ser paga.

- Sim, sei isso - respondeu o ingls. - Mas fale francamente,
de homem de honra para homem de honra: pagaria estas com a
mesma pontualidade?

Morrel estremeceu e olhou aquele que lhe falava, assim, com
mais convico do que ele.

- As perguntas feitas com essa franqueza deve-se dar uma
resposta franca. Sim, senhor, pagarei se, como espero, o meu
navio chegar a bom porto, pois a sua chegada proporcionar-me-
o crdito que os sucessivos acidentes de que tenho sido vtima
me privaram. Mas se por desgraa o Pharaon, o ltimo
recurso com que conto, no chegar...

As lgrimas subiram aos olhos do pobre armador.

- Se esse ltimo recurso lhe faltasse?... - insistiu o seu
interlocutor.

- Bom - continuou Morrel --,  cruel diz-lo, senhor... mas
como j estou habituado  desgraa,  mister que me habitue
tambm  vergonha. Nesse caso, creio que seria obrigado a
suspender os meus pagamentos.

- No tem amigos que o possam ajudar nessa circunstncia?

Morrel sorriu tristemente.

- Nos negcios no h amigos, senhor, bem sabe, h apenas
correspondentes.

-  verdade -- murmurou o ingls. - Portanto,  essa a sua
nica esperana?

- A nica.

- A derradeira?

- A derradeira.

- De forma que se essa esperana falhar...

- Estarei perdido, senhor, completamente perdido.

- Quando vinha para aqui estava um navio a entrar no porto.

- Bem sei, senhor. Um rapaz que permaneceu fiel  minha pouca
sorte passa parte do seu tempo num mirante situado no cimo da
casa, na esperana de me vir anunciar em primeira mo uma boa
notcia. Soube por ele da entrada desse navio.

- E no  o seu?

-- No,  um navio bordels, a Gironde. Tambm vem da
ndia, mas no  o meu.

- Talvez tenha avistado o pharaon e lhe traga alguma
notcia.

- Confesso-lhe, senhor, que receio quase tanto ter noticias do
meu trs mastros como permanecer na incerteza. A incerteza
ainda  esperana.

Depois, o Sr. Morrel acrescentou com voz abalada:

- Este atraso no  natural - O Pharaon partiu de Calcut
em 5 de Fevereiro; h mais de um ms que deveria c estar.

- Que  isto? - perguntou o ingls, apurando o ouvido. - Que
significa este barulho?

- Oh, meu Deus, meu Deus! - exclamou Morrel, empalidecendo. -
Que mais haver ainda?

De facto, ouvia-se um grande barulho na escada: idas e vindas
e at se ouviu um grito de dor.

Morrel levantou-se para ir abrir a porta, mas as foras
faltaram-lhe e voltou a cair na poltrona.

Os dois homens ficaram diante um do outro. Morrel tremendo
como varas verdes, o estrangeiro olhando-o com expresso de
profunda compaixo. O barulho cessara, mas dir-se-ia que
Morrel esperava qualquer coisa. Aquele baralho tinha uma causa
e devia ter um efeito.

Pareceu ao estrangeiro que algum subia suavemente a escada e
que os passos de vrias pessoas se detinham no patamar.

Foi introduzida uma chave na fechadura da primeira porta e
ouviu-se essa porta chiar nos gonzos.

- S duas pessoas tm a chave daquela porta - murmurou Morrel.
- Cocls e Julie.

Ao mesmo tempo a segunda porta abriu-se e viu-se aparecer a
rapariga, plida e lavada em lgrimas.

Morrel ergueu-se muito trmulo e apoiou-se no brao da
poltrona, pois de contrrio no conseguiria ter-se de p.
Queria interrogar, mas no tinha voz.

- Oh, meu pai! - exclamou a jovem, juntando as mos. - Perdoe
 sua filha ser a portadora de uma m notcia!

Morrel empalideceu horrivelmente. Julie lanou-se-lhe nos
braos.

- oh, meu pai, meu pai, coragem!

- Assim, o Pharaon naufragou? - perguntou Morrel em voz
estrangulada.

A rapariga no respondeu, mas fez um sinal afirmativo com a
cabea encostada ao peito do pai.

- E a tripulao? - indagou Morrel.

- Salva - respondeu a jovem. -  Foi salva pelo navio bordels
que acaba de entrar no porto.

Morrel levantou ambas as mos ao cu com uma expresso de
resignao e reconhecimento sublime.

- Obrigado, meu Deus! - disse Morrel. - Ao menos s a mim
feris.

Por mais fleumtico que fosse o ingls, nem por isso uma
lgrima deixou de lhe humedecer as plpebras.

- Entrem - disse Morrel. - Entrem, pois presumo que esto
todos  porta.

com efeito, mal pronunciou estas palavras, a .Sr.a Morrel
entrou soluando. emmanuel seguia-a. Ao fundo da antecmara
viam-se as figuras rudes de sete ou oito marinheiros seminus.
Ao ver aqueles homens, o ingls estremeceu. Deu um passo em
frente como que para se lhos dirigir, mas conteve-se e
ocultou-se, pelo contrrio, no canto mais escuro e afastado do
gabinete.

A Sr.a Morrel foi sentar-se na poltrona e tomou uma das mos
do marido nas suas, enquanto Julie continuava encostada ao
peito do pai. Emmanuel ficara a meio caminho do gabinete e
parecia servir de ligao entre o grupo da famlia Morrel e os
marinheiros que se encontravam  porta.

- Como foi que aconteceu? - perguntou Morrel.

- Aproxime-se, Penelon - disse o rapaz --, e conte como as
coisas se passaram.

Um velho marinheiro bronzeado pelo sol do equador, adiantou-se
rodando nas mos os restos de um chapu.

- Bons dias, Sr. Morrel - disse, como se tivesse sado de
Marselha na vspera e chegasse de Aix ou Toulon.

- Bons dias, meu amigo - respondeu o armador, sem poder deixar
de sorrir apesar das lgrimas. - Mas onde est o comandante?

- O comandante, Sr. Morrel, ficou doente em Palma. Mas se Deus
quiser no ser nada e v-lo- chegar um dia destes de to boa
sade como o senhor ou eu.

- Est bem... Agora fale, Penelon - pediu o Sr. Morrel.

Penelon passou o tabaco de mascar do lado direito para o lado
esquerdo da boca, ps a mo diante desta, virou-se, lanou na
antecmara um longo jacto de saliva negra, adiantou um p e
disse, gingando-se:

- Na altura, Sr. Morrel, encontrvamo-nos qualquer coisa como
entre o cabo Branco e o cabo Bojador, navegando com uma linda
brisa de su-sudoeste, depois de oito dias de calmaria, quando
o comandante Gaumard se aproximou de mim,  que ia ao leme, e
me disse: "Tio Penelon, que lhe parecem aquelas nuvens que se
erguem l adiante no horizonte?"

"-- Eu estava precisamente naquele momento a olhar para elas.

"-- Que me parecem, comandante? Parece-me que sobem um bocado
mais depressa do que tm direito e que so mais negras do que
conviria a nuvens que no tivessem ms intenes.

"--  tambm a minha opinio - disse o comandante - e vou j
tomar as minhas precaues. Temos demasiadas velas para o
vento que no tarda a soprar... Ol? Eh? Preparar para ferrar
os sobrejoanetes e iar baixo a giba!

"-- Era tempo. Ainda a ordem no estava cumprida e j o vento
estava sobre ns e o navio ficava de querena.

"-- Demnio, ainda temos demasiado pano! - disse o comandante.
- Preparar para ferrar a vela grande.

"-- Cinco minutos depois a vela grande estava ferrada e
navegmos com a mezena, as gveas e os joanetes.

"-- Que  isso, Tio Penelon, porque est a abanar a cabea -
perguntou-me o comandante.

"-- No seu lugar no ficaria por a...

"-- Creio que tem razo, velho, vamos ter vendaval - disse
ele.

"-- Com a breca, comandante - respondi-lhe eu --, quem
comprasse o que se passa l adiante por um vendaval faria um
rico negcio? Trata-se de uma tempestade de se lhe tirar o
chapu ou eu j no percebo nada disto!

"-- Quer dizer, via-se vir o vento como se v vir a poeira em
Montredon. Felizmente tinha diante de si um homem que o
conhecia.

"-- Preparar para colocar dois rizes nas gveas! - gritou o
comandante. - Largar bolinas, bracear ao vento, amainar as
gveas e carregar as talhas sobre as vergas!

- Isso no era o suficiente nessas paragens - interveio o
ingls. - Eu teria colocado quatro rizes e ter-me-ia
desembaraado da mezena.

Esta voz firme, sonora e inesperada fez estremecer toda a
gente. Penelon ps a mo em pala sobre os olhos e olhou aquele
que criticava com tanta arrogncia a manobra do seu
comandante.

- Fizemos ainda melhor do que isso, senhor - redarguiu o velho
marinheiro com certo respeito. - Ferrmos a brigantina e
metemos o leme ao vento para correr diante da tempestade. Dez
minutos depois, ferrmos as gveas; e deixmo-nos ir em rvore
seca.

- O navio era muito velho para arriscar isso - observou o
ingls.

- Exactamente! Foi o que nos perdeu. Depois de sermos
sacudidos durante doze horas como se o Diabo tivesse tomado
conta de ns, o navio abriu gua. "Penelon", disse-me o
comandante, "parece-me que nos afundamos, meu
velho. D-me o leme e desce ao poro."

"-- Dei-lhe o leme e desci. Havia j trs ps de gua. Tornei
a subir, gritando: "As bombas! As bombas!" Mas era j
demasiado tarde. Mesmo assim deitmos mos  obra, mas creio
que quanto mais gua tirvamos mais gua havia.

"-- Com a breca -- disse ao cabo de quatro horas de trabalho
--, j que nos afundamos deixemo-nos afundar, pois s se morre
uma vez!

"--  assim que d o exemplo, mestre Penelon? - disse o
comandante. - Pois j vai ver...

"E foi buscar um par de pistolas ao meu camarote.

"-- Estoiro os miolos ao primeiro que largar a bomba! -
gritou.

- Muito bem - disse o ingls.

- No h nada para dar coragem como as boas razes - continuou
o marinheiro-, tanto mais que entretanto o tempo melhorara e o
vento amainara. Mas tambm no era menos verdade que a gua
continuava a subir, no muito, talvez duas polegadas por hora,
mas enfim, subia. Duas polegadas por hora, veja o senhor,
parece coisa de nada, mas em doze horas so pelo menos vinte e
quatro polegadas e vinte e quatro polegadas so dois ps...
Com mais dois ou trs ps que j tnhamos, eram cinco. Ora
quando um navio tem cinco ps de gua no ventre, pode passar
por hidrpico.

"-- Pronto j basta -- disse o comandante. -- O Sr. Morrel no
ter nada a censurar-nos; fizemos o que pudemos para salvar o
navio. Agora  preciso tentar salvar os homens. Para a lancha,
rapazes, e mais depressa do que nunca!

-- Escute, Sr. Morrel - continuou Penelon --, ns gostvamos
muito do Pharaon; mas por muito que um marinheiro goste do
seu navio, gosta ainda mais da sua pele.
Por isso, no espermos que o comandante nos desse a ordem
duas vezes. Mesmo assim, veja o senhor, o navio gemia e
parecia dizer-nos: "Andem, vo-se embora! V, vo-se embora!"
E tinha razo, o pobre Pharaon, pois sentamo-lo
literalmente afundar-se-nos debaixo dos ps.
Num abrir e fechar de olhos a lancha estava no mar e ns oito
dentro dela.

"-- O comandante foi o ltimo a descer, ou antes, no, no
desceu, porque no queria deixar o navio. Eu  que o agarrei
pela cintura e o atirei aos camaradas, e em seguida saltei.
Era tempo. Mal acabei de saltar a coberta partiu-se com um
barulho que parecia a bordada de um navio de guerra de
quarenta e oito.

"-- Dez minutos depois, mergulhou de proa, em seguida de popa
e depois ps-se a girar sobre si mesmo como um co a correr
atrs do rabo. E por fim, acabou-se. Pronto, est tudo dito,
acabou-se o Pharaon!

"-- Quanto a ns, passmos trs dias sem comer nem beber, e j
falvamos em tirar  sorte quem alimentaria os outros quando
vimos a Cironde. Fizemos-lhe sinais, ela viu-nos, aproou a
ns, mandou-nos a sua lancha e recolheu-nos. Aqui tem o que se
passou, Sr. Morrel, palavra de honra! Palavra de marinheiro!
No  verdade, rapazes?

Um murmrio geral de aprovao indicou que o narrador
conquistara todos os sufrgios pela veracidade do fundo e pelo
pitoresco dos pormenores.

- Bom, meus amigos - disse o Sr. Morrel --, todos vocs so
homens honrados e eu sabia antecipadamente que na desgraa que
me atingia s havia um culpado: o meu destino.
Trata-se da vontade de Deus e no de culpa dos homens.
Respeitemos a vontade de Deus. Agora, quanto lhes  devido de
soldo?

- Ora, no falemos disso, Sr. Morrel!

- Pelo contrrio, falemos - redarguiu o armador, com um
sorriso triste.

- Bom, devem-no trs meses... - disse Penelon.

- Cocls, pague duzentos francos a cada um destes dignos
homens. Noutra poca, meus amigos - continuou Morrel --,
acrescentaria: "E d a cada um duzentos francos de
gratificao." Mas os tempos esto maus, meus amigos, e o
pouco dinheiro que me resta j no me pertence. Desculpem-me
portanto e no sejam menos meus amigos por isso.

Penelon fez uma careta de comoo, virou-se para os
companheiros, trocou algumas palavras com eles e voltou-se de
novo:

- Quanto a isso, Sr. Morrel - disse passando o tabaco de
mascar de um lado para o outro da boca e lanando na
antecmara segundo jacto de saliva que foi emparelhar com o
primeiro --, quanto a isso...

- Quanto a isso o qu?

- Do dinheiro...

- Sim...

- Bom, Sr. Morrel, os camaradas dizem que de momento lhes
chega cinquenta francos a cada um e que esperaro pelo resto.

- Obrigado, meus amigos, obrigado! - exclamou o Sr. Morrel,
profundamente comovido. - Tm todos excelente corao. Mas
recebam, recebam, e se arranjarem um bom lugar aproveitem-no,
pois esto livres.

Esta ltima parte da frase produziu efeito prodigioso sobre os
dignos marinheiros, que se entreolharam com ar desorientado.
Penelon, que ficara sem flego, quase engoliu o rolo de
tabaco.

Felizmente, levou a tempo a mo  garganta.

- Como, Sr. Morrel? - disse com voz estrangulada. - Como, o
senhor despede-nos?! Isso quer dizer que no est satisfeito
connosco?

- No, meus filhos - respondeu o armador. - No estou
descontente com vocs, muito pelo contrrio, nem os despeo.
Mas que querem, j no tenho navios e portanto j no
necessito de marinheiros.

- Como  que j no tem navios? - replicou Penelon. - Pois
mandar construir outros e ns esperaremos! Graas a Deus,
sabemos o que  navegar de bolina.

- J no tenho dinheiro para mandar construir navios, Penelon
- confessou o armador com um sorriso triste. - No posso
portanto aceitar essa resposta, por mais generosa que seja.

- Pois bem, se no tem dinheiro escusa de nos pagar.
Faremos como o pobre Pharaon, correremos em rvore seca e
pronto!

- Basta, basta, meus amigos - pediu Morrel, sufocado de
emoo. - Vo, peo-lhes. Voltaremos a encontrar-nos em tempos
melhores. Emmanuel - acrescentou o armador --, acompanhe-os e
providencie para que os meus desejos sejam satisfeitos.

- Pelo menos at breve, no  verdade, Sr. Morrel? - disse
Penelon.

- Sim, meus amigos. Pelo menos assim espero. Vo.

E fez um sinal a Cocls, que saiu  frente. Os marinheiros
seguiram o tesoureiro e Emmanuel seguiu os marinheiros.

- Agora - disse o armador  mulher e  filha --, deixem-me s
um instante. Tenho de conversar com este senhor.

E indicou com os olhos o mandatrio da casa de Thomson 
French, que permanecera de p e imvel no seu canto durante
toda a cena, na qual apenas participara com as poucas palavras
que reproduzimos. As duas mulheres ergueram os olhos para o
estrangeiro, que tinham esquecido por completo, e
retiraram-se. Mas ao sair a jovem lanou ao visitante um
sublime olhar de splica a que ele respondeu com um sorriso
que um observador frio se admiraria de ver desabrochar naquele
rosto de gelo. Os dois homens ficaram ss.

- Pronto, senhor! - disse Morrel, voltando a deixar-se cair na
poltrona. - Viu tudo, ouviu tudo, no tenho mais nada a
dizer-lhe.

- Vi, senhor - redarguiu o ingls --, que foi vtima de uma
nova desgraa, to imerecida como as outras, e isso reforou o
desejo que j tinha de lhe ser agradvel.

- Oh, senhor! - exclamou Morrel.

- Vejamos - continuou o estrangeiro. - Sou um dos seus
principais credores, no  verdade?

-  pelo menos o que possui os valores a mais curto prazo.

- Deseja um prazo para me pagar?

- Um adiamento poderia salvar-me a honra e consequentemente a
vida.

-  que prazo deseja?

Morrel hesitou.

- Dois meses - respondeu.

- Bom - disse o estrangeiro --, concedo-lhe trs.

- Mas acha que a casa Thomson  French...

- Esteja tranquilo, senhor. Responsabilizo-me por tudo.
Estamos hoje a 5 de Junho.

-  verdade.

- Portanto, reformemos todas estas letras para 5 de Setembro.
E no dia 5 de Setembro, s onze horas da manh (o relgio da
sala marcava onze horas precisamente naquele momento),
apresentar-me-ei em sua casa.

- Esper-lo-ei, senhor - disse Morrel --, e ser pago ou
estarei morto.

Estas ltimas palavras foram pronunciadas to baixo que o
estrangeiro as no pde ouvir.

As letras foram reformadas, rasgaram-se as antigas e o pobre
armador encontrou-se pelo menos com trs meses  sua frente
para reunir os seus ltimos recursos.

O ingls recebeu os seus agradecimentos com a fleuma
caracterstica da sua nao e despediu-se de Morrel, que o
acompanhou, manifestando-lhe a sua gratido, at  porta.

Na escada, o ingls voltou a encontrar Julie. A rapariga
simulava descer, mas na realidade esperava-o.

- Oh, senhor! - exclamou, juntando as mos.

- Menina - disse-lhe o estrangeiro --, um dia receber uma
carta assinada por Simbad, o Marinheiro... Faa ponto por
ponto, o que lhe disser essa carta, por mais estranha que lhe
parea a recomendao.

- Sim, senhor - respondeu Julie.

- Promete-me que o far?

- Juro-lhe.

- Muito bem! Adeus, menina. Seja sempre uma boa e santa filha,
como , e tenho muita esperana de que Deus a recompensar
dando-lhe Emmanuel por marido.

Julie soltou um gritinho, corou como uma cereja e agarrou-se
ao corrimo para no cair.

O estrangeiro continuou o seu caminho depois de lhe fazer um
aceno de adeus.

No ptio encontrou Penelon com um mao de notas no valor de
cem francos em cada mo, que parecia no poder decidir-se a
guardar.

- Venha, meu amigo - disse-lhe. - Preciso de falar consigo.


Captulo XXX


O 5 de Setembro


O prazo concedido pelo mandatrio da casa Thomson  French no
momento em que Morrel esperava o pior pareceu ao pobre armador
uma dessas reviravoltas do destino que anunciam ao homem que o
azar se cansou finalmente de se encarniar contra ele. No
mesmo dia contou o que lhe acontecera  filha,  mulher e a
Emmanuel, e um pouco de esperana, seno de tranquilidade,
reentrou na famlia. Mas infelizmente Morrel no tinha apenas
negcios com a casa Thomson  French, que se mostrara to
transigente para consigo. Como dissera, no comrcio tm-se
correspondentes e no amigos. Quando pensava profundamente no
caso, nem sequer compreendia o comportamento generoso da firma
Thomson  French para consigo e s explicava por meio desta
reflexo inteligentemente egosta que essa teria feito: "Mais
vale amparar um homem que nos deve cerca de trezentos mil
francos, e receber esses trezentos mil francos ao fim de trs
meses, do que apressar-lhe a runa e receber apenas seis ou
oito por cento do capital."

Infelizmente, quer por dio, quer por cegueira, nem todos os
correspondentes de Morrel fizeram a mesma reflexo, e alguns
at fizeram a reflexo contrria. As letras aceites por Morrel
foram portanto apresentadas a pagamento com escrupuloso rigor
e, graas ao adiamento concedido pelo ingls, pagas por Cocls
 boca do cofre. Cocls continuou portanto a viver na sua
tranquilidade fatdica e s o Sr. Morrel viu com terror que se
tivesse tido de reembolsar, em 15, os cem mil francos de
Boville e, em 30, os trinta e dois mil e quinhentos francos de
letras para as quais, assim como para o crdito do inspector
das prises, dispunha de um adiamento, seria naquele ms um
homem perdido.

A opinio de todo o comrcio de Marselha era que Morrel no
resistiria aos sucessivos revezes que tinham desabado sobre
si. A surpresa foi portanto grande quando o viram satisfazer
no fim do ms, com a pontualidade habitual, todos os seus
compromissos. Apesar disso, a confiana no reentrou nos
espritos e foi unanimemente adiada para o fim do prximo ms
a declarao de falncia do infeliz armador.

Passou-se todo o ms em esforos inauditos da parte de Morrel
para reunir todos os seus recursos. Noutros tempos o seu
papel, fosse a que prazo fosse, era aceito com confiana e at
solicitado. Morrel tentou negociar papel a noventa dias e
encontrou os cofres de todos os bancos fechados. Felizmente,
Morrel tinha algumas cobranas com as quais podia contar.
Essas cobranas efectuaram-se e Morrel encontrou-se ainda em
condies de fazer face aos seus compromissos quando chegou o
fim de Julho.

No tocante ao mandatrio da casa Thomson  French, ningum
mais lhe pusera a vista em cima em Marselha. No dia seguinte
ou dois dias depois da sua visita a Morrel desaparecera. Ora,
como em Marselha s falara com o maire, o inspector das
prises e o Sr. Morrel, a sua passagem s deixara como sinal a
diferente recordao com que ficaram dele essas trs pessoas.

Quanto aos marinheiros do Pharaon, parece que tinha
encontrado qualquer colocao, pois tambm haviam
desaparecido.

O comandante gaumard, refeito da indisposio que o retivera
em Palma, regressou por seu turno, mas hesitava em se
apresentar ao Sr. Morrel. Este soube porm da sua chegada e
foi procur-lo pessoalmente. O digno armador sabia
antecipadamente, pela descrio de Penelon, a forma corajosa
como se comportara o comandante durante todo o sinistro e foi
ele quem procurou anim-lo. Alm disso, levou-lhe o montante
do seu soldo, que o comandante Gaumard no ousaria ir receber.

Quando descia a escada, o Sr. Morrel encontrou Penelon, que
subia. Penelon fizera, ao que parecia, bom emprego do seu
dinheiro, pois estava todo vestido de novo. Ao ver o seu
armador, o digno timoneiro pareceu muito embaraado.
Afastou-se para o canto mais distante do patamar, passou
alternadamente o rolo de tabaco da esquerda para a direita e
da direita para a esquerda, arregalando os olhos atarantado, e
correspondeu apenas com uma tmida presso ao aperto de mo
que, com a sua cordialidade habitual, lhe ofereceu o Sr.
Morrel. Este atribuiu o embarao de Penelon  elegncia da sua
indumentria. Era evidente que o excelente homem no se dera
por si prprio a semelhante luxo; portanto, estava j sem
dvida contratado a bordo de qualquer outro navio e a sua
vergonha provinha, se assim se pode dizer, do facto de no ter
usado mais tempo do luto pelo Pharaon. Talvez viesse at
informar o comandante Gaumard da sua boa fortuna e
apresentar-lhe alguma proposta da parte do seu novo patro.

"Excelentes homens", disse Morrel para consigo enquanto se
afastava, "oxal o seu novo patro seja capaz de os estimar
como eu os estimo e ser mais feliz do que eu!"

Agosto passou em tentativas constantemente renovadas por
Morrel para readquirir o seu antigo crdito ou conseguir
outro. Em 20 de Agosto soube-se em Marselha que embarcara na
mula-posta e disse-se ento que a falncia deveria ser
declarada no fim desse ms e que Morrel partira
antecipadamente para no assistir a esse acto cruel, delegado,
sem dvida, no seu primeiro-escriturrio Emmanuel e no seu
tesoureiro Cocls. Mas contra todas as previses quando chegou
o dia 31 de Agosto a tesouraria abriu como de costume, Cocls
apareceu atrs da rede de arame, calmo como o justo Horcio,
examinou com a mesma ateno o papel que lhe apresentavam e
depois, da primeira  ltima, pagou as letras com a habitual
pontualidade. Apareceram at dois reembolsos, como o Sr.
Morrel previra, que Cocls pagou com a prontido com que
pagara as letras aceites pelo armador. As pessoas j no
compreendiam nada e adiavam, com a tenacidade caracterstica
dos profetas da desgraa, a falncia para fins de Setembro.

Morrel chegou no dia 1. Toda a famlia o esperava com grande
ansiedade. Daquela viagem a Paris deveria surgir a sua
derradeira oportunidade de salvao. Morrel pensara em
Danglars. Actualmente milionrio e noutros tempos seu
protegido, pois fora graas  recomendao de Morrel que
Danglars entrara ao servio do banqueiro espanhol, em casa do
qual iniciara a sua imensa fortuna. Actualmente, dizia-se,
Danglars possua seis ou oito milhes e crdito ilimitado.
Podia portanto, sem tirar um escudo da algibeira, salvar
Morrel: bastar-lhe-ia garantir um emprstimo e Morrel estaria
salvo. Havia muito tempo que Morrel se lembrara de Danglars,
mas existem repulsas instintivas de que no somos senhores e
Morrel adiara tanto quanto lhe fora possvel recorrer a esse
meio supremo. E tivera razo, pois regressara abatido pela
humilhao de uma recusa.

Mesmo assim,  chegada, Morrel no deixara escapar nenhum
queixume nem proferira nenhuma recriminao. Beijara chorando
a mulher e a filha, estendera a mo amiga a Emmanuel,
fechara-se no seu gabinete do segundo andar e mandara chamar
Cocls.

- Desta vez, estamos perdidos - disseram as duas mulheres a
Emmanuel.

Depois, num curto concilibulo entre elas, decidiram que Julie
escreveria ao irmo, de guarnio em Nmes, para que viesse
imediatamente.

As pobres mulheres sentiam instintivamente que necessitavam de
todas as suas foras para aparar o golpe que as ameaava.
Alis, Maximilien Morrel, apesar de contar apenas vinte e dois
anos, tinha j grande influncia sobre o pai.

Era um jovem firme e recto. Quando se tratara de abraar uma
carreira, o pai no quisera impor-lhe antecipadamente um
futuro e consultara os gostos do jovem Maximilien. Este
declarara ento que queria seguir a carreira militar, fizera
brilhantemente os estudos adequados e entrara por concurso
para a Escola Politcnica e sara de l alferes do 53.o de
linha. Havia um ano que tinha esse posto, mas tinha a promessa
de ser promovido a tenente na primeira oportunidade. No
regimento, Maximilien Morrel era citado como rgido observador
no s de todas as obrigaes impostas aos soldados, mas ainda
de todos os deveres inerentes ao homem, pelo que s o tratavam
por estico. Escusado ser dizer que muitos daqueles que lhe
davam este epteto o repetiam por o ter ouvido e nem sequer
sabiam o que ele significava.

Era este jovem que a me e a irm chamavam em seu auxlio,
para as amparar na circunstncia grave em que pressentiam ir
encontrar-se.

No se enganavam acerca da gravidade dessa circunstncia,
porque pouco depois de o Sr. Morrel entrar no seu gabinete com
Cocls, Julie viu sair este ltimo, plido, trmulo e de rosto
descomposto.

Quis interrog-lo ao passar por ela, mas o excelente homem
continuou a descer a escada com uma precipitao que lhe no
era habitual e limitou-se a exclamar, erguendo os braos ao
cu:

- Oh, menina, menina, que horrvel desgraa! Quem esperaria
alguma vez uma coisas destas!

Pouco depois, Julie viu-o tornar a subir carregado como dois
ou trs volumosos registos, uma pasta e um saco de dinheiro.

Morrel consultou os registos, abriu a pasta e contou o
dinheiro.

Todos os seus recursos ascendiam a seis ou oito mil francos e
as suas cobranas at ao dia cinco a quatro ou cinco mil, o
que totalizava, avaliando por alto, um activo de catorze mil
francos para pagar uma letra de duzentos e oitenta e sete mil
e quinhentos francos. Nem sequer havia meio de oferecer
semelhante amortizao.

No entanto, quando desceu para jantar, Morrel parecia bastante
calmo. Mas tal calma assustou mais as duas mulheres do que o
faria o mais profundo abatimento.

Depois do jantar, Morrel tinha o hbito de sair. Ia tomar o
caf ao Crculo dos Fcios e ler o Smaphore. Naquele dia,
porm, no saiu e tornou a subir para o seu gabinete.

Quanto a Cocls, parecia completamente estupidificado. Durante
parte do dia conservara-se no ptio, sentado numa pedra, de
cabea descoberta debaixo de um sol de trinta graus.

Emmanuel tentava tranquilizar as mulheres, mas era pouco
eloquente. o rapaz encontrava-se to ao corrente dos negcios
da casa que no podia deixar de adivinhar que uma grande
catstrofe estava prestes a desabar sobre a famlia Morrel.

Anoiteceu. As duas mulheres no se deitaram, esperando que
quando descesse do seu gabinete Morrel fosse ter com elas. Mas
ouviram-no passar diante da sua porta e estugar o passo,
receando, sem dvida, que o chamassem.

Escutaram e ouviram-no entrar no seu quarto e fechar a porta
por dentro.

A Sr.a Morrel mandou deitar a filha. Em seguida, cerca de meia
hora depois de Julic se retirar, levantou-se, descalou os
sapatos e deslizou pelo corredor, a fim de ver atravs da
fechadura o que fazia o marido.

No corredor notou uma sombra que se retirava: era Julie que,
tambm inquieta, precedera a me.

A jovem foi ao encontro da Sr.a Morrel.

- Est a escrever - disse-lhe.

As duas tinham-se adivinhado sem trocar palavra.

A Sr.a Morrel inclinou-se ao nvel da fechadura. Com efeito,
Morrel escrevia. Mas o que no notara a filha notou-o a Sr.a
Morrel: o marido escrevia em papel selado.

Assaltou-a a ideia terrvel de que fazia o seu testamento.
Estremeceu da cabea aos ps, mas teve a coragem de no dizer
nada.

No dia seguinte, o Sr. Morrel parecia absolutamente calmo.
Esteve no seu gabinete como de costume, desceu para almoar
como habitualmente e apenas depois do jantar fez sentar a
filha junto de si, tomou-lhe a cabea nos braos e manteve-a
assim durante muito tempo apertada ao peito.

 noite, Julie disse  me que, embora na aparncia calmo,
notara que o corao do pai batia violentamente.

Os dois outros dias decorreram de forma mais ou menos
idntica. No dia 4 de Setembro  noite, o Sr. Morrel pediu 
filha a chave do seu gabinete.

Julie estremeceu ao ouvir tal pedido, que lhe pareceu
sinistro. Por que motivo lhe pediria o pai uma chave que ela
sempre tivera e que s lhe tiravam na infncia para a
castigar?

A jovem fitou o Sr. Morrel.

- Que mal fiz eu, meu pai, para que me tire a chave?

- Nada, minha filha - respondeu o pobre Morrel, a quem esta
pergunta to simples da filha fez brotar as lgrimas dos
olhos. - Nada, apenas necessito dela.

Julie simulou procurar a chave.

- Devo l-la deixado no meu quarto.

E saiu. Mas em vez de ir ao quarto, desceu e correu a
consultar Emmanuel.

- No entregue a chave ao seu pai - disse-lhe Emmanuel - e
amanh de manh, se for possvel, no o deixe.

Ela procurou interrogar o rapaz, mas ou este no sabia mais
nada ou no queria dizer outra coisa.

Durante toda a noite de 4 para 5 de Setembro a Sr.a Morrel
esteve de ouvido colado  parede. At s trs da madrugada
ouviu o marido passear agitadamente no quarto.

S s trs horas se atirou para cima da cama.

As duas mulheres passaram a noite juntas. Desde a vspera 
noite que esperavam Maximilien.

s oito horas, o Sr. Morrel entrou no quarto da mulher e da
filha. Estava clamo, mas a agitao da noite transparecia-lhe
no rosto plido e desfeito.

As duas mulheres no ousaram perguntar-lhe se dormira bem.
Morrel foi melhor para a mulher e mais paternal com a filha do
que em qualquer outra ocasio. No se cansava de olhar e
beijar a pobre criana.

Julie recordou-se da recomendao de Emmanuel e quis
acompanhar o pai quando este saiu. Mas ele repeliu-a com
doura e disse-lhe.

- Fica com a tua me.

Julie quis insistir.

- Quero que fiques! - atalhou Morrel.

Era a primeira vez que Morrel dizia  filha: "Quero!", mas
disse-o em tom impregnado de to paternal doura que Julie no
ousou dar um passo em frente.

Ficou onde estava, de p, muda e imvel. Pouco depois a porta
abriu-se e a jovem sentiu dois braos rodearam-na e uma boca
colar-se-lhe  testa.

Ergueu os olhos e soltou uma exclamao de alegria.

- Maximilien, meu irmo!

Ao ouvir este grito a Sr.a Morrel acorreu e lanou-se nos
braos do filho.

- Minha me - disse o rapaz, olhando ora para a Sr.a Morrel,
ora para a irm. - Que aconteceu? A vossa carta assustou-me e
vim imediatamente.

- Julie - disse a Sr.a Morrel, fazendo sinal ao rapaz para
esperar --, vai dizer ao teu pai que Maximilien acaba de
chegar.

A jovem correu para fora do apartamento, mas encontrou no
primeiro degrau da escada um homem com uma carta na mo.

-  Mademoiselle Julie Morrel? - perguntou o homem com um
sotaque italiano deveras pronunciado.

- Sou, sim, senhor - respondeu Julie balbuciante. - Que me
quer? No o conheo...

- Leia esta carta - disse o homem, estendendo-lha.

Julie hesitava.

- Est nela a salvao do seu pai - acrescentou o mensageiro.

A rapariga arrancou-lhe a carta da mo.

Em seguida abriu-a rapidamente e leu:

V imediatamente s Alamedas de Meilhan, entre no prdio n.o
15, pea  porteira a chave do quarto do quinto andar, entre
nesse quarto, pegue numa bolsa de rede de seda encarnada que
est ao canto da chamin e leve-a ao seu pai.

 importante que ele a receba antes das onze horas.

Prometeu obedecer-me cegamente, lembro-lhe a sua
promessa.

SIMBAD, O MARINHEIRO

A jovem soltou um grito de alegria, levantou os olhos e
procurou, para o interrogar, o homem que lhe entregara a
carta, mas ele desaparecera.

Voltou ento a olhar para a carta, a fim de a ler segunda vez,
e descobriu que tinha um ps-escrito. Leu-o:

 importante que desempenhe esta misso pessoalmente e
sozinha. Se fosse acompanhada ou mandasse outra pessoa, a
porteira responderia que no sabia que queriam dizer.

Este ps-escrito diminuiu consideravelmente a alegria da
rapariga. No leria nada a temer? No quereriam armar-lhe
alguma cilada? A sua inocncia fazia-a ignorar quais eram os
perigos que podia correr uma rapariga da sua idade, mas
ningum precisa de conhecer o perigo para ter medo. Deve-se
at notar que so precisamente os perigos desconhecidos
aqueles que inspiram os maiores terrores.

Julie hesitava e resolveu pedir conselho.

Mas, por um sentimento estranho, no foi nem  me nem ao
irmo que recorreu, foi a Emmanuel.

Desceu e contou-lhe o que lhe acontecera no dia em que o
mandatrio da casa Thomson  French viera procurar o pai.
Contou-lhe a cena da escada, revelou-lhe a promessa que lhe
fizera e mostrou-lhe a carta.


- Deve l ir, menina - disse Emmanuel.

- Acha? - murmurou Julie.

- Acho. Acompanh-la-ei.

- Mas no v que devo ir sozinha? - observou Julie.

- Ir sozinha - respondeu o rapaz. - Esper-la-ei  esquina da
Rua do Museu e se a sua demora comear a preocupar-me irei
procur-la e ai daquele ou daqueles de que me disser ter razo
de queixa!

- Assim, Emmanuel - perguntou hesitante a rapariga --, acha
que devo fazer o que me indicam?

- Acho. O mensageiro no lhe disse que ia nisso a salvao do
seu pai?

- Mas, Emmanuel, que perigo corre ele? - perguntou a rapariga.

Emmanuel hesitou um instante, mas o desejo de decidir Julie
sem delongas levou a melhor.

- Oua, hoje so 5 de Setembro, no  verdade?

- So.

- Pois hoje s onze horas o seu pai tem de pagar cerca de
trezentos mil francos.

- Pois tem, bem o sabemos.

- Mas no tem nem quinze mil em caixa! - disse Emmanuel.

- Ento, que vai acontecer?

- Vai acontecer que se hoje, antes das onze horas, o seu pai
no encontrar algum que o ajude, ao meio-dia ser obrigado a
declarar-se falido.

- Oh, venha, venha! - gritou a rapariga, arrastando o rapaz
consigo.

Entretanto, a Sr.a Morrel contara tudo ao filho.

O jovem sabia bem que em consequncia das sucessivas desgraas
que tinham acontecido ao pai haviam sido feitos grandes cortes
nas despesas da casa, mas ignorava que as coisas tivessem
chegado a tal ponto.

Ficou aniquilado.

Depois, de repente, correu para fora do apartamento e subiu
rapidamente a escada, porque julgava o pai no gabinete, mas
bateu em vo.

Junto da porta do gabinete ouviu a do apartamento abrir-se,
virou-se e viu o pai. Em vez de subir direito ao seu gabinete,
o Sr. Morrel entrara no seu quarto, do qual saa apenas
naquele momento.

O Sr. Morrel soltou um grito de surpresa ao ver Maximilien,
pois ignorava a chegada do rapaz. Ficou imvel onde estava,
apertando com o brao esquerdo um objecto que tinha escondido
debaixo da sobrecasaca.

Maximilien desceu rapidamente a escada e lanou-se ao pescoo
do pai. Mas de repente recuou, deixando apenas a mo direita
apoiada no peito do pai.

- Meu pai - disse, fazendo-se plido como a morte --, porque
traz um par de pistolas debaixo da sobrecasaca?

- Pronto, a est o que eu temia! - exclamou Morrel.

- Meu pai, meu pai, em nome do Cu! - gritou o rapaz. - Para
que so essas armas?

- Maximilien - respondeu Morrel, olhando fixamente o filho --,
tu s um homem e um homem de honra. Anda comigo, vou-te contar
tudo.

E Morrel subiu com passo firme ao seu gabinete, enquanto
Maximilien o seguia cambaleando.

Morrel abriu a porta e fechou-a atrs do filho. Depois
atravessou a antecmara, aproximou-se da secretria, depositou
as pistolas  ponta do mvel e indicou ao filho, com o dedo,
um registo aberto.

Nesse registo encontrava-se consignado o estado exacto da
firma.

Morrel tinha de pagar dentro de meia hora duzentos e oitenta e
sete mil e quinhentos francos.

E possua ao todo quinze mil duzentos e cinquenta e sete
francos.

- L - disse Morrel.

O rapaz leu e ficou um momento como que esmagado.

Morrel no disse nem uma palavra. Que poderia dizer que
contrariasse a inexorvel eloquncia dos nmeros?

- E fez tudo, meu pai, para evitar esta desgraa? - perguntou
o rapaz passado um instante.

- Tudo - respondeu Morrel.

- No espera nenhuma entrada de fundos?

- Nenhuma.

- Esgotou todos os seus recursos?

- Todos.

- E dentro de meia hora o nosso nome estar desonrado? -
continuou o jovem, com voz sombria.

- O sangue lavar a desonra - declarou Morrel.

- Tem razo, meu pai, e compreendo-o.

Depois, estendendo a mo para as pistolas:

- H uma para si e outra para mim - disse. - Obrigado!
Morrel deteve-lhe a mo.

- E a tua me... e a tua irm... quem as sustentar?

Um arrepio percorreu todo o corpo do rapaz.

- Meu pai, tenciona pedir-me que viva?

- Sim, tenciono - respondeu Morrel --, porque  esse o teu
dever. Possuis um esprito calmo, forte, Maximilien...
Maximilien, tu no s um homem vulgar. No te recomendo nada,
no te ordeno nada, apenas te digo: examina a situao como se
te tosse estranha e julga-a. por ti mesmo.

O rapaz reflectiu um instante e em seguida passou-lhe pelos
olhos uma expresso de resignao sublime. Apenas tirou, com
um gesto lento e triste, a dragona e a contradragona,
insgnias do seu posto.

- Est bem - disse, estendendo a mo a Morrel --, morra em
paz, meu pai! Eu viverei.

Morrel esboou o gesto de se lanar aos joelhos do filho, mas
Maximilien puxou-o para si e aqueles dois nobres coraes
bateram um instante um contra o outro.

- Sabes que a culpa no  minha, no sabes? - perguntou
Morrel.

Maximilien sorriu.

- Sei, meu pai, que  o homem mais honesto que jamais conheci.

- Pronto, est tudo dito. Agora, volta para junto da tua me e
da tua irm.

- Meu pai, abenoe-me - pediu o jovem, dobrando o joelho.
Morrel tomou a cabea do filho nas mos, aproximou-a de si e
beijou-a diversas vezes.

- Oh, sim, sim! - exclamou. - Abenoo-te em meu nome e em nome
de trs geraes de homens irrepreensveis. Ouve o que te
dizem por meu intermdio: o edifcio que a desgraa destruiu
pode ser reconstrudo pela Providncia. Quando me virem morto
de semelhante morte os mais inexorveis tero compaixo de ti.
A ti talvez dem o tempo que me recusariam. Ento, procura que
a palavra infame no seja pronunciada. Mete ombros  obra.
trabalha, rapaz, luta ardente e corajosamente. Vivam, tu, a
tua me e a tua irm, com o estritamente necessrio para que,
dia a dia, o capital daqueles a quem devo aumente e frutifique
nas tuas mos. Lembra-te de que ser um belo dia, um grande
dia, um dia solene o da reabilitao, o dia em que, neste
mesmo gabinete, dirs: "O meu pai morreu por no poder lazer o
que eu fao hoje. Mas morreu tranquilo e calmo, porque sabia
ao morrer que eu o
faria."

- Oh, meu pai, meu pai! - exclamou o rapaz. - Se apesar de
tudo pudesse viver!...

- Se viver, tudo se modificar. Se viver, o interesse
transformar-se- em dvida, a compaixo em encarniamento. Se
viver, no passarei de um homem que faltou  sua palavra, que
no respeitou os seus compromissos, no passarei, enfim, de um
falido. Pelo contrrio, se morrer (pensa nisto Maximilien), o
meu cadver ser apenas o de um homem honesto infeliz. Vivo,
os meus melhores amigos evitaro esta casa; morto, Marselha em
peso acompanhar-me- chorando  minha ltima morada. Vivo,
envergonhar-te-s do meu nome; morto, levantars a cabea e
dirs: "Sou filho daquele que se matou porque, pela primeira
vez, foi obrigado a faltar  sua palavra."

O rapaz soltou um gemido, mas pareceu resignado. Era a segunda
vez que a convico entrava, no no seu corao, mas sim no
seu esprito.

- E agora - disse Morrel - deixa-me sozinho e procura afastar
as mulheres.

- No quer ver mais uma vez a minha irm? - perguntou
Maximilien.

O jovem depositava - derradeira e recndita esperana nesse
encontro e por isso o sugeria. Mas o Sr. Morrel abanou a
cabea.

- Vi-a esta manh e despedi-me dela

- No tem nenhuma recomendao especial a fazer-me, meu pai? -
perguntou Maximilien em voz alterada.

- Tenho, sim, meu filho, uma recomendao sagrada.

- Diga, meu pai.

- A casa Thomson  French foi a nica que por humanidade ou
talvez por egosmo - mas no sou eu que posso ler no corao
dos homens - teve compaixo de mim. O seu mandatrio, que
dentro de dez minutos se apresentar para cobrar o montante de
uma letra de duzentos e oitenta e sete mil e quinhentos
francos, no direi que me concedeu, mas
ofereceu-me trs meses. Quero que essa casa seja a primeira a
ser reembolsada, meu filho, e que considere esse homem
sagrado.

- Pois sim, meu pai - disse Maximilien.

- E agora, mais uma vez, adeus - disse Morrel. - Vai, vai,
preciso de estar s. Encontrars o meu testamento na
secretria do meu quarto.

O rapaz ficou de p, imvel, apenas com a sua fora de
vontade, mas no de execuo.

- Escuta, Maxhnilien - disse o pai. - Supe que sou soldado
como tu, que recebi ordem de tomar um reduto e que sabes que
para o tomar terei de morrer. No me dirias o que me disseste
h pouco: "V, meu pai, porque se desonrar se ficar, e mais
vale a morte do que a desonra!?"

- Sim, sim - admitiu o jovem. - Sim.

E apertando convulsivamente Morrel nos braos:

- V, meu pai - disse.

E correu para fora do gabinete.

Depois de o filho sair, Morrel ficou um instante de p e com
os olhos fixos na porta. Em seguida estendeu a mo, encontrou
o cordo de uma campainha e tocou.

Pouco depois apareceu Cocls.

J no era o mesmo homem Aqueles trs dias de tortura
tinham-no alquebrado. Esta ideia: "A casa Morrel vai cessar os
seus pagamentos" curvava-o para o cho mais do que o fariam
vinte anos de vida, alm dos que j tinha, sobre a sua cabea.

- Meu bom Cocls - disse Morrel num tom em que seria
impossvel encontrar expresso --, vais ficar na antecmara.
Quando aquele senhor que j c veio h trs meses (tu sabes, o
mandatrio da casa Thomson  French) chegar, anunci-lo-s.

Cocls no disse nada. Acenou com a cabea, foi-se sentar na
antecmara e esperou.

Morrel deixou-se cair na sua cadeira. Olhou para o relgio de
sala: restavam-lhe apenas sete minutos. O ponteiro andava com
uma rapidez incrvel; parecia-lhe que o via avanar

O que se passou ento, naquele momento supremo, no esprito
daquele homem que, ainda novo, em consequncia de um
raciocnio talvez falso, ou pelo menos especial, se ia separar
de tudo o que amava no mundo e deixar a vida, que tinha para
si todas as douras da famlia,  impossvel exprimir. Seria
necessrio  ver, para se fazer uma ideia, a sua testa
coberta de suor, e no entanto resignada, e os seus olhos
cheios de lgrimas, e no entanto erguidos ao cu.

O ponteiro continuava a andar e as pistolas estavam
carregadas. Estendeu a mo, pegou numa e murmurou o nome da
filha.

Em seguida pousou a arma mortfera, pegou na pena e escreveu
algumas palavras.

Parecia-lhe que se no despedira o suficiente da filha
querida.

Depois tornou a olhar para o relgio. J no contava os
minutos, mas sim os segundos.

Voltou a pegar na arma, com a boca entreaberta e os olhos
fixos no ponteiro. Depois estremeceu ao ouvir o rudo que ele
prprio fazia ao armar o co.

Nesse momento cobriu-lhe a testa um suor mais frio e uma
angstia mortal apertou-lhe o corao.

Ouviu a porta da escada ranger nos gonzos.

Em seguida abriu-se a do gabinete.

O relgio ia dar onze horas.

Morrel no se virou; esperava apenas que Cocls dissesse estas
palavras: "O mandatrio da casa Thomson  French."

Aproximou a arma da boca...

De sbito, ouviu um grito: era a voz da filha.

Virou-se e viu Julie; a pistola caiu-lhe das mos.

- Pai! - gritou a rapariga, sem flego e quase morta de
alegria. - Salvo! Est salvo!

E lanou-se-lhe nos braos, erguendo na mo uma bolsa de rede
de seda vermelha.

- Salvo, minha filha? Que queres dizer? - perguntou Morrel.

- Salvo, sim! Veja, veja! - respondeu a jovem.

Morrel pegou na bolsa e estremeceu, pois uma vaga recordao
lembrou-lhe que aquele objecto j lhe pertencera.
De um lado estava a letra de duzentos e oitenta e sete mil e
quinhentos francos.

A letra estava paga.

Do outro, estava um diamante do tamanho de uma avel, com
estas trs palavras escritas num bocadinho de pergaminho:

"Dote de Julie."

Morrel passou a mo pela testa. Julgava sonhar.

Naquele momento o relgio deu onze horas.

A campainha vibrou para ele como se cada pancada do martelo de
ao fizesse vibrar-lhe o prprio corao.

- Vejamos, minha filha, explica-te. Onde encontraste esta
bolsa?

- Numa casa das Alamedas de Meilhan, no n.o 15, ao canto da
chamin de um pobre quartito do quinto andar.

- Mas esta bolsa no te pertence! - gritou Morrel.

Julie estendeu ao pai a carta que recebera de manh.

- E foste sozinha a essa casa? - perguntou Morrel, depois de
ler.

- Emmanuel acompanhou-me, meu pai. Devia esperar-me  esquina
da Rua do Museu, mas, coisa estranha, quando voltei j l no
estava.

- Sr. Morrel! - gritou uma voz na escada. - Sr. Morrel!

-  a sua voz - disse Julie.

Ao mesmo tempo, Emmanuel entrou. com o rosto transtornado de
alegria emoo.

- O pharaon! - gritou. - O Pharaon!

- Que diz? O Pharaon? Endoideceu, Emmanuel? Sabe muito bem
que naufragou.

- O Pharaon! Senhor, assinalam o Pharaon; o Pharaon
est a entrar no porto.

Morrel voltou a cair na sua cadeira. Faltavam-lhe as foras e
a sua inteligncia recusava-se a classificar aquela sucesso
de acontecimentos incrveis, inauditos, fabulosos.

Mas o filho entrou por seu turno.

- Pai! - gritou Maximilien. - No dizia que o Pharaon
naufragara? Pois o vigia assinalou-o, est a entrar no porto!

- Meus amigos - disse Morrel --, se isso fosse verdade, seria
necessrio acreditar num milagre de Deus. Impossvel!
Impossvel!

Mas o que era real e no menos incrvel era aquela bolsa que
tinha na mo, era aquela letra resgatada, era aquele magnfico
diamante.

- Ah, senhor! - disse Cocls por seu turno. - Que significa
isto? O Pharaon...

- Vamos, meus filhos - atalhou Morrel, levantando-se --, vamos
ver e que Deus tenha piedade de ns se a notcia  falsa.

Desceram. A meio da escada encontraram a Sr.a Morrel. A pobre
mulher no ousava subir.

Chegaram num instante  Cannebire.

Havia muita gente no porto.

Toda ela se afastou diante de Morrel.

- O Pharaon! o Pharaon! - diziam todas aquelas vozes.

De facto, coisa maravilhosa, inaudita, diante da Torre de S.
Joo um navio, tendo  popa estas palavras escritas em letras
brancas  Pharaon (Morrel  Filhos, Marselha)",
absolutamente idntico ao outro Pharaon e como o outro
carregado de cochonilha e ndigo, ancorava e ferrava as velas.
Na ponte, o comandante Gaumard dava as suas ordens e mestre
Penelon fazia sinais ao Sr. Morrel.

J no era possvel duvidar: o testemunho dos sentidos estava
ali e dez mil pessoas confirmavam esse testemunho.

Quando Morrel e o filho se abraaram no molhe, perante os
aplausos de toda a cidade, testemunha daquele prodgio, um
homem, com o rosto semicoberto por uma barba preta e que
escondido atrs da guarita de uma sentinela assistia  cena
enternecido, murmurou estas palavras:

- S feliz, nobre corao; s abenoado por todo o bem que
fizeste e que ainda fars, e que o meu reconhecimento
permanea na sombra como o teu bem-fazer.

E com um sorriso, em que transpareciam a alegria e a
felicidade, deixou o seu esconderijo e, sem que ningum lhe
prestasse ateno, de tal modo estavam todos interessados no
acontecimento do dia, desceu uma dessas escadinhas que servem
de cais e chamou trs vezes:

- Jacopo! Jacopo! Jacopo!

Ento veio ao seu encontro uma chalupa, que o recebeu a bordo
e o transportou para um iate ricamente aparelhado, para a
coberta do qual subiu com a ligeireza de um marinheiro. Da,
olhou mais uma vez para Morrel, que chorando de alegria
distribua cordiais apertos de mo a toda a gente e agradecia
com um olhar vago ao benfeitor desconhecido que parecia
procurar no Cu.

- E agora - disse o homem desconhecido --, adeus bondade,
humanidade, reconhecimento... Adeus a todos os sentimentos que
dilatam o corao!... Substitu a Providncia para recompensar
os bons... que Deus vingador me ceda o seu lugar para castigar
os maus!

Depois destas palavras, fez um sinal, e como se esperasse
apenas esse sinal para partir, o iate fez-se imediatamente ao
mar.





Captulo XXXI

Itlia - Simbad, o marinheiro


Em princpios do ano de 1838 encontravam-se em Florena dois
jovens pertencentes  mais elegante sociedade de Paris. Um
deles era o visconde Albert de Morcerf e o outro o baro Franz
de Epinay. Tinham combinado ir passar o Carnaval do mesmo ano
em Roma, onde Franz, que residia em Itlia havia perto de
quatro anos, serviria de cicerone a Albert.

ora, como no  coisa de somenos ir passar o Carnaval em
Roma, sobretudo quando se pretende no dormir na Praa do Povo
ou no Campo-Vaccino, escreveram a mestre Pastrini,
proprietrio do Hotel de Londres, na Praa de Espanha,
pedindo-lhe que lhes reservasse aposentos confortveis.

Mestre Pastrini respondeu que j s dispunha de dois quartos e
um gabinete situados al secondo piano, que lhos oferecia
mediante a mdica quantia de um lus por dia. Os dois jovens
aceitaram e em seguida. para aproveitar o melhor possvel o
tempo que lhe restava, Albert partiu para Npoles. Quanto a
Franz, permaneceu em Florena.

Depois de fruir durante algum tempo a vida que proporciona a
cidade dos Mdicis, de percorrer em todos os sentidos esses
denes a que chamam casinos e de ser recebido nos palcios
magnficos que fazem as honras de Florena, deu-lhe na veneta,
como j vira a Crsega, bero de Bonaparte, de visitar a ilha
de Elba, o grande interldio de Napoleo.

Portanto, uma tardinha, soltou uma barchetta da argola de
ferro que a prendia ao porto de Liorne, deitou-se no fundo em
cima da sua capa e disse aos marinheiros estas nicas
palavras: "Para a ilha de Elba!"

A embarcao deixou o porto tal como a ave marinha deixa o seu
ninho e no dia seguinte desembarcava Franz em Porto Ferraio.

Franz atravessou a ilha imperial, depois de seguir todos os
vestgios que a passagem do gigante nela deixara, e foi
embarcar em Marciana.

Duas horas depois de deixar terra, retomou-a para desembarcar
na Pianosa, onde o esperavam, garantiram-lhe, bandos infinitos
de perdizes vermelhas.

A caada foi m. Franz matou com grande dificuldade algumas
perdizes magras e, como todo o caador que se cansou para
nada, voltou  sua embarcao de bastante mau humor.

- Ah, se Vossa Excelncia quisesse - disse-lhe o patro -
faria uma bela caada!...

- Onde?

- V aquela ilha? - continuou o patro, estendendo o dedo para
o sul e mostrando uma massa cnica que saa do meio do mar
pintado do mais belo ndigo.

- Vejo. Que ilha  - perguntou Franz.

- A ilha de Monte-Cristo - respondeu o liorns.

- Mas no tenho licena para caar nessa ilha.

- Vossa Excelncia nem precisa dela, a ilha est deserta.

- Por Deus, uma ilha deserta no meio do Mediterrneo  coisa
curiosa - observou o jovem.

-  natural, Excelncia. Esta ilha  um banco de rochedos e
em toda a sua extenso talvez no haja uma jeira de terra
arvel.

- A quem pertence a ilha?

- A Toscana.

- Que caa encontrarei l?

- Milhares de cabras-monteses.

- Que vivem lambendo as pedras? - observou Franz com um
sorriso de incredulidade.

- No, mas sim pastando as urzes, as murtas e os lentiscos que
crescem nos seus intervalos.

- Mas onde dormiria?

- Em terra, nas grutas, ou a bordo, na sua capa. Alis, se
Vossa Excelncia quiser poderemos partir imediatamente a
seguir  caada. Como sabe, navegamos to bem  vela de noite
como de dia, e na falta da vela temos os remos.

Como restava ainda bastante tempo a Franz para se juntar ao
companheiro e j no tinha de se preocupar com o seu
alojamento em Roma, aceitou a proposta, que talvez lhe
permitisse ressarcir-se do mau resultado da primeira caada.

Ao ouvirem a sua resposta afirmativa, os marinheiros trocaram
algumas palavras em voz baixa.

- Ento, que temos de novo? - perguntou. - Surgiu alguma
impossibilidade?

- No - respondeu o patro --, mas devemos prevenir Vossa
Excelncia de que a ilha est em contumcia.

- Que significa isso?

- Significa que como Monte-Cristo  desabitada e serve s
vezes de descanso a contrabandistas e piratas que vm da
Crsega, da Sardenha ou de frica, se qualquer sinal denunciar
a nossa presena na ilha seremos forados, no regresso a
Liorne, a fazer uma quarentena de seis dias.

- Diabo, ai est uma coisa que modifica tudo! Seis dias!...
Precisamente tanto tempo quanto precisou Deus para criar o
mundo.  um bocadinho de mais, meus filhos.

- Mas quem dir que Vossa Excelncia esteve em Monte-Cristo?


- Oh, eu no! - exclamou Franz.

- E ns tambm no - garantiram os marinheiros.

- Nesse caso, vamos para Monte-Cristo.

O patro comandou a manobra; aproaram  ilha e a embarcao
comeou a navegar na sua direco.

Franz esperou que a operao estivesse concluda e quando
tomaram a nova rota, a vela foi enfunada pela brisa e os
quatro marinheiros reocuparam os seus lugares, trs  proa e
um ao leme, reatou a conversa.

- Meu caro Gaetano - disse o patro - acaba de me dizer, se me
no engano, que a ilha de Monte-Cristo servia de refgio a
piratas, o que me parece uma caa muito diferente das cabras.

- Sim, Excelncia, e  verdade.

- Eu sabia da existncia de contrabandistas, mas pensava que
depois da tomada de Argel e da destruio da Regncia os
piratas j s existissem nos romances de Cooper e do capito
Marryat.

- Pois Vossa Excelncia enganava-se. Existem tanto piratas
como bandidos, supostamente exterminados pelo papa Leo XII,
mas que no entanto assaltam todos os dias os viajantes, at s
portas de Roma. No ouviu dizer que apenas h seis meses o
encarregado de negcios da Frana junto da Santa S foi
roubado a quinhentos passos de Velletri?

- Ouvi.

- Pois bem, se Vossa Excelncia morasse em Liorne, como ns,
ouviria dizer de tempos a tempos que um naviozinho carregado
de mercadorias ou que um bonito iate ingls, esperados em
Bstia, Porto Ferraio ou Civitta-Vecchia, no chegara nem se
sabia que lhe acontecera, mas que sem dvida se despedaara
contra qualquer rochedo. Bom, o rochedo que encontrou foi uma
barca baixa e estreita tripulada por seis ou oito homens, que
o surpreenderam ou pilharam numa noite escura e tempestuosa,
nas imediaes de alguma ilha selvagem e desabitada, tal como
os bandidos detm e pilham uma sege de posta no recanto de um
bosque.

- Mas sendo assim - redarguiu Franz, que continuava deitado na
barca - por que motivo  que aqueles a quem acontecem
semelhantes acidentes se no queixam, no exigem que recaia
sobre os piratas a vingana do governo francs, sardo ou
toscano?

- Por que motivo? - repetiu Gaetano com um sorriso.

- Sim, por que motivo?

- Porque primeiro transportam do navio ou do iate para a barca
tudo o que tem algum valor; depois, amarram os ps e as mos
da tripulao, prendem ao pescoo de cada homem um pelouro de
24, abrem um buraco do tamanho de uma barrica na quilha do
navio capturado, sobem  coberta, fecham as escotilhas e
passam para a barca. Ao cabo de dez minutos o navio comea a
inclinar-se e a ranger, e afunda-se pouco a pouco. Primeiro,
mergulha um dos lados; depois, o outro; em seguida ergue-se,
volta a mergulhar e submerge-se sempre mais. De sbito,
ouve-se um estampido semelhante a um tiro de canho:  o ar
que quebra a coberta. Ento, o navio agita-se como um afogado
que se debate e cujos movimentos so cada vez mais pesados.
No tarda que a gua, demasiado comprimida nas cavidades, saia
pelas aberturas, como as colunas lquidas que lana pelos seus
respiradouros qualquer cachalote gigantesco. Finalmente, solta
 um derradeiro estertor, d uma ltima volta sobre si mesmo
e desaparece no abismo no meio de um grande turbilho que gira
um instante, diminui pouco a pouco e acaba por se extinguir
por completo, de forma que ao cabo de cinco minutos s a vista
de Deus descobriria no fundo daquele mar calmo o navio
desaparecido. Compreende agora -acrescentou o patro sorrindo
- por que motivo o navio no regressa ao porto e a tripulao
se no queixa?

Se Gaetano tivesse contado a histria antes de propor a
expedio,  provvel que Franz tivesse pensado duas vezes
antes de a empreender. Mas j tinham partido e pareceu-lhe que
seria cobardia recuar. Era um desses homens que no procuram
as situaes perigosas, mas que se essas situaes vm ao seu
encontro conservam um sangue-frio inaltervel para as
combater. Era um desses homens de vontade calma que encaram um
perigo na vida como um adversrio num duelo, que calculam os
seus movimentos, estudam a sua fora, se contm o suficiente
para recuperar o flego, mas no o bastante para parecerem
cobardes, que avaliando num s olhar todas as suas vantagens
matam de um nico golpe.

- Ora! - exclamou. - Atravessei a Siclia e a Calbria,
naveguei dois meses no arquiplago e nunca vi a sombra de um
bandido ou de um corsrio.

- Tambm no disse isto a Vossa Excelncia para o fazer
renunciar ao seu projecto - declarou Gaetano. - Interrogou-me
e eu limitei-me a responder-lhe, mais nada.

- Claro, meu caro Gaetano, e o que diz  muito interessante,
por isso, como desejo ter o prazer de o ouvir o mais tempo
possvel, sigamos para Monte-Cristo.

Entretanto, aproximavam-se rapidamente do termo da viagem O
vento era fresco e de feio e a embarcao dava sete milhas
por hora. A medida que se aproximavam, a ilha parecia sair
lmpida dos ltimos raios do Sol e distinguia-se, como os
pelouros num arsenal, o aglomerado de rochedos empilhados uns
sobre os outros, em cujos interstcios se viam avermelhar
urzes e verdejar rvores. Quanto aos marinheiros, embora
parecessem perfeitamente tranquilos, era evidente que se
encontravam alerta e que o seu olhar interrogava o vasto
espelho sobre o qual deslizavam e em cujo horizonte se viam
apenas alguns barcos de pescadores que, com as suas velas
brancas, balouavam como gaivotas na crista das vagas.

Encontravam-se apenas a cerca de quinze milhas de
Monte-Cristo quando o Sol comeou a pr-se atrs da Crsega,
cujas montanhas apareciam  direita, recortando no cu o seu
sombrio rendilhado. Aquela massa de pedra  semelhante ao
gigante Adamastor erguia-se ameaadora diante da embarcao, 
qual roubava o sol, cuja parte superior se dourava. Pouco a
pouco, a sombra subiu do mar e pareceu expulsar diante de si
aquele derradeiro reflexo do dia prestes a findar. Depois o
raio luminoso foi repelido at ao cimo do cone, onde se deteve
um instante como o penacho incandescente de um vulco, e por
fim a sombra, sempre ascendente, invadiu gradualmente o cume
como invadira a base, e a ilha revelou-se como que uma
montanha cinzenta que ia sempre escurecendo. Passada meia
hora, era noite cerrada.

Felizmente os marinheiros encontravam-se nas suas paragens
habituais e conheciam at o mais pequeno rochedo do
arquiplago toscano, pois de contrrio, no meio da escurido
profunda que envolvia a embarcao, Franz no deixaria de se
sentir inquieto. A Crsega desaparecera por completo e a
prpria ilha de Monte-Cristo se tornara invisvel. Mas os
marinheiros pareciam possuir, como o lince, a faculdade de
ver nas trevas, e o piloto, sentado ao leme, no denotava a
menor hesitao.

Decorrera cerca de meia hora desde que o Sol se pusera quando
Franz julgou distinguir a um quarto de milha  esquerda uma
massa sombria. Mas era to impossvel identificar do que se
tratava que, receando provocar a hilaridade dos marinheiros,
tomando algumas nuvens flutuantes pela terra firme, guardou
silncio. Mas de sbito surgiu um grande claro na margem. A
terra poderia assemelhar-se a uma nuvem, mas o fogo no era
nenhum meteoro.

- Que luz  aquela? - perguntou.

- Caluda! E uma fogueira - respondeu o patro.

- Mas vocs diziam que a ilha estava desabitada!

- Eu dizia que no tinha populao fixa, mas tambm disse que
era um lugar de descanso para os contrabandistas.

- E para os piratas!

- E para os piratas - disse Gaetano, repetindo as palavras de
Franz. - Foi por isso que mandei ultrapassar a ilha, pois como
v o fogo est atrs de ns.

- Mas esse fogo - continuou Franz - parece-me um motivo de
segurana do que de preocupao. Pessoas que receassem ser
vistas no acenderiam uma fogueira.

- Oh, isso no quer dizer nada! - redarguiu Gaetano. - Se
Vossa Excelncia pudesse avaliar, no meio da obscuridade, a
posio da ilha, veria que colocada como est a fogueira no
pode ser vista nem da costa, nem da Pianosa, mas apenas do mar
alto.

- Assim, receia que essa fogueira nos anuncie m companhia?

-  o que precisamos de tirar a limpo - respondeu Gaetano, com
os olhos sempre fixos naquela estrela terrestre.

- Mas como?

- J vai ver.

Depois destas palavras, Gaetano reuniu-se em conselho com os
companheiros e ao cabo de cinco minutos de discusso
executaram em silncio uma manobra que lhes permitiu virar de
bordo num instante. Retomaram ento a rota que acabavam de
seguir e poucos segundos depois desta mudana de direco a
fogueira desapareceu, oculta por qualquer ondulao do
terreno.

Ento, o piloto imprimiu com o leme nova direco ao barquito,
que se aproximou visivelmente da ilha, a qual no tardou a
encontrar-se apenas a cerca de cinquenta Passos.
Gaetano ferrou a vela e a embarcao deteve-se.

Tudo isto foi feito no meio do maior silncio. Alis, desde a
mudana de rota nem uma s palavra fora pronunciada a bordo.

Gaetano, que propusera a expedio, chamara a si toda a
responsabilidade por ela. Os quatro marinheiros no o perdiam
de vista enquanto, preparados os remos, se mantinham prontos
para remar, o que, graas  obscuridade, no seria difcil.

Quanto a Franz, inspeccionava as suas armas com o sangue-frio
que lhe conhecemos. Tinha duas espingardas de dois tiros e uma
carabina. Carregou-as, verificou-lhes a fecharia e esperou.

Entretanto, o patro despira o gabo e a camisa e prendera as
calas na cintura. Como estava descalo, no precisava de
descalar sapatos nem meias. Um vez  nesta indumentria, ou
antes, liberto da sua indumentria, ps um dedo nos lbios
recomendando o mais profundo silncio, deixou-se escorregar
para o mar e nadou para a margem com tanta precauo que era
impossvel ouvir o menor rudo. Apenas devido ao sulco
fosforescente provocado pelos seus movimentos era possvel
seguir-lhe o rasto.

Mas em breve at esse sulco desapareceu. Era evidente que
Gaetano chegara a terra.

No barquito toda a gente ficou imvel durante meia hora,
passada a qual viram reaparecer junto da margem e aproximar-se
da embarcao o mesmo sulco luminoso. Ao cabo de um instante e
em duas braadas, Gaetano alcanou a embarcao.

- Ento - perguntaram ao mesmo tempo Franz e os quatro
marinheiros.

- So contrabandistas espanhis. Tm apenas consigo dois
bandidos corsos.

- E que fazem esses dois bandidos corsos com contrabandistas
espanhis?

- Meu Deus, Excelncia - respondeu Gaetano em tom de profunda
caridade crist --, as pessoas devem ajudar-se umas s outras!
Muitas vezes, os bandidos encontram-se um bocadinho apertados
em terra pelos gendarmes ou pelos carabineiros. Ento,
procuram uma embarcao e encontram nessa embarcao bons
rapazes como ns a quem pedem hospitalidade na sua casa
flutuante. Quem recusaria auxlio a um pobre diabo perseguido?
Recebemo-lo e para maior segurana afastamo-nos para o largo.
No nos custa nada e salva a vida, ou pelo menos a liberdade a
um dos nossos semelhantes que na primeira oportunidade
retribui o favor que lhe prestmos indicando-nos um bom local
onde possamos desembarcar as nossas mercadorias sem sermos
incomodados pelos curiosos.

- Com que ento, meu caro Gaetano, voc mesmo tambm  um
bocadinho contrabandista, hem ?... - observou Franz, rindo.

- Que quer Vossa Excelncia, faz-se um pouco de tudo!... -
confessou Gaetano com um sorriso impossvel de descrever. - 
preciso viver...

- E voc est em boas relaes com as pessoas instaladas neste
momento em Monte-Cristo?

- Pouco mais ou menos. Ns, marinheiros, somos como os maos:
reconhecemo-nos por certos sinais.

- Nesse caso, parece-lhe que no teramos nada a temer se
desembarcssemos?

- Absolutamente nada. Os contrabandistas no so ladres.

- Mas esses dois bandidos corsos... - insinuou Franz,
calculando antecipadamente todas as probabilidades de perigo.

- Valha-me Deus, eles no tm culpa de ser bandidos! A culpa 
das autoridades - redarguiu Gaetano.

- Como assim?

- Sem dvida! Perseguem-nos apenas por furar uma pele!...
Como se no estivesse na natureza do corso vingar-se!

- Que entende voc por furar uma pele? Assassinar um homem? -
inquiriu Franz, continuando as suas investigaes.

- Entendo matar um inimigo - respondeu o patro --, o que 
muito diferente.

- Bom, vamos l pedir hospitalidade aos contrabandistas e aos
bandidos - decidiu o jovem. - Acha que no-la concedero?

- Sem dvida nenhuma.

- Quantos so?

- Quatro, Excelncia, e com os dois bandidos, seis.

- ptimo,  precisamente o nosso nmero! Estamos portanto, no
caso de esses cavalheiros mostrarem ms intenes, em fora
igual e por consequncias em condies de os dominar. Assim e
pela ltima vez, vamos para Monte-Cristo.

- Pois sim, Excelncia. Mas ainda assim permite-nos que
tomemos certas precaues?

- Claro, meu caro! Seja sbio como Nestor e prudente como
Ulisses. Fao mais do que permitir-lhes, exorto-os a
tomarem-nas.

- Muito bem. Ento, silncio - ordenou Gaetano.

Toda a gente se calou.

Para um homem que, como Franz, encarava todas as coisas sob o
seu verdadeiro aspecto a situao, sem ser perigosa, no
deixava de revestir-se de certa gravidade. Encontrava-se na
obscuridade mais profunda, isolado, no meio do mar, com
marinheiros que no o conheciam e que no tinham nenhum motivo
para lhe ser dedicados; que sabiam que trazia no cinto alguns
milhares de francos e que tinham dez vezes, seno com inveja
pelo menos com curiosidade, examinado as suas armas, que eram
muito belas. Por outro lado ia desembarcar, escoltado apenas
por esses homens, numa ilha que tinha um nome muitssimo
religioso, mas que parecia no prometer a Franz mais
hospitalidade do que o Calvrio a Cristo, graas aos seus
contrabandistas e aos seus bandidos. Depois, aquela histria
dos navios afundados, que de dia julgara exagerada,
parecia-lhe mais verosmil de noite. Por isso, colocado como
estava entre um duplo perigo, talvez imaginrio, no perdia os
seus homens de vista nem largava a espingarda da mo.

Entretanto os marinheiros tinham iado de novo as velas e a
embarcao voltara  esteira que j sulcara nas suas idas e
vindas. Atravs da escurido, Franz, um pouco mais habituado
s trevas, distinguia o gigante de granito que a embarcao
costeava. Por fim, ao ultrapassar de novo a esquina de um
rochedo, viu a fogueira que brilhava mais ofuscante do que
nunca e  sua volta cinco ou seis pessoas sentadas.

A reverberao do lume estendia-se pelo mar dentro numa
centena de passos. Gaetano costeou a luz, mantendo no entanto
a embarcao na parte no iluminada; depois, quando ficou
exactamente defronte da fogueira, aproou na sua direco e
entrou ousadamente no crculo luminoso, entoando uma cano de
pescadores, acompanhado em coro pelos companheiros, que
entoavam apenas o estribilho.
 primeira palavra da cano os homens sentados  roda da
fogueira levantaram-se e aproximaram-se do embarcadouro, de
olhos postos na embarcao, cuja fora e cujas intenes se
esforavam visivelmente por adivinhar. Em breve pareceram ter
feito exame suficiente e foram, com excepo de um que ficou
de p na margem sentar-se de novo  volta da fogueira, na qual
assava um cabrito inteiro.

Quando a embarcao chegou a uma vintena de passos da terra, o
homem que se encontrava na margem fez maquinalmente com a
carabina o gesto de uma  sentinela que espera uma patrulha e
gritou "Quem vem l?" em dialecto sardo.

Franz armou friamente as suas dois tiros.

Entretanto, Gaetano trocou com o homem algumas palavras de que
o jovem no compreendeu nada, mas que evidentemente lhe diziam
respeito.

- Vossa Excelncia quer dizer o seu nome ou manter o
incgnito? - perguntou o patro.

- O meu nome deve ser perfeitamente desconhecido.
Diga-lhe portanto simplesmente que sou um francs que viaja
por prazer - respondeu Franz.

Assim que Gaetano transmitiu a resposta, a sentinela deu uma
ordem a um dos homens sentados  fogueira, o qual se levantou
imediatamente e desapareceu entre os rochedos.

Fez-se silncio. Todos pareciam preocupados com o que mais
directamente lhes respeitava: Franz com o seu desembarque, os
marinheiros com as suas velas e os contrabandistas com o seu
cabrito. No entanto, no meio de to aparente despreocupao,
todos se observavam mutuamente.

O homem que se afastara reapareceu de sbito, do lado oposto
quele por onde desaparecera, e fez um sinal com a cabea 
sentinela, que se virou e limitou a pronunciar estas palavras:

- s'accommodi.

- O s'accommodi italiano tem diversos significados. Quer
dizer ao mesmo tempo: venham, entrem, sejam bem-vindos, faam
de conta que esto em sua casa, etc.  como aquela frase turca
de Molire que tanto espantava o burgus gentil-homem pela
quantidade de coisas que continha.

Os marinheiros no esperaram que os convidassem segunda vez:
em quatro remadas, a embarcao chegou a terra. Gaetano saltou
para a praia e trocou mais algumas palavras em voz baixa com a
sentinela. Os seus companheiros desembarcaram um aps outro.
Por fim, desembarcou Franz.

Trazia uma das espingardas em bandoleira; Gaetano empunhava a
outra e um dos marinheiros a carabina. A sua indumentria
reflectia ao mesmo tempo algo de artista e de peralvilho o que
inspirou aos anfitries algumas desconfianas, e
consequentemente alguma inquietao.

Amarraram a embarcao  margem e deram alguns passos a fim de
procurarem uma instalao cmoda. Mas sem dvida o ponto para
onde se dirigiam no era da convenincia do contrabandista que
fazia de sentinela, pois gritou a Gaetano:

- Para a no, por favor!

Gaetano balbuciou uma desculpa e, sem insistir mais,
dirigiu-se para o lado oposto, enquanto dois marinheiros iam
acender archotes na fogueira a fim de alumiarem o caminho.

Ao fim de cerca de trinta passos detiveram-se numa
esplanadazinha toda rodeada de rochedos nos quais tinham sido
escavados uma espcie de cadeires mais ou menos idnticos a
pequenas guaritas onde se montaria guarda sentado. Em redor
vegetavam em veios de terra vegetal alguns carvalhos-anes e
tufos espessos de murta. Franz abaixou um archote e verificou
por um monte de cinzas que no era o primeiro a notar o
conforto daquele local, que devia ser uma das estaes
habituais dos visitantes nmadas da ilha de Monte-Cristo.

Quanto  sua expectativa de acontecimentos, cessara. Logo que
pusera p em terra firme e verificara as disposies, seno
amistosas, pelo menos indiferentes dos seus anfitries, toda a
sua preocupao desaparecera, e perante o odor do cabrito que
assava no acampamento vizinho a preocupao transformara-se em
apetite.

Tocou no assunto a Gaetano, que lhe respondeu no haver nada
mais simples de obter do que uma ceia quando se tinha, como
eles na sua embarcao, po, vinho e seis perdizes, e era
fcil conseguir um bom fogo para as assar.

- De resto - acrescentou --, se Vossa Excelncia acha to
tentador o cheiro do cabrito, posso ir oferecer aos nossos
vizinhos duas das nossas aves em troca de um naco do seu
quadrpede.

- Faa isso, Gaetano, faa isso -- aceitou Franz. Voc nasceu
realmente com o dom da negociao.

Entretanto os marinheiros tinham arrancado braados de urze e
feito molhos de murta e azinheira, aos quais tinham pegado
fogo, de modo a conseguirem uma fogucira bastante respeitvel.

Franz esperava com impacincia, sem deixar de aspirar o odor
do cabrito, que o patro regressasse, quando este reapareceu e
se lhe dirigiu com ar muito preocupado.

- Ento, que h de novo? Recusam a nossa oferta? - perguntou
Franz.

- Pelo contrrio - respondeu Gaetano. - O chefe, a quem
disseram que Vossa Excelncia era um jovem francs, convida-o
para cear com ele.

- ptimo! - exclamou Franz. - Esse chefe  um homem deveras
civilizado e no vejo motivo para recusar o seu convite, tanto
mais que contribuo com a minha parte para a ceia.

- oh, no se trata disso! No falta com que cear  farta, mas
 que ele pe, para que Vossa Excelncia se apresente em sua
casa, uma singular condio.

- Em sua casa? - repetiu o jovem. - Quer dizer que mandou
construir aqui uma casa?

- No. Mas nem por isso deixa de possuir algo semelhante muito
confortvel, pelo menos segundo afirmam.

- Voc conhece esse chefe?

- Ouvi falar dele.

- Bem ou mal?

- Das duas maneiras.

- Demnio! E qual  essa condio?

- Deixar que vos vendem os olhos e no tirardes a venda seno
quando ele prprio vos convidar a faz-lo.

Franz sondou tanto quanto possvel o olhar de Gaetano para
saber o que ocultava tal proposta.

- Claro! - exclamou o patro, adivinhando o pensamento de
Franz. - Sei isso perfeitamente: a coisa merece reflexo.

- Que faria voc no meu lugar? - perguntou o rapaz.

- Eu, como no tenho nada a perder, iria.

- Aceitaria?

- Aceitava, nem que fosse s por curiosidade.

- H portanto algo curioso a ver em casa do chefe?

- Escutai - disse Gaetano, baixando a voz --, no sei se o que
dizem  verdade...

Deteve-se para ver se algum estranho o escutava.

- E que dizem?

- Dizem que o chefe habita num subterrneo ao p do qual o
Palcio Pitti no vale nada.

- Que sonho! - exclamou Franz, voltando a sentar-se.

- Oh, no se trata de um sonho! - continuou o patro. -
Trata-se de uma realidade! Cama, o piloto do Saint-Ferdinand,
entrou l um dia e saiu maravilhado, dizendo que s nos contos
de fadas existem semelhantes tesouros.

- Deveras? - ironizou Franz. - Sabe que com essas palavras at
me faria descer  caverna de Ali-Bab?

- Estou a dizer o que me disseram, Excelncia.

- Ento aconselha-me a aceitar?

- Oh, no digo isso! Vossa Excelncia far o que muito bem
entender. No desejaria dar-lhe um conselho nesta ocasio.

Franz reflectiu uns instantes, concluiu que aquele homem to
rico no poderia querer roub-lo; visto trazer consigo apenas
alguns milhares de francos, e como no entrevisse no meio de
tudo aquilo seno uma excelente ceia, aceitou. Caetano foi
levar-lhe a resposta.

Todavia, como dissemos, Franz era prudente. Por isso, procurou
obter o maior nmero possvel de pormenores acerca do seu
estranho e misterioso anfitrio. Virou-se pois para o
marinheiro que durante o dilogo depenara as perdizes com a
gravidade de um homem orgulhoso das suas funes e
perguntou-lhe como teriam chegado ali aqueles homens, visto
no se ver nem barcas, nem spronares, nem tartanas:

- A mim isso no me causa nenhuma estranheza - respondeu o
marinheiro --, tanto mais que conheo o navio em que navegam.

-  bom, esse navio?

-- Tomara Vossa Excelncia um assim para dar a volta ao mundo.

- Quantas toneladas desloca?

- Mais de cem. Trata-se, de resto, de um navio extravagante,
de um iate, como dizem os Ingleses, mas construdo de forma a
fazer-se ao mar com qualquer tempo.

- Onde foi construdo?

- Ignoro-o, mas julgo-o genovs.

- E como  que um chefe de contrabandistas - continuou Franz -
ousa mandar construir no porto de Gnova um iate destinado ao
seu comrcio?

- No disse que o proprietrio do iate fosse um
contrabandista.

- Pois no, mas disse-o Gaetano, parece-me.

- Gaetano vira a tripulao de longe e ainda no falara com
ningum.

- Mas se esse homem no  um contrabandista, que  ento?

- Um rico senhor que viaja por prazer.

- "Bom", pensou Franz, "as duas verses so to diferentes que
a personagem ainda se torna mais misteriosa."

- E como se chama?

- Quando lho perguntam, responde que se chama Simbad, o
Marinheiro. Mas duvido que seja esse o seu verdadeiro
nome.

- Simbad, o Marinheiro?

- sim.

- E onde habita esse senhor?

- No mar.

- De que pas ?

- No sei.

- J o viu?

- Algumas vezes.

- Que homem ?

- Vossa Excelncia julgar por si mesmo.

- E onde vai receber-me?

- Sem dvida no palcio subterrneo de que vos falou Gaetano.

- E vocs nunca tiveram a curiosidade, quando vieram descansar
aqui e encontraram a ilha deserta, de procurar penetrar nesse
palcio encantado?

- Oh, decerto, Excelncia, e por mais de uma vez! - confessou
o marinheiro. - Mas as nossas buscas foram sempre inteis.
Examinmos a gruta por todos os lados e no encontramos a mais
pequena passagem. De resto, dizem que a porta no se abre com
uma chave, mas sim com uma palavra mgica.

- Decididamente - murmurou Franz - estou metido num conto das
Mil e Uma Noites.

- Sua Excelncia espera-vos - disse atrs dele uma voz que
reconheceu ser a da sentinela.

O recm-chegado vinha acompanhado de dois homens da tripulao
do iate. Como nica resposta, Franz tirou um leno da
algibeira e apresentou-o ao que lhe dirigia a palavra.

Sem dizerem nada, vendaram-lhe os olhos com um cuidado
denunciador do receio de que cometesse qualquer indiscrio.
Depois, pediram-lhe que jurasse que no tentaria de qualquer
modo tirar a venda.

Jurou.

Ento, os dois homens pegaram-lhe cada um por um brao e ele
caminhou, guiado por ambos e precedido pela sentinela.

Aps uma trintena de passos adivinhou, pelo cheiro cada vez
mais apetitoso do cabrito, que voltava a passar diante do
acampamento. Em seguida, fizeram-no continuar o seu caminho
durante mais cerca de cinquenta passos, dirigindo-se,
evidentemente, para o lado onde no tinha deixado penetrar
Gaetano - proibio que se explicava agora. Em breve, pela
mudana da atmosfera, compreendeu que entrava num subterrneo.
Ao cabo de alguns segundos de marcha ouviu um estalido e
pareceu-lhe que a atmosfera mudava mais uma vez de natureza e
se tornava tpida e perfumada. Por fim, sentiu os ps pisarem
um tapete espesso e fofo. Os guias deixaram-no. Reinou um
momento de silncio e uma voz disse em bom francs, embora com
sotaque estrangeiro:

- Seja bem-vindo a minha casa, senhor. Pode tirar o leno.

Como facilmente se calcula, Franz no esperou que lhe
repetissem o convite. Tirou o leno e encontrou-se na presena
de um homem de trinta e oito a quarenta anos, vestido 
tunisina, isto , de barrete vermelho, com uma grande borla de
seda azul, jaqueta de tecido preto toda bordada a ouro, calas
cor de sangue de boi largas e tufadas, polainas da mesma cor,
bordadas a ouro como a  jaqueta, e babuchas amarelas.
Apertava-lhe a cintura uma magnfica faixa de caxemira,
adornada com um punhalzinho agudo e curvo.

A despeito da sua palidez quase lvida, aquele homem possua
um rosto notavelmente belo: olhos vivos e penetrantes, nariz
direito e quase nivelado com a testa, o que indicava o tipo
grego em toda a sua pureza, e dentes brancos como prolas, que
se salientavam admiravelmente sob o bigode preto que os
enquadrava.

S a palidez era estranha. Dir-se-ia um homem que estivera
fechado durante muito tempo num tmulo e que no conseguira
recuperar a carnao dos vivos.

Sem ser alto, era elegante, e como os homens do Sul tinha as
mos e os ps pequenos.

Mas o que surpreendeu Franz, que classificara de sonho a
descrio de Gaetano, foi a sumptuosidade do mobilirio.

Toda a sala estava forrada de tecidos turcos de cor carmesim e
recamados de flores douradas. Num recanto via-se uma espcie
de div encimado por uma panplia. de armas rabes de bainhas
de prata dourada e punhos resplandecentes de pedrarias. Do
tecto pendia um candeeiro de cristal de Veneza, de formato e
cor encantadores, e os ps repousavam num tapete turco em que
se enterravam at aos tornozelos. Pendiam reposteiros diante
da porta por onde Franz entrara, bem como diante doutra que
dava passagem para segunda sala que parecia esplendidamente
iluminada.

O anfitrio deixou por instantes Franz entregue  sua
surpresa, ao mesmo tempo que, retribuindo-lhe exame com exame,
no lhe tirava os olhos de cima.

- Senhor - disse-lhe por fim --, mil vezes perdo pelas
precaues que lhe exigiram para o introduzir junto de mim.
Mas como durante a maior parte do tempo esta ilha est
deserta, se o segredo desta residncia fosse conhecido
encontraria sem dvida, ao regressar, a minha instalao em
bastante mau estado, o que seria mito desagradvel, no pelo
prejuzo que me causaria, mas sim porque no teria a certeza
de poder, quando me apetecesse, isolar-me do resto do mundo.
Agora, vou procurar fazer-lhe esquecer essa pequena
contrariedade oferecendo-lhe o que de certo no esperaria
encontrar aqui: uma ceia menos m e camas bastante boas.

- Garanto-lhe, meu caro anfitrio - respondeu Franz --, que
escusa de se desculpar por isso. Sempre vi vendar os olhos s
pessoas que penetravam nos palcios encantados. Veja, por
exemplo, Raul, nos Huguenotes. Realmente, no tenho de que
me queixar, porque o que me mostra compete com as maravilhas
das Mil e Uma Noites.

- No exagere! Dir-lhe-ei como Lculo: se soubesse que ia ter
a honra da sua visita, ter-me-ia preparado para ela. Mas
enfim, tal como  o meu eremitrio, coloco-o  sua disposio,
e tal como  a, minha ceia, assim lha ofereo. Ali, estamos
servidos?

Quase no mesmo instante o reposteiro levantou-se e um negro
nbio, preto como o bano e envergando uma simples tnica
branca, fez sinal ao amo de que podia entrar na sala de
jantar.

- Agora - disse o desconhecido a Franz --, no sei se  da
minha opinio, mas parece-me que no h nada mais
constrangedor do que ficarmos duas ou trs horas em amena
conversa sem um e outro sabermos por que nome ou por que
ttulo nos tratamos. Note que respeito demasiado as leis da
hospitalidade para lhe  perguntar o seu nome ou o seu
ttulo. Peo-lhe apenas que me indique um nome qualquer com a
ajuda do qual lhe possa dirigir a palavra. Quanto a mim, para
o pr  vontade, informo-o de que costumam tratar-me por
Simbad, o Marinheiro.

- E eu - redarguiu Franz - dir-lhe-ei que, como para estar na
situao de Aladino s me falta a famosa lmpada maravilhosa,
no vejo nenhum inconveniente em que, de momento, me trate por
Aladino. Isso no nos tirar do Oriente, onde sou tentado a
crer que fui transportado pelo poder de algum gnio.

- Muito bem, Sr. Aladino! - concordou o estranho anfitrio. -
Ouvi dizer que estvamos servidos, no  verdade? Queira pois
dar-se o ao incmodo de entrar na sala de jantar. O seu
humilssimo servidor passa-lhe adiante para lhe indicar o
caminho.

E, ditas estas palavras, Simbad levantou o reposteiro e passou
efectivamente  frente de Franz.

Este ia de encantamento em encantamento. A mesa estava
esplendidamente servida. Uma vez esclarecido acerca deste
importante ponto, olhou  sua volta. A sala de jantar no era
menos esplndida do que a que acabara de deixar. Era toda de
mrmore, adornavam-na baixos-relevos antigos valiosssimos e
nas duas extremidades da sala, que era oblonga, viam-se duas
esttuas magnficas com cestos  cabea. Os cestos continham
duas pirmides de frutos excelentes: ananases da Siclia,
roms de Mlaga, laranjas das ilhas Baleares, pssegos de
Frana e tmaras da Tunsia.

Quanto  ceia, compunha-se de um faiso assado rodeado de
melros da Crsega, de perna de javali com geleia, de um quarto
de cabrito  trtaro, de um rodovalho magnfico e de uma
gigantesca lagosta. Os intervalos dos pratos principais eram
preenchidos com pratinhos de acepipes.

As travessas eram de prata e os pratos de porcelana do Japo.
Franz esfregou os olhos para ter a certeza de que no sonhava.

Ali s era admitido para cuidar do servio, do qual se
desempenhava muitssimo bem O hspede cumprimentou por isso o
seu anfitrio.

- Sim - concordou este, sem deixar de fazer as honras da ceia
com o maior -vontade. - Sim,  um pobre diabo que me  muito
dedicado e que procura servir-me o melhor que pode. Lembra-se
de que lhe salvei a vida, e como parece que tinha a cabea em
grande conta guarda-me algum reconhecimento por lha ter
conservado.

Ali aproximou-se do amo, pegou-lha na mo e beijou-lha.

- Seria demasiado indiscreto, Sr. Simbad - disse Franz --, se
lhe perguntasse em que circunstncias praticou essa bela
aco?

- Oh, meu Deus, foi muito simples! - respondeu o anfitrio. -
Parece que o brejeiro andara a rondar as imediaes do
serralho do bei de Tunes, o que no era conveniente da parte
de um figuro da sua cor. De modo que fora condenado pelo bei
a cortarem-lhe a lngua, a mo e a cabea. A lngua no
primeiro dia, a mo no segundo e a cabea no terceiro. Sempre
desejara ter um mudo ao seu servio. Por isso, esperei que lhe
cortassem a lngua e fui propor ao bei que mo desse em troca
de uma magnfica espingarda de dois tiros que na vspera me
parecera despertar os desejos de, sua alteza. Hesitou um
instante, de tal modo estava empenhado em acabar com o pobre
diabo, mas juntei  espingarda uma faca de caa inglesa com a
qual eu levara a melhor ao iatag de sua alteza. Ento, o bei
decidiu-se a perdoar-lhe o corte da mo e da cabea, mas com a
condio de  nunca mais pr os ps em Tunes. A recomendao
era intil. Logo que o infiel avista, o mais longe que seja,
as costas de frica, corre para o fundo do poro e ningum
consegue faz-lo sair de l enquanto no est fora de vista a
terceira parte do mundo.

Franz ficou um momento mudo e pensativo, sem saber que pensar
da bonomia cruel com que o anfitrio acabava de lhe contar o
caso.

- E como o respeitvel marinheiro cujo nome adoptou passa a
vida a viajar? - perguntou para mudar de assunto.

- Passo. Foi um juramento que fiz num tempo em que no pensava
muito poder cumpri-lo - respondeu o desconhecido, sorrindo. -
Fiz outros como este e espero que se cumpram todos a seu
tempo.

Embora Simbad tivesse pronunciado estas palavras com o maior
sangue-frio, os seus olhos adquiriram uma expresso de
ferocidade estranha.

- Creio que sofreu muito, senhor - disse-lhe Franz.

Simbad estremeceu e olhou-o fixamente.

- Porque diz isso? - perguntou.

- Por tudo - respondeu Franz. - Pela sua voz, pelo seu
olhar, pela sua palidez, e at pela vida que leva.

- Eu?! Levo a vida mais feliz que conheo, uma autntica vida
de pax. Sou o rei da criao: se me sinto bem num stio,
fico; se me aborreo parto. Sou livre como os passarinhos,
tenho asas como eles, e as pessoas que me rodeiam obedecem-me
cegamente. De vez em quando divirto-me a escarnecer a justia
humana roubando-lhe um bandido que procura, um criminoso que
persegue. Depois, tenho a minha prpria justia, baixa e alta,
sem delongas e sem apelo, que condena ou absolve e com a qual
ningum tem nada a ver! Oh, se tivesse saboreado a minha vida
no quereria outra e nunca mais regressaria ao mundo, a menos
que tivesse algum grande projecto a cumprir!

- Uma vingana, por exemplo... - insinuou Franz.

O desconhecido pousou no jovem um desses olhares que mergulham
profundamente no corao e no crebro.

- E porqu uma vingana? - perguntou.

- Porque - respondeu Franz - o senhor tem todo o ar de um
homem que, perseguido pela sociedade, tem uma conta terrvel a
ajustar com ela.

- Pois engana-se! - volveu-lhe Simbad, rindo com o seu riso
estranho, que lhe descobria os dentes brancos e agudos. - Aqui
onde me v sou uma espcie de filantropo e talvez um dia v a
Paris fazer concorrncia ao Sr. Appert e ao homem da capa
azul.

- E ser a primeira vez que far essa viagem?

- Oh, meu Deus, claro que sim! Tenho o ar de ser muito pouco
curioso, no tenho? Pois garanto-lhe no ser responsvel por
to grande demora. Mas irei l, mais dia menos dia!

- Peo-lhe que seja mais preciso, conta fazer brevemente essa
viagem?

- Ainda no sei. Depende de circunstncias submetidas a
combinaes incertas.

- Gostaria de l estar nessa altura para procurar
retribuir-lhe, na medida das minhas possibilidades, a
hospitalidade que me dispensou to generosamente em
Monte-Cristo.

- Aceitaria a sua oferta com muito prazer, mas infelizmente,
se l for, ser talvez incgnito.

Entretanto, a ceia continuava e parecia ter sido servida
exclusivamente em inteno de Franz, pois o desconhecido mal
tocara num ou dois pratos de esplndido festim que lhe
oferecera e ao qual o seu conviva inesperado fazia as mais
amplas honras.

Por fim, Ali trouxe a sobremesa, ou antes, tirou os cestos das
mos das esttuas e p-las em cima da mesa.

Entre os dois cestos colocou uma tacinha de prata dourada, com
tampa do mesmo metal.

O respeito com que Ali trouxe a taa despertou a curiosidade
de Franz. Levantou a tampa e viu uma espcie de pasta
esverdeava que lembrava compota de anglica, mas que lhe era
completamente desconhecida.

Recolocou a tampa, to ignorante do que a taa continha depois
de a tapar como antes de a destapar, e olhou para o seu
anfitrio, que sorria da sua decepo.

- No consegue adivinhar - disse-lhe ele - que espcie de
comestvel contm essa tacinha e isso intriga-o, no 
verdade?

- Confesso que sim.

- Pois bem, essa espcie de compota verde , nem mais nem
menos, a ambrsia que Hebe servia  mesa de Jpiter.

- Mas essa ambrsia - observou Franz - perdeu sem dvida, ao
passar para a mo dos homens, o seu nome celeste para tomar um
nome humano. Em linguagem vulgar, como se chama este
ingrediente, pelo qual, alis, no sinto grande simpatia?

- Ora a est justamente uma coisa que revela a nossa origem
material! - exclamou Simbad. - Muitas vezes passamos assim ao
lado da felicidade sem a ver, sem a olhar, ou, se a vemos e
olhamos, sem a reconhecer. Se  um homem positivo e o ouro  o
seu deus, saboreie isto e abrir-se-lhe-o as minas do Peru, de
Guzarate e de Golconda. Se  um homem de imaginao, se 
poeta, saboreie tambm isto e as barreiras do possvel
desaparecero. Os campos do infinito abrir-se-lhe-o e
passear de corao e esprito libertos no domnio sem limites
da fantasia. Se  ambicioso e corre atrs das grandezas do
mundo, saboreie mais uma vez isto e dentro de uma hora ser
rei, no rei de um reinozinho escondido num recanto da Europa,
como a Frana, a Espanha ou a Inglaterra, mas sim rei do
mundo, rei do universo, rei da criao. O seu trono
erguer-se- na montanha donde Satans desafia Jesus. E sem
necessitar de lhe prestar homenagem, sem ser obrigado a
beijar-lhe as patas, ser o senhor supremo de todos os reinos
da Terra. No  tentador o que lhe ofereo, e no  uma coisa
faclima, uma vez que basta fazer isto? Ora veja.

Ditas estas palavras, destapou por seu turno a tacinha de
prata dourada que continha a substncia to elogiada, tirou
uma colher de caf da compota mgica, levou-a  boca e
saboreou-a lentamente, com os olhos semicerrados e a cabea
inclinada para trs.

Franz deixou-o tomar  vontade o seu manjar favorito.
Depois, quando o viu um bocadinho menos absorto,
perguntou-lhe:

- Mas afinal que  esse manjar to precioso?

- J ouviu falar do Velho da Montanha, aquele que quis mandar
assassinar Filipe Augusto? - perguntou-lhe o anfitrio.

- Sem dvida.

- Como sabe, reinava sobre um rico vale dominado pela montanha
donde lhe veio o seu pitoresco nome. No vale havia jardins
magnficos plantados por Hassen-ben-Sabah, e nesses jardins
pavilhes isolados. Era nesses pavilhes que fazia entrar os
seus eleitos e lhes dava a comer, segundo Marco Polo, certa
erva que os transportava ao Paraso, no meio de plantas sempre
floridas, de frutos sempre maduros, de mulheres sempre
virgens. Ora, o que esses jovens ditosos tomavam por realidade
era um sonho; mas um sonho to agradvel, to inebriante, to
voluptuoso, que se vendiam de corpo e alma quele que lho
proporcionara e, obedecendo s suas ordens como s de Deus,
iam ferir no cabo do mundo a vtima indicada, aps o que
morriam no meio de torturas sem se queixarem, convencidos de
que a morte a que se submetiam no passava de um meio de
transio para a vida de delcias de que a erva sagrada que
tem na sua presena lhos dera um antegosto.

- Ento, trata-se de haxixe! - exclamou Franz. - Sim, conheo
isso, pelo menos de nome.

- Disse justamente a palavra, Sr. Aladino.  de facto haxixe,
tudo o que se fabrica de melhor e mais puro em haxixe em
Alexandria, haxixe de Abugor, o grande fabricante, o homem
nico, o homem a quem se deve ia erguer um palcio com esta
inscrio: Ao vendedor da felicidade, o mundo reconhecido.

- Sabe que estou tentado a avaliar por mim mesmo a veracidade
ou o exagero dos seus elogios? - disse Franz.

- Avalie por si mesmo, meu hspede, avalie. Mas no se limite
 primeira experincia. Como em todas as coisas,  necessrio
habituar os sentidos a uma impresso nova, suave ou violenta,
triste ou alegre. H uma luta da natureza contra essa
substncia divina, da natureza que no nasceu para a alegria e
se agarra  dor.  preciso que a natureza vencida sucumba no
combate e que a realidade suceda ao sonho. E ento o sonho
reinar como senhor, o sonho transformar-se- em vida e a vida
em sonho. Mas que diferena nessa transfigurao! Isto ,
comparando as dores da existncia real com os gozos da
existncia fictcia, o senhor nunca mais querer viver e
querer sonhar sempre. Quando trocar o seu mundo pelo mundo
dos outros, parecer-lhe- passar de uma primavera napolitana
para um inverno lapo, parecer-lhe- trocar o Paraso pela
Terra, o Cu pelo Inferno. Prove o haxixe, meu hspede!
Prove-o!

Como nica resposta, Franz tirou uma colher daquela pasta
maravilhosa, idntica  que tirara o seu anfitrio, e levou-a
 boca.

- Demnio! - exclamou depois de engolir a compota divina. -
Ainda no sei se o resultado ser to agradvel como o senhor
diz, mas isto no me parece to saboroso como afirma.

- Porque as suas papilas gostativas ainda no esto habituadas
 sublimidade da substncia que saboreiam. Diga-me, gostou
logo  primeira vez de ostras, de ch, de cerveja, de trutas,
de todas as coisas que mais tarde adorou? Compreende que os
Romanos temperassem os faises com assa-foetica e que os
Chineses comam ninhos de andorinha? No, meu Deus, no, pois
bem, acontece o mesmo com o haxixe: coma-o apenas, durante
oito dias seguidos e nenhum alimento do mundo lhe parecer
atingir a delicadeza desse gosto que hoje talvez  lhe parea
inspido e nauseabundo. Mas passemos  sala ao lado, isto ,
ao seu quarto, onde Ali nos servir o caf e dar cachimbos.

Ambos se levantaram e, enquanto aquele que dera a si prprio o
nome de Simbad e que tambm assim temos designado de vez em
quando para, como o seu conviva, o designarmos de alguma
maneira, dava algumas ordens ao criado, Franz entrou na sala
contgua.

Esta estava decorada com mais simplicidade, embora com no
menos riqueza. Era redonda e contornava-a por completo um
grande div. Mas div, paredes, tecto e cho estavam todos
forrados de peles magnficas, macias e fofas como o mais fofo
o tapete. Eram peles de lees do Atlas, de juba abundante;
peles de tigres de Bengala, de listras vivas; peles de pantera
do Cabo, caprichosamente mosqueadas, como a daquela que
apareceu a Dante, e finalmente peles de ursos da Sibria, de
raposas da Noruega, etc., e todas essas peles se encontravam
lanadas cm profuso umas sobre as outras, de forma que se
julgaria caminhar sobre a relva mais espessa e dormir na cama
mais macia.

Ambos se deitaram no div. Chibuques de tubos de jasmim e
pipos de mbar estavam ao alcance da mo, todos preparados de
forma a no ser necessrio fumar duas vezes pelo mesmo. Pegou
cada um no seu, Ali acendeu-os e saiu para ir buscar o caf.

Houve um momento de silncio durante o qual Simhad se entregou
aos pensamentos que pareciam domin-lo constantemente, mesmo
no meio de um dilogo e Franz abandonou-se a esse devaneio
mudo em que camos quase sempre ao fumar excelente tabaco, o
qual parece levar com o fumo todas as penas do esprito e
proporcionar em troca ao fumador todos os sonhos da alma.

Ali trouxe o caf.

- Como o toma? - perguntou o desconhecido. -  francesa ou 
turca, forte ou fraco, doce ou amargo, coado ou fervido?  
sua escolha; est preparado de todas as formas.

- Vou tom-lo  turca - respondeu Franz.

- E tem razo! - exclamou Simbad. - Isso prova que tem
disposio para a vida oriental. Ah, os Orientais so os
nicos homens que sabem viver! Quanto a mim - acrescentou com
um dos seus sorrisos singulares que no escapavam ao jovem --,
assim que concluir os meus negcios em Paris irei morrer no
Oriente. Ento, se me quiser encontrar, ter de me ir procurar
ao Cairo, a Bagdade ou a Ispahan.

- Garanto-lhe que ser a coisa mais fcil do mundo - redarguiu
Franz --, pois creio que me esto a nascer asas de guia, e
com tais asas darei a volta ao mundo em vinte e quatro horas.

- Ah, ah, efeitos do haxixe! ... Pois bem, abra as suas asas e
voe para as regies sobre-humanas. Nada receie, pois h quem
vele por si. E se, como as de Icaro, as suas asas se
derreterem ao sol, c estaremos para o receber.

Ento, disse algumas palavras em rabe a Ali, que fez um gesto
de obedincia e se retirou, mas sem se afastar.

Quanto a Franz, operava-se nele uma estranha transformao.
Toda a fadiga fsica do dia, toda a preocupao de esprito
ocasionada pelos acontecimentos da noite, desapareciam como no
primeiro momento de repouso em que estamos ainda
suficientemente conscientes para sentir aproximar-se o sono. O
seu corpo parecia adquirir uma leveza imaterial, o seu
esprito esclarecia-se de maneira  inaudita e as faculdades
dos seus sentidos pareciam duplicar. o horizonte ia-se
alargando sempre, mas no esse horizonte sombrio sobre o qual
pairava um vago terror e que vira antes de adormecer, mas sim
um horizonte azul, transparente, vasto, com tudo o que o mar
tem de azul com tudo o que o Sol tem de palhetas, com tudo o
que a brisa tem de perfumes. Depois, no meio dos cantos dos
seus marinheiros - cantos to lmpidos e to cristalinos que
com eles se comporia uma harmonia divina se fosse possvel
anot-los --, via aparecer a ilha de Monte-Cristo, no como
um escolho ameaador sobre as vagas, mas sim como um osis
perdido no deserto. Em seguida,  medida que a embarcao se
aproximava, os cantos tornavam-se mais numerosos, porque uma
harmonia encantadora e misteriosa subia da ilha para Deus,
como se alguma fada, como se Lorelei ou um encantador como
Anfon, quisesse atrair para ali uma alma ou ali erguer uma
cidade.

Finalmente, a embarcao chegou  margem, mas sem esforo, sem
qualquer abalo, como os lbios tocam nos lbios, e ele voltou
a entrar na gruta sem que aquela msica encantadora cessasse.
Desceu, ou antes, teve a sensao de descer alguns degraus,
respirando um ar fresco e perfumado como o que devia envolver
a gruta de Circe, composto por perfumes que faziam divagar o
esprito e por ardores que queimavam os sentidos, e reviu tudo
o que vira antes de adormecer, desde Simbad, o anfitrio
fantstico, at Ali, o servo mudo. Em seguida, tudo pareceu
desvanecer-se e confundir-se-lhe diante dos olhos, como as
derradeiras sombras de uma lanterna mgica que se apaga, e
encontrou-se novamente na sala das esttuas, apenas iluminada
por uma dessas lmpadas antigas e plidas que velam no meio da
noite o sono ou a volpia.

Eram sem dvida as mesmas esttuas ricas de forma, de luxria
e de poesia, de olhos magnticos, sorrisos lascivos e
cabeleiras opulentas. Eram Frine, Clepatra e Messalina, essas
trs grandes cortess. Depois, no meio daquelas sombras
impudicas deslizava, como um raio puro, como um anjo cristo
no meio do Olimpo, uma dessas figuras castas, uma dessas
sombras calmas, uma dessas vises suaves que parecia velar a
fronte virginal diante de todas aquelas obscenidades de
mrmore.

Pareceu-lhe ento que as trs esttuas tinham concentrado os
seus trs amores num s homem, e que esse homem era ele, que
se aproximavam da cama onde dormia segundo sono, com os ps
ocultos nas longas tnicas brancas, o colo nu, os cabelos
desdobrando-se em ondas, numa dessas poses a que sucumbiam os
deuses, mas a que resistiam os santos, com um desses olhares
inflexveis e ardentes como o que a serpente crava na
avezinha, e que ele se abandonava a esses olhares pungentes
como um abrao e voluptuosos como um beijo.

Franz teve a sensao de fechar os olhos e de, atravs do
ltimo olhar que lanava  sua volta, entrever a esttua
pudica, que se velava inteiramente. Depois de os olhos se lhe
fecharem para as coisas reais, os seus sentidos abriram-se
para as impresses impossveis.

Seguiu-se uma volpia sem trguas, um amor sem repouso, como o
que o profeta prometia aos seus eleitos. Ento, todas aquelas
bocas de pedra adquiriram vida, todos aqueles peitos se
tornaram quentes a ponto de para Franz, que suportava pela
primeira vez os efeitos do haxixe, aquele amor ser quase uma
dor e aquela volpia quase uma tortura quando sentia
roarem-lhe a boca inquieta os lbios daquelas esttuas
flexveis e frias como os anis de uma cobra.  Mas quanto
mais os seus braos tentavam repelir aquele amor desconhecido,
tanto mais os seus sentidos se vergavam ao encanto do sonho
misterioso, de modo que, depois de uma luta em que ps toda a
sua alma, se abandonou sem reservas e acabou por sucumbir
anelante, exausto de fadiga e volpia, aos beijos daquelas
amantes de mrmore e ao feitio daquele sonho inaudito.


Captulo XXXII

Despertar


Quando Franz voltou a si os objectos exteriores pareciam a
segunda parte do seu sonho. Julgou-se num sepulcro onde apenas
penetrava, como um olhar de compaixo, um raio de sol.
Estendeu a mo e sentiu pedra. Sentou-se e verificou que
estivera deitado na sua capa, num leito de urzes secas, muito
macio e odorfero.

Desaparecera por completo qualquer viso e, como se as
esttuas no tivessem passado de sombras sadas dos seus
tmulos enquanto ele sonhava, tinham fugido ao v-lo
despertar.

Deu alguns passos na direco donde vinha a luz. A toda a
agitao do sonho sucedia a calma da realidade. Viu-se numa
gruta, dirigiu-se para o lado da abertura e atravs da porta
abobadada distinguiu um cu azul e um mar igualmente azul. O
ar e a gua resplandeciam batidos pelos raios do sol da manh.
Os marinheiros estavam sentados  beira-mar, conversando e
rindo, e a dez passos, mar adentro, a barca balouava-se
graciosamente presa  ncora.

Durante algum tempo saboreou a brisa fresca que lhe batia na
testa, escutou o barulho abafado das vagas que se desfaziam na
margem e deixavam nas rochas uma renda de espuma branca como
prata e entregou-se sem reflectir, sem pensar, ao encanto
divino que existe nas coisas da natureza e que descobrimos
sobretudo quando samos de um sonho fantstico. Depois, pouco
a pouco, a vida exterior, to calma, to pura, to grande,
recordou-lhe a inverosimilhana do seu sono e as recordaes
comearam a voltar-lhe  memria.

Lembrou-se da sua chegada  ilha, da sua apresentao a um
chefe de contrabandistas, de um palcio subterrneo cheio de
esplendores, de uma ceia excelente e de uma colher de haxixe.

Simplesmente, perante a realidade da luz do dia, parecia-lhe
haver pelo menos um ano que todas essas coisas tinham
acontecido, de tal forma o sonho que sonhara estava vivo no
seu pensamento e era importante para o seu esprito. Por isso,
de vez em quando a sua imaginao fazia sentar no meio dos
marinheiros ou atravessar um rochedo, ou balouar-se na barca,
uma das sombras que lhe tinham estrelado a noite com os seus
beijos. Fora isso, tinha a cabea perfeitamente desanuviada e
o corpo perfeitamente repousado. Nenhum peso no crebro, mas
pelo contrrio um certo bem-estar geral, uma faculdade de
absorver o ar e o sol maior do que nunca.

Aproximou-se alegremente dos marinheiros.

Assim que o viram, levantaram-se e o patro aproximou-se dele.


- O Sr. Simbad - disse-lhe - encarregou-nos de apresentarmos
os seus cumprimentos a Vossa Excelncia e de lhe exprimirmos o
seu pesar por no lhe poder apresentar as suas despedidas. Mas
espera que o desculpeis quando souberdes que um assunto
urgentssimo o chamou a Mlaga.

- Ora ainda bem, meu caro Gaetano - disse Franz --, que tudo
isto  realmente verdade. Existe de facto um homem que me
recebeu nesta ilha, me concedeu uma hospitalidade rgia e
partiu enquanto eu dormia?

- Tanto existe que ainda se v o seu iatezinho afastar-se, com
todas as velas iadas, e se Vossa Excelncia pegar no seu
culo de longo alcance reconhecer, muito provavelmente, o seu
anfitrio no meio dos seus tripulantes.

Ao dizer estas palavras, Gaetano estendia o brao na direco
de um naviozinho que navegava na direco da ponta meridional
da Crsega.

Franz pegou no culo, regulou-o e apontou-o para o local
indicado.

Gaetano no se enganara.  r do navio, o misterioso
estrangeiro recortava-se de p, virado para o lado de Franz, e
tendo como este um culo na mo. Envergava ainda a
indumentria com que aparecera na vspera ao seu conviva e
agitava o leno em sinal de despedida.

Franz retribuiu-lhe a saudao tirando por sua vez o leno da
algibeira e agitando-o como ele agitava o seu.

Passado um segundo, formou-se  popa do navio uma leve nuvem
de fumo, que se afastou graciosamente da r e subiu lentamente
para o cu. Em seguida chegou aos ouvidos de Franz uma fraca
detonao.

- Veja, oua! - exclamou Gaetano. - Est a dizer-lhe adeus!

O jovem pegou na carabina e descarregou-a no ar, mas sem
esperana de que os estampidos conseguissem transpor a
distancia que separava o iate da costa.

- Que ordena Vossa Excelncia? - perguntou Gaetano.

- Primeiro, que me acenda um archote.

- Ah, sim, compreendo! - exclamou o patro. - Quer procurar a
entrada do palcio encantado.  vontade, Excelncia. Se isso
o diverte, vou dar-lhe o archote que pretende. Eu tambm j
fui dominado por essa ideia e tentei trs ou quatro vezes, mas
acabei por desistir. Giovanni - acrescentou --, acende um
archote e tr-lo a Sua Excelncia.

Giovanni obedeceu. Franz pegou no archote e entrou no
subterrando, seguido de Gaetano.

Reconheceu o lugar onde acordara, no seu leito de urzes ainda
todo pisado; mas em vo passeou o archote por toda a
superfcie exterior da gruta: no viu nada, excepto vestgios
de fumo doutros que antes dele j tinham tentado inutilmente a
mesma investigao.

Contudo, no deixou um p daquela muralha grantica,
impenetrvel como o futuro, por examinar. No viu uma fenda
onde no introduzisse a lmina da sua faca de caa; no notou
um ponto saliente em que no carregasse, na esperana de que
cedesse, mas tudo foi intil e perdeu sem nenhum resultado
duas horas de buscas.

Ao fim desse tempo desistiu. Gaetano estava triunfante.

Quando Franz regressou  praia o iate no era mais do que um
pontinho branco no horizonte. Recorreu ao culo, mas mesmo com
ele foi-lhe impossvel distinguir qualquer
coisa.

Gaetano lembrou-lhe que viera para caar cabras, o que
esquecera por completo. Pegou na espingarda e ps-se a
percorrer a ilha com o ar de um homem que cumpre mais um dever
do que se proporciona um prazer, e passado um quarto de hora
matara uma cabra e dois cabritos. Mas as cabras, apesar de
bravas e ariscas como camuras, pareciam-se demasiado com as
nossas cabras domsticas e Franz no as olhava como caa.

Alm disso, ideias muito mais absorventes dominavam-lhe o
esprito. Desde a vspera que era realmente o heri de um
conto das Mil e Uma Noites, e sentia-se irresistivelmente
atrado para a gruta.

Ento, apesar da inutilidade da primeira busca, recomeou
segunda, depois de dizer a Gaetano que mandasse assar um dos
dois cabritos. A segunda busca durou bastante mais tempo, pois
quando regressou o cabrito estava assado e o pequeno-almoo
pronto.

Franz sentou-se no stio onde na vspera o tinham vindo
convidar para cear da parte do seu misterioso anfitrio, e
descortinou ainda, como uma gaivota embalada na crista de uma
vaga, o iatezinho, que continuava a navegar para a Crsega.

- Mas - observou a Gaetano - voc disse-me que o Sr. Simbad ia
para Mlaga e a mim parece me que se dirige directamente para
Porto-Vecchio.

- J se no lembra - respondeu o patro - que entre a gente da
sua tripulao lhe disse haver de momento dois bandidos
corsos?

-  verdade! E vai desembarc-los na costa? - perguntou
Franz.

- Justamente. Oh,  um homem que, segundo se diz, no teme nem
Deus nem o Diabo e que  capaz de se desviar cinquenta lguas
da sua rota para ser prestvel a um pobre diabo!

- Mas esse gnero de favores poder muito bem acarretar-lhe
dissabores com as autoridades do pas onde exerce semelhante
filantropia - observou Franz.

- Bom - redarguiu Gaetano, rindo --, que podem as autoridades
contra ele? Est-se nas tintas para elas! Que tentem
persegui-lo Primeiro, o seu iate no  um navio vulgar,  uma
ave, e ele daria trs ns de avano em doze a uma fragata, e
depois bastar-lhe-ia desembarcar na costa para encontrar
amigos por toda a parte.

O que havia de mais claro em tudo aquilo  que o Sr. Simbad,
anfitrio de Franz, tinha a honra de manter relaes com os
contrabandistas e os bandidos de todas as costas do
Mediterrneo, o que no deixava de o colocar numa posio
bastante estranha.

Quanto a Franz, j nada o retinha em Monte-Cristo. Como j
perdera toda a esperana de descobrir o segredo da gruta,
apressou o pequeno-almoo e ordenou aos seus homens que
tivessem a embarcao pronta quando acabasse de comer.

Meia hora depois estava a bordo.

Deitou um ltimo olhar ao iate; estava prestes a desaparecer
no golfo de Porto-Vecchio.

Deu o sinal de partida.

No momento em que a embarcao se ps em movimento, o iate
desapareceu.

Com ele esfumava-se a derradeira realidade da noite anterior
Para Franz, ceia, Simbad, haxixe e esttuas tudo comeava a
misturar-se no mesmo sonho.

A embarcao navegou todo o dia e toda a noite, e no dia
seguinte, quando o Sol nasceu, desaparecera por sua vez a ilha
de Monte-Cristo.

Assim que ps p em terra, Franz esqueceu, pelo menos
momentaneamente, os acontecimentos que acabara de viver, para
terminar os seus compromissos de prazer e cortesia em Florena
e ir juntar-se ao amigo que o esperava em Roma

Partiu portanto e chegou  Praa da Alfndega, na diligncia,
no sbado  noite.

Como dissemos, o quarto fora reservado com antecedncia e tudo
o que tinha a fazer era dirigir-se para o hotel de mestre
Pastrini - o que no era coisa muito fcil, pois a multido
enchia as ruas e Roma era j presa desse rumor abafado e
febril que precede os grandes acontecimentos. Ora em Roma h
quatro grandes acontecimentos por ano: o Carnaval, a Semana
Santa, a Festa do Corpo de Deus e o S. Pedro.

Durante todo o resto do ano a cidade recai na sua triste
apatia, estado intermdio entre a vida e a morte, que a torna
semelhante a uma espcie de estao entre este mundo e o outro
- estao sublime, paragem cheia de poesia e caracter que
Franz j experimentara cinco ou seis vezes e que de cada vez
achara ainda mais maravilhosa e fantstica.

Por fim, conseguiu atravessar a multido, cada vez mais densa
e agitada, e alcanou o hotel.  sua primeira pergunta
responderam-lhe, com a impertinncia caracterstica dos
cocheiros de fiacre reservados e dos hoteleiros com a lotao
esgotada, que j no havia lugar para ele no Hotel de Londres.
Ento mandou o seu carto a mestre Pastrini e exigiu a
presena de Albert de Morcerf. O processo resultou e mestre
Pastrini acorreu pessoalmente, descuipando-se por ter feito
esperar Sua Excelncia, desatou a ralhar aos empregados, tirou
o castial da mo do cicerone que j se assenhoreara do
viajante e preparava-se para o acompanhar junto de Albert
quando este veio ao seu encontro.

Os aposentos reservados compunham-se de dois quartitos e de um
gabinete. Os dois quartos davam para a rua, circunstncia que
mestre Pastrini fez valer como se lhos acrescentasse mrito
aprecivel. O resto do andar estava alugado a uma personagem
riqussima, tida por siciliana ou maltesa. O hoteleiro no foi
capaz de dizer ao certo de qual das duas nacionalidades era o
viajante.

- Est tudo muito bem, mestre Pastrini - disse Franz --, mas
precisamos imediatamente de uma ceia para esta noite e de uma
calea para amanh e para os dias seguintes.

- Quanto  ceia - respondeu o hoteleiro --, sero servidos
neste mesmo instante; mas quanto  calea...

- Como, quanto  calea?! - protestou Albert. - Um momento, um
momento! Deixemo-nos de brincadeiras, mestre Pastrini...
Precisamos de uma calea!

- Senhor, faremos tudo o que pudermos para lhes arranjar uma -
respondeu o hoteleiro. -  tudo o que lhes posso prometer.

- E quando teremos a resposta? - perguntou Franz.

- Amanh de manh - respondeu o hoteleiro.

- Que diabo, pag-la-emos mais cara e pronto! - interveio
Albeert. - Sabemos como isso : no Drake ou no Aaron, vinte e
cinco francos nos dias vulgares  e trinta ou trinta e cinco
francos nos domingos e dias festivos. Ponha-lhe mais cinco
francos por dia de corretagem, o que dar quarenta, e no se
fala mais nisso.

- Receio muito, meus senhores, que mesmo oferecendo o dobro a
no consigam arranjar.

- Ento que atrelem cavalos  minha. Est um bocado
deteriorada da viagem, mas no faz mal.

- No se arranjaro cavalos.

Albert olhou para Franz como um homem a quem tivessem dado uma
resposta que lhe parecesse incompreensvel.

- Compreende isto, Franz? No h cavalos! Mas cavalos de
posta, no se podero arranjar?

- Esto todos alugados h quinze dias e s restam os
absolutamente necessrios ao servio.

- Que diz voc a isto, Albert? - perguntou Franz.

- Digo que quando uma coisa excede a minha inteligncia tenho
o hbito de no insistir nessa coisa e passar a outra. A ceia
est pronta, mestre Pastrini?

- Est, sim, Excelncia.

- Ento ceemos primeiro.

- Mas a calea e os cavalos? - insistiu Franz.

- Esteja tranquilo, caro amigo, que eles aparecero  tudo uma
questo de preo.

E Morcerf, com essa filosofia admirvel que no considera nada
impossvel, desde que se sinta a bolsa recheada ou a carteira
bem fornecida, ceou, deitou-se, dormiu a sono solto e sonhou
que brincava o Carnaval numa calea puxada por seis cavalos.



Captulo XXXIII

Bandidos romanos


No dia seguinte; Franz foi o primeiro a acordar, e assim que
acordou tocou.

O tinido da campainha ainda vibrava quando mestre Pastrini
entrou em pessoa.

- Pronto - disse o hoteleiro triunfante e sem sequer esperar
que Franz o interrogasse --, razo tinha eu ontem, Excelncia,
em no querer prometer nada. Decidiram-se demasiado tarde e j
no h uma nica calea em Roma... para os trs ltimos dias,
claro.

- Claro - repetiu Franz. - Isto , para aqueles em que 
absolutamente necessria.

- Que se passa? No h calea? - perguntou Albert, entrando.

- Exactamente; meu caro amigo - respondeu Franz. -
Adivinhou logo primeira.

- Sim, senhor, saiu-me uma bonita cidade a vossa cidade
eterna!...

- O que quero dizer, Excelncia - interveio mestre Pastrini,
que desejava que a capital do mundo cristo mantivesse certa
dignidade aos olhos dos seus  hspedes --, o que quero dizer
 que j no h caleas a partir de domingo de manh e at
tera-feira  noite, mas daqui at domingo arranjaro
cinquenta, se quiserem.

- J  alguma coisa - observou Albert. - Hoje  quinta-feira;
quem sabe o que poder acontecer daqui at domingo?...

- Chegaro dez a doze mil pessoas - respondeu Franz - que
tornaro as dificuldades ainda maiores.

- Meu amigo - sentenciou Morcerf --, gozemos o presente e no
agoiremos o futuro.

- Poderemos ao menos ter uma janela? - perguntou Franz.
- Para onde?

- Para a rua do corso, com a breca!

- Claro, uma janela!...-exclamou mestre Pastrini. -
Impossvel, absolutamente impossvel! No resta nem uma mesmo
no quinto andar do Palcio Dria. A que havia foi alugada a um
prncipe russo por vinte cequins por dia.

Os dois jovens entreolharam-se com ar estupefacto.

- Bom, meu caro - disse Franz a Albert --, sabe que h de
melhor a fazer?  irmos passar o Carnaval a Veneza. Ao menos
l, se no arranjarmos carruagens, arranjaremos gndolas.

- Ah, isso no! - exclamou Albert. - Decidi que veria o
Carnaval em Roma e v-lo-ei, nem que seja em andas.

- Ora a est uma excelente ideia, sobretudo para apagar os
moccoletti! Mascaramo-nos de polichinelos-vampiros ou de
habitantes das Landes e teremos um xito louco.

- Suas Excelncias ainda querem a carruagem at domingo?

- Com a breca, julga que vamos correr a p as ruas de Roma
como praticantes de meirinho? - redarguiu Albert.

- Vou cumprir imediatamente as ordens de Vossas Excelncias -
disse mestre Pastrini. - Mas previno-os de que a carruagem
lhos custar seis piastras por dia.

- E eu, meu caro Sr. Pastrini - disse Franz --, eu, que no
sou o nosso vizinho milionrio, previno-o pela minha parte de
que, atendendo a que  a quarta vez que venho a Roma, sei o
preo das caleas nos dias vulgares, nos domingos e nos
feriados. Dar-lhe-emos doze piastras por hoje, amanh e depois
de amanh e ainda ter um belssimo, lucro.

- Mas, Excelncia... - comeou mestre Pastrini, tentando
rebelar-se.

- Vamos, meu caro anfitrio, vamos, ou vou eu prprio combinar
o preo com o seu affettatore, que  tambm o meu - atalhou
Franz. - Trata-se de um velho amigo que j me roubou bastante
dinheiro na sua vida e que, na esperana de me roubar ainda
mais, me far um preo mais baixo do que o que lhe ofereo.
Perder portanto a diferena e a culpa ser sua.

- No se incomode, Excelncia - disse mestre Pastrini, com o
sorriso do especulador italiano que se d por vencido. - Farei
o melhor que puder e espero que fique contente.

- ptimo! Ora a est o que se chama falar.

- Quando querem a carruagem?

- Dentro de uma hora.

- Daqui a uma hora estar  porta.

Efectivamente, uma hora depois a carruagem esperava os dois
jovens. Tratava-se de um modesto fiacre que, atendendo 
solenidade da circunstncia, fora elevado  categoria de
calea. Mas, por mais medocre que fosse o seu aspecto, os
dois rapazes ter-se-iam, considerado muito felizes se pudessem
dispor de um veculo assim nos trs ltimos dias.

- Excelncia! - gritou o cicerone, vendo Franz chegar 
janela. - Posso mandar aproximar o coche do palcio?

Por mais habituado que Franz estivesse  nfase italiana, o
seu primeiro impulso foi olhar  sua volta. Mas era mesmo a
ele prprio que aquelas palavras se dirigiam.

Franz era a Excelncia; o coche era o fiacre; o palcio era o
Hotel de Londres.

Todo o engenho laudatrio da nao estava contido naquela
simples frase.

Franz e Albert desceram. O coche aproximou-se do palcio. Suas
Excelncias estenderam as pernas sobre os bancos fronteiros e
o cicerone saltou para o assento de trs.

- Aonde querem Suas Excelncias que os leve?

- Primeiro a S. Pedro e depois ao Coliseu - respondeu Albert,
como autntico parisiense que era.

Mas Albert no sabia uma coisa: que  preciso um dia para ver
S. Pedro e um ms para o estudar. O dia passou-se portanto
apenas a visitar S. Pedro.

De sbito, ambos notaram que entardecia.

Franz puxou do relgio e verificou que eram quatro e meia.

Puseram-se imediatamente a caminho do hotel.  porta, Franz
ordenou ao cocheiro que estivesse pronto s oito horas. Queria
que Albert visse o Coliseu ao luar, tal como lhe mostrara S.
Pedro  luz do dia. Quando se mostra a um amigo uma cidade j
conhecida, pe-se nisso a mesma presuno que se usa para
mostrar uma mulher de que se foi amante.

Nesta conformidade, Franz traou ao cocheiro o itinerrio:
devia sair pela Porta del Popolo, seguir ao longo da muralha
exterior e reentrar pela Porta de San-giovanni . Assim, o
Coliseu aparecer-lhes-ia sem qualquer preparao e sem que o
Capitlio, o Forum, o Arco de Sptimo Severo, o Templo de
Antonino e Faustina e a Via Sacra servissem de degraus
colocados no caminho para o encurtar.

Sentaram-se  mesa. Mestre Pastrini prometera aos seus
hspedes uma boa refeio. Deu-lhes um jantar razovel. No
havia nada a dizer.

Ele prprio apareceu no fim do jantar. Franz julgou a
princpio que fosse para receber os seus cumprimentos e
preparava-se para lhos dirigir quando ele o interrompeu s
primeiras palavras.

- Excelncia, estou lisonjeado com a sua aprovao, mas no
foi para isso que c vim...

- Foi para nos dizer que arranjou uma carruagem? - perguntou
Albert, acendendo um charuto.

- Ainda menos, e at, Excelncia, faria bem em no pensar mais
nisso e tirar do caso o melhor partido. Em Roma, as coisas
podem-se ou no se podem. Quando nos dizem que se no podem,
acabou-se.

- Em Paris  mais cmodo: quando se no pode, paga-se o dobro
e tem-se imediatamente o que se pretende.

- Tenho ouvido dizer isso a todos os franceses - redarguiu
mestre Pastrini um bocadinho irritado --, o que me leva a no
compreender por que motivo viajam.

- A verdade - disse Albert, expelindo fleumaticamente o fumo
para o tecto, inclinando-se para trs e balouando-se nas duas
pernas de trs do cadeiro -  que so os loucos e os parvos
como ns que viajam. As pessoas sensatas no saem do seu
palcio da Rua do Helder, do Buievar de Gand e do Caf de
Paris.

Escusado ser dizer que Albert residia na rua citada, dava
todos os dias o seu passeio de bom-tom e jantava diariamente
no nico caf onde se janta quando se est bem relacionado com
os criados.

Mestre Pastrini ficou um instante silencioso. Era evidente que
meditava a resposta, que sem dvida no lhe parecia
perfeitamente clara.

- Mas enfim - disse Franz por seu turno, interrompendo as
reflexes geogrficas do seu hoteleiro --, veio c com
qualquer finalidade. Quer expor-nos o objecto da sua visita?

- Tem razo. Ei-lo: mandaram vir a calea s oito horas?

- Exactamente.

- Tencionam visitar il Colosseo?

- Quer dizer o Coliseu?

-  precisamente a mesma coisa.

- Seja.

- Disseram ao cocheiro para sair pela Porta del Popolo, dar a
volta s muralhas e reentrar pela Porta de San-Giovanni?

- Foram essas as minhas prprias palavras.

- Pois bem, esse itinerrio  impossvel.

- Impossvel?...

- Ou pelo menos perigosssimo.

- Perigosssimo... E porqu?

- Por causa do famoso Luigi Vampa.

- Antes de mais nada, meu caro hoteleiro, quem  o famoso
Luigi Vampa? - perguntou Albert . -Pode ser famosssimo em
Roma, mas previno-o de que  ignorado em Paris.

- Como, no o conhecem?!

- No tenho essa honra.

- Nunca ouviu pronunciar o seu nome?

- Nunca.

- Bom, trata-se de um bandido comparado com o qual os
Deseraris e os Gasparoni no passam de uma espcie de meninos
de coro.

- Ateno, Albert, a est finalmente um bandido! - exclamou
Franz.

- Previno-o, meu caro hoteleiro, de que no acreditarei numa
s palavra do que nos vai dizer.  ponto assente entre ns.
Mas diga o que lhe apetecer que sou todo ouvidos. "Era uma vez
... " V, comece!

Mestre Pastrini virou-se para Franz, que lhe parecia o mais
razovel dos dois rapazes. Deve-se fazer justia ao excelente
homem: hospedara muitos franceses na sua vida, mas nunca
compreendera certa faceta do seu esprito.

- Excelncia - disse muito gravemente dirigindo-se, como
dissemos, a Franz --, se me considera um mentiroso,  intil
dizer-lhe o que tencionava  dizer-lhe. Posso no entanto
afirmar-lhes que era no interesse de Vossas Excelncias.

- Albert no lhe disse que era um mentiroso, meu caro Sr.
Pastrini - redarguiu Franz. - Disse-lhe que no o acreditaria
e mais nada. Mas eu acredit-lo-ei, este ja descansado. Fale,
pois.

- Contudo, Excelncia, compreende muito bem que se se pe em
dvida a veracidade das minhas palavras...

- Meu caro - observou Franz --, o senhor  mais susceptvel do
que Cassandra, que no entanto era profetisa e que ningum
escutava, ao passo que voc est seguro, pelo menos, de metade
do seu auditrio. Vejamos, sente-se e diga-nos quem  o Sr.
Vampa.

- J lhe disse, Excelncia:  um bandido como ainda no vimos
nenhum desde o famoso Mastrilla.

-- De acordo. Mas que relao tem esse bandido com a ordem que
dei ao cocheiro de sair pela Porta del Popolo e entrar pela
Porta de San-Giovanni ?

- Tem - respondeu mestre Paslrini - que podem muito bem sair
por uma, mas duvido que entrem pela outra.

- Porqu? - perguntou Franz.

- Porque assim que anoitece no se est seguro a cinquenta
passos das portas.

- Palavra de honra? - troou Albert.

- Sr. Visconde - volveu-lhe mestre Pastrini, ainda ferido at
ao fundo do corao pela dvida manifestada por Albert acerca
da veracidade das suas palavras --, no digo isto por Vossa
Excelncia, digo-o pelo seu companheiro de viagem, que conhece
Roma e sabe que se no brinca com estas coisas.

- Meu caro - disse Albert dirigindo-se a Franz --, a est uma
aventura admirvel e natural: carregamos a nossa calea de
pistolas, bacamartes e espingardas de dois tiros. Luigi Vampa
vem para nos prender, mas ns  que o prendemos. Trazemo-lo
para Roma, em homenagem a Sua Santidade, que nos pergunta o
que pode fazer para recompensar to grande servio. Ento,
pedimos pura e simplesmente um coche e dois cavalos das suas
cavalarias e assistimos ao Carnaval de carruagem. Sem contar
que provavelmente o povo romano, reconhecido, nos coroar no
Capitlio e nos proclamar, como Crcio e Horcio Cocles,
salvadores da ptria.

Enquanto Albert proferia estas palavras, mestre Pastrini fazia
uma cara que em vo tentaramos descrever.

- Antes de mais nada, onde arranjaria as pistolas, os
bacamartes e as espingardas de dois tiros para encher a
carruagem? - perguntou Franz a Albert.

- Garanto-lhe que no ser no meu arsenal, porque em Terracina
tiraram-me at a minha faca-punhal. E a voc?

- A mim fizeram-me o mesmo em Aqua-Pendente.

- Aqui tem, meu caro hoteleiro! - exclamou Albert, acendendo
segundo charuto na ponta do primeiro. - Sabe que  muito
cmoda para os ladres essa medida, que para mim tem todo o ar
de ter sido tomada contas a meias com eles?

Mestre Pastrini achou sem dvida o gracejo comprometedor, pois
s respondeu em parte, e mesmo assim dirigindo a palavra a
Franz, como se este fosse a nica pessoa sensata com quem se
pudesse entender convenientemente.

- Vossa Excelncia sabe que no  hbito as pessoas
defenderem-se quando so atacadas por bandidos.

- Como?! - exclamou Albert, cuja coragem se revoltava  ideia
de se deixar roubar sem dizer nada. - Como? No  hbito?...

- No! Porque toda a defesa seria intil. Que quer fazer
contra uma dzia de bandidos que saem de um fosso, de um
pardieiro ou de um aqueduto e que o visam todos ao mesmo
tempo?

- Com mil demnios, quero que me matem! - gritou Albcrt.

O hoteleiro virou-se para Franz com um ar que queria dizer:
"Decididamente, Excelncia, o seu companheiro  louco."

- Meu caro Albert - declarou Franz --, a sua resposta 
sublime e vale o Qu'il mourt do velho Corneille.
Simplesmente, quando Horcio respondia isso tratava-se da
salvao de Roma e a coisa valia a pena. Mas quanto a ns
repare que se traa simplesmente da satisfao de um capricho
e que seria ridculo, por um capricho, arriscarmos a vida.

-- Per Bacco!-exclamou mestre Pastrini . -Ora a est o que
se chama falar!

Albert serviu-se de um copo de lacryma christi, que bebeu
aos golinhos, resmungando palavras ininteligveis.

- Agora, mestre Pastrini - prosseguiu Franz --, que o meu
companheiro est calmo e o senhor teve ensejo de apreciar as
minhas disposies pacificas; agora, vejamos quem  o Sr Luigi
Vampa?  pastor ou patrcio? Novo ou velho? Baixo ou alto?
Descreva-no-lo, a fim de, se o encontrarmos por acaso no mundo
como Jean Sbogar ou Lara, possamos ao menos reconhecc-lo.

- No poderia dirigir-se a ningum mais indicado do que eu,
Excelncia, para ter pormenores exactos, pois conheci Luigi
Vampa em criana. E at um dia em que eu prprio lhe ca nas
mos, ao ir de Ferentino para Alatri, teve a sorte de se
lembrar de mim, do nosso antigo conhecimento. Deixou-me
passar, no s sem me fazer pagar o resgate, mas tambm s
depois de me oferecer um riqussimo relgio e de me contar a
sua histria.

- Vejamos o relgio.

Mestre Pastrini tirou da algibeira do colete um magnfico
Brguet com o nome do seu autor, a marca de Paris e uma
coroa de conde.

- Aqui o tem - disse.

- Apre! - exclamou Albert. - Os meus cumprimentos.
Tenho um mais ou menos idntico - e tirou o relgio da
algibeira do colete --, mas custou-me trs mil francos.

- Ouamos a histria - disse Franz por seu turno, puxando uma
poltrona e fazendo sinal a mestre Pastrini para se sentar.

- Vossas Excelncias do-me licena? - perguntou o hoteleiro.

- Por Deus, voc, meu caro, no  um pregador para falar de p
- observou Albert.

O hoteleiro sentou-se depois de fazer a cada um dos seus
futuros ouvintes uma saudao respeitosa, a qual tinha como
finalidade indicar que estava pronto a prestar a respeito de
Luigi Vampa as informaes que desejassem.

- Um momento! - pediu, Franz, detendo mestre Pastrini quando
este j abria a boca. - Diz que conheceu Luigi Vampa em
pequeno.  portanto ainda um homem novo?

- Como um homem novo?... Evidentemente que sim. Tem apenas
vinte e dois anos! Oh,  um figuro que ir longe, podem ter a
certeza!

- Que diz a isto, Albert?  belo, aos vinte e dois anos, ter
j conseguido uma reputao - comentou Franz.

- Sim, decerto. Na sua idade, Alexandre, Csar e Napoleo, que
depois fizeram certo barulho no mundo, no estavam to
adiantados como ele.

- Portanto, o heri cuja histria vamos ouvir s tem vinte e
dois anos? - prosseguiu Franz, dirigindo-se ao hoteleiro.

- S, como j tive a honra de lhe dizer.

-  alto ou baixo?

- De estatura mdia. Pouco mais ou menos como Sua Excelncia -
respondeu o hoteleiro, indicando Albert.

- Obrigado pela comparao - disse este, inclinando-se.

- Continue, mestre Pastrini - interveio Franz, sorrindo da
susceptibilidade do amigo. - E a que classe da sociedade
pertencia?

- Era um simples pastorinho ligado  quinta do conde de
San-Felice, situada entre a Palestrina e o lago de Gabri.
Nascera em Pampinara e entrara aos cinco anos de idade ao
servio do conde. O pai, que tambm era pastor em Anagni,
tinha um rebanhozito e vivia da l dos seus carneiros e da
venda do leite das suas ovelhas, que vinha negociar a Roma.

"Ainda criana, o pequeno Vampa j tinha um carcter
estranho. Um dia, contava sete anos, procurou o proco de
Palestrina e pediu-lhe que o ensinasse a ler. Era coisa
difcil, porque o jovem pastor no podia abandonar o rebanho.
Mas o bom do proco ia todos os dias dizer missa numa pobre
aldeola, muito pouco considervel para pagar a um padre, e que
como nem sequer tinha nome era conhecida pelo de Borgo. O
padre props a Luigi que se encontrasse com ele no caminho 
hora do seu regresso. Dar-lhe-ia assim a lio, mas preveniu-o
de que a lio seria curta e de que deveria por consequncia
aproveit-la.

"o garoto aceitou com alegria.

"todos os dias, Luigi levava o rebanho a pastar no caminho de
Palestrina ao Borgo; todos os dias s nove da manh o proco
passava, o padre e o garoto sentavam-se  beira de uma vala e
o pastorinho dava a sua lio pelo brevirio do sacerdote.

"Passados trs meses sabia ler.

"Mas isso no bastava; precisava agora de aprender a
escrever.

"O padre mandou fazer a um professor de caligrafia de Roma
trs abecedrios: um grande, um mdio e um pequeno, e
mostrou-lhe que copiando o abecedrio numa ardsia com uma
pena de ferro poderia aprender a escrever.

"Nessa mesma tarde, quando o rebanho regressou  quinta, o
pequeno Vampa, correu  oficina do ferreiro de Palestrina,
pegou num grande prego, forjou-o, martelou-o, arredondou-o e
transformou-o numa espcie de estilete antigo.

"No dia seguinte reuniu uma proviso de ardsia e meteu mos
 obra.

"Passados trs meses sabia escrever.

"O proco, atnico com aquela profunda inteligncia e
impressionado com semelhante aptido, ofereceu-lhe diversos
cadernos de papel, um pacote de penas e um canivete.

"Foi uma nova aprendizagem, mas uma aprendizagem que no era
nada comparada com a primeira. Passados oito dias, manejava a
pena como manejava o estilete.

"O proco contou o caso ao conde de San-Felice, que quis ver
o pastorinho, o mandou ler e escrever na sua presena, ordenou
ao intendente que o mandasse comer com os criados e deu-lhes
duas piastras por ms.

"Com esse dinheiro, Luigi comprou livros e lpis.

"Com efeito, aplicava a todos os objectos a facilidade de
imitao que possua e, como Giotto em criana, desenhava nas
suas ardsias as suas ovelhas, as rvores e as casas.

"Depois, com a ponta do canivete comeou a talhar a madeira e
a dar-lhe todas as espcies de formas. Fora assim que Pinelli,
o escultor popular, comeara.

"Uma pequenita de seis ou sete anos, isto , um bocadinho
mais nova do que Vampa, guardava por seu turno as ovelhas de
uma quinta perto de Palestrina. Era rf, nascera em
Valmontone e chamava-se Teresa.

"As duas crianas encontravam-se, sentavam-se ao lado uma da
outra, deixavam os seus rebanhos misturar-se e pastar juntos,
conversavam, riam e brincavam. Depois,  tardinha, separavam
os carneiros do conde de San-Felice dos do baro de Cervetri
e os garotos regressavam s respectivas quintas, prometendo
encontrarem-se de novo no dia seguinte de manh.

"No dia seguinte cumpriam a sua palavra e cresciam assim lado
a lado.

"Vampa fez doze anos e a pequena Teresa onze.

"Entretanto, os seus instintos naturais desenvolviam-se.

"A par do gosto pelas artes, que Luigi levara to longe
quanto lhe era possvel naquele isolamento, era triste por
natureza, ardente por impulso, colrico por capricho e sempre
trocista. Nenhum dos rapazes de Pampinara, de Palestrina ou de
Valmontone conseguira no s adquirir qualquer influncia
sobre ele, mas tambm tornar-se seu companheiro. O seu
temperamento voluntarioso, sempre disposto a exigir sem nunca
se querer vergar a qualquer concesso, afastava dele qualquer
gesto amistoso, qualquer demonstrao de simpatia. S Teresa
dominava com uma palavra, um olhar, um gesto aquele caracter
obstinado que cedia sob a mo de uma mulher, mas que sob a de
um homem, fosse ele qual fosse, se retesaria at quebrar.

"Teresa era, pelo contrrio, viva, ladina e alegre, e tambm
excessivamente vaidosa. As duas piastras que o intendente do
conde de San-Felice dava a Luigi e o produto de todas as
esculturazinhas que vendia aos comerciantes de brinquedos de
Roma, transformavam-se em brincos de contas, em colares de
vidrilhos e em agulhas de ouro. Assim, graas  prodigalidade
do seu jovem amigo, Teresa era a mais bela e elegante
camponesa dos arredores de Roma.

"As duas crianas continuaram a crescer, a passar todo o dia
juntas e a entregar-se sem resistncia aos instintos da sua
natureza primitiva. Por isso, nas suas conversas, nos seus
desejos e nos seus sonhos, Vampa via-se sempre comandante de
navio de guerra, general de exrcito ou governador de uma
provncia. E Teresa via-se rica, metida nos mais lindos
vestidos e seguida de criados de libr. Depois de passarem
todo o dia a tecer o seu futuro com to loucos e brilhantes
arabescos, separavam-se para reconduzirem os seus carneiros ao
aprisco e descerem das alturas dos seus sonhos  humildade da
sua verdadeira posio.

"Um dia, o jovem pastor disse ao intendente do conde que vira
um lobo sair das montanhas da Sabine e rondar-lhe o rebanho. O
intendente deu-lhe uma espingarda. Era o que Vampa queria.

"Por acaso, a espingarda era uma excelente arma de Brscia,
que disparava balas com a preciso de uma carabina inglesa.
Simplesmente, um dia o conde, ao matar uma raposa ferida,
partira-lhe a coronha e a espingarda fora atirada para o
refugo.

"isso porm no constitua nenhuma dificuldade para um
escultor como Vampa. Examinou a coronha primitiva, calculou o
que seria preciso modificar para a adaptar  sua vista e fez
outra coronha carregada de ornamentos to maravilhosos que se
quisesse ir vend-la  cidade lhe dariam certamente, s pela
madeira, quinze ou vinte piastras.

"Mas nem pela cabea lhe passava fazer isso. Uma espingarda
fora durante muito tempo o sonho do rapaz. Em lodos os pases
em que a independncia substitui a liberdade a primeira
necessidade que experimenta qualquer corao forte, qualquer
organizao poderosa,  a de possuir uma arma que assegure ao
mesmo tempo o ataque e a defesa e que, tornando terrvel
aquele que a usa, o torne com frequncia temido.

"A partir daquele momento, Vampa dedicou todos os momentos
livres a exercitar-se com a espingarda. Comprou plvora e
balas e tudo lhe serviu de alvo: o tronco da oliveira triste,
enfezada e cinzenta que vegetava na vertente das montanhas da
Sabine; a raposa que  tardinha saia do seu covil para comear
a sua caada nocturna, e a guia que planava no ar. Em breve
se tornou to hbil que Teresa perdeu o medo que experimentara
ao princpio ao ouvir as detonaes e divertiu-se a ver o seu
jovem companheiro colocar a bala da espingarda onde queria,
com tanta preciso como se a fosse l colocar com a mo.

"Uma tarde, um lobo saiu efectivamente de um bosque de abetos
junto do qual os dois jovens costumavam instalar-se. Mas ainda
no dera dez passos em campo aberto quando caiu morto.

"Orgulhosssimo do seu belo tiro, Vampa p-lo s costas e
levou-o para a quinta.

"Todas estas proezas davam a Luigi certa fama nos arredores
da quinta. Onde quer que se encontre, o homem superior arranja
uma clientela de admiradores. Nas redondezas falava-se do
jovem pastor como o mais hbil, o mais forte e o mais bravo
contadino de dez lguas em redor; e embora pela sua parte
Teresa, e num crculo ainda mais vasto, passasse por uma das
mais bonitas raparigas da Sabine, ningum se atrevia a
dizer-lhe uma palavra de amor, porque a sabiam amada por
Vampa.

"E no entanto os dois jovens nunca tinham dito um ao outro
que se amavam. Haviam crescido juntos como duas rvores que
confundem as suas razes debaixo do cho, os seus ramos no ar
e o seu perfume no cu. Apenas o seu desejo de se verem era o
mesmo. Esse desejo tornara-se uma necessidade e por isso mais
depressa aceitariam a morte do que um s dia de separao.

"Teresa contava dezasseis anos e Vampa dezassete.

"Por essa altura comeou-se a falar com insistncia numa
quadrilha de bandidos que se organizava nos montes Lepini. O
banditismo nunca foi seriamente extirpado dos arredores de
Roma. s vezes faltam-lhe chefes, mas quando aparece um chefe
 raro faltar-lhe uma quadrilha.

"O clebre Cucumetto, perseguido nos Abruzos e expulso do
reino de Npoles, onde sustentara uma verdadeira guerra,
atravessara Garigliano como Manfredo e viera, entre Sonnino e
Juperno, refugiar-se nas margens do Amasina.

"Era ele quem se ocupava da organizao da quadrilha e que
seguia as pisadas de Decesaris e Gasparone, que esperava em
breve ultrapassar. Vrios rapazes de Palestrina, Frascati e
Pampinara desapareceram De incio, as pessoas preocuparam-se
com o seu desaparecimento, mas no tardou a saber-se que se
tinham ido juntar  quadrilha de Cucumetto.

"Passado algum tempo, Cucumetto tornou-se alvo das atenes
gerais. Citavam-se por parte desse chefe de bandidos rasgos de
audcia extraordinrios e de revoltante brutalidade.

"Um dia, raptou uma rapariga, filha do agrimensor de
Frosinone. As leis dos bandidos so positivas: uma rapariga
pertence primeiro quele que a raptou e depois os outros
tiram-na  sorte e a desgraada tem de se submeter aos
prazeres de toda a quadrilha at os bandidos a abandonarem ou
ela morrer.

"Quando os pais so bastante ricos para a resgatar,
mandam-lhe um mensageiro tratar do resgate. A cabea da
prisioneira responde pela segurana do emissrio. Se o resgate
 recusado, a prisioneira est irremediavelmente condenada.

"A rapariga tinha um apaixonado na quadrilha de Cucumetto,
chamado Carlini.

"Ao reconhecer o rapaz, a jovem estendeu-lhe os braos e
julgou-se salva. Mas o pobre Carlini, quando viu de quem se
tratava, sentiu o corao despedaado, pois no tinha
quaisquer dvidas acerca da sorte que esperava a amada.

"No entanto, como era o favorito de Cucumetto, como havia
trs anos que compartilhava os seus perigos e como lhe salvara
a vida abatendo a tiro de pistola um carabineiro que tinha j
o sabre levantado sobre a cabea do chefe, esperou que
Cucumetto tivesse compaixo da rapariga.

"Chamou portanto o chefe  parte, enquanto a jovem, sentada
junto do tronco de um grande pinheiro que se erguia no meio de
uma clareira da floresta, transformava em vu o toucado
pitoresco das camponesas romanas e escondia o rosto aos
olhares luxuriosos dos bandidos.

"Carlini contou tudo ao chefe: os seus amores com a
prisioneira, os seus juramentos de fidelidade, e como todas as
noites, desde que se encontravam nos arredores, se namoravam
numas runas.

"Precisamente na noite do rapto, Cucumetto mandara Carlini a
uma aldeia vizinha e ele no pudera comparecer ao encontro;
mas Cucumetto passara por ali por acaso, segundo dissera, e
fora ento que raptara a jovem.

"Carlini suplicou ao chefe que abrisse uma excepo a seu
favor e respeitasse Rita, dizendo-lhe que o pai era rico e
pagaria um bom resgate.

"Cucumetto pareceu ceder s splicas do amigo e encarregou-o
de arranjar um pastor que pudessem mandar a casa do pai de
Rita, em Frosinone.

"Ento, Carlini aproximou-se muito contente da rapariga,
disse-lhe que estava salva e convidou-a a escrever uma carta
ao pai contando-lhe o que lhe acontecera e comunicando-lhe que
o seu resgate fora fixado em trezentas piastras.

"Concediam ao pai apenas o prazo de doze horas, isto , at
ao dia seguinte s nove horas da manh.

"Escrita a carta, Carlini apoderou-se imediatamente dela e
correu para a plancie em busca de um mensageiro.

"Encontrou um jovem pastor que recolhia o rebanho. Os
mensageiros naturais dos bandidos so os pastores, que vivem
entre a cidade e a montanha, entre a vida selvagem e a vida
civilizada.

"O jovem pastor partiu imediatamente, prometendo chegar antes
de uma hora a Frosinone.

"Carlini voltou para trs muito contente, disposto a ir ter
com a amada e dar-lhe a boa nova.

"Encontrou a quadrilha na clareira, onde ceava alegremente
provises que os bandidos exigiam aos camponeses como um
tributo. Em vo procurou Cucumetio e Rita no meio dos alegres
convivas.

"Perguntou onde estavam; os bandidos responderam com uma
grande gargalhada. Um suor frio correu pela testa de Carlini e
sentiu a angtia agarr-lo pelos cabelos.

"Repetiu a pergunta. Um dos convivas encheu um copo de vinho
de Orvietto e estendeu-lhe dizendo:

"--  sade do bravo Cucumetto e da bela Rita!

"Nesse momento Carlini julgou ouvir um grito de mulher.
Adivinhou tudo. Pegou no copo, partiu-o na cara do que lho
apresentava e correu na direco do grito.

"Dados cem passos, atrs de uma moita, encontrou Rita
desmaiada nos braos de Cucumetto.

"Ao ver Carlini, Cucumetto levantou-se com uma pistola em
cada mo.

"Os dois bandidos olharam-se um instante. Um com o sorriso da
luxria nos lbios, o outro com a palidez da morte na fronte.

"Dir-se-ia ir acontecer entre os dois homens algo terrvel.
Mas, pouco a pouco, o rosto de Carlini descontraiu-se, e a sua
mo, que levara a uma das pistolas que trazia  cintura,
largou-a e pendeu-lhe ao lado do corpo.

"Rita estava deitada entre ambos.

"O luar iluminava a cena.

"-- Ento, fizeste o recado de que te encarregaste? -
perguntou-lhe Cucumetto.

"-- Fiz, sim, capito - respondeu Carlini --, e amanh, antes
das nove horas, o pai de Rita estar aqui com o dinheiro.

"-- ptimo! Entretanto, vamos passar uma noite divertida. A
rapariga  encantadora e no h dvida que tens bom gosto,
mestre Carlini. Por isso, como no sou egosta, vamos voltar
para junto dos camaradas e tirar  sorte a quem pertencer
agora.

"-- Assim, decidiu entreg-la  lei comum? - perguntou
Carlini.

"-- E porque abriramos excepo a seu favor?

"-- Julguei que o meu pedido...

"-- Que s tu mais do que os outros?

"-- Tem razo.

"-- Mas sossega - prosseguiu Cucumetto rindo --, mais tarde ou
mais cedo a tua vez chegar.

"Carlini apertou os dentes com fora.

"-- Vamos - disse Cucumetto, dando um passo na direco dos
convivas. - No vens?

"-- Vou j...

"Cucumetio afastou-se sem perder de vista Carlini, receando
sem dvida que o atacasse por trs. Mas nada no bandido
denunciava uma inteno hostil

"Estava de p, com os braos cruzados, junto de Rita, que
continuava desmaiada.

"Por instantes Cucumetto pensou que o rapaz a tomasse nos
braos e fugisse com ela. Mas isso pouco lhe importava agora;
possura Rita, como pretendia, e quanto ao dinheiro, trezentas
piastras divididas pela quadrilha eram to pouco que no se
importava muito perd-las.

"Continuou pois o seu caminho para a clareira. Mas com grande
espanto seu Carlini chegou l quase ao mesmo tempo que ele.

"-- A tiragem  sorte! A tiragem  sorte! - gritaram todos os
bandidos ao verem o chefe.

"e os olhos de todos aqueles homens brilharam de embriaguez e
lascvia, enquanto as chamas da fogueira lanavam sobre as
suas pessoa; um claro avermelhado que os fazia parecer
demnios

"O que pediam era justo. Por isso, o chefe fez um sinal com a
cabea, anunciando que aquiescia ao pedido. Meteram-se todos
os nomes num chapu, o de Carlini como os dos outros, e o mais
novo da quadrilha tirou da urna improvisada um boletim.

"o boletim tinha o nome de Diavolaccio.

"Era o mesmo que propusera a Carlini o brinde  sade do
chefe e a quem Carlini respondera quebrando-lhe o copo na
cara.

"Um grande ferimento aberto da tmpora  boca deixava correr
o sangue aos borbotes.

"Ao ver-se assim favorecido pela sorte, Diavolaccio soltou
uma gargalhada.

"-- Capito - disse --, h pouco, Carlini no quis beber  sua
sade. Convide-o agora a beber  minha, talvez seja mais
condescendente consigo do que comigo.

"Todos esperavam uma exploso da parte de Carlini; mas com
grande surpresa de todos, pegou num copo e numa garrafa,
encheu o copo e disse com voz perfeitamente calma:

"--  tua sade, Diavolaccio.

"E bebeu o contedo do copo sem que a mo lhe tremesse.
Depois sentou-se ao p da fogueira e pediu:

"-- A minha parte da ceia! A corrida que acabo de fazer
abriu-me o apetite.

"-- Viva Carlini! - gritaram os bandidos.

"-- Sim, senhor, isto  o que se chama levar as coisas como
companheiro!

"E todos refizeram o crculo  volta da fogueira, enquanto
Diavolaccio se afastava.

"Carlini comia e bebia como se nada se tivesse passado.

"Os bandidos olhavam-no com espanto, sem compreenderem aquela
impassibilidade, quando ouviram passos pesados ressoarem no
cho atrs deles.

"Viraram-se e viram Diavolaccio com a rapariga nos braos.

"Ela tinha a cabea inclinada para trs e os seus longos
cabelos pendiam at ao cho.

" medida que entravam no crculo da luz projectada pela
fogueira, notava-se cada vez mais a palidez da jovem e do
bandido.

"Aquela apario tinha qualquer coisa de to estranho e
solene que todos se levantaram, excepto Carlini, que ficou
sentado e continuou a comer e beber como se nada se passasse 
sua volta.

"Diavolaccio continuava a avanar no meio do mais profundo
silncio, e depositou Rita aos ps do capito.

"Ento, toda a gente verificou a causa da palidez da jovem e
do bandido: Rita tinha uma faca cravada at ao cabo por baixo
do seio esquerdo.

"Todos os olhos se viraram para Carlini. A bainha que trazia
 cintura estava vazia.

"-- Ah, ah! -- exclamou o chefe. -- Compreendo agora por que
motivo Carlini ficou para trs.

"Toda a natureza selvagem est apta a apreciar uma aco
forte. Por isso, embora talvez nenhum dos bandidos fosse capaz
de fazer o que fizera Carlini, todos compreenderam o seu acto.

"-- Vejamos -- disse Carlini, levantando-se por sua vez e
aproximando-se do cadver com a mo na coronha de uma das suas
pistolas --, ainda h algum que me queira disputar esta
mulher?

"-- No -- respondeu o chefe --,  tua!

"Ento, Carlini tomou-a por seu turno nos braos e levou-a
para fora do crculo de luz que projectava a chama da
fogueira.

" Cucumetto disps as sentinelas como de costume e os bandidos
deitaram-se envoltos nas suas capas  roda da fogueira.

" meia-noite, uma sentinela deu o alerta e num instante o
chefe e os companheiros levantaram-se.

"Era o pai de Rita, que vinha pessoalmente trazer o resgate
da filha.

"-- Tome --disse a Cucumetto, estendendo-lhe uma bolsa de
dinheiro. -- Esto a trezentas piastras, restitua-me a minha
filha.

"Mas o chefe, sem pegar no dinheiro, fez-lhe sinal para que o
seguisse. O velho obedeceu. Ambos se afastaram para debaixo
das rvores, atravs de cujos ramos se filtrava o luar. Por
fim, Cucumetto deteve-se, estendeu a mo e indicou ao velho
duas pessoas reunidas ao p de uma rvore.

"-- Vs? -- disse-lhe. -- Pede a tua filha a Carlini,  ele
que ta tem de entregar.

"E voltou para junto dos companheiros.

"O velho ficou imvel e com os olhos fixos. Pressentia que
qualquer desgraa desconhecida, imensa, inaudita, lhe pairava
sobre a cabea.

"Por fim, deu alguns passos para o grupo informe, que no
conseguia identificar.

"Ao ouvir o rudo que o velho fazia ao avanar ao seu
encontro, Carlini levantou a cabea e as formas das duas
pessoas surgiram mais distintas aos olhos do velho.

"Deitada no cho encontrava-se uma mulher, com a cabea
pousada nos joelhos de um homem sentado e inclinado sobre ela.
Fora ao endireitar-se que o homem descobrira o rosto da mulher
que apertava ao peito.

"O velho reconheceu a filha e Carlini reconheceu o velho.

"-- Esperava-te -- disse o bandido ao pai de Rita.

"Miservel! - gritou o velho. - Que fizeste?

"E olhava com terror Rita, plida, imvel, ensanguentada, com
uma faca espetada no peito.

"Um raio de luar batia nela e iluminava-a com uma luz baa.

"-- Cucumetto violou a tua filha - disse o bandido - e como eu
a amava, matei-a. Porque depois dele iria servir de joguete a
toda a quadrilha.

"O velho no disse nada; apenas se tornou plido como um
espectro.

"-- Agora - disse Carlini - se fiz mal, vinga-a.

"E arrancou a faca do seio da rapariga, levantou-se e foi
oferec-la com uma das mos ao velho, enquanto com a outra
afastava a jaqueta e lhe oferecia o peito nu.

"-- Fizeste bem - disse-lhe o velho, numa voz abafada. -
Abraa-me meu filho.

"Carlini lanou-se soluando nos braos do pai da amada. Eram
as primeiras lgrimas que vertia aquele homem sanguinrio.

"-- Agora - disse o velho a Carlini - ajuda-me a enterrar a
minha filha.

"Carlini foi buscar duas enxadas e o pai e o apaixonado
abriram uma cova ao p de um carvalho cujos ramos frondosos
deveriam cobrir a sepultura da jovem.

"Uma vez a cova aberta, o pai foi o primeiro a beijar a filha
e depois o apaixonado. Em seguida, segurando-a um pelos ps e
o outro pelos braos, desceram-na  cova.

"Finalmente, ajoelharam-se um de cada lado e rezaram as
oraes dos mortos.

"Quando terminaram, cobriram o cadver de terra at a cova
ficar cheia.

"Ento, estendendo-lhe a mo, o velho disse a Carlini:

"-- Obrigado, meu filho! Agora, deixa-me sozinho.

"-- Mas...

"-- Deixa-me, ordeno-to.

"Carlini obedeceu, foi juntar-se aos camaradas, enrolou-se na
sua capa e em breve pareceu to profundamente
adormecido como os outros.

"Na vspera decidira mudar-se de acampamento.

"Uma hora antes de amanhecer, Cucumetto acordou os seus
homens e deu ordem de partida.

"Mas Carlini no quis deixar a floresta sem saber o que
acontecera ao pai de Rita.

"Dirigiu-se para o stio onde o deixara.

"Encontrou o velho enforcado num dos ramos do carvalho que
sombreavam a sepultura da filha.

"Fez ento sobre o cadver de um e a campa da outra o
juramento de vingar ambos.

"Mas no pde cumprir o juramento, porque dois dias mais
tarde, num recontro com os carabineiros romanos, Carlini foi
morto.

"Simplesmente causou estranheza que, estando de frente para o
inimigo, tivesse recebido uma bala entre as espduas.

"Mas a estranheza cessou quando um dos bandidos observou aos
seus camaradas que Cucumetto se encontrava dez passos atrs de
Carlini quando Carlini cara.

"Na manh da partida da floresta de Frosinone, Cucumetto
seguira Carlini na obscuridade, ouvira o juramento que ele
fizera e, como homem precavido que era, antecipara-se.

"A respeito deste terrvel chefe de quadrilha contavam-se
mais dez histrias no menos curiosas do que esta.

"Assim, de Fondi a Persia toda a gente tremia s de ouvir o
nome de Cucumetto.

"Tais histrias tinham sido muitas vezes tema de conversa
entre Luigi e Teresa.

"A rapariga tremia toda ao ouvi-las, mas Vampa
tranquilizava-a com um sorriso, batendo na sua excelente
espingarda, cujas balas eram infalveis. Depois, se nem mesmo
assim a jovem sossegava, mostrava-lhe a cem passos algum corvo
empoleirado num ramo morto, metia a arma  cara, premia o
gatilho e o animal, atingido, caia ao p da rvore.

"Entretanto, o tempo ia passando. Os dois jovens tinham
combinado casar-se quando tivessem Vampa vinte anos e Teresa
dezanove.

"Eram ambos rfos, s tinham de pedir licena ao patro e
haviam-na pedido e obtido.

"Um dia, quando conversavam acerca dos seus projectos de
futuro, ouviram dois ou trs tiros. Depois, de sbito, um
homem saiu do bosque perto do qual os dois jovens costumavam
fazer pastar os seus rebanhos e correu para eles.

"Quando chegou ao alcance da voz, gritou:

"-- Sou perseguido! Podem-me esconder?

"Os dois jovens adivinharam sem dificuldade que o fugitivo
devia ser algum bandido; mas existe entre o campons e o
bandido romano uma simpatia inata que leva o primeiro a estar
sempre pronto a ajudar o segundo.

"Sem dizer nada, Vampa correu portanto para a pedra que
vedava a entrada da sua gruta, descobriu essa entrada puxando
a pedra para si, fez sinal ao fugitivo para se refugiar
naquele asilo desconhecido de todos, empurrou a pedra para o
se lugar e voltou a sentar-se ao p de Teresa.

"Quase imediatamente, apareceram na orla do bosque quatro
carabineiros a cavalo. Trs pareciam andar  procura do
fugitivo, o quarto arrastava pelo pescoo um bandido
prisioneiro.

"Os trs carabineiros exploraram o local num relance de
olhos, viram os dois jovens, correram para eles a galope e
interrogaram-nos.

"No tinham visto ningum.

"--  pena - disse o cabo --, porque o que procuramos  o
chefe.

"-- Cucumetto?! - no puderam impedir-se de gritar ao mesmo
tempo Luigi e Teresa.

"-- Sim - respondeu o cabo --, e como a sua cabea estava
posta a prmio por mil escudos romanos, haveria quinhentos
para vocs se nos ajudassem a prend-lo.

"Os dois jovens entreolharam-se. O cabo teve um instante de
esperana. Quinhentos escudos romanos equivalem a trs mil
francos, e trs mil francos eram uma fortuna para dois pobres
rfos que iam casar.

"-- Sim,  pena - respondeu Vampa --, mas no o vimos.

"Ento os carabineiros bateram o local em vrias direces,
mas inutilmente.

"Depois, um aps outro, desapareceram.

"Ento, Vampa tirou a pedra e Cucumetto saiu.

"Este vira, atravs das frestas da porta de granito, os dois
jovens falarem com os carabineiros, adivinhara o tema da
conversa e lera no rosto de Luigi e de  Teresa a resoluo
inquebrantvel de o no entregar. Por isso, tirou da algibeira
uma bolsa cheia de ouro e ofereceu-lha.

"Mas Vampa ergueu a cabea com orgulho; quanto a Teresa, os
seus olhos brilharam ao pensar em tudo o que poderia comprar
com aquele dinheiro: ricas jias e lindos vestidos.

"Cucumetto era um diabo muito hbil que tomara a forma de um
bandido em vez de uma serpente. Surpreendeu aquele olhar,
reconheceu em Teresa uma digna filha de Eva e reentrou na
floresta virando-se vrias vezes a pretexto de saudar os seus
libertadores.

"Passaram-se vrios dias sem que ningum visse Cucumetto nem
se ouvisse falar dele.

"O Carnaval aproximava-se. O conde de San-Felice anunciou um
grande baile de mscaras, para o qual tudo o que Roma tinha de
mais elegante foi convidado.

"Teresa queria muito ver o baile. Luigi pediu ao seu
protector, o intendente, licena para ambos assistirem
escondidos entre os criados da casa. A licena foi concedida.

"O conde dava o baile sobretudo para ser agradvel a sua
filha Carmela, que adorava.

"Carmela era precisamente da idade e da estatura de Teresa, e
Teresa era pelo menos to bela como Carmela.

"Na noite do baile, Teresa ps o seu mais bonito vestido, as
suas mais ricas agulhetas e os seus mais brilhantes vidrilhos.
Usava o traje das mulheres de Frascati.

"Luigi envergava o traje to pitoresco do campons romano em
dias de festa.

"Ambos se misturaram, como lhes fora permitido, com os
criados e os camponeses.

"A festa estava magnfica No s o palcio se encontrava
feericamente iluminado, como tambm se viam milhares de
lanternas coloridas suspensas das rvores do jardim. Por isso,
em breve os convidados transbordaram do palcio para os
terraos e dos terraos para as alamedas.

"Em cada cruzamento havia uma orquestra, bufetes e refrescos.
Os passeantes detinham-se, formavam-se quadrilhas e danava-se
onde apetecia danar.

"Carmela envergava o traje das mulheres de Sonino: touca
bordada a prolas, presa ao cabelo por alfinetes de ouro e
diamantes, faixa de seda turca com grandes flores bordadas,
saia de caxemira e avental de musselina da ndia. Os botes
do corpete eram de pedras preciosas.

"Duas das suas companheiras estavam vestidas, uma de mulher
de Netuno e a outra de mulher da Riccia.

"Acompanhavam-nas quatro jovens das mais ricas e nobres
famlias de Roma, com essa liberdade italiana que no tem
igual em nenhum outro pais do mundo. Envergavam pela sua parte
os trajes dos camponeses de Albano, de Velletri, de
Civita-Castellana e de Sora.

"Escusado ser dizer que esses trajes de camponeses, assim
como os das camponesas, resplandeciam de ouro e pedrarias.

"Carmela lembrou-se de fazer uma quadrilha uniforme;
simplesmente, faltava-lhe uma mulher.

"Carmela olhava  sua volta, mas no via nenhuma convidada
com um traje semelhante ao seu e ao das suas companheiras.

"O conde de San-Felice mostrou-lhe, no meio das camponesas,
Teresa apoiada no brao de Luigi.

"-- D licena, meu pai? - perguntou Carmela.

"-- Sem dvida - respondeu o conde. - No estamos no Carnaval?

"-- Carmela inclinou-se para um rapaz que a acompanhava
conversando e disse-lhe algumas palavras, ao mesmo tempo que
lhe indicava com o dedo a rapariga.

"O jovem seguiu com a vista a bonita mo que lhe servia de
condutora, fez um gesto de obedincia e foi convidar Teresa a
figurar na quadrilha dirigida pela filha do conde.

"Teresa sentiu como uma labareda passar-lhe pelo rosto.
Interrogou Luigi com a vista; no havia maneira de recusar.
Luigi deixou deslizar lentamente o brao de Teresa, que
segurava no seu, e Teresa afastou-se conduzida pelo seu
elegante cavalheiro e foi tomar lugar, toda trmula, na
quadrilha aristocrtica.

"Claro que aos olhos de um artista o verdadeiro e severo
traje de Teresa teria caracter muito diferente do de Carmela e
das suas companheiras. Mas Teresa era uma rapariga frvola e
vaidosa. Os bordados da musselina, as palmas da faixa e o
brilho da caxemira deslumbravam-na, assim como o reflexo das
safiras e dos diamantes a enlouquecia.

"Pela sua parte, Luigi sentia nascer em si um sentimento
desconhecido. Era como que uma dor surda que primeiro lhe
mordia o corao e da, tremente, lhe corria pelas veias e se
lhe apoderava de todo o corpo. Seguia com a vista os menores
movimentos de Teresa e do seu par, e quando as suas mos se
tocavam sentia como que deslumbramentos, as suas artrias
latejavam com violncia e dir-se-ia vibrar-lhe aos ouvidos o
som de um sino. Quando falavam, embora Teresa escutasse,
tmida e de olhos baixos, as palavras do par, Luigi lia nos
olhos ardentes do rapaz que essas palavras eram louvores,
parecia-lhe que o cho girava debaixo de si e que todas as
vozes do Inferno lhe sussurravam ideias de morte e assassnio.
Ento, temendo deixar-se empolgar pela sua loucura,
agarrava-se com uma das mos ao bordo a que estava encostado
de p e com a outra apertava convulsivamente o punhal de cabo
esculpido que trazia  cintura e que sem dar por isso tirava
s vezes quase por completo da bainha.

"Luigi tinha cimes! Sentia que levada pela sua natureza
vaidosa e orgulhosa Teresa lhe poderia fugir.

"Entretanto, a jovem camponesa a princpio tmida e quase
amedrontrada depressa se recompusera. Dissemos que Teresa era
bonita. No dissemos tudo: Teresa era graciosa, mas possua
era graa bravia muito mais poderosa do que a nossa graa
dengosa e afectada.

"Teve quase as honras da quadrilha. E se invejou a filha do
conde de San-Felice, ousamos dizer que Carmela a no invejou
a ela.

"Por isso, foi com muitos cumprimentos que o seu belo par a
reconduziu ao lugar onde a fora buscar e esperava Luigi.

"Duas ou trs vezes, durante a contradana, a rapariga lhe
deitara uma olhadela e de todas as vezes o vira plido e de
rosto crispado. Uma vez at a lmina do seu punhal, meio
tirado da bainha, cegara-a como um relmpago sinistro.

"foi pois quase trmula que retomou o brao do amado.

"A quadrilha obtivera o maior xito e era evidente que todos
desejavam fazer segunda edio. S Carmela se opunha a isso.
Mas o conde de San-Felice insistiu com a filha to ternamente
que ela acabou por consentir.

"Imediatamente um dos cavalheiros se adiantou para convidar
Teresa, sem a qual era impossvel a contradana realizar-se,
mas a rapariga j desaparecera.

"Com efeito, Luigi no se sentira com coragem para suportar
segunda prova; e meio por persuaso, meio  fora, arrastara
Teresa para outro ponto do jardim. Teresa cedera muito a seu
pesar; mas vira a cara transtornada do rapaz e compreendera,
pelo seu silncio entrecortado de estremecimentos nervosos,
que algo estranho se passava nele. Ela prpria no estava
isenta da agitao interior, e embora nada tivesse feito de
mal, compreendia que Luigi tinha o direito de a censurar. A
respeito de qu? Ignorava-o, mas nem por isso sentia menos que
as censuras seriam merecidas.

"Todavia, com grande espanto de Teresa, Luigi ficou calado e
nem uma palavra lhe entreabriu os lbios durante todo o resto
da noite. Somente quando o frio nocturno expulsou os
convidados do jardim e as portas do palcio se voltaram a
fechar para eles, pois a partir dali a festa ia continuar, mas
l dentro, ao acompanhar Teresa a casa, lhe perguntou quando
ele ia a entrar:

"-- Teresa, em que pensavas quando danavas diante da jovem
condessa de San-Felice?

"-- Pensava - respondeu a rapariga com toda a franqueza da sua
alma - que daria metade da minha vida para ter um vestido como
o que ela trazia.

"-- E que te dizia o teu par?

"-- Dizia-me que s de mim dependia possu-lo e que para o ter
me bastaria dizer uma palavra.

"-- E tinha razo - respondeu Luigi. - Deseja-lo to
ardentemente como dizes?

"-- Desejo.

"-- Pois bem, t-lo-s!

"Atnita, a rapariga levantou a cabea para o interrogar; mas
o rosto de Luigi tinha uma expresso to terrvel e sombria
que as palavras lhe gelaram nos lbios.

"De resto, depois de dizer o que dissera, Luigi retirara-se.

"Teresa seguiu-o com a vista na noite, enquanto o pde
distinguir. Depois, quando ele desapareceu, entrou em casa
suspirando.

"Nessa mesma noite declarou-se um grande incndio, devido,
sem dvida,  imprudncia de algum criado que se esquecera de
apagar as luzes. O fogo apoderou-se do Palcio San-Felice
precisamente a partir dos aposentos da linda Carmela. Acordada
no meio da noite pelo claro das chamas, a jovem saltara da
cama, envolvera-se no roupo e tentara fugir pela porta. Mas a
galeria por onde teria de passar era j pasto das chamas.
Ento, regressara ao quarto e desatara a pedir socorro em
altos gritos, quando de sbito a janela, situada a vinte ps
do solo, se abrira, um jovem campons entrara a correr no
quarto, tomara-a nos braos e, com uma energia e um
desembarao sobre-humanos, transportara-a para a relva do
jardim, onde ela perdera os sentidos. Quando voltou a si, o
pai estava diante dela e todos os criados a rodeavam, ansiosos
por a socorrer. Ardera uma ala inteira do palcio. Mas que
importava, se Carmela estava s e salva?

"Procuraram por toda a parte o seu salvador, mas no o
encontraram. Perguntaram por ele a toda a gente, mas ningum o
vira. Quanto a Carmela, estava to assustada que no o
reconhecera.

"De resto, como o conde era imensamente rico, exceptuando o
perigo que Carmela correra e que lhe pareceu, dada a forma
miraculosa como lhe escapara, mais um novo favor da
Providncia do que uma verdadeira desgraa, a perda ocasionada
pelas chamas pouco representou para ele.

"No dia seguinte,  hora habitual, os dois jovens
encontraram-se na orla da floresta. Luigi fora o primeiro a
chegar. Foi ao encontro da rapariga muito bem disposto, como
se tivesse esquecido por completo a cena da vspera. Teresa
estava visivelmente pensativa; mas ao ver Luigi assim bem
disposto, afectou pela sua parte a despreocupao risonha que
constitua o fundo do seu caracter quando qualquer paixo o
no perturbava.

"Luigi tomou Teresa pelo brao e conduziu-a at  porta da
gruta. A, deteve-se. Compreendendo que havia algo
extraordinrio, a rapariga olhou fixamente.

" Teresa -- disse Luigi --, ontem  noite disseste-me que
darias tudo no mundo para ter um vestido semelhante ao da
filha do conde...

"-- Pois disse - respondeu Teresa, atnita. - Mas estava louca
para manifestar semelhante desejo.

"-- E eu respondi-te: "Pois bem, t-lo-s!"

"--  verdade - admitiu a jovem, cujo espanto aumentava a cada
palavra de Luigi. - Mas decerto respondeste isso para me seres
agradvel.

"-- Nunca te prometi nada que te no desse, Teresa - redarguiu
orgulhosamente Luigi. - Entra na gruta e veste-te.

"Ditas estas palavras, puxou a pedra e mostrou a Teresa a
gruta iluminada por duas velas que ardiam de cada lado de um
espelho magnfico. Em cima da mesa rstica, feita por Luigi,
encontravam-se expostos o colar de prolas e os alfinetes de
diamantes, e numa cadeira ao lado encontrava-se o resto do
traje.

"Teresa soltou um grito de alegria e, sem se informar donde
viera aquele traje nem perder tempo a agradecer a Luigi,
correu para a gruta transformada em gabinete de vestir.

"Luigi correu a pedra atrs dela, porque acabava de ver, no
cimo de uma colinazinha que impedia que do lugar onde estava
se visse Palestrina, um viajante a cavalo que se deteve um
instante como que hesitante no seu caminho e se recortou no
azul do cu com a nitidez de contornos caracterstica dos
longes dos pases meridionais.

"Ao ver Luigi, o viajante meteu o cavalo a galope e foi ao
seu encontro.

"Luigi no se enganara: o viajante, que se dirigia de
Palestrina para Tivoli, estava hesitante no caminho.

"O rapaz indicou-lho. Mas como a um quarto de milha dali a
estrada se dividia em trs caminhos e, chegado ai, o viajante
se pudesse perder novamente, pediu a Luigi que lhe servisse de
guia.

"Luigi tirou a capa e p-la no cho, ps a carabina ao ombro
e, liberto assim da pesada pea de vesturio, seguiu  frente
do viajante com o passo rpido do montanhos que o passo de um
cavalo dificilmente acompanha.

"Em dez minutos, Luigi e o viajante chegaram  espcie de
encruzilhada indicada pelo jovem pastor.

"Uma vez a, num gesto majestoso como o de um imperador,
Luigi estendeu a mo para aquela das trs estradas que o
viajante devia seguir.

"-- Aqui tem o seu caminho, Excelncia - disse-lhe. - Agora j
no tem nada que se enganar.

"-- E tu aqui tens a tua recompensa - disse o viajante,
oferecendo ao jovem pastor algumas moedas de pouco valor.

"-- Obrigado -- disse Luigi, retirando a mo. -- Presto um
favor, no o vendo.

"-- Mas -- disse o viajante, que parecia de resto habituado 
diferena entre o servilismo do homem das cidades e o orgulho
do campons --, se recusas um salrio aceitas ao menos um
presente?

"-- Aceito, isso  diferente.

"-- Ento - disse o viajante --, toma estes dois sequins de
Veneza e d-os  tua noiva para fazer uns brincos.

"-- E o senhor tome este punhal - disse o jovem pastor. - De
Albino a Civita-Castellana no encontrar outro cujo punho
esteja melhor esculpido.

"-- Aceito - respondeu o viajante. - Mas assim sou eu que te
fico em dvida, pois este punhal vale mais do que dois
sequins.

"-- Para um comerciante, talvez; mas para mim, que o esculpi,
vale apenas uma piastra.

"-- Como te chamas? - perguntou o viajante.

"-- Luigi Vampa - respondeu o pastor, com o mesmo ar com que
responderia: "Alexandre, rei da Macednia." - E o senhor?

"-- Eu - respondeu o viajante - chamo-me Simbad, o Marinheiro.

Franz de Epinay soltou um grito de surpresa.

- Simbad, o Marinheiro! - exclamou.

- Sim - confirmou o narrador. - Foi o nome que o viajante deu
a Vampa como sendo o seu.

- Mas afinal voc tem alguma coisa contra esse nome? -
perguntou Albert ao amigo. -  um belssimo nome, e as
aventuras do patro desse cavalheiro divertiram-me muito,
confesso, na minha adolescncia.

Franz no insistiu mais. Como bem se compreende, o nome de
Simbad, o Marinheiro, despertara nele um mundo de recordaes,
como na vspera o do conde de Monte-Cristo.

- Continue - pediu ao hoteleiro.

-Vampa meteu desdenhosamente os dois sequins na algibeira e
retomou lentamente o caminho por onde viera.
Chegado a duas ou trs centenas de passos, da gruta, julgou
ouvir um grito.

"Parou e escutou para saber de que lado vinha esse grito.

"Passado um segundo, ouviu o seu nome pronunciado
distintamente.

"O apelo vinha ao lado da gruta.

"Saltou como um cabrito-monts, armou a espingarda enquanto
corria e chegou em menos de um minuto ao alto da colina oposta
quela em que vira o viajante.

"Ali os gritos de "Socorro!" chegaram-lhe ainda mais
distintos.

"Relanceou, a vista pelo espao que dominava: um homem
raptava Teresa como o centauro Nesso raptara Dejanira.

"Esse homem, que se dirigia para o bosque, encontrava-se j a
trs quartos do caminho entre a gruta e a floresta.

"Vampa calculou a distncia. O homem tinha duzentos passos de
avano sobre ele, pelo menos, e no havia possibilidade de o
apanhar antes de chegar ao bosque.

"O jovem pastor deteve-se como se os seus ps tivessem criado
razes. Encostou a coronha da espingarda ao ombro, levantou
lentamente o cano na direco do raptor, seguiu-o um segundo
na corrida e disparou.

"O raptor parou bruscamente, os joelhos dobraram-se-lhe e o
homem caiu arrastando Teresa na queda.

"Mas Teresa levantou-se imediatamente. Quanto ao fugitivo,
ficou cado, debatendo-se nas convulses da agonia.

"Vampa correu para Teresa, porque, a dez passos do moribundo,
as pernas tambm lhe tinham faltado e a jovem cara de
joelhos. O rapaz tinha o receio terrvel de que a bala que
abatera o inimigo tivesse ao mesmo tempo ferido a noiva.

"Felizmente, nada disso acontecera, fora apenas o terror que
paralisara as foras de Teresa. Quando Luigi teve a certeza de
que estava s e salva, virou-se para o ferido.

"Acabava de expirar, com os punhos fechados, a boca contrada
pela dor e os cabelos eriados sob o suor da agonia.

"Os olhos tinham-lhe ficado abertos e ameaadores.

"Vampa, aproximou-se do cadver e reconheceu Cucumetto.

"Desde o dia em que o bandido fora salvo pelos dois jovens,
ficara apaixonado por Teresa e jurara que a rapariga seria
sua. A partir desse dia, espiara-a. E, aproveitando o momento
em que o rapaz a deixara sozinha para indicar o caminho ao
viajante, raptara-a e julgava-se j senhor dela quando a bala
de Vampa, guiada pela pontaria infalvel do jovem pastor, lhe
traspassara o corao.

"Vampa, olhou-o um instante sem a menor emoo, enquanto
Teresa, pelo contrrio, ainda toda trmula, no ousava
aproximar-se do bandido morto seno em passinhos curtos e
deitava hesitante uma olhadela ao cadver por cima do ombro do
amado.

"Passado um instante, Vampa virou-se para a noiva e disse:
- Ah, ah, j ests vestida!... Vou vestir-me tambm.

- Com efeito, Teresa trazia, da cabea aos ps, o traje da
filha do conde de San-Felice.

"Vampa, pegou no corpo de Cucumetto e levou-o para a gruta,
enquanto Teresa ficava c fora.

"Se tivesse passado segundo viajante, veria uma coisa
estranha: uma pastora a guardar as suas ovelhas com um vestido
de caxemira, brincos e um colar de prolas, alfinetes de
diamantes e botes de safiras, esmeraldas e rubis.

"Sem dvida julgar-se-ia regressado ao tempo de Floriano e
afirmaria, ao regressar a Paris, que encontrara a pastora dos
Alpes sentada ao p dos montes Sabinos.

"Passado um quarto de hora, Vampa saiu por sua vez da gruta.
O seu traje no era menos elegante, no seu gnero, do que o de
Teresa.

"Trazia uma jaqueta de veludo carmesim, com botes de ouro
cinzelado, colete de seda todo coberto de bordados, um leno
romano atado ao pescoo,  uma cartucheira toda adornada de
ouro e seda encarnada e verde, cales de veludo azul-celeste
presos por baixo do joelho com fivelas de diamantes, polainas
de pele de gamo adornadas com mil arabescos coloridos e chapu
onde adejavam fitas de todas as cores. Pendiam-lhe da cintura
dois relgios e trazia entalado na cartucheira um magnfico
punhal.

"Teresa soltou um grito de admirao. Assim vestido, Vampa
lembrava um quadro de Lopold Robert ou de Schnetz.

"Envergara o traje completo de Cucumetto.

"O rapaz notou o efeito que produzia sobre a noiva e um
sorriso de orgulho entreabriu-lhe a boca.

"-- Agora - perguntou a Teresa --, ests pronta a compartilhar
a minha sorte qualquer que ela seja?

"-- Estou! - gritou a rapariga com entusiasmo.

"-- A seguir-me para toda a parte onde for?

"-- At ao fim do mundo.

"-- Ento, toma o meu brao e partamos, porque no temos tempo
a perder.

"A rapariga passou o brao pelo do noivo sem sequer lhe
perguntar para onde a levava. Naquele momento, parecia-lhe
belo, orgulhoso e forte como um deus.

"E ambos se dirigiram para a floresta, cuja orla transpuseram
ao cabo de poucos minutos.

"Escusado ser dizer que Vampa conhecia todos os caminhos da
montanha. Penetrou portanto na floresta sem hesitar um s
instante, embora no houvesse nenhum carreiro aberto, mas
orientando-se apenas no caminho que devia seguir pelo exame
das rvores e das moitas. Caminharam assim hora e meia,
aproximadamente.

"Ao fim desse tempo encontravam-se na parte mais densa do
bosque. O leito de um rio seco conduzia a uma garganta
profunda. Vampa tomou esse estranho caminho que, apertado
entre duas margens e escurecido pela sombra espessa dos
pinheiros, parecia, excepto na facilidade da descida, o
caminho do Averno de que fala Virglio.

"Teresa ficou atemorizada com o aspecto daquele local
selvagem e deserto e chegou-se mais para o seu guia sem dizer
palavra. Mas como o via caminhar sempre com o mesmo passo e
uma calma profunda lhe iluminasse o rosto, ela prpria acabou
por conseguir dissimular a sua emoo.

"De sbito, a dez passos deles, um homem pareceu destacar-se
de uma rvore atrs da qual se encontrava escondido e apontou
a arma a Vampa.

"-- Nem mais um passo ou morres! - gritou.

"-- Pois sim - respondeu Vampa, levantando a mo num gesto de
desprezo, enquanto Teresa, j sem esconder o seu terror, se
apertava contra ele. Porque os lobos tambm se comem uns aos
outros!...

"-- Quem s? - perguntou a sentinela.

"-- Luigi Vampa, pastor da quinta de San-Felice.

"-- Que queres?

"-- Falar com os teus companheiros que esto na clareira de
Rocca Bianca.

"-- Ento, segue-me - disse a sentinela. - Ou antes, como
sabes onde fica a clareira, vai  frente.

"Vampa sorriu com ar de desprezo da precauo do bandido,
passou para a frente com Teresa e continuou o seu caminho com
o mesmo passo firme e tranquilo que o trouxera at ali.

"Ao cabo de cinco minutos, o bandido mandou-os parar.

"Os dois jovens obedeceram.

"O bandido imitou trs vezes o grasnar do corvo.

"Outro grasnido respondeu ao triplo chamamento

"-- Pronto - disse o bandido -- , agora podes seguir.

"Luigi e Teresa recomearam a andar.

"Mas  medida que avanavam, mais Teresa, trmula, se
apertava contra o noivo. Com efeito, atravs das rvores
viam-se aparecer armas e cintilar canos de espingarda.

"A clareira de Rocca Bianca ficava no alto de uma pequena
montanha que noutros tempos fora sem dvida um vulco, vulco
extinto antes de Rmulo e Remo deixarem Alba para vir edificar
Roma.

"Teresa e Luigi chegaram ao cimo e encontraram-se no mesmo
instante diante de uma vintena de bandidos.

"-- Este rapaz quer falar com vocs - disse a sentinela.

"-- Que tem para nos dizer? - perguntou o que, na ausncia do
chefe, o substitua.

"-- Quero dizer que estou farto da profisso de pastor -
declarou Vampa.

"-- Ah, compreendo! - disse o lugar-tenente. - E vens
pedir-nos para seres admitido nas nossas fileiras?

"-- Que seja bem-vindo! - gritaram vrios bandidos de
Ferrusino, Pampinara e Anagni, que tinham reconhecido Luigi
Vampa.

"-- Pois sim, simplesmente venho pedir-lhes outra coisa
diferente de ser mais um companheiro.

"-- Que vens pedir-nos? - perguntaram os bandidos, espantados.

"-- Venho pedir-lhes para ser vosso capito - respondeu o
rapaz.

"Os bandidos desataram a rir.

"-- E que fizeste para aspirar a essa honra? - inquiriu o
lugar-tenente.

"-- Matei o vosso chefe Cucumetto (aqui est o seu esplio) e
deitei fogo ao palcio de San-Felice para dar um vestido de
casamento  minha noiva - respondeu Luigi.

"Uma hora depois, Luigi Vampa era eleito capito em
substituio de Cucumetto.

-- Ento, meu caro Albert - disse Franz, virando-se para o
amigo --, que pensa agora do cidado Luigi Vampa?

- Digo que  um mito - respondeu Albert - e que nunca existiu.

- Que  um mito? - perguntou Pastrini.

- Isso levaria muito tempo a explicar-lhe, meu caro anfitrio
- respondeu Franz. - E diz que mestre Vampa exerce neste
momento a sua profisso nos arredores de Roma?

- E com uma audcia de que nenhum bandido antes dele deu o
exemplo.

- Quer dizer que a Polcia tentou em vo prend-lo?

- Que quer, ele est feito ao mesmo tempo com os pastores da
plancie, os pescadores do Tibre e os contrabandistas da
costa! Se o procuram na montanha, est no rio; se o perseguem
no rio, vai para o mar; depois, de repente, quando o  julgam
refugiado na ilha do Ciglio, do Guanouti ou de Monte-Cristo,
vem-no reaparecer em Albano, em Tvoli ou na Riccia.

- E qual  a sua maneira de proceder com os viajantes?

- Oh, meu Deus,  muito simples! Conforme a distncia a que se
encontram da cidade, d-lhes oito horas, doze horas ou um dia
para pagarem o resgate. Passado esse tempo, concede mais uma
hora de espera. Ao sexagsimo minuto dessa hora, se no chegou
o dinheiro, estoira os miolos ao prisioneiro com um tiro de
pistola, ou crava-lhe o punhal no corao, e est tudo
arrumado.

- Ento, Albert, continua disposto a ir ao Coliseu pelos
bulevares exteriores? - perguntou Franz ao companheiro.

- Absolutamente - respondeu Albert --, desde que o caminho
seja mais pitoresco.

Neste momento, deram nove horas, a porta abriu-se e o cocheiro
apareceu.

- Excelncias - anunciou --, a carruagem espera-vos.

- Bom - disse Franz --, nesse caso para o Coliseu!

- Pela Porta del Popolo, Excelncias, ou pelas ruas?

- Pelas ruas, com a breca, pelas ruas! - gritou Franz.

- Ah, meu caro, julgava-o mais corajoso! - exclamou Albert,
levantando-se por seu turno e acendendo o seu terceiro
charuto.

Em seguida, os dois jovens desceram a escada e meteram-se na
carruagem.


Captulo XXXIV

Apario


Franz encontrara um meio termo para que Albert chegasse ao
Coliseu sem passar diante de nenhuma runa antiga e,
consequentemente, sem que as preparaes graduais roubassem ao
colosso um nico cvado das suas gigantescas propores. Esse
meio-termo consistia em seguir a Via Sistinia, cortar 
direita defronte de Santa Maria Maior e chegar pela Via Urbana
e San Pietro in Vincoli  Via del Colosseo.

Este itinerrio oferecia alis outra vantagem: o de no
distrair em nada Franz da impresso produzida em si pela
histria que contara mestre Pastrini e na qual se encontrava
metido o seu misterioso anfitrio de Monte-Cristo. Por isso
aninhara-se no seu canto e recara nos mil interrogatrios sem
fim a que ele prprio se submetera e dos quais nem um lhe dera
resposta satisfatria.

Outra coisa, de resto, lhe recordara tambm o seu amigo
Simbad, o Marinheiro: as misteriosas relaes entre os
bandidos e os marinheiros. O que mestre Pastrini dissera
acerca do refgio que Vampa encontrava nas embarcaes dos
pescadores e dos contrabandistas, lembrava a Franz os dois
bandidos corsos que encontrara a cear com a tripulao do
iatezinho, o qual se desviara da sua rota e demandara
Porto-Vecchio apenas para os desembarcar. O nome que se dava
ao seu anfitrio de Monte-Cristo, pronunciado pelo dono do
Hotel de Espanha, provava-lhe que desempenhava o mesmo papel
filantrpico tanto nas costas de Piombino, de Civita-Vecchia,
de stia e de Gaeta, como nas  de Crsega, da Toscana e da
Espanha. E como ele prprio, tanto quanto se recordava Franz,
falara de Tunes e de Palermo, isso era a prova de que abarcava
um crculo de relao bastante extenso.

Mas por mais que todas estas reflexes inclussem no esprito
do jovem, desvaneceram-se quando viu erguer-se diante de si o
fantasma sombrio e gigantesco do Coliseu, atravs de cuias
aberturas o luar projectava os longos e plidos raios que
expelem os olhos dos espectros. A carruagem deteve-se a poucos
passos da Mesa Sudans. O cocheiro veio abrir a portinhola. os
dois jovens apearam-se e encontraram-se diante de um cicerone
que parecia ter acabado de sair do cho.

Como o do hotel os seguira, com mais aquele eram dois.

Impossvel, de resto, evitar em Roma o luxo dos guias. Alm do
cicerone geral que se apodera de ns no momento em que pomos o
p na soleira da porta do hotel, e que s nos larga no dia em
que pomos o p fora da cidade, h ainda um cicerone especial
ligado a cada monumento, e eu diria quase a cada fraco de
monumento. Imagine-se portanto como pulularo os cicerones no
Coliseu, isto , no monumento por excelncia, acerca do qual
dizia Marcial: "Que Mnfis deixe de nos gabar os brbaros
milagres das suas pirmides, que se no cantem mais as
maravilhas da Babilnia. Tudo deve ceder perante a obra imensa
do anfiteatro dos Csares e todas as vozes da I ama se devem
reunir para elogiar este monumento."

Franz e Albert no tentaram sequer subtrair-se  tirania
ciceroniana. De resto, isso seria tanto mais difcil quanto 
certo serem apenas os guias quem tem direito a percorrer o
monumento com archotes. No opuseram pois nenhuma resistncia
e entregaram-se de ps e mos amarrados aos seus condutores.

Franz conhecia o passeio por j o ter feito dez vezes. Mas
como o companheiro, mais novio, punha pela primeira vez o p
no monumento de Flvio Vespasiano, devo confessar em sua honra
que, apesar do cacarejo ignorante dos seus guias, estava
muitssimo impressionado. Efectivamente, no se faz ideia,
antes de a ver, da majestade de semelhante runa, em que todas
as propores so ainda aumentadas pela misteriosa claridade
de um luar meridional cujos raios parecem um crepsculo do
Ocidente.

Por isso, assim que Franz, o pensador, deu cem passos debaixo
dos prticos interiores, abandonou Albert aos seus guias, que
no estavam dispostos a renunciar ao direito imprescritvel de
lhe mostrar em todos os seus pormenores a cova dos lees, as
instalaes dos gladiadores e o pdio dos Csares, meteu por
uma escada semiarruinada e, deixando-o continuar o seu caminho
simtrico, foi-se muito simplesmente sentar  sombra de uma
coluna, diante de uma meia-lua que lhe permitia abarcar o
gigante de granito em toda a sua majestosa extenso.

Franz encontrava-se ali havia um quarto de hora
aproximadamente, oculto, como j disse, na sombra de uma
coluna, entretido a observar Albert que, acompanhado dos seus
dois porta-archotes, acabava de sair de um vomitorium
situado na outra extremidade do Coliseu, e os quais, como as
sombras que acompanham um fogo-ftuo, desciam de degrau em
degrau para os lugares reservados s vestais, quando lhe
pareceu ouvir rolar nas profundezas do monumento uma pedra
solta da escada situada defronte da que tomara para chegar ao
local onde estava sentado. No tem nada de estranho, sem
dvida, que uma pedra se solte debaixo do p do tempo e role
no abismo; mas desta vez
parecia-lhe que fora aos ps de um homem que a pedra cedera e
que um rudo de passos chegava at ali, embora aquele que o
ocasionava fizesse tudo o que podia para os abafar.

Com efeito, passado um instante, apareceu um homem que saiu
gradualmente da sombra  medida que subia a escada, cuja
abertura, situada defronte de Franz, era iluminada pelo luar,
mas cujos degraus desapareciam nas trevas  medida que se
desciam.

Poderia ser um turista como ele que preterisse a meditao
solitria  tagarelice sem sentido dos seus guias, e portanto
a sua apario nada ter de surpreendente; mas a hesitao com
que subiu os ltimos degraus e a forma como, chegado 
plataforma, parou e pareceu escutar, denotavam com evidncia
que estava ali com um fim especial e esperava algum.

Num gesto instintivo, Franz escondeu-se o mais que pde atrs
da coluna.

A dez ps do pavimento onde ambos se encontravam a abbada
estava danificada e uma abertura redonda, semelhante  de um
poo, permitia ver o cu todo constelado de estrelas.

 roda da abertura, que talvez desse havia j centenas de
anos passagem aos raios do luar, cresciam silvas cujas frgeis
folhas verdes se recortavam e salientavam, com vigor no azul
bao do firmamento, enquanto grandes cips e pujantes rebentos
de hera pendiam daquele terrao superior e se agitavam debaixo
da abbada como cordas flutuantes.

A personagem cuja chegada misteriosa atrara a ateno de
Franz encontrava-se colocada numa meia-luz que lhe no
permitia distinguir-lhe as feies, mas que mesmo assim no
era suficientemente escura para o impedir de lhe examinar em
pormenor a indumentria. O sujeito estava envolto numa grande
capa escura da qual um dos panos, atirado por cima do ombro
esquerdo, lhe ocultava a parte inferior da cara, enquanto o
chapu de abas largas lhe cobria a parte superior. Apenas a
extremidade da sua indumentria era iluminada pela luz oblqua
que passava pela abertura, o que permitia divisar umas calas
pretas que caiam elegantemente sobre umas botas de verniz.

Aquele homem pertencia, evidentemente, seno  aristocracia,
pelo menos  alta sociedade.

Estava ali havia alguns minutos e comeava a dar visveis
sinais de impacincia quando se ouviu um leve rudo no terrao
superior.

No mesmo instante, uma sombra interceptou a luz, um homem
apareceu na abertura, mergulhou o olhar penetrante nas trevas
e viu o homem da capa. Agarrou imediatamente um punhado de
cips pendentes e de hera flutuante, deixou-se escorregar e,
chegado a trs ou quatro ps do cho, saltou ligeiramente para
terra. O recm-chegado envergava um traje completo de
habitante do Trastevere.

- Desculpe, Excelncia, t-lo feito esperar - disse em
dialecto romano. - Alis, atrasei-me apenas alguns minutos.
Acabam de dar dez horas em S. Joo de Latro.

- Eu  que cheguei adiantado e no voc que chegou atrasado -
respondeu o desconhecido no mais puro toscano. - Portanto,
deixemo-nos de desculpas. De resto, se me fizesse esperar
estou certo de que seria por motivo independente da sua
vontade.

- E teria razo, Excelncia. Venho do Castelo de Santo Angelo
e tive muita dificuldade em falar com Beppo.

- Quem  esse Beppo?

- Beppo  um funcionrio da priso a quem pago uma pequena
subveno para saber o que se passa dentro do castelo de Sua
Santidade.

- Ah, ah, vejo que  homem precavido, meu caro!...

- Que quer, Excelncia, nunca se sabe o que pode acontecer...
Talvez um dia me apanhem na rede com o pobre Peppino e precise
de um rato para me roer algumas malhas da minha priso...

- Em suma, que soube?

- Haver duas execues na tera-feira s duas horas, como 
hbito em Roma aquando do incio de grandes testas. Um
condenado ser mazzolato. Trata-se de um miservel que
assassinou um padre que o criou e que no merece qualquer
interesse. O outro ser decapitato, e esse  o pobre
Peppino.

- Que quer, meu caro, inspira to grande terror no s ao
governo pontifcio, como tambm aos reinos vizinhos, que
pretendem absolutamente dal um exemplo.

- Mas Peppino nem sequer pertenceu  minha quadrilha.  um
pobre pastor que apenas cometeu o crime de nos fornecer
vveres.

- O que o constituiu perfeitamente em seu cmplice. Por isso,
tm alguma considerao com ele: em vez de o fustigarem, como
acontecer consigo se alguma vez lhe puserem as mos em cima,
limitar-se-o a guilhotin-lo. De resto, isso variar os
prazeres do povo e haver espectculo para todos os gostos.

- Sem contar com o que organizo e pelo qual ningum espera -
acrescentou o trastevenano.

- Meu caro amigo, permita-me que lhe diga que me parece
disposto a cometer alguma tolice - observou o homem da capa.

- Estou disposto a tudo para impedir a execuo do pobre
diabo, que est em apuros por me ter ajudado. Pela Madona,
considerar-me-ia um cobarde se no fizesse qualquer coisa pelo
pobre rapaz!

- Que tenciona fazer?

- Colocarei uns vinte homens  roda do cadafalso e quando o
trouxerem, a um sinal que darei, atirar-nos-emos de punhal em
punho  escolta e apoderar-nos-emos dele.

- Isso parece-me muito arriscado e creio decididamente que o
meu plano  melhor do que o seu.

- Qual  o seu plano, Excelncia?

- Darei dez mil piastras a determinada pessoa que conheo e
que conseguir que a execuo de Peppino seja adiada para o
prximo ano. Depois, durante o ano, darei mais mil piastras a
outra pessoa que conheo e f-lo-ei evadir da priso.

- Tem a certeza de no falhar?

- Claro! - respondeu em francs o homem da capa.

- Que disse? - perguntou o trasteveriano.

- Disse, meu caro, que conseguirei mais sozinho com o meu ouro
do que voc e toda a sua gente com os seus punhais, as suas
pistolas, as suas carabinas e os seus bacamartes. Deixe-me
portanto agir.

- A vontade! Mas se falhar, estaremos prontos para
intervir.

- Estejam prontos para intervir, se isso lhes d prazer, mas
garanto-lhe que obterei o adiamento.

- A execuo  depois de amanh, tera-feira, no se esquea.
S dispe do dia de amanh.

- Claro. Mas o dia compe-se de vinte e quatro horas, cada
hora de sessenta minutos e cada minuto de sessenta segundos; e
em oitenta e seis mil e quatrocentos segundos fazem-se muitas
coisas.

- Se for bem sucedido, Excelncia, como o saberemos?

- De uma maneira muito simples. Aluguei as trs ltimas
janelas do Caf Rospoli. Se obtiver o adiamento, as duas
janelas do canto estaro forradas de damasco amarelo e a do
meio estar forrada de damasco branco com uma cruz vermelha.

- Muito bem. E por quem mandar entregar a graa?

- Mande-me um dos seus homens disfarado de penitente e
entregar-lha-ei. Graas ao seu traje, poder chegar junto do
cadafalso e entregar a bula ao chefe da confraria, que a
entregar ao carrasco. Entretanto, faa chegar esta notcia a
Peppino, no v morrer de medo ou enlouquecer e fazermos por
ele uma despesa intil.

- Escute Excelncia - disse o trasteveriano. - Sou-lhe muito
dedicado e creio que est convencido disto, no  verdade?

- Espero-o, pelo menos.

- Pois bem, se salvar Peppino, ser mais do que dedicao no
futuro, ser obedincia.

- Cuidado com o que diz, meu caro! Talvez lho recorde um dia,
pois talvez um dia tambm eu precise de si...

- Nesse caso, Excelncia, encontrar-me- na hora da
necessidade, tal estou certo de que o encontraria nessa mesma
hora. Ento, ainda que estivesse nos confins do mundo, no
teria mais do que escrever-me: "Faa isto!" e eu f-lo-ia,
palavra de...

- Caluda! - atalhou o desconhecido. - Ouvi um rudo.

- So turistas que visitam o Coliseu  luz de archotes.

-  intil que os encontrem juntos. Esses guias denunciantes
poderiam reconhec-lo, e por muito honrosa que seja a sua
amizade, meu caro amigo, se nos soubessem ligados como estamos
receio muito que semelhante ligao me fizesse perder um
bocadinho do meu crdito.

- Portanto, se conseguir o adiamento...

- A janela do meio forrada de damasco com uma cruz vermelha.

- E se o no conseguir?...

- Trs tapearias amarelas.

- E nesse caso...

- E nesse caso, meu caro amigo, sirva-se do punhal  sua
vontade. Permito-lho e estarei l para o ver actuar.

- Adeus, Excelncia. Conto consigo, conte comigo.

Ditas estas palavras, o trasteveriano desapareceu pela escada,
enquanto o desconhecido, cobrindo mais do que nunca o rosto
com a capa, passou a dois passos de Franz e desceu  arena
pelos degraus exteriores.

Um segundo mais tarde, Franz ouviu o seu nome ecoar debaixo
das abbadas: era Albert quem o chamava.

Esperou para responder que os dois homens se afastassem, pois
no queria que soubessem que tinham tido uma testemunha que,
embora lhes no tivesse visto a cara, no perdera uma palavra
do seu dilogo.

Dez minutos depois, Franz rodava para o Hotel de Espanha,
escutando com uma distraco deveras impertinente a douta
dissertao que Albert fazia, segundo Plnio e Calprnio,
acerca das redes guarnecidas de pontas de ferro que impediam
as feras de se atirar aos espectadores.

Deixava-o falar sem o contradizer. Tinha pressa de se
encontrar sozinho para pensar sem que o distrassem no que
acabava de acontecer na sua presena.

Dos dois homens, um era-lhe certamente estranho, era a
primeira vez que o via e ouvia, mas o mesmo no acontecia com
o outro. E embora Franz lhe no pudesse ver a cara,
constantemente oculta na sombra ou escondida pela capa, o
timbre daquela voz impressionara-o tanto da primeira vez que a
ouvira que ela nunca mais poderia soar diante de si sem que a
reconhecesse.

Havia sobretudo nas intonaes irnicas qualquer coisa de
estridente e metlico que o fizera estremecer tanto nas runas
do Coliseu como na gruta de Monte-Cristo.

Por isso, estava absolutamente convencido de que aquele homem
no era outro seno Simbad, o Marinheiro.

Por isso, em qualquer outra circunstncia, a curiosidade que
lhe inspirara aquele homem seria to grande que no hesitaria
em dar-se-lhe a reconhecer. Mas naquela ocasio a conversa que
acabava de ouvir era demasiado ntima para que o no
contivesse o receio, muito sensato, de que o seu aparecimento
lhe no seria agradvel. Deixara-o portanto afastar-se, como
vimos, mas prometendo a si prprio, se o voltasse a encontrar,
no deixar fugir essa segunda oportunidade como deixara fugir
a primeira.

Franz estava demasiado preocupado para dormir bem. Gastou a
noite a passar e repassar no seu esprito todas as
circunstncias relacionadas com o homem da gruta e o
desconhecido do Coliseu, e que tendiam a fazer das duas
personagens o mesmo indivduo. E quanto mais Franz pensava
nisso, tanto mais se firmava nesta opinio.

Adormeceu ao amanhecer, o que fez com que acordasse muito
tarde. Albert, como verdadeiro parisiense que era, j tomara
as suas precaues para a noite e comeara por mandar comprar
um camarote ao Teatro Argentina.

Franz tinha de escrever vrias cartas para Frana e cedeu
portanto para todo o dia a carruagem a Albert.

Albert regressou s cinco horas. Apresentara as suas cartas de
recomendao, obtivera convites para todas as festas e
visitara Roma.

Um dia bastara a Albert para fazer tudo isso.

E ainda tivera tempo de se informar da pea que se
representava e dos actores que a desempenhariam.

A pea tinha por ttulo Parisina e os actores chamavam-se
Coselli, Moriani e Spech.

Os nossos dois jovens no eram to infelizes como julgavam:
iam assistir  representao de uma das melhores operas do
autor de Lucia di Lammermoor, interpretada por trs dos
mais famosos artistas da Itlia.

Albert nunca conseguira habituar-se aos teatros ultramontanos,
cujos lugares de orquestra eram insuportveis, e que no tm
balces nem frisas. Era duro para  um homem que tinha a sua
assinatura na pera Cmica e o seu lugar no camarote infernal
da pera Dramtica.

Mas isso no impedia Albert de se vestir a primor todas as
vezes que ia  pera com Franz. Primores desperdiados, pois
 mister reconhecer, para vergonha de um dos mais dignos
representantes da nossa fashion, que desde que h quatro
meses cruzava a Itlia em todos os sentidos, Albert no tivera
uma nica aventura.

s vezes, Albert procurava gracejar a tal respeito; mas no
fundo estava singularmente mortificado por ele, Albert de
Morcef, um dos jovens mais requestados, ainda no ter visto o
seu esforo recompensado. O caso era tanto mais penoso quanto
 certo que, segundo o hbito modesto dos nossos caros
compatriotas, Albert partira de Paris com a convico de ir
obter em Itlia os maiores xitos e de no regresso fazer as
delcias do Buievard de Gand com a histria das suas
aventuras.

Infelizmente, nada semelhante acontecera. As encantadoras
condessas genovesas, florentinas e napolitanas estavam presas,
no aos maridos, mas sim aos amantes, e Albert adquirira a
cruel convico de que as italianas tinham pelo menos sobre as
francesas a vantagem de serem fiis na sua infidelidade.

No quero dizer que na Itlia, como em toda a parte, no haja
excepes.

E contudo Albert era no s um cavalheiro perfeitamente
elegante, mas tambm um homem de muito esprito. Alm disso,
era visconde. Visconde da nova nobreza,  certo. Mas hoje, que
j no nos prendemos com essas ninharias, que importa que a
nobreza remonte a 1399 ou a 1815? Ainda por cima, tinha
cinquenta mil libras de rendimento. Como se verifica, era mais
do que o preciso para estar na moda em Paris. Da portanto ser
um bocadinho humilhante no ter ainda sido seriamente notado
por ningum em nenhuma das cidades por onde passara.

Contava, porm, desforrar-se em Roma, visto o Carnaval ser, em
todos os pases da Terra que celebravam to estimvel
instituio, uma poca de liberdade em que os mais sisudos se
deixam arrastar a cometer qualquer acto de loucura. Ora, como
o Carnaval comeava no dia seguinte, era importantssimo que
Albert iniciasse o seu programa antes de o Carnaval comear.

Com essa inteno comprara um dos camarotes mais em evidncia
do teatro e vestira-se impecavelmente para assistir ao
espectculo. Era um camarote de primeira ordem, que substitui
entre ns a galeria. De resto, as trs primeiras ordens so
to aristocrticas umas como outras e por esse motivo lhe
chamam ordens nobres.

Alis o camarote, onde caberiam doze pessoas sem ficarem
apertadas custara aos dois amigos um bocadinho menos caro do
que um camarote de quatro pessoas no Ambigu.

Albert tinha ainda outra esperana: conseguir lugar no corao
de uma bela romana, o que levaria, naturalmente,  conquista
de um posto na carruagem da dama e consequentemente a ver o
Carnaval do alto de um veculo aristocrtico ou de uma varanda
principesca.

Todas estas consideraes tornavam Albert mais impaciente do
que nunca. Virava as costas aos actores, debruava-se a ponto
de deitar meio corpo fora do camarote e analisava todas as
mulheres bonitas com um binculo de seis polegadas de
comprimento... o que no levava nem uma s mulher bonita a
recompensar com um nico olhar, mesmo de curiosidade, todo o
esforo despendido por Albert.

Efectivamente, cada qual falava dos seus negcios, dos seus
amores, dos seus prazeres, do Carnaval que principiaria no dia
seguinte e da prxima Semana Santa, sem prestar ateno um s
instante, nem aos actores nem  pea, com excepo dos
momentos indicados, em que ento todos se viravam, quer para
ouvir uma poro do recitativo de Coselli, quer para aplaudir
qualquer rasgo brilhante de Moriani, quer para gritar "Bravo!"
 Spech. Depois, as conversas particulares retomavam o seu
curso habitual.

Quase no fim do primeiro acto a porta de um camarote que se
conservara vazio at ali abriu-se e Franz viu entrar uma
pessoa a quem tivera a honra de ser apresentado em Paris e que
julgava ainda em Frana. Albert notou o gesto que fez o amigo
a essa apario e, virando-se para ele, perguntou-lhe:

- Conhece aquela dama?

- Conheo. Como a acha?

- Encantadora, meu caro, e loura. Oh, que cabelos adorveis! 
francesa?

- No,  venesiana.

- E chama-se?

- Condessa G...

- Oh, conheo-a de nome! - exclamou Albert. - Dizem que tem
tanto de espiritual como de bonita. Com a breca, quando penso
que lhe podia ter sido apresentado no ltimo baile da Sr.a de
Villefort, onde ela estava, e que descurei isso!... Sou um
parvalho!

- Quer que repare essa falta? - perguntou Franz.

- Como, tem suficiente intimidade com ela para me levar ao seu
camarote?

- Tive a honra de lhe falar trs ou quatro vezes na minha
vida. Mas como sabe  rigorosamente o bastante para no
cometer uma inconvenincia.

Neste momento a condessa viu Franz e fez-lhe com a mo um
sinal gracioso a que ele correspondeu com uma respeitosa
inclinao de cabea.

- De facto, parece-me que voc est nas melhores relaes com
ela - disse Albert.

- A  que voc se engana e  isso que nos leva, a ns
Franceses, a cometer mil tolices no estrangeiro. Queremos
submeter tudo aos nossos pontos de vista parisienses. Em
Espanha, e sobretudo na Itlia, nunca julgue a intimidade das
pessoas pela liberdade das relaes. Tenho certas afinidades
com a condessa, mas mais nada.

- Afinidades de corao? - perguntou Albert, rindo.

- No, apenas de esprito - respondeu seriamente Franz.

- Quando as contraram?

- Na altura de uma visita ao Coliseu idntica  que fizemos
juntos.

- Ao luar?

- Sim.

- Sozinhos?

- Quase!

- E falaram...

- Dos mortos.

- Oh, a est, na verdade, um assunto deveras divertido! -
exclamou Albert. - Pois eu juro-lhe que se tiver a sorte de
ser o cavalheiro da bela condessa em semelhante visita, s lhe
falarei dos vivos.

- E talvez faa mal.

- Entretanto, vai-me apresentar a ela como me prometeu?

- Assim que o pano desa.

- Como este maldito primeiro acto  longo!

- Escute o final.  muito belo e Coselli canta-o
admiravelmente.

- Pois sim; Mas que elegncia!

- A Spech no pode ser mais dramtica.

- Bom, deve compreender que depois de ouvirmos a Sontag e a
Malibran...

- No acha que Moriani tem uma voz excelente?

- No gosto dos morenos que cantam como louros.

- Meu caro - disse Franz virando-se, enquanto Albert
continuava de binculo em punho --, na verdade voc  muito
exigente.

Por fim o pano desceu, com grande satisfao do visconde de
Morcef, que pegou no chapu, passou rapidamente a mo pelo
cabelo, pela gravata e pelos punhos da camisa e disse a Franz
que estava  sua espera.

E como pelo seu lado a condessa, que Franz interrogava com a
vista, lhe deu a entender por um sinal que seria bem-vindo,
Franz apressou-se a satisfazer a insistncia de Albert e,
seguido do companheiro, que aproveitava a viagem para alisar
as rugas que o seu irrequietismo pudesse ler posto no
colarinho e no forro da casaca, deu a volta ao hemiciclo e foi
bater  porta do camarote n.o 4, ocupado pela condessa.

Imediatamente o jovem que estava sentado ao lado dela, 
frente do camarote, se levantou e cedeu o seu lugar, conforme
o hbito italiano, ao recm-chegado, que o deveria ceder por
seu turno quando chegasse outra visita.

Franz apresentou Albert  condessa como um dos nossos jovens
mais distintos pela sua posio social e pelo seu esprito, o
que de resto era verdade, porque em Paris e no meio onde vivia
Albert era um cavalheiro impecvel. Acrescentou que,
desesperado por no ler sabido aproveitar a estada da condessa
em Paris para lhe ser apresentado, Albert o encarregara de
reparar essa falta, misso de que se desempenhava suplicando 
condessa, junto da qual ele prprio necessitaria de um
introdutor, que perdoasse a sua indiscrio.

A condessa respondeu com um encantador cumprimento a Albert e
estendeu a mo a Franz.

Convidado por ela, Albert ocupou o lugar vazio  frente do
camarote e Franz sentou-se na segunda fila, atrs da condessa.
Albert descobriu um excelente tema de conversa: Paris. Falou 
condessa dos seus conhecimentos comuns e Franz compreendeu que
estava nas suas sete quintas. Deixou-o  vontade, pediu-lhe o
gigantesco binculo e ps-se por seu turno a explorar a sala.

Sozinha  frente de um camarote de terceira ordem, defronte
deles, estava uma mulher admiravelmente bela, envergando um
traje grego, que usava com tanto -vontade que era evidente
ser sua indumentria natural.

Atrs dela, na sombra, desenhava-se a silhueta de um homem
cujo rosto era impossvel distinguir.

Franz interrompeu a conversa de Albert e da condessa para
perguntar a esta ltima se conhecia a bela albanesa, to digna
de atrair no s a ateno dos homens, mas tambm das
mulheres.

- No - respondeu ela. - Tudo o que sei  que est em Roma
desde o incio da estao, porque na abertura do teatro vi-a
onde est agora e h um ms que no falta a nenhuma rcita,
ora acompanhada pelo homem que est com ela neste momento, ora
seguida simplesmente por um criado negro.

- Como a acha, condessa?

- Muitssimo bonita. Medora devia parecer-se com ela.

Franz e a condessa trocaram um sorriso. Ela voltou  sua
conversa com Albert e Franz a observar com o binculo a sua
albanesa.

O pano subiu para o bailado. Era um desses bons corpos de
dana italianos, ensaiados e encenados pelo famoso Henri, que
como coregrafo conquistara em Itlia fama colossal, que
infelizmente para ele acabara por perder no teatro nutico; um
desses corpos de baile onde toda a gente, desde a primeira
figura at ao ltimo comparsa, toma parte to activa na aco
que cento e cinquenta pessoas fazem ao mesmo tempo o mesmo
gesto e levantam simultaneamente o mesmo brao ou a mesma
perna.

O bailado chamava-se Poliska.

Franz estava demasiado interessado na sua bela grega para
ligar importncia ao bailado, por mais interessante que tosse.
Quanto a ela, encontrava visvel prazer no espectculo, prazer
que contrastava profundamente com o desinteresse absoluto
daquele que a acompanhava e que, enquanto durou a obra-prima
coreogrfica, no fez um gesto, parecendo, apesar do barulho
infernal das trombetas, dos cmbalos e das campainhas da
orquestra, saborear as douras celestes de um sono calmo e
radioso.

Por fim o bailado terminou e o pano desceu no meio dos
aplausos frenticos de uma plateia inebriada.

Graas ao hbito de dividir a pera com um bailado, os
intervalos so curtssimos em Itlia. Os cantores tm tempo
para descansar e mudar de traje enquanto os bailarinos
executam as suas piruetas e saltos de dana.

Comeou a abertura do segundo acto. Aos primeiros acordes de
violino, Franz viu o dorminhoco levantar-se lentamente e
aproximar-se da grega, que se virou para lhe dirigir algumas
palavras e se encostou de novo  balaustrada do camarote.

A cara do seu interlocutor continuava na sombra e Franz no
podia distinguir nenhuma das suas feies.

O pano subiu. A ateno de Franz foi inevitavelmente atrada
para os actores e os seus olhos afastaram-se por um instante
do camarote da bela grega e dirigiram-se para o palco.

O acto principia, como se sabe, pelo duo do sonho: Parisina,
deitada, deixa escapar diante de Azzo o segredo do seu amor
por Ugo. O marido atraioado passa por todos os furores do
cime, at que, convencido de que a mulher lhe  infiel, a
acorda para lhe anunciar a sua prxima vingana.

Este dueto  dos mais belos, expressivos e terrveis que
saram da pena fecunda de Donizetti. Franz ouvia-o pela
terceira vez e, embora no fosse um melmano entusiasta,
causou-lhe profunda impresso. Ia portanto juntar os seus
aplausos aos da sala quando as suas mos, prestes a
juntarem-se, ficaram afastadas e o "Bravo!" que lhe escapava
da boca lhe morreu nos lbios.

O homem do camarote pusera-se de p e ficara com a cabea
iluminada, de modo que Franz reconheceu nele o misterioso
habitante de Monte-cristo, aquele de quem na vspera lhe
parecera to bem reconhecer a figura e a voz nas runas do
Coliseu.

J no havia dvida: o estranho viajante estava em Roma.

Decerto a expresso da sua cara estava de harmonia com a
perturbao que semelhante apario lhe lanara no esprito,
pois a condessa olhou-o, desatou a rir e perguntou-lhe o que
tinha.

- Sr.a Condessa - respondeu-lhe Franz --, perguntei-lhe h
pouco se conhecia aquela mulher albanesa; agora pergunto-lhe
se conhece o marido.

- Tanto como ela - respondeu a condessa.

- Nunca reparou nele?

- Ora a est uma pergunta  francesa! Sabe muito bem que para
ns italianas no existe outro homem no mundo alm do que
amamos!

- Tem razo - concordou Franz.

- Em todo o caso - continuou ela aplicando o binculo de
Albert aos olhos e dirigindo-o para o camarote fronteiro --,
deve ser algum novo desenterrado, algum morto sado da
sepultura com licena do coveiro, pois parece-me horrivelmente
plido.

- Sempre o vi assim - disse Franz.

- Isso quer dizer que o conhece? - inquiriu a condessa. -
Ento, sou eu que lhe pergunto quem .

- Creio j o ter visto e parece-me reconhec-lo.

- De facto - disse ela, fazendo um movimento com os belos
ombros, como se tivesse um arrepio --, compreendo que depois
de se ver uma vez semelhante homem nunca mais se esquea.

A sensao que Franz experimentara no era portanto uma
impresso particular, uma vez que outra pessoa tambm a
experimentava.

- Ento - perguntou Franz  condessa, depois de esta levar
pela segunda vez o binculo aos olhos - que pensa do nosso
homem?

- Parece-me Lorde Ruthwen em carne e osso.

Esta aluso a Byron impressionou Franz. Com efeito, se um
homem o podia fazer acreditar na existncia de vampiros, esse
homem era aquele.

- Tenho de saber quem  - disse Franz, levantando-se.

- Oh, no! - exclamou a condessa. - No me deixe. Conto
consigo para me acompanhar a casa e no lhe permito que saia
daqui.

- Como,  verdade que tem medo? - perguntou-lhe Franz ao
ouvido?

- Oua - respondeu ela --, Byron jurou-me que acreditava em
vampiros, disse-me que os vira e descreveu-me o seu rosto.
Pois bem, so exactamente assim: cabelo preto, grandes olhos
brilhantes, como se neles ardesse uma chama estranha, palidez
mortal... Alm disso, note que uo est com uma mulher como
todas as mulheres, est com uma estrangeira... uma grega, uma
cismtica... sem dvida alguma feiticeira como ele. Peo-lhe,
no se v embora. Dedique-se amanh s suas investigaes, se
quiser, mas hoje no o deixo sair daqui.

Franz insistiu.

- Oua - disse ela levantando-se --, vou-me embora. No posso
ficar at ao fim do espectculo, tenho a casa cheia de gente.
Ser to pouco galante que me recuse a sua companhia?

No havia outra resposta a dar a no ser pegar no chapu,
abrir a porta e oferecer o brao  condessa.

Foi o que ele fez.

A condessa estava realmente muito impressionada, e o prprio
Franz no conseguia afugentar certo terror supersticioso,
tanto mais natural quanto  certo que o que era na condessa o
produto de uma sensao instintiva, era nele o resultado de
uma recordao.

Franz sentiu que ela tremia ao subir para a carruagem.
Acompanhou-a a casa. No estava l ningum nem era de modo
algum esperada. Franz mostrou-lhe o seu desagrado.

- Na verdade - respondeu-lhe ela --, no me sinto bem e
preciso de estar s. A vista desse homem perturbou-me muito.

Franz tentou gracejar.

- No ria - disse-lhe ela. - Alis, est a rir sem vontade.
Prometa-me uma coisa.

- O qu?

- Prometa-ma.

- Prometo-lhe tudo o que quiser excepto renunciar a descobrir
quem  aquele homem. Tenho motivos que lhe no posso revelar
para desejar saber quem , donde vem e para onde vai.

- Donde vem, ignoro-o; mas para onde vai, posso dizer-lhe: vai
para o Inferno sem dvida nenhuma.

- Voltemos  promessa que queria exigir de mim, condessa -
disse Franz.

- Oh, consiste em regressar directamente ao hotel e no
procurar ver esse homem esta noite! H certas afinidades entre
as pessoas que deixamos e as pessoas que procuramos. No sirva
de condutor entre esse homem e mim. Amanh, corra atrs dele,
se quiser; mas nunca mo apresente, se no quiser fazer-me
morrer de medo. E agora, boas noites. Procure dormir. Eu sei
que no conseguirei pregar olho.

Ditas estas palavras, a condessa deixou Franz, que ficou
indeciso, sem saber se ela estivera a divertir-se  sua custa,
ou se realmente sentira o medo que dissera ter.

No regresso ao hotel, Franz encontrou Albert de roupo e
pijama, voluptuosamente recostado numa poltrona e a fumar um
charuto.

- Ah,  voc! - disse-lhe. - Palavra que s o esperava amanh.

- Meu caro Albert - respondeu Franz --, ainda bem que tenho
oportunidade de lhe dizer de uma vez para sempre que tem a
mais falsa das ideias a respeito das mulheres italianas.
Parece-me no entanto que as suas desiluses amorosas deveriam
ter-lha feito perder.

- Que quer, essas mulheres endiabradas so impossveis de
compreender! Pegam-nos na mo, apertam-na, falam-nos baixinho,
convidam-nos a acompanh-las a casa... enfim, com um quarto de
semelhante maneira de proceder uma parisiense perderia a
reputao.

- Bom, precisamente por no terem nada a esconder e viverem s
claras  que as mulheres so to livres no belo pas onde
ressoa o si, como diz Dante. Alis, voc bem viu que a
condessa estava realmente cheia de medo.

- Medo de qu? Do respeitvel cavalheiro que estava defronte
de ns com aquela bonita grega? Pois eu quis v-los de perto e
quando saram cruzei-me com eles no corredor. No sei aonde
diabo vocs foram buscar todas essas ideias do outro mundo!
Trata-se de um homem simpatiqussimo e muito elegante, com
todo o ar de se vestir em Frana, no Blin ou no Humann. Um
bocadinho plido,  verdade, mas voc bem sabe que a palidez 
um sinal de distino.

Franz sorriu. Albert tinha grandes pretenses a ser plido.

- Por isso - disse-lhe Franz --, estou convencido de que as
ideias da condessa acerca desse homem no tm senso comum.
Falou ao p de si e voc ouviu algumas das suas palavras?

- Falou, mas em grego moderno. Reconheci o idioma por algumas
palavras desfiguradas. Devo dizer-lhe, meu caro, que no
colgio era fortssimo em grego.

- Portanto falava grego moderno?

-  provvel.

- No tenho qualquer dvida - murmurou Franz --,  ele.

- Que diz voc?

- Nada. Que fazia voc aqui?

- Preparava-lhe uma surpresa.

- Qual?

- Sabe que  impossvel arranjar uma calea?

- Olha que descoberta! Ento no fizemos inutilmente tudo o
que era humanamente possvel fazer para a arranjar?

- Pois bem, tenho uma ideia maravilhosa.

Franz olhou para Albert como se no tivesse grande confiana
na sua imaginao.

- Meu caro - observou Albert --, honra-me com um olhar que
merecia bem que lhe pedisse uma reparao.

- Estou pronto a dar-lha, caro amigo, se a ideia for to
engenhosa como diz.

- Escute.

- Estou a escutar.

-- No h meio de se arranjar carruagem, no  verdade?

- .

- Nem cavalos?

- Tambm no.

- Mas podemos arranjar uma carroa...

- Talvez.

- E uma junta de bois...

-  provvel.

- Pois, meu caro, temos o problema resolvido! Mandarei decorar
a carroa, vestimo-nos de ceifeiros napolitanos e
representamos ao natural o magnfico quadro de Lopold Robert.
Se, para maior semelhana, a condessa acedesse a usar o traje
de uma mulher de Pouzzole ou de Sorrento, isso completaria a
mascarada, e ela  bastante bonita para a tomarem pelo
original da Femme  l'enfant.

- Por Deus, desta vez tem razo, Sr. Albert! - exclamou Franz.
-  uma ideia verdadeiramente original.

- E muito nacionalista, inspirada nos reis indolentes, meu
caro, nada mais, nada menos! Ah, Srs. Romanos, julgavam que
amos correr a p pelas suas ruas, como lazzaroni, por no
terem caleas e cavalos?... Pois bem, invent-los-emos!

- J deu conta a algum dessa ideia genial?

- Ao nosso hoteleiro. Quando entrei, mandei-o chamar e
expus-lhe os meus desejos. Garantiu-me que no havia nada mais
fcil. Eu queria mandar dourar os cornos dos bois, mas ele
disse-me que para isso seriam precisos trs dias. Teremos
portanto de passar sem essa ninharia.

- Onde est ele?

- Quem?

- O nosso hoteleiro?

--  procura do que pretendemos. Amanh talvez fosse j um
bocadinho tarde.

- De forma que nos dar a resposta ainda esta noite?

- Espero-o.

Neste momento a porta abriu-se e mestre Pastrini meteu a
cabea.

- Permesso? - pediu.

- Claro que pode entrar! - exclamou Franz.

- Ento, arranjou-nos a carroa e os bois que pretendamos? -
perguntou Albert.

- Arranjei melhor do que isso - respondeu o hoteleiro, com ar
de quem est plenamente satisfeito consigo mesmo.

- Cautela, meu caro anfitrio - observou Albert. - Olhe que o
ptimo  inimigo do bom.

- Confiem em mim, Excelncias - redarguiu mestre Pastrini em
tom convicto.

- Mas, enfim, que h? - perguntou Franz por seu turno.

- Sabem - disse o hoteleiro - que o conde de Monte-cristo
ocupa o mesmo andar que os senhores?

- Sabemos - respondeu Albert --, pois  graas a ele que
estamos instalados como dois estudantes da Rua
Saint-Nicolas-du-Chardounet.

- Pois sabendo da dificuldade em que se encontram, manda
oferecer-lhes dois lugares na sua carruagem e dois lugares nas
suas janelas do Palcio Rospoli.

Albert e Franz entreolharam-se.

- Mas - perguntou Albert - deveremos aceitar a oferta desse
estrangeiro, de um homem que no conhecemos?

- Que homem  esse conde de Monte-cristo? - perguntou Franz
ao hoteleiro.

- Um grandssimo fidalgo siciliano ou malts, no sei ao
certo, mas nobre como um Borghse e rico como uma mina de
ouro.

- Parece-me - observou Franz a Albert - que se esse homem
tivesse to boas maneiras como diz o nosso hoteleiro, deveria
enviar-nos o seu convite doutra maneira, quer escrevendo-nos,
quer...

Neste momento bateram  porta.

- Entre - disse Franz.

Um criado de libr perfeitamente elegante apareceu  entrada
do quarto.

- Da parte do conde de Monte-cristo para o Sr. Franz de
Epinay e para o Sr. Visconde Albert de Morcerf - disse.

E apresentou ao hoteleiro duas cartas que este entregou aos
jovens.

- O Sr. Conde de Monte-cristo - continuou o criado - manda
pedir a esses senhores licena para se apresentar como vizinho
amanh de manh nos seus aposentos. Ele ter a honra de se
informar junto desses senhores a que horas estaro visveis.

- Palavra - disse Albert a Franz --, no h nada a
reprovar-lhe. Est tudo certo.

- Diga ao conde - respondeu Franz ao criado -- que seremos ns
que teremos a honra de o visitar.

O criado retirou-se.

- Ora a est o que se chama rivalizar em cortesia - observou
Albert. - Decididamente, tinha razo, mestre Pastrini: o seu
conde de Monte-cristo  um homem de inexcedvel correco.

- Ento aceitam a sua oferta? - perguntou o hoteleiro.

- Claro que aceitamos - respondeu Albert. - Confesso-lhos no
entanto que lenho pena da nossa carroa e dos ceifeiros, e se
no houvesse a janela do Palcio Rospoli para compensar o que
perdemos, creio que voltaria  minha primeira ideia. Que diz a
isto, Franz?

- Digo que so tambm as janelas do Palcio Rospoli que me
decidem - respondeu Franz a Albert.

Com efeito, a oferta de dois lugares a uma janela do Palcio
Rospoli recordara a Franz a conversa que ouvira nas runas do
Coliseu entre o desconhecido e o trasteveriano, conversa
durante a qual o homem da capa se comprometera a obter o
adiamento da execuo do condenado. Ora, se o homem da capa
era, como tudo levava Franz a crer, o mesmo cuja apario na
sala do Argentina tanto o impressionara, reconhec-lo-ia sem
dvida nenhuma e ento nada o impediria de satisfazer a sua
curiosidade a seu respeito.

Franz passou parte da noite a sonhar com as suas duas
aparies e a desejar que amanhecesse. Com efeito, no dia
seguinte tudo se devia esclarecer. E desta vez, a no ser que
o seu anfitrio de Monte-cristo possusse o anel de Giges e,
graas a esse anel, a faculdade de se tornar invisvel, era
evidente que no lhe escaparia. Por isso, acordou antes das
oito horas.

Quanto a Albert, como no tinha os motivos de Franz para
madrugar, dormia ainda a sono solto.

Franz mandou chamar o hoteleiro, que se apresentou com a sua
obsequiosidade habitual.

- Mestre Pastrini - perguntou-lhe --, no deve haver hoje uma
execuo?

- Deve, Excelncia. Mas se me pergunta isso para ter uma
janela, lembrou-se muito tarde.

- No - respondeu Franz. - Alis, se tivesse muito empenho em
assistir a esse espectculo, creio que arranjaria lugar no
monte Pncio.

- Oh, supus que Vossa Excelncia no quisesse misturar-se com
toda essa canalha no que  de certo modo o anfiteatro natural
das execues!

-  provvel que no v - disse Franz. - Mas gostaria de saber
alguns pormenores.

- Quais?

- Gostaria de saber o nmero dos condenados, os seus nomes e o
gnero do seu suplcio.

- A pergunta no podia ser mais oportuna, Excelncia! Acabam
precisamente de me trazer as tavolette.

- Que so as tavolette?

-As tavolette so tabuinhas que se colocam em todas as
esquinas de rua da cidade na vspera das execues e nas quais
se indicam os nomes dos condenados, o motivo da sua condenao
e a forma do seu suplcio. Tal aviso tem por fim convidar os
fiis a rogar a Deus que d aos culpados um arrependimento
sincero.

- E trazem-lhe as tavolette para que junte as suas preces s
dos fiis? - perguntou Franz com ar de dvida.

- No, Excelncia. Eu  que me entendi com o colocador e ele
traz-me as tavolette como me traz os cartazes dos
espectculos, para se alguns dos meus hspedes desejarem
assistir  execuo estarem prevenidos.

- Mas que ateno to delicada! - exclamou Franz.

- Oh, posso-me gabar de fazer tudo o que est ao meu alcance
para satisfazer os nobres estrangeiros que me honram com a sua
confiana! - declarou mestre Pastrini, sorrindo.

- Bem vejo, meu caro anfitrio! E  o que repetirei a quem o
quiser ouvir, pode ter a certeza. Entretanto, gostaria de ler
uma dessas tavolette.

- Nada mais fcil - respondeu o hoteleiro, abrindo a porta.
Mandei colocar uma neste andar.

Saiu, desprendeu a tavolette e apresentou-a a Franz.

Eis a traduo literal do cartaz patibular:

Faz-se saber a todos que na tera-feira, 12 de Fevereiro,
primeiro dia de Carnaval, sero, por sentena do Tribunal da
Rota, executados na Praa del Popolo o ru Andrea Rondolo,
culpado de assassnio na pessoa respeitabilssima e
veneradssima de D. Csar Terlini, cnego da Igreja de S. Joo
de Latro, e o ru Peppino, tambm conhecido por Rocca
Priori, culpado de cumplicidade com o detestvel bandido
Luigi Vampa e os homens da sua quadrilha.

O primeiro ser mazzolato.

E o segundo decapitato.

Suplica-se s almas caridosas que peam a Deus o
arrependimento sincero dos dois infelizes condenados.


Era exactamente o que Franz ouvira na antevspera, nas runas
do Coliseu, e o programa em nada fora alterado: os nomes dos
condenados, o motivo do seu suplcio e o gnero da sua
execuo eram exactamente os mesmos.

Assim, segundo todas as probabilidades, o trasteveriano no
era outro seno o bandido Luigi Vampa e o homem da capa
Simbad, o Marinheiro, que em Roma, como em Porto-Vecchio e em
Tunes, se continuava a dedicar s suas filantrpicas
expedies.

Entretanto o tempo passava, eram j nove horas, e Franz ia
acordar Albert quando, com grande espanto seu, o viu sair
completamente vestido do quarto. O Carnaval no lhe safa da
ideia e acordara-o mais cedo do que o amigo esperava.

- Bom - disse Franz ao hoteleiro -- , agora que j estamos
prontos os dois, acha, meu caro Sr. Pastrini, que nos podemos
apresentar nos aposentos do conde de Monte-cristo?

- Com certeza! O conde de Monte-cristo tem o hbito de ser
muito madrugador e estou certo de que se encontra levantado h
mais de duas horas.

- E parece-lhe que no haver indiscrio em nos apresentarmos
nos seus aposentos agora?

- Nenhuma.

- Nesse caso, Albert, se est pronto...

- Inteiramente pronto - respondeu Albert.

- Ento, vamos agradecer ao nosso vizinho a sua cortesia.

- Vamos!

Franz e Albert s tinham de atravessar o patamar. O hoteleiro
adiantou-se-lhes e tocou por eles. Um criado veio abrir.

- Sgnori Francesi - disse o hoteleiro.

O criado inclinou-se e fez-lhes sinal para entrarem.

Atravessaram duas divises mobiladas com um luxo que no
esperavam encontrar no hotel de mestre Pastrini, e chegaram
por fim a uma sala de uma elegncia perfeita. Cobria o cho um
tapete turco e os mveis mais confortveis ofereciam as suas
almofadas bem cheias e os seus encostos inclinados para trs.
Das paredes pendiam magnficos quadros de mestres,
intercalados com trofeus de armas esplndidas. Diante das
portas adejavam grandes reposteiros de tapearia.

- Se Suas Excelncias se quiserem sentar, vou prevenir o Sr.
Conde - disse o criado.

E desapareceu por uma das portas.

Quando a porta se abriu chegou aos ouvidos dos dois amigos o
som de uma guzla, mas extinguiu-se imediatamente. A porta,
fechada quase ao mesmo tempo que fora aberta, apenas deixara
por assim dizer penetrar na sala uma lufada de harmonia.

Franz e Albert entreolharam-se e percorreram com a vista os
mveis, os quadros e as armas. Tudo aquilo lhes pareceu, 
segunda vista, ainda mais magnfico do que  primeira.

- Ento que diz a isto? - perguntou Franz ao amigo.

- Digo, meu caro, que o nosso vizinho  algum corretor que
jogou na baixa dos fundos espanhis ou algum prncipe que
viaja incgnito.

- Caluda! - atalhou Franz. - Isso  o que vamos saber, pois
ele vem a.

Com efeito, o rudo de uma porta girando nos gonzos acabava de
chegar aos ouvidos dos visitantes. E quase ao mesmo tempo o
reposteiro abriu-se e deu passagem ao proprietrio de todas
aquelas riquezas.

Albert avanou ao seu encontro, mas Franz ficou pregado no seu
lugar.

Aquele que acabava de entrar era nem mais nem menos do que o
homem da capa do Coliseu, o desconhecido do camarote e o
anfitrio misterioso de Monte-Cristo.


Captulo XXXV

A "Mazzolata"


- Senhores - disse ao entrar o conde de Monte-cristo --,
aceitem as minhas maiores desculpas por no me ter antecipado,
mas receei ser indiscreto se me apresentasse to cedo nos seus
aposentos. Alis, mandaram-me dizer que viriam e por isso
estou  disposio de ambos.

- Franz e eu temos de lhe apresentar mil agradecimentos, Sr.
Conde - disse Albert. - Tirou-nos realmente de um grande apuro
e estvamos em vias de inventar os veculos mais fantsticos
no momento em que recebemos o seu amvel convite.

- Meu Deus, senhores - redarguiu o conde, fazendo sinal aos
dois rapazes para se sentarem no sof --, s por culpa do
imbecil do Pastrini os deixei tanto tempo em dificuldades! No
me disse nada acerca do embarao em que se encontravam, a mim
que, sozinho e isolado como estou aqui, apenas procurava uma
oportunidade de estabelecer relaes com os meus vizinhos.
Logo que soube que lhes podia ser til em qualquer coisa, bem
viram com que alvoroo aproveitei essa oportunidade para lhes
apresentar os meus cumprimentos.

Os dois jovens inclinaram-se. Franz ainda no encontrara uma
nica palavra para dizer. Ainda no tomara nenhuma resoluo
e, como nada indicava no conde o seu desejo de o reconhecer ou
de ser reconhecido por ele, no sabia se devia, com qualquer
palavra, aludir ao passado ou deixar ao futuro o cuidado de
lhe fornecer novas provas. De resto, embora estivesse certo de
que era ele quem se encontrava na vspera no camarote, no
podia responder to positivamente quanto a ser ele o homem que
na antevspera estivera no Coliseu. Resolveu portanto deixar
correr o marfim, como se costuma dizer, sem dirigir ao conde
qualquer pergunta directa. Alis, tinha uma vantagem sobre ele
- era senhor do seu segredo --, ao passo que, pelo contrrio,
o conde no podia exercer qualquer aco sobre Franz, que no
tinha nada a esconder.

Em todo o caso resolveu encaminhar a conversa para um ponto
que podia, mesmo assim, conduzir sempre ao esclarecimento de
certas dvidas.

- O Sr. Conde - disse - ofereceu-nos lugares na sua carruagem
e nas sua janelas do Palcio Rospoli. Poder dizer-nos agora
como nos ser possvel arranjar um posto qualquer, como se diz
na Itlia, na Praa del Popolo?

- Ah, sim,  verdade! - exclamou o conde com ar distrado e
olhando Morcerf com muita ateno. - No h na Praa del
Popolo qualquer coisa como uma execuo?

- H - respondeu Franz, vendo que ele vinha por si mesmo aonde
o queria trazer.

- Espere, espere... creio ter dito ontem ao meu intendente
para tratar disso. Talvez possa prestar-lhes tambm esse
pequeno servio.

Estendeu a mo para um cordo de campainha e puxou-o trs
vezes.

- Nunca se preocupou - disse a Franz - com o emprego do tempo
e o meio de simplificar as idas e vindas dos criados? Fiz um
estudo disso. Quando toco uma vez  para o meu criado de
quarto; duas vezes,  para o meu mordomo;
trs vezes,  para o meu intendente. Assim, no perco nem um
minuto, nem uma palavra. C est o nosso homem.

Viu-se ento entrar um indivduo de quarenta e cinco a
cinquenta anos, que pareceu a Franz assemelhar-se como duas
gotas de gua com o contrabandista que o introduzira na gruta,
mas que no pareceu reconhec-lo por nada deste mundo. Pelos
vistos, fora passada palavra.

- Sr. Bertuccio - perguntou o conde --, tratou, como lhe
ordenei ontem, de me arranjar uma janela na Praa del Popolo?

-Tratei, sim, Excelncia - respondeu o intendente --, mas era
muito tarde...

- Como, no lhe tinha dito que queria uma? - indagou o conde,
franzindo o sobrolho.

- E Vossa Excelncia tem uma, a que estava alugada ao prncipe
Lobanieff. Mas tive de a pagar por cento...

- Est bem, est bem, Sr. Bertuccio, poupe a estes senhores a
todos esses pormenores domsticos. Arranjou a janela, no
arranjou? Pois nada mais  preciso. D o endereo da casa ao
cocheiro e este j na escada para nos acompanhar. No 
preciso mais nada. V.

O intendente cumprimentou e deu um passo para se retirar

- Ah! - deteve-o o conde. - Faa-me o favor de perguntar a
Pastrini se recebeu a tavoletta e me quer enviar o programa
da execuo.

-  intil - interveio Franz, tirando a sua agenda da
algibeira. - Vi esses cartazes, copiei-os e tenho-os aqui.

- Muito bem. Ento, Sr. Bertuccio, pode-se retirar, no
preciso mais de si. Previnam-nos apenas quando o
pequeno-almoo estiver servido. Estes senhores - continuou,
virando-se para os dois amigos - do-me a honra de tomar o
pequeno-almoo comigo, no  verdade?

- Mas, Sr. Conde, na verdade seria abusar - protestou Albert.

- No, antes pelo contrrio, dar-me-o grande prazer.
Retribuir-me-o tudo isto um dia, em Paris, um ou outro e
talvez ambos. Sr. Bertuccio, mande pr trs talheres.

Tirou a agenda das mos de Franz.

- Dizem portanto - continuou no tom de quem l os pequenos
anncios -  que "sero executados hoje, 12 de Fevereiro, o ru
Andrea Rondolo, culpado de assassnio na pessoa
respeitabilssima e veneradssima de D. Csar Terlini, cnego
da Igreja de S. Joo de Latro, e o ru Peppino, tambm
conhecido por Rocca Priori, culpado de cumplicidade com o
detestvel bandido Luigi Vampa e os homens da sua
quadrilha..." Hum!... "O primeiro ser mazzolato e o segundo
decapitato." Sim, com efeito - prosseguiu o conde --, era de
facto assim que as coisas se deviam passar primitivamente; mas
parece-me que desde ontem houve qualquer alterao na ordem e
na sequncia da cerimnia.

- Sim? - observou Franz.

- Sim. Ontem, em casa do cardeal Rospigliosi, onde passei a
noite, falava-se de qualquer coisa como um adiamento concedido
a um dos dois condenados.

- A Andrea Rondolo? - perguntou Franz.

- No... - redarguiu negligentemente o conde - ao outro... -
(deitou uma olhadela  agenda, como que para se recordar do
nome) - a Peppino, por alcunha Rocca Priori. Isso priva-os
de uma guilhotinadela, mas resta-lhes
a  mazzolata, que  um suplcio deveras curioso quando se
v pela primeira vez e mesmo pela segunda, ao passo que o
outro, que alis devem conhecer,  muito simples, muito
rpido, e sem nada de inesperado. A mandaa nunca falha, no
treme, no, fere em falso, no obriga a tentar trinta vezes,
como aconteceu ao soldado encarregado de cortar a cabea ao
conde de Chalais, e ao qual, de resto, Richelieu. talvez
tivesse recomendado o paciente. Mas deixemo-nos disto -
acrescentou o conde em tom desdenhoso. - No me falem dos
Europeus no tocante a suplcios; no percebem nada disso e
encontram-se verdadeiramente na infncia, ou antes, na velhice
da crueldade.

- Na verdade, Sr. Conde - observou Franz --, dir-se-ia que fez
um estudo comparado dos suplcios entre os diversos povos do
mundo.

- Pelo menos h poucos que no tenha visto - respondeu
friamente o conde.

- E encontrou prazer em assistir a esses horrveis
espectculos?

- A minha primeira sensao foi de repulsa, a segunda de
indiferena e a terceira de curiosidade.

- Curiosidade! A palavra  terrvel, no acha?

- Porqu? Na vida h apenas uma preocupao grave: a morte.
Pois bem, no ser curioso estudar de que formas diferentes a
alma pode sair do corpo e como, segundo os caracteres, os
temperamentos e at os costumes do pas, os indivduos
suportam essa suprema passagem do ser para o nada? Quanto a
mim, respondo-lhe uma coisa: quanto mais vemos morrer, mais
fcil se toma morrer. Assim, na minha opinio, a morte 
talvez um suplcio, mas no  uma expiao.

- No o compreendo bem - confessou Franz. - Explique-se, pois
tenho dificuldade em dizer-lhe at que ponto as suas palavras
espicaaram a minha curiosidade.

- Escute - disse o conde, e o seu rosto encheu-se de rancor
como o de qualquer outra pessoa se coloraria de sangue. - Se
um homem tivesse feito perecer por meio de torturas inauditas,
no meio de tormentos sem fim, o seu pai, a sua me, a sua
noiva, um desses seres, enfim, que quando os desenrazam do
nosso corao deixam nele um vazio eterno e uma chaga sempre
sangrenta, consideraria a reparao que lhe concedesse a
sociedade suficiente, s porque o cutelo da guilhotina passou
entre a base occipital e os msculos trapzios do assassino e
porque este, que o fez passar anos de sofrimentos morais,
experimentou alguns segundos de dor fsica?

- Sim, bem sei que a justia humana  insuficiente como
confortadora - admitiu Franz. - S pode verter o sangue em
troca do sangue, e mais nada. Mas temos de nos contentar com o
que ela pode e no com outra coisa.

- Vejamos um caso material - prosseguiu o conde --,
aquele em que a sociedade, ferida pela morte de um indivduo,
na base em que assenta, vinga a morte com a morte. Mas no h
milhes de dores em que as entranhas do homem podem ser
dilaceradas sem que a sociedade se preocupe minimamente com
isso, sem que lhe oferea o meio insuficiente de vingana de
que falmos h pouco? No h crimes para os quais o
empalamento dos Turcos, os alcatruzes dos Persas e os ltegos
dos Iroqueses seriam suplcios demasiado suaves e que no
entanto a sociedade, indiferente, deixa sem castigo?...
Responda, no h crimes assim?

- H - concordou Franz --, e  para os punir que o duelo 
tolerado.

- Ah, o duelo!... - exclamou o conde. - Curiosa maneira,
palavra, de alcanar um fim, quando o fim  a vingana! Um
homem rouba-lhe a amante seduz-lhe a mulher, desonra-lhe a
filha. De uma vida inteira que tinha o direito de esperar de
Deus a parte de felicidade por Ele prometida a todo o ser
humano ao cri-lo, esse homem fez uma existncia de dor,
misria ou infmia, e o senhor considera-se vingado
infligindo-lhe, a um homem que lhe introduzi o delrio no
esprito e o desespero no corao, uma estocada no peito ou
metendo-lhe uma bala na cabea? ora adeus! Sem contar que
muitas vezes  ele que sai triunfante da luta, limpo aos olhos
do mundo e de certo modo absolvido por Deus. No, no -
continuou o conde --, se alguma vez tivesse de me vingar, no
seria assim que me vingaria.

- Portanto, desaprova o duelo? Portanto, no se bateria em
duelo? - perguntou por sua vez Albert, atnito por ouvir em
emitir to estranha teoria.

- Oh, claro que me bateria! - respondeu o conde. -
Entendamo-nos: bater-me-ia em duelo por uma misria, por um
insulto, por um desmentido, por uma bofetada, e isso com tanta
mais despreocupao quanto  certo que, graas  experincia
que adquiri de todos os exerccios do corpo e ao lento hbito
que tambm adquiri do perigo, teria quase a certeza de matar o
meu homem. Oh, claro que me bateria em duelo por tudo isso!
Mas por um sofrimento lento, profundo, infinito, eterno,
infligiria, se me fosse possvel um sofrimento idntico ao que
me tivessem causado: olho por olho, dente por dente, como
dizem os orientais, nossos mestres em todas as coisas, esses
eleitos da criao que souberam criar para si uma vida de
sonhos e um paraso de realidades.

- Mas - observou Franz ao conde - com essa teoria que o
constitui juiz e carrasco na sua prpria causa, seria difcil
que se contivesse numa medida que lhe permitisse escapar
eternamente ao poder da lei. O dio  cego, a clera
desorienta, e aquele que serve a si prprio a vingana
arrisca-se a beber uma beberagem amarga.

- Sim, se  pobre e inexperiente; no, se  milionrio e
hbil. Alis, o pior que lhe pode acontecer  o ltimo
suplcio de que falmos h pouco, aquele que a filantrpica
Revoluo Francesa inventou para substituir o esquartejamento
e a roda. Mas que significa o suplcio se estiver vingado? Na
verdade, sinto-me quase decepcionado por, segundo todas as
probabilidades, esse miservel Peppino no ser decapitato,
como eles dizem, pois se o fosse veriam como a execuo 
rpida e se realmente vale a pena perder tempo a falar a tal
respeito. Mas agora reparo, meus senhores, que escolhemos uma
conversa deveras singular para um dia de Carnaval. Como
aconteceu tal coisa? Ah, j me lembro! Pediram-me um lugar 
minha janela. Pois bem, seja, t-lo-o. Mas sentemo-nos
primeiro  mesa, pois vm anunciar-nos que estamos servidos.

Com efeito um criado abriu uma das quatro portas da sala e
proferiu as palavras sacramentais:

- Al suo commodo!

os dois jovens levantaram-se e passaram  sala de jantar.
Durante o pequeno-almoo, excelente e servido com infinito
requinte, Franz procurou com a vista os olhos de Albert, a fim
de ler neles a impresso que sem dvida produzira nele as
palavras do seu anfitrio. Mas quer porque na sua
despreocupao habitual lhes no tivesse prestado grande
ateno, quer porque a concesso que o conde de Monte-cristo
lhe fizera a propsito do duelo o tivesse  reconciliado com
ele, quer finalmente porque os antecedentes que relatmos,
apenas conhecidos de Franz, tivessem duplicado s para si o
efeito das teorias do conde, no notou que o companheiro
estivesse de modo algum preocupado. Muito pelo contrrio,
fazia honra  refeio como homem condenado havia quatro ou
cinco meses  cozinha italiana, isto , a uma das piores
cozinhas do mundo. Quanto ao conde, mal tocava em cada prato.
Dir-se-ia que ao sentar-se  mesa com os seus convivas cumpria
um mero dever de cortesia e que esperava que se fossem embora
para se mandar servir alguma iguaria estranha ou especial.

- Malgrado seu, o caso lembrava a Franz o terror que o conde
inspirara  condessa G... e a convico em que a deixara de
que o conde, o homem que lhe mostrara no camarote fronteiro ao
dela, era um vampiro.

No fim do pequeno-almoo, Franz puxou pelo relgio.

- Esto assim com tanta pressa? - perguntou-lhe o conde.

- Queira desculpar-nos, Sr. Conde - respondeu Franz --, mas
temos ainda de fazer mil coisas.

- O qu?

- No temos mscaras e hoje as mscaras so obrigatrias.

- No percam tempo com isso. Temos, segundo creio, um quarto
particular na Praa del Popolo. Mandarei levar para l os
trajes que se dignarem indicar-me e mascarar-nos-emos
imediatamente.

- Depois da execuo? - perguntou Franz.

- Sem dvida. Depois, durante ou antes, como quiserem.

- Diante do cadafalso?

- O cadafalso faz parte da festa.

- Desculpe, Sr. Conde, mas pensei melhor - redarguiu Franz. -
Decididamente, agradeo-lhe a sua amabilidade, mas
contentar-me-ei com um lugar na sua carruagem e outro  janela
do Palcio Rospoli, e deixar-lhe-ei livre, para dispor dele
como entender, o meu lugar  janela da Praa del Popolo.

- Mas assim perde, previno-o, uma coisa deveras curiosa -
contraps o conde.

- Contar-ma- - insistiu Franz - e estou convencido de que
pela sua boca o relato impressionar-me- quase tanto como a
vista. De resto, j por mais de uma vez quis assistir a uma
execuo e nunca fui capaz. E voc, Albert?

- Eu - respondeu o visconde - vi executar Castaing. Mas creio
que estava um bocadinho alegre nesse dia. Foi no dia da minha
sada do colgio e tnhamos passado a noite no sei em que
botequim.

- Alis, o facto de no ter feito uma coisa em Paris no 
razo para que a no faa no estrangeiro. Quando viajamos, 
para nos instruirmos; quando mudamos de terra,  para ver.
Lembre-se portanto da cara que far quando lhe perguntarem:
"Como so as execues em Roma?" E tiver de responder: "No
sei." Alm disso, consta que o condenado  um refinado patife,
um velhaco que matou a golpes de co de chamin um bom cnego
que o criara como filho. Que diabo, quando se assassina um
sacerdote escolhe-se arma mais conveniente do que um co de
chamin, sobretudo quando o sacerdote  talvez nosso pai. Se
viajasse por Espanha iria assistir s touradas, no  verdade?
Pois bem, suponha que vamos ver uma tourada. Lembre-se dos
antigos romanos do circo, das caadas onde se matavam
trezentos lees e uma centena de homens. Lembre-se dos oitenta
mil espectadores que batiam palmas, das sensatas matronas que
 levavam l as filhas casadoiras e das encantadoras vestais
de mos brancas que faziam com o polegar um no menos
encantador sinalzinho que significava: "Vamos, nada de moleza!
Acabem-me com esse homem que j est h trs quartos morto."

- Vamos, Albert? - perguntou Franz.

- Claro que sim, meu caro! Estava como voc, mas a eloquncia
do conde decidiu-me.

- Vamos, mas porque voc quer - salientou Franz. - Mas no
caminho para a Praa del Popolo desejava passar pela rua do
Corso. Ser possvel. Sr. Conde?

- A p, sim; de carruagem, no.

- Ento, irei a p.

-  assim to necessrio passar pela rua do Corso?

- . Quero ver l uma coisa.

- Nesse caso, passaremos pela rua do Corso. Mandaremos a
carruagem pela Estrada del Babuino esperar-nos na Praa del
Popolo. De resto, tambm no me importo de passar pela rua do
Corso para ver se umas ordens que dei foram cumpridas.

- Excelncia - disse o criado abrindo a porta --, um homem
vestido de penitente pede para vos falar.

- Ah, sim, sei do que se trata! - disse o conde. - Meus
senhores, dignem-se passar novamente  sala onde encontraro
na mesa do centro excelentes charutos de Havana. Irei l ter
convosco dentro de instantes.

Os dois jovens levantaram-se e saram por uma porta, enquanto
o conde, depois de lhes renovar as suas desculpas, saa por
outra. Albert que era um grande apreciador de charutos e que
desde que estava em Itlia no considerava pequeno sacrifcio
estar privado dos charutos do Caf de Paris, aproximou-se da
mesa e soltou um grito de alegria ao ver autnticos puros.

- Ento, que pensa do conde de Monte-cristo? - perguntou-lhe
Franz.

- Que penso? - disse Albert, visivelmente surpreendido por o
companheiro lhe fazer semelhante pergunta. - Penso que  um
homem encantador, que faz maravilhosamente as honras da sua
casa, que viu, estudou e reflectiu muito, que , como Bruto,
da escola estica, e - acrescentou, soltando amorosamente uma
baforada de fumo que subiu em espiral para o tecto - que alm
de tudo isso possui excelentes charutos.

Era esta a opinio de Albert acerca do conde. Ora, como Franz
sabia que Albert tinha a pretenso de no ter opinio a
respeito dos homens e das coisas seno depois de madura
reflexo, no tentou modificar-lha. No entanto, perguntou-lhe:

- No notou uma coisa singular?

- O qu?

- A ateno com que o olhava.

- A mim?

- Sim, a si.

Albert reflectiu.

- Oh, no h nada de estranho nisso! - redarguiu, suspirando.
- H perto de um ano que estou ausente de Paris e as minhas
casacas devem estar fora de moda. O conde deve ter-me tomado
por um provinciano. Desengane-o, caro
amigo, e diga-lhe, peo-lhe, na primeira oportunidade, que
isso no  verdade.

Franz sorriu. Um instante depois o conde regressou.

- C me tm, senhores, e inteiramente  sua disposio -
disse. - As ordens esto dadas: a carruagem segue para a Praa
del Popolo e ns, se esto de acordo, seguimos para a rua do
Corso. Tire alguns desses charutos, Sr. de Morcerf.

- Aceito, palavra, com grande prazer - disse Albert porque os
charutos italianos so ainda piores do que os da fbrica do
Estado, em Frana. Quando for a Paris retribuir-lhe-ei tudo
isto.

- E eu no recusarei. Conto l ir qualquer dia e, uma vez que
mo permite, irei bater-lhe  porta. E agora vamos, meus
senhores, vamos porque no temos tempo a perder.  meio-dia e
meia hora, partamos.

Desceram os trs. O cocheiro recebeu as ltimas ordens do amo
e seguiu pela Via del Babuino, enquanto eles subiam a p a
Praa de Espanha e a Via Frattina, que os levava direitos aos
palcios Fiano e Rospolh

Toda a ateno de Franz se concentrou nas janelas deste ltimo
palcio. No esquecera o sinal convencionado no Coliseu entre
o homem da capa e o trasteveriano.

- Quais so as suas janelas? - perguntou ao conde no tom mais
natural que conseguiu arranjar.

- As trs ltimas - respondeu ele com uma negligncia que no
tinha nada de afectada, pois no podia adivinhar com que fim
lhe faziam a pergunta.

Franz olhou rapidamente para as trs janelas. As janelas
laterais estavam forradas de damasco amarelo e a do meio de
damasco branco com uma cruz vermelha.

O homem da capa cumprira a palavra que dera ao trasteveriano e
j no havia dvida: o homem da capa era o conde.

As trs janelas encontravam-se ainda vazias.

De resto, por todos os lados se faziam preparativos.
Colocavam-se cadeiras, erguiam-se bancadas, forravam-se
janelas. As mscaras no podiam aparecer nem as carruagens
circular seno ao toque do sino; mas adivinhavam-se as
mscaras atrs de todas as janelas e as carruagens atrs de
todas as portas.

Franz, Albert e o conde continuaram a descer a rua do Corso.
 medida que se aproximavam da Praa del Popolo a multido
tornava-se mais densa e por cima das cabeas dessa multido
erguiam-se duas coisas: o obelisco encimado por uma cruz que
indica o centro da Praa e,  frente do obelisco, precisamente
no ponto de correspondncia visual das trs ruas do Babuino,
do Corso e da Ripetta, as duas traves principais do cadafalso,
entre as quais brilhava o cutelo arredondado da mandaa.

 esquina da rua encontrava-se o intendente do conde, 
espera do amo.

A janela alugada pelo preo exorbitante de que o conde no
quisera que os seus convidados tomassem conhecimento pertencia
ao segundo andar do grande palcio situado entre a Rua do
Babuino e o monte Pncio. Era, como dissemos, a janela de uma
espcie de gabinete de vestir que dava para um quarto de
dormir, os ocupantes do gabinete estavam como que em sua casa.
Em cima das cadeiras viam-se trajes de palhao, de cetim
branco e azul, dos mais elegantes.

- Como me deixaram a escolha das mscaras - disse o conde aos
dois amigos --, mandei arranjar-lhes estas. Primeiro, porque
so as mais em moda este ano; depois, por serem as mais
cmodas para os confetti, atendendo a que a farinha se no
v.

Franz s muito imperfeitamente ouvia as palavras do conde e
por isso talvez no tenha apreciado no seu justo valor aquela
nova amabilidade. A verdade  que toda a sua ateno estava
concentrada no espectculo que oferecia a Praa del Popolo e
no instrumento terrvel que naquela altura era o seu principal
ornamento.

Era a primeira vez que Franz via uma guilhotina. Dizemos
guilhotina porque a mandaa romana  talhada mais ou menos
pelo mesmo padro do nosso instrumento de morte. A nica
diferena reside no facto de o cutelo, que tem a forma de um
crescente e corta com a parte convexa, cair de menos alto.

Dois homens, sentados na prancha basculante onde se deita o
condenado, almoavam enquanto esperavam e comiam, tanto quanto
Franz pde ver, po e salsichas. Um deles levantou a prancha,
tirou uma garrafa de vinho, bebeu um golo e passou a garrafa
ao camarada. Aqueles dois homens eram os ajudantes do
carrasco!

Bastou o seu aspecto para que Franz sentisse o suor perlar-lhe
a raiz dos cabelos.

Os condenados, transportados na vspera dos Carceri Nuove para
a pequena Igreja de Santa Maria dei Popolo, tinham passado a
noite, assistidos cada um por dois padres, numa cmara-ardente
gradeada, diante da qual passeavam sentinelas rendidas de hora
a hora.

Duas alas de carabineiros colocadas de cada lado da porta da
igreja estendia-se at ao cadafalso,  volta do qual formavam
crculos, deixando livre um caminho de dez ps de largura,
aproximadamente, e  roda da guilhotina um espao de uma
centena de passos de circunferncia. Todo o resto da praa era
um mar de cabeas de homem e mulher. Muitas das mulheres
tinham os filhos s cavalitas. Essas crianas, cujo corpo
ultrapassava a multido, estavam admiravelmente colocadas.

O monte Pncio parecia um vasto anfiteatro em que todos os
degraus estivessem carregados de espectadores. As varandas das
duas igrejas que fazem esquina para a Rua do Babuino e para a
Rua da Ripetta regurgitavam de curiosos privilegiados e os
degraus dos peristilos lembravam uma torrente movedia e
colorida que uma mar incessante empurrasse para o prtico.
Cada salincia da parede capaz de suportar um homem tinha a
sua esttua viva.

O que o conde dizia era portanto verdade: o que existe de mais
curioso na vida  o espectculo da morte.

E no entanto, em vez do silncio que deveria presidir 
solenidade do espectculo, saa da multido um barulho
ensurdecedor composto por risos, chamamentos e gritos alegres.
Era tambm evidente, como dissera o conde, que a execuo no
significava para toda aquela gente mais do que o incio do
Carnaval.

De sbito, o barulho cessou como que por encanto. Acabava de
se abrir a porta da igreja.

Uma confraria de penitentes em que todos os membros envergavam
uma espcie de saco cinzento apenas com aberturas nos olhos e
empunhavam uma vela acesa, apareceu em primeiro lugar. O chefe
da confraria vinha  frente.

Atrs dos penitentes vinha um homem alto. Esse homem estava
nu, com excepo de umas ceroulas de pano do lado esquerdo das
quais trazia presa uma grande faca embainhada. No ombro
direito carregava uma pesada maa de ferro.
Aquele homem era o carrasco.

Alm disso, calava sandlias presas por cordas s canelas.

Atrs do carrasco caminhavam, pela ordem em que deviam ser
executados, primeiro Peppino e depois Andrea.

Cada um vinha acompanhado por dois padres.

Nem um nem outro traziam os olhos vendados.

Peppino caminhava com passo bastante firme. Sem dvida fora
avisado do que se preparava para si.

Andrea era amparado por cada brao por um padre.

Ambos beijavam de vez em quando o crucifixo que lhos
apresentava o confessor.

Mal viu aquele aparato, Franz sentiu as pernas
fraquejarem-lhe. Olhou para Albert. Estava plido como a sua
camisa e num gesto maquinal atirou para longe o charuto,
embora s tivesse fumado metade.

Apenas o conde parecia impassvel. Mais, uma leve colorao
rosada parecia querer sobrepor-se  palidez lvida das suas
faces.

O nariz dilatava-se-lhe como o da fera que fareja sangue, e os
seus lbios, ligeiramente afastados, deixavam ver os seus
dentes brancos, pequenos e aguados como os de um chacal.

E no entanto, apesar de tudo isso, o seu rosto tinha uma
expresso de doura sorridente que Franz nunca lhe vira. Os
seus olhos negros, sobretudo, estavam admirveis de mansido e
suavidade.

Entretanto, os dois condenados continuavam a dirigir-se para o
cadafalso, e  medida que avanavam podiam distinguir-se-lhes
as feies. Peppino era um belo moo de vinte e quatro a vinte
e seis anos, de pele queimada pelo sol e olhar ousado e
bravio. Vinha de cabea levantada e parecia farejar o vento
para ver de que lado lhe viria o seu libertador.

Andrea era gordo e baixo. A sua cara, repugnantemente cruel,
no indicava idade. Podia no entanto contar trinta anos, pouco
mais ou menos. Deixara crescer a barba na priso.
Inclinava a cabea sobre um dos ombros e as pernas
dobravam-se-lhe debaixo dele. Todo o seu ser parecia obedecer
a um movimento maquinal, no qual a sua vontade j no
intervinha.

- Parece-me - disse Franz ao conde - que me anunciara que s
haveria uma execuo.

- E disse-lhe a verdade - respondeu o conde, friamente.

- No entanto, esto ali dois condenados...

- Pois esto. Mas desses dois condenados um morrer e o outro
ter ainda longos anos de vida.

- Parece-me que se o perdo deve vir no h tempo a perder.

- Por isso a vem. Veja - redarguiu o conde.

Com efeito, no momento em que Peppino chegava ao p da
mandaa, um penitente que parecia vir atrasado passou
atravs da ala sem que os soldados lhe impedissem a passagem,
dirigiu-se ao chefe da confraria e entregou-lhe um papel
dobrado em quatro.

O olhar ardente de Peppino no perdera nenhum destes
pormenores. O chefe da confraria desdobrou o papel, leu-o e
levantou a mo.

- O Senhor seja bendito e Sua Santidade seja louvado! - disse
em voz alta e inteligvel. - H perdo da vida para um dos
condenados.

- Perdo! - gritou o povo em unssono. - H perdo!

Ao ouvir a palavra "perdo", Andrea pareceu saltar e levantou
a cabea.

- Perdo para quem? - gritou.

Peppino ficou imvel, mudo e arquejante.

- H perdo da pena de morte para Peppino, tambm conhecido
por Rocca Priori - respondeu o chefe da confraria.

E passou o papel ao capito que comandava os carabineiros, o
qual, depois de o ler, lho restituiu.

- Perdo para Peppino! - gritou Andrea, inteiramente fora do
estado de torpor em que parecia mergulhado. - Porqu perdo
para ele e no para mim? Devamos morrer juntos.
Tinham-me prometido que ele morreria antes de mim e no tm o
direito de me fazer morrer sozinho. No quero morrer sozinho,
no quero!

E arrancou-se dos braos dos dois padres, contorcendo-se,
gritando, rugindo, fazendo esforos insensatos para quebrar as
cordas que lhe prendiam as mos.

O carrasco fez sinal aos seus dois ajudantes, que saltaram do
cadatalso e vieram apoderar-se do condenado.

- Que se passa? - perguntou Franz ao conde.

Porque como aquilo decorria em dialecto romano, no
compreendera muito bem.

- Que se passa? - respondeu o conde. - No compreende bem?
Passa-se que aquela criatura humana que vai morrer est
furiosa por o seu semelhante no morrer com ela, e se a
deixassem  vontade despeda-lo-ia com as unhas e com os
dentes em vez de o deixar gozar a vida de que ela vai ser
privada.  homens homens, raa de crocodilos, como diz Karl
Moor - gritou o conde, estendendo os punhos para toda aquela
multido. - Como vos reconheo bem a e como sois sempre bem
dignos de vs prprios!

Com efeito, Andrea e os dois ajudantes do carrasco rolavam
pelo cho, com o condenado sempre a gritar: "Ele deve morrer,
quero que ele morra! No tm o direito de me matar sozinho!"

- Vejam, vejam - continuou o conde, agarrando cada um dos dois
jovens pela mo. - Vejam porque, pela minha alma,  curioso.
Eis um homem que estava resignado com a sua morte, que
caminhava para o cadafalso, que ia morrer como um cobarde, 
certo, mas enfim, ia morrer sem resistncia e sem
recriminaes. Sabem o que lhe dava alguma coragem? Sabem o
que o consolava? Sabem o que o levava a aceitar o seu suplcio
com resignao? O facto de outro compartilhar a sua angstia,
de outro ir morrer com ele, de outro ir morrer antes dele!
Levem dois carneiros ou dois bois ao matadouro e faam
compreender a um deles que o companheiro no morrer. O
carneiro balir e o boi mugir de alegria. Mas o homem, o
homem que Deus fez  sua imagem; o homem a quem Deus imps
como primeira, nica e suprema lei o amor ao prximo; o homem
a quem Deus deu voz para exprimir o seu pensamento, qual  o
seu primeiro grito quando sabe que o seu camarada est salvo?
Uma blasfmia. Honra ao homem, essa obra-prima da Natureza,
esse rei da Criao!

E o conde desatou a rir, mas com um riso terrvel, que
indicava que devia ter sofrido horrivelmente para chegar a rir
assim.

Entretanto a luta continuava e era qualquer coisa de horrvel
v-la. os dois ajudantes transportavam Andrea para o
cadafalso. Todo o povo tomara partido contra ele e vinte mil
vozes gritavam em unssono: " morte!  morte!"

Franz recuou, mas o conde pegou-lhe no brao e reteve-o diante
da janela.

- Que faz? - perguntou-lhe. - Piedade? No haja dvida que
est bem aplicada! Se ouvisse gritar que andava um co raivoso
 solta, pegaria na sua espingarda, correria para a rua e
mataria sem misericrdia,  queima-roupa, o pobre animal, que
no fim de contas no seria culpado de ter sido mordido por
outro co e de fazer o que lhe fizeram; mas tem piedade de um
homem que nenhum outro homem mordeu e que no entanto
assassinou o seu benfeitor, e que, no podemos agora matar
porque tem as mos amarradas, quer  viva fora ver morrer o
seu companheiro de cativeiro, o seu companheiro de infortnio!
No, no! Veja, veja!

A recomendao tornara-se quase intil, pois Franz estava como
fascinado pelo horrvel espectculo. Os dois ajudantes tinham
conduzido o condenado para o cadafalso e a, apesar dos seus
esforos, das suas mordidelas e dos seus gritos, tinham-no
obrigado a ajoelhar. Entretanto, o carrasco pusera-se de lado
e com a maa preparada. Ento, a um sinal, os dois ajudantes
afastaram-se. O condenado quis levantar-se, mas antes que
tivesse tempo de o fazer a maa abatou-se-lhe sobre a tmpora
esquerda. Ouviu-se um rudo abafado e seco, o paciente caiu
como um boi, de cara contra o cho, e depois, bruscamente
virou-se de costas. Ento o carrasco deixou cair a maa, tirou
a faca da cintura e de um s golpe abriu-se-lhe a garganta,
subiu-lhe imediatamente para a barriga e ps-se a carregar
nela com os ps:

A cada presso saa do pescoo do condenado um jacto de
sangue.

Desta vez, Franz no aguentou mais. Recuou e foi cair numa
poltrona meio desmaiado.

Albert ficou de p, com os olhos fechados e agarrado s
cortinas da janela.

O conde estava de p e triunfante como o anjo mau.


Captulo XXXVI

O Carnaval de Roma


Quando voltou a si, Franz encontrou Albert a beber um copo de
gua. A sua palidez indicava que necessitava muito daquele
lenitivo. Quanto ao conde, vestia j o seu traje de palhao.
Franz olhou maquinalmente para a praa: tudo desaparecera,
cadafalso, carrasco e vtima, e s restava o povo, barulhento,
irrequieto, alegre. O sino do Monte Citorio, que s tocava por
morte do papa e pela abertura da mascherata, tocava
dasabaladamente.

- Ento - perguntou ao conde --, que aconteceu?

- Nada, absolutamente nada, como v. Apenas comeou o
Carnaval; vistamo-nos depressa.

- De facto - observou Franz ao conde --, de toda aquela
horrvel cena s resta o vestgio de um sonho.

- Porque no passou tudo de um sonho, de um pesadelo que o
senhor teve.

- Eu, sim; mas o condenado?

- Foi um sonho tambm. Simplesmente, ele ficou adormecido, ao
passo que o senhor acordou. Quem poder dizer qual dos dois 
o privilegiado?

- E Peppino, que foi feito dele? - perguntou Franz.

- Peppino  um rapaz de senso, que no tem o mais pequeno
amor-prprio e que, ao contrrio do que  habitual nos homens,
que ficam furiosos quando lhes no ligam importncia, ficou
encantado ao ver que a ateno geral incidia sobre o seu
camarada. Consequentemente, aproveitou essa distraco para se
esgueirar por entre a multido e desaparecer, sem sequer
agradecer aos dignos padres que o acompanharam. Decididamente,
o homem  um animal muito ingrato e egosta.. Mas vista-se.
Olhe, veja como o Sr. de Morcerf lhe d o exemplo.

Com efeito, Albert passava maquinalmente as calas de tafet
por cima das calas pretas e das botas de verniz.

- Ento, Albert, est resolvido a cometer loucuras? -
perguntou Franz. - Vamos, responda francamente.

- No - respondeu o interpelado. - Mas na verdade agora
sinto-me satisfeito por ter assistido a semelhante espectculo
e compreendo o que dizia o Sr. Conde: uma vez que nos
conseguimos habituar a ele, trata-se do nico espectculo que
ainda provoca emoes.

- Sem contar que  apenas nesse momento que se podem fazer
estudos de caracter - observou o conde. - No primeiro degrau
do cadafalso, a morte arranca-nos a mscara que usamos toda a
vida e o nosso verdadeiro rosto aparece.
Devemos concordar que o de Andrea no era agradvel de ver...
Repugnante patife!... Mas vistamo-nos, meus senhores,
vistamo-nos!

Franz achou que seria ridculo da sua parte fazer-se rogado e
no seguir o exemplo que lhe davam os seus dois companheiros.
Vestiu portanto o seu traje e ps a mscara, que certamente
no era mais plida do que o seu rosto.

Assim que acabaram de se vestir, desceram. A carruagem
espera-vos  porta, cheia de confetti e de ramos de flores.

Entraram na fila.

 difcil fazer-se ideia de um contraste mais completo do que
aquele que acabava de se operar. Em vez do anterior
espectculo de morte, sombrio e silencioso, a Praa del Popolo
apresentava o aspecto de uma louca e ruidosa orgia. Viam-se
aparecer inmeras mscaras por todos os lados, saindo das
portas e descendo das janelas. As carruagens desembocavam de
todas as ruas, carregadas de pierrs, arlequins, domins,
marqueses, trasteveres, figuras grotescas, cavalheiros,
camponeses, etc., todos eles gritando, gesticulando e atirando
ovos cheios de farinha, confetti e flores, atacando com
palavras e projcteis amigos e estranhos, conhecidos e
desconhecidos, sem que ningum tivesse o direito de se zangar,
sem que se fizesse fosse o que fosse a no ser rir.

Franz e Albert eram como homens que, para se distrarem de um
grande desgosto, participam numa orgia e que,  medida que
bebem e se embriagam, sentem um vu espessar-se entre o
passado e o presente. Viam ainda, ou antes, continuavam a
sentir em si o reflexo do que tinha visto. Mas, pouco a pouco,
a embriaguez geral dominou-os e pareceu-lhes que a sua razo,
pouco firme, ia  abandon-los. Experimentavam unia
necessidade estranha de participar naquela algazarra, naquele
movimento, naquela vertigem. Um punhado de confetti atirado
a Morcerf de uma carruagem vizinha e que, cobrindo-o de p,
assim como aos seus dois companheiros, lhe picou o pescoo e
toda a poro do rosto no tapada pela mscara, como se lhe
tivessem atirado uma centena de alfinetes, acabou de o atrair
 luta geral em que j estavam envolvidas todas as mscaras
que encontravam.
Levantou-se por seu turno na carruagem, meteu ambas as mos
nos sacos e com todo o vigor e pontaria de que foi capaz
lanou por sua vez ovos e confeitos aos seus vizinhos.

A partir da o combate estava travado. A recordao do que
tinham visto meia hora antes esfumou-se por completo do
esprito dos dois jovens, de tal modo o espectculo colorido,
movimentado e insensato que tinha diante dos olhos os
distraiu. Quanto ao conde de Monte-cristo, nunca parecera,
como dissemos, impressionado um s instante.

Imagine-se a grande e bela rua do Corso, ladeada de uma ponta
 outra de palcios de quatro ou cinco andares, com todas as
suas varandas guarnecidas de tapearias, com todas as suas
janelas decoradas; nessas varandas e nessas janelas trezentos
mil espectadores, romanos, italianos e estrangeiros vindos das
quatro partidas do mundo; todas as aristocracias reunidas: de
nascimento, de dinheiro, de esprito; mulheres encantadoras
que, sofrendo elas prprias a influncia do espectculo, se
inclinam sobre as varandas, se debruam fora das janelas e
fazem chover sobre as carruagens que passam uma saraivada de
confetti que lhes retribuem com flores; a atmosfera toda
carregada de confeitos que descem e de flores que sobem;
depois, nas prprias ruas, uma multido alegre, incessante,
louca, metida em trajes insensatos: couves gigantescas que se
passeiam majestosamente, cabeas de bfalos que mugem
encimando corpos de homens, ces que parecem caminhar nas
patas traseiras, etc.; no meio de tudo isto uma mscara que se
levanta e, como na tentao de Santo Antnio idealizada por
Callot, alguma Astarte que mostra um rosto encantador, que se
quer seguir, mas do qual se  separado por uma espcie de
demnios idnticos aos que se vem nos sonhos, e ter-se- uma
fraca ideia do que  o Carnaval em Roma.

A segunda volta, o conde mandou parar a carruagem e pediu aos
companheiros licena para se separar deles, deixando a
carruagem  sua disposio. Franz levantou os olhos: estavam
diante do Palcio Rospoli, e  janela do meio, aquela que se
encontrava forrada de damasco branco com uma cruz vermelha,
estava um domin azul sob o qual a imaginao de Franz
descobriu sem dificuldade a bela grega do Teatro Argentina.

- Meus senhores - disse o conde ao apear-se --, quando
estiverem cansados de ser actores e quiserem voltar a ser
espectadores, sabem que tm um lugar nas minhas janelas.
Entretanto, disponham do meu cocheiro, da minha carruagem e
dos meus criados.

Esquecemo-nos de dizer que o cocheiro do conde estava
gravemente vestido com uma pele de urso negro, exactamente
igual  de Odry em O Urso e o Pax, e que os dois lacaios
que se mantinham de p atrs da calea envergavam trajes de
macaco verde, perfeitamente adaptados  sua estatura, e usavam
mscaras de molas com as quais faziam caretas a quem passava.

Franz agradeceu ao conde a sua amvel oferta. Quanto a Albert,
todo ele era galanteios com uma carruagem cheia de camponesas
romanas, parada, como a  do conde, para um desses descansos
to vulgares nos desfiles e que ele cobria de flores.

Infelizmente para ele, o cortejo voltou a por-se em andamento,
e, quando ele descia para a Praa del Popolo, a carruagem que
lhe atrara a ateno subia para o Palcio de Veneza.

- Ah, meu caro, no viu?... perguntou a Franz.

- O qu?

- Olhe, aquela calea que vai ali, carregada de camponesas
romanas.

- No.

- Pois estou certo de que so mulheres encantadoras.

- Que azar estar mascarado, meu caro Albert - disse Franz. -
Era a altura de se desforrar das suas decepes amorosas!

- Oh, espero que o Carnaval no termine sem me proporcionar
qualquer compensao! - exclamou Albert, meio a rir, meio a
srio.

Apesar desta esperana, o dia passou-se todo sem outra
aventura alm do reencontro, duas ou trs vezes renovado, com
a calea das camponesas romanas. Num desses encontros, como
que por acaso, ou por clculo, a mscara de Albert soltou-se.

Ao mesmo tempo, ele pegou no resto das flores e atirou-as para
a calea.

Sem dvida uma das mulheres encantadoras que Albert adivinhava
sob o traje garrido de camponesa ficou impressionada pela
galantaria, pois por sua vez, quando a carruagem dos dois
amigos voltou a passar, atirou-lhe um ramo de violetas.

Albert precipitou-se para o ramo. Como Franz no tinha nenhum
motivo para crer que fora atirado em sua inteno, deixou
Albert apanh-lo. Albert p-lo vitoriosamente na lapela e a
carruagem continuou a sua corrida triunfal.

- Pronto, a est um princpio de aventura! - disse-lhe Franz.

- Ria  vontade - respondeu Albert --, mas na verdade estou
convencido que sim. Por isso, no largo mais este ramo.

- Acredito! - declarou Franz, rindo. -  um sinal de
reconhecimento.

O gracejo, alis, depressa adquiriu o carcter de realidade,
pois quando, sempre levados pelo cortejo, Franz e Albert se
cruzaram de novo com a carruagem das contadine a que atirara
o ramo a Albert bateu as mos ao ver-lhe na lapela.

- Bravo, meu caro, bravo -- disse-lhe Franz. - Corre tudo s
mil maravilhas! Quer que o deixe! talvez seja mais agradvel
para si estar s...

- No - respondeu Albert. - No precipitemos nada. No quero
deixar-me apanhar como um idiota, a uma primeira demonstrao,
num encontro debaixo do relgio, como dizemos nos bailes da
pera. Se a bela camponesa quiser ir mais longe,
encontr-la-emos amanh, ou antes, encontrar-nos- ela. Ento,
dar-me- sinal da sua existncia e verei o que devo fazer.

- Na verdade, meu caro Albert - observou Franz --, voc 
sbio como Nestor e prudente como Ulisses. E se a sua Circe
conseguir transform-lo num animal qualquer,  porque ser
muito hbil ou muito poderosa.

Albert tinha razo. A bela desconhecida resolvera, sem dvida,
no levar mais longe o namoro daquele dia; porque embora os
jovens dessem ainda vrias voltas, no tornaram a ver a calea
que procuravam com a vista: desaparecera decerto por uma das
ruas adjacentes.

Ento dirigiram-se para o Palcio Rospoli, mas o conde tambm
desaparecera com o domin azul. As duas janelas forradas de
damasco amarelo continuavam, de resto, a ser ocupadas por
pessoas que sem dvida convidara.

Naquele momento, o mesmo sino que tocara para a abertura da
mascherata tocou para o encerramento. A fila do Corso
rompeu-se imediatamente e num instante todas as carruagens
desapareceram nas ruas transversais.

Franz e Albert encontravam-se ento defronte da Via delle
Maratte.

O cocheiro meteu por ela sem dizer nada, alcanou a Praa de
Espanha contornou o Palcio Poli e parou diante do hotel.

Mestre Pastrini veio receber os seus hspedes  porta.

O primeiro cuidado de Franz foi informar-se acerca do conde e
exprimir o seu pesar por o no terem ido buscar a tempo, mas
Pastrini tranquilizou-o dizendo-lhe que o conde de
Monte-cristo reservara segunda carruagem para si e essa
carruagem fora busc-lo s quatro horas ao Palcio Rospoli.
Alm disso, estava encarregado de oferecer da parte dele aos
dois amigos a chave do seu camarote no Teatro Argentina.

Franz consultou Albert acerca das suas disposies, mas Albert
tinha grandes projectos a pr em prtica antes de pensar em ir
ao teatro. Por isso, em vez de responder, informou-se se
mestre Pastrini lhe poderia arranjar um alfaiate.

- Para que quer o nosso hspede um alfaiate?

- Para nos fazer daqui at amanh, trajes de camponeses
romanos to elegantes quanto possvel - respondeu Albert.

Mestre Pastrini abanou a cabea.

- Fazer-lhes daqui at amanh dois fatos?! - exclamou. - Ora
a est, com perdo de Vossas Excelncias, um pedido 
francesa. Dois fatos! Se daqui a oito dias no encontrariam
com certeza um alfaiate que consentisse em pregar seis botes
num colete, nem que lhe pagassem os botes a um escudo cada
um!

- Quer dizer que devo desistir de arranjar os fatos que
desejo?

- No, porque arranjaremos os fatos j prontos. Deixe-me
tratar disso e amanh encontraro quando acordarem uma
coleco de chapus, jaquetas e cales que os deixar
satisfeitos.

- Meu caro - disse Franz a Albert --, confiemos no nosso
hoteleiro, que j nos provou ser homem de recursos.
Jantemos pois tranquilamente e depois do jantar vamos ver A
Italiana em Argel.

- Seja A Italiana em Argel - admitiu Albert. - Mas no se
esquea, mestre Pastrini, que eu e este senhor - continuou,
indicando Franz - atribumos a mais alta importncia a termos
amanh os trajes que pedimos.

O hoteleiro garantiu mais uma vez aos seus hspedes que no
tinham de se preocupar fosse com o que tosse e que os seus
desejos seriam satisfeitos. Assim Franz e Albert subiram aos
seus quartos para despirem os trajes de palhaos.

Ao despir o seu, Albert tirou com o maior cuidado o ramo de
violetas: era o seu sinal de reconhecimento para o dia
seguinte.

Os dois amigos sentaram-se  mesa; mas enquanto jantavam,
Albert no pde deixar de notar a diferena notvel que
existia entre os mritos respectivos dos cozinheiros de mestre
Pastrini e do conde de Monte-cristo. Ora, a verdade obrigou
Franz a confessar, apesar das prevenes que parecia ter
contra o conde, que a comparao no era nada a favor do chefe
de Pastrini.

 sobremesa, o criado perguntou a que horas os dois jovens
desejavam a carruagem. Albert e Franz entreolharam-se,
receando sinceramente abusar, mas o criado tranquilizou-os:

- Sua Excelncia o conde de Monte-cristo - disse - deu ordens
terminantes para que a carruagem ficasse todo o dia s ordens
de Suas Senhorias. Suas Senhorias podem portanto dispor dela
sem receio de abusar.

Os jovens resolveram aproveitar at ao fim a cortesia do conde
e mandarem atrelar os cavalos enquanto eles iam trocar por um
fato de noite o seu traje de dia, que estava um bocadinho
amarrotado pelos numerosos combates em que tinham participado.

Tomada esta precauo, dirigiram-se para o Teatro Argentina e
instalaram-se no camarote do conde.

Durante o primeiro acto, a condessa G... entrou no dela e o
seu primeiro olhar foi para o lado onde na vspera vira o
conde, de modo que viu Franz e Albert no camarote daquele
acerca de quem exprimira a Franz, havia vinte e quatro horas,
opinio bastante estranha.

O seu binculo visava-o to intensamente que Franz se
convenceu ser uma crueldade tardar mais tempo a satisfazer a
curiosidade da condessa. Por isso, usando do privilgio
concedido aos espectadores dos teatros italianos, que consiste
em transformar salas de espectculo em salas de recepo, os
dois amigos deixaram o seu camarote e foram apresentar as suas
homenagens  condessa.

Mal entraram no camarote, ela fez sinal a Franz para se sentar
no lugar de honra.

Por sua vez, Albert sentou-se atrs.

- Ento - disse a condessa quase sem dar tempo a Franz de se
sentar --, parece que no tiveram nada mais urgente que fazer
do que travar conhecimento com o novo Lorde Ruthwen e
tornarem-se os melhores amigos do mundo...

- Sem que estejamos to adiantados como diz numa intimidade
recproca no posso negar, Sr.a Condessa - respondeu Franz --,
que abusmos todo o dia da sua amabilidade.

- Como, todo o dia?

-  como lhe digo: esta manh aceitmos o seu pequeno-almoo,
durante toda a mascherata percorremos o Corso na sua
carruagem e finalmente  noite assistimos ao espectculo no
seu camarote.

- Conhecem-no, portanto?

- Sim e no.

- Como assim?

-  uma longa histria.

- Que me contar?

- Causar-lhe-ia demasiado medo.

- Mais uma razo.

- Espere ao menos que a histria tenha um desenlace.

- Seja, gosto das histrias completas. Entretanto, como
entraram em contacto? Quem os apresentou a ele?

- Ningum. Foi ele, pelo contrrio, que se apresentou a ns.

- Quando?

- Ontem  noite, depois de a deixar.

- Por intermdio de quem?

- Oh, meu Deus, pelo intermdio prosaiqussimo do nosso
hoteleiro!

- Est portanto hospedado no Hotel de Espanha como os
senhores?

- No s no mesmo hotel, mas tambm no mesmo andar.

- Como se chama? Porque sem dvida sabem o seu nome...

- Perfeitamente. Conde de Monte-cristo.

- Que nome  esse? No  um nome de famlia.

- No,  o nome de uma ilha que ele comprou.

- E  conde?

- Conde toscano.

- Enfim, engoliremos isso como os outros - declarou a
condessa, que pertencia a uma das mais antigas famlias dos
arredores de Veneza. - Mas que espcie de homem  ele?

- Pergunte ao visconde de Morcerf.

- Ouviu, senhor? Remetem-me para si - disse a condessa.

- Seramos demasiado exigentes se no o achssemos encantador,
minha senhora - respondeu Albert. - Um amigo de dez anos no
faria por ns mais do que ele tem feito, e com uma graa, uma
delicadeza, uma cortesia que indicam realmente tratar-se de um
homem de sociedade.

- Bom - disse a condessa, rindo --, vero que o meu vampiro
acaba por ser muito simplesmente algum novo rico que quer que
lhe perdoem os seus milhes e se meteu na pele de Lara para
no o confundirem com o Sr. de Rothschild. E ela, viram-na?

- Ela, quem? - perguntou Franz, sorrindo.

- A bela grega de ontem.

- No. Ouvimos, se me no engano, o som da sua guzla, mas
ela conservou-se absolutamente invisvel.

- Isto , quando diz invisvel, meu caro Franz - observou
Albert --,  apenas para adensar o mistrio, no  verdade?
Quem acha que era o domin azul que estava  janela forrada de
damasco branco?

- E onde estava essa janela forrada de damasco branco? -
perguntou a condessa.

- No Palcio Rospoli.

- O conde tinha portanto trs janelas no palcio Rospoli?

- Tinha. Passou na rua do Corso?

- Sem dvida.

- No notou duas janelas forradas de damasco amarelo e uma
janela forrada de damasco branco com uma cruz vermelha? Essas
trs janelas eram do conde.

- Ah, sim?... Mas ento esse homem  um nababo! Sabem quanto
custam trs janelas como essas para os oito dias de Carnaval e
no Palcio Rospoli, isto , na melhor situao do Corso?

- Duzentos ou trezentos escudos romanos...

- Diga dois ou trs mil.

- Demnio!

-  a sua ilha que lhe d to bom rendimento?

- A sua ilha? No lhe rende nem um chavo.

- Nesse caso, porque a comprou?

- Por capricho.

- Trata-se portanto de um original?

- Efectivamente - declarou Albert --, pareceu-me bastante
excntrico. Se morasse em Paris e frequentasse os nossos
espectculos, dir-lhe-ia, meu caro, que se tratava de um
brincalho de mau gosto cheio de pose ou de um pobre diabo
que a literatura no soube aproveitar. Na realidade, teve esta
manh duas ou trs sadas dignas de Didier ou de Antony.

Neste momento entrou uma visita e, segundo o uso, Franz cedeu
o seu lugar ao recm-chegado. Esta circunstncia, alm da
troca de lugares, teve ainda como resultado mudar o tema da
conversa.

Uma hora mais tarde, os dois amigos regressaram ao hotel.
Mestre Pastrini ocupara-se j das suas mscaras para o dia
seguinte e prometeu-lhes que ficariam satisfeitos com a sua
inteligente actividade.

Com efeito, no dia seguinte s nove horas entrava no quarto de
Franz com um alfaiate carregado com oito ou dez trajes de
campons romano. Os dois amigos escolheram dois iguais, mais
ou menos  medida do seu corpo, e encarregaram o hoteleiro de
lhes mandar pregar uns vinte metros de fitas em cada chapu e
de lhes arranjar dois desses encantadores lenos de seda de
barras transversais e cores vivas com que os homens do povo
tm o hbito, nos dias de festa, de apertar a cintura.

Albert tinha pressa de ver como lhe ficaria o seu novo traje,
o qual se compunha de uma jaqueta e de uns cales de veludo
azul, meias bordadas, sapatos de fivela e colete de seda.
Alis, Albert s podia ser beneficiado com este traje
pitoresco. E quando cingiu com aquela espcie de faixa a
cintura elegante, e o chapu, ligeiramente inclinado para um
lado, lhe deixou cair sobre o ombro ondas de fitas, Franz foi
obrigado a confessar que o traje representa quase sempre muito
na superioridade tsica que concedemos a certos povos. Os
turcos, dantes to pitorescos com as suas longas tnicas de
cores vivas, no so agora ridculos com as suas sobrecasacas
azuis abotoadas e os seus barretes gregos que lhes do o ar de
garrafas de vinho de cpsula vermelha?

Franz felicitou Albert, que, de resto, de p diante do
espelho, sorria com um ar de satisfao que no tinha nada de
equvoco.

Estavam nisto quando o conde de Monte-cristo entrou.

- Meus senhores - disse-lhes --, como por mais agradvel que
seja um companheiro de prazer a liberdade  ainda mais
agradvel, venho dizer-lhes que hoje e nos dias seguintes
deixo  sua disposio a carruagem de que se serviram ontem. O
nosso hoteleiro deve ter-lhes dito que tenho trs ou quatro
alugadas no hotel; portanto, essa no me faz falta e podem
servir-se dela livremente, quer para as suas sadas de prazer,
quer para as de negcios. Encontrar-nos-emos, se tivermos
alguma coisa a dizer uns aos outros, no Palcio Rospoli.

Os dois jovens quiseram fazer-lhe qualquer observao, mas na
realidade no tinham nenhum motivo aceitvel para recusar uma
oferta que alis lhes era agradvel. Acabaram pois por
aceitar.

O conde de Monte-cristo ficou cerca de um quarto de hora com
eles, falando de todas as coisas com extrema facilidade.
Encontrava-se, como j tinham podido notar, muito ao corrente
da literatura de todos os pases. Uma olhadela s paredes da
sua sala provara a Franz e a Albert que era amador de quadros.
Algumas palavras despretensiosas que deixou escapar por acaso
provaram-lhes que as cincias lhe no eram estranhas. Parecia
sobretudo ter-se ocupado especialmente da qumica.

Os dois amigos no tinham a pretenso de oferecer ao conde o
pequeno-almoo que lhes dera, e seria um gracejo de muito mau
gosto servir-lhe, em troca da sua excelente refeio, a comida
muitssimo medocre de mestre Pastrini. Assim lho disseram com
toda a franqueza e ele recebeu as suas desculpas como homem
que apreciava a sua delicadeza.

Albert estava entusiasmado com as maneiras do conde, que s a
sua cincia o impedia de o considerar um autntico fidalgo.
Sobretudo a liberdade de dispor inteiramente da carruagem
enchia-o de alegria. Tinha os seus planos a respeito das
graciosas camponesas, e como elas lhe tinham aparecido na
vspera numa carruagem elegantssima, no lhe desagradava
continuar a parecer nesse ponto em p de igualdade com elas.

Os dois jovens desceram  uma e meia. O cocheiro e os lacaios
tinham tido a ideia de vestir os casacos das librs debaixo
das suas peles de animais, o que lhes dava aspecto ainda mais
grotesco do que na vspera e lhes valeu muitas felicitaes de
Franz e Albert.

Albert colocara sentimentalmente na lapela o seu ramo de
violetas j murchas.

Mal soou o sino, partiram e precipitaram-se na rua do Corso
pela Via Vitioria.

 segunda volta, um ramo de violetas frescas partiu de uma
calea carregada de palhaas e veio cair na calea do conde.
Albert teve assim a indicao de que, tal como ele e o amigo,
as camponesas da vspera tambm tinham mudado de traje, e de
que, quer por acaso, quer por um sentimento idntico quele
que os impelira, enquanto eles, galantemente, tinham escolhido
o traje delas, elas pela sua parte haviam escolhido o deles.

Albert ps o ramo fresco no lugar do outro, mas conservou o
ramo murcho na mo, e quando se cruzou de novo com a calea,
levou-o apaixonadamente aos lbios, o que pareceu divertir
muito, no s a que lho atirara, mas tambm as suas loucas
companheiras.

O dia no foi menos animado do que a vspera.  at provvel
que um profundo observador tivesse notado um aumento de
barulho e alegria. Viram por momentos o conde  sua janela,
mas quando a carruagem tornou a passar ele j desaparecera.

Escusado ser dizer que a troca de galanteios entre Albert e a
palhaa dos ramos de violetas durou todo o dia.

 noite, quando regressaram, Franz encontrou uma carta da
embaixada em que lhe anunciavam que teria a honra de ser
recebido no dia seguinte por Sua Santidade. Em todas as
viagens que fizera anteriormente a Roma solicitara e
obtivera o mesmo favor. E tanto por devoo como por
reconhecimento, no quisera passar pela capital do mundo
cristo sem depositar as suas respeitosas homenagens aos ps
de um dos sucessores de S. Pedro que tem dado o raro
exemplo de todas as virtudes.

Naquele dia no se tratava portanto para ele de pensar no
Carnaval; porque apesar da bondade de que o Santo Padre rodeia
a sua grandeza,  sempre com um respeito cheio de profunda
emoo que as pessoas se inclinam diante do nobre e santo
velho chamado gregrio XVI.

Quando saiu do Vaticano, Franz foi direito ao hotel e evitou
at passar pela rua do Corso. Levava consigo um tesouro de
pensamentos piedosos para os quais o contacto com as loucas
alegrias da mascherata seria uma profanao.


Albert regressou s cinco horas e dez minutos. Vinha eufrico.
A palhacinha tornara a envergar o seu traje de camponesa e ao
passar pela cale a de Albert tirara a mscara.

Era encantadora.

Franz apresentou a Albert as suas mais sinceras felicitaes e
ele recebeu-as como homem a quem so devidas.
Reconhecera, dizia, por certos sinais de elegncia inimitvel,
que a sua bela desconhecida pertencia  mais alta
aristocracia.

Estava decidido a escrever-lhe no dia seguinte.

Ao receber tal confidncia, Franz notou que Albert parecia ter
qualquer coisa a pedir-lhe, mas que no entanto hesitava em
fazer-lhe o pedido. Insistiu, declarando-lhe antecipadamente
que estava pronto a fazer em benefcio da sua felicidade todos
os sacrifcios que estivessem na sua mo, mas Albert fez-se
rogar exactamente o tempo exigido por uma amistosa delicadeza.
Por fim, confessou a Franz que lhe prestaria um grande favor
se no dia seguinte lhe cedesse a calea s para ele.

Albert atribua  ausncia do amigo a extrema bondade que
tivera a bela camponesa em tirar a mscara.

Como se compreende, Franz no era egosta ao ponto de levantar
dificuldades a Albert no meio de uma aventura que prometia ao
mesmo tempo ser to agradvel para a sua curiosidade e to
lisonjeira para o seu amor-prprio. Conhecia bastante bem a
perfeita indiscrio do seu digno amigo e tinha a certeza de
que ele o manteria ao corrente dos mais pequenos pormenores da
sua boa fortuna. E como, desde que havia dois ou trs anos que
percorria a Itlia em todos os sentidos, nunca tivera sequer a
oportunidade de esboar um namoro assim em seu proveito, Franz
estava ansioso por saber como se passavam as coisas em
semelhante caso.

Prometeu portanto a Albert que no dia seguinte se limitaria a
admirar o espectculo das janelas do Palcio Rospoli.

Com efeito, no dia seguinte viu passar e tornar a passar
Albert. Trazia um ramo enorme que sem dvida encarregara de
ser o portador da sua epstola amorosa. Tal probabilidade
transformou-se em certeza quando Franz tornou a ver o mesmo
ramo, notvel devido a um crculo de camlias brancas, nas
mos de uma encantadora palhaa vestida de cetim cor-de-rosa.

Por isso, a noite j no foi de alegria, foi de delrio.
Albert estava certo de que a bela desconhecida lhe responderia
pela mesma via. Franz foi ao encontro dos seus desejos
dizendo-lhe que todo aquele barulho o fatigava e que estava
decidido a empregar o dia seguinte a rever o seu lbum e a
tomar apontamentos.

Alis, Albert no se enganara nas suas previses: no dia
seguinte  noite, Franz viu-o entrar-lhe no quarto num salto,
agitando maquinalmente uma folha de papel segura por uma
ponta.

- Ento, enganei-me? - perguntou.

- Ela respondeu? - inquiriu Franz.

- Leia.

Esta palavra foi pronunciada com uma intonao impossvel de
reproduzir. Franz pegou no bilhete e leu:


Tera-feira  noite. s sete horas desa da sua carruagem
defronte da Via dei Pontefici e siga a camponesa romana que
lhe tirar o seu moccoletto. Quando chegar ao primeiro degrau
da Igreja de San-Giacomo tome o cuidado para que ela o possa
reconhecer de atar uma fita cor-de-rosa no ombro do seu traje
de palhao.

Daqui at l no me ver mais.

Constncia e discrio.

- Que pensa disso, caro amigo? - perguntou Albert a Franz
quando este terminou a leitura.

- Penso - respondeu Franz - que a coisa toma todo o cara ter
de uma aventura deveras agradvel.

-  tambm a minha opinio - disse Albert - e receio muito que
voc tenha de ir sozinho ao baile do duque de Bracciano.

Franz e Albert tinham recebido naquela mesma manh um convite
do clebre banqueiro romano.

- Cautela, meu caro Albert - recomendou-lhe Franz. - Toda a
aristocracia estar em casa do duque, e se a sua bela
desconhecida pertence de facto  aristocracia, no poder
dispensar-se de comparecer.

- Comparea ou no, mantenho a minha opinio acerca dela -
redarguiu Albert. - No leu o bilhete?

- Li.

- Conhece a pobre educao que recebem em Itlia as mulheres
do mezzo cito?

chama-se assim  burguesia.

- Conheo - tornou a responder Franz

- Ento, releia o bilhete, examine a letra e descubra-me um
erro de lngua ou de ortografia.

Com efeito, a letra era encantadora e a ortografia impecvel

- Voc  um predestinado - disse Franz a Albert,
restituindo-lhe o bilhete pela segunda vez.

- Ria  vontade e graceje o que lhe apetecer - declarou
Albert. - Estou apaixonado.

- Oh, meu Deus, assusta-me! - exclamou Franz. - E vejo que no
s irei sozinho ao baile do duque de Bracciano, como ainda
poderei muito bem regressar sozinho a Florena.

- A verdade  que se a minha desconhecida for to amvel como
 bela, declaro-lhe que me fixo em Roma durante pelo menos
seis semanas Adoro Roma e alm disso sempre tive uma
predileco acentuada pela arqueologia.

- Vamos, mais um encontro ou dois como esse e no desespero de
o ver membro da Academia de Inscries e Belas-Letras.

Albert preparava-se sem dvida para discutir seriamente os
seus direitos  cadeira acadmica, mas vieram anunciar aos
dois jovens que o jantar estava servido. Ora, em Albert o amor
no era de modo algum contrrio ao apetite. Apressou-se pois,
assim como o amigo, a sentar-se  mesa, resolvido a retomar a
discusso depois do jantar.

Mas depois do jantar anunciaram-lhes o conde de Monte-cristo.
Havia dois dias que os jovens o no viam. Mestre Pastrini
dissera-lhes que um negcio o  chamara a Civita-Vecchia.
Partira na vspera  noite e regressara havia apenas uma hora.

O conde foi encantador. Quer porque se contivesse, quer porque
a ocasio no despertasse nele as fibras acrimoniosas que
certas circunstncias tinham j feito vibrar duas ou trs
vezes e o haviam levado a proferir palavras amargas; a verdade
 que foi pouco mais ou menos como toda a gente. Aquele homem
constitua para Franz um autntico enigma. O conde no podia
duvidar de que o jovem viajante o reconhecera. E no entanto
nem uma s palavra desde o seu novo encontro parecia indicar
na sua boca que se recordava de o ter visto noutro stio. Pela
sua parte, ainda que Franz desejasse aludir ao seu primeiro
encontro, continha-o o receio de ser desagradvel para com um
homem que o cumulara, a si e ao amigo, de atenes. Continuou
portanto a manter a mesma reserva que ele.

o conde soubera que os dois amigos tinham querido comprar um
camarote no Teatro Argentina e lhos haviam respondido que
estava tudo vendido.

Trazia-lhes por isso a chave do seu. Pelo menos era esse o
motivo aparente da sua visita.

Franz e Albert fizeram-se um bocadinho rogados, alegando o
receio de o privarem do camarote. Mas o conde respondeu-lhes
que como ia naquela noite ao Teatro Palli, o seu camarote no
Teatro Argentina se perderia se eles o no aproveitassem.

Este tacto determinou os dois amigos a aceitarem.

Franz habituara-se pouco a pouco  palidez do conde, que tanto
o impressionara da primeira vez que o vira. No podia deixar
de prestar justia  beleza da sua cara severa, cuja palidez
constitua o seu nico defeito ou talvez a sua principal
qualidade. Autntico heri de Byron, Franz no podia, no
diremos v-lo, mas apenas pensar nele, sem imaginar aquele
rosto plido e sombrio sobre os ombros de Manfredo ou sob o
barrete de Lara. Tinha na testa essa ruga que indica a
presena incessante de um pensamento amargo; possua uns olhos
ardentes que penetravam at s profundezas das almas, e nem
sequer lhe faltava, para completar o quadro, os lbios
orgulhosos e zombeteiros que do s palavras que preferem o
caracter especial que as leva a gravarem-se profundamente na
memria daqueles que as escutam.

O conde j no era novo. Tinha pelo menos quarenta anos e no
entanto adivinhava-se sem custo que estava preparado para
levar a melhor ao jovem com quem deparasse. Na realidade, numa
derradeira semelhana com os heris fantsticos do poeta
ingls, o conde parecia possuir o dom da fascinao.

Albert no se cansava de salientar a sorte que ele e Franz
tinham tido em encontrar semelhante homem. Franz era menos
entusiasta, mas mesmo assim sofria a influncia que exerce
qualquer homem superior no esprito daqueles que o rodeiam.

Pensava no projecto de ir a Paris que j por duas ou trs
vezes o conde manifestara e no duvidava que com o seu
caracter excntrico, o seu rosto caracterstico e a sua
fortuna colossal o conde produziria o maior efeito.

E contudo no desejaria encontrar-se em Paris quando ele l
fosse.

A noite passou-se como se passam habitualmente as noites no
teatro em Itlia, no a escutar os cantores, mas sim a fazer
visitas e a conversar. A condessa C... queria reatar a
conversa sobre o conde, mas Franz anunciou-lhe que  tinha
coisa muito mais recente a comunicar-lhe e, apesar das
demonstraes de falsa modstia a que se entregou Albert,
contou  condessa o grande acontecimento que havia trs dias
era objecto das preocupaes dos dois amigos.

Como tais namoros no so raros em Itlia, pelo menos a julgar
pelo que dizem os viajantes, a condessa no se mostrou nada
incrdula e felicitou Albert pelas primcias de uma aventura
que prometia terminar de forma to satisfatria.
Separaram-se prometendo reencontrar-se no baile do duque de
Bracciano, para o qual Roma em peso fora convidada.

A dama do ramo cumpriu a sua promessa: nem no dia seguinte nem
no outro deu a Albert sinal de existncia.

Chegou por fim tera-feira, o ltimo e o mais ruidoso dos dias
de Carnaval. Na tera-feira os teatros abrem s dez horas da
manh, porque depois das oito horas da noite entra-se na
Quaresma. Na tera-feira, todos aqueles que por falta de
tempo, de dinheiro ou de entusiasmo ainda no participaram nas
festas anteriores, juntam-se  bacanal, deixam-se arrastar
pela orgia e contribuem com a sua parte de barulho e movimento
para o movimento e o barulho gerais.

Das duas s cinco horas, Franz e Albert seguiram no cortejo,
trocando punhados de confetti com as carruagens da fila
oposta e os pees que circulavam entre as patas dos cavalos e
as rodas das carruagens sem que acontecesse no meio de to
medonha barafunda um nico acidente, uma nica disputa, uma
nica rixa. Nestas coisas, no h nenhum povo como o italiano.
As festas so para ele verdadeiras festas. O autor desta
histria, que residiu na Itlia cinco ou seis anos, no se
recorda de ter visto alguma vez uma solenidade perturbada por
um s desses acontecimentos que servem sempre de corolrio s
nossas.

Albert triunfava no seu traje de palhao. Tinha no ombro um
lao de fita cor-de-rosa cujas pontas lhe caam at s curvas
das pernas Para no haver qualquer confuso entre ele e Franz,
este conservara o seu traje de campons romano.

Quanto mais o dia avanava, maior era o tumulto. No havia em
todas aquelas ruas, em todas aquelas carruagens, em todas
aquelas janelas uma boca que se mantivesse calada, um brao
que se conservasse ocioso. Era verdadeiramente uma tempestade
humana, composta por uma trovoada de gritos e uma saraivada de
confeitos, flores, ovos, laranjas e ramos.

s trs horas, o barulho de foguetes lanados simultaneamente
da Praa do Povo e do Palcio de Veneza sobreps-se com
dificuldade ao tumulto ensurdecedor e anunciou que as corridas
iam comear.

As corridas, como os moccolli, so um dos episdios
caractersticos dos ltimos dias de Carnaval Ao soar o
estrpito dos foguetes, as carruagens romperam imediatamente
as fileiras e refugiaram-se nas ruas transversais mais
prximas do stio onde se encontravam.

Todas estas evolues se efectuam, de resto, com inconcebvel
percia e maravilhosa rapidez, e isso sem que a Polcia se d
ao menor incmodo de indicar a cada um o seu lugar ou de
traar a cada um o seu caminho.

Os pees encontraram-se s paredes dos palcios e em seguida
ouviu-se um grande barulho de cavalos e bainhas de sabre.

Um esquadro de carabineiros a quinze de frente percorria a
galope e a toda a largura a rua do Corso, que varria para
abrir lugar aos barberi. Quando o esquadro chegou ao
Palcio de Veneza, o rebentamento doutra girndola de foguetes
anunciou que a rua estava livre.

 Quase imediatamente, no meio de um clamor imenso, universal,
inaudito, viram-se passar como sombras sete ou oito cavalos
excitados pelos clamores de trezentas mil pessoas e pelas
castanhas de ferro que lhes saltavam no dorso. Depois, o
canho do Castelo de Santo ngelo disparou trs tiros. Estes
destinavam-se a anunciar que o nmero trs ganhara.

Acto contnuo, sem outro sinal alm daquele, as carruagens
puseram-se de novo em movimento e refluram, para o Corso,
transbordando de todas as ruas como torrentes por instantes
contidas que se lanam ao mesmo tempo no leito do rio que
alimentam, e a vaga imensa recomeou, mais rpida do que
nunca, o seu curso entre as duas margens de granito.

Apenas um novo elemento de barulho e movimento se viera ainda
juntar  multido: os vendedores de moccoli acabavam de
entrar em cena.

Os maccolli ou moccoletti so velas que variam de tamanho,
desde o crio pascal at ao rolo de pavio, e que provocam nos
actores da grande representao com que termina o Carnaval
romano duas preocupaes opostas:

1.a A de conservar aceso o seu mocoletto;

2.a A de apagar o moccoletto dos outros.

Passa-se com o moccoletto o mesmo que com a vida: o homem
ainda s encontrou um meio de a transmitir, e esse meio
recebe-o de Deus.

Mas descobriu mil meios de a tirar, e a verdade  que nessa
operao suprema o Diabo o tem ajudado um bocadinho.

O moccoletto acende-se chegando-se a uma chama qualquer.

Mas como descrever as mil maneiras inventadas para apagar o
moccoletto, os foles gigantescos, os apagadores monstros, os
leques sobre-humanos?

Toda a gente se apressou a comprar moccoletti, Franz e
Albert como os outros.

A noite aproximava-se rapidamente, e em breve, ao grito de
"Moccoli!" repetidos pelas vozes estridentes de um milhar
de vendedores, duas ou trs estrelas comearam a brilhar por
cima da multido. Foi como que um sinal.

Ao cabo de dez minutos, cinquenta mil luzes cintilaram,
descendo o Palcio de Veneza para a Praa do Povo e subindo da
Praa do Povo para o Palcio de Veneza.
Dir-se-ia a festa dos fogos-ftuos.

No se pode fazer ideia do aspecto de conjunto; s visto.

Suponha o leitor que todas as estrelas se desprendiam do cu e
se juntavam na Terra numa dana insensata, tudo acompanhado de
gritos como nunca ouvido humano escutou no resto da superfcie
do Globo.

E sobretudo nesse momento que desaparecem as diferenas
sociais. O facchino mistura-se com o prncipe, o prncipe
com o trastevere e o trastevere com o burgus, todos
soprando, apagando e reacendendo. Se o velho olo aparecesse
em semelhante altura, seria proclamado rei dos moccolli, e
Aquilo, herdeiro presuntivo da coroa.

Esta corrida louca e resplandecente durou aproximadamente duas
horas. A rua do Corso estava iluminada como em pleno dia.
Distinguiam-se as feies dos espectadores at ao terceiro e
quarto andares.

Albert puxava do relgio de cinco em cinco minutos. Por fim,
os ponteiros marcaram as sete horas.

Os dois amigos encontravam-se precisamente nas imediaes da
Via dei Pontefich Albert saltou da calea com o seu
moccoletto na mo.

Dois ou trs mascarados quiseram aproximar-se dele para lho
apagarem ou tirarem; mas como hbil pugilista que era, Albert
f-los rolar um aps outro a dez passos de distncia e
continuou o seu caminho para a Igreja de San-giacomo

Os degraus estavam cheios de curiosos e de mscaras que
lutavam para ver quem arrancaria as velas das mos uns dos
outros. Franz seguia Albert com a vista e viu-o pr o p no
primeiro degrau. Depois, quase imediatamente, uma mascara com
O traje bem conhecido da camponesa do ramo estendeu o brao e,
sem que desta vez ele oferecesse qualquer resistncia,
tirou-lhe o moccoletto.

Franz estava demasiado longe para ouvir as palavras que
trocaram; mas sem dvida no tiveram nada de hostil, pois viu
afastar-se Albert e a camponesa de brao dado.

Durante algum tempo seguiu-os no meio da multido, mas na Via
Macello perdeu-os de vista

De sbito, soou o toque do sino que d o sinal do encerramento
do Carnaval. no mesmo instante, todos os moccoli se
apagaram como que por encanto. Dir-se-ia que uma nica e
imensa lufada de vento aniquilara tudo.

Franz encontrou-se no meio da escurido mais profunda

Ao mesmo tempo, todos os gritos cessaram, como se o sopro
poderoso que extinguira as luzes tivesse extinguido ao mesmo
tempo os rudos.

Ouviu-se apenas o rodar das carruagens que reconduziam as
mscaras a suas casas e viram-se unicamente as raras luzes que
brilhavam atrs das janelas.

O Carnaval terminara.

Captulo XXXVII

As Catacumbas de S. Sebastio


Franz talvez nunca tivesse experimentado na sua vida uma
impresso to ntida, uma passagem to rpida da alegria 
tristeza, como naquele momento. Dir-se-ia que Roma, sob o
sopro mgico de algum demnio da noite, acabava de se
transformar num vasto tmulo Por um caso que aumentava ainda
mais a intensidade das trevas, a Lua, que estava em quarto
minguante, s devia aparecer por volta das onze horas da
noite. As ruas que o jovem percorria estavam portanto
mergulhadas na mais profunda escurido. De resto, o trajecto
era curto. Ao cabo de dez minutos a sua carruagem, ou antes, a
do conde, parou diante do Hotel de Espanha.

O jantar esperava; mas como Albert prevenira de que no
contava regressar to cedo, Franz sentou-se  mesa sem ele.
Mestre Pastrini, que estava habituado a v-los jantar juntos,
perguntou o motivo da sua ausncia; mas Franz limitou-se a
responder que Albert recebera na antevspera um convite que
aceitara. A extino sbita dos moccoletti, a escurido que
substitura a luz, o silncio que sucedera ao barulho, tinham
deixado no esprito de Franz uma certa tristeza que no estava
isenta de  inquietao. Jantou portanto muito
silenciosamente, apesar da solicitude oficiosa do seu
hospedeiro, que entrou duas ou trs vezes para perguntar se
no precisava de nada.

Franz estava resolvido a esperar Albert at o mais tarde
possvel Pediu pois a carruagem apenas para as onze horas e
solicitou a mestre Pastrini que o mandasse prevenir
imediatamente se Albert voltasse ao hotel, fosse qual fosse o
motivo. As onze horas, Albert ainda no regressara Franz
vestiu-se e saiu, depois de prevenir o hoteleiro de que
passava a noite em casa do duque de Bracciano.

A casa do duque de Bracciano,  uma das mais encantadoras casa
de Roma, e sua mulher, umas das ltimas herdeiras dos Colona,
faz-lhe as honras na perfeio. Resulta da que as festas que
ele d gozam de celebridade europeia. Franz e Albert tinham
chegado a Roma com cartas de recomendao para ele. Por isso
as primeiras palavras do duque foram para perguntar a Franz o
que era feito do seu companheiro de viagem. Franz
respondeu-lhe que se tinham separado no momento em que se iam
apagar os moccoli e que o perdera de vista na Via Macello.

- E ainda no regressou? - perguntou o duque.

- Esperei-o at agora - respondeu Franz.

- Sabe aonde ia?

- No, exactamente. Creio porm que se tratava de qualquer
coisa como uma entrevista amorosa

- Diabo - disse o duque --,  mau dia, ou antes,  m noite
para uma pessoa se demorar l por fora! No  verdade, Sr.a
Condessa?

Estas ltimas palavras dirigiam-se  condessa G.... que
acabava de chegar e passeava pelo brao do Sr. Torlonia, irmo
do duque.

- Acho, pelo contrrio, que se trata de uma noite encantadora
- respondeu a condessa. - Aqueles que esto aqui s se
queixaro de uma coisa: de que passar demasiado depressa.

- Por isso - redarguiu o duque, sorrindo --, no me refiro s
pessoas que esto aqui. Essas s correm um perigo: os homens,
o de se apaixonarem pela senhora; as mulheres de adoecerem de
inveja ao verem-na to bela. Refiro-me s pessoas que andam
pelas ruas de Roma.

- Meu Deus - perguntou a condessa --, quem anda pelas ruas de
Roma a estas horas, a no ser que seja para ir ao baile?

- O nosso amigo Albert de Morcerf, Sr.a Condessa, que deixei
atrs da sua desconhecida por volta das sete horas da noite -
respondeu Franz - e que desde ento nunca mais vi.

- Como, e no sabe onde est?

- No fao a mais pequena ideia.

- Est armado?

- Foi vestido de palhao.

- No o devia ter deixado ir - disse o duque a Franz - pois
conhece Roma melhor do que ele.

- Pois sim, mas seria o mesmo que tentar deter o nmero trs
dos barberi, que hoje ganhou a corrida - respondeu Franz. -
De resto, que lhe poderia acontecer?

- Sei l! A noite est muito escura e o Tibre fica muito perto
da Via Macello. Franz sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo
ao ver o duque e a condessa to de acordo com as suas
inquietaes pessoais.

- Por isso deixei recado no hotel de que tinha a honra de
passar a noite em sua casa, Sr. Duque - disse Franz --, para
me virem anunciar o seu regresso.

- Olhe - atalhou o duque --, creio precisamente que um dos
meus criados anda  sua procura.

O duque no se enganava Ao ver Franz, o criado aproximou-se
dele.

- Excelncia - disse --, o dono do Hotel de Espanha manda
dizer-vos que est l  vossa espera um homem com uma carta do
visconde de Morcerf.

- Com uma carta do visconde?! - exclamou Franz.

- Exactamente.

- E quem  esse homem?

- Ignoro-o

- Porque no veio trazer-ma aqui?

- O mensageiro no me deu nenhuma explicao.

- E onde est o mensageiro?

- Foi-se embora assim que me viu entrar na sala do baile para
vos prevenir. - Oh, meu Deus, v depressa - rogou a condessa a
Franz. - Pobre rapaz, foi capaz de ter algum acidente.

- Vou imediatamente - respondeu Franz.

- Voltar, para nos dar notcias? - perguntou a condessa.

- Voltarei, se o caso no for grave. De contrrio, no sei o
que ser de mim prprio.

- Em todo o caso, prudncia - recomendou a condessa.

- Oh, esteja tranquila!

Franz pediu o chapu e partiu a toda a pressa. Mandara embora
a carruagem e ordenara ao cocheiro que o viesse buscar s duas
horas, mas, por sorte, o Palcio Bracciano, que d por um lado
para a rua do Corso e por outro para a Praa dos Santos
Apstolos, fica apenas a dez minutos a p do Hotel de Espanha.
Ao aproximar-se do hotel, Franz viu um homem de p no meio da
rua e no duvidou um s instante que fosse o mensageiro de
Albert. O homem estava envolto numa grande capa. Foi ao seu
encontro, mas com grande espanto de Franz, o homem foi o
primeiro a dirigir-lhe a palavra.

- Que quer de mim, Excelncia? - perguntou dando um passo
atrs, como um homem que se pe em guarda.

- No  o senhor que me traz uma carta do visconde de Morcerf?
- perguntou Franz.

- Vossa Excelncia est hospedado no hotel de Pastrini?

- Estou.

- E Vossa Excelncia  o companheiro de viagem do visconde? -
sou.

- Como se chama Vossa Excelncia?

- Baro Franz de Epinay.

- Ento  de facto a Vossa Excelncia que esta carta 
dirigida.

- Tem resposta? - perguntou Franz, tirando-lhe a carta da mo.

- Tem. Pelo menos o seu amigo espera-a.

- Venha ao meu quarto para lha dar.

- Prefiro esper-la aqui - replicou, rindo, o mensageiro.

- Porqu?

- Vossa Excelncia compreender porqu quando ler a carta.

- E encontr-lo-ei aqui?

- Sem dvida nenhuma.

Franz entrou. Na escada encontrou mestre Pastrini

- Ento? - perguntou-lhe o hoteleiro.

- Ento o qu? - respondeu Franz.

- Viu o homem que desejava falar-lhe da parte do seu amigo? -
inquiriu Pastrini

- Vi, sim, e entregou-me esta carta - respondeu Franz. - Mande
alumiar-me at ao quarto, por favor.

O hoteleiro ordenou a um criado que precedesse Franz com uma
vela O jovem notara em mestre Pastrini um ar assustado, ar que
s contribura para aumentar o seu desejo de ler a carta de
Albert. Por isso, aproximou-se da vela assim que ela foi acesa
e desdobrou o papel. A carta fora escrita pelo punho de Albert
e estava assinada por ele. Franz releu-a duas vezes, de tal
forma estava longe de esperar o que continha Ei-la reproduzida
textualmente:

Caro amigo. Assim que receber a presente, faa favor de tirar
da minha carteira, que encontrar na gaveta quadrada da minha
escrivaninha a minha carta de crdito. Junte-lhe a sua se ela
no for suficiente. Corra a casa de Torlonia, levante
imediatamente quatro mil piastras e entregue-as ao portador.
 urgente que esta importncia me seja enviada sem qualquer
demora.

No insisto mais, mas conto consigo como voc poderia contar
comigo.

P.S. - I believe now to italian banditti. (1)

Seu amigo,

ALBERT DE MORCERF

Por baixo destas linhas estavam escritas por mo desconhecida
estas poucas palavras em italiano:

Se alle sei della mattina le quattro mile piastre non sono
nelle mie mani, alla sette il conte Alberto avia cessato di
vivere (2).

LUIGI VAMPA

Esta segunda assinatura explicou tudo a Franz, que compreendeu
a repugnncia do mensageiro em subir ao seu quarto. A rua
parecia-lhe mais segura do que os aposentos de Franz. Albert
cara nas mos do famoso chefe de bandidos, em cuja existncia
durante muito tempo se recusara a acreditar.

(1) "Agora acredito em bandidos italianos." (N. do T.)
(2) "Se s seis da manh as quatro mil piastras no estiverem
em meu poder, s sete o conde Alberto deixar de viver." (N.
do T.)

No havia tempo a perder. Correu  escrivaninha, abriu a
gaveta indicada, tirou a carteira e desta a carta de crdito.
A carta fora emitida pelo total de seis mil piastras, mas
destas seis mil piastras Albert levantara j trs mil. Quanto
a Franz, no tinha nenhuma carta de crdito. Como residia em
Florena e viera a Roma para passar apenas sete ou oito dias,
trouxera uma centena de luses, e desses cem luses
restavam-lhe quando muito cinquenta.

Faltavam portanto setecentas a oitocentas piastras para que os
dois, Franz e Albert, pudessem reunir a importncia exigida.
Claro que num caso assim Franz podia contar com a amabilidade
do Sr. Torlonia.

Preparava-se pois para regressar ao Palcio Bracciano sem
perda de um instante quando de sbito uma ideia luminosa lhe
atravessou o esprito.

Lembrou-se do conde de Monte-cristo. Franz ia mandar chamar
mestre Pastrini quando o viu aparecer em pessoa  entrada da
porta.

- Meu caro Sr. Paslrini - disse-lhe vivamente acha que o conde
estar nos seus aposentos?

- Est sim, Excelncia. Acaba de entrar.

- J ter tido tempo de se deitar?

- Duvido.

- Ento, toque-lhe  porta, peo-lhe, e rogue-lhe que me
receba.

Mestre Pastrini apressou-se a cumprir as instrues que lhe
davam. Cinco, minutos depois estava de volta.

- O conde espera Vossa Excelncia - disse.

Franz atravessou o patamar e um criado introduziu-o junto do
conde. Este encontrava-se num gabinetezinho que Franz ainda
no vira e que estava rodeado de divs. O conde veio ao seu
encontro.

- Que bom vento o traz por c a esta hora? - perguntou. - Vir
por acaso pedir-me de cear? Seria muita amabilidade da sua
parte.

- No, venho falar-lhe de um assunto grave.

- De que assunto? - perguntou o conde, fitando Franz com o
profundo que lhe era habitual.

- Estamos ss?

O conde foi at  porta e voltou.

- Perfeitamente ss - disse.

Franz apresentou-lhe a carta de Albert.

- Leia - pediu-lhe.

O conde leu a carta.

- Ah, ah! .. - exclamou.

- Leu tambm o post-scriptum?

- Li. Bem vejo:

Se alle sei della mattina le quattro mile piastre non sono
nelle mie mani, alla sette il conte Alberto avia cessato di
vivere.

LUIGI VAMPA

- Que diz a isso? - perguntou Franz.

- Tem a importncia que lhe pedem?

- Tenho, menos oitocentas piastras.

O conde dirigiu-se  sua escrivaninha, abriu-a e puxou uma
gaveta cheia de ouro:

- Espero - disse a Franz - que me no faa a injria de se
dirigir a outro em vez de a mim.

- Bem v que, pelo contrrio, vim direito ao senhor -
respondeu Franz.

- Agradeo-lhe. Tome.

E fez sinal a Franz para que se servisse do dinheiro que
estava
na gaveta.

-  de facto necessrio mandar essa importncia a Luigi Vampa?
- perguntou o rapaz, olhando por seu turno fixamente para o
conde.

- Demnio! - exclamou este. - Julgue por si mesmo. O
post-scriptum  claro.

- Parece-me que se o senhor se desse ao incmodo de procurar,
encontraria algum meio capaz de simplificar muito a negociao
- observou Franz.

- Qual? - perguntou o conde, atnito.

- Por exemplo, se fssemos procurar Luigi Vampa juntos, estou
certo de que no nos recusaria a libertao de Albert.

- A mim? Que influncia julga que tenho sobre esse bandido?

- No acaba de lhe prestar um desses servios que se no
esquecem?

- Qual?

- No acaba de salvar a vida a Peppino?

- Ah, ah! .. Quem lhe disse isso?

- Que importa? Sei-o

O conde ficou um instante calado e de sobrolho franzido.

- Se eu fosse procurar Vampa acompanhar-me-ia?

- Se a minha, companhia lhe no for muito desagradvel.

- Pois seja. O tempo est bom e um passeio pelos campos de
Roma s nos pode fazer bem.

- E preciso levar armas?

- Para qu?

- Dinheiro?

-  intil. Onde est o homem que trouxe esse bilhete?

- Na rua.

- Espera a resposta?

- Espera.

- Precisamos de saber mais ou menos aonde vamos. Vou cham-lo.

- Intil, ele no quis subir.

- Ao seu quarto, talvez; mas ao meu, no levantar obstculos.

O conde foi  janela do gabinete, que dava para a rua, e
assobiou de certa forma. O homem da capa afastou-se da parede
e avanou at ao meio da rua.

- Salite! - disse o conde, no tom em que daria uma ordem a
um criado.

O mensageiro obedeceu sem demora nem hesitao, com pressa
at, galgou os quatro degraus do prtico e entrou no hotel.
Cinco segundos depois estava  porta do gabinete.

- Ah, s tu, Peppino! - disse o conde.

Mas Pepino, em vez de responder, caiu de joelhos, pegou na mo
do conde e beijou-a repetidas vezes.

- Ah, ah! - exclamou o conde. - Ainda no esqueceste que te
salvei a vida.  estranho, pois j l vo oito dias.

- No, Excelncia, e nunca o esquecerei - respondeu Peppino em
tom de profundo reconhecimento.

- Nunca  muito tempo! Mas enfim j  muito que o acredites.
Levanta-te e responde.

Peppino deitou uma olhadela inquieta a Franz.

- Oh, podes falar diante de Sua Excelncia! - tranquilizou-o o
conde. -  um dos meus amigos.

- Permite-me que lhe d este ttulo, no  verdade? -
perguntou o conde em francs, virando-se para Franz. - 
necessrio para conquistar a confiana deste homem.

- Pode falar diante de mim - declarou Franz. - Sou um amigo do
conde.

- Ainda bem - disse Peppino, virando-se por seu turno para o
conde. - Interrogue-me, Excelncia, e responderei.

- Como foi que o visconde Albert caiu nas mos de Luigi?

- Excelncia, a calea do francs cruzou-se vrias vezes com a
de Teresa.

- A amante do chefe?

- Sim. O francs fez-lhe olhos ternos e Teresa divertiu-se a
corresponder-lhe. O francs deitou-lhe flores e ela
retribuiu-lhe. Tudo isto, evidentemente, com o consentimento
do chefe, que ia na mesma calea.

- Como, Luigi Vampa estava na calea das camponesas romanas?!
- exclamou Franz.

- Era ele quem a conduzia, mascarado de cocheiro - respondeu
Peppino.

- Depois? - perguntou o conde.

- Bom, depois o francs tirou a mscara, e Teresa, sempre com
o consentimento do chefe, fez o mesmo. O francs pediu uma
entrevista e Teresa concedeu-lha. Simplesmente, em vez de
Teresa, foi Beppo quem ele encontrou nos degraus da Igreja de
San-Giacomo.

- Como - interrompeu-o novamente Franz --, aquela camponesa
que lhe tirou o moccoletto?...

- Era um rapaz de quinze anos - respondeu Peppino. - Mas o seu
amigo no tem de se envergonhar por ter sido apanhado, Beppo
tem apanhado muitos outros.

- E Beppo levou-o para fora das muralhas? - Perguntou o conde.

- Exactamente. Uma calea esperava-o ao fundo da Via Macello.
Beppo meteu-se nela e convidou o francs a subir.
Ele no esperou que o convidassem duas vezes. Ofereceu
galantemente a direita a Beppo e sentou-se a seu lado. Beppo
anunciou-lhe ento que ia conduzi-lo a uma vivenda situada a
uma lgua de Roma. O francs garantiu a Beppo que estava
pronto a segui-lo at ao fim do mundo. O cocheiro subiu
imediatamente a Rua da Ripetta e alcanou a Porta de S. Paulo.
A duzentos passos no campo, como o francs se mostrasse
demasiado atrevido Beppo encostou-lhe um par de pistolas 
garganta. Acto contnuo, o cocheiro deteve os cavalos,
virou-se no seu lugar e fez outro tanto. Ao mesmo tempo,
quatro dos nossos que estavam escondidos nas margens do Almo
correram para as portinholas. O francs bem queria
defender-se, at ia estrangulando Beppo, segundo ouvi dizer,
mas no podia fazer nada contra cinco homens armados. Teve de
se render. Mandaram-no descer da carruagem, levaram-no pela
margem do ribeiro e conduziram-no  presena de Teresa e de
Luigi, que o esperavam nas catacumbas de S. Sebastio.


- Bom - disse o conde, virando-se para Franz --, trata-se: de
uma histria como outra qualquer. Que diz o senhor, que  mais
versado do que eu nessas coisas?

- Digo que acharia a histria deveras divertida - respondeu
Franz - se tivesse acontecido a outro em vez de ao pobre
Albert.

- A verdade declarou o conde -  que se o senhor no me
tivesse encontrado no hotel a aventura custaria um bocadinho
cara ao seu amigo. Mas tranquilize-se, tudo quanto lhe custar
ser um pouco de medo.

- Sempre vamos busc-lo? - perguntou Franz.

- Decerto, tanto mais que se encontra num stio deveras
pitoresco. Conhece as catacumbas de S. Sebastio?

- No, nunca l fui, mas tencionava l ir um dia.

- Pois aproveite a oportunidade. Seria difcil encontrar outra
melhor. Tem a sua carruagem?

- No.

- No tem importncia. Costumo ter uma atrelada dia e noite.

- Completamente atrelada?

- Sim. Sou um homem muito caprichoso. Confesso-lhe que s
vezes me levanto, no fim de jantar ou a meio da noite, e
apetece-me partir para qualquer parte do mundo e parto.

O conde tocou a campainha e entrou o seu criado de quarto.

- Mande sair a carruagem da cocheira - ordenou - e veja se as
pistolas esto nas bolsas.  intil acordar o cocheiro,
Ali conduzir.

Pouco depois ouviu-se o rudo da carruagem, que parava diante
da porta.

O conde puxou do relgio.

- Meia-noite e meia hora - disse. - Se partssemos daqui s
cinco horas da manh ainda chegvamos a tempo, mas talvez a
demora fizesse passar uma m noite ao seu companheiro. 
melhor portanto correr a arranc-lo das mos dos infiis.
Continua decidido a acompanhar-me?

- Mais do que nunca.

- Ento, venha.

Franz e o conde saram, seguidos de Peppino

Encontraram a carruagem  porta. Ali ocupava o lugar do
cocheiro. Franz reconheceu o escravo mudo da gruta de
Monte-cristo.

Franz e o conde subiram para a carruagem, que era um cup.
Peppino sentou-se ao lado de Ali e partiram a galope. Ali
recebera as suas instrues antecipadamente, pois meteu pela
rua do Corso, atravessou o Campo Vaccino, subiu a Estrada de
S. Gregrio e chegou  Porta de S Sebastio. A, o porteiro
tentou levantar algumas dificuldades, mas o conde de
Monte-cristo apresentou uma autorizao do governador de Roma
para entrar na cidade e sair a toda a hora do dia ou da noite.
A barreira foi portanto levantada, o porteiro recebeu um lus
pelo trabalho e passaram.

A estrada que a carruagem seguia era a antiga Via pia, toda
ladeada de tmulos. De vez em quando, ao luar que comeava a
brilhar, parecia a Franz ver como que uma sentinela
destacar-se de uma runa Mas imediatamente, a um sinal trocado
entre Peppino e a sentinela, esta reentrava na sombra e
desaparecia.

Um pouco antes do Circo de Caracala, a carruagem parou,
Peppino veio abrir a portinhola e o conde e Franz
desceram.

- Dentro de dez minutos chegaremos - disse o conde ao
companheiro.

Depois chamou Peppino  parte, deu-lhe uma ordem em voz baixa
e Peppino partiu depois de se munir de um archote que tirou da
caixa do cup.

Passaram-se mais cinco minutos, durante os quais Franz viu o
pastor meter por um carreirinho no meio das ondulaes do
terreno que formam o solo revolvido da plancie de Roma e
desaparecer no meio das altas ervas avermelhadas que parecem a
juba eriada de algum leo gigantesco

- Agora, sigamo-lo - disse o conde.

Franz e o conde penetraram por seu turno no mesmo carreiro,
que ao fim de cem passos os conduziu por uma vertente ngreme
ao fundo de um valezinho.

No tardaram a ver dois homens a conversar na sombra

- Devemos continuar a avanar ou esperar? - perguntou Franz ao
conde.

- Caminhemos. Peppino deve ter prevenido a sentinela da nossa
chegada.

Com efeito, um dos homens era Peppino e o outro um bandido
colocado em guarda avanada.

Franz e o conde aproximaram-se. O bandido cumprimentou-os.

- Excelncia - disse Peppino, dirigindo-se ao conde --, se
quiser fazer o favor de me acompanhar, a abertura das
catacumbas fica a dois passos daqui.

- Est bem - concordou o conde. - V  frente.

Com efeito, atrs de um macio de silvas e no meio de algumas
rochas via-se uma abertura pela qual mal cabia um homem.

Peppino foi o primeiro a esgueirar-se atravs da fenda. Mas
mal se davam alguns passos a passagem subterrnea alargava
Ento, deteve-se, acendeu o archote e virou-se para ver se o
seguiam.

O conde fora o primeiro a penetrar naquela espcie de
respiradouro; Franz vinha atrs dele.

O terreno descia suavemente e alargava-se  medida que
avanavam. No entanto, Franz e o conde eram ainda obrigados a
caminhar curvados e com dificuldade passariam a par.
Percorreram ainda cento e cinquenta passos assim e depois
foram detidos pelo grito de "Quem vem l?"

Ao mesmo tempo, viram no meio da escurido brilhar no cano de
uma carabina o reflexo do seu prprio archote.

- Ami! - respondeu Peppino.

Avanou sozinho e disse algumas palavras em voz baixa 
segunda sentinela que, como a primeira, cumprimentou e fez
sinal aos visitantes nocturnos que podiam continuar o seu
caminho.

Atrs da sentinela ficava uma escada de uns vinte degraus.
Franz e o conde desceram-nos e encontraram-se numa espcie de
cruzamento morturio do qual divergiam cinco caminhos, como os
raios de uma estrela. As paredes, cobertas de nichos
sobrepostos com a forma de tmulos, indicavam que se entrara
finalmente nas catacumbas.

Numa das cavidades, cuja extenso era impossvel distinguir,
viam-se de dia alguns raios de luz.

O conde pousou a mo no ombro de Franz.

- Quer ver um acampamento de bandidos em repouso? -
perguntou-lhe.

- Certamente - respondeu Franz.

- Ento, venha comigo... Peppino, apague o archote.

Peppino obedeceu e Franz e o conde encontraram-se mergulhados
na mais profunda escurido. Apenas cerca de cinquenta passos
adiante deles continuaram a danar ao longo das paredes alguns
clares avermelhados, mais visveis desde que Peppino apagara
o archote.

Avanaram silenciosamente, com o conde a guiar Franz, como se
possusse a singular faculdade de ver nas trevas. Alis, o
prprio Franz distinguia mais facilmente o caminho  medida
que se aproximava dos reflexos que lhe serviam de guias.

Trs arcadas, das quais a do meio servia de porta, deram-lhes
passagem.

As arcadas deitavam de um lado para a galeria onde estavam o
conde e Franz e do outro para uma grande sala quadrada, toda
cercada de nichos idnticos queles a que j nos referimos. No
meio da sala erguiam-se quatro pedras que noutros tempos
tinham servido de altar, como indicava a cruz que ainda as
encimava.

Uma nica lanterna pousada num fuste de coluna iluminava com
uma luz plida e vacilante a estranha cena que se oferecia aos
olhos dos dois visitantes ocultos na sombra.
Um homem estava sentado, com o cotovelo apoiado na coluna, e
lia de costas voltadas para as arcadas, pela abertura das
quais os recm-chegados o observavam.

Era o chefe da quadrilha, Luigi Vampa.

 roda dele, reunidos a seu bel-prazer, deitados nas suas
capas ou encostados a uma espcie de banco de pedra que
rodeava por completo o columbrio, distinguia-se uma vintena
de bandidos. Todos tinham a carabina ao alcance da mo.

Ao fundo, silenciosa, quase invisvel e como se fosse, uma
sombra, uma sentinela passeava de um lado para o outro diante
de uma espcie de abertura que s se distinguia porque as
trevas pareciam mais espessas nesse stio.

Quando o conde achou que Franz j apreciara suficientemente
aquele quadro pitoresco, levou o dedo aos lbios para lhe
recomendar silncio, subiu os trs degraus que levavam da
galeria ao columbrio, entrou na sala pela arcada do meio e
dirigiu-se para Vampa, que estava to profundamente absorto na
leitura que no ouviu o rudo dos seus passos.

- Quem vem l? - gritou a sentinela, maquinalmente, ao ver 
luz da lanterna uma espcie de sombra crescer atrs do chefe.

Ao ouvir este grito, Vampa levantou-se vivamente e tirou ao
mesmo tempo uma pistola da cintura.

Num pice todos os bandidos estavam de p e vinte canos de
carabina visavam o conde.

- Ento - disse este tranquilamente, numa voz cheia de calma,
e sem que um s msculo da sua cara estremecesse --, ento,
meu caro Vampa, parece-me demasiado aparato para receber um
amigo!

- Baixem as armas! - gritou o chefe, fazendo um gesto
imperioso com uma das mos, enquanto com a outra tirava
respeitosamente o chapu.

Depois, virando-se para a singular personagem que dominava
toda a cena:

- Perdo, Sr. Conde, mas estava to longe de esperar a honra
da sua visita que no o reconheci.

- Em todo o caso, parece-me que tem a memria curta, Vampa -
redarguiu o Conde --, pois no s se esquece da cara das
pessoas como tambm das condies estabelecidas com elas.

- Que condies esqueci, Sr conde? - perguntou o bandido, como
um homem que se cometeu um erro s deseja repar-lo.

- No combinmos - disse o conde -- que tanto a minha
pessoa como a dos meus amigos seriam sagradas para si?

-- E em que faltei ao tratado, Excelncia?

- Raptou esta noite e trouxe para aqui o visconde Albert de
Morcerf. Pois bem - prosseguiu o conde num tom que fez
estremecer Franz --, esse jovem  um dos meus amigos, esse
jovem est hospedado no mesmo hotel que eu, esse jovem andou
no Corso durante oito dias na minha prpria calea, e no
entanto, repito-lhe, voc raptou-o, trouxe-o para aqui e -
acrescentou o conde tirando a carta da algibeira - pediu
resgate por ele como se fosse um qualquer.

- Porque no me preveniram disso? - perguntou o chefe,
virando-se para os seus homens, que recuaram todos diante do
seu olhar. - Porque me expuseram assim a faltar  minha
palavra para com um homem como o Sr. Conde, que tem a vida de
todos ns nas suas mos? Pelo, sangue de Cristo, se tivesse a
certeza de que um de vocs sabia que o rapaz era amigo de Sua
Excelncia, estoirava-lhe os miolos por minha prpria mo!

- V? - disse o conde virando-se para Franz. - Bem lhe disse
que havia qualquer equvoco nisto.

- No est sozinho? - perguntou Vampa, com inquietao.

- Estou com a pessoa a quem esta carta foi dirigida e a quem
quis provar que Luigi Vampa  homem de palavra
Aproxime-se, Excelncia - disse a Franz --, aqui est Luigi
Vampa que lhe vai dizer pessoalmente que est arrependido do
erro que acaba de cometer.

Franz aproximou-se. O chefe deu alguns passos ao seu encontro.

- Seja bem-vindo entre ns, Excelncia - cumprimentou. - Ouviu
o que acaba de dizer o conde e o que lhe respondi.
Acrescentarei que no desejaria, pelas quatro mil piastras em
que fixei o resgate do seu amigo, que semelhante coisa tivesse
acontecido.

- Mas onde est o prisioneiro? - perguntou Franz, olhando 
sua volta com inquietao. - No o vejo...

- Espero que no lhe tenha acontecido nada - disse o conde,
franzindo o sobrolho.

- O prisioneiro est ali - informou Vampa, indicando com a mo
o recanto diante do qual passeava o bandido que se encontrava
de sentinela - e eu prprio lhe vou anunciar que est livre.

O chefe dirigiu-se para o local designado por si como sendo o
que servia de priso a Albert e Franz e o conde seguiram-no.

- Que faz o prisioneiro? - perguntou Vampa  sentinela.

- Garanto ao meu capito que no sei - respondeu o
interpelado: - H uma hora que no o ouo mexer-se.

- Venha, Excelncia! - disse Vampa.

O conde e Franz subiram sete ou oito degraus, sempre
precedidos pelo chefe, que correu um ferrolho e empurrou uma
porta.

Ento,  luz de uma lanterna idntica  que iluminava o
columbrio, viram Albert, envolto numa capa que lhe emprestara
um dos bandidos, deitado a um canto e a dormir profundamente.

- Sim, senhor! - exclamou o conde sorrindo com o sorriso que
lhe era peculiar. - Nada mal para um homem que devia ser
fuzilado s sete horas da manh.

Vampa olhava Albert adormecido, com certa admirao. Via-se
que no era insensvel quela prova de coragem.

- Tem razo, Sr Conde - declarou --, este homem deve ser seu
amigo.

Depois, aproximou-se de Albert e tocou-lhe no ombro

- Excelncia! - chamou. - Quer fazer o favor de acordar?

Albert estendeu os braos, esfregou os olhos e abriu-os.

- Ah, ah! - bocejou. -  voc, capito? Demnio, no lhe
custava nada deixar-me dormir Estava a viver um sonho
encantador: sonhava que danava o galope em casa de Torlonia
com a condessa G...!

Puxou do relgio, que conservara, para saber as horas.

- Uma e meia da madrugada! - exclamou. - Mas por que diabo me
acordara a esta hora?

- Para lhe dizer que est livre, Excelncia.

- Meu caro - redarguiu Albert com uma tranquilidade de
esprito perfeita - fixe bem daqui em diante esta mxima de
Napoleo, o Grande: "Acordem-me s se houver ms notcias." Se
me tivesse deixado dormir, terminava o meu galope e
ficar-lhe-ia reconhecido toda a vida... Pagaram o meu resgate?

- No, Excelncia

- Ento como  que estou livre?

- Algum a quem no posso recusar nada veio reclam-lo.

- Aqui?

- Aqui.

- Por Deus, que pessoa to amvel!

Albert olhou  sua volta e viu Franz.

- Como, foi voc, meu caro Franz, que levou a sua dedicao a
este ponto? - perguntou.

- No fui eu - respondeu Franz --, mas sim o nosso vizinho, o
Sr. Conde de Monte-cristo.

- Com a breca, Sr. Conde - disse alegremente Albert,
endireitando a gravata e os punhos --, o senhor  um homem
realmente precioso, e espero que me considere um seu devedor
eternamente grato, primeiro pelo emprstimo da carruagem e
depois por isto! - e estendeu a mo ao conde, que estremeceu
no momento de lhe dar a sua, mas que mesmo assim no lha
recusou.

O bandido olhava toda esta cena com ar estupefacto. Estava
evidentemente habituado a ver os seus prisioneiros tremer
diante dele, mas havia ali um cujo temperamento brincalho no
se alterara absolutamente nada. Quanto a Franz, estava
encantado por Albert ter sustentado, mesmo perante um bandido,
a honra nacional.

- Meu caro Albert - disse-lhe --, se se despachar, ainda
teremos tempo de ir acabar a noite em casa de Torlonia.
Retomar o seu galope no ponto em que o interrompeu, de modo
que no guardar nenhum rancor ao Sr. Luigi, que
em todo este caso se comportou realmente como um cavalheiro.


- Ah, no h dvida que tem razo! - concordou Albert.
- Poderemos l estar antes das duas horas. Sr Luigi -
continuou --, h alguma formalidade a cumprir para se despedir
de Vossa Excelncia?

- Nenhuma, senhor - respondeu o bandido. - Est livre como o
ar.

- Nesse caso, boa e alegre vida. Venham, senhores, venham!

E Albert, seguido de Franz e do conde, desceu a escada e
atravessou a grande sala quadrada. Todos os bandidos estavam
de p e de chapu na mo.

- Peppino - disse o chefe --, d-me o archote.

- Que vai fazer? - perguntou o conde.

- Acompanh-los - respondeu o capito. -  a mais pequena
honra que posso prestar a Vossa Excelncia.

E tomando o archote das mos do pastor, caminhou adiante dos
visitantes, no como um criado que se desempenha de uma tarefa
servil, mas sim como um rei que precede embaixadores.

Chegado  porta, inclinou-se.

- E agora, Sr. Conde - disse --, renovo-lhe as minhas
desculpas e espero que me no guarde qualquer ressentimento
pelo que acaba de acontecer.

- No, meu caro Vampa - respondeu o conde. - De resto, resgata
os seus erros de forma to galante que quase nos sentimos
tentados a agradecer-lhe t-los cometido.

- Meus senhores - prosseguiu o chefe virando-se para os jovens
--, talvez o convite lhes no parea muito atraente, mas se
alguma vez lhes apetecer fazerem-me segunda visita onde quer
que esteja sero bem-vindos.

Franz e Albert cumprimentaram. O conde foi o primeiro a sair e
Albert seguiu-o. Franz ficou para trs.

- Vossa Excelncia tem alguma coisa a pedir-me? - perguntou
Vampa, sorrindo.

- Tenho, confesso - respondeu Franz. - gostaria de saber que
obra lia com tanta ateno quando chegmos.

- Os Comentrios, de Csar - respondeu o bandido.  o meu
livro predilecto.

- Ento, no vem? - perguntou Albert.

- Pronto, aqui estou! - respondeu Franz.

E saiu por seu turno do respiradouro.

Deram alguns passos na plancie.

- Ah, perdo! - exclamou Albert, voltando para trs - D-me
licena, capito?

E acendeu o charuto no archote de Vampa.

- Agora, Sr. Conde, o mais depressa possvel - pediu. - Tenho
uma vontade enorme de ir acabar a noite em casa do duque de
Bracciano.

Encontraram a carruagem onde a tinham deixado. O conde disse
uma nica palavra em rabe a Ali e os cavalos partiram a
galope.

Eram precisamente duas horas no relgio de Albert quando os
dois amigos entraram na sala de dana.

A sua entrada foi um acontecimento. Mas como vinham juntos,
todas as preocupaes que pudessem existir acerca de Albert
cessaram imediatamente

- Minha senhora - disse o visconde de Morcerf dirigindo-se 
condessa --, ontem teve a bondade de me prometer um galope.
Venho um bocadinho tarde  pedir o cumprimento dessa graciosa
promessa, mas est aqui o meu amigo, que  incapaz de mentir
como sabe, que lhe garantir que a culpa no foi minha.

E como neste momento a msica dava o sinal da valsa, Albert
passou o brao  roda da cintura da condessa e desapareceu com
ela no turbilho dos danarinos.

Entretanto, Franz pensava no singular arrepio que percorrera
todo o corpo do conde Monte-cristo no momento em que fora de
certo modo obrigado a dar a mo a Albert.


Captulo XXXVIII

O encontro


No dia seguinte, mal se levantou, as primeiras palavras de
Albert foram para propor a Franz irem visitar o conde. J lhe
agradecera na vspera, mas compreendia que um favor como o que
lhe prestara valia bem dois agradecimentos.

Franz, a quem uma inclinao laivada de terror atraa para o
conde de Monte-Cristo, no o quis deixar ir sozinho aos
aposentos do vizinho e acompanhou-o. Introduziram-nos na sala.
Passados cinco minutos o conde apareceu.

- Sr. Conde - disse-lhe Albert indo ao seu encontro --,
permita-me que lhe repita esta manh o que to mal lhe disse
ontem: que nunca esquecerei as circunstncias em que correu em
meu auxlio e me recordarei sempre que lhe devo a vida ou
quase.

- Meu caro vizinho - respondeu o conde, rindo --, exagera as
suas obrigaes para comigo. Deve-me apenas uma pequena
economia de uns vinte mil francos no seu oramento de viagem e
mais nada. Bem v que no vale a pena falar disso. Pela sua
parte - acrescentou - receba os meus maiores cumprimentos; foi
adorvel de sem-cerimnia e naturalidade.

- Que quer, conde - redarguiu Albert --, imaginei que
provocara uma questo, a que se seguira um duelo, e quis que
esses bandidos compreendessem uma coisa: que os homens se
batem em todos os pases do mundo, mas que s os Franceses se
batem rindo. Contudo, com a minha dvida de gratido para
consigo nem por isso  menor, venho perguntar-lhe se por mim,
pelos meus amigos e pelos conhecimentos lhe poderei ser til
em alguma coisa. Meu pai, o conde de Morcerf, que  de origem
espanhola, tem uma alta posio em Frana e em Espanha. Por
isso, eu e todos aqueles que me estimam estamos ao seu dispor.

- Bom - declarou o conde --, confesso-lhe Sr. de Morcerf, que
esperava a sua oferta e que a aceito de boa vontade. J tinha
pensado em si para lhe pedir um grande favor...

- Qual?

- Nunca fui a Paris! No conheo Paris...

- Deveras?! - exclamou Albert. - Conseguiu viver at agora sem
ver Paris?  incrvel!

- Mas,  verdade. No entanto, sinto como o senhor que um mais
prolongado desconhecimento da capital do mundo do esprito 
impossvel. Mas h mais:  mesmo assim, talvez tivesse feito
j essa viagem indispensvel se conhecesse algum que me
pudesse introduzir numa sociedade onde no tenho quaisquer
relaes.

- Um homem como o senhor?! - exclamou Albert.

- o senhor  muito generoso, mas como no reconheo a mim
prprio outro mrito alm do de poder competir como milionrio
com o Sr. Aguado ou com o Sr. Rothschild, e como no vou a
Paris para jogar na Bolsa, essa pequena circunstncia
reteve-me. Mas agora a sua oferta decide-me. Vejamos, meu caro
Sr. de Morcerf; compromete-se - e o conde acompanhou estas
palavras com um sorriso singular --, compromete-se, quando eu
for a Paris, a abrir-me as portas dessa sociedade onde serei
to estranho como um huro ou um cochinchins?

- Oh, quanto a isso Sr. Conde, facilmente e da melhor vontade!
- respondeu Albert. - E com tanta maior boa vontade (meu caro
Franz, no troce demasiado de mim!) quanto  certo que sou
chamado a Paris por uma carta que recebi esta mesma manh e
que me falam de uma aliana com uma casa muito importante e
que tem as melhores relaes na sociedade parisiense.

- Aliana por casamento? - perguntou Franz, rindo.

- Oh, meu Deus, sim! Assim, quando voc regressar a Paris
encontrar-me- instalado e talvez pai de famlia, o que ir
bem com a minha gravidade natural, no acha? Seja como for,
conde, repito-lhe: eu e os meus estamos ao seu dispor de corpo
e alma.

- Aceito - disse o conde --, porque juro-lhe que s me faltava
uma oportunidade assim para realizar projectos que h muito
trago em mente.

Franz nem por um instante duvidou que tais projectos no
fossem aqueles de que o conde deixara escapar umas palavras na
gruta de Monte-cristo, e olhou-o enquanto falava para tentar
descobrir-lhe na fisionomia qualquer revelao acerca desses
projectos que o levariam a Paris. Mas era muito difcil
penetrar no esprito daquele homem, sobretudo quando o velava
com um sorriso.

- Mas vejamos, conde - prosseguiu Albert, encantado com a
eventualidade de exibir um homem como Monte-cristo --, no se
trata de um desses projectos no ar, como se fazem mil em
viagem, e que construdos na areia se desfazem ao primeiro
p-de-vento, pois no?

- Palavra de honra que no - respondeu o conde. - Quero ir a
Paris e tenho de ir.

- Quando?

- Quando o senhor l estiver.

- Eu? - disse Albert. - Oh, meu Deus, dentro de quinze dias ou
trs semanas, o mais tardar o tempo de voltar.

- Pois bem, concedo-lhe trs meses - declarou o conde. - Como
v, no sou mesquinho.

- E dentro de trs meses ir bater-me  porta? - perguntou
Albert?

- Quer que marquemos encontro com dia e hora? - inquiriu o
conde. - Previno-o de que sou de uma pontualidade exasperante.

- Com dia e hora... - repetiu Albert - Agrada-me!

- Ento seja - disse o conde, estendendo a mo para um
calendrio pendurado ao p do espelho. - Estamos hoje a 21 de
Fevereiro e so... - puxou do relgio - dez e meia da manh.
Quer esperar-me no dia 21 de Maio prximo s dez e meia da
manh?

- Excelente! - exclamou Albert. - O pequeno-almoo estar
pronto.

- Onde mora?

- Na Rua do Helder, n.o 27.

- Vive sozinho? No o irei incomodar?

- Moro no palcio do meu pai, mas num pavilho ao fundo do
ptio, inteiramente independente.

- Muito bem.

O conde pegou na sua agenda e escreveu: "Rua do Helder, n.o
27, 21 de Maio s dez e meia da manh."

- E agora - disse, guardando a agenda na algibeira --, fique
tranquilo: os ponteiros do seu relgio no sero mais exactos
do que os do meu.

- Tornarei a v-lo antes da minha partida? - perguntou Albert.

- Conforme. Quando parte?

- Amanh, s cinco da tarde.

- Nesse caso, despeo-me. Tenho assuntos a tratar em Npoles e
s regressarei no sbado  noite ou no domingo de manh. E o
senhor tambm parte, Sr. Baro? - perguntou o conde a Franz.

- Tambm.

- Para Frana?

- No, para Veneza. Fico ainda um ou dois anos em Itlia.

- No nos veremos portanto em Paris?

- No creio ter essa honra.

- Ento, meus senhores, boa viagem - disse o conde aos dois
amigos, estendendo-lhes a mo.

Era a primeira vez que Franz tocava na mo daquele homem.
Estremeceu, pois estava gelada como a de um morto.

- Pela ltima vez - disse Albert --, est bem assente, sob
palavra de honra, no  verdade? Rua do Helder, n.o 27, em 21
de Maio s dez e meia da manh?

- Em 21 de Maio s dez e meia da manh, Rua do Helder, n.o 27
- repetiu o conde.

Em seguida, os dois jovens cumprimentaram o conde e
saram.

- Que tem? - perguntou Albert a Franz, quando entraram nos
seus aposentos. - Tem um ar muito preocupado.

- E estou-o, confesso-o -- declarou Franz. - O conde  um
homem singular e vejo com inquietao esse encontro que lhe
marcou em Paris.

- Este encontro... com inquietao... Ora essa! Enlouquece meu
caro Franz? - redarguiu Albert.

- Que quer - respondeu Franz --, louco ou no,  assim.

- Escute - volveu-lhe Albert --, e ainda bem que tenho
oportunidade de lhe dizer isto: tenho-o achado sempre muito
frio com o conde, que pelo contrrio tem sido sempre impecvel
connosco. Tem alguma coisa especial contra ele?

- Talvez.

- J o tinha visto nalgum lado antes de o encontrar aqui?

- J.

- Onde?

- Promete-me no dizer a ningum uma palavra do que lhe vou
contar?

- Prometo.

- Palavra de honra?

- Palavra de honra.

- Est bem. Escute ento.

E Franz contou a Albert a sua excurso  ilha de
Monte-cristo, onde encontrara uma tripulao de
contrabandistas e no meio dessa tripulao dois bandidos
corsos. Salientou por todos os meios a hospitalidade ferica
que o conde lhe concedera na sua gruta das Mil e Uma
Noites, falou-lhe da ceia, do haxixe, das esttuas, da
realidade e do sonho, e como ao despertar s encontrara como
prova e recordao de todos aqueles acontecimentos o iatezinho
navegando no horizonte para Porto-Vecchio.

Depois passou a Roma,  noite do Coliseu,  conversa que
ouvira entre ele e Vampa, conversa relativa a Peppino, e na
qual o conde prometera obter o perdo do bandido, promessa que
cumprira integralmente, - como os nossos leitores verificaram.

Por fim, chegou  aventura da noite anterior,  atrapalhao
em que se vira ao verificar que lhe faltaram seiscentas ou
setecentas piastras para completar a importncia do resgate, e
depois a ideia que tivera de se dirigir ao conde, ideia de que
resultara ao mesmo tempo uma soluo to pitoresca como
satisfatria

Albert escutou Franz com toda a ateno.

- Bom - disse-lhe quando terminou --, onde v em tudo isso
algo censurvel? O conde gosta de viajar, o conde possui um
navio porque  rico. V a Portsmouth ou a Southampton e ver
os portos cheios de iates pertencentes a ricos ingleses que
tm a mesma fantasia. Para saber onde se deter nas suas
excurses; para no comer essa horrvel cozinha que nos
envenena, a mim h quatro meses e voc h quatro anos; para
no dormir nessas camas abominveis onde se no consegue
sossegar, manda mobilar uma gruta em Monte-cristo; quando a
gruta est mobilada, receia que o Governo toscano lhe levante
obstculos e que tenha gasto o seu dinheiro em pura perda, e
que faz? Compra a ilha e toma o seu nome. Meu caro, procure
nas suas recordaes e diga-me quantas pessoas das suas
relaes adoptaram o nome de propriedades que nunca lhes
pertenceram.

- Mas os bandidos corsos que se encontravam entre a sua
tripulao? - lembrou Franz a Albert.

- Que h de extraordinrio nisso? Voc sabe melhor do que
ningum, no  verdade, que os bandidos corsos no so
ladres, mas pura e simplesmente fugitivos que qualquer
vendetta exilou da sua cidade ou da sua aldeia Podemos
portanto aceit-los sem nos comprometermos. Quanto a mim,
declaro que se alguma vez for  Crsega, antes de me
apresentar ao governador e ao prefeito apresentar-me-ei aos
bandidos de Colomba, se conseguir encontr-los. Acho-os
encantadores.

- Mas Vampa e a sua quadrilha? - insistiu Franz. - Esses so
bandidos que assaltam para roubar. Espero que o no negue. Que
me diz  influncia do conde sobre semelhantes homens?

- Digo, meu caro, que como segundo todas as probabilidades
devo a vida a essa influncia, no serei eu que a criticarei
com demasiada severidade. Portanto, em vez de a considerar,
como voc, um crime capital, permita-me que a desculpe, seno
por me ter salvo a vida, o que talvez fosse um bocadinho
exagerado, pelo menos por me ter permitido poupar quatro mil
piastras, que equivalem nem  mais nem menos a vinte e quatro
mil libras na nossa moeda, importncia em que com certeza me
no teriam avaliado em Frana, o que prova - acrescentou
Albert, rindo - que ningum  profeta na sua terra.

- Ora a est! De que terra  o conde? De que pas? Que lngua
fala? Quais so os seus meios de existncia? Donde lhe vem a
sua imensa fortuna? Qual foi a primeira parte da sua vida
misteriosa e desconhecida que espalhou sobre a segunda aquela
"cor" sombria e misantrpica? Aqui tem o que, no seu lugar, eu
gostaria de saber.

- Meu caro Franz - redarguiu Albertb--, quando recebeu a minha
carta e viu que necessitvamos da influncia do conde, foi-lhe
dizer: "Albert de Morcerf; meu amigo, corre perigo. Ajude-me a
tir-lo desse perigo!"  ou no  verdade?

- .

- Nessa altura ele perguntou-lhe: "Quem  o Sr. Albert de
Morcerf? Donde lhe vem o seu nome? Donde lhe vem a sua
fortuna'! Quais so os seus meios de existncia? Em que pas
nasceu? De que terra ?" Perguntou-lhe tudo isto? Vamos, diga!

- No, confesso.

- Ps-se simplesmente  sua disposio e tirou-me das mos do
Sr. Vampa onde, apesar dos meus ares cheios de desenvoltura,
como voc diz, eu fazia muito m figura, confesso. Bom, meu
caro, quando em troca de semelhante servio ele me pede que
faa por si o que se faz todos os dias pelo primeiro prncipe
russo ou italiano que passa por Paris, isto , que o apresente
na sociedade, quer que lhe recuse isso? Se quer, est louco!

Devemos reconhecer que, contrariamente ao que era hbito,
todas as boas razes estavam desta vez do lado de Albert.

- Enfim - redarguiu Franz, com um suspiro --, faa como
quiser, meu caro visconde. Porque tudo o que me diz est muito
certo, confesso, mas nem por isso  menos verdade que o conde
de Monte-cristo  um homem estranho.

- O conde de Monte-cristo  um filantropo. No nos disse com
que fim vai a Paris, mas eu sei-o: vai para concorrer ao
Prmio Montyon! E se para o obter apenas precisar do meu voto
e da influncia desse cavalheiro to feio que permite obt-lo,
pois bem, dar-lhe-ei um e garantir-lhe-ei a outra. E agora,
meu caro Franz, no falemos mais a tal respeito.
Sentemo-nos  mesa e faamos uma derradeira visita a S. Pedro.

Assim se fez, de facto, e no dia seguinte, s cinco da tarde,
os dois jovens separaram-se: Albert de Morcerf para regressar
a Paris e Franz de Epinay para ir passar quinze dias a Veneza.

Mas antes de subir para a carruagem, Albert ainda entregou ao
mandarete do hotel, de tal modo receava que o seu convidado
faltasse ao encontro, um carto para o conde de Monte-cristo,
na qual por baixo destas palavras: "Visconde Albert de
Morcerf", escrevera a lpis:

21 de Maio, s dez e meia da manh,

Rua do Helder, 27.


Captulo XXXIX

Os convivas

Na casa da Rua Helder em que Albert de Morcerf marcara
encontro em Roma com o conde de Monte-cristo, tudo se
preparava na manh de 21 de Maio para honrar a palavra do
jovem.

Albert de Morcerf habitava num pavilho situado a um canto de
um grande ptio e defronte doutro edifcio destinado s
dependncias de servio. Apenas duas janelas do pavilho davam
para a rua; as outras abriam, trs para o ptio e as duas
restantes para o jardim.

Entre o ptio e o jardim erguia-se, construda com o mau gosto
da arquitectura imperial, a residncia moderna e ampla do
conde e da condessa de Morcerf.

A toda a largura da propriedade erguia-se, dando para a rua,
um muro encimado, de distancia em distancia, por vasos de
flores, e cortado ao meio por um grande porto de lanas
douradas, que servia para os ocasies solenes. Uma portinha
quase pegada ao cubculo do porteiro dava passagem ao pessoal
e aos donos da casa, quando entravam ou saam a p.

Na escolha do pavilho destinado a residncia de Albert
adivinhava-se a delicada precauo de uma me que, no
querendo separar-se do filho, compreendera no entanto que um
rapaz da idade do visconde necessitava de completa liberdade.
Por outro lado, devemos diz-lo, tambm se reconhecia nisso o
egosmo inteligente do rapaz, a quem agradava a vida livre e
ociosa dos filhos-famlia, aos quais douravam, como aos
pssaros, a gaiola.

Pelas duas janelas que deitavam para a rua, Albert de Morcerf
podia proceder s suas exploraes exteriores. A vista do
exterior  to necessria aos jovens que querem ver sempre o
mundo atravessar-lhes o horizonte, ainda que esse horizonte
seja apenas o da rua! Depois, uma vez a explorao concluda,
se essa explorao lhe parecia merecer um exame mais
aprofundado, Albert de Morcerf podia, para se dedicar s suas
investigaes, sair por uma portinha que emparelhava com a que
indicmos junto do cubculo do porteiro, e que merece uma
meno especial.

Era uma portinha que dir-se-ia esquecida de toda a gente desde
o dia em que a casa fora construda, e que se julgara
condenada para sempre, de tal modo parecia discreta e
poeirenta, mas cuja fechadura, assim como os gonzos,
cuidadosamente lubrificados, denunciavam uma serventia
misteriosa e continuada. Aquela portinha dissimulada fazia
concorrncia s outras duas e zombava do porteiro, 
vigilncia e jurisdio do qual escapava, pois abria-se como a
famosa porta da caverna das Mil e Uma Noites, como o Ssamo
encantado de Ali-Bab, por meio de algumas palavras
cabalsticas ou de algumas arranhadelas convencionadas,
pronunciadas pelas mais meigas vozes ou dadas pelos dedos mais
afilados deste mundo.

Ao fim de um corredor vasto e calmo, com o qual comunicava a
portinha e que fazia de antecmara, abria-se  direita a sala
de jantar de Albert, que dava para o ptio, e  esquerda a sua
salinha de visitas, que dava para o jardim. Macios de plantas
trepadeiras abriam-se em leque diante das janelas e
ocultavam do Ptio e do jardim o interior de ambas as
divises, as nicas que, por se situarem no rs-do-cho,
estavam expostas aos olhares indiscretos.

No primeiro andar havia, alm das duas divises
correspondentes s do rs-do-cho, uma terceira situada sobre
a antecmara. As trs divises serviam de sala, quarto de
dormir e boudoir.

A sala de baixo no passava de uma espcie de div argelino
destinado aos fumadores.

O boudoir do primeiro andar comunicava com o quarto de
dormir e, atravs de uma poria invisvel, com a escada. Como
se v, estavam tomadas todas as precaues.

Por cima do primeiro andar ficava um vasto atelier, que se
aumentara deitando abaixo paredes e tabiques, pandemnio que o
artista disputava ao dandy. Ali se refugiavam e empilhavam
todos os sucessivos caprichos de Albert: as trombetas de caa,
os baixos e as flautas, uma orquestra completa, pois Albert
tivera por instantes, no o gosto, mas sim o capricho da
msica; os cavaletes, as paletas e os pastis, porque 
fantasia da msica sucedera a fatuidade da pintura;
finalmente, os floretes, as luvas de boxe, os espades e as
bengalas de todos os gneros. Porque, enfim, seguindo as
tradies dos jovens  moda da poca em que nos encontramos,
Albert de Morcerf cultivava com infinitamente mais
perseverana do que dedicara  msica e  pintura as trs
artes que completam a educao masculina, ou seja, a esgrima,
o boxe e o pau, e recebia sucessivamente naquela diviso,
destinada a lodos os exerccios do corpo, Grisicr, Cooks e
Charles Leboucher.

O resto dos mveis daquela sala privilegiada eram velhas arcas
do tempo de Francisco I, cheias de porcelanas da China, de
vasos do Japo, de faianas de Luca della Robbia e de
travessas de Bernard de Palissy, poltronas antigas onde talvez
se tivessem sentado Henrique IV ou Sully, Lus XIII ou
Richelieu, porque duas dessas poltronas, ornadas com um braso
de armas onde brilhavam sobre azul as trs flores-de-lis da
Frana, encimadas por uma coroa real, tinham vindo,
visivelmente, dos armazns do Luvre, ou pelo menos do de algum
palcio real. Para cima dessas poltronas, de fundos escuros e
severos, encontravam-se atirados em desordem ricos tecidos de
cores vivas, tingidos ao sol da Prsia ou sados dos dedos de
mulheres de Calcut ou Chandernagor. O que faziam ali aqueles
tecidos no sabemos dizer; esperavam, recreando os olhos, um
destino que o seu prprio proprietrio desconhecia, e enquanto
esperavam iluminavam o apartamento com os seus reflexos
sedosos e dourados.

No lugar mais em evidncia via-se um piano de pau-rosa
construdo por Roller  Blanchet, um desses pianos  medida
das nossas salas liliputianas, mas que apesar disso encerram
uma orquestra no seu pequeno e sonoro arcaboio e gemem sob o
peso das obras-primas de Beethoven, Weber, Mozart, Haydn,
Grtry e Porpora.

Depois, por toda a parte, ao longo das paredes, por cima das
portas e no tecto, espadas, punhais, adagas, maas, machados e
armaduras completas, douradas, marchetadas e embutidas;
herbrios, blocos de minerais e aves empalhadas que abriam
para um voo imvel as asas cor de fogo e o bico que nunca
fechavam.

Escusado ser dizer que aquela sala era a diviso predilecta
de Albert.

Contudo, no dia do encontro, o jovem, em falo de meia
cerimnia, estabeleceu o seu quartel-general na salinha do
rs-do-cho. Ali, em cima de  uma mesa rodeada  distancia
por um div largo e fofo, encontravam-se todos os tabacos
conhecidos, desde o tabaco louro de Sampetersburgo at ao
tabaco negro do Sinai, passando pelo marilndia, pelo
porto-rico e pelo latakieh, os quais resplandeciam em boies
de faiana craquele, como preferem os Holandeses. Ao lado
deles, em caixas de madeira aromtica, alinhavam-se por ordem
de tamanho e qualidade os puros, os regalas, os havanos e os
manilas; finalmente, num armrio aberto, uma coleco de
cachimbos alemes, de chibuques de pipo de mbar e ornados de
coral e de narguils incrustados de ouro, com longos tubos de
marroquim enrolados como serpentes esperavam o capricho ou a
preferncia dos fumadores. Albert presidira pessoalmente ao
arranjo, ou antes  desordem simtrica que depois do caf os
convivas de um almoo moderno gostam de contemplar atravs do
fumo que lhos sai da boca e sobe ao tecto em longas e
caprichosas espirais.

s dez horas menos um quarto entrou um criado, um pequeno
groom de quinze anos que s falava ingls e se chamava John,
nico criado de Morcerf. Claro que nos dias comuns o
cozinheiro do palcio estava  sua disposio, e nas grandes
ocasies o mandarete do conde tambm o estava.

O criado, que gozava de plena confiana do seu jovem amo,
trazia na mo um mao de jornais, que depositou numa mesa, e
uma poro de cartas, que entregou a, Albert.

Este deitou um olhar distrado s diversas missivas, escolheu
duas de caligrafia elegante e sobrescritos perfumados,
abriu-as e leu-as com certa ateno.

- Como vieram estas cartas? - perguntou.

- Uma veio pelo correio e a outra foi trazida pela, criada de
quarto da Sr.a Danglars.

- Manda dizer  Sr.a Danglars que aceito o lugar que me
oferece no seu camarote... Espera... Depois, durante o dia,
passars por casa da Rosa; dir-lhe-s que, como me convida,
irei cear com ela quando sair da pera. Leva-lhe seis
garrafas de vinho sortidas, de Chipre, de Xerez e de Mlaga, e
um barril de ostras de Ostende... Compra as ostras no Borel e
no te esqueas de dizer que so para mim.

- A que horas quer o senhor ser servido?

- Que horas so?

- Dez horas menos um quarto.

- Bom, serve s dez e meia exactas. Debray talvez seja
obrigado a ir ao seu ministrio... De resto...- Albert
consultou a sua agenda -  exactamente a hora que indiquei ao
conde, 21 de Maio s dez e meia da manh, e embora no confie
muito na sua promessa quero ser pontual. A propsito, sabes se
a Sr.a Condessa est levantada?

- Se o Sr. Visconde deseja, irei informar-me.

- Pois sim... Pedir-lhe-s uma das suas frasqueiras, porque a
minha est incompleta, e dir-lhe-s que terei a honra de
passar pelos seus aposentos por volta das trs horas, a fim de
lhe pedir licena para lhe apresentar uma pessoa.

O criado saiu, Albert atirou-se para cima do div, rasgou a
cinta de dois ou trs jornais, viu os espectculos, fez uma
careta ao verificar que se representava uma pera e no um
bailado, procurou em vo um opiato para os dentes de que lhe
tinham falado e ps de parte os trs jornais mais lidos de
Paris, murmurando no meio de um bocejo prolongado:

- Na verdade, estes jornais esto cada vez mais maadores.

Neste momento parou  porta uma carruagem ligeira e passado um
instante o criado voltou para anunciar o Sr. Lucien Debray.
Tratava-se de um rapago louro, plido, de olhos cinzentos e
ousados, lbios delgados e frios, casaca azul de botes de
ouro cinzelados, gravata branca e monculo de tartaruga
suspenso de um fio de seda, e que devido a um esforo do nervo
superciliar e do nervo zigomtico conseguia fixar de vez em
quando na cavidade do olho direito. Entrou sem sorrir, sem
falar e com ar semioficial.

- Bons dias, Lucien... Bons dias! - cumprimentou-o Albert. -
Assusta-me, meu caro, com a sua pontualidade!
Que digo? Pontualidade?... Voc, que esperava fosse o ltimo a
chegar, aparece s dez menos cinco, quando o encontro est
marcado para as dez e meia!  miraculoso! Ter por acaso cado
o ministrio?

- No, carssimo -  respondeu o rapaz, enterrando-se no div.
- Sossegue, continuamos a cambalear, mas nunca camos, e
comeo a crer que vamos muito simplesmente a caminho da
inamovibilidade, sem contar que os negcios da Pennsula
acabaro por nos consolidar por completo.

- Ah, sim,  verdade, vo expulsar D. Carlos de Espanha!

- No, carssimo, no confundamos as coisas. Levamo-lo apenas
para o outro lado da fronteira de Frana e oferecemos-lhe uma
hospitalidade real em Burges.

- Em Burges?

- Sim, e no tem de que se queixar, que diabo! Burges foi a
capital de Carlos VII. Como, no sabia? Em Paris toda a gente
sabe isso desde ontem, e anteontem j a coisa transpirara na
Bolsa, pois o Sr. Danglars (no fao a mais pequena ideia por
que meio esse homem sabe as notcias ao mesmo tempo que ns),
pois o Sr. Danglars jogou na alta e ganhou um milho.

- E voc uma nova condecorao, ao que parece, pois vejo-lhe
mais uma fita, azul, ao peito.

- Ora, mandaram-me o crach de Carlos III - respondeu
negligentemente Debray.

- Vamos, no arme em indiferente e confesse que teve prazer em
a receber.

- Reconheo que sim. Como complemento de toilette, um crach
fica bem numa casaca preta abotoada;  elegante.

- E - acrescentou Morcerf sorrindo -  d um ar de Prncipe de
Gales ou de duque de Reichstadt.

- Aqui tem porque me v to cedo, carssimo.

- Porque tem o crach de Carlos III e queria dar-me essa boa
notcia?

- No, porque passei a noite a expedir cartas: vinte e cinco
despachos diplomticos. Regressei a casa de manh, ao romper
do dia, e quis dormir, mas comeou-me a doer a cabea e
levantei-me para montar a cavalo uma hora. No Bosque de
Bolonha o aborrecimento e a fome apoderaram-se de mim, dois
inimigos que raramente andam juntos, mas que no entanto se
aliaram contra mim, uma espcie de aliana carlo-republicana.
Lembrei-me ento de que havia banquete em sua casa, esta manh
e c estou: tenho fome, alimente-me; aborreo-me, divirta-me.

-  o meu dever de anfitrio, caro amigo - declarou Albert,
tocando para chamar o criado, enquanto Lucien fazia saltar com
a ponta do pingalim de casto  de ouro, com uma turquesa
incrustada, os jornais desdobrados. - Entretanto, meu caro
Lucien, aqui tem charutos de contrabando, claro. Convido-o a
sabore-los e a convidar o seu ministro a vender-nos uns
assim, em vez dessa espcie de folhas de nogueira que condena
os bons cidados a fumar.

- Nessa no caio eu! Desde o momento que lhes viessem do
Governo, no quereriam mais e ach-los-iam execrveis. Alis,
isso no  da conta do Interior,  da conta das Finanas.
Dirija-se ao Sr. Humann, Seco de Impostos Indirectos,
corredor A, n.o 26.

- Na verdade - disse Albert --, voc surpreende-me com toda a
vastido dos seus conhecimentos... Mas tire um charuto!

- Ah, caro visconde - observou Lucien, acendendo um manila
numa vela cor-de-rosa que ardia num castial de prata dourada
e recostando-se no div --, ah, meu caro visconde, como 
feliz por no ter nada que fazer! Na verdade, no avalia a sua
felicidade!

- E que faria voc, meu caro pacificador de reinos - redarguiu
Morcerf com ironia, se no fizesse nada? Como secretrio
particular de um ministro, lanado simultaneamente na grande
cabala europeia e nas pequenas intrigas de Paris; com reis e,
melhor do que isso, rainhas a proteger, partidos a reunir,
eleies a dirigir; fazendo mais do seu gabinete, com a sua
pena e o seu telegrafo, do que Napoleo fazia dos seus campos
de batalha, com a sua espada e as suas vitrias; possuidor de
vinte e cinco mil libras de rendimento, alm do seu lugar; de
um cavalo pelo qual Chteau-Renaud lhe ofereceu quatrocentos
luses e que voc lhe no quis vender; de um alfaiate que
nunca lhe estraga umas calas; frequentador da pera, do
Jockey-Club e do Teatro das Variedades... Como, ser possvel
que no encontre em tudo isso com que se distrair? Seja,
distra-lo-ei eu!

- De que maneira?

- Proporcionando-lhe um novo conhecimento.

- De homem ou de mulher?

- De homem.

- Oh, j conheo muitos!

- Mas no conhece nenhum como este a que me refiro.

- Donde vem? Do fim do mundo?

- Talvez de mais longe.

- Diabo, espero que no seja ele quem traz o nosso almoo!

- No, esteja tranquilo. O nosso almoo est a ser feito nas
cozinhas maternas. Mas est de facto com fome?

- Estou, confesso, por mais humilhante que seja diz-lo. Mas
jantei ontem em casa do Sr. de Villefort... e no sei se j
reparou, meu caro amigo, que se janta muito mal em casa de
toda essa gente dos tribunais; dir-se-ia que esto sempre com
remorsos.

- Meu Deus, deprecia os jantares dos outros como se jantasse
bem em casa dos seus ministros!

- Pois sim, mas ao menos no convidamos pessoas de categoria,
e se no fssemos obrigados a fazer as honras da nossa mesa a
alguns labregos que pensam e sobretudo que votam bem,
fugiramos como da peste de comer em nossa casa, acredite.

- Ento, meu caro, beba segundo copo de xerez e coma outro
biscoito.

- Com muito prazer. O seu vinho de Espanha  excelente. Como
v fizemos muito bem em pacificar esse pas.

- Pois sim, mas D. Carlos?

- Ora, D. Carlos beber vinho de Bordus e daqui a dez anos
casar-lhe-emos o filho com a rainhazinha.

- O que lhe valer o Toso de Ouro, meu caro, se ainda estiver
no ministrio.

- Parece-me, Albert, que voc adoptou por sistema, esta manh,
alimentar-me de fumo.

- Veja que  ainda o que melhor entretm o estmago, concorde.
Mas olhe, acabo precisamente de ouvir a voz de Beauchamp na
antecmara. E como, decerto, no tardaro a discutir, esperar
com mais pacincia.

- Discutir a propsito de qu?

- A propsito dos jornais.

- Oh, caro amigo - disse Lucien com soberano desprezo mas eu
leio os jornais!

- Mais uma razo para discutirem ainda mais.

- O Sr. Beauchamp! - anunciou o criado.

- Entre, entre! Que pena terrvel! - disse Albert,
levantando-se e indo ao encontro do rapaz. - Olhe, aqui tem
Debray, que o detesta sem o ler, pelo menos segundo diz.

- E tem toda a razo - redarguiu Beauchamp. -  como eu,
critico-o sem saber o que ele faz. Bons dias, comendador.

- Ah, j sabe disso?! - respondeu o secretrio particular,
trocando com o jornalista um aperto de mo e um sorriso.

- Pois claro! - volveu-lhe Beauchamp.

- E que dizem por ai a tal respeito?

- Por ai, onde? O que no falia so curiosos neste ano da
graa de 1838.

- Ora, nos meios crtico-polticos de que voc  um dos
expoentes.

- Diz-se que  justssimo e que voc semeou suficiente
vermelho para que nascesse um bocadinho de azul.

- Vamos, vamos, nada mal - disse Lucien. - Porque no  dos
nossos, meu caro Beauchamp? Com o esprito que possui, faria
carreira em trs ou quatro anos.

- Por isso s espero uma coisa para seguir o seu conselho: um
ministrio que se aguente seis meses. Agora, apenas uma
palavrinha, meu caro Albert, para deixar respirar o pobre
Lucien. Almoamos ou jantamos? Tenho de ir  Cmara. Como
vem, nem tudo so rosas na nossa profisso.

- Almoaremos apenas. Esperamos unicamente mais duas pessoas e
sentar-nos-emos  mesa assim que chegarem.

- Que espcie de pessoas espera voc para almoar? -
perguntou Beauchamp.

- Um gentil-homem e um diplomata-respondeu Albert.

- Ento,  caso para termos de esperar duas horinhas pelo
gentil-homem e duas horonas pelo diplomata. Voltarei 
sobremesa. Guardem-me morangos caf e charutos. Comerei uma
costeleta na Cmara.

- No vale a pena, Beauchamp, porque ainda que o gentil homem
fosse um Montmorency e o diplomata um Metternich, almoaremos
s dez e meia precisas.
Entretanto, faa como Debray, saboreie o meu xerez e os meus
biscoitos.

- Pronto, seja, fico. Tenho absoluta necessidade de me
distrair esta manh. - Bom, a est voc como Debray! No
entanto, parece-me que quando o ministrio est triste a
oposio deve estar alegre.

- E porque, caro amigo, no imagina o que me ameaa. Tenho de
ouvir esta manh um discurso do Sr. Danglars na Cmara dos
Deputados e  noite a mulher dele falar da tragdia de um par
de Frana. Diabo leve o governo constitucional! Se tnhamos,
como se diz, o direito de escolha, por que carga de gua
escolhemos este governo?

- Compreendo, voc precisa de se abastecer de hilaridade.

- No diga mal dos discursos do Sr. Danglars - interveio
Debray. - Ele vota em vocs, faz oposio

- Infelizmente, muito mal! Por isso, espero que o mandem
discursar para o Luxemburgo, para que toda a gente ria 
vontade.

- Meu caro - disse Albert a Beauchamp --, bem se v que os
negcios de Espanha esto resolvidos; voc est esta manh de
um azedume revoltante. Lembre-se, porm, de que a crnica
parisiense fala de um casamento entre mim e Mademoiselle
Eugnie Danglars. Em conscincia, no posso pois deix-lo
falar mal da eloquncia de um homem que me deve dizer um dia:
"Sr. Visconde como sabe, dou dois milhes  minha filha."

- Esteja calado! - replicou Beauchamp. - Esse casamento nunca
se realizar. O rei pde faz-lo baro e poder faz-lo par,
mas no o far gentil-homem e o conde de Morcerf  uma espada
demasiado aristocrtica para consentir, em troca de dois
pobres milhes, num casamento desigual. O visconde de Morcerf
s deve casar com uma marquesa.

- Dois milhes! No deixa de ser uma bonita maquia... -
observou Morcerf.

- E o capital social de um teatro de bulevar ou de um caminho
de ferro do Jardim Botnico  Rape.

- Deixe-o falar, Morcerf, e case-se - aconselhou
negligentemente Debray. - Casa com a etiqueta de um saco, no
 verdade? Pois que lhe importa!  prefervel que a etiqueta
tenha um braso a menos e um zero a mais. Voc tem sete melras
nas suas armas; d trs  sua mulher e ainda fica com quatro.
 uma a mais do que o Sr. de Guise, que foi quase rei de
Frana e cujo primo coirmo era imperador da Alemanha.

- Palavra que me parece que voc tem razo, Lucien - respondeu
distraidamente Albert.

- Tenho com certeza! De resto, todo o milionrio  nobre como
um bastardo, isto , pode s-lo...

- Caluda! No diga isso, Debray - interveio, rindo, Beauchamp
--, pois acaba de chegar Chteau-Renaud, que, para o curar da
sua mania de paradoxar, lhe traspassar o corpo com a espada
de Reinaldo de Montauban, seu antepassado.

- Isso seria rebaixar-se - redarguiu Lucien --, pois eu sou
plebeu e bem plebeu.

- Bom, se o ministrio se pe a querer cantar como Branger,
aonde iremos parar, meu Deus? - observou Beauchamp.

- O Sr. de Chteau-Renaud! O Sr. Maximilien Morrel! -   disse
o criado anunciando dois novos convivas.

- Completos ento! - exclamou Beauchamp. - Podemos ento
almoar, porque, se me no engano, s esperava mais duas
pessoas, no  verdade, Albert?

- Morrel! - murmurou Albert, surpreendido. -
Morrel! Quem ser?

Mas antes de chegar a qualquer concluso, o Sr. de
Chteau-Renaud, um simptico rapaz de trinta anos,
gentil-homem da cabea aos ps, isto , com a figura de Guiche
e o esprito de um Mortemart, pegara na mo de Albert e
dizia-lhe:

-  Permita-me, meu caro, que lhe apresente o Sr. Capito de
Sipaios Maximilien Morrel, meu amigo e meu salvador. Alis, o
homem apresenta-se bastante bem por si mesmo.
Cumprimente o meu heri, visconde.

E afastou-se para deixar ver o alto e nobre rapaz de testa
ampla, olhar penetrante e bigodes negros, que os nossos
leitores se lembram de ter visto em Marselha numa
circunstncia bastante dramtica para que ainda a no tenham
esquecido. Um rico uniforme, meio francs, meio oriental,
admiravelmente envergado, salientava-lhe o peito amplo,
condecorado com a cruz da Legio de Honra, e a curva audaciosa
da cintura. O jovem oficial inclinou-se com elegante
delicadeza. Morrel era gracioso em cada um dos seus movimentos
porque era forte.

- Senhor - disse Albert com afectuosa cortesia --, o Sr. Baro
de Chteau-Renaud sabia antecipadamente todo o prazer que me
proporcionaria apresentando-mo. Uma vez que  um dos seus
amigos, seja tambm dos nossos.

- ptimo! - declarou Chteau-Renaud. - E deseje, meu caro
visconde, que se a ocasio se proporcionar ele faa por si o
que fez por mim.

- Que foi que fez? - perguntou Albert.

- Oh, no vale a pena falar disso! - protestou Morrel. - Este
senhor exagera.

- Como, no vale a pena falar disto?! - indignou-se
Chteau-Renaud. - No vale a pena falar da vida?... Na
verdade, o que diz  demasiado filosfico, meu caro Sr.
Morrel... Bom, para si, que expe a vida todos os dias, est
bem, mas para mim, que a exponho um vez por acaso...

- O que vejo de mais claro em tudo isso, baro,  que o Sr.
Capito Morrel lhe salvou a vida.

- Oh, meu Deus, sim, sem dvida nenhuma! - confirmou
Chteau-Renaud.

- E em que ocasio? - perguntou Beauchamp.

- Beauchamp, meu amigo, bem sabe que morro de fome - atalhou
Debray. -  No me venha pois com histrias...

- De acordo - respondeu Beauchamp. - Mas eu no impeo ningum
de se sentar  mesa... Chteau-Renaud contar-nos- o que se
passou enquanto comemos.

- Meus senhores - interveio Morcerf --, so apenas dez e um
quarto, notem bem, e esperamos um ltimo conviva.

- Ah,  verdade, um diplomata! - exclamou Debray.

- Um diplomata ou outra coisa, no sei. O que sei  que o
encarreguei por minha conta de uma embaixada de que se
desempenhou tanto a meu contento que, se eu fosse rei,
t-lo-ia feito imediatamente cavaleiro de todas as minhas
ordens, ainda que tivesse ao mesmo tempo  minha disposio o
Toso de Ouro e a Jarreteira.

- Bom, j que no vamos ainda para a mesa - disse Debray --,
sirva-se de um copo de xerez como ns e conte-nos isso, baro.

- Como todos sabem, tive a ideia de ir a frica.

- Foi um caminho que os seus antepassados lhe traaram, meu
caro Chteau-Renaud - observou galantemente Morcerf.

- Pois sim, mas duvido que fosse, como eles, para libertar o
tmulo de Cristo.

- Tem razo, Beauchamp - concordou o jovem aristocrata. - A
minha inteno era simplesmente dar uns tirinhos de pistola
como amador. O duelo repugna-me, como sabe, desde que as duas
testemunhas que escolhera para conciliar uma questo me
obrigaram a partir o brao a um dos meus melhores amigos,
exactamente ao pobre Franz de Epinay, que todos conhecem.

- Ah, sim,  verdade! - exclamou Debray. - Vocs bateram-se h
tempo... A que propsito?

- Diabo me leve se me recordo! - respondeu Chteau-Renaud. -
Mas do que me lembro perfeitamente  que, envergonhado de
deixar dormir um talento como o meu, quis experimentar contra
os rabes umas pistolas novas que acabavam de me oferecer.
Consequentemente, embarquei para Oro. De oro. segui para
Constantina e cheguei exactamente a tempo de ver levantar o
cerco. Retirei, como os outros. Durante quarenta e oito horas
suportei bastante bem a chuva de dia e a neve de noite. Por
fim, na manh do terceiro dia, o meu cavalo morreu de frio.
Pobre animal, acostumado s mantas e ao fogo de aquecimento
da cavalaria!... Um cavalo rabe que se sentiu, nem mais, nem
menos, um bocadinho deslocado quando deparou com dez graus de
frio na rbia.

-  por isso que voc me quer comprar o meu cavalo ingls -
comentou Debray. - Julga que suportar melhor o trio do que o
seu rabe.

- Engana-se, porque jurei nunca mais voltar a frica.

- Quer dizer que teve medo? - perguntou Beauchamp.

- Palavra que tive, confesso - respondeu
Chteau-Renaud. - E havia motivo para isso! O meu cavalo
morrera; eu retirava portanto a p. Apareceram seis rabes a
galope dispostos a cortar-me a cabea; abati dois com os meus
dois tiros de espingarda, outros dois com os meus dois tiros
de pistola, tiros em cheio, mas restavam dois e estava
desarmado. Um agarrou-me pelos cabelos ( por isso que os uso
curtos agora; nunca se sabe o que pode acontecer ...) e o
outro encostou-me o iatag ao pescoo. Sentia j o frio agudo
do ferro quando o cavalheiro que vem aqui carregou por seu
turno sobre eles, matou o que me agarrava pelos cabelos com um
tiro de pistola e rachou a cabea ao que se preparava para me
cortar o pescoo com uma sabrada. O cavalheiro resolvera
salvar um homem naquele dia e o acaso quis que fosse eu.
Quando for rico, encarregarei Klagmann ou Marochetti de
fazerem uma esttua ao Acaso.

-  verdade - confirmou Morrel, sorrindo. - Estvamos a 5 de
Setembro, isto , no aniversrio do dia em que o meu pai foi
miraculosamente salvo. Por isso, tanto quanto me  possvel,
comemoro todos os anos esse dia com qualquer aco...

- Herica, no  verdade? - interrompeu-o
Chteau-Renaud. - Em resumo, fui eu o escolhido. Mas isto no
 tudo. Depois de me salvar do ferro, salvou-me do frio,
dando-me, no metade da sua capa, como fazia S. Martinho, mas
sim toda inteira. E depois salvou-me da tome dividindo
comigo... adivinham o qu?

- Uma empada do Flix! - perguntou Beauchamp.

- No, o seu cavalo, do qual comemos ambos um naco deveras
apetitoso. Que duro!

- O qu, o cavalo? - perguntou, rindo, Morcerf.

- No, o sacrifcio - respondeu Chteau-Renaud.  - Perguntem
a Debray se sacrificaria o seu ingls por um estranho.

- Por um estranho, no; mas por um amigo, talvez - disse
Debray.

- Adivinhei que se tornaria meu amigo, Sr. Baro  - declarou
Morrel.  - Alis, como j tive a honra de lhos dizer, herosmo
ou no, sacrifcio ou no, naquele dia devia uma oferenda  m
sorte em recompensa do  favor que outrora nos fizera a boa.

- A histria a que o Sr. Morrel se refere - continuou
Chteau-Renaud -  uma histria admirvel que ele lhes
contar um dia, quando o conhecerem melhor. Por hoje,
abasteamos o estmago e no a memria. A que horas almoa
voc, Albert?

- s dez e meia.

- Exactas? - perguntou Debray, puxando do relgio.

- Oh, espero que me concedam os cinco minutos da praxe, porque
tambm espero um salvador! - redarguiu Morcerf.

- De quem?

- Meu, ora essa! - respondeu Morcerf - Ou julgam que no posso
ser salvo como qualquer outro e que s os rabes cortam
cabeas? O nosso almoo  um almoo filantrpico e teremos 
mesa, pelo menos assim espero, dois benfeitores da humanidade.

- Como havemos de resolver isso se s temos um Prmio Montyon?
- perguntou Debray.

- Ora, d-lo-o a algum que no tenha feito nada para o
merecer - sugeriu Beauchamp. - No  assim que habitualmente a
Academia se tira de apuros?

- E donde vem ele? - perguntou Debray. - Desculpe a
insistncia, bem sei que j respondeu a esta pergunta, mas to
vagamente que me permito faz-la segunda vez.

- Na realidade, no sei - confessou Albert. - Quando o
convidei, h trs meses, estava em Roma. Mas desde ento
sabe-se l o que ter andado!

- E acha-o capaz de ser pontual? - perguntou Debray.

- Acho-o capaz de tudo - respondeu Morcerf.

- Note que com os cinco minutos de tolerncia j s faltam dez
minutos.

- Bom, aproveit-los-ei para lhos dizer qualquer coisa acerca
do meu conviva.

- Perdo - atalhou Beauchamp haver assunto para um folhetim
no que vai contar?

- Sem dvida, e dos mais curiosos - respondeu Morcerf.

- Diga ento, pois j vi que no ponho os ps na Cmara e
preciso de qualquer coisa que me compense.

- Eu estava em Roma no ltimo Carnaval... - comeou Albert.

- J sabemos isso - interrompeu-o Beauchamp.

- Sim, mas o que no sabem  que fora raptado por bandidos.

- J no h bandidos - interveio Debray.

-  Isso  que h, e at hediondos, isto , admirveis, pois
achei-os belos a ponto de meterem medo.

- Vamos, meu caro Albert - tornou a intervir Debray confesse
que o seu cozinheiro est atrasado, que as ostras no chegaram
ainda de Marennes ou de Ostende e que a exemplo da Sr.a de
Maintenon pretende substituir o prato por uma histria. Seja
franco, meu caro, pois somos suficientemente bons amigos para
lhe perdoar e escutar a sua histria, por mais fabulosa que
seja.

- E eu repito que por mais fabulosa que seja lhes garanto que
 verdadeira de uma ponta a outra. Os bandidos tinham-me
portanto raptado e conduzido para um stio tristssimo a que
chamam as catacumbas de S. Sebastio.

- Conheo-as - declarou Chteau-Renaud. - Estive quase a
apanhar l as febres.

- Pois eu fiz melhor do que isso - redarguiu Morcerf --
apanhei-as realmente. Disseram-me que era seu prisioneiro e
que teria de pagar um resgate, uma misria, quatro mil escudos
romanos, vinte e quatro mil libras tornesas... Infelizmente,
eu no tinha mais de mil e quinhentos; encontrava-me no fim da
viagem e o meu crdito estava esgotado. Escrevi a Franz...
(Por Deus, j me esquecia, Franz estava l e podem
perguntar-lhe se altero uma vrgula!) Escrevi pois a Franz
dizendo-lhe que se no chegasse at s seis da manh com os
quatro mil escudos, s seis e dez ir-me-ia juntar aos
bem-aventurados santos e aos gloriosos mrtires na companhia
dos quais tinha a honra de me encontrar. Porque o Sr. Luigi
Vampa, assim se chamava o meu chefe de bandidos, cumpriria,
peo-lhos que acreditem, escrupulosamente a sua palavra.

 -Mas Franz chegou com os quatro mil escudos? - perguntou
Chteau-Renaud. - Que diabo, ningum se atrapalha por causa
de quatro mil escudos quando se chama Franz de Epinay ou
Albert de Morcerf!

- No, chegou pura e simplesmente acompanhado do conviva que
lhes anunciei e que espero apresentar-lhes.

- Bom, mas ento esse cavalheiro era algum Hrcules matando
Caco ou algum Perseu libertando Andrmeda?

- No,  um homem pouco mais ou menos da minha estatura.

- Armado at aos dentes?

- Nem sequer tinha uma agulha de fazer malha.

- Mas tratou do seu resgate?

- Disse duas palavrinhas ao ouvido do chefe e fiquei livre.

- E ainda por cima lhe apresentou desculpas por o ter raptado
- insinuou Beauchamp.

- Exactamente - confirmou Morcerf.

- Mas ento esse homem era Ariosto?

- No, era simplesmente o conde de Monte-cristo.

- No existe nenhum conde de Monte-cristo - declarou Debray.

- Pois no - acrescentou Chteau-Renaud, com o sangue-frio de
um homem que sabe de cor e salteado o nobilirio europeu. -
Quem  que conhece de alguma parte um conde de Monte-cristo?

- Talvez venha da Terra Santa - disse Beauchamp. - Um dos seus
avs pode ter possudo o Calvrio, como os Mortemarts foram
senhores do mar Morto.

- Perdo - interveio Maximilien --, mas creio poder tir-los
de apuros, meus senhores. Monte-cristo  uma ilhazinha de que
ouvi muitas vezes falarem  os marinheiros ao servio do meu
pai; um gro de areia no meio do Mediterrneo, um tomo no
infinito.

-  perfeitamente isso, senhor - confirmou Albert. - Pois bem,
desse gro de areia, desse tomo,  senhor e rei aquele de
quem lhes falo. Talvez tenha comprado o ttulo de conde em
qualquer parte da Toscana.

-  portanto rico o seu conde?

- Creio que sim.

- Mas isso  coisa que se deve ver, parece-me...

- Engana-se, Debray.

- J o no compreendo.

- Leu As Mil e Uma Noites?

- Meu Deus, que pergunta!

- Sabe porventura se as pessoas que aparecem na obra so ricas
ou pobres? Se os seus gros de trigo no so rubis ou
diamantes? Tm o ar de pescadores miserveis, no  verdade?
Consideramo-los como tal e de repente abrem-nos uma caverna
misteriosa onde encontramos um tesouro capaz de comprar a
ndia?

- E depois?

- Depois, o meu conde de Monte-cristo  um desses pescadores.
Tem mesmo um nome derivado disso: chama-se Shimbad, o
Marinheiro, e possui uma caverna cheia de ouro.

- E voc viu essa caverna, Morcerf? - perguntou Beauchamp.

- Eu, no, mas viu-a Franz. No entanto, caluda! No se deve
tocar nesse assunto diante dele. Franz desceu  caverna de
olhos vendados e foi servido por mudos e mulheres ao p das
quais parece que Clepatra no passaria de uma reles cortes.
Apenas a respeito das mulheres ficou com as suas dvidas, pois
elas s entraram depois de ele comer haxixe. Portanto,  muito
possvel que o que tomou por mulheres no fosse mais do que um
mero grupo de esttuas.

Os presentes olharam Morcerf com uma expresso que queria
dizer. "Ento, meu caro, endoideceu ou est a troar de ns?"

- Com efeito - interveio Morrel, pensativo --, tambm ouvi
contar a um velho marinheiro chamado Penelon qualquer coisa
semelhante ao que acaba de dizer o Sr. de Morcerf.

- Ora ainda bem que o Sr. Morrel me ajuda! -  exclamou Albert.
- Contraria-os, no  verdade, que ele atire assim um novelo
de fio para o meu labirinto?

- Perdo, caro amigo, mas  que voc conta-nos coisas to
inverosmeis... - murmurou Debray.

- Porqu? Porque os vossos embaixadores e os vossos cnsules
no vos disseram nada a tal respeito? Coitados, no lhes chega
o tempo para incomodarem os seus compatriotas que viajam.

- Bom, agora zanga-se e atira-se aos nossos pobres agentes.
Meu Deus, com que quer que o protejam? A Cmara diminui-lhos
todos os dias os honorrios, a ponto de j se no arranjar
ningum para tais cargos. Quer ser embaixador, Albert? Posso
mandar nome-lo para Constantinopla.

- No! Para que  primeira interveno que fizesse a favor de
Maomet Ali o sulto me mandar o cordo e os meus secretrios
me estrangularem?

- Bem v... - comeou Debray.

- Pois vejo, mas tudo isso no impede o meu conde de
Monte-cristo de existir!

- Por Deus, toda a gente existe... Olha o grande milagre!

- Toda a gente existe, sem dvida, mas no em semelhantes
condies. Nem toda a gente possui escravos negros, galerias
de quadros principescas, armas riqussimas, cavalos de seis
mil francos cada um, amantes gregas!

- Viu-a, a amante grega?

- Vi. Vi-a e ouvi-a. Vi-a no Teatro Vallo e ouvi-a um dia em
que almocei em casa do conde.

- Come, portanto, o seu homem extraordinrio?

- Palavra que se come  to pouco que nem vale a pena falar
disso.

- Vero,  um vampiro...

- Riam  vontade. Essa era tambm a opinio da condessa G...
que, como sabem, conheceu Lorde Ruthwen.

- Bonito! - exclamou Beauchamp. - Ora a est como um homem
que no  jornalista conseguiu descobrir o equivalente da
famosa serpente do mar Constitutionnel. Um vampiro! No h
dvida que  perfeito.

- Olhos amarelados, cuja pupila diminui e se dilata  vontade
- disse Debray. - ngulo facial desenvolvido, testa
magnifica, tez lvida, barba preta, dentes brancos e agudos,
cortesia a condizer...

- Ora a est,  precisamente isso, Lucien! - confirmou
Morcerf. - Descreveu-o com toda a exactido. Sim, e cortesia
fria, incisiva. Esse homem causou-me muitas vezes arrepios. Um
dia, por exemplo, quando assistamos juntos a uma execuo,
senti-me mal mais de o ver e ouvir falar friamente de todos os
suplcios do mundo do que de ver o
carrasco cumprir a sua funo e ouvir os gritos do supliciado.

- No o levou s runas do Coliseu para lhe sugar o sangue,
Morcerf? - perguntou Beauchamp.

- Ou, depois de o libertar, no o obrigou a assinar qualquer
pergaminho cor de fogo pelo qual lhe cedesse a sua alma, como
Esa, o seu morgadio?

- Zombem! Zombem  vontade, meus senhores! - exclamou Morcerf
um bocadinho irritado. - Quando olho para vocs, belos
parisienses, frequentadores assduos do Bulevar de Gand,
passeantes do Bosque de Bolonha, e me lembro daquele homem...
Bom, parece-me que no somos da mesma espcie.

- O que muito me agrada! - declarou Beauchamp.

- A verdade - acrescentou Chteau-Renaud -  que o seu conde
de Monte-cristo me parece um perfeito cavalheiro nas horas
vagas, exceptuando os seus pequenos entendimentos com os
bandidos italianos.

- No h bandidos italianos! - exclamou Debray.

- Nem vampiros! - acrescentou Beauchamp.

- Nem conde de Monte-cristo!-insistiu Debray. - Oua, meu
caro Albert, esto a dar dez e meia.

- Confesse que teve um pesadelo e vamos almoar - sugeriu
Beauchamp.

Mas a vibrao do relgio ainda se no extinguira quando a
porta se abriu e Germain, o mandarete do conde de Morcerf que
este pusera  disposio do filho, anunciou:

-- Sua Excelncia o conde de Monte-cristo!

Todos os presentes deram, mal-grado seu, um salto denunciador
da preocupao que a histria de Morcerf lhos insinuara na
alma. O prprio Albert no conseguiu conter uma emoo sbita.

Ningum ouvira carruagem na rua, nem passos na antecmara; a
prpria porta se abrira sem rudo.

O conde apareceu no limiar, vestido com a maior simplicidade,
mas o leo mais exigente no encontraria na sua indumentria
nada que lhe pudesse criticar. Era tudo de um gosto
requintado, tudo provinha das mos dos mais elegantes
fornecedores, tanto a casaca e o chapu como a camisa.

Parecia contar apenas trinta e cinco anos e o que mais
impressionou toda a gente foi a extrema semelhana com o
retrato que dele traara Debray.

O conde avanou, sorrindo, para o meio da sala, direito a
Albert, o qual foi ao seu encontro e lhe estendeu a mo
rapidamente.

- A pontualidade - disse Monte-cristo -  a cortesia dos
reis, segundo afirmava, creio, um dos vossos soberanos. Mas
seja qual for a sua boa vontade, nem sempre  a dos viajantes.
Espero no entanto, meu caro visconde, que desculpe, em
benefcio da minha boa vontade, os dois ou trs segundos de
atraso com que julgo comparecer ao encontro. Quinhentas lguas
no se percorrem sem qualquer contrariedade, sobretudo em
Frana, onde, ao que parece,  proibido bater nos postilhes.

- Sr. Conde - respondeu Albert --, estava a anunciar a sua
visita a alguns dos meus amigos que reuni a propsito da
promessa que se dignou fazer-me, e que tenho a honra de lhe
apresentar. O Sr. Baro de Chteau-Renaud, cuja nobreza
remonta aos doze pares e cujos antepassados se sentaram 
Tvola Redonda; o Sr. Lucien Debray, secretrio particular do
ministro do Interior; o Sr. Beauchamp, terrvel jornalista, o
terror do Governo francs, mas de quem por certo, apesar da
sua celebridade nacional, nunca ouviu falar na Itlia,
atendendo a que o seu jornal no entra l; finalmente, o Sr.
Maximilien Morrel, capito dos sipaios.

Ao ouvir este nome, o conde, que at ali cumprimentara
cortesmente, mas com frieza e uma impassibilidade muito
inglesa, deu, mal-grado seu, um passo em frente, e um leve tom
de vermelho passou como um relmpago pelas suas faces
plidas.

- O senhor usa o uniforme dos novos vencedores franceses;  um
belo uniforme - disse.

Seria impossvel dizer que sentimento dava  voz do conde to
profunda vibrao e que fazia brilhar, como que a seu pesar,
os seus olhos to belos, to calmos e to lmpidos, quando no
havia qualquer motivo para os velar.

- Nunca tinha visto os nossos africanos, senhor? - perguntou
Albert.

- Nunca - respondeu o conde, de novo perfeitamente senhor de
si.

- Pois, senhor, sob aquele uniforme pulsa um dos coraes mais
bravos e nobres do Exrcito.

- Oh, Sr. Visconde! - protestou Morrel.

- No me interrompa, capito... - redarguiu Albert, que
continuou: - De facto, acabamos de saber que este senhor
praticou uma proeza to herica que, embora o tenha visto hoje
pela primeira vez, lhe peo o favor de me deixar
apresentar-lho como meu amigo.

E mais uma vez, ao serem proferidas estas palavras, se pde
notar em Monte-Cristo o olhar estranhamente fixo, o rubor
furtivo e a leve tremura de plpebras que nele denotavam
emoo.

- Ah, senhor, se  um nobre corao, tanto melhor! - exclamou
o conde.

Esta espcie de fervor, que se devia mais ao prprio
pensamento do conde do que ao que acabava de dizer Albert,
surpreendeu toda a gente e sobretudo Morrel, que olhou atnito
para Monte-cristo. Mas ao mesmo tempo a intonao era to
delicada e por assim dizer to suave que, por muito estranha
que fosse a exclamao, era impossvel algum zangar-se por
via dela.

- Por que duvidaria? - perguntou Beauchamp a Chteau-Renaud.

- Na verdade - respondeu este, que com a sua experincia da
sociedade e a perspiccia do seu olhar aristocrtico devassara
em Monte-cristo tudo o que era devassvel nele --, na
verdade, Albert no nos enganou: o conde  uma pessoa
singular... que lhe parece, Morrel?

- Para dizer o que sinto - respondeu este --, tem um olhar to
franco e uma voz to simptica, que me agrada, apesar da
observao extravagante que fez a meu respeito.

- Meus senhores - disse Albert --, Gemain anuncia-me que esto
servidos. Meu caro conde, permita-me que lhe indique o
caminho.

Passaram silenciosamente  sala de jantar e cada um ocupou o
seu lugar.

- Meus senhores - disse o conde ao sentar-se --, permitam-me
uma confisso, que ser a minha desculpa por todas as
inconvenincias que poderei dizer: sou estrangeiro, mas
estrangeiro a tal ponto que  a primeira vez que venho a
Paris. A vida francesa -me portanto completamente
desconhecida e at agora quase s tenho praticado a vida
oriental, a mais antiptica s boas tradies parisienses.
Peo-lhes pois que me desculpem se encontrarem em mim alguma
coisa demasiado turca, demasiado napolitana ou demasiado
rabe. E agora, meus senhores, almocemos.

- Como diz tudo aquilo! - murmurou Beauchamp. -
 decididamente um grande senhor.

- Sim, um grande senhor - concordou Debray.

- Um grande senhor de todos os pases, Sr. Debray - sublinhou
Chteau-Renaud.



Captulo XL

O almoo

O conde, recordamo-lo, era um conviva sbrio. Albert salientou
o facto, manifestando o receio de que, desde o princpio, a
vida parisiense desagradasse ao viajante atravs do seu
aspecto mais material, mas ao mesmo tempo mais necessrio.

- Meu caro conde - disse --, ao v-lo comer assaltou-me um
receio: que a cozinha da Rua Helder lhe no agrade tanto como
a da Praa de Espanha.

Deveria ter-lhe perguntado de que gostava e mandar preparar
alguns pratos  sua escolha.

- Se me conhecesse melhor, senhor-respondeu o conde, sorrindo
--, no se preocuparia com um pormenor quase humilhante para
um viajante como eu, que comeu sucessivamente macaroni em
Npoles, polenta em Milo, olla podrida em Valncia,
pilau em Constantinopla, karrick na ndia e ninhos de
andorinha na China. No existe cozinha para um cosmopolita
como eu. Como de tudo e em toda a parte, simplesmente como
pouco; e hoje, que me censura a minha sobriedade, estou num
dos meus dias de apetite, pois desde ontem de manh que no
comia.

- Desde ontem de manh! - exclamaram os convivas. - No comia
nada h vinte e quatro horas?

- No - respondeu o conde.- Fui obrigado a desviar-me do meu
caminho para obter informaes nos arredores de Nmes, de
forma que me atrasei um pouco e no quis parar.

- E comeu na sua carruagem? - perguntou Morcerf.

- No, dormi, como me acontece quando me aborreo sem ter a
coragem de me distrair ou quando tenho lume e no me apetece
comer.

- Quer dizer que comanda o sono, senhor? - perguntou Morrel.

- Mais ou menos.

- Possui alguma receita para isso?

- Infalvel.

- A est uma coisa que seria excelente para ns, africanos,
que nem sempre temos de que comer e raramente temos de que
beber - declarou Morrel.

- Decerto - respondeu Monte-cristo. - Infelizmente, a minha
receita excelente para um homem como eu, que leva uma vida
muito excepcional, seria perigosssima aplicada a um exrcito,
que no acordaria quando fosse necessrio.

- E pode-se saber qual  essa receita? - perguntou Debray.

- Oh, meu Deus, claro que pode! - respondeu Monte-cristo. -
No fao segredo dela.  uma mistura de excelente pio, que eu
prprio fui buscar a Canto, para ter a certeza de ser puro, e
do melhor haxixe que se colhe no Oriente, isto , entre o
Tigre e o Eufrates. Juntam-se os dois ingredientes em partes
iguais e faz-se uma espcie de plulas, que se engolem quando
necessrias. Passados dez minutos  efeito garantido.
Perguntem ao Sr. Baro Franz de Epinay; creio que as provou um
dia.

- Sim, ele disse-me qualquer coisa a esse respeito e at ficou
com uma agradvel recordao da experincia - declarou
Morcerf.

- Mas ento traz sempre essa droga consigo? - perguntou
Beauchamp, que, na sua qualidade de jornalista, era muito
incrdulo.

- Sempre - respondeu Monte-cristo.

- Seria indiscreto se lhe pedisse para ver essas preciosas
plulas? - continuou Beauchamp, esperando apanhar o
estrangeiro em falta.

- No, senhor - respondeu o conde.

E tirou da algibeira uma caixinha de bombons maravilhosa,
feita de uma nica esmeralda e fechada por meio de uma porca
de ouro, que, ao desenroscar-se, dava passagem a uma bolinha
esverdeada, do tamanho de uma ervilha. Essa  bolinha linha
um cheiro acre e penetrante. Havia quatro ou cinco idnticas
na esmeralda, que podia conter uma dzia.

A caixinha de bombons deu a volta  mesa, mas muito mais para
que os convivas examinassem aquela esmeralda admirvel do que
para verem ou cheirarem as plulas.

- E  o seu cozinheiro que lhe prepara este petisco? -
perguntou Beauchamp.

- No, senhor - respondeu Monte-cristo. - No deixo sem mais
nem menos os meus verdadeiros prazeres  merc de mos
indignas. Sou um qumico razovel e preparo pessoalmente as
minhas plulas.

- Que admirvel esmeralda!  a maior que j vi, embora a minha
me tenha algumas jias de famlia bastante notveis -
observou Chteau-Renaud.

- Tinha trs idnticas - informou Monte-cristo. - Dei uma ao
sulto, que a mandou montar no seu sabre, e a outra, ao nosso
santo padre, o papa, que a mandou incrustar na sua tiara, ao
p de uma esmeralda mais ou menos idntica, mas menos bela,
que fora oferecida ao seu predecessor, Pio VII, pelo imperador
Napoleo. Guardei a terceira para mim e mandei-a escavar, o
que lhe tirou metade do seu valor, mas a tornou mais cmoda
para o uso que desejava dar-lhe.

Todos olhavam Monte-cristo com espanto. Falava com tanta
simplicidade que era evidente dizer a verdade ou estar louco.
No entanto, a esmeralda com que ficara na mo levava-os a
inclinarem-se naturalmente para a primeira suposio.

- E que lhe deram esses dois soberanos em troca desse
magnfico presente? - perguntou Debray.

- O sulto, a liberdade de uma mulher - respondeu o conde.
- O nosso santo padre, o papa, a vida de um homem. De modo que
uma vez na minha existncia fui to poderoso como se Deus me
tivesse feito nascer nos degraus de um trono.

- E foi Peppino quem libertou, no  verdade? - perguntou
Morcerf. - Foi a ele que aplicou o seu direito de graa?

- Talvez - respondeu Monte-cristo sorrindo.

- Sr. Conde, no faz ideia do prazer que e experimento ao
ouvi-lo falar assim! - disse Morcerf. - Anunciei-o
antecipadamente aos meus amigos como um homem fabuloso, como
um encantador das Mil e Uma Noites, como um feiticeiro da
Idade Mdia. Mas os Parisienses so pessoas de tal modo subtis
em paradoxos que tomam por caprichos da imaginao as verdades
mais incontestveis, quando essas verdades no preenchem todas
as condies da sua existncia quotidiana. Por exemplo, temos
aqui Debray que l e Beauchamp que imprime todos os dias que
assaltaram e roubaram no bulevar um membro do Jockey-Club;
que assassinaram quatro pessoas na Rua Saint-Germain; que
prenderam dez, quinze, vinte ladres, quer num caf do Bulevar
do Templo, quer nas Termas de Juliano, mas que contestam a
existncia dos bandidos das Maremmes, da campina de Roma ou
dos Pntanos Pontinos. Diga-lhes portanto pessoalmente, Sr.
Conde, peo-lhe, que fui raptado por esses bandidos e que sem
a sua generosa intercesso esperaria, segundo todas as
probabilidades, actualmente, a ressurreio eterna nas
catacumbas de S. Sebastio, em vez de lhe oferecer de almoar
na minha indigna casita da Rua Helder.

- Ento! - exclamou o conde. - Tinha-me prometido nunca mais
me falar dessa misria!...

- No fui eu, Sr. Conde! - protestou Morcerf. - Foi porventura
qualquer outro a quem ter prestado o mesmo servio que a mim
e que decerto confundiu comigo. Falemos, pelo contrrio,
peo-lhe. Porque se se decidir a falar desse caso, talvez no
s me repita um pouco do que sei, mas tambm muito do que no
sei.

- Mas parece-me - observou o conde, sorrindo - que o senhor
desempenhou em todo esse caso um papel suficientemente
importante para saber to bem como eu o que se passou.

- Quer prometer-me, se eu disser tudo o que sei - props
Morcerf --, dizer por sua vez tudo o que no sei?

-  justssimo! - respondeu Monte-cristo.

- Pois bem - prosseguiu Morcerf --, a despeito do meu
amor-prprio, julguei-me durante trs dias alvo das negaas de
uma mscara, que tomava por qualquer descendente das Tlias ou
das Popeias, quando na realidade era pura e simplesmente alvo
das negaas de uma e contadine. E observo que digo e
contadine para no dizer camponesa. O que sei  que como um
ingnuo, mais ingnuo ainda do que aquele de quem talava h
pouco, tomei por essa camponesa um jovem bandido de quinze ou
dezasseis anos, de queixo imberbe e cintura fina, que, no
momento em que pretendia adiantar-me e depositar um beijo no
seu casto ombro, me encostou a pistola  garganta e, com o
auxlio de sete ou oito dos seus companheiros, me conduziu, ou
antes arrastou para o fundo das catacumbas de S. Sebastio,
onde encontrei um chefe de bandidos muito letrado, palavra, o
qual lia os Comentrios, de Csar, e que se dignou
interromper a leitura para me dizer que se no dia seguinte, s
seis horas da manh, no tivesse depositado quatro mil escudos
no seu cofre, nesse mesmo dia, s seis e um quarto, deixaria
completamente de existir. A carta existe, est em poder de
Franz, assinada por mim e com um post-scriptum de mestre
luigi Vampa. Se duvidam, escrevo a Franz, que mandar
reconhecer as assinaturas. Eis o que sei. Agora o que no sei
 como conseguiu, Sr. Conde, merecer to grande respeito dos
bandidos de Roma, que respeitam to poucas coisas.
Confesso-lhe que Franz e eu ficmos boquiabertos de admirao.

- Nada mais simples, senhor - respondeu o conde. - Conhecia o
famoso Vampa h mais de dez anos. Muito novo, e quando era
ainda pastor, dei-lhe um dia j no sei que moeda de ouro por
me ter indicado o meu caminho, e ele deu-me, para nada me
ficar a dever, um punhal esculpido por si e que o senhor deve
ter visto na minha coleco de armas. Mais tarde, quer porque
tivesse esquecido essa troca de presentes que deveria manter a
amizade entre ns, quer porque me no tivesse reconhecido,
tentou capturar-me, mas fui eu, muito pelo contrrio, que o
apanhei com uma dzia dos seus homens. Podia entreg-lo 
justia romana, que  expedita e que agiria ainda mais
depressa no seu caso, mas no o fiz; soltei-o a ele e aos
seus.

- Com a condio de no pecarem mais - observou o jornalista,
rindo. - Vejo com prazer que mantiveram escrupulosamente a sua
palavra!...

- No, senhor - respondeu Monte-cristo. - Com a simples
condio de que me respeitariam sempre, a mim e aos meus.
Talvez o que lhes vou dizer lhes parea estranho, senhores
socialistas, progressistas e humanitrios, mas nunca me
preocupo com o meu prximo nem tento proteger a sociedade, que
me no protege, e direi mesmo mais, que geralmente s se
preocupa comigo para me  prejudicar. Por isso, arredando-os
da minha estima e mantendo a neutralidade em relao a eles, 
ainda a sociedade e o meu prximo que me devem retribuio.

- At que enfim! - exclamou Chteau-Renaud. - Aqui est o
primeiro homem corajoso que ouo pregar leal e brutalmente o
egosmo.  muito belo isso! Bravo, Sr. Conde!

-  franco, pelo menos - disse Morrel. - Mas estou certo de
que o Sr. Conde se no arrependeu de ter faltado uma vez aos
princpios que acaba de expor de forma to absoluta.

- Quando  que faltei a esses princpios, senhor? - perguntou
Monte-Cristo, que de vez em quando no se podia impedir de
olhar Maximilien, e com tanta ateno que j por duas ou trs
vezes o ousado jovem baixara os olhos diante do olhar claro e
lmpido do conde.

- A mim parece-me - respondeu Morrel - que libertando o Sr. de
Morcerf, que o senhor no conhecia, servia o seu prximo e a
sociedade...

- Da qual  o mais belo ornamento - declarou gravemente
Beauchamp, despejando de uma golada uma taa de champanhe.

- Sr. Conde - interveio Morcerf --, caiu nas malhas do
raciocnio, o senhor que  um dos mais argutos lgicos que
conheo; s falta demonstrar-lhe claramente, o que no tarda,
que longe de ser um egosta , pelo contrrio, um filantropo.
Ah, Sr. Conde, diz-se oriental, levantino, malaio, indiano,
chins, selvagem; chama-se Monte-cristo de seu nome de
famlia e Simbad, o Marinheiro, de seu nome de baptismo, e eis
que no dia em que pe p em Paris revela possuir
instintivamente o maior mrito ou o maior defeito dos nossos
excntricos Parisienses, isto , usurpa os vcios que no tem
e esconde as virtudes que tem!

- Meu caro visconde - redarguiu Monte-cristo --, no vejo em
nada do que disse ou fiz uma nica palavra que me valha da sua
parte ou da destes senhores o pretenso elogio que acabo de
receber. O senhor no era um estranho para mim, Porque o
conhecia, porque lhe cedera dois quartos, porque lhe oferecera
um almoo, porque lhe emprestara uma das minhas carruagens,
porque vramos passar as mscaras juntos na Rua do Corso e
porque tnhamos assistido de uma janela da Praa del Popolo
quela execuo que tanto o impressionou que quase se sentiu
indisposto. Ora, pergunto a todos estes senhores, podia deixar
o meu convidado nas mos daqueles horrveis bandidos, como
lhos chamaram? De resto, como sabe, ao salv-lo tinha um
pensamento reservado; servir-me do senhor para me introduzir
nos sales de Paris quando viesse a Frana. Houve tempo em que
pde considerar esta resoluo um projecto vago e fugaz; mas
hoje, como v,  uma autntica realidade a que tem de se
submeter, sob pena de faltar  sua palavra.

- E cumpri-la-ei - declarou Morcerf. - Mas receio muito que
fique deveras decepcionado, meu caro conde, o senhor, que est
habituado aos lugares acidentados, aos acontecimentos
pitorescos, aos horizontes fantsticos. Entre ns no se
verifica o mais pequeno episdio do gnero daqueles a que a
sua vida aventurosa o habituou. O nosso Chimborazzo 
Montmartre; o nosso Himalaia  o monte Valeriano; o nosso
Grande Deserto  a plancie de Grenelle, s com a diferena de
que abrimos l um furo artesiano para que as caravanas
tivessem gua. Temos ladres, muitos mesmo, embora no
tenhamos tantos como dizem,  mas so ladres que temem
infinitamente mais o mais insignificante polcia do que o
maior senhor --, enfim, a Frana  um pas to prosaico e
Paris uma cidade to civilizada que o senhor no encontrara,
procurando nos nossos oitenta e cinco departamentos (digo
oitenta e cinco departamentos porque, evidentemente. exceptuo
a Crsega da Frana), que no encontrar nos nossos oitenta e
cinco departamentos a mais pequena montanha onde no haja um
telgrafo nem a mais pequena gruta um pouco escura em que um
comissrio de polcia no tenha mandado colocar um bico de
gs. H pois um nico servio que lhe posso prestar, meu caro
conde, e para isso estou  sua disposio: apresent-lo em
toda a parte, ou mand-lo apresentar pelos meus amigos,
escusado ser dizer. Alis, o senhor no precisa de ningum
para isso; com o seu nome, a sua fortuna e o seu esprito --
Monte-cristo inclinou-se com um sorriso levemente irnico --,
uma pessoa apresenta-se a si mesma e  bem recebida em toda a
parte. Na realidade, s posso portanto ser-lhe til numa
coisa: se alguma experincia da vida parisiense, algum hbito
do conforto e algum conhecimento dos nossos bazares me podem
recomendar, estou ao seu dispor para lhe arranjar uma casa
conveniente. No me atrevo a propor-lhe que compartilhe o meu
alojamento como compartilhei o seu em Roma porque, embora no
professe o egosmo, sou egosta por excelncia, e porque em
minha casa nem uma sombra se sentiria bem, a no ser que fosse
uma sombra de mulher.

- ora a est uma reserva muito conjugal! - exclamou o conde.
- De facto, lembro-me de me ter dito em Roma algumas palavras
acerca de um projectado casamento; devo felicit-lo pela sua
prxima felicidade?

- O caso ainda continua em estado de projecto, Sr. Conde.

- E quem diz projecto, quer dizer eventualidade - interveio
Debray.

- No  bem assim - redarguiu Morcerf. - O meu pai insiste e
espero apresentar-lhes dentro de pouco tempo, seno a minha
mulher, pelo menos a minha futura: Mademoiselle Eugnie
Danglars.

- Eugnie Danglars... - murmurou o conde de Monte-cristo. -
Um momento: o pai no  o Sr. Baro Danglars?

- , sim - respondeu Morcerf. - Mas baro de nova criao.

- E isso que importa - volveu-lhe Monte-cristo --, se prestou
ao Estado servios que lhe mereceram essa distino?

- Enormes - confirmou Beauchamp. - Apesar de ser liberal de
alma e corao, completou em 1829 um emprstimo de seis
milhes a favor do rei Carlos X, que o fez baro e cavaleiro
da Legio de Honra, de forma que usa a fita, no na algibeira
do colete, como se poderia crer, mas sim na lapela da casaca.

- Ah! - exclamou Morcerf, rindo. - Beauchamp, Beauchamp,
guarde isso para le Corsaire e le Charivari, mas diante de
mim poupe o meu futuro sogro.

Depois, virando-se para Monte-cristo:

- Mas h pouco pronunciou o seu nome como se conhecesse o
baro. Conhece-o, de facto?

- No, no o conheo - respondeu negligentemente Monte-cristo
--, mas provavelmente no tardarei a conhec-lo, pois tenho um
crdito aberto sobre ele pelas casas Richard  Blount, de
Londres; Arstein  Eskeles, de Viena, e Thomson  French, de
Roma.

E ao pronunciar estes dois ltimos nomes, Monte-cristo olhou
pelo canto do olho para Maximilien Morrel.

Se o estrangeiro pretendera produzir qualquer efeito em
Maximilien Morrel, no se enganara. De facto, Maximilien.
estremeceu como se tivesse sido atingido por um choque
elctrico.

- Thomson  French... - murmurou. - Conhece essa casa, senhor?

- So os meus banqueiros na capital do mundo cristo -
respondeu tranquilamente o conde. - Posso ser-lhe til nalguma
coisa junto deles?

- Oh, o Sr. Conde talvez nos pudesse ajudar numas pesquisas
at aqui infrutferas! H tempos, essa casa prestou um servio
 nossa, mas no sei porqu sempre tem negado que nos prestou
esse servio.

- s suas ordens, senhor - respondeu Monte-cristo,
inclinando-se.

- Mas - observou Morcerf - por causa do Sr. Danglars
afastmo-nos singularmente do tema da nossa conversa.
Tratava-se de encontrar uma habitao conveniente para o conde
de Monte-cristo. Vamos, meus senhores, procuremos ter uma
ideia: onde instalaremos este novo hspede do grande Paris?

- No Arrabalde de Saint-germain - sugeriu Chteau-Renaud - O
senhor encontrar l um encantador palacete com ptio e
jardim.

- Ora, ora, Chteau-Renaud - protestou Debray --, voc s
conhece o seu triste e desagradvel Arrabalde de
Saint-germain. No lhe d ouvidos, Sr. Conde, e instale-se na
Chausse-d'Antin:  o verdadeiro centro de Paris.

- Bulevar da pera - sugeriu Beauchamp. - No primeiro andar,
uma casa com varanda. - O Sr. Conde mandar levar para l
almofadas de tecido prateado e ver, fumando o seu cachimbo ou
tomando as suas plulas, toda a capital desfilar debaixo dos
seus olhos.

- Voc no tem nenhuma ideia, Morrel? - perguntou
Chteau-Renaud. - No prope nada?

- Certamente - respondeu sorrindo o rapaz. - Pelo contrrio,
tenho uma, mas esperava que o senhor se deixasse tentar por
qualquer das propostas brilhantes que acabam de lhe fazer. Mas
como at agora se no pronunciou, creio poder oferecer-lhe
aposentos num palacete muito encantador, muito Pompadour, que
a minha irm alugou h um ano na rua Meslay.

- Tem uma irm? - perguntou Monte-cristo.

- Tenho, sim, senhor, e uma excelente irm.

- Casada?

- H quase nove anos.

- Feliz? - perguntou de novo o conde.

- To feliz quanto  permitido a uma criatura humana s-lo -
respondeu Maximillen. - Casou com o homem que amava, aquele
que nos ficou fiel na nossa infelicidade: Emmanuel Herbaut.

Monte-cristo sorriu imperceptivelmente.

- Resido l durante o meu semestre - prosseguiu Maximilien - e
estaria, assim como o meu cunhado Emmanuel,  disposio do
Sr. Conde para todas as informaes que necessitasse.

- Um momento! - gritou Albert antes de Monte-cristo ter tempo
de responder. - Cuidado com o que faz, Sr. Morrel, olhe que
vai enclausurar um viajante, Simbad, o Marinheiro, na vida
familiar. Vai fazer um patriarca de um homem que veio para ver
Paris.
- Oh, isso no! - respondeu Morrel, sorrindo. - A minha irm
tem vinte e cinco anos e o meu cunhado trinta; so jovens,
alegres e felizes. Alis, o Sr. Conde estar  vontade nos
seus aposentos e s encontrar os seus anfitries quando
quiser descer aos aposentos deles.

- Obrigado, senhor, obrigado - disse Monte-cristo.-
Contentar-me-ei com ser apresentado por si  sua irm e ao seu
cunhado, se quiser conceder-me essa honra, mas no aceito a
oferta de nenhum dos senhores porque j tenho a minha
residncia pronta.

- Como?! - exclamou Morcerf. - Vai hospedar-se num hotel? Ser
muito desagradvel para si...

- Esteve assim to mal instalado em Roma? - perguntou
Monte-cristo.

- Por Deus - redarguiu Morcerf --, em Roma gastou cinquenta
mil piastras a mandar mobilar os seus aposentos; mas presumo
que no est disposto a renovar todos os dias semelhante
despesa.

- No foi isso que me deteve - respondeu Monte-cristo mas sim
ter resolvido possuir uma casa em Paris, uma casa minha,
claro. Por isso, mandei  frente o meu criado de quarto, que
j deve ter comprado a casa e mandado mobilar-ma.

- Quer dizer que tem um criado de quarto que conhece Paris? -
admirou-se Beauchamp.

-  a primeira vez, como eu, que vem a Frana;  negro e no
fala - respondeu Monte-cristo.

- Ento...  Ali? - perguntou Albert, no meio da surpresa
geral.

- E, sim, senhor,  Ali, o meu nbio, o meu mudo, que viu em
Roma, segundo creio.

- Sim, certamente - respondeu Morcerf. - Lembro-me muito bem
dele. Mas como encarregou um nbio de lhe comprar uma casa em
Paris e um mudo de lha mobilar? Deve ter feito tudo s
avessas, o pobre infeliz.

- Engana-se, senhor. Estou certo, pelo contrrio, de que
escolheu todas as coisas a meu gosto; porque, como sabe, o meu
gosto no  o de toda a gente. Ali chegou h oito dias e deve
ter corrido toda a cidade com esse instinto que possui um bom
co de caa quando caa sozinho. Conhece os meus caprichos, as
minhas fantasias, as minhas necessidades; deve ter tudo
organizado  minha vontade. Sabia que eu chegaria hoje s dez
horas e esperava-me desde as nove na Barreira de
Fontainebleau. Entregou-me este papel -  o meu novo endereo.
Tome, leia.

E Monte-cristo passou um papel a Albert.

- Campos Elsios, 30 - leu Morcerf.

- Ora a est uma coisa deveras original! - no pde
impedir-se de dizer Beauchamp.

- E muito principesca - acrescentou Chteau-Renaud.

- Como, no conhece a sua casa?! -- perguntou Debray.

- No - respondeu Monte-cristo. J lhes disse que no queria
chegar atrasado. Mudei de fato na minha carruagem e apeei-me 
porta do visconde.

Os jovens entreolharam-se. Ignoravam se tudo aquilo no seria
uma farsa desempenhada por Monte-cristo, mas tudo o que saa
da boca daquele homem tinha, mal-grado o seu caracter
original, tal cunho de simplicidade que se no podia supor que
mentisse. Alis, porque mentiria?

- Teremos portanto de nos contentar com prestar ao Sr. Conde
todos os pequenos servios que esto ao nosso alcance - disse
Beauchamp.- Eu, na minha qualidade de jornalista, abro-lhe
lodos os teatros de Paris.

- Obrigado, senhor - atalhou, sorrindo, Monte-cristo mas o
meu intendente j tem ordem para me reservar um camarote em
cada um.

-E o seu intendente  tambm um nbio, um mudo? - perguntou
Debray.

- No, senhor,  simplesmente um compatriota vosso, se  que
um corso pode ser compatriota de algum Mas o meu amigo
conhece-o, Sr. de Morcerf.

- Ser por acaso o excelente Signor Berluccio, que to bem se
saiu a alugar as janelas?

- Justamente, e viu-o nos meus aposentos no dia em que tive a
honra de receber o senhor para almoar.  um excelente homem,
que foi um pouco soldado, um pouco contrabandista, um pouco de
tudo o que se pode ser, enfim. No juraria mesmo que no tenha
tido os seus desaguisados com a Polcia, por uma ninharia,
qualquer coisa como uma punhalada...

- E escolheu esse honesto cidado do mundo para seu
intendente, Sr. Conde? - perguntou Debray.- Quanto lhe rouba
ele por ano?

- Bom... palavra de honra, no mais do que qualquer outro,
tenho a certeza - respondeu o conde. - Mas serve-me bem, no
conhece impossveis e por isso conservo-o.

- Portanto, tem a sua casa montada -  observou
Chteau-Renaud. Um palcio nos Campos Elsios, criados,
intendente... s lhe falta uma amante.

Albert sorriu. Pensava na bela grega que vira no camarote do
conde no Teatro Vallo e no Teatro Argentina.

- Tenho melhor do que isso - respondeu Monte-cristo.
- Tenho uma escrava. Os senhores "alugam" as suas amantes no
Teatro da pera, no Teatro do Vaudeville, no Teatro das
Variedades; eu comprei a minha em Constantinopla. Ficou-me
mais cara, mas a esse respeito no tenho de me preocupar com
mais nada.

- Esquece, porm - redarguiu Debray, rindo --, que ns somos,
como disse o rei Carlos, francos de nome e francos por
natureza; que ao pr os ps em terra de Frana a sua escrava
se tornou livre?

- Quem lho dir? - perguntou Monte-Cristo.

- Ora essa, o primeiro que calhar!

- Ela s fala o romaico.

- Isso ento  outra coisa.

- Mas v-la-emos, ao menos? - perguntou Beauchamp. - Ou, assim
como tem um mudo, tambm tem eunucos?

- Juro-lhes que no - respondeu Monte-cristo. - No levo o
meu orientalismo to longe. Todos os que me rodeiam so livres
de me deixar, e deixando-me no precisaro mais de mim nem de
ningum. Talvez seja por isso que me no deixam...

Havia muito tempo que fora servida a sobremesa e tinham vindo
os charutos.

- Meu caro - disse Debray, levantando-se --, so duas e meia,
o seu convvio  muito agradvel, mas no h boa companhia que
se no deixe, s vezes at por uma m. Tenho de voltar ao
ministrio. Falarei do conde ao ministro, pois precisamos de
saber quem ele .

- Cuidado - observou Morcerf. - At os mais espertos
desistiram...

- Ora, temos trs milhes para gastar com a nossa Polcia. 
certo que so quase sempre gastos antecipadamente, mas no
importa, ainda h-de haver uns cinquenta mil francos para
gastar nisso.

- E quando souberem quem ele  dir-mo-?

- Prometo-lhe. Adeus, Albert. Meus senhores, sou um vosso
humlimo criado...

E depois de sair, gritou muito alto na antecmara:

- Mande avanar!

- Bom - disse Beauchamp a Albert --, no vou  Cmara, mas
tenho para oferecer aos meus leitores melhor do que um
discurso do Sr. Danglars.

- Por favor, Beauchamp - pediu Morcerf --, nem uma palavra,
suplico-lhe. No me roube o mrito de o apresentar e explicar.
No  verdade que  curioso?

- E mais do que isso - respondeu Chteau-Renaud --, 
realmente um dos homens mais extraordinrios que j vi na
minha vida. Vem, Morrel?

-  s o tempo de dar o meu carto ao Sr. Conde, que desejo
me prometa fazer-nos uma visitinha na Rua Meslay, 14.

-Esteja certo de que no faltarei. Senhor - respondeu o conde,
inclinando-se.

E Maximilien Morrel saiu com o baro de Chteau-Renaud,
deixando Monte-Cristo sozinho com Morcero.

Captulo XLI

A apresentao


Quando Albert ficou sozinho com Monte-Cristo, disse-lhe: -
Sr. Conde permita-me que inicie consigo o meu ofcio de
cicerone, mostrando-lhe o espcime de um apartamento de rapaz.
Habituado aos palcios de Itlia, ser para si um estudo
interessante calcular em quantos ps quadrados pode viver um
jovem parisiense que no passa por ser dos pior alojados. 
medida que passarmos de uma diviso para a outra abriremos as
janelas para que possa respirar.

Monte-Cristo conhecia j a sala de jantar e a sala de visitas
do rs-do-cho. Albert levou-o primeiro ao seu atelier, se
bem se lembram a sua diviso predilecta.

Monte-Cristo era um digno apreciador de todas as coisas que
Albert acumulara naquela diviso: velhas arcas, porcelanas do
Japo, tecidos do Oriente, vidrilhos de Veneza, armas de todos
os pases do mundo, tudo lhe era familiar, e ao primeiro olhar
reconhecia o sculo, o pas e a origem. Morcerf julgara que
seria ele o explicador e, pelo contrrio, fazia sob a
orientao do conde um curso de arqueologia, mineralogia e
histria natural. Desceram ao primeiro andar. Albert
introduziu o seu hspede na sala. Esta tinha as paredes
cobertas de obras de pintores modernos. Havia paisagens de
Dupr, de extensos canaviais, rvores elegantes, vacas
mugidoras e cus maravilhosos; cavaleiros rabes de Delacroix,
de longos albornozes brancos, faixas brilhantes e armas
lavradas, cujos cavalos se mordiam com raiva, enquanto os
homens se dilaceravam com maas de ferro; aguarelas de
Boulanger, representando Nossa Senhora de Paris, com o vigor
que tornava o pintor o mulo do poeta; telas de Diaz, que
fazia as flores mais belas do que as flores e o Sol mais
brilhante do que o Sol: desenhos de Decamps, to coloridos
como os de Salvator Rosa, mas mais poticos; pastis de
giraud e de Mller representando crianas com caras de anjo e
mulheres com expresses de virgem; esboos arrancados ao lbum
da viagem ao Oriente de Dauzats, rabiscados em poucos segundos
na sela de um camelo ou debaixo da cpula de uma mesquita;
enfim, tudo o que a arte moderna pode dar em troca e em
compensao da arte perdida e desaparecida nos sculos
anteriores.

Albert esperava mostrar, pelo menos desta vez, algo de novo ao
estranho viajante; mas com grande espanto seu, este, sem
necessitar de procurar as assinaturas, algumas das quais no
passavam, de resto, de iniciais, aplicou instantaneamente o
nome de cada autor  sua obra, de forma que era fcil de ver
que no s cada um daqueles nomes lhe era familiar, mas tambm
que cada um daqueles talentos fora estudado e apreciado por
ele.

Da sala passaram ao quarto de dormir. Era ao mesmo tempo um
modelo de elegncia e de gosto severo. Ali havia um nico
retrato, mas assinado por Lopold Robert, e que resplandecia
na sua moldura de ouro fosco.
Esse retrato atraiu imediatamente o olhar do conde de e
Monte-Cristo, que deu trs passos rpidos no quarto e parou
de sbito diante dele.

Era o retrato de uma mulher nova, de vinte e cinco a vinte e
seis anos, morena e de olhar ardente, velado por plpebras
languidas. Envergava o traje pitoresco das pescadoras catals,
com o seu corpete vermelho e negro e as suas agulhas de ouro
espetadas no cabelo. Olhava o mar e a sua silhueta elegante
destacava-se no duplo azul das vagas e do cu.

Estava escuro no quarto, pois de contrrio Albert teria visto
a palidez lvida que se espalhou pelas faces do conde e
surpreendido o estremecimento nervoso que lhe aflorou os
ombros e o peito.

Reinou um instante de silncio, durante o qual Monte-Cristo
manteve os olhos obstinadamente fitos naquela pintura.

- Tem aqui uma bela amante, visconde - disse Monte-Cristo,
numa voz perfeitamente calma. E o traje, traje de baile, sem
dvida, assenta-lhe na realidade maravilhosamente.

- Ah, senhor - disse Albert --, a est um equvoco que lhe
no perdoaria se ao lado desse retrato tivesse visto qualquer
outro! No conhece a minha me, senhor;  ela quem v nesse
quadro. Mandou-se pintar assim h seis ou oito anos. Esse
traje  um traje de fantasia, ao que parece, e a semelhana 
to grande que creio ver ainda minha me tal como era em 1830.
A condessa mandou fazer esse retrato durante uma ausncia do
conde. Sem dvida esperava proporcionar-lhe no regresso uma
agradvel surpresa. Mas, coisa estranha, o retrato no agradou
a meu pai, e nem o valor da pintura, que , como v, uma das
belas telas de Lopold Robert, foi capaz de o demover da
antipatia que lhe tomou. Diga-se em abono da verdade, aqui
entre ns, meu caro conde, que o Sr. de Morcerf  um dos pares
mais assduos no Luxemburgo e um general famoso pela teoria,
mas um amador de arte dos mais medocres. O mesmo no acontece
com a minha me, que pinta notavelmente, e que, estimando
demasiado essa obra para se separar
dela por completo, ma ofereceu, para que junto de mim
estivesse menos exposta ao desagrado do Sr. de Morcerf; de
quem lhe mostrarei o retrato pintado por gros. Desculpe-me se
lhe falo assim to intimamente, mas como vou ter a honra de o
acompanhar junto do conde, digo-lhe isto para que no caia em
gabar este retrato diante dele. De resto, ele tem tido uma
funesta influncia:  raro que a minha me venha aos meus
aposentos sem o ver e mais raro ainda que o veja sem chorar. A
nuvem que trouxe este quadro ao palcio  alis a nica que se
ergueu entre o conde e a condessa, os quais, apesar de casados
h mais de vinte anos, ainda esto unidos como no primeiro
dia.

Monte-Cristo deitou um olhar rpido a Albert, como se
procurasse uma inteno oculta nas suas palavras; mas era
evidente que o rapaz as dissera com toda a simplicidade da sua
alma.

-  Agora j viu todas as minhas riquezas, Sr. Conde - declarou
Albert. - Permita-me que lhas oferea, por muito indignas que
sejam. Faa de conta que est em sua casa e para o pr ainda
mais  vontade queira acompanhar-me aos aposentos do Sr. de
Morcerf a quem escrevi de Roma descrevendo o servio que o
senhor me prestou e anunciei a visita que me prometera. Posso
dizer-lhe que o conde e a condessa esperam com impacincia que
lhes seja permitido agradecer-lhe. Bem sei, Sr. Conde, que 
um pouco insensvel a todas as coisas e que as cenas
familiares no tm muita influncia sobre Simbad, o
Marinheiro, que j viu outras. No entanto, aceite o que lhe
proponho como iniciao na vida parisiense, vida de cortesias,
de visitas e de apresentaes.

Monte-Cristo inclinou-se para responder. Aceitava a proposta
sem entusiasmo nem contrariedade, como uma das convenes da
sociedade que todo o homem educado cumpre como um dever.
Albert chamou o criado e ordenou-lhe que tosse prevenir o Sr.
e a Sr.a de Morcerf da prxima chegada do conde de
Monte-Cristo.

Albert seguiu-o com o conde.

Na antecmara do conde via-se por cima da porta que dava para
a sala um braso, que, pelo seu ornato rico e a sua harmonia
com a decorao da diviso, indicava a importncia que o
proprietrio do palcio lhe atribua.

Monte-Cristo deteve-se diante do braso, que examinou com
ateno.

- Em azul sete melras de ouro pousadas em bando.  sem dvida
o braso da sua famlia, senhor? - perguntou. - Exceptuando o
acontecimento das peas do braso que me permitem decifr-lo,
sou muito ignorante em matria herldica, eu, conde de acaso,
fabricado pela Toscana com o auxlio de uma comendadoria de
Santo Estvo, que me teria dispensado de armar em grande
senhor se me no tivessem repetido que quando se viaja muito 
coisa absolutamente necessria. Porque, enfim, quanto mais no
seja para que os funcionrios aduaneiros nos no incomodem, 
preciso ter qualquer coisa nas portinholas da carruagem.
Desculpe-me pois semelhante pergunta.

- No  de modo algum indiscreto, senhor - respondeu Morcerf
com a simplicidade da convico --, e de facto acertou: so as
nossas armas, isto , as de chefe do meu pai. Mas esto, como
v, ligadas a um braso de gola e torre de prata, que  do
chefe de minha me. Pelo lado materno sou espanhol, mas a casa
de Morcerf  francesa e at, segundo ouvi dizer, uma das mais
antigas do Meio-Dia da Frana.

- Sim - prosseguiu Monte-Cristo --,  o que indicam as
melras. Quase todos os peregrinos armados que tentaram ou
fizeram a conquista da Terra Santa tomaram como armas ou
cruzes, sinal da misso a que se tinham votado, ou pssaros
migradores, smbolo da longa viagem que iam empreender e que
esperavam concluir nas asas da f. Um dos seus antepassados
paternos ter sido de alguma das vossas cruzadas, e mesmo
supondo que fosse apenas a de S. Lus, isso j nos faz
remontar ao sculo XIII, o que  ainda muito bonito.

-  possvel - concordou Morcerf. - No gabinete de meu pai
existe em qualquer parte uma rvore genealgica que nos dir
isso e na qual cheguei a anotar comentrios que seriam muito
elucidativos para Hozier e Jaucourt. Agora j me no preocupo
com isso. No entanto, sempre lhe digo, Sr. Conde, e isto entra
nas minhas atribuies de cicerone, que as pessoas comeam a
ocupar-se muito dessas coisas sob o nosso Governo Popular.

- Bom, nesse caso o vosso Governo deveria ter escolhido no seu
passado coisa melhor do que os dois cartazes que notei nos
vossos monumentos e que no tm nenhum sentido herldico.
Quanto a si, visconde - prosseguiu Monte-Cristo, voltando a
Morcerf --,  mais feliz do que o seu Governo, pois as suas
armas so realmente belas e falam  imaginao. Sim,  isso
mesmo: o senhor  ao mesmo tempo da Provena e de Espanha. E o
que explica, se o retrato que me mostrou est parecido, a bela
cor morena que tanto admirei no rosto da nobre catal.

Seria preciso ser dipo ou a prpria esfinge para adivinhar a
ironia que o conde ps nas suas palavras, aparentemente cheias
da maior delicadeza. Por isso, Morcerf agradeceu-lhe com um
sorriso e, passando  frente para lhe indicar o caminho,
empurrou a porta que se abria por baixo das suas armas e que,
como dissemos, dava para a sala de visitas.
No stio mais em evidncia da sala via-se tambm um retrato: o
de um homem de trinta e cinco a trinta e oito anos, em
uniforme de oficial general, com dragonas em canutilho, sinal
dos graus superiores, a fita da Legio de Honra ao pescoo, o
que indicava que era comendador, e no peito,  direita, a
placa de grande-oficial da Ordem do Salvador e,  esquerda, a
da gr-cruz de Carlos III, o que indicava que a pessoa
retratada participara nas guerras da Grcia e de Espanha ou, o
que significava absolutamente o mesmo em matria de
condecoraes, desempenhara qualquer misso diplomtica nos
dois pases.

Monte-Cristo estava ocupado a observar em pormenor o retrato,
com no menos cuidado do que observara o outro, quando se
abriu uma porta lateral e se encontrou diante do prprio conde
de Morcerf.

Era um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, mas que
parecia ter pelo menos cinquenta, e cujo bigode, bem como as
sobrancelhas pretas, contrastavam estranhamente com os cabelos
quase brancos, cortados  escovinha, em estilo militar. Vestia
 paisana e trazia na lapela uma fita cujas vrias seces
indicavam as diversas ordens com que era condecorado. Entrou
com passo bastante nobre e uma espcie de precipitao.
Monte-Cristo viu-o vir ao seu encontro sem dar um nico
passo; dir-se-ia que os seus ps estavam colados ao cho, tal
como os seus olhos ao rosto do conde de Morcerf.

- Meu pai - disse o rapaz --, tenho a honra de lhe apresentar
o Sr. Conde de Monte-Cristo, o generoso amigo que tive a
felicidade de encontrar nas circunstncias difceis que
conhece.

- Seja bem-vindo entre ns, senhor - disse o conde de Morcerf,
cumprimentando Monte-Cristo com um sorriso.  - Prestou 
nossa casa, conservando-lhe o seu nico herdeiro, um servio
que ter eternamente o nosso reconhecimento.

E, ao dizer estas palavras, o conde de Morcerf indicava uma
poltrona a Monte-Cristo, ao mesmo tempo que ele prprio se
sentava defronte da janela.

Quanto a Monte-Cristo, ao ocupar a poltrona indicada pelo
conde de Morcerf arranjou maneira de ficar oculto na sombra
dos grandes reposteiros de veludo, de modo a ler da, nas
feies marcadas de fadiga e preocupaes do conde, toda uma
histria de sofrimentos ntimos escrita em cada ruga que o
tempo lhe trouxera.

- A Sr.a Condessa - disse Morcerf - estava a arranjar-se
quando o visconde, a mandou prevenir da visita que ia ter a
honra de receber, mas vai descer e dentro de dez minutos
estar na sala.

-  muita honra para mim - declarou Monte-Cristo - ser
assim, logo no dia da minha chegada a Paris, apresentado a um
homem cujo mrito iguala a reputao e com quem a fortuna,
justa uma vez, no incorreu em erro. Mas no ter ela ainda,
nas plancies de Mitidja ou nas montanhas do Atlas, um basto
de marechal para lhe oferecer?

- Infelizmente, senhor - respondeu Morcerf corando um pouco
--, deixei o servio. Nomeado par durante a Restaurao,
participei na primeira campanha e servi sob as ordens do
marechal de Bourmont. Podia portanto aspirar a um comando
superior e quem sabe se isso no teria acontecido se o ramo
primognito tivesse permanecido no trono! Mas a revoluo de
Julho era, ao que parece, bastante gloriosa para se permitir
ser ingrata, e foi-o no tocante a qualquer servio que no
datasse do perodo imperial. Apresentei pois a minha demisso,
porque, quando se ganharam as dragonas no campo de batalha,
no se sabe manobrar muito bem no terreno escorregadio dos
sales. Renunciei  espada, lancei-me na poltica, dedico-me 
indstria e estudo as artes teis. Durante os vinte anos que
permaneci ao servio, bem o desejei, mas nunca tive tempo para
isso.

- So essas coisas que mantm a superioridade da vossa nao
sobre os outros pases, senhor - respondeu Monte-Cristo. -
Fidalgo oriundo de uma grande casa, possuidor de uma bela
fortuna, o senhor comeou por consentir em ganhar os primeiros
postos como soldado obscuro, o que  rarssimo; depois, j
general e par de Frana, comendador da Legio de Honra,
consentiu em recomear segunda aprendizagem, sem outra
esperana, sem outra recompensa alm da de um dia ser til aos
seus semelhantes... Ah, senhor, isso  realmente belo! Direi
mais,  sublime.

Albert olhava e escutava Monte-Cristo com espanto; no estava
habituado a v-lo perfilhar ideias to entusiastas.

- Infelizmente - continuou o estrangeiro, sem dvida para
fazer desaparecer a nuvem imperceptvel que as suas palavras
acabavam de provocar na testa de Morcerf --, no procedemos
assim em Itlia: crescemos consoante a nossa casta e a nossa
espcie, e conservamos a mesma folhagem, o mesmo tamanho e
muitas vezes a mesma inutilidade toda a nossa vida.

- Mas, senhor - respondeu o conde de Morcerf --, para um homem
do seu mrito, a Itlia no  uma ptria e a Frana talvez no
seja ingrata com toda a  gente. Trata mal os seus filhos,
mas habitualmente acolhe com generosidade os estrangeiros.

- Ento, meu pai - interveio Albert com um sorriso --, bem se
v que no conhece o Sr. Conde de Monte-Cristo. As suas
satisfaes no so deste mundo; no aspira a quaisquer honras
e s aceita as que podem caber num passaporte.

- Ora a est a expresso mais justa que alguma vez ouvi a meu
respeito - declarou o visitante.

-- Tem sabido ser senhor do seu futuro - disse o conde de
Morcerf, com um suspiro - e escolheu um caminho florido.

- Exactamente, senhor - replicou Monte-Cristo, com um
daqueles sorrisos que um pintor nunca conseguir reproduzir e
que um fisionomista desesperar sempre de analisar.

- Se no receasse cansar o Sr. Conde - disse o general,
evidentemente cativado pelas maneiras de Monte-Cristo --,
lev-lo-ia  Cmara. H hoje uma sesso curiosa para quem no
conhece os nossos senadores modernos.

-  Ficar-lhe-ei muito reconhecido, senhor, se se dignar
renovar o convite noutra altura; mas hoje lisonjeia-me tanto a
esperana de ser apresentado  Sr.a Condessa que prefiro
esperar.

- Oh, a est a minha me! - exclamou o visconde.

Com efeito, ao virar-se rapidamente, Monte-Cristo viu a Sr.a
de Morcerf  entrada da sala, no limiar da porta oposta quela
por onde entrara o marido. Imvel e plida, deixou, quando
Monte-Cristo se virou para ela, cair o brao que, sem que se
soubesse porqu, apoiara na ombreira dourada.
Estava ali havia alguns segundos e ouvira as ltimas palavras
pronunciadas pelo visitante transalpino.

Este levantou-se e cumprimentou profundamente a condessa, que
se inclinou por seu turno, muda e cerimoniosa.

- Meu Deus, senhora, que tem? - perguntou o conde. - Ser por
acaso o calor desta sala que a incomoda?

- Sente-se mal, minha me? - perguntou o visconde, correndo ao
encontro de Mercds.

Ela agradeceu a ambos com um sorriso.

- No - disse --, mas experimentei certa emoo ao ver pela
primeira vez aquele sem cuja interveno estaramos agora
mergulhados em lgrimas e em luto. Senhor -  continuou a
condessa, adiantando-se com a majestade de uma rainha --,
devo-lhe a vida do meu filho e por esse benefcio o abenoo.
Alm disso, agradeo-lhe o prazer que me proporcionou dando-me
ensejo de lhe agradecer como o abenoei, isto , do fundo do
corao.

O conde inclinou-se novamente, ainda mais do que da primeira
vez. Estava ainda mais plido do que Mercds.

- Minha senhora - disse --, o Sr. Conde e V. Ex.a
recompensam-me com excessiva generosidade de uma aco muito
simples. Salvar um homem, poupar sofrimentos a um pai e a
sensibilidade de uma mulher no  de modo algum uma boa aco,
 praticar um acto de humanidade.

A estas palavras, pronunciadas com uma doura e uma delicadeza
requintadas, respondeu a Sr.a de Morcerf em tom comovido:

-  deveras feliz o meu filho em o ter como amigo, senhor, e
agradeo a Deus ter feito as coisas assim.

E Mercds ergueu os seus belos olhos ao cu com uma gratido
to infinita que o conde julgou ver tremer neles duas
lgrimas.

O Sr. de Morcerf aproximou-se dela.

- Minha senhora - disse -- , j apresentei as minhas
desculpas ao Sr. Conde por ser obrigado a deix-lo, e peo-lhe
que lhas renove. A sesso abriu s duas horas, so trs e devo
falar.

- V, senhor. Procurarei fazer esquecer a sua ausncia ao
nosso hspede - respondeu a condessa no mesmo tom comovido. -
Sr. Conde - continuou virando-se para Monte-Cristo - quer
dar-nos a honra de passar o resto do dia connosco?

- Obrigado, minha senhora, e peo-lhe que acredite que no
poderia estar-lhe mais reconhecido do que estou pelo seu
convite. Mas apeei-me esta manh  sua porta da minha
carruagem de viagem. Como estou instalado em Paris? Ignoro.
Onde estou? Mal o sei. Trata-se de uma preocupao
superficial, bem sei, mas mesmo assim aprecivel.

- Teremos esse prazer outra vez, pelo menos, promete-nos? -
pediu a condessa.

Monte-Cristo inclinou-se sem responder, mas o gesto podia
passar por um assentimento.

- Ento no o retenho mais, senhor - disse a condessa pois no
quero que o meu reconhecimento se transforme numa indiscrio
ou numa importunidade.

- Meu caro conde - disse Albert --, se me permite, tentarei
retribuir-lhe em Paris a sua graciosa cortesia de Roma e pr o
meu cup  sua disposio at que tenha tempo de adquirir as
suas carruagens e os seus cavalos.

- Mil vezes obrigado pela sua gentileza, visconde - agradeceu
Monte-Cristo --, mas presumo que o Sr. Bertuccio ter
empregado convenientemente as quatro horas e meia que acabo de
lhe proporcionar e que encontrarei  porta uma carruagem com
os respectivos cavalos.

Albert estava habituado a estas sadas da parte do conde;
sabia que era como Nero na busca do impossvel e j nada o
surpreendia. No entanto, quis ver pessoalmente de que forma as
ordens do conde tinham sido cumpridas e acompanhou-o  porta
do palcio.

Monte-Cristo no se enganara. Assim que aparecera na
antecmara do conde de Morcerf, um lacaio, o mesmo que em Roma
levara a carta do conde aos dois jovens e lhes anunciara a sua
visita, correra para fora do peristilo, de forma que ao chegar
 escadaria o ilustre viajante encontrou efectivamente a sua
carruagem  sua espera.

Era um cup sado das oficinas de Keller e uma parelha que
ainda na vspera Drake recusara vender por dezoito mil
francos, conforme sabiam todos os "lees" de Paris.

- Senhor - disse o conde a Albert --, no o convido para me
acompanhar a minha casa, porque s lhe poderia mostrar uma
casa improvisada, e como sabe tenho, no tocante a
improvisaes, uma reputao a defender. Conceda-me um dia e
prometo-lhe ento convid-lo. Estarei assim mais certo de no
faltar s leis da hospitalidade.

- Se me pede um dia, Sr. Conde, posso estar tranquilo; j no
ser uma casa que me mostrar, ser um palcio.
Decididamente, o senhor tem qualquer gnio  sua
disposio.

- Por favor, deixe que acreditem nisso - pediu Monte-Cristo,
pondo o p no estribo guarnecido de veludo da sua esplndida
carruagem. - Sempre me beneficiar um pouco junto das
senhoras.

E entrou na carruagem, que se fechou atrs dele e partiu a
galope, mas no to depressa que o conde no visse o movimento
imperceptvel que fez tremer o reposteiro da sala onde deixara
a Sr.a de Morcerf

Quando Albert voltou para junto da me encontrou a condessa no
boudoir, enterrada numa grande poltrona de veludo. Todo o
aposento mergulhado em sombra, s deixava ver o reflexo
cintilante emitido aqui e ali pelo ventre de qualquer jarro
ou pelo canto de alguma moldura dourada.

Albert no pde ver o rosto da condessa, oculto numa nuvem de
gaza que ela enrolara  volta do cabelo como uma aurola
vaporosa, mas pareceu-lhe que tinha a voz alterada.
Distinguiu tambm, entre os perfumes das rosas e dos
heliotrpios da jardineira, o cheiro acre e penetrante dos
sais de vinagre. Com efeito, o frasco da condessa, tirado da
sua capa de chagrm e colocado numa das taas cinzeladas da
chamin, atraiu a ateno inquieta do jovem.

- Di-lhe alguma coisa, minha me? - perguntou assim que
entrou. -  Sentiu-se mal durante a minha ausncia?

- Eu? No, Albert. Mas, compreendes, estas rosas, estas
tuberosas e estas flores de laranjeira exalam durante estes
primeiros calores, a que no estamos habituados, um perfume
to intenso...

- Ento, minha me - redarguiu Morcerf, levando a mo 
campainha -  preciso mandar lev-las para a sua antecmara
Est realmente indisposta. J h pouco, quando entrou, estava
muito plida.

- Estava plida, dizes tu, Albert?

- De uma palidez que lhe fica maravilhosamente, minha me, mas
que nem por isso nos assustou menos, a meu pai e a mim.

- O teu pai falou-te disso? - perguntou vivamente Mercds.

- No, senhora, mas foi a si prpria, lembre-se, que ele fez
essa observao.

- No me recordo - disse a condessa.

Entrou um criado. Acudia ao toque de campainha de Albert.

- Leve estas flores para a antecmara ou para o quarto de
vestir - ordenou o visconde. - Incomodam a Sr.a Condessa.

O criado obedeceu.

Seguiu-se um longo silncio, que durou durante todo o tempo
que levou a transferir as flores.

- Que nome  esse de Monte-Cristo? - perguntou a condessa,
quando o criado saiu levando a ltima jarra de flores. -  um
nome de famlia, o nome de uma terra ou um simples ttulo?

- Creio que  apenas um ttulo, minha me. O conde comprou uma
ilha no arquiplago toscano e, segundo ele prprio dizia esta
manh, instituiu uma comendadoria. Como sabe, isso era prtica
corrente em Santo Estvo de Florena, S. Jorge Constantiniano
de Parma e at na Ordem de Malta. Alis, no tem nenhuma
pretenso  nobreza e diz-se um conde de acaso, embora a
opinio geral em Roma seja que o conde  um grandssimo
senhor.

- As suas maneiras so excelentes - declarou a condessa. -
Pelo menos segundo me foi dado apreciar nos curtos instantes
em que c esteve.

- oh, perfeitas, minha me! To perfeitas at que excedem em
muito tudo o que tenho conhecido de mais aristocrtico nas
trs nobrezas mais orgulhosas da Europa, isto , na nobreza
inglesa, na nobreza espanhola e na nobreza alem.

A condessa reflectiu um instante e depois de curta hesitao
prosseguiu:

- Como compreenders, meu querido Albert, a pergunta que te
vou lazer  uma pergunta de me. Conviveste de perto com o Sr.
de Monte-Cristo e possuis a perspiccia, a experincia do
mundo e mais tacto do que  habitual na tua idade. Achas que o
conde  o que parece realmente ser?

- E que parece ele?

- Tu prprio o disseste h pouco: um grande senhor.

- Disse-lhe, minha me, que o consideravam como tal.

- Mas qual  a tua opinio, Albert?

- Confesso-lhe que no tenho opinio bem assente a seu
respeito. Julgo que  maltez.

- No te perguntei qual era a sua origem; interrogo-te acerca
da sua pessoa.

- Ah, acerca da sua pessoa  diferente! Tenho visto tantas
coisas estranhas nele que, se quer que lhe diga o que penso,
respondo-lhe que o compararia sem custo com um desses homens
de Byron, que a desgraa marcou com o seu selo fatal; com um
Manfredo, com um Lara, com um Werner; com um desses "restos",
enfim, de qualquer velha famlia que, privados da fortuna
paterna, arranjaram outra a poder do seu esprito aventureiro,
que os colocou acima das leis da sociedade.

- Dizes...

- Digo que Monte-Cristo  uma ilha no meio do Mediterrneo,
sem habitantes, sem guarnio, covil de contrabandistas de
todas as naes, de piratas de todos os pases. Quem sabe se
esses dignos industriais no pagam ao seu senhor um direito de
asilo?

-  possvel - admitiu a condessa, pensativa.

- Mas no importa - prosseguiu o jovem. -  Contrabandista ou
no, tem de admitir, minha me, uma vez que o viu, que o Sr.
Conde de Monte-Cristo  um homem notvel e que ter o maior
xito nos sales de Paris. Olhe, esta manh mesmo, nos meus
aposentos, inaugurou a sua entrada na sociedade enchendo de
estupefaco at Chteau-Renaud.

- Que idade pode ter o conde? - perguntou Mercds, ligando
visivelmente grande importncia  pergunta.

- Trinta e cinco a trinta e seis anos, minha me.

- To novo?  impossvel! - redarguiu Mercds, respondendo ao
mesmo tempo ao que lhe dizia Albert e ao que dizia o seu
prprio pensamento.

- Mas  verdade. Disse-me trs ou quatro vezes, e decerto sem
premeditao, que em tal poca tinha cinco anos, noutra dez e
noutra doze. E eu, a quem a curiosidade mantinha atento a tais
pormenores, comparei as datas e nunca o apanhei em falta. A
idade daquele homem singular, que no tem idade,  pois, estou
certo, de trinta e cinco anos. De resto, lembre-se, minha me,
como o seu olhar  vivo, como os seus cabelos so pretos e
como a sua testa, apesar de plida, no tem rugas. Trata-se de
uma natureza no s vigorosa, mas tambm jovem.

A condessa baixou a cabea como que sob uma vaga demasiado
pesada de pensamentos amargos.

- E esse homem concedeu-te a sua amizade, Albert?  -
perguntou, com um arrepio nervoso.

- Creio que sim, senhora.

- E tu... tambm gostas dele?

- Inspira-me simpatia, senhora, apesar de Franz de Epinay o
querer fazer passar a meus olhos por um homem vindo do outro
mundo.

A condessa esboou um gesto de terror.

- Albert - disse com voz alterada --, sempre te recomendei que
tivesses cuidado com os novos conhecimentos. Agora s um homem
e poderias dar-me conselhos a mim prpria; no entanto,
repito-te: s prudente, Albert.

- Para que o conselho me fosse til seria necessrio, querida
me, que soubesse antecipadamente de que me devo acautelar. O
conde nunca joga, o conde s bebe gua dourada por uma gota de
vinho espanhol, o conde declarou-se to rico que me no
poderia pedir dinheiro emprestado sem cair no ridculo. Que
quer que tema da parte do conde?

- Tens razo - reconheceu a condessa - e os meus terrores so
loucos em tomarem por alvo um homem que ainda por cima te
salvou a vida. A propsito, o teu pai recebeu-o bem, Albert? 
importante que sejamos mais do que delicados com o conde. Ora,
o Sr. de Morcerf anda s vezes preocupado, os seus negcios
absorvem-no, e poderia sem querer...

- O meu pai foi perfeito, senhora - interrompeu-a Albert. -
Direi mais: pareceu ficar infinitamente lisonjeado com dois ou
trs cumprimentos deveras hbeis que o conde insinuou com
tanta felicidade como a propsito, como se o conhecesse h
trinta anos. Cada uma daquelas flechazinhas elogiosas deve ter
deleitado o meu pai - acrescentou Albert, rindo --, de modo
que se separaram os melhores amigos do mundo, a ponto de o Sr.
de Morcerf at o querer levar  Cmara para que o ouvisse
discursar.

A condessa no respondeu; estava absorta numa meditao to
profunda que fechara mesmo os olhos pouco a pouco. De p,
diante dela, o jovem olhava-a com esse amor filial mais terno
e afectuoso nos filhos cujas mes ainda so novas e belas.
Depois de a ver fechar os olhos, ouviu-a respirar um instante
na sua suave imobilidade, at que, julgando-a a dormitar, se
afastou em bicos de ps e fechou cautelosamente a porta da
diviso onde deixava a me.

- Diabo do homem - murmurou abanando a cabea --, bem lhe
predisse em Roma que causaria sensao na sociedade. Avalio o
seu efeito por um termmetro infalvel: a minha me notou-o, e
se o notou  porque deve ser notvel.

E desceu s cavalarias com o secreto despeito de, sem seque
ter pensado nisso, o conde de Monte-Cristo ter comprado uma
parelha que remetia os seus baios para segundo lugar no
esprito dos conhecedores.

- Decididamente - disse --, os homens no so todos iguais.
Tenho de pedir ao meu pai que desenvolva este teorema na
Cmara Alta.


Captulo XLII

O Sr. Bertuccio


Entretanto, o conde chegara a casa, depois de gastar seis
minutos no caminho. Mas esses seis minutos tinham bastado para
ser visto por vinte jovens que, conhecedores do preo da
parelha que eles prprios no tinham podido comprar, haviam
posto a montada a galope para ver quem era o grande senhor que
adquirira para seu uso cavalos de dez mil francos cada um.

A casa escolhida por Ali e que devia servir de residncia de
cidade a Monte-Cristo ficava situada  direita, subindo os
Campos Elsios, entre ptio e jardim. Um macio muito frondoso
que se erguia no meio do ptio ocultava parte da fachada.
Partindo desse macio abriam-se como dois braos duas alamedas
que se prolongavam  direita e  esquerda e conduziam as
carruagens, uma vez transposto o porto, a uma dupla
escadaria, em cada degrau da qual se via um vaso de porcelana
cheio de flores. A casa, isolada no meio de um grande espao,
tinha, alm da entrada principal, outra pela Rua de Ponthieu.

Antes mesmo de o cocheiro chamar o porteiro, o porto macio
girou nos gonzos: tinham visto aproximar-se o conde e, em
Paris como em Roma, como em toda aparte, ele era servido com a
rapidez do relmpago. O cocheiro entrou, descreveu o
semicrculo sem diminuir o andamento e o porto j se voltara
a fechar quando as rodas ainda rangiam no saibro da alameda.

A carruagem parou do lado esquerdo da escadaria. Apareceram
dois homens  portinhola: um era Ali, que sorriu ao amo com
incrvel expresso de alegria e se considerou pago com um
simples olhar de Monte-Cristo; o outro cumprimentou
humildemente e ofereceu o brao ao conde para o ajudar a
descer a carruagem.

- Obrigado, Sr. Bertuccio - agradeceu o conde, saltando
agilmente os trs degraus do estribo. - O notrio?

- Est na salinha, Excelncia - respondeu Bertuccio.

- E os cartes de visita que lhe disse mandasse gravar assim
que soubesse o nmero da casa?

- J os mandei fazer, Sr. Conde. Procurei o melhor gravador do
Palais-Royal, que executou a chapa diante de mim. O primeiro
carto tirado foi imediatamente levado, conforme as suas
ordens, ao Sr. Baro Danglars, deputado, residente na Rua da
Chausse-d'Antin, n.o 7. Os outros esto em cima da chamin
do quarto de V. Ex.a.

- Muito bem. Que horas so?

- Quatro horas.

Monte-Cristo entregou as luvas, o chapu e a bengala ao mesmo
criado francs que correra para fora da antecmara do conde de
Morcerf a fim de chamar a carruagem e entrou na salinha,
acompanhado por Bertuccio, que lhe mostrou o caminho.

- Que pobres mrmores os desta antecmara - observou
Monte-Cristo. - Espero que me mandem substituir tudo isto.

Bertuccio inclinou-se.

Como dissera o intendente, o notrio esperava na salinha.

Era uma respeitvel figura de segundo ajudante de notrio em
Paris, elevado  dignidade intransponvel de tabelio dos
subrbios.

- O senhor  o notrio encarregado de vender a casa de campo
que pretendo comprar? - perguntou Monte-Cristo.

- Sou, sim, Sr. Conde - respondeu o notrio.

- A escritura de venda est pronta?

- Est, sim, Sr. Conde.

- Trouxe-a?

- Aqui est.

- Perfeitamente. E onde fica essa casa que vou comprar? -
perguntou negligentemente Monte-Cristo, dirigindo-se em parte
a Bertuccio e em parte ao notrio.

O intendente fez um gesto que significava: "No sei."

O notrio olhou Monte-Cristo com espanto.

- Como, o Sr. Conde no sabe onde fica a casa que vai comprar?
- perguntou.

- Palavra que no - respondeu o conde.

- o Sr. Conde no a conhece?

- E como diabo a devia conhecer se cheguei de Cdiz esta
manh, nunca vim a Paris e  at a primeira vez que ponho os
ps em Frana?

- Isso ento  outra coisa - redarguiu o notrio. - A casa que
o Sr. Conde vai comprar est situada em Auteuil.

Ao ouvir estas palavras, Bertuccio empalideceu visivelmente.

- E onde fica Auteuil? - perguntou Monte-Cristo.

- A dois passos daqui, Sr. Conde-respondeu o notrio. - Um
pouco depois de Passy, numa situao encantadora, no meio do
Bosque de Bolonha.

- To perto? - estranhou Monte-Cristo. - Mas isso no 
campo.

- Eu?! - exclamou o intendente, com estranha precipitao. -
No foi a mim que o Sr. Conde encarregou de escolher essa
casa. Digne-se o Sr. Conde recordar-se, procurar na memria,
recorrer aos seus prprios apontamentos.

- Tem razo, agora me lembro! - disse Monte-Cristo. -  Li um
anncio no jornal e deixei-me seduzir pelo ttulo mentiroso:
"Casa de campo."

- Ainda est a tempo de desistir - interveio vivamente
Bertuccio. - Se V. Ex.a me quiser encarregar de procurar
noutro lado, arranjar-lhe-ei o que houver de melhor, quer em
Enghien, quer em Fontenay-aux-Roses, quer em Bellevue.

- No vale a pena - redarguiu Monte-Cristo,
despreocupadamente. - J que me saiu esta na rifa, ficarei com
ela.

- E tem razo, senhor - declarou vivamente o notrio, que
receava perder os seus honorrios. -  uma propriedade
encantadora: muita gua, bosques frondosos, habitao
confortvel, apesar de abandonada h muito tempo... sem contar
com o mobilirio, que, por mais velho que seja, tem valor,
sobretudo hoje que toda a gente procura antigualhas. Perdo,
mas julgo que o Sr. Conde tem o gosto da sua poca.

- Diga que ainda tenho - corrigiu Monte-Cristo. -  ento
aceitvel?

- Oh, senhor,  melhor do que isso,  magnfica!

- Pronto, no percamos semelhante oportunidade - disse
Monte-Cristo. - A escritura, por favor, Sr. Notrio.

E assinou-a rapidamente, depois de deitar uma olhadela ao
stio onde figuravam a situao da casa e os nomes dos
proprietrios.

- Bertuccio, d cinquenta e cinco mil francos a este
senhor.

O intendente saiu com passo pouco firme e voltou com um mao
de notas, que o notrio contou como homem habituado a receber
o seu dinheiro apenas depois de cumpridas todas as
formalidades legais.

- E agora. est tudo em ordem? - perguntou o conde.

- Tudo, Sr. Conde.

- Tem as chaves?

- Esto em poder do porteiro que guarda a casa, mas aqui est
uma ordem minha para as entregar ao novo proprietrio.

- Muito bem.

E Monte-Cristo fez ao notrio um sinal de cabea que queria
dizer: "J no preciso de si, pode-se ir embora."

- Mas - arriscou o respeitvel tabelio - parece-me que o Sr.
Conde se enganou: ao todo so apenas cinquenta mil francos.

- E os seus honorrios?

- Esto includos nesta importncia, Sr. Conde.

- Mas o senhor no veio de Autouil at aqui?

- Vim, sem dvida.

- Nesse caso, deve-se-lhe pagar o incmodo - redarguiu o
conde.

E despediu-o com um aceno.

O notrio saiu s arrecuas e inclinando-se at ao cho. Era a
primeira vez, desde que assumira as suas funes, que
encontrava um cliente assim.

- Acompanhe esse senhor - ordenou o conde a Bertuccio.

O intendente saiu atrs do notrio.

Assim que ficou s, o conde tirou da algibeira uma carteira
com fechadura, que abriu com uma chavinha que trazia ao
pescoo e de que nunca se separava.

Depois de procurar um instante, deteve-se numa folha de papel
com alguns apontamentos, que confrontou com a escritura de
venda que estava em cima da mesa, e, apelando para as suas
recordaes, murmurou:

- Auteuil, Rua de la Fontaine, n.o 28...  isto, no h
dvida. E agora, deverei confiar numa confisso arrancada pelo
terror religioso ou pelo terror fsico? Enfim, dentro de uma
hora saberei tudo. Bertuccio! - chamou, batendo com uma
espcie de martelinho de cabo dobrvel numa campainha, que
emitiu um som agudo e prolongado, semelhante ao de um gongo. -
Bertuccio!

O intendente apareceu no limiar.

- Sr. Bertuccio, no me disse uma vez que j viajara em
Frana? - perguntou o conde.

- Por certas partes da Frana, sim, Excelncia.

- Conhece os arredores de Paris, sem dvida?

- No, Excelncia, no - respondeu o intendente, com uma
espcie de tremor nervoso que Monte-Cristo, bom conhecedor de
emoes, atribuiu, e com razo, a uma grande inquietao.

-  deplorvel que nunca tenha visitado os arredores de Paris,
pois desejo visitar esta mesma tarde a minha nova propriedade,
e acompanhando-me dar-me-ia sem dvida informaes teis.

- Ir a Auteuil?! - exclamou Bertuccio, cujo rosto acobreado se
tornou quase lvido. - Eu, ir a Auteuil?!

- Ento, que tem de extraordinrio que v a Auteuil, faz favor
de me dizer? Quando eu residir em Auteuil ter de l ir, uma
vez que faz parte do pessoal.

Bertuccio baixou a cabea diante do olhar imperioso do amo e
ficou imvel, sem responder.

- Esta agora! Que mosca lhe mordeu? Terei de tocar segunda vez
a chamar a carruagem? - disse Monte-Cristo n tom com que
Lus XIV pronunciou o famoso: "Quase esperei! "

Bertuccio no deu mais do que um salto da salinha 
antecmara, e gritou com a voz rouca:

- Os cavalos de Sua Excelncia!

Monte-Cristo escreveu duas ou trs cartas. Quando lacrava a
ltima, o intendente reapareceu.

- A carruagem de Sua Excelncia est  porta - anunciou.

- Muito bem! Pegue nas suas luvas e no seu chapu - ordenou
Monte-Cristo.

- Vou com o Sr. Conde? - surpreendeu-se Bertuccio.

- Sem dvida. Tem de dar as suas ordens, pois conto habitar
aquela casa.

No havia exemplo de algum ter replicado a uma ordem do
conde. Por isso, sem fazer qualquer objeco, o intendente
seguiu o amo, que seguiu para a carruagem e lhe fez sinal para
o acompanhar. O intendente sentou-se respeitosamente no banco
da frente.


Captulo

A casa de Auteuil


Monte-Cristo notara que ao descer a escadaria Bertuccio se
benzera  moda dos Corsos, isto , cortando o ar em cruz com o
polegar, e que ao tomar o seu lugar na carruagem murmurara
muito baixo uma curta prece. Qualquer outro que no fosse um
homem curioso teria compaixo da singular repugnncia
manifestada pelo digno intendente acerca do passeio extra
muros planeado pelo conde; mas, ao que parece, este era
demasiado curioso para dispensar Bertuccio daquela
viagenzinha.

Dentro de vinte minutos estavam em Auteuil. A emoo do
intendente fora sempre aumentando. Quando entraram na aldeia,
Bertuccio, encolhido no canto da carruagem, comeou a examinar
febrilmente todas as casas diante das quais passavam.

- Mande parar na Rua de la Fontaine, no n.o 28 - ordenou o
conde, cravando implacavelmente o olhar no intendente.

O rosto de Bertuccio cobriu-se de suor; no entanto, obedeceu
e, debruando-se da carruagem, gritou ao cocheiro:

- Rua de la Fontaine, n.o 28!

O n.o 28 ficava na extremidade da aldeia. Durante a viagem
anoitecera, ou antes, uma nuvem negra carregadinha de
electricidade dava s trevas prematuras a aparncia e a
solenidade de um episdio dramtico.

A carruagem parou e o trintanrio precipitou-se para a
portinhola, que abriu.

- Ento, no desce, Sr. Bertuccio? Tenciona ficar na
carruagem! Em que diabo pensa esta noite? - disse o conde.

Bertuccio precipitou-se para a portinhola e ofereceu o ombro
ao conde, que desta vez se apoiou nele e desceu um a um os
trs degraus do estribo.

- Bata e anuncie-me - ordenou o conde.

Bertuccio bateu, a porta abriu-se e o porteiro apareceu.

- Quem ? - perguntou.

-  o seu novo amo, bom homem - respondeu o trintanrio, e
estendeu ao porteiro o bilhete de apresentao dado pelo
notrio.

- Ento a casa sempre foi vendida? - perguntou o porteiro. - E
 esse senhor que a vem habitar?

- Sou, sim, meu amigo - respondeu o conde. - E procurarei que
no tenha saudades do seu antigo amo.

- Oh, senhor, as saudades j eram poucas, pois vamo-lo muito
raramente! - redarguiu o porteiro. - H mais de cinco anos que
c no vinha e fez muito bem em vender uma casa que lhe no
rendia absolutamente nada.

- Como se chamava o seu antigo amo? - perguntou Monte-Cristo.

- Era o Sr. Marqus de Saint-Mran. Oh, com certeza no
vendeu a casa pelo que ela lhe custou!

- O marqus de Saint-Mran... - repetiu Monte-Cristo. -
Parece-me que esse nome me no  desconhecido. O marqus de
Saint-Mran...

Pareceu procurar na memria.

- Um velho fidalgo - continuou o porteiro --, um fiel servidor
dos Bourbons. Tinha uma filha nica, que casou com o Sr. de
Villefort, que foi procurador rgio em Nmes e depois em
Versalhes.

Monte-Cristo deitou um olhar a Bertuccio, que encontrou mais
lvido do que a parede a que se encostara para no cair.

- Mas essa filha no morreu? - perguntou Monte-Cristo. -
Parece-me que ouvi dizer isso.

- Sim, senhor, h vinte e um anos, e desde ento no vimos
mais de trs vezes o pobre marqus.

- Obrigado, obrigado - agradeceu Monte-Cristo, considerando,
em vista da prostrao do intendente, que no devia esticar
mais a corda, pois corria o risco de a quebrar. - Obrigado!
Arranje-me luz, bom homem.

- Devo acompanhar o senhor?

- No,  intil. Bertuccio alumia-me.

E Monte-Cristo acompanhou estas palavras da oferta de duas
moedas de ouro, que provocaram uma exploso de bnos e
suspiros.

- Ah, senhor, no tenho velas aqui! - exclamou o porteiro
depois de procurar inutilmente no rebordo da chamin e nas
prateleiras contguas.

- Traga uma das lanternas da carruagem, Bertuccio, e mostre-me
as casas - ordenou o conde.

O intendente obedeceu sem comentrios, mas era fcil de ver,
pela tremura da mo que segurava a lanterna, o que lhe custava
obedecer.

Percorreram o rs-do-cho, bastante vasto; o primeiro andar,
composto de uma sala, uma casa de banho e dois quartos. Um dos
quartos comunicava com uma escada de caracol, que terminava no
jardim.

- Olha, uma escada de comunicao - observou o conde. - No
deixa de ser cmodo... Alumie-me, Sr. Bertuccio. Passe adiante
e vejamos aonde nos leva esta escada.

- Vai dar ao jardim, senhor - informou Bertuccio.

- Como sabe isso,  capaz de me dizer?

- Isto , deve ir dar...

- Bom, verifiquemos.

Bertuccio soltou um suspiro e foi  frente. A escada terminava
efectivamente no jardim.

O intendente parou junto da porta exterior.

- Vamos, Sr. Bertuccio! - chamou-o o conde.

Mas o homem estava acabrunhado, aparvalhado, aniquilado.
Os seus olhos alucinados procuravam  sua volta como que os
vestgios de um passado terrvel, e com as mos crispadas
parecia repelir recordaes horrveis.

- Ento? - insistiu o conde.

- No! No! - gritou Bertuccio, pousando a mo na esquina do
muro interior.-No, senhor, no irei mais longe,  impossvel!

- Que est a dizer? - inquiriu a voz irresistvel de
Monte-Cristo.

- O senhor bem v que nada disto  natural! - exclamou o
intendente. - Que querendo comprar uma casa em Paris a fosse
comprar precisamente em Auteuil, e que comprando-a em Auteuil
essa casa fosse o n.o 28 da Rua de la Fontaine! Oh, porque lhe
no disse tudo antes, senhor?! Com certeza no teria exigido
que eu viesse. Esperava que a casa do Sr. Conde fosse outra e
no esta. Como se no existisse outra casa em Auteuil alm da
do assassnio!

- Oh! Oh! - exclamou o conde, parando de sbito. - Que palavra
horrvel acaba de pronunciar! Diabo do homem! Corso de uma
figa! Sempre mistrios ou supersties! Vamos, pegue na
lanterna e visitemos o jardim. Espero que no tenha medo na
minha companhia!

Bertuccio pegou na lanterna e obedeceu.

Aberta a porta, depararam com um cu bao, no qual a Lua se
esforava em vo por lutar contra um mar de nuvens que a
cobriam com as suas vagas sombrias, que iluminava um instante
e em seguida desapareciam, ainda mais escuras, nas profundezas
do infinito.

O intendente quis seguir pela esquerda.

- No, senhor - disse Monte-Cristo. - Para que havemos de ir
pelas alamedas? Temos aqui um excelente relvado, sigamos em
frente.

Bertuccio enxugou o suor que lhe escorria da testa, mas
obedeceu. No entanto, continuava a dirigir-se para a esquerda.

Monte-Cristo, pelo contrrio, dirigia-se para a direita.
Chegado junto de um macio de rvores deteve-se.

O intendente no se conteve.

- Afaste-se, senhor! - gritou. - Afaste-se, suplico-lhe! Est
precisamente no lugar!

- Qual lugar?

- Mesmo no lugar onde ele caiu.

- Meu caro Sr. Bertuccio - redarguiu Monte-Cristo, rindo
domine-se, peo-lhe. No estamos aqui em Sartne ou na Corte.
Isto no  de modo algum  um matagal, mas sim um jardim
ingls, mal conservado, admito, mas que l por isso  escusado
caluniar.

- No fique a. senhor, no fique a, suplico-lhe!

- Creio que endoideceu, mestre Bertuccio - declarou
friamente o conde. - Se assim , diga-me, pois mand-lo-ei
internar em qualquer manicmio antes que acontea, alguma
desgraa.

- Infelizmente, Excelncia - disse Bertuccio abanando a cabea
e agitando as mos, numa atitude que faria rir o conde se
pensamento de interesse superior o no tivessem dominado
naquele momento e tornado atentssimo s mais pequenas
expanses daquela conscincia timorata --, infelizmente
Excelncia, a desgraa j aconteceu.

- Sr. Bertuccio - disse o conde --, desculpe dizer-lhe que a
gesticular dessa maneira torce os braos e rola os olhos como
um possesso de cujo corpo o Diabo no quer sair. ora, tenho
verificado que quase sempre o Diabo mais agarrado ao seu lugar
 um segredo. Sabia que o senhor era corso, via-o
constantemente carrancudo e a ruminar qualquer velha histria
de vendetta, e desculpava-lhe isso em Itlia, porque em
Itlia essas coisas so compreensveis, mas em Frana o
assassnio  geralmente considerado de muito mau gosto. H
gendarmes que se ocupam dele, juizes que o condenam e
cadafalsos que o vingam.


Bertuccio juntou as mos, e como, ao executar as suas diversas
evolues, no largava a lanterna, a luz iluminou-lhe o rosto
transtornado.

Monte-Cristo examinou-o com o mesmo olhar com que em Roma
assistira ao suplcio de Andrea. Depois, num tom de voz que
fez correr um novo arrepio pelo corpo do pobre intendente,
disse:

- O abade Busoni mentiu-me, portanto, quando, depois da sua
viagem a Frana em 1829, o mandou ter comigo com uma carta de
recomendao em que me louvava as suas preciosas qualidades.
Pois bem, vou escrever ao abade. Torn-lo-ei responsvel pelo
seu protegido e saberei sem dvida que caso de assassnio 
esse. Mas desde j o previno, Sr. Bertuccio, que quando visito
um pas tenho o hbito de respeitar as suas leis e que no
tenho vontade de, por sua causa, arranjar problemas com a
justia francesa.

- No faa isso, Excelncia! Tenho-o servido fielmente, no 
verdade? - protestou Bertuccio, desesperado. - Tenho sido
sempre um homem honesto e at praticado o mximo de boas
aces ao meu alcance.

- No digo que no - redarguiu o conde --, mas por que diabo
est agitado dessa maneira? E mau sinal: - uma conscincia
pura no traz tanta palidez s faces nem tanta febre s mos
de um homem...

- Mas, Sr. Conde - contraps Bertuccio, hesitante --, no foi
o senhor mesmo quem me disse que o Sr. Abade Busoni, que ouviu
a minha confisso nas prises de Nmes, o prevenira, ao
mandar-me ter consigo, de que eu tinha um grande peso na
conscincia?

- Pois preveniu, mas como mo recomendava dizendo-me que seria
um excelente intendente, julguei que tivesse roubado, apenas.

- Oh, Sr. Conde! - exclamou Bertuccio, com desdm.

- Ou que, como era corso, no tivesse podido resistir ao
desejo de "fazer uma pele", como dizem na Crsega por
antfrase, quando, pelo contrrio, "desfazem" uma.

- Pois bem, sim, meu senhor, sim, meu bom senhor,  isso! -
gritou Bertuccio, ajoelhando diante do conde. - Sim, foi uma
vingana, juro-lhe, uma simples vingana.

- Compreendo, mas o que no compreendo  que seja precisamente
esta casa a galvaniz-lo a esse ponto.

- Mas, senhor, no  isso tudo quanto h de mais natural, se
foi nesta casa que a vingana se consumou?

- O qu, na minha casa?!

- Oh, senhor, ela ainda lhe no pertencia -- respondeu
ingenuamente Bertuccio.

- De quem era ento? Do Sr. Marqus de Saint-Mran, creio que
foi o que nos disse o porteiro. Que diabo tinha o senhor
contra o marqus de Saint-Mran para se querer vingar dele?

- Oh, no era dele, senhor, era doutro!

- Que estranha coincidncia - murmurou Monte-Cristo,
parecendo submeter-se s suas reflexes - vir ter por acaso,
sem qualquer preparao, a uma casa onde se deu uma cena que
lhe causa to horrveis remorsos...

- Senhor, tenho a certeza de que   fatalidade que se deve
tudo isto - declarou o intendente. - O senhor comea por
comprar uma casa precisamente em Auteuil, e essa casa  aquela
onde cometi um assassnio; depois, o senhor desce ao jardim
precisamente pela escada que ele desceu, e pra precisamente
no stio onde ele recebeu a punhalada... A dois passos da,
debaixo desse pltano, estava a cova onde ele acabava de
enterrar a criana. Nenhuma dessas coisas se deve ao acaso,
no, porque nesse caso o acaso assemelhar-se-ia demasiado 
Providncia.

- Vejamos ento, Sr. Corso: suponhamos que tudo isto  obra da
Providncia; suponho sempre tudo o que quero... De resto, 
necessrio fazer concesses aos espritos doentes. Vejamos,
puxe pela memria e conte-me o que se passou.

- Contei-o apenas uma vez e foi ao abade Busoni. Coisas destas
- acrescentou Bertuccio, abanando a cabea - s se dizem no
segredo da confisso.

- Nesse caso, meu caro Bertuccio - redarguiu o conde --
achar natural que o devolva ao seu confessor. Far-se- com
ele frade cartuxo ou bernardo e confiaro um ao outro os seus
segredos. Pela minha parte, receio ter ao meu servio um homem
que tem medo de semelhantes fantasmas e no me agrada que o
meu pessoal se no atreva a passear de noite no meu jardim.
Depois, confesso, no apreciaria muito a visita de algum
comissrio de polcia. Porque, tome nota disto, mestre
Bertuccio: na Itlia, s se paga  justia quando ela se cala,
mas em Frana s se lhe paga, pelo contrrio, quando ela fala.
Apre! Julgava-o um bocadinho corso, muito contrabandista e
habilssimo intendente, mas verifico que ainda possui outras
capacidades. No quero mais nada consigo, Sr. Bertuccio.

- Oh, senhor, senhor! - exclamou o intendente, aterrorizado
com semelhante ameaa. - Oh, se  preciso apenas isso para que
continue ao seu servio, falarei, direi tudo! E se o deixar,
que seja para subir ao cadafalso.

- Bom, assim  diferente redarguiu Monte-Cristo. - Mas se
tenciona mentir, pense bem: ser melhor no dizer nada.

- No, senhor, juro-lhe pela salvao da minha alma que lhe
direi tudo! Porque o abade Busoni s soube uma parte do meu
segredo... Mas primeiro  suplico-lhe que se afaste desse
pltano. Veja, o luar vai embranquecer aquela nuvem, e a,
colocado como est, envolto nessa capa que me oculta a sua
figura e a assemelha  do Sr. de Villefort...

- Como, isso passou-se com o Sr. de Villefort?! - exclamou
Monte-Cristo.

- Vossa Excelncia conhece-o?

- O antigo procurador rgio de Nmes?

- sim.

- Aquele que casou com a filha do marqus de Saint-Mran?

- Sim.

- E que no foro tinha fama de ser o mais honesto, o mais
severo e o mais rgido magistrado?

- Bom, Sr. Conde - afirmou Bertuccio --, esse homem de
reputao inatacvel...

- Sim.

- Era um infame.

- Ora, ora, impossvel! - redarguiu Monte-Cristo.

-- Pois garanto-lhe que  como lhe digo.

- Deveras? - interessou-se Monte-Cristo. - E o senhor tem a
prova disso?

- Tinha-a, pelo menos.

- E perdeu-a, desastrado?

- Perdi. Mas procurando bem ser possvel reencontr-la.

- Sim? - disse o conde. - Conte-me isso, Sr. Bertuccio, porque
o caso comea realmente a interessar-me.

E o conde, cantarolando uma ariazinha da lucia foi
sentar-se num banco, enquanto Bertuccio o seguia procurando
reunir as suas recordaes e ficava de p diante dele.


Captulo XLIV

A "vendetta "


- Por onde deseja que comece, Sr. Conde? - perguntou
Bertuccio.

- Por onde quiser-respondeu Monte-Cristo --, pois no sei
absolutamente nada.

- Mas eu julgava que o Sr. Abade Busoni dissera a V. Ex.a...

- Sim, contou-me alguns pormenores, sem dvida, mas j
passaram sete ou oito anos e esqueci tudo isso.

- Ento posso, sem receio de aborrecer V. Ex.a...

- Vamos, Sr. Bertuccio, vamos! Servir-me- de jornal da
noite...

- O caso remonta a 1815.

- Ah, ah, no se pode dizer que foi ontem, 1815! - exclamou
Monte-Cristo.

- No, senhor, e no entanto tenho to presentes na memria os
mais pequenos pormenores como se estivssemos apenas no dia
seguinte. Eu tinha um  irmo mais velho, que estava ao
servio do imperador. Tinha o posto de tenente num regimento
constitudo inteiramente por corsos. Esse irmo era o meu
nico amigo. Tnhamos ficado rfos, eu aos cinco anos e ele
aos dezoito, e ele criara-me como se fosse seu filho. Em 1814,
no tempo dos Bourbons, ele casou-se. O imperador regressou da
ilha de Elba, o meu irmo voltou imediatamente ao servio e,
ferido ligeiramente em Waterloo, retirou-se com o Exrcito
para l do Loire.

- Mas o que me est a contar  a histria dos Cem Dias, Sr.
Bertuccio, e essa j est contada, se me no engano - observou
o conde.

- Desculpe, Excelncia, mas estes primeiros pormenores so
necessrios e o senhor prometeu-me ser paciente.

- Continue! Continue! S tenho uma palavra.

- Um dia recebemos uma carta. Devo dizer-lhe que residamos na
aldeiazinha de Rogliano, na extremidade do cabo Corso. A carta
era do meu irmo. Dizia-nos que o Exrcito fora desmobilizado
e que regressava por Chteauroux, Clermond-Ferrand, Le Puy e
Nmes. Pedia-me que no caso de dispor de algum dinheiro lho
mandasse para Nmes, ao cuidado de um estalajadeiro nosso
conhecido, com o qual eu mantinha certas relaes.

- De contrabando - acrescentou Monte-Cristo.

- Meu Deus, Sr. Conde,  preciso viver!

- Decerto. Continue.

- Eu gostava muito do meu irmo, como j lhe disse,
Excelncia. Por isso, resolvi no lhe mandar o dinheiro, mas
sim levar-lho eu mesmo. Possua um milhar de francos, deixei
quinhentos a Assunta, a minha cunhada, peguei nos outros
quinhentos e pus-me a caminho de Nmes. Era coisa fcil, pois
tinha a minha barca e um carregamento para transportar. Tudo
secundava o meu projecto. Mas uma vez a barca carregada,
comearam a soprar ventos contrrios e estivemos quatro ou
cinco dias sem poder entrar no Rdano. Por fim l o
conseguimos e subimos at Arles. Deixei a barca entre
Bellegarde e Beaucaire e tomei o caminho de Nmes.

- Chegmos, no  verdade?

- Sim, senhor. Desculpe, mas como V. Ex.a ver, s lhe digo as
coisas absolutamente necessrias. Ora, estava-se na altura dos
famosos massacres do Meio-Dia. Andavam por l dois ou trs
bandidos chamados Trestaillon, Truphemy e graffan, que
degolavam nas ruas todos aqueles que suspeitavam ser
bonapartistas. O Sr. Conde ouviu decerto falar desses
assassnios?

- Vagamente. Estava muito longe da Frana nessa poca.
Continue.

- Quem entrava em Nmes caminhava literalmente sobre sangue. A
cada passo se encontravam cadveres. Os assassinos,
organizados em quadrilhas, matavam, saqueavam e queimavam.

"Arrepiei-me ao ver aquela carnificina. No por mim. Eu,
simples pescador corso, no tinha grande coisa a temer. Pelo
contrrio, aqueles tempos eram bons para ns, contrabandistas.
Mas temi pelo meu irmo, soldado do Imprio, de regresso do
Exercito do Loire, com o seu uniforme e as suas dragonas, e
que, por consequncia, tinha tudo a recear.

"Corri a casa do nosso estalajadeiro. Os meus pressentimentos
no me tinham enganado: o meu irmo chegara na vspera a Nmes
e fora assassinado mesmo  porta daquele a quem ia pedir
hospitalidade.

"Fiz tudo o que era possvel para descobrir os assassinos,
mas ningum se atreveu a dizer-me os seus nomes, de tal forma
eram temidos. Lembrei-me ento dessa justia francesa de que
tanto me tinham falado, que no teme nada, e fui ter com o
procurador rgio.

- E esse procurador rgio chamava-se Villefort? - perguntou
negligentemente Monte-Cristo.

- Chamava, Excelncia. Viera de Marselha, onde fora
substituto. O seu zelo valera-lhe a promoo. Dizia-se que
fora dos primeiros a anunciar ao Governo o desembarque da ilha
de Elba.

- Portanto - prosseguiu Monte-Cristo --, apresentou-se no seu
gabinete.

"-- Senhor - disse-lhe eu --, o meu irmo foi assassinado
ontem nas ruas de Nmes, no sei por quem, mas  sua misso
sab-lo. O senhor  aqui chefe da justia e compete  justia
vingar aqueles que no soube defender.

"-- E quem era o seu irmo? - perguntou o procurador rgio.

"-- O meu irmo era tenente do batalho corso.

"-- Um soldado do usurpador, portanto?

"-- Um soldado dos exrcitos franceses.

"-- Bom - replicou ele --, empunhou a espada, morreu pela
espada.

"-- Engana-se, senhor, morreu pelo punhal.

"-- Que quer que faa? - respondeu o magistrado.

"-- o que lhe disse: quero que o vingue.

"-- E de quem?

"-- Dos seus assassinos.

"-- Sei l quem so!

"-- Mande-os procurar.

"-- Para qu? O seu irmo deve ter tido qualquer questo e
bateu-se em duelo. Todos esses antigos soldados se entregam a
excessos, de que se saam bem no tempo do Imprio, mas de que
se saem mal agora. O povo do Meio-Dia no gosta de soldados
nem de excessos.

"-- Senhor - insisti --, no  por mim que lhe peo. Eu,
chorarei ou vingar-me-ei e pronto. Mas o meu pobre irmo tinha
mulher. Se me acontecesse tambm alguma desgraa, essa pobre
criatura morreria de fome, pois vivia exclusivamente dos
ganhos do meu irmo. Obtenha-lhe uma pensozinha do Governo...

"-- Cada revoluo tem as suas catstrofes - respondeu o Sr.
de Villefort. - O seu irmo foi vtima desta, foi uma
infelicidade, mas o Governo no deve nada  famlia por isso.
Se fssemos a julgar todas as vinganas que os partidrios do
usurpador exerceram sobre os partidrios do rei quando por sua
vez dispunham do poder, o seu irmo talvez fosse hoje
condenado  morte. O que aconteceu  naturalssimo;  a lei
das represlias.

"-- O qu, senhor - gritei --, ser possvel que me fale
assim, o senhor, um magistrado?!

"-- Todos estes corsos so loucos, palavra de honra! -
respondeu o Sr. de Villefort. - Julgam ainda que o seu
compatriota  imperador. Engana-se no tempo, meu caro. Devia
ter vindo dizer-me isso h dois meses. Hoje  demasiado tarde.
Retire-se, portanto, porque se no se retira, mando-o pr l
fora.

"Olhei-o um instante para ver se haveria alguma coisa a
esperar de uma nova  splica. Mas aquele homem era de pedra.
Aproximei-me dele e disse-lhe a meia voz:

"-- Bom, uma vez que conhece os Corsos, deve saber que cumprem
a sua palavra. Acha bem que tenham matado o meu irmo por ser
bonapartista, porque o senhor  monrquico. Pois bem, eu que
tambm sou banapartista, declaro-lhe uma coisa: que o matarei.
A partir deste momento declaro-lhe a vendetta. Assim,
acautele-se, tome o maior cuidado possvel, porque da primeira
vez que nos encontrarmos frente a frente soar a sua ltima
hora.

"E dito isto, antes que se recompusesse da surpresa, abri a
porta e fugi.

- Ah, ah! - exclamou Monte-Cristo. - Ento o senhor, com essa
cara de quem no quebra um prato, faz dessas coisas, Sr.
Bertuccio? E a um procurador rgio, ainda por cima! Safa! E
ele sabia, ao menos, o que queria dizer a palavra vendetta?

- Sabia-o to bem que a partir daquele momento nunca mais saiu
sozinho. Fechou-se em casa e mandou-me procurar por toda a
parte. Felizmente estava to bem escondido que no conseguiu
encontrar-me. Ento, o medo apoderou-se dele e receou ficar
mais tempo em Nmes. Solicitou a transferncia e, como era de
facto um homem influente, nomearam-no para Versalhes. Mas,
como o senhor sabe, no h distncias para um corso que jurou
vingar-se do seu inimigo, e a sua carruagem, por melhor
conduzida que fosse, nunca teve mais do que meio dia de avano
sobre mim, que no entanto a seguia a p.

"O importante no era mat-lo; tive cem vezes oportunidade
para isso. Mas era preciso mat-lo sem ser descoberto e
sobretudo sem ser preso. Desde ento j me no pertencia:
tinha de proteger e sustentar a minha cunhada. Durante trs
meses vigiei o Sr. de Villefort; durante trs meses no deu um
passo, um passeio, sem que o meu olhar o no seguisse. Por
fim, descobri que vinha misteriosamente a Auteuil. Voltei a
segui-lo e vi-o entrar nesta casa onde estamos. Simplesmente,
em vez de entrar como entraria qualquer pessoa, pela porta
principal, vinha a cavalo ou de carruagem, deixava a carruagem
ou o cavalo na estalagem e entrava por aquela portinha que v
ali.

Monte-Cristo acenou com a cabea a confirmar que no meio da
escurido distinguia efectivamente a entrada indicada por
Bertuccio.

- Como j no necessitava de permanecer em Versalhes,
instalei-me em Auteuil e informei-me. Se o queria apanhar, era
evidentemente aqui que devia armar a minha cilada.

"-- A casa pertencia, como o porteiro disse a V. Ex.a, ao Sr.
de Saint-Mran, sogro de Villefort. O Sr. de Saint-Mran
residia em Marselha, por consequncia, esta casa de campo
era-lhe intil. Dizia-se por isso que a alugara a uma jovem
viva que toda a gente conhecia apenas por "a baronesa".

"De facto, uma noite, espreitando por cima do muro, vi uma
mulher nova e bonita passear sozinha neste jardim, que nenhuma
janela estranha dominava. Olhava com frequncia para o lado da
portinha e compreendi que naquela noite esperava o Sr. de
Villefort. Quando chegou suficientemente perto de para, apesar
do escuro, lhe poder distinguir as feies, vi uma mulher nova
e bonita, de dezoito ou dezanove anos, alta e loura. Como
trazia um simples penteador e nada lhe comprimia a cintura,
pude notar que estava grvida e que a gravidez parecia at
bastante adiantada.

"Pouco depois abriu-se a portinha. Entrou um homem. A jovem
correu o  mais depressa que pde ao seu encontro.
Lanaram-se nos braos um do outro, beijaram-se ternamente e
dirigiram-se juntos para a casa.

"Aquele homem era o Sr. de Villefort. Calculei que quando
sasse, sobretudo se sasse alta noite, deveria atravessar
sozinho o jardim em todo o seu comprimento.

- E soube depois o nome da mulher? - perguntou o conde.

- No, Excelncia - respondeu Bertuccio. - Como vai ver, no
tive tempo de o descobrir.

- Continue.

- Naquela noite - prosseguiu Bertuccio - talvez tivesse podido
matar o procurador rgio; mas ainda no conhecia
suficientemente o jardim, em todos os seus pormenores, e
receava no conseguir fugir se o no matasse depressa e algum
acorresse aos seus gritos. Adiei, pois, a morte para o prximo
encontro, e para que nada me escapasse aluguei um quartinho
com janela para a rua que corria ao longo do muro do jardim.

"Trs dias depois, por volta das sete horas da tarde, vi sair
da casa um criado a cavalo, que tomou a galope o caminho que
levava  estrada de Svres. Presumi que ia a Versalhes e no
me enganava. Trs horas mais tarde, outro homem a p, envolto
numa capa, abriu a portinha, que se fechou atrs dele.

"Desci rapidamente. Embora no tivesse visto o rosto de
Villefort, reconheci-o pelas pulsaes do meu corao.
Atravessei a rua e alcancei um marco colocado  esquina do
muro e com o auxlio do qual olhara pela primeira vez para o
jardim

"Desta vez no me limitei a olhar - tirei a minha navalha da
algibeira, verifiquei se a ponta estava bem afiada e saltei
por cima do muro.

"O meu primeiro cuidado foi correr para a porta. Tinha
deixado a chave na fechadura e tomara a simples precauo de
lhe dar duas voltas.

"Nada dificultava a minha fuga por aquele lado. Pus-me a
estudar o local. O jardim formava um rectngulo, tinha um
relvado de fina relva inglesa no meio e aos cantos do relvado
havia macios de rvores de folhagem abundante e todas
entrelaadas de flores de Outono.

"Para ir de casa  portinha ou da portinha  casa, quer
entrasse, quer sasse, o Sr. de Villefort era obrigado a
passar junto de um dos macios.

"Estvamos em fins de Setembro. O vento soprava com fora. Um
luar plido e velado a cada instante por grossas nuvens que
deslizavam rapidamente no cu clareava o saibro das alamedas
que conduziam a casa, mas no conseguia penetrar nos macios
frondosos, nos quais se poderia esconder um homem sem receio
de ser descoberto.

"Ocultei-me no que ficava mais perto da passagem de
Villefort. Mal me instalei, julguei ouvir como que gemidos no
meio das rajadas de vento que curvavam as rvores por cima da
minha cabea. Mas, como sabe, ou antes, no sabe, Sr. Conde,
aquele que espera o momento de cometer um assassnio julga
sempre ouvir gritos abafados no ar. Passaram duas horas
durante as quais, por vrias vezes, me pareceu ouvir os mesmos
gemidos. Deu a meia-noite.

"Quando o ltimo som vibrava ainda, lgubre e ressoante, vi
um claro iluminar as janelas da escada oculta pela qual
descemos h pouco.

"A porta abriu-se e o homem da capa reapareceu. Chegara o
terrvel momento. Mas havia tanto tempo que me preparara para
ele que nada em mim fraquejou. Puxei da navalha, abri-a e
esperei.

"O homem da capa veio direito a mim. Mas  medida que
avanava no espao descoberto, julguei notar que trazia uma
arma na mo direita. Tive medo, no de uma luta, mas sim de um
malogro. Quando, porm, chegou apenas a alguns passos de num,
verifiquei que o que tomara por uma arma no passava de uma
enxada.

"Ainda no conseguira adivinhar com que fim o Sr. de
Villefort trazia uma enxada na mo, quando ele parou na orla
do macio, deitou um olhar  sua volta e comeou a abrir um
buraco na terra. Foi ento que descobri que havia qualquer
coisa na capa, que acabava de depositar no relvado para ter os
movimentos mais livres.

"Ento, confesso, insinuou-se no meu dio um pouco de
curiosidade. Quis ver o que vinha fazer ali Villefort. Fiquei
imvel, sem respirar, e esperei.

"Depois acudiu-me uma ideia, que se confirmou quando vi o
procurador rgio tirar da capa um cofrezinho de dois ps de
comprimento e seis a oito polegadas de largura.

"Deixei-o depositar o cofre na cova e cobri-lo de terra. Em
seguida, calcou com os ps a terra fresca, para fazer
desaparecer os vestgios da sua obra nocturna. Atirei-me ento
a ele e cravei-lhe a navalha no peito, dizendo:

"-- Sou Giovanni Bertuccio! A lua morte para o meu irmo, o
teu tesouro para a sua viva! Bem vs que a minha vingana 
mais completa do que esperava.

"No sei se ouviu estas palavras; no creio, porque caiu sem
soltar um grito. Senti as golfadas do seu sangue jorrarem-me
escaldantes sobre as mos e a cara; mas estava brio,
delirava, e aquele sangue refrescava-me em vez de me queimar.
Num segundo, desenterrei o cofrezinho com o auxlio da enxada,
e depois, para que ningum notasse que o roubara, enchi por
minha vez o buraco de terra, atirei a enxada por cima do muro,
corri para a porta, sa e fechei-a com duas voltas pelo lado
de fora. Guardei a chave e tugi.

- Bom, pelo que vejo um assassiniozinho, seguido de roubo -
observou Monte-Cristo.

- No, Excelncia - respondeu Bertuccio --, uma vendetta,
segui da de restituio.

- E a importncia era avultada, ao menos?

- No era dinheiro.

- Ah! Sim, j me lembro - disse Monte-Cristo. -- No se
referiu a uma criana?

- Justamente, Excelncia. Corri para o rio, sentei-me no
talude e, ansioso por saber o que continha o cofre, fiz saltar
a fechadura com a navalha.

"Num cueiro de fina cambraia de linho estava envolta uma
criana recm-nascida. O rosto purpreo e as mos roxas
indicavam que devia ter sucumbido a asfixia causada por
ligamentos naturais enrolados  volta do pescoo. No entanto,
como ainda no estava fria, hesitei em atir-la  gua que me
corria aos ps. Com efeito, passado um instante, julguei notar
uma leve pulsao na regio do corao. Libertei-lhe o pescoo
do cordo que o envolvia e, como fora enfermeiro no hospital
de Bstia, fiz o que faria um mdico em semelhantes
circunstncias, isto : insuflei-lhe corajosamente ar nos
pulmes, e passado um quarto de hora de esforos inauditos vi
a criana respirar e ouvi um grito sair-lhe do peito.

"Soltei por minha vez um grito, mas um grito de alegria.
"Deus no me  amaldioou", disse para comigo, "pois
permite-me que restitua a vida a uma criatura humana em troca
da vida que tirei a outra!"

- E que fez dessa criana? - perguntou Monte-Cristo. - Era
uma bagagem bastante embaraosa para um homem que necessitava
de fugir.

- Por isso no me passou sequer pela cabea ficar com ela. Mas
sabia que existia em Paris um hospcio onde recebiam essas
pobres crianas. Quando transpus a barreira, declarei ter
achado a criana na estrada e informei-me. O cofre estava ali
e era uma prova; o cueiro de cambraia indicava que a criana
tinha pais ricos; o sangue que me cobria tanto podia pertencer
 criana como a qualquer outro indivduo. No me fizeram
nenhuma objeco. Indicaram-me o hospcio, que ficava mesmo ao
fundo da Rua do Inferno, e, depois de tomar a precauo de
cortar o cueiro em dois, de maneira que uma das duas letras
que o marcavam ficasse na parte que envolvia o corpo da
criana, depositei o, meu fardo na roda, toquei e raspei-me a
toda a velocidade. Quinze dias mais tarde estava de volta a
Rogliano e dizia a Assunta: "Consola-te, minha irm; Israel
morreu, mas vinguei-o."

"Ento ela pediu-me explicaes destas palavras e eu
contei-lhe tudo o que se passara.

"-- Giovanni - disse-me Assunta --, devias ter trazido essa
criana. Faramos as vezes dos pais que perdeu,
chamar-lhe-iamos Benedetto, e graas a essa boa aco Deus
abenoar-nos-ia efectivamente.

"Como nica resposta entreguei-lhe a metade do cueiro que
guardara, a fim de poder reclamar a criana se fssemos mais
ricos.

- E com que letras estava marcado o cueiro? - perguntou
Monte-Cristo.

- Com um H e um N encimados por uma fiada de prolas de baro.

- Creio, Deus me perdoe, que se serve de termos de herldica,
Sr. Bertuccio! Onde diabo estudou essa matria?

- Ao seu servio, Sr. Conde, onde se aprendem todas as coisas.

- Continue. Estou com curiosidade de saber dois pormenores.

- Quais, senhor?

- O que foi feito desse rapazinho... No me disse que era um
rapazinho, Sr. Bertuccio?

- No, Excelncia. No me lembro de dizer tal coisa.

- Ah! Julgava ter ouvido, mas decerto enganei-me.

- No, no se enganou, porque era efectivamente um rapazinho.
Mas V. Ex.a desejava, dizia, saber dois pormenores. Qual  o
segundo?

- O segundo  o crime de que o acusavam quando pediu um
confessor e o abade Busoni o foi encontrar na priso de Nmes.

- Essa histria talvez seja demasiado longa, Excelncia.

- Que importa? So apenas dez horas, sabe que no durmo e
suponho que da sua parte tambm no tenha grande vontade de
dormir.

Bertuccio inclinou-se e retomou a sua narrativa.

- Em parte para expulsar as recordaes que me assediavam e em
parte para prover as necessidades da pobre viva, entreguei-me
com ardor  profisso de contrabandista, tornada mais fcil
devido ao afrouxamento do cumprimento das leis que se segue
sempre s revolues. As costas do Meio-Dia, sobretudo,
estavam mal guardadas devido aos eternos motins que se
verificavam ora em Avinho, ora em Nmes, ora em Uzs.
Aproveitmos aquela espcie de trgua  que nos era concedida
pelo Governo para estabelecer relaes com todo o litoral.
Desde o assassnio do meu irmo nas ruas de Nmes nunca mais
quisera entrar na cidade. Da resultou que o estalajadeiro com
que tnhamos negcios, vendo que j o no procurvamos, viera
ter connosco e fundara uma sucursal da estalagem na estrada de
Bellegarde a Beaucaire, a que dera o nome de Pont du gard.
Tnhamos assim, quer do lado de Aigues-Mortes, quer de
Martigues, quer de Bouc, uma dzia de entrepostos onde
depositvamos as mercadorias e, se necessrio, encontrvamos
rf'gio contra os guardas-fiscais e os
gendarmes. A profisso de contrabandista  muito rendosa
quando se pratica com alguma inteligncia, secundada por certa
actividade. Quanto a mim, vivia nas montanhas, pois tinha
dobradas razes para temer gendarmes e guardas-fiscais,
atendendo a que qualquer comparncia perante os juizes podia
originar uma investigao, a que essa investigao  sempre
uma excurso pelo passado e a que no meu passado se podia
encontrar ento algo mais grave do que charutos entrados de
contrabando ou barris de aguardente circulando sem guias de
transito. Por isso, preferindo mil vezes a morte  priso,
fazia coisas espantosas e que por mais de uma vez me
demonstraram que o excessivo cuidado que tomamos com a pele 
quase o nico obstculo ao xito dos nossos projectos, que
exigem deciso rpida e execuo enrgica determinada. Com
efeito; desde que estejamos dispostos a sacrificar a vida,
deixamos de ser como os outros homens, ou antes, os outros
homens  que deixam de ser como ns, e quem toma semelhante
resoluo sente decuplicar imediatamente as suas foras e
alargar-se o seu horizonte.

- Deixe-se de filosofia, Sr. Bertuccio! - interrompeu-o o
conde. - Mas, pelos vistos, o senhor tem feito um pouco de
tudo na sua vida...

- Oh, perdo, Excelncia, pela filosofia!

- No, no! S lhe chamei a ateno porque s dez e meia da
noite  um bocadinho tarde para filosofar... Tirando isso, no
tenho mais nenhuma objeco a fazer, atendendo a que a acho
exacta, o que se no pode dizer de todas as filosofias.

- As minhas incurses tornaram-se portanto cada vez mais
numerosas e tambm mais frutuosas. Assunta era poupada e a
nossa fortunazinha aumentava. Um dia, antes de partir para uma
viagem, disse-me ela: "Vai, que no eu regresso reservo-te uma
surpresa." Interroguei-a inutilmente, no me quis dizer mais
nada e parti.

"A viagem durou perto de seis semanas. Fomos a Luca carregar
azeite e a Liorne algodo ingls. Desembarcmos e
descarregmos sem qualquer contratempo, fizemos o nosso
negcio e regressamos alegremente.

"Quando entrei em casa, a primeira coisa que vi no stio mais
em evidncia do quarto de Assunta, num bero sumptuoso,
relativamente ao resto da casa, foi uma criana de sete a oito
meses. Soltei um grito de alegria. Os nicos momentos de
tristeza que experimentara desde o assassnio do procurador
rgio tinham-me sido causados pelo abandono daquela criana.
Escusado ser dizer que remorsos do prprio assassnio nem
sombra deles

"A pobre Assunta adivinhara tudo e aproveitara a minha
ausncia para. munida de metade do cueiro, tendo inscrito,
para no faltar nada, o dia e a hora exacta em que a criana
fora depositada no hospcio, ir a Paris reclam-la
pessoalmente. Nenhuma objeco lhe fora feita e a criana
fora-lhe entregue.

"Confesso, Sr. Conde, que ao ver a pobre criatura a dormir no
seu bero o peito se me dilatou e as lgrimas me saltaram dos
olhos.

"-- Na verdade, Assunta, s uma digna mulher e a Providncia
te abenoar! -- gritei.

- Isso j  menos exacto do que a sua filosofia - comentou
Monte-Cristo. - No fundo, trata-se apenas de uma questo de
f.

- Infelizmente, Excelncia - prosseguiu Bertuccio --, tem toda
a razo e foi aquela mesma criana que Deus encarregou de me
castigar. Nunca natureza mais perversa se declarou mais
prematuramente, e no entanto ningum poder dizer que foi mal
educado, pois a minha cunhada tratava-o como o filho de um
prncipe. Era um rapaz de rosto encantador, com olhos de um
azul-claro como esses tons de faiana chinesa que tambm se
harmonizam com o branco leitoso do tom geral. Apenas o cabelo,
de um louro demasiado vivo, lhe dava ao rosto um aspecto
estranho, que duplicava a vivacidade do seu olhar e a malcia
do seu sorriso. Infelizmente, h um provrbio que diz que os
ruos ou so muito bons ou so muito maus. O provrbio no
mente no que diz respeito a Benedetto, que desde a juventude
se mostrou muito mau. Tambm  verdade que a ternura da sua
me adoptiva encorajou as suas primeiras inclinaes. O
garoto, para quem a minha pobre cunhada ia ao mercado da
cidade, situada a quatro ou cinco lguas de casa, comprar os
primeiros frutos e as guloseimas mais delicadas, preferia, s
laranjas de Palma de Maiorca e s conservas de gnova, as
castanhas roubadas ao vizinho saltando as sobes, ou as mas
secas do seu celeiro, embora tivesse  sua disposio as
castanhas e as mas do nosso pomar.

"Um dia, teria Benedetio cinco ou seis anos, o vizinho
Wasilio, que, conforme os hbitos da nossa terra, no fechava
nem a sua bolsa nem as suas jias, porque, como o Sr. Conde
sabe melhor do que ningum, na Crsega no h ladres... um
dia, o vizinho Wasilio queixou-se-nos de que lhe desaparecera
um lus da bolsa. Pensmos que tivesse contado mal, mas ele
afirmara que no. Nesse dia, Benedetto sara de casa logo de
manh e estvamos numa grande inquietao, quando  tardinha o
vimos chegar com um macaco que achara, dizia ele, preso a uma
rvore.

"Havia um ms que a paixo do terrvel garoto, que no sabia
que mais inventar, era ter um macaco. Um saltimbanco que
passara por Rogliano e possua vrios desses animais, cujas
piruetas o tinham divertido muito,  que lhe inspirara, sem
dvida, o malfadado capricho.

"-- No h macacos nos nossos bosques - disse-lhe eu --, e
sobretudo macacos amarrados. Diz-me portanto como arranjaste
esse.

"Benedetto manteve a mentira e acompanhou-a de pormenores que
honravam mais a sua imaginao do que a sua veracidade.
Irritei-me e ele desatou a rir, ameacei-o, e ele deu dois
passos atrs.

"-- No me podes bater - disse. - No tens esse direito, no
s o meu pai.

"Ignormos sempre quem lhe revelara o fatal segredo, que
entretanto tnhamos ocultado com o maior cuidado. Como quer
que fosse, tal resposta, em que o garoto se revelou por
completo, quase me assustou e o meu brao erguido caiu,
efectivamente, sem tocar no culpado. O pequeno triunfou e
aquela vitria deu-lhe tal audcia que a partir dali todo o
dinheiro de Assunta, cujo amor por ele parecia aumentar 
medida que se tornava menos digno, se foi em caprichos que ela
no sabia contrariar, em loucuras que ela no tinha a coragem
de impedir.  Quando eu estava em Rogliano, as coisas ainda
iam razoavelmente; mas assim que eu partia, Benedetto
apoderava-se da casa e tudo corria mal. Apesar de contar
apenas onze anos, escolhia todos os seus camaradas entre os
rapazes de dezoito ou vinte anos, dos piores de Bstia e de
Corte, e j, devido a algumas travessuras que mereciam nome
mais srio, framos advertidos pla justia.

"Assustei-me. Qualquer investigao poderia ter consequncias
funestas. Ia precisamente ser obrigado a ausentar-me da
Crsega numa expedio importante. Pensei demoradamente e, no
pressentimento de evitar qualquer desgraa, decidi levar
Benedetto comigo. Esperava que a vida activa e dura de
contrabandista e a disciplina rigorosa de bordo modificassem
aquele carcter prestes a corromper-se, se no estivesse j
horrivelmente corrompido.

"Chamei portanto Benedetto de parte e propus-lhe que me
acompanhasse, rodeando a proposta de todas as promessas que
podem seduzir um garoto de doze anos.

"Deixou-me ir at ao fim, e quando acabei desatou a rir.

"-- Enlouqueceu, meu tio? - perguntou (tratava-me assim quando
estava de bom humor) - Eu trocar a vida que levo pela que voc
leva, a minha boa e excelente ociosidade pelo horrvel
trabalho que lhe  imposto? Passar a noite ao trio e o dia ao
calor, esconder-me constantemente, no me poder mostrar para
no ser corrido a tiro de espingarda, e tudo isso para ganhar
algum dinheiro?... Dinheiro tenho eu todo o que quero! A minha
me Assunta d-mo assim que lhe peo. Bem v, portanto, que
seria um imbecil se aceitasse a sua proposta."

"Fiquei estupefacto com semelhante audcia e semelhante
raciocnio. Benedetto voltou para junto dos seus camaradas e
vi-o de longe apontar-me a eles como um idiota.

- Encantadora criana! -  murmurou Monte-Cristo.

- Oh, se me pertencesse - respondeu Bertuccio --, se fosse meu
filho, ou pelo menos meu sobrinho, t-lo-ia trazido ao bom
caminho, porque a conscincia d-nos fora! Mas a ideia de
bater numa criana cujo pai matara tornava-me todo e qualquer
castigo impossvel. Dava bons conselhos  minha cunhada, que
nas nossas discusses tomava constantemente a defesa do
"Pobrezinho", e como me confessasse que por vrias vezes lhe
tinham desaparecido importncias considerveis, indiquei-lhe
um sitio onde poderia esconder o nosso pequeno tesouro. Quanto
a mim, a minha resoluo estava tomada. Benedetto sabia
perfeitamente ler, escrever e contar, porque quando por acaso
se dispunha a trabalhar aprendia num dia o que os outros
aprendiam numa semana. Mas, dizia eu, a minha resoluo estava
tomada: tencionava matricul-lo como secretrio em qualquer
navio de longo curso e, sem o prevenir de nada, mandar
deitar-lhe a mo uma bela manh e lev-lo para bordo. Assim, e
recomendando-o ao comandante, todo o seu futuro dependeria
dele. Tudo planeado, parti para Frana.

"Daquela vez todas as nossas operaes deveriam efectuar-se
no golfo de Lio, o que era cada vez mais difcil, pois
estvamos em 1829. A tranquilidade encontrava-se perfeitamente
restabelecida, e por consequncia o servio de vigilncia das
costas tornara-se mais regular e rigoroso do que nunca. A
vigilncia fora ainda aumentada
momentaneamente devido  feira de Beaucaire, que acabava de
abrir.

"Os princpios da expedio decorreram sem contratempos.
Amarrmos a  nossa barca, que tinha um fundo duplo, onde
escondamos as mercadorias de contrabando, no meio de uma
quantidade de barcos que cobriam as duas margens do Rdano, de
Beaucaire a Arles. Uma vez chegados,  comeamos a descarregar
de noite as nossas mercadorias proibidas e a pass-las para a
cidade por intermdio de pessoas relacionadas connosco ou de
estalajadeiros em casa dos quais tnhamos depsitos. Quer
porque o xito nos tivesse tornado imprudentes, quer por
termos sido denunciados, uma tarde, por volta das cinco horas,
quando nos preparvamos para merendar, o nosso grumete
apareceu muito assustado dizendo que vira uma patrulha de
guardas-fiscais dirigir-se para o nosso lado. No era
precisamente a patrulha que nos preocupava; a cada instante,
sobretudo naquele momento, companhias inteiras percorriam as
margens do Rdano. O que nos preocupava eram as precaues
que, no dizer do pequeno, a patrulha tomava para no ser
vista. Levantmo-nos imediatamente, mas era demasiado tarde; a
nossa barca, evidentemente o alvo das buscas, estava cercada.
Entre os guardas-fiscais notei alguns gendarmes; e, to
medroso diante deles como era habitualmente corajoso diante de
qualquer outro corpo militar, desci ao poro e, esgueirando-me
por uma escotilha, deixei-me levar pelo rio e depois nadei
entre duas guas, s respirando a grandes intervalos, at que
alcancei, sem ser visto, uma vala que acabavam de abrir e que
punha em comunicao o Rdano com o canal que vai de Beaucaire
a Aigues-Mortes. Uma vez l chegado, estava salvo, pois podia
seguir sem ser visto ao longo da vala. Cheguei portanto ao
canal sem contratempos. No fora por acaso e sem premeditao
que seguira aquele caminho, j falei a V. Ex.a de um
estalajadeiro, de Nmes que abrira na estrada de Bellegarde a
Beaucaire uma pequena hospedaria.

- Sim, lembro-me perfeitamente - respondeu Monte-Cristo. - Se
me no engano, esse digno homem era at vosso associado.

- Exacto - confirmou Bertuccio. - Mas havia sete ou oito anos
cedera o estabelecimento a um antigo alfaiate de Marselha, o
qual, depois de se arruinar na sua profisso, resolvera tentar
enriquecer noutra. Escusado ser dizer que os entendimentos
que tnhamos com o primeiro proprietrio foram mantidos com o
segundo. Era portanto a esse homem que esperava pedir asilo.

- E como se chamava esse homem? - perguntou o conde, que
parecia comear a interessar-se pela histria de Bertuccio.

- Chamava-se Gaspard Caderousse e era casado com uma mulher da
aldeia de Carconte, que s conhecamos pelo nome da sua terra.
Tratava-se de uma pobre mulher atacada da febre dos pntanos,
que ia morrendo de definhamento. Quanto ao homem, era um
latago de quarenta a quarenta e cinco anos, que por mais de
uma vez, em circunstncias difceis, nos dera provas da sua
presena de esprito e da sua coragem.

- E diz - atalhou Monte-Cristo-que essas coisas se passavam
por volta do ano de...

- De 1829, Sr. Conde.

- Em que ms?

- No ms de Junho.

- No princpio ou no fim?

- No dia 3  tarde.

- Ah! - exclamou Monte-Cristo - Com que ento no dia 3 de
Junho de 1829. Bem, continue.

- Era portanto a Caderousse que contava pedir asilo. Mas, como
habitualmente, mesmo em circunstncias normais, no entrvamos
pela porta que dava para a estrada, resolvi no contrariar
esse costume e saltei a sebe do jardim, deslizei agachado
atravs das oliveiras raquticas e das figueiras bravas e
alcancei, receando que Caderousse tivesse algum viajante na
estalagem, uma espcie de desvo em que por mais de uma vez
passara a noite como se dormisse na melhor cama. Esse desvo
ficava separado da sala comum do rs-do-cho da estalagem
apenas por um tabique de madeira, no qual, em nossa inteno,
tinham sido abertos buracos a fim de, atravs deles,
espreitarmos o momento oportuno de darmos a saber a nossa
presena nas imediaes. Contava, se Caderousse estivesse
sozinho, preveni-lo da minha chegada, acabar em casa dele a
refeio interrompida pelo aparecimento dos guardas-fiscais e
aproveitar a tempestade que se avizinhava para voltar s
margens do Rdano e verificar o que acontecera  barca e aos
que l tinham ficado Esgueirei-me portanto para o desvo, e
fiz bem, pois nesse mesmo momento Caderousse entrava no
estabelecimento com um desconhecido.

"Fiquei quieto e esperei, no com a inteno de surpreender
os segredos do meu hospedeiro, mas sim porque no podia fazer
outra coisa. Alis, a mesma coisa j acontecera outras vezes.

"O homem que acompanhava Caderousse era evidentemente
estranho ao Meio-Dia da Frana. Tratava-se de um desses
feirantes que vm vender jias  feira de Beaucaire e que,
durante o ms que dura a feira, aonde afluem vendedores e
compradores de todas as partes da Europa, fazem s vezes cem
ou cento e cinquenta mil francos de transaces.

"Caderousse entrou, apressado,  frente do outro. Depois,
vendo a sala de baixo vazia, como de costume, e guardada
apenas pelo seu co, chamou a mulher:

"-- Eh, Carconde! Aquele digno padre no nos enganou; o
diamante  bom.

"Ouviu-se uma exclamao de alegria e quase imediatamente a
escada estalou debaixo de passos pesados devido  fraqueza e 
doena.

"-- Que dizes? - perguntou a mulher, mais plida do que uma
morta.

"-- Digo que o diamante  bom Aqui est este senhor, um dos
primeiros joalheiros de Paris, que est pronto a dar-nos
cinquenta mil francos por ele. Apenas, para ter a certeza de
que o diamante  de facto nosso, deseja que lhe contes, como
j lhe contei, de que forma miraculosa a pedra veio parar s
nossas mos. Entretanto, senhor, faa favor de se sentar, e
como o tempo est carregado, vou buscar-lhe qualquer coisa
para se refrescar. - O joalheiro examinava com ateno o
interior da estalagem e a pobreza visvel daqueles que lhe
queriam vender um diamante que parecia sado do tesouro de um
prncipe.

"-- Conte, minha senhora - pediu, querendo sem dvida
aproveitar a ausncia do marido para que nenhum sinal da parte
dele influenciasse a mulher e para verificar se as duas
histrias encaixavam bem uma na outra.

"-- Meu Deus, foi uma bno do Cu que estvamos muito longe
de esperar! - disse a mulher, com volubilidade. - Imagine, meu
caro senhor, que o meu marido conheceu em 1814 ou 1815 um
marinheiro chamado Edmond Dants. Esse pobre rapaz, que
Caderousse esquecera por completo, no o esqueceu a ele e
deixou-lhe ao morrer o diamante que o senhor acaba de ver.

"-- Mas como se tomou ele possuidor do diamante? - perguntou o
joalheiro.-J o tinha antes de ser preso?

"-- No, senhor - respondeu a mulher. - Mas parece que
conheceu na priso um ingls muito rico, e como na priso o
seu companheiro de cela adoeceu e Dants o tratou como se
fosse seu irmo, o ingls, ao sair do cativeiro, deixou ao
pobre Dants, que, menos feliz do que ele, morreu na priso,
esse diamante que ele nos legou por seu turno ao morrer e que
encarregou o digno abade que c esteve esta manh de nos
entregar.

" de facto a mesma coisa - murmurou o joalheiro. - E no fim
de contas a histria pode ser verdadeira, por mais inverosmil
que parea  primeira vista. S falta ajustarmos portanto o
preo, acerca do qual no estamos de acordo.

"-- Como  que no estamos de acordo? -- interveio Caderousse.
- Julgava que tinha aceitado o preo que lhe pedi...

"-- No - redarguiu o joalheiro --, eu ofereci quarenta mil
francos.

"-- Quarenta mil! - gritou a Carconte. - Escusa de esperar que
lho vendamos por esse preo. O abade disse-nos que valia
cinquenta mil francos, e sem engaste.

"-- E como se chamava esse abade? - perguntou o infatigvel
curioso.

"-- Abade Busoni - respondeu a mulher.

"-- Era ento um estrangeiro?

"-- Era um italiano dos arredores de Mntua, segundo creio.

"-- Mostre-me o diamante - pediu o joalheiro. - Quero v-lo
outra vez. Muitas vezes julgam-se mal as pedras  primeira
vista.

"Caderousse tirou da algibeira um estojozinho de chagrm
preto, abriu-o e passou-o ao joalheiro. Ao ver o diamante, que
era do tamanho de uma avel (lembro-me como se ainda o
estivesse a ver), os olhos de Carconte cintilaram de cupidez.

- E que pensou de tudo isso, senhor escutador s portas? -
perguntou Monte-Cristo. - Acreditou nessa bela fbula?

- Acreditei, Excelncia. No considerava Caderousse um mau
homem e julgava-o incapaz de cometer um crime Ou mesmo um
roubo.

- Isso honra mais o seu corao do que a sua experincia, Sr.
Bertuccio. Conheceu esse tal Edmond Dants a que se referiam?

- No, Excelncia, nunca ouvira falar dele at ali, e depois
disso s ouvi falar uma vez, ao prprio abade Busoni, quando o
vi nas prises de Nmes.

- Bom, continue.

- O joalheiro tirou o anel das mos de Caderousse e depois, da
algibeira, uma pina de ao e uma balancinha de cobre.
Seguidamente, abriu os grampos de ouro que prendiam a pedra ao
anel, extraiu o diamante do seu alvolo e pesou-o
cuidadosamente na balana.

"-- Vou at aos quarenta e cinco mil francos - declarou --,
no dou nem mais um soldo. De resto, como era esse o valor do
diamante, foi exactamente a importncia que trouxe comigo.

"-- Oh, l por isso no seja a dvida - redarguiu Caderousse.
- Voltarei consigo a Beaucaire e dar-me- l os cinco mil
francos.

"-- No - respondeu o joalheiro, restituindo o anel e o
diamante a Caderousse. - Isso no vale mais e j fiz mal em
oferecer tal importncia, pois  a pedra tem um defeito em
que no reparei da primeira vez. Mas no importa, s tenho uma
palavra; disse quarenta e cinco mil francos e no me desdigo.

"-- Ao menos volte a colocar o diamante no anel - pediu
azedamente a Carconte.

"--  justo - concordou o joalheiro, e recolocou a pedra no
engaste.

"-- Bom, bom, vend-lo-emos a outro - disse Caderousse,
guardando o estojo na algibeira.

"-- Pois sim - replicou o joalheiro. - Mas a outro no ser
to fcil vend-lo como a mim. Outro no se contentar com as
informaes que me deram. No  natural que um homem como o
senhor possua um diamante de cinquenta mil francos. Ele ir
prevenir os magistrados e ser necessrio descobrir o abade
Busoni.

"Ora, os abades que do diamantes de dois mil luses so
raros... A justia comear por lhe deitar a mo e mete-lo na
cadeia, e se o considera em inocente e o puserem em liberdade
depois de trs ou quatro meses de cativeiro, o anel ter-se-
perdido no arquivo e dar-lhe-o uma pedra falsa, que valer
trs francos em vez de um diamante que vale cinquenta mil.
Sim, a pedra talvez valha os cinquenta mil, mas tem de
concordar, bom homem, que se correm certos riscos em
compr-la.

"Caderousse e a mulher interrogaram-se com o olhar.

"-- No - disse Caderousse --, no somos to ricos que
possamos perder cinco mil francos.

"-- Como queira, meu caro amigo - respondeu o joalheiro - Mas
como v, j vinha preparado com a massa...

"E tirou de uma das algibeiras um punhado de ouro, que fez
brilhar aos olhos deslumbrados do estalajadeiro, e da outra um
mao de notas.

"Travava-se visivelmente um rude combate no esprito de
Caderousse. Era evidente que o estojozinho de chagrm que
virava e revirava na mo no lhe parecia corresponder, como
valor,  enorme quantia que lhe fascinava os olhos. Virou-se
para a mulher.

"-- Que dizes? - perguntou-lhe em voz baixa.

"-- D-lho, d-lho - respondeu ela. - Se volta a Beaucaire sem
o diamante, denunciar-nos-; e como disse, quem sabe se alguma
vez tornaremos a ver o abade Busoni.

"-- Pronto, seja! - exclamou Caderousse. - Fique l com o
diamante pelos quarenta e cinco mil francos. Mas a minha
mulher quer um fio de ouro e eu um par de fivelas de prata.

"O joalheiro tirou da algibeira uma caixa comprida e
achatada, que continha vrias amostras dos objectos pedidos.

"-- Como v - observou --, sou honesto nos negcios. Escolham.

"A mulher escolheu um fio de ouro, que podia valer cinco
luses, e o marido um par de fivelas, que podia valer quinze
francos.

"-- Espero que no se arrependam - disse o joalheiro.

"-- O abade disse que valia cinquenta mil francos... murmurou
Caderousse.

"-- Vamos, vamos, d-o c! Que homem terrvel! - exclamou o
joalheiro, tirando-lhe o diamante da mo. - Dou-lhe quarenta e
cinco mil francos, que lhe podem proporcionar um rendimento de
duas mil e quinhentas libras, isto , uma fortuna que eu
prprio gostaria de ter, e ainda no est contente!

"-- E os quarenta e cinco mil francos onde esto? - perguntou
Caderousse com voz rouca.

"-- Ei-los - respondeu o joalheiro.

"E contou em cima da mesa quinze mil francos em ouro e trinta
mil em notas.

"-- Esperem que acenda o candeeiro - disse a Carconte. - J
no est muito claro e podem-se enganar...

"Com efeito, anoitecera durante a discusso, e com a noite
viera a tempestade, que ameaava rebentar havia meia hora.
Ouvia-se ribombar surdamente o trovo ao longe, mas nem o
joalheiro, nem Caderousse, nem a Carconte pareciam dar por
isso, dominados como estavam todos os trs pelo demnio do
ganho. Eu prprio experimentava uma estranha fascinao
perante todo aquele ouro e todas aquelas notas. Parecia-me
sonhar, e como acontece nos sonhos, sentia-me acorrentado ao
meu lagar.

"Caderousse contou e recontou o ouro e as notas e depois
passou-os  mulher, que contou e recontou por seu turno.

"Entretanto, o joalheiro fazia cintilar o diamante  luz do
candeeiro e o diamante lanava relmpagos que faziam esquecer
aqueles que, precursores da tempestade, comeavam a incendiar
as janelas.

"-- Ento, est certo? - perguntou o joalheiro.

"-- Est - respondeu Caderousse. - D-me a carteira e arranja
um saco, Carconte.

"A Carconte foi um armrio e regressou com uma velha carteira
de couro, da qual tirou algumas cartas ensebadas e no lugar
das quais guardou as notas, e com um saco que continha duas ou
trs moedas de seis libras, que constituam provavelmente toda
a riqueza do miservel casal.

"-- Embora nos tenha roubado talvez uma dezena de milhar de
francos, quer jantar connosco?  de boa vontade - ofereceu
Caderousse.

"-- Obrigado - respondeu o joalheiro. - Comea a ser tarde e
tenho de regressar a Beaucaire. A minha mulher j deve estar
preocupada... Com mil demnios! - exclamou depois de tirar o
relgio da algibeira. - So quase nove horas, no estarei em
Beaucaire antes da meia-noite! Adeus, meus filhos. Se por
acaso tornarem a ser visitados pelo abade Busoni, lembrem-se
de mim...

"-- Daqui a oito dias j o senhor no estar em Beaucaire,
pois a feira termina na prxima semana - observou Caderousse.

"-- Pois no, mas no tem importncia. Escrevam-me para Paris,
com este endereo Sr. Joanns, Palais-Royal, Galeria de
Pierre, n.o 45. Virei c de propsito se o negcio valer a
pena.

"Soou um trovo, acompanhado de um relmpago to intenso que
quase se sobreps  luz do candeeiro.

"-- Oh, oh! - exclamou Caderousse. - Vai pr-se a caminho com
este tempo?

"-- As trovoadas no me metem medo - redarguiu o joalheiro.

"-- E os ladres? - perguntou a Carconte. - A estrada nunca 
muito segura durante a feira.

"-- Oh, quanto aos ladres, tenho isto para eles! - respondeu
Joanns, e tirou da algibeira um par de pistolinhas carregadas
at  boca. - Estes ces ladram e mordem ao mesmo tempo.
Seriam para os dois primeiros que cobiassem o seu diamante,
Tio Caderousse.

"Caderousse e a mulher trocaram um olhar sombrio.
Dir-se-ia que lhes acudira ao mesmo tempo qualquer pensamento
terrvel.

"-- Ento, boa viagem! - disse Caderousse.

"-- Obrigado! - agradeceu o joalheiro.

"Pegou na bengala, que deixara encostada a um velho ba, e
saiu. No momento em que abriu a porta entrou tal rajada de
vento que quase apagou o candeeiro.

"-- Oh, vem a um rico tempo, e duas lguas debaixo de
temporal!...

"-- Fique - insistiu Caderousse. - Pode muito bem dormir c.

"-- Sim, fique - insistiu tambm a Carconte, com voz trmula.
- Trat-lo-emos como deve ser.

"-- No, tenho de ir dormir a Beaucaire. Adeus.

"Caderousse foi lentamente at  porta.

"-- No se v cu nem terra -- disse o joalheiro, j fora da
casa. - Viro  direita ou  esquerda?

"--  direita - respondeu Caderousse. - No tem nada que se
enganar: a estrada tem rvores de um lado e doutro.

"-- Bom, c vou - disse o joalheiro, cuja voz j mal se ouvia
ao longe.

"-- Fecha a porta - recomendou a Carconte. - No gosto de
portas abertas quando troveja.

"-- E quando h dinheiro em casa, no  verdade? --
acrescentou Caderousse, dando duas voltas  chave.

"Em seguida dirigiu-se para o armrio, do qual tirou o saco e
a carteira, e puseram-se ambos a contar pela terceira vez o
seu ouro e as suas notas. Nunca vira expresso igual 
daquelas duas caras, cuja cupidez transparecia  luz fraca do
candeeiro. A mulher, sobretudo, estava hedionda. O tremor
febril que habitualmente a agitava redobrara. O seu rosto, de
plido, tornara-se lvido. Os seus olhos encovados chamejavam.

"-- Porque o convidaste a dormir c? - perguntou com voz
abafada.

"-- Para... para no ter de regressar a Beaucaire com este,
tempo - respondeu Caderousse, estremecendo.

"-- Ah!... - exclamou a mulher, com uma expresso impossvel
de descrever. - Julguei que fosse por outra coisa...

"-- Mulher! Mulher! - gritou Caderousse. - Porque tens
semelhantes ideias e porque, tendo-as, no as guardas para ti?

"-- Tanto faz - disse a Carconte passado um instante de
silncio --, tu no s um homem...

"-- Que dizes? - perguntou Caderousse.

"-- Se fosses um homem, ele no sairia daqui.

"-- Mulher!

"-- A estrada d uma volta, e ele  obrigado a seguir pela
estrada, ao passo que ao longo do canal existe um caminho mais
curto.

"-- Mulher, tu ofendes Deus! Espera, escuta...

"Com efeito, ouviu-se um formidvel trovo, ao mesmo tempo
que um relmpago azulado iluminava toda a sala, e a
tempestade, diminuindo lentamente, pareceu afastar-se, como
que contrariada, da casa maldita.

"-- Jesus! - exclamou a Carconte, benzendo-se.

"No mesmo instante, e no meio do silncio aterrorizado que se
segue habitualmente a uma trovoada, ouviu-se bater  porta.
Caderousse e a mulher estremeceram e entreolharam-se
assustados.

"-- Quem ? - gritou Caderousse, levantando-se e reunindo num
s monte o ouro e as notas espalhadas em cima da mesa, e que
cobriu com ambas as mos.

"-- Sou eu! - respondeu uma voz

"-- Eu, quem?

"-- Por Deus! Joanns, o joalheiro!

"-- Que dizias tu? Que ofendia Deus?.. observou a Carconte,
com um sorriso medonho. - Pois a o tens, e  Deus que no-lo
envia!

"Caderousse deixou-se cair, plido e arquejante, na sua
cadeira. A Carconte, pelo contrrio, levantou-se e dirigiu-se
com passo firme para a porta. que abriu.

"-- Entre, caro Sr. Joanns - disse.

"-- Dir-se-ia, palavra, que parece que o Diabo no quer que
regresse esta noite a Beaucaire - observou o joalheiro,
escorrendo gua por todos os lados. - As asneiras mais
pequenas so as melhores, meu caro Sr. Caderousse.
Ofereceu-me hospitalidade; aceito-a e volto para dormir em sua
casa.

"Caderousse balbuciou algumas palavras e enxugou o suor que
lhe escorria da testa. A Carconte voltou a fechar a porta
atrs do joalheiro e deu duas voltas  chave.

- Era portanto a Caderousse que contava pedir asilo. Mas, como
habitualmente, mesmo em circunstncias normais, no entrvamos
pela porta que dava para a estrada, resolvi no contrariar
esse costume e saltei a sebe do jardim, deslizei agachado
atravs das oliveiras raquticas e das figueiras bravas e
alcancei, receando que Caderousse tivesse algum viajante na
estalagem, uma espcie de desvo em que por mais de uma vez
passara a noite como se dormisse na melhor cama. Esse desvo
ficava separado da sala comum do rs-do-cho da estalagem
apenas por um tabique de madeira, no qual, em nossa inteno,
tinham sido abertos buracos a fim de, atravs deles,
espreitarmos o momento oportuno de darmos a saber a nossa
presena nas imediaes. Contava, se Caderousse estivesse
sozinho, preveni-lo da minha chegada, acabar em casa dele a
refeio interrompida pelo aparecimento dos guardas-fiscais e
aproveitar a tempestade que se avizinhava para voltar s
margens do Rdano e verificar o que acontecera  barca e aos
que l tinham ficado Esgueirei-me portanto para o desvo, e
fiz bem, pois nesse mesmo momento Caderousse entrava no
estabelecimento com um desconhecido.

"Fiquei quieto e esperei, no com a inteno de surpreender
os segredos do meu hospedeiro, mas sim porque no podia fazer
outra coisa. Alis, a mesma coisa j acontecera outras vezes.

"O homem que acompanhava Caderousse era evidentemente
estranho ao Meio-Dia da Frana. Tratava-se de um desses
feirantes que vm vender jias  feira de Beaucaire e que,
durante o ms que dura a feira, aonde afluem vendedores e
compradores de todas as partes da Europa, fazem s vezes cem
ou cento e cinquenta mil francos de transaces.

"Caderousse entrou, apressado,  frente do outro. Depois,
vendo a sala de baixo vazia, como de costume, e guardada
apenas pelo seu co, chamou a mulher:

"-- Eh, Carconde! Aquele digno padre no nos enganou; o
diamante  bom.

"Ouviu-se uma exclamao de alegria e quase imediatamente a
escada estalou debaixo de passos pesados devido  fraqueza e 
doena.

"-- Que dizes? - perguntou a mulher, mais plida do que uma
morta.

"-- Digo que o diamante  bom Aqui est este senhor, um dos
primeiros joalheiros de Paris, que est pronto a dar-nos
cinquenta mil francos por ele. Apenas, para ter a certeza de
que o diamante  de facto nosso, deseja que lhe contes, como
j lhe contei, de que forma miraculosa a pedra veio parar s
nossas mos. Entretanto, senhor, faa favor de se sentar, e
como o tempo est carregado, vou buscar-lhe qualquer coisa
para se refrescar. - O joalheiro examinava com ateno o
interior da estalagem e a pobreza visvel daqueles que lhe
queriam vender um diamante que parecia sado do tesouro de um
prncipe.

"-- Conte, minha senhora - pediu, querendo sem dvida
aproveitar a ausncia do marido para que nenhum sinal da parte
dele influenciasse a mulher e para verificar se as duas
histrias encaixavam bem uma na outra.

"-- Meu Deus, foi uma bno do Cu que estvamos muito longe
de esperar! - disse a mulher, com volubilidade. - Imagine, meu
caro senhor, que o meu marido conheceu em 1814 ou 1815 um
marinheiro chamado Edmond Dants. Esse pobre rapaz, que
Caderousse esquecera por completo, no o esqueceu a ele e
deixou-lhe ao morrer o diamante que o senhor acaba de ver.

"-- Mas como se tomou ele possuidor do diamante? - perguntou o
joalheiro.-J o tinha antes de ser preso?

"-- No, senhor - respondeu a mulher. - Mas parece que
conheceu na priso um ingls muito rico, e como na priso o
seu companheiro de cela adoeceu e Dants o tratou como se
fosse seu irmo, o ingls, ao sair do cativeiro, deixou ao
pobre Dants, que, menos feliz do que ele, morreu na priso,
esse diamante que ele nos legou por seu turno ao morrer e que
encarregou o digno abade que c esteve esta manh de nos
entregar.

" de facto a mesma coisa - murmurou o joalheiro. - E no fim
de contas a histria pode ser verdadeira, por mais inverosmil
que parea  primeira vista. S falta ajustarmos portanto o
preo, acerca do qual no estamos de acordo.

"-- Como  que no estamos de acordo? -- interveio Caderousse.
- Julgava que tinha aceitado o preo que lhe pedi...

"-- No - redarguiu o joalheiro --, eu ofereci quarenta mil
francos.

"-- Quarenta mil! - gritou a Carconte. - Escusa de esperar que
lho vendamos por esse preo. O abade disse-nos que valia
cinquenta mil francos, e sem engaste.

"-- E como se chamava esse abade? - perguntou o infatigvel
curioso.

"-- Abade Busoni - respondeu a mulher.

"-- Era ento um estrangeiro?

"-- Era um italiano dos arredores de Mntua, segundo creio.

"-- Mostre-me o diamante - pediu o joalheiro. - Quero v-lo
outra vez. Muitas vezes julgam-se mal as pedras  primeira
vista.

"Caderousse tirou da algibeira um estojozinho de chagrm
preto, abriu-o e passou-o ao joalheiro. Ao ver o diamante, que
era do tamanho de uma avel (lembro-me como se ainda o
estivesse a ver), os olhos de Carconte cintilaram de cupidez.

- E que pensou de tudo isso, senhor escutador s portas? -
perguntou Monte-Cristo. - Acreditou nessa bela fbula?

- Acreditei, Excelncia. No considerava Caderousse um mau
homem e julgava-o incapaz de cometer um crime Ou mesmo um
roubo.

- Isso honra mais o seu corao do que a sua experincia, Sr.
Bertuccio. Conheceu esse tal Edmond Dants a que se referiam?

- No, Excelncia, nunca ouvira falar dele at ali, e depois
disso s ouvi falar uma vez, ao prprio abade Busoni, quando o
vi nas prises de Nmes.

- Bom, continue.

- O joalheiro tirou o anel das mos de Caderousse e depois, da
algibeira, uma pina de ao e uma balancinha de cobre.
Seguidamente, abriu os grampos de ouro que prendiam a pedra ao
anel, extraiu o diamante do seu alvolo e pesou-o
cuidadosamente na balana.

"-- Vou at aos quarenta e cinco mil francos - declarou --,
no dou nem mais um soldo. De resto, como era esse o valor do
diamante, foi exactamente a importncia que trouxe comigo.

"-- Oh, l por isso no seja a dvida - redarguiu Caderousse.
- Voltarei consigo a Beaucaire e dar-me- l os cinco mil
francos.

"-- No - respondeu o joalheiro, restituindo o anel e o
diamante a Caderousse. - Isso no vale mais e j fiz mal em
oferecer tal importncia, pois  a pedra tem um defeito em
que no reparei da primeira vez. Mas no importa, s tenho uma
palavra; disse quarenta e cinco mil francos e no me desdigo.

"-- Ao menos volte a colocar o diamante no anel - pediu
azedamente a Carconte.

"--  justo - concordou o joalheiro, e recolocou a pedra no
engaste.

"-- Bom, bom, vend-lo-emos a outro - disse Caderousse,
guardando o estojo na algibeira.

"-- Pois sim - replicou o joalheiro. - Mas a outro no ser
to fcil vend-lo como a mim. Outro no se contentar com as
informaes que me deram. No  natural que um homem como o
senhor possua um diamante de cinquenta mil francos. Ele ir
prevenir os magistrados e ser necessrio descobrir o abade
Busoni.

"Ora, os abades que do diamantes de dois mil luses so
raros... A justia comear por lhe deitar a mo e mete-lo na
cadeia, e se o considera em inocente e o puserem em liberdade
depois de trs ou quatro meses de cativeiro, o anel ter-se-
perdido no arquivo e dar-lhe-o uma pedra falsa, que valer
trs francos em vez de um diamante que vale cinquenta mil.
Sim, a pedra talvez valha os cinquenta mil, mas tem de
concordar, bom homem, que se correm certos riscos em
compr-la.

"Caderousse e a mulher interrogaram-se com o olhar.

"-- No - disse Caderousse --, no somos to ricos que
possamos perder cinco mil francos.

"-- Como queira, meu caro amigo - respondeu o joalheiro - Mas
como v, j vinha preparado com a massa...

"E tirou de uma das algibeiras um punhado de ouro, que fez
brilhar aos olhos deslumbrados do estalajadeiro, e da outra um
mao de notas.

"Travava-se visivelmente um rude combate no esprito de
Caderousse. Era evidente que o estojozinho de chagrm que
virava e revirava na mo no lhe parecia corresponder, como
valor,  enorme quantia que lhe fascinava os olhos. Virou-se
para a mulher.

"-- Que dizes? - perguntou-lhe em voz baixa.

"-- D-lho, d-lho - respondeu ela. - Se volta a Beaucaire sem
o diamante, denunciar-nos-; e como disse, quem sabe se alguma
vez tornaremos a ver o abade Busoni.

"-- Pronto, seja! - exclamou Caderousse. - Fique l com o
diamante pelos quarenta e cinco mil francos. Mas a minha
mulher quer um fio de ouro e eu um par de fivelas de prata.

"O joalheiro tirou da algibeira uma caixa comprida e
achatada, que continha vrias amostras dos objectos pedidos.

"-- Como v - observou --, sou honesto nos negcios. Escolham.

"A mulher escolheu um fio de ouro, que podia valer cinco
luses, e o marido um par de fivelas, que podia valer quinze
francos.

"-- Espero que no se arrependam - disse o joalheiro.

"-- O abade disse que valia cinquenta mil francos... murmurou
Caderousse.

"-- Vamos, vamos, d-o c! Que homem terrvel! - exclamou o
joalheiro, tirando-lhe o diamante da mo. - Dou-lhe quarenta e
cinco mil francos, que lhe podem proporcionar um rendimento de
duas mil e quinhentas libras, isto , uma fortuna que eu
prprio gostaria de ter, e ainda no est contente!

"-- E os quarenta e cinco mil francos onde esto? - perguntou
Caderousse com voz rouca.

"-- Ei-los - respondeu o joalheiro.

"E contou em cima da mesa quinze mil francos em ouro e trinta
mil em notas.

"-- Esperem que acenda o candeeiro - disse a Carconte. - J
no est muito claro e podem-se enganar...

"Com efeito, anoitecera durante a discusso, e com a noite
viera a tempestade, que ameaava rebentar havia meia hora.
Ouvia-se ribombar surdamente o trovo ao longe, mas nem o
joalheiro, nem Caderousse, nem a Carconte pareciam dar por
isso, dominados como estavam todos os trs pelo demnio do
ganho. Eu prprio experimentava uma estranha fascinao
perante todo aquele ouro e todas aquelas notas. Parecia-me
sonhar, e como acontece nos sonhos, sentia-me acorrentado ao
meu lagar.

"Caderousse contou e recontou o ouro e as notas e depois
passou-os  mulher, que contou e recontou por seu turno.

"Entretanto, o joalheiro fazia cintilar o diamante  luz do
candeeiro e o diamante lanava relmpagos que faziam esquecer
aqueles que, precursores da tempestade, comeavam a incendiar
as janelas.

"-- Ento, est certo? - perguntou o joalheiro.

"-- Est - respondeu Caderousse. - D-me a carteira e arranja
um saco, Carconte.

"A Carconte foi um armrio e regressou com uma velha carteira
de couro, da qual tirou algumas cartas ensebadas e no lugar
das quais guardou as notas, e com um saco que continha duas ou
trs moedas de seis libras, que constituam provavelmente toda
a riqueza do miservel casal.

"-- Embora nos tenha roubado talvez uma dezena de milhar de
francos, quer jantar connosco?  de boa vontade - ofereceu
Caderousse.

"-- Obrigado - respondeu o joalheiro. - Comea a ser tarde e
tenho de regressar a Beaucaire. A minha mulher j deve estar
preocupada... Com mil demnios! - exclamou depois de tirar o
relgio da algibeira. - So quase nove horas, no estarei em
Beaucaire antes da meia-noite! Adeus, meus filhos. Se por
acaso tornarem a ser visitados pelo abade Busoni, lembrem-se
de mim...

"-- Daqui a oito dias j o senhor no estar em Beaucaire,
pois a feira termina na prxima semana - observou Caderousse.

"-- Pois no, mas no tem importncia. Escrevam-me para Paris,
com este endereo Sr. Joanns, Palais-Royal, Galeria de
Pierre, n.o 45. Virei c de propsito se o negcio valer a
pena.

"Soou um trovo, acompanhado de um relmpago to intenso que
quase se sobreps  luz do candeeiro.

"-- Oh, oh! - exclamou Caderousse. - Vai pr-se a caminho com
este tempo?

"-- As trovoadas no me metem medo - redarguiu o joalheiro.

"-- E os ladres? - perguntou a Carconte. - A estrada nunca 
muito segura durante a feira.

"-- Oh, quanto aos ladres, tenho isto para eles! - respondeu
Joanns, e tirou da algibeira um par de pistolinhas carregadas
at  boca. - Estes ces ladram e mordem ao mesmo tempo.
Seriam para os dois primeiros que cobiassem o seu diamante,
Tio Caderousse.

"Caderousse e a mulher trocaram um olhar sombrio.
Dir-se-ia que lhes acudira ao mesmo tempo qualquer pensamento
terrvel.

"-- Ento, boa viagem! - disse Caderousse.

"-- Obrigado! - agradeceu o joalheiro.

"Pegou na bengala, que deixara encostada a um velho ba, e
saiu. No momento em que abriu a porta entrou tal rajada de
vento que quase apagou o candeeiro.

"-- Oh, vem a um rico tempo, e duas lguas debaixo de
temporal!...

"-- Fique - insistiu Caderousse. - Pode muito bem dormir c.

"-- Sim, fique - insistiu tambm a Carconte, com voz trmula.
- Trat-lo-emos como deve ser.

"-- No, tenho de ir dormir a Beaucaire. Adeus.

"Caderousse foi lentamente at  porta.

"-- No se v cu nem terra -- disse o joalheiro, j fora da
casa. - Viro  direita ou  esquerda?

"--  direita - respondeu Caderousse. - No tem nada que se
enganar: a estrada tem rvores de um lado e doutro.

"-- Bom, c vou - disse o joalheiro, cuja voz j mal se ouvia
ao longe.

"-- Fecha a porta - recomendou a Carconte. - No gosto de
portas abertas quando troveja.

"-- E quando h dinheiro em casa, no  verdade? --
acrescentou Caderousse, dando duas voltas  chave.

"Em seguida dirigiu-se para o armrio, do qual tirou o saco e
a carteira, e puseram-se ambos a contar pela terceira vez o
seu ouro e as suas notas. Nunca vira expresso igual 
daquelas duas caras, cuja cupidez transparecia  luz fraca do
candeeiro. A mulher, sobretudo, estava hedionda. O tremor
febril que habitualmente a agitava redobrara. O seu rosto, de
plido, tornara-se lvido. Os seus olhos encovados chamejavam.

"-- Porque o convidaste a dormir c? - perguntou com voz
abafada.

"-- Para... para no ter de regressar a Beaucaire com este,
tempo - respondeu Caderousse, estremecendo.

"-- Ah!... - exclamou a mulher, com uma expresso impossvel
de descrever. - Julguei que fosse por outra coisa...

"-- Mulher! Mulher! - gritou Caderousse. - Porque tens
semelhantes ideias e porque, tendo-as, no as guardas para ti?

"-- Tanto faz - disse a Carconte passado um instante de
silncio --, tu no s um homem...

"-- Que dizes? - perguntou Caderousse.

"-- Se fosses um homem, ele no sairia daqui.

"-- Mulher!

"-- A estrada d uma volta, e ele  obrigado a seguir pela
estrada, ao passo que ao longo do canal existe um caminho mais
curto.

"-- Mulher, tu ofendes Deus! Espera, escuta...

"Com efeito, ouviu-se um formidvel trovo, ao mesmo tempo
que um relmpago azulado iluminava toda a sala, e a
tempestade, diminuindo lentamente, pareceu afastar-se, como
que contrariada, da casa maldita.

"-- Jesus! - exclamou a Carconte, benzendo-se.

"No mesmo instante, e no meio do silncio aterrorizado que se
segue habitualmente a uma trovoada, ouviu-se bater  porta.
Caderousse e a mulher estremeceram e entreolharam-se
assustados.

"-- Quem ? - gritou Caderousse, levantando-se e reunindo num
s monte o ouro e as notas espalhadas em cima da mesa, e que
cobriu com ambas as mos.

"-- Sou eu! - respondeu uma voz

"-- Eu, quem?

"-- Por Deus! Joanns, o joalheiro!

"-- Que dizias tu? Que ofendia Deus?.. observou a Carconte,
com um sorriso medonho. - Pois a o tens, e  Deus que no-lo
envia!

"Caderousse deixou-se cair, plido e arquejante, na sua
cadeira. A Carconte, pelo contrrio, levantou-se e dirigiu-se
com passo firme para a porta. que abriu.

"-- Entre, caro Sr. Joanns - disse.

"-- Dir-se-ia, palavra, que parece que o Diabo no quer que
regresse esta noite a Beaucaire - observou o joalheiro,
escorrendo gua por todos os lados. - As asneiras mais
pequenas so as melhores, meu caro Sr. Caderousse.
Ofereceu-me hospitalidade; aceito-a e volto para dormir em sua
casa.

"Caderousse balbuciou algumas palavras e enxugou o suor que
lhe escorria da testa. A Carconte voltou a fechar a porta
atrs do joalheiro e deu duas voltas  chave.



Captulo XLV

A chuva de sangue


- Quando entrou, o joalheiro deitou um olhar interrogador 
sua volta. Mas nada parecia susceptvel de lhe despertar
suspeitas, se as no tinha, assim como nada parecia
confirm-las, se as tinha.

"Caderousse continuava a cobrir com as mos as suas notas e o
seu ouro. A Carconte sorria ao seu hspede o mais
agradavelmente que lhe era possvel.

"-- Ah, ah! - exclamou o joalheiro. - Parece que estavam com
medo de faltar algum coisa e resolveram tornar a contar o seu
tesouro depois da minha partida...

"-- Engana-se - redarguiu Caderousse. - Mas a verdade  que o
acontecimento que nos proporcionou este dinheiro foi to
inesperado que ainda nos custa a acreditar nele, a tal ponto
que quando no temos a prova material diante dos olhos,
julgamos sonhar.

"O joalheiro sorriu.

"-- Tm viajantes na estalagem? - perguntou...

"-- No - respondeu Caderousse. - No damos dormidas. Estamos
to perto da cidade que ningum pra aqui.

"-- Nesse caso vou dar-lhe um grande incmodo.

"-- Incomodar-nos, o senhor? No, meu caro amigo! - protestou
amavelmente a Carconte. - De modo nenhum, juro-lhe.

"-- Vejamos, onde me deitam?

"-- No quarto l de cima.

"-- Mas no  o vosso quarto?

"-- Oh, no importa! Temos outra cama no quarto ao lado desse.

"Caderousse olhou com espanto para a mulher. O joalheiro
cantarolou uma canozinha enquanto aquecia as costas ao calor
de um molho de lenha que a Carconte acendera na chamin para o
seu hspede se secar.

"Entretanto, punha a uma ponta da mesa, onde estendera um
guardanapo, os magros restos de um jantar, a que juntou dois
ou trs ovos frescos.

"Caderousse voltara a guardar as notas na carteira, o ouro no
saco e tudo no armrio. Passeava de um lado para o outro,
sombrio e pensativo, e levantava de vez em quando a cabea
para olhar o joalheiro, que se conservava fumegante diante da
lareira, e que  medida que secava de um lado se virava do
outro.

"-- Pronto - anunciou a Carconte, pousando uma garrafa de
vinho em cima da mesa --, quando quiser j pode jantar.

"-- E o senhor? - perguntou Joanns.

"-- Eu no janto - respondeu Caderousse.

"-- Almomos muito tarde - apressou-se a dizer a Carconte.

"-- Ento vou jantar sozinho? - comentou o joalheiro.

"-- Ns servimo-lo - respondeu a Carconte, com uma prontido
que lhe no era habitual, mesmo para os hspedes que pagavam.

"De tempos a tempos, Caderousse deitava-lhe um olhar rpido
como um relmpago. A tempestade continuava.

"-- Ouve, ouve? - perguntou a Carconte. - Fez muito bem em
voltar para trs.

"-- O que me no impedir, se durante o jantar a tempestade
amainar, de me pr novamente a caminho - redarguiu o
joalheiro.

"--  o mistral - disse Caderousse, abanando a cabea. - Temos
mau tempo para durar at amanh.

"E soltou um suspiro.

"-- Pacincia - declarou o joalheiro, sentando-se  mesa.
Tanto pior para os que esto l fora.

"-- Sim, passaro uma m noite - concordou a Carconte.

"O joalheiro principiou a jantar e a Carconte continuou a
dispensar-lhe todas as pequenas atenes de uma hospedeira
atenta. Ela, habitualmente to rabugenta e desabrida,
tornara-se um modelo de eficincia e cortesia. Se o joalheiro
a tivesse conhecido antes, to grande mudana no teria,
decerto, deixado de lhe inspirar algumas suspeitas. Quanto a
Caderousse, no dizia nada; continuava a passear e at parecia
hesitar em olhar o hspede. Quando o jantar terminou, o
prprio Caderousse foi abrir a porta.

"-- Parece-me que a tempestade amainou - disse.

"Mas naquele momento, como que para o desmentir, um enorme
trovo abalou a casa e uma rajada de vento e chuva entrou pela
casa dentro e apagou o candeeiro.

"Caderousse voltou a fechar a porta e a mulher acendeu uma
vela no braseiro prestes a extinguir-se.

"-- Pronto - disse ela ao joalheiro. - Deve estar cansado. Pus
lenis lavados na cama; suba, deite-se e durma bem.

"Joanns ficou ainda um instante, para se assegurar de que a
tempestade no amainava, e quando adquiriu a certeza de que a
trovoada e a chuva iam em aumento, deu as boas-noites aos seus
hospedeiros e subiu a escada.

"Passou-me por cima da cabea e ouvi os degraus estalarem-lhe
debaixo dos ps.

"A Carconte seguiu-o com olhar vido, enquanto Caderousse,
pelo contrrio, lhe virava as costas e nem sequer olhava para
o seu lado.

"Todos estes pormenores, que desde ento me tm acudido
vrias vezes ao espirito, no me impressionaram absolutamente
nada na altura em que se passaram, diante dos meus olhos. No
fim de contas, no havia nada de mais natural e, exceptuando a
histria do diamante, que me parecia um bocadinho inverosmil,
tudo o resto era normalssimo. Por isso, como estava exausto e
eu prprio tambm desejava aproveitar a primeira aberta do
temporal, resolvi dormir umas horas e pr-me a andar no meio
da noite.

"Ouvia, no quarto de cima, o joalheiro tomar por seu turno
todas as disposies para passar a noite o melhor possvel. A
cama no tardou a ranger debaixo dele; acabava de se deitar

"Sentia os olhos fecharem-se, mal-grado meu, e como no
concebera nenhuma suspeita no tentei lutar contra o sono.
Lancei um ltimo olhar  cozinha. Caderousse estava sentado ao
lado de uma mesa comprida, num dos bancos de madeira que nas
estalagens de aldeia substituem as cadeiras. Virava-me as
costas, de forma que no lhe podia ver a cara. Alis, mesmo
que estivesse na posio contrria tambm lha no veria, pois
tinha a cabea escondida nas mos.

"A Carconte olhou-o durante algum tempo, eencolheu os ombros
e foi sentar-se diante dele.

"Naquele momento a chama moribunda pegou logo a um resto de
lenha seca at ali esquecido e um claro um pouco mais vivo
iluminou o sombrio interior. A Carconte tinha os olhos
cravados no marido, e como ele continuasse sempre na mesma
posio, vi-a estender a mo adunca na sua direco e
tocar-lhe na testa.

"Caderousse estremeceu. Pareceu-me que a mulher movia os
lbios, mas quer porque falasse muito baixo, quer por os meus
sentidos estarem j embotados pelo sono, as suas palavras no
chegaram at mim. J via apenas atravs de um nevoeiro e com a
incerteza precursora do sono, durante a qual julgamos comear
a sonhar. Por fim os olhos fecharam-se-me e perdi a
conscincia de mim mesmo.

"Encontrava-me mergulhado no sono mais profundo quando fui
acordado por um tiro de pistola, seguido de um grito horrvel.
Passos cambaleantes soaram no sobrado do quarto e uma massa
inerte veio cair na escada, precisamente por cima da minha
cabea.

"No estava ainda bem senhor de mim quando ouvi gemidos e
depois gritos abafados, como os que acompanham uma luta.

"Um derradeiro grito, mais prolongado do que os outros e que
degenerou em gemidos, tirou-me completamente da minha
letargia.

"Soergui-me num brao, abri os olhos, que no viram nada nas
trevas, e levei a mo  testa, sobre a qual me parecia cair
atravs das tbuas da escada uma chuva morna e abundante.

"O mais profundo silncio sucedera quele barulho horrvel.
Ouvi os passos  de um homem que caminhava por cima da minha
cabea, os quais a certa altura fizeram estalar a escada. O
homem desceu  sala inferior, aproximou-se da chamin e
acendeu uma vela.

"O homem era Caderousse. Estava plido e tinha a camisa toda
ensanguentada.

"Com a vela acesa voltou a subir rapidamente a escada e ouvi
de novo os seus passos rpidos e inquietos.

"Um instante depois tornou a descer. Trazia o estojo na mo.

"Assegurou-se de que o diamante se encontrava l dentro,
procurou um momento em qual das algibeiras o meteria, e em
seguida, decerto por no considerar as algibeiras esconderijo
bastante seguro, enrolou-o no seu leno de assoar encarnado,
que atou ao pescoo.

"Depois, correu ao armrio, donde tirou as notas e o ouro,
meteu umas no bolsinho das calas e o outro na algibeira da
jaqueta, pegou em duas ou trs camisas, correu para a porta e
desapareceu na escurido. Ento tudo se tornou claro e lcido
para mim e censurei-me pelo que acabava de acontecer como se
fosse o verdadeiro culpado. Pareceu-me ouvir gemidos. O pobre
joalheiro podia no estar morto. Talvez estivesse na minha
mo, socorrendo-o, reparar parte do mal, no que eu cometera,
mas sim que deixara cometer. Apoiei os ombros numa das tbuas
mal juntas que separavam a espcie de cubculo em que me
encontrava deitado da sala inferior, as tbuas cederam e
entrei na cozinha.

"Corri para a vela e depois para a escada. Havia um corpo
atravessado nela; era o cadver da Carconte.

"O tiro de pistola que ouvira fora disparado contra ela.
Tinha a garganta atravessada de lado a lado e, alm do sangue
que lhe jorrava desse duplo ferimento, tambm bolsava muito
pela boca. Estava morta. Saltei por cima do seu corpo e
passei.

"O quarto oferecia o aspecto da mais horrvel desordem. Dois
ou trs mveis estavam cados. Os lenis, aos quais o infeliz
joalheiro se agarrara, arrastavam pelo cho. Ele prprio
estava cado no sobrado, com a cabea encostada  parede, no
meio de um mar de sangue que lhe brotava de trs grandes
ferimentos no peito.

"No quarto tinha cravada uma grande faca de cozinha, de que
s se via o cabo.

"Observei a segunda pistola, que no disparara, provavelmente
por a plvora estar molhada.

"Aproximei-me do joalheiro; no estava morto, efectivamente.
Devido ao barulho que fiz, e sobretudo ao estremecimento do
sobrado, abriu uns olhos alucinados, que conseguiu fixar um
instante em mim, agitou os lbios como se quisesse falar e
expirou.

"Aquele medonho espectculo quase me pusera louco. Mas desde
o momento em que no podia socorrer ningum, s uma coisa me
preocupava: fugir. Precipitei-me para a escada e enquanto a
descia enterrava as mos nos cabelos e soltava rugidos de
terror.

"Na sala de baixo encontravam-se cinco ou seis
guardas-fiscais e dois ou trs gendarmes, um autntico
exrcito armado.

"Prenderam-me. Nem sequer tentei opor resistncia; j no era
senhor dos meus sentidos. Procurei falar, mas apenas soltei
alguns gritos inarticulados.

"Vi que os guardas-fiscais e os gendarmes me apontavam a dedo
uns aos  outros; olhei para mim mesmo e verifiquei que
estava todo coberto de sangue. A chuva morna que sentira cair
sobre mim atravs das tbuas da escada era o sangue da
Carconte.

"Indiquei com o dedo o sitio onde estivera escondido.

"-- Que quer dizer? - perguntou um gendarme.

"Um guarda-fiscal foi ver.

"-- Quer dizer que estava escondido ali - respondeu, e mostrou
o buraco por onde eu sara.

"Compreendi ento que me tomavam pelo assassino. Recuperei a
voz e as foras e soltei-me das mos dos dois homens que me
seguravam.

"-- No fui eu! No fui eu! - gritei.

"Dois gendarmes apontaram-me as suas carabinas.

"-- Se fazes um movimento, morres - disseram.

"-- Repito-lhes que no fui eu! - tornei a gritar.

"-- Contars essa historiazinha aos juzes de Nmes -
responderam. - Entretanto, ests nas nossas mos, e se queres
um conselho, no oponhas resistncia.

"Essa no era de modo algum a minha inteno, estava abatido
pela surpresa e pelo terror. Algemaram-me, amarraram-me 
cauda de um cavalo e levaram-me para Nmes.

"Fora seguido por um guarda-fiscal. Perdera-me de vista nas
imediaes da casa e desconfiara que passaria l a noite.
Prevenira os camaradas e tinham chegado precisamente a
tempo de ouvir o tiro de pistola e prender-me no meio de tais
provas de culpabilidade que compreendi imediatamente que seria
muito difcil fazer reconhecer a minha inocncia.

"Por isso agarrei-me apenas a uma coisa: o meu primeiro
pedido ao juiz de instruo foi para lhe solicitar que
mandasse procurar por toda a parte um tal abade Busoni que
naquele dia estivera na Estalagem da Ponte-du-Gard. Se
Caderousse inventara uma histria e o abade no existisse, era
evidente que me encontrava perdido, a no ser que Caderousse
tambm fosse preso e confessasse tudo.

"Passaram dois meses durante os quais, devo diz-lo em louvor
do meu juiz, todas as buscas foram feitas para encontrar
aquele que eu reclamava. J perdera toda a esperana.
Caderousse no tora apanhado. Ia ser julgado na primeira
audincia, quando, em 8 de Setembro, isto , trs meses e
cinco dias depois do sucedido, o abade Busoni pelo qual j no
esperava, se apresentou na cadeia dizendo que soubera que um
recluso lhe desejava falar. Recebera a noticia em Marselha,
disse, e apressara-se a satisfazer o meu desejo.

"Compreende decerto com que alvoroo o recebi. Contei-lhe
tudo de que fora testemunha e referi-me, temeroso,  histria
do diamante. Contra a minha expectativa, era verdadeira de
ponta a ponta, e tambm contra a minha expectativa, acreditou
plenamente em tudo o que lhe disse. Foi ento que, levado pela
sua doce caridade, reconhecendo nele um profundo conhecimento
dos costumes da minha terra e pensando que o perdo do nico
crime que cometera talvez pudesse sair dos seus lbios to
caridosos, lhe contei, sob segredo de confisso, a aventura de
Auteuil em todos os seus pormenores. O que fizera por impulso
obteve o mesmo resultado que obteria se o fizesse por clculo.
A confisso do primeiro assassnio, que nada me obrigava a
revelar-lhe, provou-lhe  que no cometera o segundo, e
quando me deixou provou-lhe que no cometera o segundo, E,
ordenou-me que esperasse e prometeu-me fazer tudo o que
estivesse ao seu alcance para convencer os juzes da minha
inocncia.

"Tive a prova de que efectivamente se ocupara de mim quando
vi a minha priso suavizar-se gradualmente e soube que seria
julgado a seguir s audincias j marcadas.

"Entretanto, a Providncia permitiu que Caderousse fosse
preso no estrangeiro e extraditado para Frana. Confessou
tudo, mas lanou a premeditao e sobretudo a instigao para
cima da mulher. Condenaram-no a priso perptua nas gals e a
mim puseram-me em liberdade.

- E foi ento - disse Monte-cristo - que me procurou, munido
de uma carta do abade Busoni?

- Foi, Excelncia. Ele tomara por mim um interesse visvel.

"-- A sua condio de contrabandista perd-lo- - disse-me. -
Se conseguir sair daqui, deixe-a.

"-- Mas, Sr. Abade, como quer que viva e sustente a minha
pobre cunhada?

"-- Um dos meus penitentes - respondeu-me - tem uma grande
estima por mim e encarregou-me de lhe arranjar um homem de
confiana. Quer ser esse homem?
Recomend-lo-ei.

"-- Oh, Sr. Abade, que bondade a sua! - exclamei.

"-- Mas jura-me que nunca terei de me arrepender?

"Estendi a mo para jurar.

"--  intil - disse ele. - Conheo e gosto dos Corsos. Aqui
est a minha recomendao.

"E escreveu aquelas linhas que entreguei ao Sr. Conde e
mediante as quais V. Ex.a teve a bondade de me tomar ao seu
servio. Agora, pergunto com orgulho a V. Ex.a: alguma vez
teve razo de queixa de mim?

- No - respondeu o conde. - E, confesso-o com prazer, tem
sido um bom servidor, Bertuccio, embora pouco confiado.

- Eu, Sr. Conde?!

- Voc, sim. Como  possvel que tenha uma cunhada e um filho
adoptivo e nunca me tenha falado de uma nem de outro?

- Porque, infelizmente, Excelncia, ainda lhe no contei a
parte mais triste da minha vida. Parti para a Crsega. Tinha
pressa, como deve compreender, de tornar a ver e confortar a
minha pobre cunhada. Mas quando cheguei a Rogliano encontrei a
casa de luto. Houvera uma cena terrvel, de que os vizinhos
ainda hoje se recordam! A minha pobre cunhada, segundo os meus
conselhos; resistia s exigncias de Benedetto, que a cada
instante queria que ela lhe desse todo o dinheiro que houvesse
em casa. Uma manh, ameaou-a e desapareceu durante todo o
dia. Ela chorou, porque a querida Assunta tinha para o
miservel um corao de me. Quando anoiteceu, esperou-o sem
se deitar. s onze horas, quando ele regressou com dois dos
seus amigos, companheiros habituais de todas as suas
tropelias, ela estendeu-lhe os braos. Mas eles apoderaram-se
dela e um dos trs - receio que aquele infernal rapaz --, uni
dos trs gritou: "Experimentemos a tortura e talvez se resolva
a dizer onde tem o dinheiro." Precisamente naquele dia, o
vizinho Wasilio fora a Bstia e a mulher ficara sozinha em
casa. Ningum, excepto ela, poderia ver ou ouvir o que se
passasse em casa da minha cunhada. Dois seguraram a pobre
Assunta, que, no acreditando na possibilidade de semelhante
 crime, sorria aos que iam ser seus carrascos. O terceiro
foi fechar portas e janelas, voltou e todos os trs juntos,
abafando os gritos de terror que aqueles preparativos, mais
srios, lhe arrancavam, aproximaram os ps de Assunta do
braseiro com que contavam para a obrigar a dizer onde
escondera o nosso pequeno tesouro. Mas na luta o fogo
pegou-se-lhe s roupas e eles largaram-na para no se
queimarem a si prprios. Envolta em chamas, ela correu para a
porta, mas a porta estava fechada.

"Atirou-se  janela; mas a janela encontrava-se barricada.
Ento, a vizinha ouviu gritos horrveis; era Assunta, que
pedia socorro. Mas a sua voz no tardou a ser abafada; os
gritos transformaram-se em gemidos, e no dia seguinte, depois
de uma noite de terror e angstia, quando a mulher de Wasilio
se atreveu a sair de casa e mandou abrir a porta da nossa com
autorizao do juiz, encontraram Assunta meio queimada, mas
respirando ainda, os armrios arrombados e o dinheiro
desaparecido. Quanto a Benedetto, deixara Rogliano para
sempre. Nunca mais o vi desde esse dia e nem sequer ouvi falar
dele. Foi depois de saber estas tristes notcias que procurei,
V. Ex.a. J no tinha de lhe falar de Benedetto, que
desaparecera, nem da minha cunhada, que morrera.

- E que pensou desse acontecimento? - Perguntou
Monte-cristo.

- Que era o castigo do crime que cometera - respondeu
Bertuccio. - Ah, esses Villefort eram uma raa maldita!

- Tambm me parece - murmurou o conde, em tom lgubre.

- E agora - prosseguiu Bertuccio --, V. Ex.a compreende, no 
verdade, por que motivo esta casa, que no tornei a ver desde
ento, este jardim, onde me encontrei de sbito, e este lugar,
onde matei um homem, me causaram as sombrias emoes cuja
origem desejou conhecer. Porque, enfim, no tenho a certeza de
que diante de mim, a, a meus ps, o Sr. de Villefort no
esteja deitado na cova que abrira para o filho.

- Com efeito, tudo  possvel - disse Monte-cristo,
levantando-se do banco onde estava sentado. - At -
acrescentou baixinho-que o procurador rgio no tenha morrido.
O abade Busoni fez bem em mand-lo ter comigo e o senhor fez
bem em me contar a sua histria, pois assim no terei maus
pensamentos a seu respeito. Quanto ao malfadado Benedetto,
nunca procurou encontrar-lhe o rasto? Nunca tentou saber que
fora feito dele?

- Nunca. Se soubesse onde estava, em vez de ir ter com ele
fugiria como se foge de um monstro. No, felizmente nunca mais
ouvi falar dele. Espero que tenha morrido.

- No espere, Bertuccio - disse o conde. - Os maus no morrem
assim, pois Deus parece tom-los sob a sua proteco para os
tornar instrumento das suas vinganas.

- Pois seja - concordou Bertuccio. - Tudo o que peo ao Cu 
nunca mais o tornar a ver. Agora - continuou o intendente,
baixando a cabea - sabe tudo, Sr. Conde, e  o meu juiz c em
baixo, como Deus o ser l em cima. No me dir algumas
palavras de consolao?

- Tem razo, com efeito, e posso dizer-lhe o que lhe diria o
abade Busoni: aquele que abateu, esse Villefort, merecia ser
castigado pelo que lhe fizera e talvez por outra coisa ainda.
Benedetto, se vive, servir, como lhe disse, para qualquer
vingana divina e depois ser castigado por seu turno. Quanto
a si, s  tem na realidade uma coisa a censurar-se: pergunte
a si mesmo por que motivo, depois de arrancar a criana 
morte, a no entregou  me.  esse o seu crime, Bertuccio.

- Sim, senhor, foi esse o meu crime, o meu verdadeiro crime,
porque me comportei como um cobarde. Uma vez que conseguira
trazer a criana  vida, s tinha uma coisa a fazer, como o
senhor disse, era restitu-la  me. Mas para isso teria de
fazer indagaes, de chamar a ateno, de me entregar, talvez.
Ora eu no queria morrer, tinha amor  vida pela minha
cunhada, pelo amor-prprio inato entre ns de ficarmos firmes
e vitoriosos na nossa vingana. Ou talvez me agarrasse  vida
simplesmente por amor  prpria vida. Oh, eu no sou um bravo
como era o meu pobre irmo!

Bertuccio escondeu o rosto nas mos e Monte-cristo pousou
nele um longo e indefinvel olhar.

Em seguida, depois de um instante de silncio, tornado ainda
mais solene devido  hora e ao local:

- Para terminarmos dignamente esta conversa, que ser a ltima
acerca das suas aventuras, Sr. Bertuccio - disse o conde, num
tom de melancolia que lhe no era habitual --, fixe bem as
minhas palavras, que ouvi muitas vezes serem proferidas pelo
prprio abade Busoni. Para todos os males h dois remdios: o
tempo e o silncio. Agora, Sr. Bertuccio, deixe-me passear um
instante no jardim. O que  para si uma emoo pungente, por
ter sido actor nesta cena, ser para mim uma sensao quase
agradvel e que duplicar o valor desta propriedade. As
rvores, como o Sr. Bertuccio v, s agradam porque do
sombra, e a prpria sombra s agrada porque est cheia de
sonhos e vises. Comprei um jardim julgando comprar um mero
recinto murado e mais nada, e de repente o recinto revela-se
um jardim cheio de fantasmas, de modo algum includos na
escritura. Ora eu gosto de fantasmas. Talvez porque nunca ouvi
dizer que os mortos tenham feito tanto mal em seis mil anos
como os vivos fazem num dia. Volte para casa, Sr. Bertuccio, e
v dormir em paz. Se o seu confessor, no momento supremo, for
menos indulgente do que foi o abade Busoni, mande-me chamar,
se eu for ainda deste mundo, e encontrarei para si palavras
que embalaro a sua alma quando estiver prestes a pr-se a
caminho para fazer essa rdua viagem chamada eternidade.
Bertuccio inclinou-se respeitosamente diante do conde e
retirou-se, suspirando.

Monte-cristo ficou s. Deu quatro passos em frente e
murmurou:

- Aqui, ao p deste pltano, a cova onde a criana foi
depositada; l adiante, a portinha por onde se entrava no
jardim, quele canto, a escada oculta que leva ao quarto.
Parece-me que no necessito de anotar tudo isto, pois tenho
diante dos meus olhos,  minha volta e debaixo dos meus ps, a
planta em relevo, a planta viva.

Depois de uma ltima volta ao jardim, o conde dirigiu-se para
a carruagem. Bertuccio, que o achou pensativo, subiu sem dizer
nada para o lugar ao lado do cocheiro.

A carruagem retomou o caminho de Paris.

Naquela mesma noite, aps chegar  casa dos Campos Elsios, o
conde de Monte-cristo visitou todo o edifcio como o faria um
homem familiarizado com  ele h longos anos. Nem uma s vez,
embora fosse  frente, abriu uma porta por outra ou tomou por
uma escada ou por um corredor que o no levasse directamente
aonde contava ir. Ali acompanhava-o na sua revista nocturna. O
conde deu a Bertuccio vrias ordens com vista ao embelezamento
ou  nova arrumao da casa e, puxando do relgio, disse ao
nbio, atento:

- So onze e meia. Hayde no deve tardar. As mulheres
francesas esto avisadas?

Ali estendeu a mo para os aposentos destinados  bela grega,
que ficavam de tal forma isolados que, ocultando a porta com
uma tapearia, se podia visitar toda a casa sem suspeitar que
havia ali uma sala e dois quartos habitados. Ali, dizamos,
estendeu a mo para os aposentos, fez o nmero trs com os
dedos da mo esquerda e, apoiando a cabea nessa mesma mo,
depois de aberta, fechou os olhos como se dormisse.

- Ah! - exclamou o conde de Monte-cristo, habituado quela
linguagem. - So trs e esto  espera no quarto, no ?

- Sim - respondeu Ali, agitando a cabea de alto a baixo.

- A senhora deve vir cansada, esta noite - continuou
Monte-cristo --, e sem duvida querer dormir. Que no a faam
falar. As criadas francesas devem cumprimentar apenas a sua
nova ama e retirar-se. Providenciars para que a criada grega
no comunique com as criadas francesas.

Ali inclinou-se.

Pouco depois ouviu-se chamar o porteiro, o porto abriu-se,
uma carruagem rodou na alameda e deteve-se diante da
escadaria. O conde desceu. A portinhola j estava aberta.
Estendeu a mo a uma mulher nova, envolta num manto de seda
verde, todo bordado a ouro, que lhe cobria a cabea.

A jovem pegou na mo que lhe estendiam e beijou-a com certo
amor, laivado de respeito. Trocaram algumas palavras,
ternamente da parte da jovem e com meiga gravidade da parte do
conde, na lngua sonora que o velho Homero ps na boca dos
deuses.

Em seguida, precedida por Ali, que levava uma tocha de cera
cor-de-rosa, a jovem, que no era outra seno a bela grega,
companheira habitual de Monte-cristo em Itlia, foi conduzida
aos seus aposentos e o conde retirou-se para o pavilho que
reservara para si.

 meia-noite e meia hora todas as luzes estavam apagadas na
casa e dir-se-ia que toda a gente dormia.


Captulo XLVI

O crdito ilimitado


No dia seguinte, por volta das duas horas da tarde, uma calea
puxada por dois magnficos cavalos ingleses parou diante da
porta de Monte-cristo. Um homem de casaca azul, com botes de
seda da mesma cor, colete branco atravessado por enorme
corrente de ouro e calas cor de avel, e de cabelo to preto
e descendo-lhe at to perto das sobrancelhas que se hesitaria
em julg-lo  natural, de tal forma parecia pouco de harmonia
com as rugas inferiores, que no conseguia ocultar, um homem,
enfim, de cinquenta a cinquenta e cinco anos e que procurava
aparentar quarenta meteu a cabea pela portinhola, em cuja
almofada se via pintada uma coroa de baro, e mandou o seu
mandarete perguntar ao porteiro se o conde de Monte-cristo
estava em casa.

Enquanto esperava, o homem ps-se a observar, com uma ateno
to minuciosa, que se tornava quase impertinente, o exterior
da casa, o que se podia distinguir do jardim e a libr de
alguns criados que se viam ir e vir. O homem tinha um olhar
vivo, mas mais astuto do que espiritual, e lbios to delgados
que em vez de lhe sarem da boca lhe entravam nela.
Finalmente, a largura e a proeminncia das mas-do-rosto,
sinal infalvel de astcia, a depresso da testa e a grossura
do occipcio, que ultrapassava muito as grandes orelhas nada
aristocrticas, contribuam para dar, aos olhos de qualquer
fisionomista um caracter quase repelente  figura desta
personagem muito recomendvel aos olhos do vulgo, pelo seu
cabelo magnfico, pelo enorme diamante que trazia na camisa e
pela fita vermelha que se estendia de uma botoeira  outra da
casaca.

O mandarete bateu no postigo do porteiro e perguntou:

-  aqui que mora o Sr. Conde de Monte-cristo?

- Sim,  aqui que mora Sua Excelncia - respondeu o porteiro.
- Mas... E consultou Ali com a vista, o qual lhe fez um sinal
negativo.

- Mas?... - insistiu o mandarete.

- Mas Sua Excelncia no est visvel - respondeu o porteiro.

- Nesse caso, aqui est o carto do meu amo, o Sr. Baro
Danglars. Entregue-o ao conde de Monte-cristo e diga-lhe que
ao ir para a Cmara o meu amo se desviou do caminho para ter a
honra de o ver.

- Eu no falo com Sua Excelncia - redarguiu o porteiro
--, mas o criado de quarto dar-lhe- o recado.

O mandarete voltou para a carruagem.

- Ento? - perguntou Danglars.

O rapaz, muito envergonhado devido  lio que acabava de
receber, transmitiu ao amo a resposta que lhe dera o porteiro.

- Ora essa! - exclamou Danglars. -  algum prncipe esse
cavalheiro a quem tratam por Excelncia e a quem s o criado
de quarto tem o direito de falar? No faz mal, como tem um
crdito sobre mim, v-lo-ei quando precisar de dinheiro!

E Danglars recostou-se no fundo da carruagem, depois de gritar
ao cocheiro, de forma que se pudesse ouvir do outro lado da
rua:

-  Camara dos Deputados!

Atravs de uma persiana do seu pavilho, Monte-cristo,
prevenido a tempo, vira e estudara o baro com o auxlio de um
excelente binculo com no menos ateno do que o Sr. Danglars
pusera na anlise da casa, do jardim e das librs.

- Decididamente - murmurou com uma expresso de repugnncia,
guardando o binculo no seu estojo de marfim --, decididamente
aquele homem  uma criatura horrvel. Como  possvel no
reconhecer nele, desde a primeira vez que se v, a serpente de
cabea achatada, o abutre de crnio abaulado e o btio de bico
cortante? Ali! - gritou, e depois bateu numa campainha de
cobre.

Ali apareceu.

- Chama Bertuccio - ordenou-lhe.

No mesmo momento, Bertuccio entrou.

- V. Ex.a ia mandar-me chamar? - perguntou o intendente.

- Ia, sim, senhor - respondeu o conde. - Viu os cavalos que
estivera parados diante da minha porta?

- Decerto, Excelncia. So mesmo muito bonitos.

- Como  possvel - prosseguiu Monte-cristo, franzindo o
sobrolho - que depois de lhe pedir que me arranjasse os dois
mais belos cavalos de Paris haja em Paris dois cavalos to
bonitos como os meus e que esses cavalos no estejam nas
minhas cavalarias?

Perante o sobrolho franzido e o tom severo daquela voz, Ali
baixou a cabea.

- A culpa no  tua, meu bom Ali - disse o conde em rabe, com
uma doura que se no julgaria poder encontrar nem na sua voz,
nem no seu rosto. - Tu no percebes de cavalos ingleses.

A serenidade reapareceu no rosto de Ali.

- Sr. Conde - disse Bertuccio --, os cavalos a que se refere
no estavam  venda.

Monte-cristo encolheu os ombros:

- Fique sabendo, Sr. Intendente, que tudo est sempre  venda
para quem pode pagar o preo.

- O Sr. Danglars pagou-os por dezasseis mil francos, Sr.
Conde.

- Nesse caso, era oferecer-lhe trinta e dois mil.  banqueiro
e um banqueiro nunca perde a oportunidade de duplicar o seu
capital.

- O Sr. Conde fala a srio? - perguntou Bertuccio.

Monte-cristo fitou o intendente como um homem surpreendido
por se atreverem a interrog-lo.

- Esta tarde vou fazer uma visita. Quero que esses dois
cavalos estejam atrelados  minha carruagem com um arreio
novo.

Bertuccio cumprimentou e retirou-se. Mas parou ao p da porta
para perguntar:

- A que horas conta V. Ex.a fazer essa visita?

- s cinco horas - respondeu Monte-cristo.

- Permito-me observar a V. Ex.a que j so duas horas -
arriscou o intendente.

- Bem sei - limitou-se a responder Monte-cristo.

Depois, virando-se para Ali:

- Manda passar todos os cavalos diante da senhora para que
escolha a parelha que mais lhe agradar e pede-lhe que me mande
dizer se quer jantar comigo. Nesse caso, o jantar ser servido
nos seus aposentos. Vai. Quando desceres, manda-me o meu
criado de quarto.

Ali acabava de desaparecer quando o criado de quarto entrou
por seu turno.

- Sr. Baptistin - disse-lhe o conde --, h um ano que est ao
meu servio;  o tempo de experincia que imponho
habitualmente ao meu pessoal. O senhor serve-me.
Baptistin inclinou-se.

- Resta saber se eu lhe sirvo.

- Oh, Sr. Conde! - apressou-se a dizer Baptistin.

- Oua-me at ao fim - prosseguiu o conde. - O senhor ganha
por ano  mil e quinhentos francos, isto , o soldo de um bom
e bravo oficial que arrisca todos os dias a vida, e tem uma
mesa que muitos chefes de repartio, pobres servidores
infinitamente mais ocupados do que o senhor, lhe invejariam.
Criado, tem o senhor mesmo criados que lhe cuidam da roupa e
das suas coisas. Alm dos seus mil e quinhentos francos de
ordenado, o senhor rouba-me, nas compras que me faz para a
minha toilette, mais cerca de mil e quinhentos francos por
ano...

- Oh, Excelncia!

- No me queixo disso, Sr. Baptistin;  razovel. No entanto,
desejo que as coisas fiquem por a. O senhor no arranjaria em
parte alguma um lugar como o que a sua boa fortuna lhe
proporcionou. Nunca bato no meu pessoal, nunca praguejo, nunca
me encolerizo, perdoo sempre um erro, mas nunca uma
negligncia ou um esquecimento. As minhas ordens so
habitualmente curtas, mas claras e precisas. Prefiro
repeti-las duas vezes, e at trs, a v-las mal interpretadas.
Sou bastante rico para saber tudo o que quero saber, e sou
muito curioso, previno-o. Se souber, portanto, que falou a meu
respeito bem ou mal, comentou os meus actos ou vigiou a minha
conduta, sair da minha casa imediatamente. Nunca previno os
meus criados mais do que uma vez. Est prevenido, pode-se
retirar!

Baptistin inclinou-se e deu trs ou quatro passos para se
retirar. - A propsito - prosseguiu o conde --, esquecia-me de
dizer que todos os anos deposito determinada importncia em
nome do meu pessoal. Aqueles que despeo perdem
inevitavelmente esse dinheiro, que aproveita aos que ficam e
que a ele tero direito depois da minha morte. Est c h um
ano, a sua fortuna comeou, continue-a.

Esta alocuo feita diante de Ali, que permanecia impassvel
atendendo a que no percebia uma palavra de francs, produziu
no Sr. Baptistin um efeito que compreendero todos aqueles que
estudaram a psicologia do criado francs.

- Procurarei conformar-me em todos os pontos com os desejos de
V. Ex.a - disse. - Alis, guiar-me-ei pelo Sr. Ali.

- Oh, de modo nenhum! - redarguiu o conde, com uma frieza de
mrmore. - Ali tem muitos defeitos de mistura com as suas
qualidades. No siga portanto o seu exemplo, porque Ali  uma
excepo. No tem salrio, no  um criado,  o meu escravo, o
meu co. Se faltasse ao seu dever, no o despediria, matava-o.

Baptistin arregalou os olhos.

- Duvida? - perguntou Monte-cristo.

E repetiu a Ali as mesmas palavras que acabava de dizer em
francs a Baptistin.

Ali ouviu, sorriu, aproximou-se do amo, ps um joelho no cho
e beijou-lhe respeitosamente a mo.

Este corolariozinho da lio levou ao cmulo a estupefaco do
Sr. Baptistin,

O conde fez sinal a Baptistin para sair e a Ali para o seguir.
Ambos passaram ao gabinete do conde, onde conversaram
demoradamente.

s cinco horas o conde tocou trs vezes a campainha. Um toque
chamava Ali, dois toques, Baptistin, e trs toques, Bertuccio.

O intendente entrou.

- Os meus cavalos? - perguntou Monte-cristo.

- Esto atrelados  carruagem, Excelncia - respondeu
Bertuccio. - Devo acompanhar o Sr. Conde?

- No, apenas o cocheiro, Baptistin e Ali.

O conde desceu e encontrou atrelados  carruagem os cavalos
que admirara de manh na carruagem de Danglars.

Ao passar por eles deitou-lhe uma olhadela.

- So lindos, de facto - declarou --, e fez bem em
compr-los. S  pena que tenha sido um bocadinho tarde...

- Excelncia - atalhou Bertuccio --, tive muita dificuldade em
os conseguir e ficaram muito caros.

- So por isso menos belos? - perguntou o conde, encolhendo os
ombros.

- Se V. Ex.a est satisfeito  quanto basta - disse Bertuccio.
- Aonde vai, Excelncia?

-  Rua da Chausse-d'Antin, a casa do Sr. Baro Danglars.

Esta conversa passava-se ao cimo da escadaria. Bertuccio deu
um passo para descer o primeiro degrau.

- Espere, senhor - disse Monte-cristo, detendo-o. - Preciso
de um terreno  beira-mar, na Normandia, por exemplo, entre o
Havre e Bolonha. Dou-lhe espao, como v, conviria que o
terreno tivesse um portinho, uma enseadazinha, uma baiazinha,
onde pudesse entrar e ficar a minha corveta, que no precisa
de mais de quinze ps de gua. O navio estar sempre pronto a
fazer-se ao mar, a qualquer hora do dia ou da noite que lhe d
ordem para isso. Informe-se junto de todos os notrios de uma
propriedade nas condies que lhe disse. Quando souber de
alguma, ir v-la, e se lhe agradar, compr-la- em seu nome.
A corveta deve estar a caminho de Fcamp, no  verdade?

- Vi-a fazer-se ao mar na prpria tarde em que samos de
Marselha.

- E o iate?

- O iate tem ordem para permanecer em Martigues.

- Bem, comunique de vez em quando com os dois patres que os
comandam a fim de no adormecerem.

- E quanto ao navio a vapor?

- O que est em Chlons?

- Sim.

- As mesmas ordens que para os dois navios  vela.

- Muito bem!

- Logo que a propriedade esteja comprada, instalarei mudas de
cavalos de dez em dez lguas na estrada do Norte e na estrada
do Meio-Dia.

- V. Ex.a pode contar comigo.

O conde fez um sinal de satisfao, desceu os degraus e entrou
na carruagem, a qual, levada pelo trote magnfico da parelha,
s parou diante do palcio do banqueiro.

Danglars presidia a uma comisso nomeada para estudar a
instalao de uma via frrea quando lhe anunciaram a visita do
conde de Monte-cristo. A sesso estava, de resto, quase a
terminar.

Ao ouvir o nome do conde, levantou-se.

- Meus senhores  - disse, dirigindo-se aos colegas, muitos dos
quais eram respeitveis membros de uma ou de outra Cmara --,
perdoem-me deix-los assim, mas imaginem que a Casa Thomson 
French, de Roma, me recomenda  um tal conde de
Monte-cristo, a quem abre em minha casa um crdito ilimitado.
 a brincadeira mais engraada que os meus correspondentes
estrangeiros at agora se permitiram ter para comigo!
Compreendem, fiquei cheio de curiosidade e ainda estou. Passei
esta manh por casa do pretenso conde. Se fosse um verdadeiro
conde, no seria to rico, como calculam. O cavalheiro no
estava visvel. Que lhes parece? No acham que mestre
Monte-cristo se d ares de alteza ou de mulher bonita? Fora
isso, a casa situada nos Campos Elsios, e que lhe pertence,
segundo estou informado, pareceu-me bem. Mas um crdito
ilimitado - prosseguiu Danglars, soltando um riso desagradvel
- torna muito exigente o banqueiro junto do qual o crdito 
aberto. Tenho portanto pressa de ver o nosso homem. Julgo-me
mistificado. Mas os meus correspondentes no sabem com quem
esto metidos. Rir melhor quem rir no fim.

Ditas estas palavras, com uma nfase que dilatou as narinas do
Sr. Baro, este deixou os seus hspedes e passou a uma sala
pintada de branco e dourado, famosa na Chausse-d'Antin.

Fora para l que ordenara levassem o visitante, a lim de o
deslumbrar logo de entrada.

O conde estava de p, a examinar cpias de Albane e Fattore,
que tinham feito passar aos olhos do banqueiro por originais e
que por isso mesmo destoavam gritantemente dos adornos de
todas as cores que guarneciam o tecto.

Ao ouvir o rudo que Danglars fez ao entrar o conde virou-se.

Danglars cumprimentou com uma leve inclinao de cabea e fez
sinal ao conde para se sentar numa cadeira de braos forrada
de cetim branco e guarnecida de pregaria dourada.
O conde sentou-se.

-  ao Sr. de Monte-cristo que tenho a honra de falar?

- E eu - respondeu o conde - ao Sr. Baro Danglars, cavaleiro
da Legio de Honra e membro da Cmara dos Deputados?

Monte-cristo repetia todos os ttulos que encontrara no
carto do baro.

Danglars acusou o toque e mordeu os lbios.

- Desculpe-me, senhor, no o ter tratado logo pelo ttulo por
que me foi anunciado, mas como vivemos sob um governo popular
e sou um representante dos interesses do povo...

- Embora conservando o hbito de se fazer tratar por baro,
perdeu o de tratar os outros por conde - concluiu
Monte-cristo.

-Oh, no  por mim, senhor! - respondeu negligentemente
Danglars. - Nomearam-me baro e fizeram-me cavaleiro da Legio
de Honra por alguns servios prestados, mas...

- Mas abdicou dos seus ttulos, como fizeram outrora os Srs.
de Montmorency e de Lafayette? Era um belo exemplo a seguir.

- Que no entanto no segui inteiramente - admitiu
Danglars, embaraado. - Mas compreende, os criados...

-- Sim, para os seus criados deve ser monsenhor, para os
jornalistas, senhor, e para os seus representados, cidado.
So cambiantes muito aplicveis ao governo constitucional.
Compreendo perfeitamente.

Danglars beliscou os lbios. Viu que naquele terreno no era
da fora de Monte-cristo e tentou portanto regressar a outro
que lhe fosse mais familiar.

- Sr. Conde-disse, inclinando-se - recebi uma carta da Casa
Thomson  French...

- Ainda bem, Sr. Baro. Permita-me que o trate como o tratam
os seus criados.  um mau hbito adquirido em pases onde
ainda existem bares precisamente porque j se no fazem.
Ainda bem, dizia, porque assim no terei necessidade de me
apresentar pessoalmente, o que  sempre embaraoso. Recebeu
portanto, dizia, uma carta?

- Sim - respondeu Danglars. - Mas confesso-lhe que lhe no
compreendi perfeitamente o sentido.

- Essa  boa!

- E tive at a honra de passar por sua casa para lhe pedir
algumas explicaes.

- Pois aqui me tem, senhor, - pronto a ouvi-lo.

- Tenho essa carta comigo, creio - disse Danglars,
procurando-a na algibeira. - Sim, c est... Esta carta abre
ao Sr. Conde de Monte-cristo um crdito ilimitado na minha
casa.

- E que v o Sr. Baro de obscuro a?

- Nada, senhor. Apenas a palavra ilimitado...

- No  uma palavra francesa?... Compreende, a carta foi
escrita por anglo-alemes.

- Oh, certamente, senhor! No tocante  sintaxe no h nada a
dizer, mas o mesmo no acontece no tocante  contabilidade.

- Porventura a Casa Thomson  French no  perfeitamente
segura, na sua opinio, Sr. Baro? - perguntou Monte-cristo
com o ar mais ingnuo que conseguiu arranjar. - Diabo, isso
contrariar-me-ia, pois tenho alguns fundos colocados nela!

- Oh,  perfeitamente segura - respondeu Danglars, com um
sorriso quase zomboteiro. - Mas o sentido da palavra
ilimitado, em matria de finanas,  to vago...

- Que  ilimitado, no  verdade?-concluiu Monte-cristo.

- Era precisamente isso que queria dizer, senhor. O vago 
duvidoso, e l diz o ditado: "Na dvida, abstm-te."

- O que significa - prosseguiu Monte-cristo - que se a Casa
Thomson  French est disposta a cometer loucuras, a Casa
Danglars no quer seguir-lhe o exemplo.

- Como assim, Sr. Conde?

- Sim, sem dvida. Os Srs. Thomson  French negoceiam sem
fixar os limites do seu crdito, mas o Sr. Danglars tem um
limite para o seu;  um homem sensato, como h pouco dizia.

- Senhor - respondeu orgulhosamente o banqueiro --, ainda
ningum recorreu em vo  minha caixa!

- Nesse caso - redarguiu friamente Monte-cristo --, parece
que serei eu o primeiro.

- Quem lhe disse isso?

- As explicaes que me pode, senhor, e que se assemelham
muito a hesitaes...

Danglars mordeu os lbios.

Era a segunda vez que era batido por aquele homem, e desta vez
no seu terreno. A sua cortesia zombeteira era apenas afectada
e raiava quase a impertinncia.

Monte-cristo, pelo contrrio, sorria com a maior
descontraco deste mundo e possua, quando queria, um certo
ar ingnuo que lhe dava muitas vantagens.

- Enfim, senhor - disse Danglars, aps um momento de silncio
--, vou tentar fazer-me compreender, pedindo-lhe que fixe
pessoalmente a quantia que conta levantar do meu banco.

- Mas, senhor - redarguiu Monte-cristo, decidido a no perder
uma polegada de terreno na discusso --, se pedi um crdito
ilimitado sobre o senhor, foi precisamente por no saber de
que dinheiro precisaria.

O banqueiro julgou chegado, finalmente, o momento de atacar a
fundo. Recostou-se na sua cadeira e disse, com um sorriso
grosseiro e orgulhoso:

- Oh, senhor, no tenha medo de pedir! Poder ento
convencer-se de que o crdito da Casa Danglars, por muito
limitado que seja, pode satisfazer as maiores exigncias.
Mesmo que pedisse um milho...

- Como? - perguntou Monte-cristo.

- Disse que mesmo que pedisse um milho - repetiu Danglars com
a arrogncia da estupidez.

- E que faria eu com um milho? - perguntou o conde. - Meu
Deus, senhor, se se tratasse apenas de um milho no estaria
aqui! No me incomodaria a abrir um crdito por semelhante
misria! Um milho? Mas se trago sempre um
milho na carteira ou no meu estojo de viagem!

E Monte-cristo tirou de uma agendazinha onde trazia os
cartes de visita duas ordens de pagamento de quinhentos mil
francos cada uma, pagveis ao portador, sobre o Tesouro.
Um homem como Danglars devia ser desancado e no espicaado. A
bordoada produziu o seu efeito: o banqueiro cambaleou e sentiu
vertigens. Depois, pousou em Monte-cristo dois olhos
embrutecidos e com as pupilas horrivelmente dilatadas.

- Vamos - disse Monte-cristo --, confesse que desconfia da
Casa Thomson  French... Meu Deus,  muito simples! Previ o
caso e, apesar de no perceber nada de negcios, tomei as
minhas precaues. Aqui esto portanto mais duas cartas
idnticas  que lhe foi endereada. Uma  da Casa Arestein 
Eskoles, de Viena, sobre o Sr. Baro de Rothschild, e a outra
 da Casa Baring, de Londres, sobre o Sr. Laff'tte. Diga-me
uma s palavra, senhor, e livr-lo-ei de qualquer preocupao,
dirigindo-me a uma ou a outra destas duas casas.

Pronto, Danglars estava vencido. Abriu, visivelmente trmulo,
a carta de Viena e a carta de Londres, que o conde lhe
estendia com a ponta dos dedos, e verificou a autenticidade
das assinaturas com uma mincia que seria insultante para
Monte-cristo se no fizesse parte da
estupefaco do banqueiro.

- Oh, senhor, esto aqui trs assinaturas que valem muitos
milhes - declarou Danglars, levantando-se como que para
cumprimentar o poder do ouro personificado naquele homem que
tinha diante de si. - Trs crditos ilimitados sobre as nossas
casas! Perdoe-me, Sr. Conde, mas, embora deixando de ser
desconfiado, ainda estou atnito.

- Bom, no  caso para uma casa como a sua se surpreender
assim -  declarou Monte-cristo, com toda a urbanidade. -
Pode portanto abonar-me algum dinheiro, no  verdade?

- Fale, Sr. Conde, estou s suas ordens.

- Bom - prosseguiu Monte-cristo --, agora que j nos
conhecemos... Porque nos entendemos, no  verdade?

Danglars acenou afirmativamente com a cabea.

- E j no tem nenhuma desconfiana? - continuou
Monte-cristo.

- Oh, Sr. Conde, nem nunca tive! - exclamou o banqueiro.

- Pois no, desejava apenas uma prova e mais nada. Bom, agora
que j nos entendemos - repetiu o conde --, agora que j no
tem nenhuma desconfiana, fixemos, se assim o deseja, uma
importncia geral para o primeiro ano: seis milhes, por
exemplo.

- Seja seis milhes! - concordou Danglars, sufocado.

- Se precisar de mais - prosseguiu maquinalmente Monte-cristo
--, pedirei mais, mas no conto ficar mais de um ano em Frana
e durante esse ano creio que no excederei essa verba...
Enfim, veremos... Para comear, agradecia-lhe que me mandasse
entregar amanh quinhentos mil francos. Estarei em casa at ao
meio-dia, mas se no estiver, deixarei um recibo ao meu
intendente.

- O dinheiro estar em sua casa amanh s dez horas da manh,
Sr. Conde - respondeu Danglars. - Quere-o em ouro, em notas ou
em prata?

- Metade em ouro e metade cm notas, por favor.

E o conde levantou-se.

- Devo confessar-lhe uma coisa, Sr. Conde - disse Danglars,
por seu turno. -  Julgava ter noes exactas sobre todas as
grandes fortunas da Europa, e no entanto a sua, que me parece
considervel, era-me, confesso, absolutamente desconhecida. 
recente?

- No, senhor - respondeu Monte-cristo. - Pelo contrrio, 
antiqussima. Era uma espcie de tesouro de famlia no qual
era proibido tocar e cujos juros acumulados triplicaram o
capital. A data fixada pelo testador chegou apenas h alguns
anos, e portanto s h alguns anos entrei na posse dessa
fortuna. A sua ignorncia a tal respeito  pois absolutamente
natural. De resto, dentro de algum tempo saber melhor o que
possuo...

E o conde acompanhou estas palavras com um dos sorrisos
plidos que tanto medo metiam a Franz de Epinay.

- Com os seus gostos e as suas intenes, senhor - continuou
Danglars --, vai decerto exibir na capital um luxo que nos
esmagar a todos, pobres pequenos milionrios.
Entretanto, como me parece apreciador, porque quando entrei
observava os meus quadros, peo-lhe licena para lhe mostrar a
minha galeria. So todos quadros antigos, todos quadros de
mestres garantidos como tal. No gosto dos modernos.

- Tem razo, senhor, porque tm geralmente um grande defeito:
o de no terem tido ainda tempo de envelhecer.

- Tambm lhe posso mostrar algumas esttuas de Thorwaldsen, de
Bartoloni e de Canova, todos artistas estrangeiros. Como v,
no aprecio os artistas franceses.

- Tem o direito de ser injusto com eles, senhor, visto serem
seus compatriotas.

- Mas tudo isto fica para mais tarde, para quando nos
conhecermos melhor.

Por hoje limitar-me-ei, se me permite, a apresent-lo  Sr.a
Baronesa Danglars. Desculpe a minha insistncia, Sr. Conde,
mas um cliente como o senhor faz quase parte da famlia.

Monte-cristo inclinou-se em sinal de que aceitava a honra que
o financeiro lhe desejava conceder.

Danglars tocou. Apareceu um lacaio de libr resplandecente.

- A Sr. a Baronesa est nos seus aposentos? - perguntou
Danglars.

- Est, sim, Sr. Baro - respondeu o lacaio.

- Sozinha?

- No, a senhora tem visitas.

- No ser indiscrio apresent-lo diante doutras pessoas,
pois no, Sr. Conde? No guarda o incgnito?

- No, Sr. Baro - respondeu Monte-cristo, sorrindo. - Acho
que no tenho esse direito.

- E quem est com a senhora? O Sr. Debray? - perguntou
Danglars, com uma bonomia que fez sorrir intimamente
Monte-cristo, j esclarecido acerca dos transparentes
segredos familiares do financeiro.

- , sim, o Sr. Debray, Sr. Baro - respondeu o lacaio.

Danglars acenou com a cabea.

Depois, virando-se para Monte-cristo:

- O Sr. Lucicn Debray - disse -  um velho amigo nosso,
secretrio particular do ministro do Interior. Quanto  minha
mulher, desceu casando comigo, pois pertence a uma famlia
antiga: era uma Servires, viva em primeiras npcias do Sr.
Coronel Marqus de Nargonne.

- No tenho a honra de conhecer a Sr.a Danglars, mas j
conheo o Sr. Lucien Debray.

- Sim? - admirou-se Danglars. - E onde o conheceu?

- Em casa do Sr. de Morcerf. - disse Danglars.

- Ah, conhece o viscondezinho?

- Encontrmo-nos em Roma, no Carnaval.

- Ah, sim, ouvi dizer qualquer coisa a respeito de uma
aventura singular com bandidos, assaltantes nas rumas!...
Parece que foi salvo milagrosamente. Creio que ele contou
qualquer coisa a esse respeito  minha mulher e  minha filha,
no seu regresso de Itlia.

- A Sr.a Baronesa espera-os, senhor - veio anunciar o lacaio.

- Vou  frente para lhe indicar o caminho - declarou Danglars,
inclinando-se.

- E eu sigo-o - respondeu Monte-cristo.


Captulo XLVII

A parelha pigara


O baro, seguido do conde, atravessou uma longa fila de salas
notveis pela sua pesada sumptuosidade e pelo seu faustoso mau
gosto e chegou ao boudoir da Sr.a Danglars, uma salinha
octogonal forrada de cetim cor-de-rosa e musselina da
ndia. As cadeiras eram de antiga madeira dourada e
igualmente antigo era o tecido dos estofos. As bandeiras das
portas representavam cenas buclicas no gnero de Boucher.
Finalmente, dois bonitos medalhes pintados a pastel, de
harmonia com o resto da decorao, tornavam a salinha a nica
diviso do palcio com algum carcter.  certo que escapara
ao plano geral estabelecido entre o Sr. Danglars e o seu
arquitecto, uma das mais altas e eminentes celebridades do
Imprio, e que fora a baronesa e Lucien Debray quem interviera
unicamente na decorao. Por isso o Sr. Danglars, grande
admirador do antigo conforme o entendia o Directrio, nutria
grande desdm por aquele elegante redutozinho, onde, de resto,
s era admitido, em geral, com a condio de justificar a sua
presena acompanhando algum. No era, portanto, na realidade,
Danglars quem apresentava, era, pelo contrrio, ele que era
apresentado e bem ou mal recebido, consoante a cara do
visitante agradava ou desagradava  baronesa.

A Sr.a Danglars, cuja beleza ainda podia ser citada, apesar
dos seus trinta e seis anos, estava ao piano, pequena
obra-prima de marcenaria, enquanto Lucien Debray, sentado
diante de uma mesa de costura, folheava um lbum.

Antes da chegada do conde, Lucien j tivera ensejo de contar 
baronesa muitas coisas a seu respeito. Sabemos como, durante o
almoo em casa de Albert, Monte-cristo impressionara os
convivas. Ora, tal impresso, por muito pouco impressionvel
que ele fosse, ainda no se apagara em Debray e as informaes
que dera  baronesa acerca do conde tinham-se ressentido
disso. A curiosidade da Sr.a Danglars, excitada pelos antigos
pormenores dados por Morcerf e pelos novos fornecidos por
Lucien, subira portanto ao cmulo. Por isso, aquela disposio
de piano e lbum no passava de uma dessas astuciazinhas da
sociedade, com o auxlio das quais se ocultam maiores
precaues. A baronesa recebeu, consequentemente, o Sr.
Danglars com um sorriso, o que da sua parte no era coisa
habitual. Quanto ao conde, teve em troca do seu cumprimento
uma cerimoniosa mas ao mesmo tempo graciosa reverncia.

Pela sua parte, Lucien trocou com o conde um cumprimento de
semiconhecimento e com Danglars um gesto de intimidade.

- Sr.a Baronesa - disse Danglars --, permita-me que lhe
apresente o Sr. Conde de Monte-cristo, que me foi apresentado
pelos meus correspondentes em Roma com as recomendaes mais
insistentes. A seu respeito tenho apenas a dizer que no
tardar a ser disputadssimo por todas as nossas belas damas.
Est em Paris com a inteno de c permanecer um ano e de
durante esse ano despender seis milhes de francos, o que
promete uma srie de bailes, de jantares e de ceias, para os
quais espero que o Sr. Conde se no esquea de nos convidar,
tal como no nos esqueceremos de o convidar para as nossas
festinhas.

Apesar de a apresentao ser bastante grosseiramente elogiosa,
 em geral coisa to rara um homem chegar a Paris disposto a
gastar num ano a fortuna de um prncipe que a Sr.a Danglars
deitou ao conde um olhar que no era desprovido de certo
interesse

- Quando chegou, senhor? - perguntou a baronesa.

- Anteontem de manh, minha senhora.

- E veio, conforme o seu hbito, pelo que me disseram, do cabo
do mundo?

- De Cdiz, desta vez, minha senhora; pura e
simplesmente.

- Oh, chega numa estao horrvel! Paris  detestvel no
Vero, no h bailes, nem reunies, nem festas. A pera
italiana est em Londres; a pera francesa est em toda a
parte, excepto em Paris, e quanto ao teatro francs, como
sabe, no est em parte nenhuma. Resta-nos portanto, como
nica distraco, algumas pobres corridas no Campo de Marte e
em Satory. Participar nas corridas, Sr. Conde?

- Minha senhora - respondeu Monte-cristo --, participarei em
tudo o que se fizer em Paris se tiver a sorte de encontrar
algum que me informe convenientemente acerca dos hbitos
franceses.

-  apreciador de cavalos, Sr. Conde?

- Passei parte da minha vida no Oriente, minha senhora, e os
Orientais, como sabe, s apreciam duas coisas no mundo: a
nobreza dos cavalos e a beleza das mulheres.

- Ento, Sr. Conde, devia ter tido a galantaria de colocar as
mulheres em primeiro lugar... - observou a baronesa.

- Como v, minha senhora, tinha toda a razo quando h pouco
desejava encontrar um preceptor capaz de me ensinar os hbitos
franceses.

Neste momento, a camareira favorita da Sr.a Baronesa Danglars
entrou, aproximou-se da ama e segredou-lhe qualquer coisa ao
ouvido.

A Sr.a Danglars empalideceu.

- Impossvel! - exclamou.

- Mas  a pura verdade, minha senhora - respondeu a camarista.

A Sr.a Danglars virou-se para o marido.

-  verdade, senhor?

- O qu, minha senhora? - perguntou Danglars, visivelmente
agitado.

- O que me disse esta rapariga...

- E que disse ela?

- Disse-me que quando o meu cocheiro foi para atrelar os meus
cavalos  minha carruagem no os encontrou na cavalaria. Que
significa isto, diga-me?

- Minha senhora, escute-me... - comeou Danglars.

- Oh, escuto-o, senhor, porque tenho curiosidade de saber o
que me vai dizer! Farei estes senhores juzes entre ns e
comeo por lhes dizer o que se passa. Meus senhores -
continuou a baronesa --, o Sr. Baro Danglars tem dez cavalos
na cavalaria; entre esses dez cavalos h dois que so meus,
cavalos encantadores, os mais belos cavalos de Paris. O senhor
conhece-os, Debray, os meus pigaros! Pois bem, no momento em
que a Sr.a de Villefort me pede emprestada a carruagem, e lha
prometo para ir amanh ao Bosque, os dois cavalos desaparecem!
O Sr. Danglars deve ter arranjado maneira de ganhar alguns
milhares de francos com eles e vendeu-os. Oh, meu Deus, que
raa maldita, a dos especuladores!

- Minha senhora - respondeu Danglars --, os cavalos eram
demasiado fogosos, tinham apenas quatro anos e faziam-me
recear horrivelmente por si...

- Sabe perfeitamente - redarguiu a baronesa - que tenho h
mais de um ms ao meu servio o melhor cocheiro de Paris, a
no ser que tambm o tenha vendido com os cavalos.

- Querida amiga, arranjar-lhe-ei outros idnticos, ou mais
bonitos ainda, se houver, mas cavalos sossegados, calmos e que
me no inspirem semelhante terror.

A baronesa encolheu os ombros com ar de profundo desprezo.

Danglars no pareceu notar o gesto mais do que conjugal e
virou-se para Monte-cristo:

- Na verdade, lamento no o ter conhecido mais cedo, Sr. Conde
-declarou. - Est a montar a sua casa?

- Evidentemente - respondeu o conde.

- Ter-lhos-ia oferecido. Imagine que os dei por nada, mas como
lhe disse, queria desfazer-me deles. So cavalos para rapazes.

- Agradeo-lhe, senhor - respondeu o conde --, mas comprei uns
esta manh, bastante bons e no demasiado caros. Olhe,
veja-os, Sr. Debray; creio que  apreciador...

Enquanto Debray se aproximava da janela, Danglars aproximou-se
da mulher.

- Imagine, minha senhora - disse-lhe baixinho --, que me
vieram oferecer um preo exorbitante por esses cavalos. No
sei qual  o louco em vias de se arruinar que me mandou esta
manh o seu intendente, mas o caso  que ganhei dezasseis mil
francos. No se zangue comigo e dar-lhe-ei quatro mil e dois
mil a Eugnie.

A Sr.a Danglars deitou ao marido um olhar esmagador.

- Oh, meu Deus! - exclamou Debray.

- Que aconteceu? - perguntou a baronesa.

- Mas no estou enganado, so os seus cavalos, os seus
prprios cavalos atrelados  carruagem do conde.

- Os meus pigaros?! - gritou a Sr.a Danglars.

Correu para a janela.

- Com efeito, so eles... - murmurou.

Danglars estava estupefacto.

- Ser possvel? - disse Monte-cristo, simulando surpresa.

-  incrvel! - exclamou o banqueiro.

A baronesa disse qualquer coisa ao ouvido de Debray, que se
aproximou de Monte-cristo.

- A baronesa manda perguntar por quanto lhe vendeu o marido a
parelha.

- No sei muito bem - respondeu o Conde --, foi uma surpresa
que o meu intendente me fez e me custou... creio que trinta
mil francos.

Debray foi transmitir a resposta  baronesa.

Danglars estava to plido e desorientado que o conde simulou
ter pena dele.

- Veja como as mulheres so ingratas - disse-lhe. - A ateno
que teve para com ela no impressionou nada a baronesa.
Ingratas no  o termo, era loucas que deveria dizer. Mas, que
quer, gostam sempre do que  nocivo. Por isso o mais sensato,
acredite, caro baro,  deix-las fazer sempre o que lhos
venha  cabea. Se a partirem, pelo menos s se podero
queixar delas prprias!

Danglars no disse nada; previa num prximo futuro uma cena
desastrosa. A Sr.a Baronesa j estava de sobrolho franzido, o
que, como no caso de Jpiter Olmpico, pressagiava tempestade.
Debray, que a sentia formar-se, pretextou um assunto a tratar
e saiu. Monte-cristo, que no desejava prejudicar a posio
que contava conquistar demorando-se mais tempo, cumprimentou a
Sr.a Danglars e retirou-se, entregando o baro  clera da
mulher.

"Bom", pensou Monte-cristo ao sair, "cheguei aonde queria
chegar. Tenho  nas mos a paz do casal e vou conquistar de
uma assentada o corao do senhor e o corao da senhora...
Que sorte! Mas", acrescentou, "no meio de tudo isto no fui
apresentado  Menina Eugnie Danglars, que no entanto teria
sido muito agradvel conhecer. Mesmo assim", prosseguiu, com o
sorriso que lhe era caracterstico, "eis-nos em Paris e com
tempo  nossa frente... Ficar para mais tarde!..."

Aps esta reflexo, o conde meteu-se na carruagem e regressou
a casa.

Duas horas mais tarde, a Sr.a Danglars recebeu uma carta
encantadora do conde de Monte-cristo, na qual este lhe
declarava que, no querendo assinalar a sua entrada na
sociedade parisiense com o desespero de uma linda mulher, lhe
suplicava que aceitasse a restituio dos seus cavalos.

Estes tinham os mesmos arreios que ela lhes vira de manh;
apenas no meio de cada roseta que traziam junto das orelhas o
conde mandara colocar um diamante.

Danglars tambm teve a sua carta.

O conde pedia-lhe licena para tornar a baronesa beneficira
daquele capricho de milionrio e solicitava-lhe que
desculpasse as maneiras orientais que acompanhavam a
restituio dos cavalos.  noite, Monte-cristo partiu para
Auteuil acompanhado de Ali.

No dia seguinte, por volta das trs horas, Ali, chamado por um
toque de campainha, entrou no gabinete do conde.

- Ali, tm-me falado muitas vezes da tua percia a lanar o
lao...

Ali fez sinal que sim e endireitou-se orgulhosamente.

- Muito bem... Serias capaz de apanhar um boi com o lao?

Ali acenou que sim com a cabea.

- E um tigre?

Ali fez o mesmo sinal.

- E um leo ?

Ali simulou o gesto de um homem que lana o lao e imitou um
rugido estrangulado.

- Muito bem! Compreendo - disse Monte-cristo. -  Caaste
lees?

Ali acenou com a cabea, orgulhoso.

- Mas serias capaz de deter na corrida dois cavalos que
tivessem tomado o freio nos dentes?

Ali sorriu.

- Nesse caso, escuta - disse-lhe Monte-cristo. - Daqui a
pouco passar uma carruagem puxada por dois cavalos pigaros,
os mesmos que eu tinha ontem. Ainda que tenhas de te deixar
esmagar, tens de deter essa carruagem diante da minha porta.

Ali desceu  rua e traou diante da porta uma linha na
calada; voltou a entrar e mostrou a linha ao conde, que o
seguira com a vista.

O conde bateu-lhe suavemente no ombro; era a sua maneira de
agradecer a Ali. Depois o nbio foi fumar o seu chibuque
sentado no marco situado  esquina da casa e da rua, enquanto
Monte-cristo voltava para dentro sem se ocupar de mais nada.

No entanto, por volta das cinco horas, isto ,  hora em que o
conde esperava a carruagem, poder-se-ia ver surgir nele os
sinais quase imperceptveis de uma ligeira impacincia.
Passeava numa sala que dava para a rua, apurava o ouvido a
intervalos e de vez em quando aproximava-se da janela, atravs
da qual via Ali soltar baforadas de fumo de tabaco com uma
regularidade indicadora de que o nbio estava todo entregue
quela importante ocupao.

De sbito, ouviu-se um rodar distante, mas que se aproximava
com a rapidez do raio. Em seguida apareceu uma calea, cujo
cocheiro procurava inutilmente deter os cavalos, que avanavam
furiosos, eriados, saltando como se tivessem enlouquecido. Na
calea, uma mulher nova e um garoto de sete a oito anos,
abraados, tinham perdido, devido ao excessivo terror, at a
fora para gritar. Bastaria uma pedra debaixo de uma roda ou
uma rvore baixa para fazer a carruagem em fanicos, a qual j
estalava por todas as juntas.
A viatura ocupava o meio da calada e ouviam-se na rua os
gritos de terror dos que a viam passar.

De sbito, Ali pousou o chibuque, tirou da algibeira o lao,
lanou-o e envolveu numa volta tripla as pernas da frente do
cavalo da esquerda. Deixou-se arrastar trs ou quatro passos
pela violncia do impulso, mas ao cabo desses trs ou quatro
passos o cavalo laado caiu sobre o varal, que partiu, e
paralisou os esforos do cavalo que ficara de p para
continuar a corrida. O cocheiro aproveitou a oportunidade para
saltar do seu lugar. Mas j Ali agarrara com os seus dedos de
ferro as narinas do segundo cavalo, e o animal, relinchando de
dor, caa convulsivamente junto do companheiro.

Tudo isto se passou no tempo que uma bala leva a atingir o
alvo.

No entanto, foi quanto bastou para que da casa defronte da
qual se dera o acidente um homem sasse a correr, seguido de
vrios criados. No momento em que o cocheiro abriu a
portinhola, retirou da calea a dama, que com uma das mos se
agarrava  almofada, enquanto com a outra apertava ao peito o
filho desmaiado. Monte-cristo levou ambos para a sala, e
deitou-os num canap.

- Nada mais receie, minha senhora - disse. - Est salva.

A mulher voltou a si, e como resposta indicou-lhe o filho com
um olhar mais eloquente do que todas as splicas. Com efeito,
o garoto continuava desmaiado.

- Sim, minha senhora, compreendo - disse o conde, examinando o
pequeno. - Mas esteja descansada que no lhe aconteceu nada.
Foi apenas o medo que o ps assim.

- Oh, senhor, no me diz isso s para me tranquilizar? -
perguntou a me. - Veja como est plido! Meu filho, meu
menino, meu Edouard, responde  tua me! Ah, senhor, mande
chamar um mdico. A minha fortuna a quem me restitua o meu
filho!

Monte-cristo fez um gesto com a mo para acalmar a me lavada
em lgrimas, abriu um cofrezinho do qual tirou um frasco de
cristal da Bomia incrustado de ouro contendo um licor
vermelho como sangue e de que deixou cair uma nica gota nos
lbios da criana.

O garoto, embora continuasse plido, abriu imediatamente os
olhos.

Ao ver isso, a me quase delirou de alegria.

- Onde estou? - quis saber. - A quem devo tamanha felicidade
depois de to cruel experincia?

- Minha senhora -- respondeu Monte-cristo --, est em casa do
homem mais feliz do mundo por ter podido poupar-lhe um
desgosto.

- Oh, maldita curiosidade? - exclamou a dama. - Toda a gente
em Paris falava dos magnficos cavalos da Sr.a Danglars e tive
a loucura de os querer experimentar.

- Como, aqueles cavalos so os da baronesa?! - perguntou o
conde, com uma surpresa admiravelmente simulada

- So, sim, senhor. Conhece-a?

- A Sr.a Danglars?... Tenho essa honra e sinto dupla
satisfao por a ter salvo do perigo que esses cavalos a
fizeram correr. Porque esse perigo pod-lo-ia atribuir a mim.
Comprei ontem esses cavalos ao baro, mas a baronesa pareceu
lamentar tanto a sua perda que lhos restitu ontem mesmo,
suplicando-lhe que os no recusasse da minha mo.

- Mas nesse caso, o senhor  - o conde de Monte-cristo, de
quem Hermine tanto me falou ontem?

- Sou, sim, minha senhora - confirmou o conde.

- E eu, senhor, sou a Sr.a Hlose de Villefort.

O conde cumprimentou como um homem diante do qual se pronuncia
um nome perfeitamente desconhecido.

- Oh, como o Sr. de Villefort lhe ficar reconhecido! -
prosseguiu Hlose. - Porque, enfim, dever-lhe- a vida de
ambos, visto o senhor lhe restituir a mulher e o filho.
Certamente, sem a interveno do seu generoso criado, esta
querida criana e eu estaramos mortos.

- Infelizmente, minha senhora, e ainda tremo do perigo que
correram!

- Oh, espero que me permita recompensar contiguamente a
dedicao desse homem!

- Minha senhora - respondeu Monte-cristo --, no me estrague
Ali, peo-lhe, nem com elogios, nem com recompensas. So
hbitos que no quero que ele tome. Ali  meu escravo;
salvando-lhe a vida, serviu-me e  seu dever servir-me.

- Mas ele arriscou a vida - redarguiu a Sr.a de Villefort, a
quem aquele tom de amo e senhor se impunha singularmente.

- Salvei essa vida, minha senhora - respondeu Monte-cristo. -
Por consequncia, ela pertence-me.

A Sr.a de Villefort calou-se. Talvez reflectisse acerca
daquele homem, que  primeira vista causava to profunda
impresso nos espritos.

Enquanto durou o silncio, o conde pde examinar  vontade o
garoto, que a me cobria de beijos. Era pequeno, frgil,
branco como as crianas ruivas, e no entanto uma floresta de
cabelos pretos, rebeldes a qualquer frisagem, cobria-lhe a
testa abaulada e, caindo-lhe sobre os ombros e emoldurando-lhe
o rosto, redobravam-lhe a vivacidade dos olhos cheios de
dissimulada malcia e de juvenil maldade. A boca, que ainda
mal recuperara a sua cor vermelha, era grande e de lbios
finos. As feies daquele garoto de oito anos eram j as de um
rapaz de doze anos pelo menos. O seu primeiro movimento foi
libertar-se com um safano brusco dos braos da me e ir abrir
o cofrezinho donde o conde tirara o frasco de elixir. Em
seguida, sem pedir licena a ningum, como uma criana
habituada a satisfazer todos os seus caprichos, ps-se a
destapar os outros frascos.

- No mexa nisso, meu amigo - disse vivamente o conde. -
Alguns desses licores so perigosos, no s bebidos, mas at
respirados.

A Sr.a de Villefort empalideceu e deteve o brao do filho, que
puxou para si. Mas uma vez o seu receio acalmado, deitou
imediatamente ao cofrezinho um curto mas expressivo olhar, que
o conde interceptou de passagem.

Neste momento entrou Ali. A Sr.a de Villefort fez um movimento
de alegria e disse, puxando o garoto ainda mais para perto de
si:

- Edouard, vs este bom servidor? Foi muito corajoso, pois
exps a vida para deter os cavalos que nos arrastavam e a
carruagem prestes a quebrar-se. Agradece-lhe, pois, porque
provavelmente sem ele a esta hora estaramos ambos mortos.

O garoto estendeu os lbios e virou desdenhosamente a cabea.

-  muito feio - disse.

O conde sorriu, como se o pequeno acabasse de preencher uma
das suas esperanas. Quanto  Sr.a de Villefort, ralhou ao
filho com uma moderao que decerto no seria do gosto de
Jean-Jacques Rousseau se o pequeno Edouard se chamasse Emile.

- Vs? - disse em rabe o conde a Ali. - Esta dama pede ao
filho que te agradea teres-lhes salvo a vida e o garoto
responde que s muito feio.

Ali virou um instante a cabea inteligente e olhou o pequeno
sem expresso aparente. Mas um simples frmito das suas
narinas mostrou a Monte-cristo que o rabe acabava de ser
ferido no corao.

- Esta casa  a sua residncia habitual? - perguntou a Sr.a de
Villefort, levantando-se para se retirar.

- No, minha senhora - respondeu o conde. -   uma espcie de
casa de repouso que comprei. Moro na Avenida dos Campos
Elsios, n.o 30. Mas vejo que est completamente recomposta e
que deseja retirar-se. Acabo de ordenar que atrelem esses
mesmos cavalos  minha carruagem, e Ali, aquele rapaz to feio
-- disse sorrindo ao garoto --, vai ter a honra de os levar a
casa enquanto o seu cocheiro ficar aqui para mandar consertar
a calea. Logo que essa tarefa indispensvel esteja terminada,
uma das minhas parelhas lev-la- directamente a casa da Sr.a
Danglars.

- Mas - disse a Sr.a de Villefort --, com os mesmos cavalos
nunca me atreverei a sair daqui.

- Oh, ver, minha senhora! - redarguiu Monte-cristo. - Na mo
de Ali, tornar-se-o mansos como cordeiros.

Com efeito, Ali aproximara-se dos cavalos, que se tinham
levantado com muita dificuldade. Levava na mo uma
esponjazinha embebida em vinagre aromtico, com a qual
esfregou as narinas e as tmporas dos cavalos, cobertos de
suor e de espuma, e quase imediatamente ambos comearam a
resfolegar ruidosamente e a tremer muito durante alguns
segundos.

Depois, no meio de uma multido numerosa, que os restos da
carruagem e o barulho do acidente tinham atrado diante da
casa, Ali mandou atrelar os cavalos ao cup do conde, pegou
nas rdeas, subiu para a boleia e com grande espanto dos
assistentes que tinham visto aqueles cavalos galopar como se
fossem arrastados por um turbilho, viu-se obrigado a utilizar
energicamente o chicote para os fazer andar, e mesmo assim no
pde obter dos famosos pigaros, agora entorpecidos,
petrificados, mortos, mais do que um trote to pouco firme e
to frouxo que a Sr.a de Villefort levou quase duas horas a
chegar ao arrabalde de Saint-Honor, onde morava.

Assim que chegou a casa, e uma vez acalmadas as primeiras
emoes da famlia, escreveu o seguinte bilhete  Sr.a
Danglars:

 Querida Herminie:

Acabo de ser miraculosamente salva, com o meu filho, pelo
mesmo Monte-Cristo de quem tanto falmos ontem  noite e que
estava longe de suspeitar que veria hoje. Ontem falou-me dele
com um entusiasmo que no pude impedir que fosse alvo da troa
da minha pobre inteligncia, mas hoje
considero esse entusiasmo muito abaixo do homem que o
inspirava. Os seus cavalos tomaram o freio nos dentes no
Ranelagh, como se tivessem enlouquecido, e ia-mos
provavelmente despedaar-nos, o meu pobre Edouard e eu, contra
a primeira rvore da estrada ou contra o primeiro marco da
aldeia, quando um rabe, um negro, um nbio, um preto, enfim,
ao servio do conde, e a um sinal deste, segundo creio, deteve
a galopada dos cavalos, com rico de ele prprio ser
despedaado, e foi realmente um milagre que o no tenha sido.
Ento o conde ocorreu e levou-nos para
sua casa, a Edouard e a mim, e trouxe o meu filho  vida.
Regressei a casa na sua prpria carruagem: a da minha amiga
ser-lhe- devolvida amanh. Encontrar os seus cavalos muito
enfraquecidos depois deste acidente. Esto como que
embotados. Dir-se-ia que no podem perdoar a si mesmos
terem-se deixado dominado por um homem. O conde encarregou-se
de lhe dizes que dois dias de repouso na cavalaria e cevada
como nica alimentao os voltaro a pr em estado to fogoso,
o que quer dizer to assustador, como ontem.

Adeus! No lhe agradeo o meu passeio, e quando reflicto acho
uma ingratido guarda-lhe rancor por causa dos caprichos da
sua parelha j que devo a um desses caprichos ter visto o
conde de Monte-Cristo, e o ilustre estrangeiro parece-me, 
parte os milhes de que dispe, um problema to curioso e
interessante que espero estud-lo a todo o custo, nem que
tenha de recomear um passeio ao Bosque com os cavalos da
minha amiga.

Edouard suportou o acidente com uma coragem miraculosa.
Desmaiou, mas antes disso no soltou um grito, nem verteu unta
lgrima depois. Dir-me- mais uma vez que o meu amor maternal
me cega; mas existe uma alma de ferro naquele pobre corpinho
to frgil e delicado.

A nossa querida Valentine manda cumprimentos para a sua
querida Eugnie. Eu beijo-a minha amiga de todo o corao.

Hlose de Villefort.

P.S. - Seja como for, arranje maneira de me encontrar com o
conde de Monte-Cristo em sua casa. Quero absolutamente tornar
a v-lo. Alm disso acabo de convencer a Sr. de Villefort
afazer-lhe unta visita. Espero sinceramente que de facto lha
faa.


 noite, o acidente de Auteuil era o assunto de todas as
conversas: Albert contava-o  me, Chteau-Renaud, no
Jockey-Club, e Debray, na sala do ministro. O prprio
Beauchamp teve a gentileza de dedicar ao conde, no seu
jornal, uma notcia de vinte linhas, que colocou o nobre
estrangeiro como um heri no conceito de todas as mulheres da
aristocracia.

Muitas pessoas foram deixar o seu carto em casa da Sr.a de
Villefort, a fim de terem o direito de renovar a visita
oportunamente e de ouvir ento da sua boca todos os pormenores
da pitoresca aventura.

Quanto ao Sr. de Villefort, como dissera Hlose, vestira uma
casaca preta e calara luvas brancas, a sua mais elegante
libr, e metera-se na sua carruagem, que, na mesma noite,
parara  porta do n.o 30 da casa dos Campos Elsios.



Captulo XLVIII

Ideologia


Se o conde de Monte-cristo vivesse h mais tempo na sociedade
parisiense apreciaria em todo o seu valor a visita do Sr. de
Villefort.

Bem visto na corte, quer o monarca reinante fosse do ramo mais
velho, quer do ramo mais novo e o ministro que governasse
fosse doutrinrio, liberal ou conservador; reputado hbil por
todos, como se reputam geralmente hbeis as pessoas que nunca
experimentaram desaires polticos; odiado por muitos, mas
calorosamente protegido por alguns, sem no entanto ser
estimado por ningum, o Sr. de Villefort ocupava uma das mais
altas posies na magistratura e mantinha-se nessas alturas
como um Harlay ou como um Mol. A sua sala, renovada por uma
mulher nova e por uma filha do seu primeiro casamento que
contava apenas dezoito anos de idade, nem por isso era menos
uma dessas salas
severas de Paris onde se praticava o culto das tradies e a
religio da etiqueta. A polidez fria, a fidelidade absoluta
aos princpios governamentais, um desprezo profundo pelas
teorias e pelos tericos e uma grande averso aos idelogos,
tais eram os elementos da vida ntima e pblica exibidos pelo
Sr. de Villefort.

O Sr. de Villefort no era apenas um magistrado, era quase um
diplomata. As suas relaes com a antiga corte, da qual falava
sempre com dignidade e deferncia, impunham-no ao respeito da
nova, e sabia tantas coisas que no s o tratavam sempre com
deferncia como ainda o consultavam algumas vezes. Talvez as
coisas no se passassem assim se pudessem desembaraar-se do
Sr. de Villefort; mas ele residia, como os antigos senhores
feudais rebeldes ao seu suserano, numa fortaleza inexpugnvel.
Essa fortaleza era o seu cargo de procurador rgio, do qual
explorava maravilhosamente todas as vantagens e que s
deixaria para se fazer eleger deputado e substituir assim a
neutralidade pela oposio.

Em geral, o Sr. de Villefort fazia poucas visitas. A mulher
visitava por ele. Era hbito aceite na sociedade, onde o
levavam  conta das graves e numerosas ocupaes de
magistrado, embora na realidade no passasse de um clculo
orgulhoso, de uma quinta-essncia aristocrtica, da aplicao,
enfim, deste axioma: "Finge que te estimas e estimar-te-o",
axioma muitssimo mais til na nossa sociedade do que o dos
Gregos: "Conhece-te a ti mesmo", substitudo nos nossos dias
pela arte menos difcil e mais vantajosa de conhecer os
outros.

Para os seus amigos, o Sr. de Villefort era um protector
poderoso; para os seus inimigos, era um adversrio oculto, mas
encarniado; para os indiferentes, era a esttua da Lei feita
homem: trato altivo, fisionomia impassvel, olhar ausente e
inexpressivo ou insolentemente penetrante e perscrutador, tal
era o homem a quem quatro revolues habilmente sobrepostas
umas sobre as outras tinham primeiro construdo e depois
cimentado o pedestal.

O Sr. de Villefort possua fama de ser o homem menos curioso e
vulgar de Frana. Dava um baile todos os anos onde s aparecia
um quarto de hora, isto , quarenta e cinco minutos menos do
que o rei nos seus. Nunca ningum o via nem nos teatros, nem
nos concertos, nem em qualquer lugar pblico. s vezes, mas
raramente, jogava uma partida de whist, mas tinha-se o cuidado
de escolher jogadores dignos dele: algum embaixador, algum,
arcebispo, algum prncipe, algum presidente ou, por ltimo,
alguma duquesa idosa.

Eis como era o homem cuja carruagem acabava de parar diante da
porta de Monte-cristo.

O criado de quarto anunciou o Sr. de Villefort no momento em
que o conde, inclinado sobre uma grande mesa, seguia num mapa
um itinerrio de Sampetersburgo  China.

O procurador rgio entrou com o mesmo andar grave e compassado
com que entrava no tribunal. Era bem o mesmo homem, ou antes,
a continuao do mesmo homem que conhecemos outrora como
substituto em Marselha. A natureza, consequente com os seus
princpios, nada alterara quanto a ele o curso que devia
seguir. De delgado, tornara-se magro, de plido, tornara-se
macilento; os seus olhos encovados quase desapareciam agora
nas rbitas, e as suas lunetas de aros de ouro pareciam fazer
parte do rosto, de tal modo se confundiam com as cavidades
oculares. Exceptuando a gravata branca, o resto do seu traje
era perfeitamente preto, cor fnebre apenas quebrada pela
estreita fita vermelha que lhe passava imperceptvel pela
botoeira e parecia um trao de sangue feito a pincel.

Por mais senhor de si que fosse Monte-cristo, no deixou de
examinar com visvel curiosidade, ao retribuir-lhe o
cumprimento, o magistrado, que, desconfiado por hbito e pouco
crdulo, sobretudo quanto aos prodgios sociais, estava mais
disposto a ver no nobre estrangeiro - era assim que chamavam
j a Monte-cristo - um cavalheiro de indstria que viera
explorar um novo terreno ou um malfeitor fugido do desterro do
que um prncipe da Santa s ou um sulto das Mil e Uma
Noites.

- Senhor - disse Villefort, no tom estridente adoptado pelos
magistrados nos seus perodos oratrios e de que no podem ou
no querem desfazer-se no dilogo --, senhor, o assinalado
servio que ontem prestou  minha mulher e ao meu filho
impe-me o dever de lhe agradecer. Venho portanto cumprir esse
dever e exprimir-lhe todo o meu reconhecimento.

E ao pronunciar estas palavras, o olhar severo do magistrado
nada perdera da sua arrogncia habitual. As palavras que
acabava de proferir articulara-as com a sua voz de procurador
rgio, com a mesma rigidez de pescoo e de ombros que,
repetimos, levava os seus aduladores a dizer que ele era a
esttua viva da Lei.

- Senhor - replicou por seu turno o conde com uma frieza
glacial --, sinto-me muito feliz por ter podido conservar um
filho  sua me, pois diz-se que o sentimento da maternidade 
o mais santo de todos, e a ventura que experimento
dispensava-o, senhor, de cumprir um dever que me honra, sem
dvida, porque sei que o Sr. de Villefort no prodigaliza o
favor que me faz, mas que, por mais precioso que seja, no
vale no entanto para mim a minha satisfao ntima.

Villefort, surpreendido por esta tirada que no esperava,
estremeceu como um soldado que sente debaixo da armadura que o
cobre o golpe que lhe vibram, e uma franzidela desdenhosa de
lbios indicou que desde o incio no tinha o conde de
Monte-cristo na conta de um gentil-homem muito bem-educado.

Em seguida olhou  sua volta para ligar a qualquer coisa o
dilogo cado e que ao cair parecia ter-se quebrado.
Viu o mapa que Monte-cristo consultava quando ele entrara e
perguntou:

- Ocupa-se de geografia, senhor?  um rico estudo, sobretudo
para o senhor, que, ao que me afirmam, tem visitado tantos
pases quantos se encontram Impressos nesse atlas.

-  verdade, senhor - respondeu o conde. - Pretendo fazer
acerca do gnero humano, tomado em conjunto, o que o senhor
pratica todos os dias a partir de excepes, isto , um estudo
fisiolgico. Pensei que me seria mais fcil descer em seguida
do todo para a parte do que da parte para o todo. Existe um
axioma algbrico que aconselha a proceder do conhecido para o
desconhecido e no do desconhecido para o conhecido... Mas
sente-se, senhor, peo-lhe.

E Monte-cristo indicou com a mo ao procurador rgio uma
cadeira, que este foi obrigado a dar-se ao incmodo de puxar
pessoalmente para diante, enquanto o conde teve apenas de se
sentar naquela em que estava ajoelhado quando o procurador
rgio entrara. Assim, o conde ficou semivoltado para o
visitante, de costas para a janela e com o cotovelo apoiado na
carta geogrfica que era alvo, naquele momento, do dilogo, o
qual tomava, como acontecera em casa de Morcerf e de Danglars,
feio absolutamente anloga, seno quanto  situao, pelo
menos quanto s personagens.

- Ah, gosta de filosofar! - exclamou Villefort, aps um
instante de silncio, durante o qual, como um atleta que
encontra um forte adversrio, fizera proviso de foras. -
Palavra de honra, senhor, se, como no seu caso, no tivesse
nada que fazer, procuraria ocupao menos aborrecida!

- Sim,  verdade, senhor, gosto de filosofar - admitiu
Monte-cristo. - Talvez porque o homem no passa de um verme
horrvel para quem o estuda ao microscpio solar. Mas acaba de
dizer, creio, que no tenho nada que fazer. Vejamos, acaso o
senhor julga ter alguma coisa que fazer? Ou, para falar mais
claramente, acha que aquilo, que faz merece que se lhe chame
alguma coisa?

O espanto de Villefort redobrou depois deste segundo golpe to
rudemente desferido por aquele estranho adversrio. Havia
muito tempo que o magistrado no ouvia dizer um paradoxo
daquele gnero, ou antes, para falar mais exactamente, era a
primeira vez que o ouvia.

O procurador rgio apressou-se a responder:

- O senhor  estrangeiro e, como  o primeiro a dizer, creio,
passou parte da sua vida nos pases orientais. Ignora portanto
at que ponto a justia humana, expedita nesses pases
brbaros, tem entre ns aspectos prudentes e rigorosos.

- Certamente, senhor, certamente;  o pede claudo antigo.
Sei tudo isso porque me tenho ocupado sobretudo da justia de
todos os pases e comparei o processo criminal de todas as
naes com a justia natural. E devo dizer-lhe,  senhor, que
foi ainda a lei dos povos primitivos, isto , a lei de talio,
aquela que encontrei mais conforme com a lei de Deus.

- Se essa lei fosse adoptada, senhor - redarguiu o procurador
rgio --, simplificaria muito os nossos cdigos e portanto os
nossos magistrados no teriam, como o senhor dizia h pouco,
grande coisa que fazer.

- Talvez isso venha a acontecer - disse Monte-cristo. - Como
sabe, as invenes humanas caminham do composto para o
simples, e o simples  sempre a perfeio.

- Entretanto - declarou o magistrado --, os nossos cdigos
existem, com os seus artigos contraditrios, extrados dos
costumes gauleses, das leis romanas e dos usos francos. Ora, o
conhecimento de todas essas leis, como decerto admitir, no
se adquire sem demorado trabalho e  necessrio um longo
estudo para obter esse conhecimento e uma grande capacidade
intelectual, uma vez adquirido esse conhecimento, para no o
esquecer.

- Sou da mesma opinio, senhor, mas tudo o que sabe acerca do
cdigo francs sei eu, no s a respeito desse cdigo, mas
tambm acerca dos cdigos de todas as naes. As leis
inglesas, turcas, japonesas e hindus so-me to familiares
como as leis francesas. Tenho portanto motivo para dizer que
relativamente (como sabe, tudo  relativo), que relativamente
a tudo que aprendi, o senhor tem ainda muito que aprender.

- Mas com que fim aprendeu tudo isso? - perguntou Villefort,
atnito.

Monte-cristo sorriu.

- Vejo, senhor - respondeu --, que, a despeito da sua
reputao de homem superior, encara todas as coisas do ponto
de vista material e vulgar da sociedade, comeando no homem e
acabando no homem, isto , do ponto de vista mais restrito e
mesquinho que  permitido  inteligncia humana abarcar.

- Explique-se, senhor - pediu Villefort, cada vez mais atnito
pois no o compreendo... muito bem.

-- Digo, senhor, que com os olhos postos na organizao social
das naes s se v as engrenagens da mquina e no o operrio
sublime que a faz andar; digo que s reconhece na sua frente e
 sua volta os titulares dos cargos cujas nomeaes foram
assinadas por ministros ou por um rei, e que os homens, que
Deus colocou acima dos titulares, dos ministros e dos reis,
dando-lhes uma misso para continuar em vez de um cargo para
preencher, digo que esses escapam  sua curta vista. Alis,
isso  prprio da natureza humana, cujos rgos so fracos e
imperfeitos. Tobias tomava o anjo que vinha restituir-lhe a
vista por um jovem vulgar. As naes tomavam tila, que as
devia aniquilar, por um conquistador como todos os
conquistadores, e foi necessrio que ambos revelassem as suas
misses celestes para que os reconhecessem; foi necessrio que
um dissesse: "Eu sou o anjo do Senhor"; e o outro: "Eu sou o
flagelo de Deus", para que a essncia divina de ambos se
revelasse.

- Ento, o senhor considera-se um desses seres extraordinrios
que acaba de citar? - perguntou Villefort, cada vez mais
espantado e julgando falar com um iluminado ou um louco.

- Por que no? - redarguiu friamente Monte-cristo.

- Perdo, senhor - prosseguiu Villefort, atordoado - mas
espero que me desculpe o facto de, ao apresentar-me em sua
casa, ignorar que entrava em casa de um homem cujos
conhecimentos e cuja inteligncia excedem de longe os
conhecimentos vulgares e a inteligncia habitual dos homens.
Entre ns no  costume, talvez por sermos uns infelizes
corrompidos pela civilizao, que os fidalgos possuidores,
como o senhor, de uma fortuna imensa, pelo menos ao que se
afirma (note que no pergunto, apenas repito), no  costume,
dizia, que esses privilegiados da riqueza percam o seu tempo
em especulaes sociais, em devaneios filosficos, prprios,
quando muito, para consolar aqueles a quem o destino deserdou
de bens terrenos

- Ento, senhor, ter porventura chegado  situao eminente
que ocupa sem ter admitido, e mesmo sem ter encontrado,
excepes, nem nunca exercitou o seu olhar, que no entanto bem
necessitaria de sagacidade e segurana, a adivinhar num
relance que homem tem diante de si? -perguntou o conde. - Um
magistrado no dever ser, no o melhor aplicador da lei, no
o mais astuto intrprete das nebulosidades da chicana, mas sim
uma sonda de ao para experimentar os coraes ou uma
pedra-de-toque para ensaiar o ouro de que cada alma  sempre
feita, com mais ou menos mistura?

- Confunde-me, senhor - declarou Villefort. - Palavra de honra
que nunca ouvi ningum falar como o senhor.

- Porque tem permanecido constantemente encerrado no crculo
das condies gerais e nunca se atreveu a subir, num batimento
de asa, s esferas superiores que Deus povoou de seres
invisveis ou excepcionais.

- E o senhor admite que essas esferas existem e que os seres
excepcionais e invisveis se juntam a ns?

- Porque no? O senhor v o ar que respira e sem o qual no
poderia viver?

- Ento, no vemos esses seres a que se refere?

- Claro que os vemos quando Deus permite que se materializem;
tocamos-lhes, acotovelamo-los, falamos-lhes e eles
respondem-nos.

- Ah! - exclamou Villefort, sorrindo. - Confesso que gostaria
muito de ser prevenido quando um desses seres se encontrasse
em contacto comigo.

- O seu desejo j foi satisfeito, senhor. Foi prevenido h
pouco, e mais uma vez agora o previno.

- Assim. o senhor mesmo?...

- Sou um desses seres excepcionais, sim, senhor, e creio que
at hoje nenhum homem se encontrou numa posio semelhante 
minha. Os reinos dos reis so limitados, quer por montanhas,
quer por rios, quer por uma mudana de costumes, quer por uma
mutao de linguagem. Mas o meu reino  do tamanho do mundo,
pois no sou nem italiano, nem francs, nem hindu, nem
americano, nem espanhol; sou cosmopolita. Nenhum pas pode
dizer que me viu nascer. S Deus sabe que terra me ver
morrer. Adopto todos os usos, falo todas as lnguas. Julga-me
francs, no  verdade, porque falo o francs com a mesma
facilidade e a mesma pureza que o senhor? Pois bem, Ali o meu
nbio, julga-me rabe; Bertuccio, o meu intendente, julga-me
romano, e Hayde, a minha escrava, Julga-me grego. Portanto,
como decerto compreende, no pertencendo a nenhum pas, no
pedindo proteco a nenhum governo e no reconhecendo nenhum
homem como meu irmo, nem um s dos escrpulos que detm os
poderosos ou dos obstculos que paralisam os fracos me
paralisa ou detm. S tenho dois adversrios; no direi dois
vencedores, porque com persistncia submeto-os: so a
distncia e o tempo. O terceiro, e o mais terrvel,  a minha
condio de homem mortal.  a nica coisa
que me pode deter no caminho que sigo e antes de atingir o
alvo que busco; tudo o mais est previsto. Aquilo a que os
homens chamam os caprichos do destino, isto , a runa, a
mudana, as eventualidades, tenho-os todos previstos, e se
alguns me podem atingir, nenhum me pode derrubar. A no ser
que morra, serei sempre o que sou. Aqui tem porque lhe digo
coisas que nunca ouviu, mesmo da boca dos reis, porque os reis
necessitam de si e os outros homens temem-no. Quem  que no
diz para consigo, numa sociedade to ridiculamente organizada
como a nossa: "Talvez um dia tenha qualquer problema com o
procurador rgio..."

- Mas o senhor mesmo pode dizer isso a si prprio, porque
desde o momento em que reside em Frana est naturalmente
submetido s leis francesas.

- Bem sei, senhor - respondeu Monte-cristo. - Mas quando
tenho de ir a um pas, comeo por estudar, por meios que me
so prprios, todos os homens de quem posso ter alguma coisa a
esperar ou a temer, e acabo por os conhecer to bem e at
talvez melhor do que eles se conhecem a si prprios. Da que o
procurador rgio, fosse quem fosse, com quem tivesse problemas
ficasse certamente mais embaraado do que eu.

- O que significa - prosseguiu Villefort, com hesitao que,
dada a fraqueza da natureza humana, todo o homem, na sua
opinio, cometeu... faltas?

- Faltas... ou crimes - respondeu negligentemente
Monte-cristo.

- E que s o senhor, entre os homens que no reconhece como
seus irmos, conforme disse - prosseguiu Villefort, com a voz
ligeiramente alterada --, e que s o senhor  perfeito?

- No, perfeito, no - respondeu o conde. - Apenas
impenetrvel. Mas mudemos de assunto, senhor, se esta conversa
lhe desagrada. No estou mais ameaado pela sua justia do que
o senhor o est pela minha vista dupla.

- No, no, senhor! - disse vivamente Villefort, que sem
dvida temia parecer abandonar o terreno. - No! Graas  sua
brilhante e quase sublime conversao, o senhor elevou-me
acima dos nveis correntes; j no conversamos, dissertamos.
Ora, deve saber como os catedrticos de Teologia da Sorbona,
ou os filsofos nas suas disputas, dizem por vezes uns aos
outros cruis verdades. Supondo que discutimos teologia social
e filosofia teolgica, dir-lhe-ei isto, por mais rude que
seja: meu irmo, sacrifica ao orgulho; est acima dos outros,
mas acima de si h Deus.

- Acima de todos, senhor! - respondeu Monte-cristo em tom to
profundo que Villefort estremeceu involuntariamente. - Tenho o
meu orgulho em relao aos homens, serpentes sempre prontas a
erguer-se contra aquele que passa por elas sem as esmagar com
o p. Mas deponho este orgulho diante de Deus, que me tirou do
nada para fazer de mim o que sou.

- Ento, Sr. Conde, admiro-o - declarou Villefort, que pela
primeira vez neste estranho dilogo empregava esta frmula
aristocrtica para com o estrangeiro que at ali s tratara
por senhor. - Sim, digo-lhe que se  realmente forte,
realmente superior, realmente santo ou impenetrvel, o que,
tem razo significa pouco mais ou menos o mesmo, seja sublime,
senhor. E a lei das dominaes. Mas tem com certeza uma
ambio qualquer?

- Tenho uma, senhor.

- Qual?

- Tambm eu, como acontece a qualquer homem uma vez na vida,
fui levado por Satans para a mais alta montanha da Terra.
Chegado l, ele mostrou-me o mundo inteiro e, como dissera uma
vez a Cristo, disse-me a mim "Vejamos, filho dos homens, que
queres para me adorar?" Reflecti longamente, porque havia
muito tempo uma terrvel ambio me devorava efectivamente o
corao. Depois respondi - "Escuta, sempre ouvi falar da
Providncia, e no entanto nunca a vi, nem nada que se lhe
parecesse, o que me leva a crer que no existe. Quero ser a
Providncia, porque o que conheo de mais belo, de maior e de
mais sublime no mundo  recompensar e punir." Mas Satans
baixou a cabea e suspirou: "Enganas-te", disse, "a
Providncia existe. Somente no a vs porque, filha de Deus, 
invisvel como o seu pai. Nunca viste nada que se lhe
assemelhasse, porque ela utiliza meios ocultos e caminha por
vias indefinidas. Tudo o que posso fazer por ti  tornar-te um
dos agentes dessa Providncia." Fechou-se o negcio. Talvez
perca nele a minha alma, mas no importa - declarou
Monte-cristo. - E se tivesse de fazer novamente o negcio,
f-lo-ia.

Villefort olhava Monte-cristo com sublime espanto.

- o Sr. Conde tem famlia? - perguntou.

- No, senhor, estou s no mundo.

-  pena!

- Porqu? - perguntou Monte-cristo.

- Porque poderia ver um espectculo capaz de quebrar o seu
orgulho. S teme a morte, diz o senhor?

- No digo que a temo, digo que s ela me pode deter.

- E a velhice?

- A minha misso ser cumprida antes de chegar a velho.

- E a loucura?

- Estive quase a enlouquecer, e o senhor conhece o axioma:
non bis in idem.  um axioma criminal e portanto da sua
especialidade.

- Senhor - prosseguiu Villefort --, h ainda outra coisa a
temer, alm da morte, da velhice ou da loucura; h, por
exemplo, a apoplexia, esse raio que nos fere sem nos destruir,
e depois do qual, no entanto, tudo acaba. Continuamos a ser
ns e todavia j no somos ns. Como Ariel, ramos quase um
anjo; de um momento para o outro passamos a ser uma massa
inerte que, como Calibo, muito se assemelha ao animal. A isto
chama-se muito simplesmente na lngua humana, como lhe dizia,
uma apoplexia. V, se lhe agradar, continuar esta conversa em
minha casa, Sr. Conde, num dia em que lhe apetea defrontar um
adversrio capaz de o compreender e ansioso por o refutar, e
mostrar-lhe-ei meu pai, o Sr. Noirtier de Villefort, um dos
mais ardentes jacobinos da Revoluo Francesa, isto , a mais
brilhante audcia posta ao servio da mais poderosa
organizao; um homem que, como o senhor, talvez no tivesse
visto todos os reinos da Terra, mas ajudou a destruir um dos
mais poderosos; um homem que, como o senhor, se pretendia um
dos enviados, no de Deus, mas sim do Ser Supremo, no da
Providncia, mas sim da Fatalidade. Pois bem, senhor, a
ruptura de um vaso sanguneo num lobo do crebro destruiu tudo
isso, no num dia, no numa hora, mas sim num segundo. Na
vspera, o Sr. Noirtier, antigo jacobino, antigo senador,
antigo carbonrio, ria da guilhotina, ria do canho, ria do
punhal; pois o mesmo Sr. Noirtier que brincara s revolues,
o Sr. Noirtier para quem a Frana no passava de um vasto
tabuleiro de xadrez do qual pees, torres, cavalos e rainha
deviam desaparecer para que o rei levasse mate; o
Sr. Noirtier, to temvel, era no dia seguinte o pobre Sr.
Noirtier, um velho imvel,  merc dos caprichos da pessoa
mais fraca da casa, ou seja, da sua netinha Valentine; um
cadver mudo e gelado, enfim, que vive sem sofrimento, apenas
para dar tempo  matria de chegar sem sobressaltos  sua
inteira decomposio.

- Infelizmente, senhor - redarguiu Monte-cristo - esse
espectculo no  estranho nem aos meus olhos nem ao meu
pensamento. Sou um nadinha mdico e tenho, como os meus
colegas, procurado mais de uma vez a alma na matria viva ou
na matria morta; e, como a Providncia, ela permaneceu
invisvel a meus olhos, embora presente no meu corao. Cem
autores, desde Scrates, desde Sneca, desde Santo Agostinho,
desde Gall, fizeram em prosa ou em verso a comparao que o
senhor acaba de fazer; mas apesar disso compreendo que
sofrimentos de um pai possam operar grandes transformaes no
esprito do filho. Irei, senhor, uma vez que se digna
convidar-me, contemplar, em beneficio da minha humildade, esse
terrvel espectculo que muito deve entristecer a sua casa.

- Assim seria, sem dvida, se Deus me no tivesse amplamente
recompensado. Diante do velho que desce, arrastando-se para a
sepultura, perfilam-se duas crianas, que entram na vida:
Valentine, filha do meu primeiro casamento com Mademoiselle de
Saint-Mran, e Edouard, o filho a quem o senhor salvou a
vida.

- E que conclui dessa compensao, senhor? - perguntou
Monte-cristo.

- Concluo, senhor - respondeu Villefort --, que o meu pai,
desorientado pelas paixes, cometeu algumas dessas faltas que
escapam  justia humana, mas que caem sob a alada da justia
de Deus, e que Deus, querendo punir apenas uma pessoa, s o
feriu a ele.

Com o sorriso nos lbios, Monte-cristo soltou no fundo do
corao um rugido, que faria fugir Villefort, se Villefort o
pudesse ouvir.

- Adeus, senhor - despediu-se o magistrado, que havia algum
tempo se levantara e falava de p. - Deixo-o, levando de si
uma recordao de estima, que espero lhe possa ser agradvel
quando me conhecer melhor, pois no sou um homem vulgar, muito
pelo contrrio. Alm disso, conquistou na Sr.a de Villefort
uma amiga eterna.

O conde inclinou-se e limitou-se a acompanhar Villefort at 
porta do gabinete. O magistrado alcanou a sua carruagem
precedido de dois lacaios, que, a um sinal do amo, se
apressaram a abrir-lha.

Depois, quando o procurador rgio desapareceu:

- Vamos - disse Monte-cristo, arrancando com esforo um
sorriso do peito opresso. - Vamos, basta de veneno, e agora
que o meu corao est cheio dele, vamos procurar o antdoto.

E tocando uma vez a campainha, disse a Ali, quando este
acorreu:

- Subo aos aposentos da senhora. A carruagem que esteja pronta
dentro de meia hora!


Captulo XLIX

Hayde


O leitor ainda se recorda, decerto, quem eram os novos, ou
antes, os antigos conhecidos do conde de Monte-cristo que
moravam na Rua Meslay: eram Maximilien, Julie e Emmanuel.

A esperana da agradvel visita que ia fazer, dos curtos
momentos felizes que ia passar, daquela luz do paraso que ia
penetrar no inferno onde voluntariamente se encerrara,
espalhara, a partir do momento em que perdera de vista
Villefort, a mais singular serenidade pelo rosto do conde, e
Ali, que acorrera ao toque da campainha, ao ver aquele rosto
irradiar uma alegria to rara, retirara-se em bicos de ps e
contendo a respirao, como se no quisesse afugentar os bons
pensamentos que julgava ver adejar  volta do amo.
Era meio-dia O conde reservara uma hora para subir aos
aposentos de Hayde. Dir-se-ia que a alegria no podia
reentrar de sbito naquela alma durante tanto tempo amargurada
e que este necessitava de se preparar para as emoes ternas,
como as outras almas necessitam de se preparar para as emoes
violentas.

A jovem grega ocupava, como j dissemos, aposentos
inteiramente separados dos aposentos do conde e todos eles
mobilados em estilo oriental, isto , com o cho coberto de
espessos tapetes turcos, tecidos de brocado caindo ao longo
das paredes e em cada diviso um amplo div disposto a toda a
volta, com montes de almofadas, que se colocavam  vontade
daqueles que as usavam.

Hayde tinha trs criadas francesas e uma grega. As trs
criadas francesas mantinham-se na primeira sala, prontas a
acorrer ao toque de uma campainhazinha de ouro e a obedecer s
ordens da escrava romaica, a qual sabia
suficientemente francs para transmitir os desejos da ama s
suas trs camaristas, s quais Monte-cristo recomendara que
tivessem com Hayde as deferncias que se tm com uma rainha.

A jovem encontrava-se na sala mais recolhida dos seus
aposentos, isto , numa espcie de boudoir redondo,
iluminado apenas por cima, e no qual a luz s penetrava
atravs de vidros cor-de-rosa. Estava deitada no cho, em
almofadas de cetim azul lavrado a prata, semi-inclinada para
trs sobre o div e com o brao direito suavemente torneado a
emoldurar-lhe a cabea, enquanto com o esquerdo segurava nos
lbios o tubo de coral em que encaixava o tubo flexvel de um
narguil, que s deixava chegar-lhe  boca o fumo perfumado
pela gua de benjoim, atravs da qual a sua suave respirao o
obrigava a passar.

A sua atitude, naturalssima numa mulher do Oriente, seria
numa francesa de uma garridice talvez um pouco afectada.

Quanto  sua indumentria, era a das mulheres do Epiro, ou
seja, cala tufada de cetim branco adornada de flores
cor-de-rosa, que deixava a descoberto dois ps de criana, que
dir-se-iam de mrmore de Paros se no se tivessem visto
brincar com duas sandaliazinhas de ponta recurvada, bordadas a
ouro e prolas; tnica de compridas riscas azuis e brancas e
amplas mangas fendidas para os braos, com botoeiras de prata
e botes de prolas, e finalmente uma espcie de corpete que
deixava, devido ao seu corte em forma de corao, ver o
pescoo e  toda a parte de cima do peito e que se abotoava
por baixo do seio com trs botes de diamantes. Quanto  parte
de baixo do corpete e  parte de cima das calas, desapareciam
sob uma dessas faixas de cores vivas e longas franjas sedosas,
que so a ambio das nossas elegantes parisienses.

Cobria-lhe a cabea um barretinho dourado bordado a prolas,
inclinado para um lado, e por baixo do barrete, do lado para
onde estava inclinado, via-se uma linda rosa natural, cor de
prpura, que se destacava no meio do cabelo, to preto que
parecia azulado.

Quanto  beleza do seu rosto, era a beleza grega em toda a
perfeio do seu tipo, com os seus grandes olhos pretos
aveludados, o seu nariz direito, os seus lbios de coral e os
seus dentes de prolas.

Finalmente, sobre aquele conjunto encantador imperava a flor
da juventude, com todo o seu brilho e todo o seu perfume;
Hayde teria dezanove ou vinte anos.

Monte-cristo chamou a criada grega e mandou pedir a Hayde
licena para entrar at junto dela.

Como nica resposta, Hayde fez sinal  criada para levantar a
tapearia que pendia diante da porta, cuia abertura quadrada
emoldurou a jovem deitada como um quadro encantador,
Monte-cristo entrou.

Hayde soergueu-se no cotovelo do brao com que segurava o
narguil e estendeu a mo ao conde, ao mesmo tempo que o
acolhia com um sorriso.

- Porque me mandas pedir licena para entrar nos meus
aposentos? J no s o meu senhor, j no sou a tua escrava? -
perguntou na lngua sonora das filhas de Esparta e Atenas.
Monte-cristo sorriu por seu turno.

- Hayde, como sabe...

- Porque no me tratas por tu como habitualmente? -
interrompeu-o a jovem grega. - Cometi alguma falta? Nesse caso
 preciso castigar-me, mas no deixar de me tratar por tu.

- Hayde - prosseguiu o conde --, sabes que estamos em Frana,
e por consequncia s livre.

- Livre de fazer o qu? - perguntou a jovem.

- Livre de me deixar.

- De te deixar?!... E porque te deixaria eu?

- Sei l. Vamos ver gente.

- No quero ver ningum.

- E se entre os belos rapazes que conheceres encontrares algum
que te agrade, no serei injusto ao ponto...

- Nunca vi homens mais belos do que tu e nunca amei seno o
meu pai e tu.

- Pobre criana, porque quase s falaste com o teu pai e
comigo - disse Monte-cristo.

- E preciso porventura de falar com outros? O meu pai
chamava-me sua alegria, tu chamas-me teu amor e ambos me
chamam sua filha.

- Lembras-te do teu pai, Hayde?

A jovem sorriu.

- Est aqui e aqui - respondeu, pondo a mo nos olhos e no
corao.

- E eu onde estou? - perguntou, sorrindo, Monte-cristo.

- Tu ests em todo o lado.

Monte-cristo pegou na mo de Hayde para a beijar; mas a
ingnua criana retirou a mo e ofereceu-lhe a testa.

- Agora, Hayde - disse-lhe ele --, sabes que s livre, que s
dona e senhora de ti; podes conservar o teu traje ou deix-lo,
como te apetecer; ficars aqui quando quiseres ficar e sairs
quando quiseres sair; haver sempre uma carruagem atrelada
para ti. Ali e Myrto acompanhar-te-o para todo o lado e
estaro s tuas ordens. Apenas te peo uma coisa.

- Diz.

- Guarda o segredo do teu nascimento, no digas uma palavra
acerca do teu passado, no pronuncies em nenhuma ocasio o
nome do teu ilustre pai nem o da tua pobre me.

- J te disse, meu senhor, que no verei ningum.

- Escuta, Hayde: talvez essa recluso muito oriental seja
impossvel em Paris. Continua a aprender a vida dos nossos
pases do Norte, como fizeste em Roma, em Florena, em Milo e
em Madrid. Isso ser-te- sempre til, quer continues a viver
aqui, quer regresses ao Oriente.

A jovem ergueu para o conde os seus grandes olhos hmidos e
respondeu:

- Ou regressemos ao Oriente, queres tu dizer, no  verdade,
meu senhor?

- , sim, minha filha - respondeu Monte-cristo. - Bem sabes
que nunca serei eu que te deixarei. No  a rvore que deixa a
flor  a flor que deixa a rvore.

- Nunca te deixarei, senhor - disse Hayde --, porque estou
certa de que no poderia viver sem ti.

- Pobre criana! Dentro de dez anos serei velho e daqui a dez
anos ainda sers nova.

- O meu pai tinha uma comprida barba branca e isso no me
impedia de o amar. O meu pai tinha sessenta anos e parecia-me
mais belo do que todos os rapazes que via.

- Anda, diz-me c, achas que te habituars a viver aqui?

- Ver-te-ei?

- Todos os dias.

- Nesse caso, para que mo perguntas, senhor?

- Receio que te aborreas.

- No, meu senhor, porque de manh pensarei que virs e 
noite lembrar-me-ei de que vieste. Alis, quando estou sozinha
tenho belas recordaes: revejo quadros imensos, grandes
horizontes com o Pindo e o Olimpo por fundo. Alm disso, trago
no corao trs sentimentos com os quais nunca ningum se
aborrece: tristeza, amor e reconhecimento.

- s uma digna filha do Epiro, Hayde. Graciosa e potica, bem
se v que descendes da famlia de deusas que nasceu na tua
terra. Fica pois tranquila, minha filha: arranjarei maneira de
a tua juventude se no perder, porque se me queres como teu
pai, eu amo-te como minha filha.

- Enganas-te, meu senhor. No amava o meu pai como te amo; o
meu amor por ti  outro amor. O meu pai morreu e eu no morri,
ao passo que se tu morresses, eu morreria.

O conde estendeu a mo  jovem com um sorriso de profunda
ternura; ela beijou-lha como de costume.

E assim preparado para o encontro que ia ter com Morrel e a
sua famlia, o conde saiu murmurando estes versos de Pindaro:
"A juventude  uma flor de que  amor  o fruto... Feliz o
vindimador que o colhe depois de o ter visto amadurecer
lentamente."

Conforme as suas ordens, a carruagem estava pronta. Meteu-se
nela e, como de costume, o veculo partiu a galope.


Captulo L

A famlia Morrel


O conde chegou em poucos minutos  Rua Meslay, n.o 7. A casa
era branca, alegre, e precedida de um ptio, no qual em dois
pequenos canteiros se viam flores bastante bonitas.

No porteiro que lhe abriu a porta, o conde reconheceu o velho
Cocls. Mas como este, como se recordam, s tinha um olho, e
passados nove anos esse olho enfraquecera consideravelmente,
Cocls no reconheceu o conde.
Para se deterem diante da entrada, as carruagens tinham de dar
uma volta, a fim de evitar um repuxozinho que brotava de um
tanque de rocaille, magnificncia que provocara muitas
invejas no bairro e que era a causa de chamarem  casa a
Pequena Versalhes.

Escusado ser dizer que no tanque nadavam inmeros peixes
vermelhos e amarelos.

A casa erguia-se por cima de um piso de cozinhas e adegas e
tinha, alm do rs-do-cho, dois andares amplos e
guas-furtadas. Os jovens tinham-na comprado com as
dependncias, que consistiam num enorme atelier, dois
pavilhes ao fundo do jardim e no prprio jardim Emmanuel vira
imediatamente naquela disposio a possibilidade de fazer uma
especulaozinha Reservara para si a casa e metade do jardim e
traara uma linha, isto , erguera um muro entre ele e os
ateliers, que alugara com os pavilhes e a poro de jardim
respectiva. Encontrava-se assim alojado por uma importncia
bastante mdica e to isolado em sua casa como o mais exigente
proprietrio de um palcio do arrabalde Saint-Germain.

A sala de jantar era de carvalho, a sala, de mogno e veludo
azul, e o quarto de limoeiro e damasco verde. Havia ainda, um
gabinete de trabalho para Emmanuel, que no trabalhava, e uma
sala de msica para Julie, que no tocava.

Todo o segundo andar estava reservado a Maximilien. A sua
disposio era igualzinha  do andar de baixo, apenas com uma
diferena: a sala de jantar fora transformada em sala de
bilhar, onde ele recebia os amigos.

Vigiava pessoalmente o tratamento do seu cavalo e fumava um
charuto  entrada do jardim quando a carruagem do conde parou
 porta.

Cocls abriu-a, como dissemos, e Baptistin saltou do seu lugar
e perguntou se o Sr. e a Sr.a Herbault e o Sr. Maximilien
Morrel. estavam visveis para o conde de Monte-cristo.

- Para o conde de Monte-cristo! - exclamou Morrel, atirando o
charuto fora e correndo ao encontro do visitante. - Claro que
estamos visveis para  ele! Oh, obrigado, mil vezes
obrigado, Sr. Conde, por no ter esquecido a sua promessa!

E o jovem oficial apertou to cordialmente a mo do conde que
este no teve dvidas a respeito da franqueza da manifestao
e viu bem que fora esperado com impacincia e era recebido com
alvoroo.

- Venha, venha - disse Maximilien. - Quero ser eu a
apresent-lo. Um homem como o senhor no deve ser anunciado
por um criado. A minha irm est no jardim a cortar as rosas
murchas e o meu cunhado l os seus dois jornais, la Presse e
les Dbats, a seis passos dela, porque por toda a parte em
que se v a Sr.a Herbault basta olhar num raio de quatro
metros para se descobrir o Sr. Emmanuel, e reciprocamente,
como se diz na Escola Politcnica.

O rudo dos passos fez levantar a cabea a uma jovem de vinte
a vinte e cinco anos, de roupo de seda, que limpava com
especial cuidado uma roseira cor de avel.

A jovem era a nossa Julie, que se tornara, como lhe predissera
o mandatrio da Casa Thomson  French, a Sr.a Emmanuel
Herbault.

Soltou um grito ao ver o estranho. Maximilien desatou a rir.

- No te aflijas, minha irm - disse. - O Sr. Conde est em
Paris apenas h dois ou trs dias, mas j sabe o que  uma
proprietria do Marais, e se no souber, tu ensinas-lhe.

- Ah, senhor - desculpou-se Julie-, traz-lo assim  uma
traio do meu irmo, que no tem para com a sua pobre irm a
menor considerao!... Penelon!... Penelon!...

Um velho que cavava um canteiro de roseiras-de-bengala espetou
a enxada na terra e aproximou-se, de barrete na mo e
dissimulando o melhor que podia um bocado de tabaco de mascar
metido momentaneamente nas profundezas da boca.
Algumas madeixas brancas prateavam-lhe a cabeleira ainda
espessa, enquanto o rosto bronzeado e o olhar maroto e vivo
denunciava o velho marinheiro crestado pelo sol do equador e
pelo sopro das tempestades.

- Creio que me chamou, Mademoiselle Julie. C estou.

Penelon conservara o hbito de chamar  filha do patro
Mademoiselle Julie e nunca conseguira adquirir o de a tratar
por Sr.a Herbault.

- Penelon - disse Julie --, v avisar o Sr. Emmanuel da
agradvel visita que acaba de chegar, enquanto o Sr.
Maximilien, acompanha o senhor  sala.

Depois, virando-se para Monte-cristo:

- Permite-me que desaparea por um minuto, no  verdade?

E, sem esperar o assentimento do conde, correu para trs de um
macio e alcanou a casa por uma alameda lateral.

- Lamento, meu caro Sr. Morrel - disse Monte-cristo --,
causar tamanha revoluo na sua famlia.

- Veja, veja! - exclamou Maximilien rindo. - Veja alm o
marido, que tambm vai trocar o casaco por uma sobrecasaca!
Como v, j o conhecem na Rua Meslay e pode considerar-se
anunciado.

- Parece-me que tem aqui, senhor, uma famlia feliz -
 observou o conde, respondendo ao seu prprio pensamento.

-  verdade, Sr. Conde. Que quer, no lhos falta nada para
serem felizes: so novos, alegres, amam-se, e com as suas
vinte e cinco mil libras de rendimento
julgam-se (eles que, no entanto, j viram de perto tantas
imensa fortunas), julgam-se possuidores da riqueza dos
Rothschilds.

-  pouco, mesmo assim, vinte e cinco mil libras de
rendimento - disse Monte-cristo com tanta suavidade que as
suas palavras penetraram no corao de Maximilien como
penetrariam as de um terno pai. - Mas no ficaro por a,
tornar-se-o por seu turno milionrios... O seu cunhado 
advogado... mdico?

- Era comerciante, Sr. Conde, e tomara a casa do meu pobre
pai. O Sr. Morrel deixou ao morrer uma fortuna de quinhentos
mil francos. Recebi metade e a minha irm a outra metade, pois
ramos apenas dois filhos O marido, que casara com ela sem ter
outro patrimnio alm da sua nobre probidade, da sua
inteligncia de primeira ordem e da sua reputao sem mcula,
quis possuir tanto como a mulher e trabalhou at juntar
duzentos e cinquenta mil francos. Bastaram-lhe seis anos.
Juro-lhe, Sr. Conde, que era um espectculo comovente ver
aquelas duas crianas to laboriosas, to unidas, destinadas
pela sua capacidade  mais alta fortuna, mas que, no tendo
querido modificar em nada os hbitos da casa paterna, levaram
seis anos a conseguir o que os inovadores conseguiriam em dois
ou trs. Por isso em Marselha ainda hoje se ouvem os louvores
que seria impossvel recusar a tanta corajosa abnegao Por
fim, um dia, Emmanuel foi ter com a mulher, que acabava de
pagar a ltima conta.

"-- Julie - disse-lhe --, aqui est o ltimo rolo de cem
francos que acaba de me entregar Cocls e que completa os
duzentos e cinquenta mil francos que fixmos como limite dos
nossos ganhos. Contentar-te-s com este pouco com que teremos
de viver daqui em diante? Escuta, a casa movimenta um milho
por ano e pode proporcionar quarenta mil francos de lucro. Se
quisermos, venderemos numa hora a clientela por trezentos mil
francos, que  quanto nos oferece o Sr. Delauny nesta carta
pelo negcio, que quer juntar ao dele. Que te parece que
devemos fazer?

"-- Meu amigo - respondeu a minha irm --, a Casa Morrel s
pode ser gerida por um Morrel. Pr para sempre a coberto dos
maus transes da fortuna o nome de nosso pai no valer bem
trezentos mil francos?

"-- Penso que sim - respondeu Emmanuel. - No entanto, queria
saber a tua opinio.

"-- Pois aqui a tens, meu amigo! Todas as nossas cobranas
esto feitas e todas as nossas letras esto pagas. Podemos
encerrar as contas no fim desta quinzena e fechar a casa.

"Foi o que fizeram imediatamente. Eram trs horas; s trs e
um quarto apareceu, um cliente para segurar a viagem de dois
navios. Era um lucro lquido de quinze mil francos.

"-- Senhor - disse Emmanuel --, queira dirigir-se para fazer
esse seguro ao nosso colega Sr. Delaunay. Ns deixmos os
negcios.

"-- Desde quando? - perguntou o cliente, atnito.

"-- H um quarto de hora.

"E aqui tem, senhor - continuou, sorrindo, Maximilien --, por
que motivo a minha irm e o meu cunhado s tm vinte e cinco
mil libras de rendimento.

Mal Maximilien acabara de falar - e durante a sua narrativa o
corao do conde dilatara-se cada vez mais --, Emmanuel
reapareceu, agora de chapu e sobrecasaca, e cumprimentou o
conde como homem que conhece a categoria
do visitante. Em seguida, depois de mostrar a Monte-Cristo o
jardinzinho florido, levou-o para casa.

A sala estava j perfumada por flores contidas a grande custo
num enorme vaso do Japo, de asas naturais, e Julie,
convenientemente vestida e elegantemente penteada (conseguira
fazer tudo aquilo em dez minutos), apresentou-se para receber
o conde  entrada.

Ouvia-se chilrear os pssaros de um viveiro prximo; os ramos
dos faisos-banos e das accias-rosas vinham tocar com os seus
cachos os cortinados de veludo azul; tudo naquele encantador
retirozinho respirava calma, desde o canto dos pssaros at ao
sorriso dos donos da casa.

Desde que ali entrara, o conde tambm j se impregnara daquela
felicidade. Por isso se conservava calado, pensativo,
esquecido de que o esperavam para retomar a conversao
interrompida depois dos primeiros cumprimentos.

Notou o silncio que se estabelecera, tornado quase
inconveniente, e arrancou-se com esforo ao seu devaneio.

- Minha senhora - disse por fim --, perdoe-me uma emoo que a
deve surpreender, habituada como est a esta paz e a esta
felicidade que descubro aqui. Para mim  coisa to nova como a
satisfao num rosto humano, e da que me no canse de os
olhar, a si e ao seu marido.

- Somos de facto muito felizes, senhor - respondeu Julie. -
Mas sofremos durante muito tempo e poucas pessoas compraram a
felicidade to cara como ns.

A curiosidade transpareceu no rosto do conde.

- Oh, trata-se de uma longa histria de famlia, como lhe
dizia no outro dia Chteau-Renaud! - interveio Maximilien. -
Para si, Sr. Conde, habituado a ver ilustres desgraas e
felicidades esplndidas, este quadro ntimo teria pouco
interesse. No entanto, como acaba de lhe dizer Julie, passamos
por bem maus bocados, apesar de contidos neste pequeno
mbito...

- E Deus derramou-lhes, como faz com todos, a consolao sobre
o sofrimento? - perguntou Monte-cristo.

- Sim, Sr. Conde - respondeu Julie. - Podemos diz-lo porque
fez por ns o que s faz pelos seus eleitos: mandou-nos um dos
seus anjos.

O vermelho subiu s faces do conde, que tossiu, para ter um
meio de dissimular a emoo, e levou o leno  boca.

- Aqueles que nasceram num bero de ouro e que nunca sentiram
a falta de nada - disse Emmanuel - no sabem o que  a alegria
de viver. De igual modo no conhecem o valor de um cu puro
aqueles que nunca tiveram a vida  merc de quatro tbuas
lanadas num mar enfurecido.

Monte-cristo levantou-se e, sem responder, porque a tremura
da sua voz poderia denunciar a comoo que o dominava, ps-se
a percorrer passo a passo a sala.

- A nossa magnificncia f-lo sorrir, no  verdade, Sr.
Conde? - perguntou Maximilien, que seguia Monte-cristo com a
vista.

- No, no - respondeu o conde, muito plido e contendo com a
mo as pulsaes do corao, enquanto com a outra indicava ao
jovem um globo de cristal que protegia uma bolsa de seda
cuidadosamente colocada em cima de uma almofada de veludo
preto. - Perguntava apenas a mim mesmo para que  serve essa
bolsa, que de um lado contm um papel, parece-me, e do outro
um diamante bastante bonito.
Maximilien tomou um ar grave e respondeu:

- Isso, Sr. Conde,  o mais precioso dos nossos tesouros de
famlia

- De facto, o diamante  bastante bonito - repetiu
Monte-cristo.

- Oh, o meu irmo no se refere ao valor da pedra, embora
esteja calculado em cem mil trancos, Sr. Conde! Quer apenas
dizer que os objectos contidos nessa bolsa so as relquias do
anjo de que falmos h pouco.

- A est uma coisa que no compreendo e que no entanto no
devo pedir que me explique... minha senhora - declarou
Monte-cristo, inclinando-se. - Perdoem-me, no quis ser
indiscreto.

- Indiscreto, diz o senhor? Oh, no imagina como nos torna
felizes, pelo contrrio, dando-nos oportunidade de falarmos a
tal respeito! Se ocultssemos como segredo a bela aco que
recorda essa bolsa, no a exporamos por assim dizer  vista
Oh, desejaramos poder espalha-la por todo o universo, para
que um estremecimento do nosso benfeitor nos revelasse a sua
presena.

- Deveras? - disse Monte-cristo, com a voz embargada.

- Senhor - prosseguiu Maximilien, levantando o globo de
cristal e beijando religiosamente a bolsa de seda --, isto foi
tocado pela mo de um homem por quem o meu pai foi salvo da
morte, ns da runa, e o nosso nome, da vergonha; de um homem
graas ao qual ns, pobres crianas votadas  misria e s
lgrimas, podemos hoje ver as pessoas extasiarem-se perante a
nossa felicidade. Esta carta - e Maximilien tirou um bilhete
da bolsa e apresentou-o ao conde --, esta carta foi escrita
por ele no dia em que meu pai tomara uma resoluo
desesperada, e este diamante foi dado em dote  minha irm por
esse generoso desconhecido.

Monte-cristo abriu a carta e leu-a com indefinvel expresso
de prazer. Era o bilhete que os nossos leitores conhecem,
dirigido a Julie e assinado por Simbad, o Marinheiro.

- Desconhecido, diz o senhor? Ento o homem que lhes prestou
esse favor no se lhes deu a conhecer?

- No, senhor, nunca tivemos a felicidade de lhe apertar a
mo. E no foi  falta de pedirmos a Deus esse favor -
prosseguiu Maximilien. - Mas houve em todas as aventuras uma
direco misteriosa que ainda no conseguimos compreender; foi
tudo conduzido por uma mo invisvel, poderosa como a de um
encantador.

- Oh, ainda no perdi de todo a esperana de beijar um dia
essa mo como beijo a bolsa em que ela tocou! - interveio
Julie. - H quatro anos, Penelon estava em Trieste. Penelon,
Sr. Conde,  o excelente marinheiro que viu de enxada na mo e
que de contramestre se fez jardineiro. Penelon estava pois em
Trieste quando viu no cais um ingls que ia embarcar num iate
e reconheceu o homem que procurara o meu pai em 5 de Junho de
1829 e me escrevera esse bilhete em 5 de Setembro. Era sem
dvida o mesmo, ao que ele afirma, mas no se atreveu a
falar-lhe.

- Um ingls!.. - murmurou Monte-cristo, pensativo, preocupado
com os olhares que lhe deitava Julie. - Um ingls, diz a
senhora?

- Sim - confirmou Maximilien --, um ingls que se apresentou
em nossa casa como mandatrio da Casa Thomson  French, de
Roma. Aqui tem por que motivo, quando disse no outro dia em
casa do Sr. de Morcerf que
os  Srs. Thomson  French eram os seus banqueiros, me viu
estremecer. Em nome do Cu, senhor, isto passou-se, como lhe
dissemos, em 1829; conheceu esse ingls?

- Mas no me disseram tambm que a Casa Thomson  French negou
terminantemente ter-lhes prestado esse servio?

- Dissemos.

- Ento esse ingls no seria um homem que, reconhecendo-se
devedor para com o seu pai de alguma boa aco que o prprio
Sr. Morrel teria esquecido, aproveitasse esse pretexto para
lhe ser til?

- Tudo  possvel, senhor, em semelhantes circunstncias, at
um milagre.

- Como se chamava ele? - perguntou Monte-Cristo.

- No deixou outro nome - respondeu Julie olhando o conde com
a mais profunda ateno - a no ser aquele com que assinou o
bilhete: "Simbad, o Marinheiro."

- O que no  um nome, evidentemente, mas sim um pseudnimo.

Depois, como Julie o olhasse cada vez mais atentamente e
procurasse apanhar no ar e reunir algumas notas da sua voz,
prosseguiu:

- Vejamos, no  um homem pouco mais ou menos da minha
estatura, um bocadinho mais alto talvez, e um pouco mais
magro, afogado numa gravata alta, abotoado, espartilhado,
empertigado e sempre de lpis na mo?

- Oh, mas ento o senhor conhece-o! - exclamou Julie, com os
olhos cintilantes de alegria.

- No - respondeu Monte-cristo. - Suponho apenas.
Conheci um Lorde Wilmore que deixava assim atrs de si rastos
de generosidade.

- Sem se dar a conhecer?

- Era um homem estranho, que no acreditava no reconhecimento.

- Oh! - exclamou Julie em tom sublime e juntando as mos. - Em
que acreditava ento o infeliz?

- No acreditava na gratido, pelo menos na poca em que o
conheci - respondeu Monte-cristo, a quem aquela voz vinda do
fundo da alma fizera vibrar at  ltima fibra. - Mas desde
ento  provvel que tenha tido alguma prova do que o
reconhecimento existia.

- E o senhor conhece esse homem? - perguntou Emmanuel.

- Oh, se o conhece, senhor, diga, diga! - exclamou Julie. -
Pode levar-nos  sua presena, mostrar-no-lo, dizer-nos onde
est? Maximilien, Emmanuel: se o encontrarmos alguma vez,
temos de o convencer a acreditar na memria do corao.

Monte-cristo sentiu duas lgrimas rolarem-lhe dos olhos. Deu
mais alguns passos na sala.

- Em nome do Cu, senhor, se sabe alguma coisa acerca desse
homem, diga-nos o que sabe! - pediu Maximilien.

- Infelizmente - respondeu Monte-cristo, contendo a emoo da
voz --, se foi Lorde Wilmore o seu benfeitor, receio muito que
o no encontrem. Deixei-o h dois ou trs anos em Palermo, de
partida para os pases fabulosos; por isso duvido muito que
algum dia volte.

- O senhor  cruel! - exclamou Julie, espantada.

E as lgrimas acudiram aos olhos da jovem.

- Minha senhora - disse gravemente Monte-cristo, devorando
com a vista as duas prolas lquidas que rolavam pelas faces
de Julie --, se Lorde Wilmore  visse o que acabo de ver
aqui, voltaria a amar a vida, pois as lgrimas que a senhora
derrama reconcili-lo-iam com o gnero humano.

E estendeu a mo a Julie, que lhe deu a dela, dominada como
estava pelo olhar e pelo tom do conde.

- Mas esse Lorde Wilmore - insistiu a jovem, agarrando-se a
uma derradeira esperana - tinha um pas, uma famlia,
parentes, era conhecido, enfim? No poderamos...

- Oh, desista, minha senhora! - pediu o conde. - No construa
suaves quimeras sobre as palavras que deixei escapar. No,
Lorde Wilmore no  provavelmente o homem que procuram. Era
meu amigo, eu conhecia todos os seus segredos e ter-me-ia
revelado esse.

- E no lhe disse nada? - perguntou Julie.

- Nada.

- Nunca uma palavra que o pudesse levar a supor...

- Nunca.

- No entanto, o senhor citou-o imediatamente.

- Bom, como sabe num caso assim supe-se.

- Minha irm, minha irm - interveio Maximilien em auxlio do
conde --, o Sr. Conde tem razo. Lembra-te do que nos disse
tantas vezes o nosso bom pai: no foi um ingls que nos
prestou auxlio.

Monte-cristo estremeceu.

- O seu pai dizia-lhes... Sr. Morrel?... - perguntou
vivamente.

- O meu pai, senhor, via naquela aco um milagre. O meu pai
acreditava num benfeitor sado por nossa causa do tmulo. Oh,
era to comovente a sua superstio, senhor, que embora eu no
acreditasse nela nunca me passou pela cabea destruir tal
crena no seu nobre corao! Quantas vezes devaneava
pronunciando baixinho o nome de um amigo perdido; e quando
estava prestes a morrer, quando a proximidade da eternidade
deu ao seu esprito qualquer coisa da inspirao da sepultura,
aquela ideia, que at ali no passara de uma suspeita,
transformou-se numa convico, e as ltimas palavras que
pronunciou foram estas: "Maximilien, foi Edmond Dants!"

A palidez do conde, que havia alguns segundos ia aumentando,
tornou-se horrvel depois destas palavras. Todo o sangue lhe
aflura ao corao e no conseguia falar. Puxou do relgio,
como se se tivesse esquecido das horas, pegou no chapu,
apresentou  Sr.a Herbault um cumprimento brusco e embaraado
e apertou a mo a Emmanuel e Maximilien.

- Minha senhora - disse --, permita-me que venha algumas vezes
apresentar-lhe os meus cumprimentos. Gosto da sua casa e
estou-lhe grato pelo seu acolhimento, to agradvel que pela
primeira vez em muitos anos me esqueci das horas.
E saiu a passos largos.

-  um homem singular, esse conde de Monte-cristo - disse
Emmanuel.

- Pois  - concordou Maximilien --, mas creio que possui um
excelente corao e estou certo de que gosta de ns.

-- E a mim - disse Julie - a sua voz penetrou-me at ao
corao e por duas ou trs vezes pareceu-me que no era a
primeira vez que a ouvia.


Captulo LI

Pramo e Tisbe


Quase ao fundo do Arrabalde Saint-Honor, atrs de um belo
palcio, notvel entre as notveis habitaes daquele bairro
rico, estende-se um vasto jardim, cujos castanheiros frondosos
ultrapassam os enormes muros, altos como muralhas, e deixam,
quando chega a Primavera, cair as suas flores cor-de-rosa e
brancas em dois vasos de pedra canelada colocados
paralelamente sobre duas colunas quadrangulares, nas quais se
insere um porto de ferro do tempo de Lus XIII.

Esta entrada grandiosa est condenada, apesar dos magnficos
gernios contidos nos dois vasos e que balanam ao vento as
suas flores matizadas e cor de prpura, desde que os
proprietrios do palcio - e isso data de h muito tempo j -
se restringiram  posse do palcio, do ptio arborizado que d
para a rua e do jardim que fecha o porto a que j nos
referimos, o qual dava outrora para uma magnfica horta de uma
jeira, anexa  propriedade. Mas como o demnio da especulao
traou uma linha, isto , uma rua na extremidade da horta, e
como a rua, antes de existir, j recebera um nome, graas a
uma placa de ferro polido, pensou-se vender a horta para
construir para a rua e fazer concorrncia  grande artria de
Paris chamada Arrabalde Saint-Honor.

Mas em matria de especulao, o homem prope e o dinheiro
dispe. A rua baptizada morreu  nascena; o comprador da
horta, depois de a pagar integralmente, no conseguiu obter na
revenda a importncia que pretendia e, enquanto esperava uma
subida de preo que no deixaria de o indemnizar, mais dia
menos dia, muito para alm dos seus prejuzos passados e do
seu capital imobilizado, contentou-se com alugar o terreno a
uns hortelos por quinhentos francos por ano.

Era dinheiro colocado a 1,5%, nada caro nos tempos que correm,
em que h tanta gente que o coloca a cinquenta e ainda acha
que o dinheiro rende pouqussimo.

Todavia, como j dissemos, o porto do jardim, que outrora
dava para a horta, est condenado e a ferrugem ri-lhe os
gonzos. Mais, para que os ignbeis hortelos no conspurquem
com os seus olhares vulgares o interior do recinto
aristocrtico, aplicou-se aos vares uma vedao de tbuas at
 altura de seis ps.  certo que as tbuas no esto assim
to bem juntas que se no possa deitar um olhar furtivo pelos
intervalos, mas a casa  uma casa severa e que no teme as
indiscries.

Na horta, em vez de couves, cenouras, rabanetes, ervilhas e
meles, crescem grandes luzernas, nica cultura reveladora de
que aquele lugar abandonado ainda no est esquecido. Uma
portinha baixa que d para a rua projectada permite a entrada
no recinto murado, que os seus arrendatrios acabam de
abandonar devido  sua esterilidade e que h oito dias, em vez
de render 1,5%, como no passado, j no rende absolutamente
nada.

Do lado do palcio, os castanheiros de que falmos coroam o
muro, o que no impede outras rvores luxuriantes e floridas
de introduzir nos intervalos os seus ramos vidos de ar. Num
canto em que a folhagem  de tal forma abundante  que a luz
mal ali penetra, um comprido banco de pedra e cadeiras de
jardim indicam um lugar de reunio ou um retiro favorito de
qualquer habitante do palcio, situado a cem passos e que mal
se v atravs da muralha de verdura que o envolve. Enfim, a
escolha daquele recanto misterioso  ao mesmo tempo
justificada pela ausncia do sol, pela frescura permanente,
mesmo durante os dias mais quentes do Vero, pelo chilreal da
passarada e pelo afastamento da casa e da rua, isto , dos
problemas domsticos e do barulho.

Na tarde de um dos dias mais quentes que at ali a Primavera
concedera aos habitantes de Paris, encontrava-se em cima do
banco de pedra um livro, uma sombrinha, um cesto de costura e
um leno de cambraia de linho com um bordado comeado; e no
longe do banco, junto do porto, de p diante das tbuas, com
o olho aplicado  vedao engradada, estava uma jovem, que
espreitava por uma fenda a horta deserta que j conhecemos.

Quase imediatamente, a portinha do terreno fechava-se sem
rudo e um rapaz alto, forte, de blusa de pano-cru e barrete
de veludo, mas cujos bigodes pretos extremamente cuidados
destoavam um bocado da vestimenta popular, depois de olhar
rapidamente  sua volta para se certificar de que ningum o
espiava, dirigia-se com passo rpido para o porto.

Ao ver aquele que esperava, mas no provavelmente assim
vestido, a jovem teve medo e recuou.

Entretanto, porm, o rapaz, com esse olhar que s os namorados
possuem, j vira atravs das fendas da porta flutuar o vestido
branco e a comprida faixa azul da amada. Assim, correu para a
vedao, aplicou a boca a uma abertura e disse:

- No lenha medo, Valentine, sou eu.

A jovem aproximou-se.

- Oh, senhor, porque veio hoje to tarde? - perguntou. - No
sabe que em breve vamos jantar e que precisei de muita
diplomacia e rapidez para me desembaraar da minha madrasta,
que me espia, da minha criada de quarto, que me vigia, e do
meu irmo, que me atormenta por vir bordar para aqui um leno
que receio muito no esteja pronto to cedo?
Depois de justificar o seu atraso, dir-me- que novo traje 
esse que resolveu usar e que quase me no permitiu
reconhec-lo.

- Querida Valentine - respondeu o rapaz --, est to acima do
meu amor que no ouso falar-lhe dele, e no entanto todas as
vezes que a vejo necessito de lhe dizer que a adoro, a fim de
o eco das minhas prprias palavras me acariciar ternamente o
corao quando j a no vejo. Agora, agradeo os seus ralhos:
so deliciosos porque me provam, no me atrevo a dizer que me
esperava, mas sim que pensava em mim. Quer saber a causa do
meu atraso e o motivo do meu disfarce; vou dizer-lhos e espero
que os desculpe: arranjei outra profisso.

- Outra profisso?!... Que quer dizer, Maximilien? Somos assim
to felizes para que me fale do que nos respeita gracejando?

- Oh, Deus me defenda de brincar com o que  a minha vida! -
protestou o rapaz. - Mas farto de correr campos e escalar
muros, seriamente assustado com a ideia que me sugeriu na
outra tarde de que o seu pai ainda um dia me mandaria prender
e julgar por ladro, o que comprometeria a honra de todo o
Exrcito francs, e no menos assustado com a possibilidade de
algum estranhar ver-me girar constantemente  volta daquele
terreno, onde no h a mais pequena  cidadela a sitiar ou o
mais pequeno fortim a defender, um capito de sipaios, fiz-me
hortelo e adoptei o traje da minha profisso.

- Que loucura!

- Pelo contrrio, acho a coisa mais sensata, creio, que fiz na
minha vida, porque nos d toda a segurana.

- Explique-se.

- Procurei o dono do terreno, e como o arrendamento com os
antigos rendeiros terminara, aluguei-mo de novo. Toda aquela
luzerna que v me pertence, Valentine, e nada me impede de
mandar construir uma cabana no meio daquelas forragens e de
passar a viver a vinte passos de si. Oh, no posso conter a
minha alegria e a minha felicidade! Parece-lhe, Valentine, que
haver dinheiro que pague tais coisas?  impossvel, no 
verdade? Pois bem, toda esta felicidade, toda esta ventura,
toda esta alegria, pelas quais daria dez anos de vida, me
custam... adivinhe quanto. Quinhentos francos por ano,
pagveis por trimestre. Assim, como v, daqui em diante no
tenho mais nada a temer. Estou no que  meu, posso encostar
escadas de mo ao meu muro e olhar para cima dele e tenho o
direito, sem receio de que uma patrulha me venha incomodar, de
lhe dizer, Valentine, que a amo, desde que o seu orgulho se
no sinta ferido por ouvir sair esta palavra da boca de um
pobre jornaleiro de blusa e barrete.

Valentine soltou um gritinho de alegre surpresa. Depois, de
repente, como se uma nuvem invejosa viesse de sbito encobrir
o raio de sol que lhe iluminava o corao, disse tristemente:

- O pior, Maximilien,  que a partir daqui seremos demasiado
livres e a nossa felicidade levar-nos- a tentar Deus;
abusaremos da nossa segurana e a nossa segurana
perder-nos-.

- Como pode dizer-me isso, minha amiga, a mim, que desde que a
conheo lhe provo todos os dias que subordino os meus
pensamentos e a minha vida  sua vida e aos seus pensamentos?
Que a levou a confiar em mim? A minha dedicao, no 
verdade? Quando me disse que um vago instinto lhe afirmava que
corria um grande perigo, pus a minha dedicao s suas ordens
sem lhe pedir outra recompensa alm da felicidade de a servir.
Desde ento j lhe dei, por uma palavra, por um gesto,
oportunidade de se arrepender de me ter distinguido no meio
daqueles que se considerariam felizes por morrer por si?
Disse-me, pobre criana, que estava noiva do Sr. de Epinay,
que o seu pai decidira essa aliana, ou seja, que ela era
inevitvel, pois tudo o que o Sr. de Villefort deseja acontece
infalivelmente. Pois bem, fiquei na sombra esperando tudo, no
da minha vontade, no da sua, mas sim dos acontecimentos, da
Providncia, de Deus, e no entanto a Valentine ama-me, teve
compaixo de mim e disse-mo. Obrigado por essa doce palavra,
que s lhe peo me repita de tempos a tempos e que me far
esquecer tudo.

- E foi isso que o tornou audacioso, Maximilien, e  isso que
me proporciona simultaneamente uma existncia to venturosa
quanto infeliz, a ponto de perguntar a mim prpria muitas
vezes o que ser melhor para mim, se a tristeza que me causava
dantes o rigor da minha madrasta e a sua preferncia cega pelo
filho ou a felicidade cheia de perigos que experimento em
v-lo.

-- Perigos?! - exclamou Maximilien. Como pode dizer uma
palavra to dura e to injusta? Alguma vez viu um escravo mais
submisso do que eu? Permitiu-me dirigir-lhe algumas vezes a
palavra, Valentine, mas proibiu-me de a seguir e
eu  obedeci. Desde que descobri maneira de entrar aqui, de
falar consigo atravs desta porta, de estar, enfim, to perto
de si sem a ver, alguma vez, diga-me, lhe pedi para tocar
sequer na fmbria do seu vestido atravs das grades? Alguma
vez dei um passo para transpor este muro, ridculo obstculo
para a minha juventude e para a minha fora? Nunca me ouviu
queixar do seu rigor, nunca exprimi um desejo em voz alta;
tenho cumprido a minha palavra como um cavaleiro doutros
tempos. Reconhea isto, ao menos, para que a no julgue
injusta.

-  verdade - disse Valentine, passando entre duas tbuas a
ponta de um dos seus dedos afuselados no qual Maximilien
pousou os lbios. -  verdade, tem sido um amigo respeitoso.
Mas tem procedido assim apenas por saber ser esse o seu
interesse, meu caro Maximilien. Sabia muito bem que no dia em
que o escravo se tornasse exigente tudo perderia. Prometeu-me
a amizade de um irmo, a mim que no tenho amigos, a mim que o
meu pai esquece, a mim que a minha madrasta persegue, e que s
tenho como consolao um velho imvel, mudo. gelado, cuja mo
no me pode apertar a minha que s me pode talar com o olhar e
cujo corao bale sem dvida por mim, consumindo o que lhe
resta de calor. Irriso amarga do destino que me torna inimiga
e vtima de todos aqueles que so mais fortes do que eu e que
me d um cadver por amparo e amigo! Oh, realmente,
Maximilien, repito-lhe, sou muito infeliz e tem razo em
amar-me por mim e no por si!

- Valentine - disse o jovem, profundamente comovido --, no
direi que s a si amo no mundo, porque amo tambm a minha irm
e o meu cunhado, mas a eles amo-os com um amor terno e calmo,
que em nada se parece com o sentimento que experimento por si.
Quando penso em si o sangue ferve-me, o peito dilata-se-me, o
corao transborda-me. Mas esta energia. este ardor, esta
fora sobre-humana, utiliz-los-ei a am-la apenas at ao dia
em que me diga que os utilize a servi-la. O Sr. de Epinay
estar ausente ainda um ano, dizem; num ano, quantas
oportunidades favorveis poderemos ter, quantos acontecimentos
nos podero secundar! Continuemos portanto a ter esperana; 
to bom e to doce ter esperana. Mas at agora, que tem sido
para mim a Valentine, a Valentine que me censura o meu
egosmo? A bela e fria esttua da Vnus pudica. Em troca desta
dedicao, desta obedincia, desta renncia, que me prometeu?
Nada. Que me concedeu? Muito pouca coisa. Fala-me do Sr. de
Epinay, seu noivo, e suspira perante a ideia de lhe pertencer
um dia. Vejamos, Valentine, isso  tudo o que tem na alma? O
qu, ofereo-lhe a minha vida, dou-lhe a minha alma,
dedico-lhe at  mais insignificante pulsao do meu corao,
e quando sou todo seu, quando digo para comigo baixinho que
morrerei se a perder, a Valentine nem sequer se assusta
perante a ideia de pertencer a outro! Oh, Valentine,
Valentine, se estivesse no seu lugar, se me soubesse amado
como est certa de que a amo, j cem vezes teria passado a
minha mo por entre as grades deste porto e apertado a mo do
pobre Maximilien, dizendo-lhe: "Sou sua, s sua, Maximilien,
neste mundo e no outro!"

Valentine no respondeu nada, mas o rapaz ouviu-a suspirar e
chorar.

A reaco de Maximilien foi imediata.

- Oh, Valentine, Valentine, esquea as minhas palavras, se h
nelas alguma coisa que a possa magoar!

- No - respondeu ela --, tem razo. Mas no v que sou uma
pobre criatura, abandonada numa casa quase estranha, porque o
meu pai  quase um  estranho para mim, e cuja vontade tem
sido vergada de h dez anos para c, dia a dia, hora a hora,
minuto a minuto, pela vontade de ferro dos amos e senhores que
dispem de mim? Ningum repara no que sofro e que s a si
tenho dito. Aparentemente, e aos olhos de toda a gente, todos
so bons e afectuosos para comigo; mas na realidade todos me
so hostis. As pessoas dizem: "O Sr. de Villefort  demasiado
grave e severo para ser terno com a filha, mas ela teve ao
menos a felicidade de encontrar na Sr.a de Villefort uma
segunda me." Pois as pessoas enganam-se: o meu pai
abandona-me com indiferena e a minha madrasta odeia-me com um
encarniamento tanto mais terrvel quanto  certo ser
disfarado por um eterno sorriso.

- Odi-la? A si, Valentine! Como podem odi-la?

- Infelizmente, meu amigo - respondeu Valentine --, sou
forada a confessar que esse dio por mim provm de um
sentimento quase natural. Ela adora o filho, o meu irmo
Edouard.

- E ento?

- Ento? Talvez seja estranho meter no caso uma questo de
dinheiro... No entanto, meu amigo, creio que o seu dio provm
pelo menos da. Como ela no tem fortuna do seu lado e eu j
sou rica por parte da minha me, e a minha fortuna ser ainda
mais do que duplicada pela do Sr. e da Sr.a de Saint-Mran,
que me deve caber um dia, bom... julgo que ela tem inveja. Oh,
meu Deus, se ihe pudesse dar metade dessa fortuna e sentir-me
junto do Sr. de Villefort como uma filha em casa do seu pai,
f-lo-ia imediatamente, pode ter a certeza!

- Pobre Valentine!

- Sim, sinto-me acorrentada e ao mesmo tempo to fraca que me
parece ser amparada por esses laos e tenho medo de os
quebrar. De resto, o meu pai no  homem cujas ordens se
possam infringir impunemente: usaria o seu poder contra mim,
como o usaria contra si, Maximilien, e como o usaria contra o
prprio rei, protegido como est por um passado inatacvel e
por uma posio quase intocvel. Oh, Maximilien, juro-lhe que
se no luto  porque receio que seja despedaado como eu nessa
luta!

- Mas, enfim, Valentine - insistiu Maximilien --, porque
desesperar assim e ver o futuro sempre negro?

- Ah, meu amigo, porque o avalio pelo passado!

- Vejamos: se no sou um partido ilustre do ponto de vista
aristocrtico, perteno no entanto, sob muitos aspectos, ao
meio em que a Valentine vive. O tempo em que havia duas
Franas em Frana j l vai; as mais nobres famlias da
monarquia uniram-se s famlias do Imprio. A aristocracia da
lana desposou a nobreza do canho. Eu perteno a esta ltima.
Tenho um excelente futuro no Exrcito e possuo uma pequena
fortuna, mas independente; por ltimo, a memria do meu pai 
venerada na nossa terra como a de um dos mais honestos
comerciantes que jamais existiram. Digo "nossa terra",
Valentine, porque  quase de Marselha.

- No me fale de Marselha, Maximilien. Essa palavra basta para
me lembrar da minha boa me, esse anjo cujo desaparecimento
toda a gente lamentou, e que depois de velar pela filha
durante a sua curta estada na Terra, vela agora por ela, pelo
menos assim espero, durante a sua eterna estada no Cu. Oh, se
a minha pobre me fosse viva, Maximilien, no temeria nada!
Dir-lhe-ia que o amo e ela proteger-nos-ia.

- Infelizmente, Valentine - prosseguiu Maximilien --, se ela
tosse viva eu no a conheceria, sem dvida, porque, como
disse, seria feliz se ela fosse viva, e uma Valentine feliz
olhar-me-ia muito desdenhosamente do alto da sua grandeza.

- Ah, meu amigo, agora  o senhor que  injusto!... Mas
diga-me...

- Que quer que lhe diga? - insistiu Maximilien, vendo que
Valentine hesitava.

- Diga-me - continuou a jovem --, noutros tempos, em Marselha,
no houve qualquer desinteligncia entre o seu pai e o meu?

- Que eu saiba, no - respondeu Maximilien --, a no ser por o
seu pai ser um partidrio mais que zeloso dos Bourbons e o
meu, um homem dedicado ao imperador. Presumo ser essa a nica
desinteligncia que ter havido entre eles. Mas porque
pergunta isso, Valentine?

- Vou dizer-lho - prosseguiu a jovem - porque deve saber tudo.
Bom, foi no dia em que a sua nomeao de oficial da Legio de
Honra veio publicada no jornal. Estvamos todos em casa do
av, o Sr. Noirtier, e alm de ns estava l tambm o Sr.
Danglars... Creio que o conhece,  aquele banqueiro cujos
cavalos quase mataram anteontem a minha madrasta e o meu
irmo. Eu lia o jornal em voz alta ao meu av, enquanto os
outros conversavam acerca do casamento de Mademoiselle
Danglars. Quando cheguei ao pargrafo que lhe dizia respeito a
si, Maximilien, e que j lera, porque o senhor me tinha dado
essa boa notcia na vspera de manh... quando cheguei,
repito, ao pargrafo que lhe dizia respeito, estava to
feliz... mas tambm to trmula por ser obrigada a pronunciar
o seu nome em voz alta, que decerto o omitiria se no receasse
que interpretassem mal o meu silncio. Apelei, pois, para toda
a minha coragem e li-o.

- Querida Valentine!

- Pois bem, assim que soou o seu nome, Maximilien, o meu pai
virou a cabea. Estava to persuadida (veja como sou louca!)
de que toda a gente ia ser fulminada por esse nome como o
seria por um raio, que julguei ver estremecer meu pai e at
(quanto a esse foi uma iluso, tenho a certeza), e at o Sr.
Danglars.

"-- Morrel?... - disse o meu pai. - Um momento? - Franziu o
sobrolho e acrescentou: - Ser um desses Morrels de Marselha,
um desses facciosos bonapartistas que nos causaram tanto mal
em 1815?

"-- Exacto - respondeu Danglars. - Creio at que se trata do
filho do antigo armador."

- Ele disse isso? - estranhou Maximilien. - E que respondeu o
seu pai, Valentine?

- Oh, uma coisa horrvel e que no ouso dizer-lhe!

- Diga sempre - pediu Maximilien, sorrindo.

"-- O seu imperador - continuou de sobrolho franzido - sabia
p-los no seu lugar, a todos esses fanticos.
Chamava-lhes carne para canho e era o nico nome que
mereciam. Verifico com prazer que o novo Governo repe em
vigor esse salutar princpio. Ainda que fosse apenas para isso
que conservssemos a Arglia, felicitaria o Governo, apesar de
nos custar um pouco cara."

- Trata-se, com eleito, de uma poltica bastante brutal -
disse Maximilien. - Mas no core, querida amiga, pelo que
disse o Sr. de Villefort. O meu excelente pai no ficava a
dever nada ao seu nesse aspecto e repetia constantemente:
"Porque ser que o imperador, que tem feito tantas coisas
boas, no faz um  regimento de juizes e advogados e os manda
tambm para as primeiras linhas?"

-- Como v, querida amiga, no ficam um atrs do outro pelo
pitoresco da expresso e pela bondade da ideia. Mas que disse
o Sr. Danglars a essa sada do procurador rgio?

- Oh, desatou a rir, com aquele riso velhaco que lhe 
peculiar e que eu acho feroz! Pouco depois levantaram-se e
saram. Vi ento que o meu bom av estava agitadssimo. Devo
dizer-lhe, Maximilien, que s eu adivinho as agitaes - do
pobre paraltico, e alis j desconfiava que a conversa que
tinham tido diante dele (porque j ningum lhe presta ateno,
pobre av!) o deixara muito impressionado, atendendo a que
tinham dito mal do seu imperador, de quem, ao que parece, foi
fantico.

- , com efeito - disse Maximilien --, um dos nomes conhecidos
do Imprio. Foi senador e, como sabe, ou no sabe, Valentine,
participou, em quase todas as conspiraes bonapartistas que
se verificaram no tempo da Restaurao.

- Sim, tenho ouvido falar s vezes, em voz baixa, a tal
respeito. So coisas que me parecem estranhas: o av,
bonapartista: o pai, monrquico... Enfim, que lhe havemos de
fazer?... Olhei portanto para ele, que me indicou o jornal com
a vista.

"-- Ento, avozinho, est satisfeito? -- perguntei-lhe.

"fez-me sinal que sim com os olhos.

"-- Com o que o meu pai acaba de dizer? - perguntei.

"Fez sinal que no.

"-- com o que o Sr. Danglars disse?

"Fez novamente sinal que no.

"-- Ento  por esse Sr. Morrel - no me atrevi a dizer
Maximilien - ter sido nomeado oficial da Legio de Honra?

"Fez sinal que sim. Que lhe parece, Maximilien? Estava
satisfeito por o senhor ter sido nomeado oficial da Legio de
Honra, apesar de o no conhecer. Talvez seja loucura da sua
parte, pois dizem que regressou aos tempos da infncia, mas
fiquei a am-lo ainda mais por aquele "sim".

-  estranho - murmurou Maximilien - o seu pai odiar-me, ao
passo que, pelo contrrio, o seu av... Coisa estranha esses
amores e esses dios de partido!

- Caluda! - recomendou de sbito Valentine. - Esconda-se,
fuja, vem a gente!

Maximilien saltou para uma enxada e desatou a revolver
impiedosamente a luzerna.

- Menina! Menina! - gritou uma voz atrs das rvores. -- A
Sr.a de Villefort procura-a por toda a parte e chama-a. Est
uma visita na sala.

- Uma visita?... - repetiu Valentine muito agitada. - E quem 
essa visita?

- Um grande senhor, um prncipe, ao que se diz, o Sr. Conde de
Monte-Cristo.

- J l vou - respondeu em voz alta Valentine.

Estas palavras fizeram estremecer do outro lado do porto
aquele para quem o "j l vou" de Valentine servia de adeus no
fim de cada encontro.

- E esta? - disse Maximilien para consigo, encostando-se muito
pensativo  enxada. - Como  que o conde de Monte-cristo
conhece o Sr. de Villefort?

captulo LII

Toxicologia


Era sem dvida nenhuma o Sr. Conde de Monte-cristo que
acabava de entrar em casa da Sr.a de Villefort, na inteno de
retribuir ao Sr. Procurador Rgio a visita que este lhe
fizera, e mal soara o seu nome toda a casa, como bem se
compreende, se pusera em polvorosa.

A Sr.a de Villefort, que se encontrava na sala quando lhe
anunciaram o conde, mandou imediatamente chamar o filho para
que o garoto reitera se os seus agradecimentos ao conde, e
Edouard, que havia dois dias no ouvia falar doutra coisa a
no ser da grande personagem, apressou-se a aparecer, no por
obedincia  me nem para agradecer ao conde, mas sim por
curiosidade e para fazer qualquer observao que lhe
permitisse meter uma das suas "gracinhas", que faziam dizer 
me: "Oh, que criana to m! Mas tenho de lhe perdoar, pois 
to espirituoso!"

Depois dos cumprimentos do costume, o conde perguntou pelo Sr.
de Villefort.

- O meu marido janta com o Sr. Chanceler - respondeu a jovem
senhora. - saiu agora mesmo e lamentar muito, estou certa,
ter sido privado do prazer de o ver.

Dois visitantes que tinham precedido o conde na sala, e que o
devoravam com os olhos, retiraram-se passado o tempo
razoavelmente exigido tanto, pela cortesia como pela
curiosidade.

- A propsito, onde est a tua irm Valentine?-perguntou a
Sr.a de Villefort a Edouard. - Que a chamem, para que tenha a
honra de a apresentar ao Sr. Conde.

- Tm uma filha, minha senhora? - perguntou o conde. - Nesse
caso deve ser uma criana.

-  filha do Sr. de Villefort - respondeu a jovem senhora uma
filha do primeiro casamento, uma bonita rapariga.

- Mas melanclica - interrompeu o jovem Edouard arrancando,
para colocar como penacho no chapu, as penas da cauda de uma
magnfica arara, que gritou de dor no seu poleiro dourado.

A Sr.a de Villefort limitou-se a dizer:

- Silncio, Edouard! Este jovem estouvado tem quase razo e
repete o que muitas vezes ouve dizer com mgoa. Porque
Mademoiselle de Villefort , apesar de tudo o que fazemos para
a distrair, de um carcter triste e de um humor taciturno, que
muitas vezes prejudicam o efeito da sua beleza. Mas ela no
vem... Edouard, v ver porque se demora.

- Porque a procuram onde ela no est.

- E onde  que a procuram?

- Nos aposentos do av Noirtier.

- E o menino acha que ela no est l?

- No, no, no, no, no, no est l! - respondeu Edouard,
cantarolando.

- Ento onde  que est? Se sabe, diga-o.

- Est debaixo do castanheiro grande - continuou o endiabrado
rapazinho, oferecendo, apesar dos gritos da me, moscas vivas
ao papagaio, que parecia grande apreciador daquela espcie de
caa.

A Sr.a de Villefort estendia a mo para tocar e dizer  sua
criada de quarto o stio onde encontraria Valentine quando
esta entrou. Parecia triste, com efeito, e observando-a
atentamente poder-se-iam ver at nos seus olhos vestgios de
lgrimas.

Valentine, que, levados pela rapidez da narrativa apresentmos
aos leitores sem a dar a conhecer, era uma rapariga alta e
esbelta, de dezanove anos, cabelo castanho-claro, olhos
azuis-escuros e andar languido e com o cunho da requintada
distino que caracterizava a me. As suas mos brancas e
esguias, o seu colo nacarado e as suas faces matizadas de
cores fugazes davam-lhe  primeira vista o ar de uma dessas
belas inglesas que por vezes se comparam, bastante
poeticamente, nas suas atitudes, a cisnes presunosos.

Entrou e, vendo ao p da madrasta o estrangeiro de quem tanto
ouvira j falar, cumprimentou-o sem quaisquer trejeitos de
adolescente e sem baixar os olhos, com uma graa que redobrou
a ateno do conde.

Este levantou-se.

- Mademoiselle de Villefort, minha enteada - disse a Sr.a de
Villefort a Monte-cristo, inclinando-se no sof e mostrando
com a mo Valentine.

- E o Sr. Conde de Monte-cristo, rei da China e imperador da
Cochinchina - acrescentou o jovem brincalho, lanando um
olhar velhaco  irm.

Desta vez, a Sr.a de Villefort empalideceu e esteve quase a
perder a pacincia com aquele flagelo domstico chamado
Edouard. Mas, muito pelo contrrio do que esperava, o conde
sorriu e pareceu olhar o fedelho com benevolncia, o que levou
ao cmulo a alegria e o entusiasmo da me.

- Mas, minha senhora - disse o conde, reatando a conversa e
olhando alternadamente para a Sr.a de Villefort e para
Valentine --, no tive j a honra de a ver em qualquer parte,
 senhora e  menina? Ainda h pouco pensava nisso, e quando a
menina entrou a sua pessoa foi mais uma luz projectada sobre
uma recordao confusa, perdoe-me a palavra.

- No  provvel, senhor. Mademoiselle de Villefort aprecia
pouco a sociedade e ns samos raramente - respondeu a jovem
senhora.

- Por isso no foi na sociedade que vi a menina, nem a
senhora, e muito menos este encantador magano. Alis, a
sociedade parisiense -me absolutamente desconhecida, pois
creio ter tido a honra de lhe dizer que me encontro em Paris
apenas h dias. No, se me permite que recorde... espere...

O conde ps a mo na testa, como que para concentrar todas as
suas recordaes.

- No, foi l fora... foi... no sei bem... mas parece-me que
esta recordao  inseparvel de um belo sol e de uma espcie
de festa religiosa... A menina tinha flores na mo, o menino
corria atrs de um belo pavo, num jardim a senhora... a
senhora estava debaixo de um caramancho em forma de
abbada... Ajude-me, minha senhora. O que acabo de lhe dizer
no lhe lembra nada?

- No, na verdade - respondeu a Sr.a de Villefort. - E no
entanto parece-me, senhor, que se o tivesse encontrado em
qualquer parte a sua recordao teria ficado gravada na minha
memria.

- Talvez o Sr. Conde nos tenha visto em Itlia - sugeriu
timidamente Valentine.

- Com efeito, na Itlia...  possvel - admitiu Monte-cristo.
- J viajou pela Itlia, menina?

- Minha madrasta e eu estivemos l dois anos. Os mdicos
temiam pelos meus pulmes e recomendaram-me o ar de Npoles.
Passmos por Bolonha, Persia e Roma.

-  verdade, menina! - exclamou Monte-cristo, como se aquela
simples indicao bastasse para fixar todas as suas
recordaes. - Foi em Persia, no dia da festa do Corpo de
Deus, no jardim da estalagem da posta, que o acaso nos reuniu:
a senhora, a menina, o seu filho e eu. Recordo-me que foi a
que tive a honra de os ver.

- Lembro-me perfeitamente de Persia, senhor, e da estalagem
da posta, e da festa a que se refere - disse a Sr.a de
Villefort --, mas, por mais que interrogue as minhas
recordaes, a minha memria deixa-me envergonhada, pois no
me lembro de ter tido a honra de o ver.

-  estranho, mas eu tambm no - disse Valentine, levantando
os belos olhos para Monte-cristo.

- Lembro-me eu! - exclamou Edouard.

- Vou ajud-la, minha senhora - prosseguiu o conde. - O dia
estivera escaldante e a senhora esperava cavalos que no
chegavam devido  solenidade. A menina afastou-se para a parte
mais densa do jardim e o seu filho desapareceu correndo atrs
da ave.

- Apanhei-o, mezinha, bem sabes, e arranquei-lhe trs penas
da cauda - declarou Edouard.

- A senhora ficou debaixo da abbada do caramancho... No se
lembra de, enquanto esteve sentada num banco de pedra e de,
como eu disse, enquanto Mademoiselle de Villefort e o seu
filho estiveram ausentes, ter conversado durante bastante
tempo com algum?

-Sim, realmente, lembro... - admitiu a jovem senhora, corando.
- Lembro-me de conversar com um homem envolto numa grande capa
de l... com um mdico, creio.

- Exactamente minha senhora. Esse homem era eu. Havia quinze
dias que estava hospedado na estalagem, curara o meu criado de
quarto de uma febre e o estalajadeiro de ictercia, de modo
que me olhavam como um grande mdico. Conversmos
demoradamente, minha senhora, de vrias coisas: de Perusino,
de Rafael, dos hbitos, dos costumes e da famosa gua-tofana,
cujo segredo, segundo creio algumas pessoas lhe tinham dito,
conservavam ainda em Persia.

- Ah,  verdade, j me lembro! - disse vivamente a Sr.a de
Villefort, com certo nervosismo.

- J me no recordo em pormenor do que me disse, minha senhora
- prosseguiu o conde com perfeita calma --, mas lembro-me
perfeitamente de que, compartilhando a meu respeito o erro
geral, me consultou acerca da sade de Mademoiselle de
Villefort.

- No entanto, senhor, no h dvida que se no fosse realmente
mdico no curaria doentes - observou a Sr.a de Villefort.

- Molire ou Beaumarchais responder-lhe-iam, minha senhora,
que exactamente por o no ser  que, em vez de curar os meus
doentes, os meus  doentes se curaram. Por mim, limito-me a
dizer-lhe que estudei bastante a fundo a qumica e as cincias
naturais, mas apenas como curioso... compreende?
Neste momento deram seis horas.

- J seis horas! - exclamou a Sr.a de Villefort, visivelmente
agitada. - No vai ver, Valentine, se o seu av est pronto
para jantar?

Valentine levantou-se, cumprimentou o conde e saiu da sala sem
dizer palavra.

- Meu Deus, minha senhora, foi por minha causa que mandou
Mademoiselle de Villefort embora? - perguntou o conde, depois
de Valentine sair.

- De modo algum - respondeu vivamente a jovem senhora. - Mas 
que so horas de servirmos ao Sr. Noirtier a triste refeio
que sustenta a sua pobre existncia. Sabe em que estado
deplorvel se encontra o pai do meu marido, no sabe?

-Sei, sim, minha senhora; o Sr. de Villefort falou-me disso.
Uma paralisia creio.

- Infelizmente! O pobre velho est completamente privado de
movimentos. S a alma vive naquela mquina humana, mas plida
e trmula como uma lamparina prestes a apagar-se. Mas, perdo,
senhor, se, para lhe falar dos meus infortnios domsticos, o
interrompi no momento em que me dizia ser um hbil qumico.

- Oh, no dizia tanto, minha senhora! - redarguiu o conde,
sorrindo. - Muito pelo contrrio, estudei qumica porque,
decidido a viver especialmente no Oriente, quis seguir o
exemplo do rei Mitridates.

- Mithridates, rex Ponticus - disse o estouvado filho da
dona da casa, recortando gravuras de um lbum magnfico --, o
mesmo que tomava todas as manhs uma chvena de veneno com
natas ao pequeno-almoo...

- Edouard! Criana insuportvel! - exclamou a Sr.a de
Villefort, tirando o livro mutilado das mos do filho. - O
menino  muito mau e faz-nos perder a pacincia! Deixe-nos e
v ter com a sua irm Valentine aos aposentos do av Noirtier.

- O lbum... - pediu Edouard.

- Como, o lbum?

- Sim, quero o lbum...

- Porque recortou as gravuras?

- Porque isso me diverte.

- V-se embora! V!

- No vou se no me der o lbum - replicou o garoto,
sentando-se num cadeiro, fiel ao seu hbito de nunca ceder.

- Tome e deixe-nos tranquilos - disse a Sr.a de Villefort.

E deu o lbum a Edouard, que saiu, acompanhado da me.

O conde seguiu com a vista a Sr.a de Villefort.

- Vejamos se ela fecha a porta... - murmurou Monte-cristo.

A Sr.a de Villefort fechou a porta com o maior cuidado depois
de o garoto sair. O conde no pareceu dar por isso.

Depois, a jovem senhora olhou  sua volta e sentou-se
novamente na sua conversadeira.

- Permita-me que lhe observe, minha senhora - disse o conde
com a bonomia que lhe conhecemos --, que  muito severa com
aquele encantador magano.

- Assim  preciso, senhor - plicou a Sr.a de Villefort, com
autnticos ares de me severa.

- O Sr. Edouard recitava o seu Cornlio Nepos quando se
reteria ao rei Mitridates - observou o conde --, e a senhora
interrompeu-o numa citao que prova que o seu preceptor no
tem perdido o seu tempo com ele e que o seu filho est muito
adiantado para a idade.

- De facto, senhor - respondeu a me, agradavelmente
lisonjeada --, tem uma grande facilidade e aprende tudo o que
quer. S tem um defeito, ser muito voluntarioso. Mas, a
propsito do que ele dizia, acha, Sr. Conde, que por exemplo
Mitridates se daria ao incmodo de tomar tais precaues e que
essas precaues fossem eficazes?

- Tanto acho, minha senhora, que eu, que lhe falo, as tomei
para no ser envenenado em Npoles, Palermo e Esmirna, isto ,
em trs ocasies em que, sem essa precauo, poderia ter
perdido a vida.

- E o meio que empregou deu-lhe resultado?

- Perfeitamente.

- Sim,  verdade, lembro-me de j me ter contado qualquer
coisa desse gnero em Persia.

- Deveras? - perguntou o conde, com uma surpresa
admiravelmente simulada. - No me lembro...

- Perguntava-lhe se os venenos actuavam igualmente e com
idntica energia sobre os homens do Norte e sobre os homens do
Meio-Dia, e o senhor respondia-me que os temperamentos frios
e linfticos dos Setentrionais no representavam a mesma
aptido que a rica e enrgica natureza das pessoas do
Meio-Dia.

-  verdade - reconheceu Monte-cristo. - Vi russos devorar,
sem serem incomodados, substncias vegetais que matariam
infalivelmente um napolitano ou um rabe.

- Acha portanto que o resultado seria ainda mais seguro entre
ns do que no Oriente e de que no meio dos nossos nevoeiros e
das nossas chuvas um homem se habituaria mais facilmente do
que numa latitude mais quente a essa absoro gradual do
veneno?

- Certamente. Mas claro que s ficaria imunizado contra o
veneno a que estivesse habituado.

- Sim, compreendo. E como se habituaria o senhor, por exemplo,
ou antes, como se habituou?

- Muito facilmente. Suponha que sabia antecipadamente que
veneno utilizariam contra a senhora... e suponha que esse
veneno era... a brucina, por exemplo...

A brucina extrai-se da faisa-angustura (1), segundo creio -
disse a Sr.a de Villefort.


(1) Brucea ferruginea. (N. do T.)

- Justamente, minha senhora - respondeu Monte-cristo. - Creio
que no tenho muito que lhe ensinar. Os meus cumprimentos:
conhecimentos desses so raros nas mulheres.

- Oh, confesso que tenho uma grande paixo pelas cincias
ocultas que falam  imaginao como uma poesia e se resolvem
com nmeros, como uma equao algbrica! - declarou a Sr.a de
Villefort. - Mas continue, peo-lhe. O que me diz interessa-me
no mais alto grau.

- Bom - prosseguiu Monte-Cristo --, suponha que o veneno era
a brucina, por exemplo, e que tomava um miligrama no primeiro
dia, dois miligramas no segundo, e assim sucessivamente. Ao
fim de dez dias teria um centigrama, e ao fim de vinte dias,
aumentando outro miligrama, teria trs centigramas, isto ,
uma dose que suportaria sem inconveniente, mas que seria j
perigosssima para outra pessoa que no tivesse tomado as
mesmas precaues que a senhora. Enfim, passado um ms,
bebendo gua da mesma garrafa, mataria a pessoa que bebesse
dessa gua ao mesmo tempo que a senhora, sem que a senhora
notasse, a no ser por um simples mal-estar, a existncia de
qualquer substncia venenosa misturada na gua.

-- No conhece outro contraveneno?

-- No, no conheo.

- Li e reli muitas vezes essa histria de Mitridates -
declarou a Sr.a de Villefort --, mas tomei-a por uma fbula.

- No, minha senhora. Contra o hbito da histria,  uma
realidade. Mas o que me diz e o que me pergunta no  de modo
algum o resultado de um capricho, pois j h dois anos me fez
idnticas perguntas, e segundo me diz h muito tempo que essa
histria de Mitridates a preocupava.

-  verdade, senhor, os dois estudos favoritos da minha
juventude foram a botnica e a mineralogia, e depois, quando
soube mais tarde que o emprego das simples explicava muitas
vezes toda a histria dos povos e toda a vida dos indivduos
do Oriente, tal como as flores explicam todo o seu pensamento
amoroso, lamentei no ser homem para me tornar um Flamel, um
Fontana ou um Cubanis.

- Tanto mais, minha senhora - prosseguiu Monte-cristo
--, que os Orientais no se limitam, como Mitridates, a usar
os venenos como uma couraa, usam-nos tambm como um punhal. A
cincia transforma-se-lhes nas mos no s numa arma
defensiva, mas tambm muitas vezes ofensiva. Uma utilizam-na
contra os seus sofrimentos fsicos, a outra contra os seus
inimigos. Com o pio, com a beladona, com a faisa-angustura,
com o pau-de-cobra, com o loureiro-cereja, adormecem para
sempre quem querem. No h uma s dessas mulheres egpcias,
turcas ou gregas, daquelas a que chamam aqui mulheres de
virtude, que no saiba de qumica o bastante para embasbacar
um mdico e de psicologia o suficiente para aterrorizar um
confessor.

- Sim?! - exclamou a Sr.a de Villefort, a quem esta conversa
dava aos olhos um brilho estranho.

- Claro que sim, minha senhora continuou Monte-cristo. - Os
dramas secretos do Oriente atam-se e desatam-se assim, desde a
planta que faz amar at  planta que faz morrer, desde a
beberagem que abre as portas do Cu at quela que mergulha um
homem no Interno. Existem tantos matizes de todos os gneros
como caprichos e extravagancias na natureza humana, fsica e
moral.

Direi mais, a arte desses qumicos permite-lhes conciliar
admiravelmente o remdio e o mal com as suas necessidades de
amor ou os seus desejos de vingana.

- Mas, senhor, essas sociedades orientais no meio das quais
passou parte da sua existncia so assim to fantsticas como
as histrias que nos vm desses belos pases? - perguntou a
jovem senhora. - Um homem pode ser l suprimido impunemente? 
portanto realidade a Bagdade ou a Baor de que nos tala
Galland? Os sultes e os vizires que dirigem essas sociedades
e constituem o que em Frana chamamos o Governo so realmente
Haruns-al-Raschid e Giafares que no s perdoam a um
envenenador, como ainda o fazem primeiro-ministro, se o crime
foi engenhoso, e neste caso mandam gravar a histria em letras
de ouro para se divertirem nas horas de aborrecimento?

- No, minha senhora, o fantstico j no existe no Oriente.
Mas existem, embora disfarados sob outros nomes e ocultos sob
outros trajes, comissrios de polcia, juzes de instruo,
procuradores rgios e peritos. L tambm se enforcam,
decapitam e empalam com imenso prazer os criminosos. O que
acontece  que estes, hbeis como so, sabem despistar a
justia humana e assegurar o xito dos seus empreendimentos
por meio de combinaes oportunas. Entre ns, um idiota
possesso do demnio do dio ou da cupidez, que tem um inimigo
a destruir ou um av a aniquilar, dirige-se a um droguista,
d-lhe um nome falso que o denuncia muito melhor do que o seu
nome verdadeiro, e compra, a pretexto de que os ratos o
impedem de dormir, cinco a seis gramas de arsnico. Se  muito
espertinho, vai a cinco ou seis droguistas e  apenas cinco ou
seis vezes melhor reconhecido. Depois, de posse do seu
especfico, administra ao seu inimigo, ao seu av, uma dose de
arsnico que faria rebentar um mamute ou um mastodonte e que
inesperadamente fazem a vtima soltar berros que pem todo o
bairro em alvoroo. Surge ento um enxame de agentes da
polcia e de gendarmes, manda-se chamar um mdico, que abre o
morto e lhe recolhe no estmago e nas entranhas o arsnico, s
colheres e no dia seguinte cem jornais relatam o acontecimento
com o nome da vtima e do assassino. Nessa mesma tarde, o
droguista ou os droguistas vem ou vm dizer. "Fui eu que vendi
o arsnico a esse senhor." E mesmo que no se lembrem da cara
do comprador, reconhec-lo-o vinte vezes. Ento, o criminoso
idiota  preso, interrogado, acareado, confundido, condenado e
guilhotinado. Ou, se  uma mulher de algum valor, condenam-na
a priso perptua. Aqui tem como os seus Setentrionais
entendem a qumica, minha senhora. No entanto, devo confessar
que Destrues era mais esperto.

- Que quer, senhor, faz-se o que se pode! - disse, rindo, a
jovem senhora. - Nem toda a gente est no segredo dos Mdicis
ou dos Brgias.

- Agora, quer que lhe diga a causa de todas essas inpcias? -
perguntou o conde, encolhendo os ombros. -  que nos vossos
teatros, pelo menos pelo que tenho podido julgar lendo as
peas que se representam, v-se sempre personagens engolir o
contedo de um frasco ou morder o engaste de um anel e carem
redondamente mortas. Cinco minutos mais tarde o pano desce e
os espectadores dispersam-se. Ignoram-se as consequncias do
crime; nunca se v o comissrio da polcia com a sua faixa,
nem o cabo com os seus quatro homens, e isso autoriza muitos
pobres crebros a pensar que as coisas se passam assim. Mas
saia um bocadinho de Frana, v, quer a Alepo, quer ao Cairo,
quer apenas a  Npoles e a Roma, e ver passar nas ruas
pessoas direitas, frescas e rosadas, acerca das quais o Diabo
coxo, se a aflorasse com a sua capa, lhe poderia dizer:
"Aquele cavalheiro est envenenado h trs semanas e morrer
irremediavelmente dentro de um ms."

- Mas ento tero reencontrado o segredo da famosa
gua-tofana, que me diziam ter-se perdido em Persia? -
perguntou a Sr.a de Villefort.

- Meu Deus, senhora, haver alguma coisa que se perca entre os
homens? As artes deslocam-se e do a volta ao mundo; as coisas
mudam de nome, apenas, e o vulgo confunde-as; mas o resultado
 sempre o mesmo. O veneno incide especialmente sobre este ou
aquele rgo. Um sobre o estmago, outro sobre o crebro,
outro sobre os intestinos. O veneno provoca uma tosse e essa
tosse, uma pneumonia ou qualquer outra doena catalogada no
livro da cincia, o que a no impede de ser perfeitamente
mortal, e que, mesmo que o no fosse, se tornaria, graas aos
remdios que lhe administram os ingnuos mdicos, em geral
pssimos qumicos, e que actuaro a favor da doena ou contra
ela, conforme se queira. E aqui tem um homem morto com arte e
dentro de todas as regras, a respeito do qual a justia no
tem nada a saber, como dizia um horrvel qumico meu amigo, o
excelente abade Adelmonte de Taormine, da Siclia, que
estudara profundamente esses fenmenos nacionais.

-  horrvel, mas  admirvel - disse a jovem senhora, imvel
de ateno.

- Julgava, confesso, todas essas histrias invenes da Idade
Mdia.

- Sim, sem dvida, mas aperfeioadas nos nossos dias. Para que
julga que servem o tempo, os incentivos, as medalhas, as
condecoraes, os prmios Montyon, seno para conduzir a
sociedade  sua maior perfeio? Ora  homem s ser perfeito
quando for capaz de criar e destruir como Deus. J sabe
destruir, tem meio caminho andado.

- De modo - prosseguiu a Sr.a de Villefort, voltando
invariavelmente ao seu tema - que os venenos dos Brgias, dos
Mdicis, dos Rens, dos Ruggieri e mais tarde provavelmente do
baro de Trenk, de que tanto tm abusado o drama moderno e o
romance...

- Eram objectos de arte, minha senhora, e no outra coisa -
respondeu o conde. - Julga que o verdadeiro sbio se dirige
vulgarmente ao prprio indivduo? No. A cincia aprecia os
ricochetes, as grandes audcias, a fantasia, se assim se pode
dizer. Por exemplo, o excelente abade Adelmonte, de que lhe
falava h pouco, procedera nesse campo a experincias
surpreendentes.

- Deveras?

- Deveras. Cito-lhe apenas uma. Ele possua um belssimo
quintal cheio de legumes, flores e frutos. Entre esses legumes
escolhia o mais inofensivo de todos, uma couve, por exemplo.
Durante trs dias regava a couve com uma soluo de arsnico.
Ao terceiro dia, a couve adoecia e amarelecia; era a altura de
a cortar. Para toda a gente, parecia madura e conservava a sua
aparncia inofensiva; s para o abade Adelmonte estava
envenenada. Ento levava a couve para casa, pegava num coelho
- o abade Adelmonte tinha uma coleco de coelhos, gatos, e
porquinhos-da-ndia que nada ficavam a dever  sua coleco de
legumes, flores e frutos --, o abade Adelmonte pegava ento
num coelho, dava-lhe a comer uma folha de couve e o coelho
morria. Que juiz de instruo ousaria insurgir-se contra isto
e que procurador rgio se lembraria alguma vez de  proceder
judicialmente contra o Sr. Magendie ou o Sr. Flourens por
causa dos coelhos, dos porquinhos-da-ndia e dos gatos que tm
matado? Nenhum. Temos portanto um coelho morto sem que a
justia se incomode com isso. Morto o coelho, o abade
Adelmonte manda-o esvaziar pela sua cozinheira e atira as
vsceras para uma estrumeira. Na estrumeira h uma galinha,
que debica as vsceras do coelho, adoece por seu turno e morre
no dia seguinte. No momento em que ela se debate nas
convulses da agonia, passa um abutre (h muitos abutres na
terra de Adelmonte), que desce sobre o cadver, leva-o para um
rochedo e come-o. Trs dias mais tarde, o pobre abutre, que
desde essa refeio andou constantemente indisposto, sente uma
vertigem na altura em que voa muito alto. Rola no vcuo e vem
cair pesadamente no seu viveiro, minha senhora. O lcio, a
enguia e a moreia so insaciveis, como sabe, e mordem o
abutre. Bom, suponha agora que no dia seguinte servem  sua
mesa essa enguia, esse lcio ou essa moreia, envenenados em
quarto lugar, e que o seu conviva e envenenado em quinto e
morre ao fim de oito ou dez dias de dores de barriga, de
nuseas, de tumores no piloro. Far-se- a autpsia e os
mdicos diro: "O paciente morreu de um tumor no fgado ou de
uma febre. tifide."

- Mas todas essas circunstncias que o senhor encadeia umas
nas outras podem ser interrompidas pelo mais pequeno acidente
- observou a Sr.a de Villefort. - O abutre pode no passar a
tempo ou cair a cem passos do viveiro.

- Ora  precisamente a que reside a arte! Para se ser um
grande qumico no Oriente  necessrio dirigir o acaso. E isso
consegue-se.

A Sr.a de Villefort escutava, pensativa.

- Mas - disse ela - o arsnico  indelvel. Seja qual for a
forma como se absorva, cncontrar-se- no corpo do homem desde
o momento que tenha sido tomado em quantidade suficiente para
causar a morte.

- Exacto, exacto! - exclamou Monte-cristo. -  precisamente
o que diz o bom Adelmonte!

"Reflectiu, sorriu e respondeu-me atravs de um provrbio
siciliano, que me parece ser tambm um provrbio francs:
"Meu filho, o mundo no foi feito num dia, mas sim em sete;
volte no domingo."

"No domingo seguinte voltei. Em vez de ter regado a sua couve
com arsnico, regara-a com uma soluo de sal  base de
estricnina, strychnos colubrina, como dizem os sbios. Desta
vez a couve no apresentava o mais pequeno sinal de doena
deste mundo e por isso o coelho no desconfiou de nada. Mas
cinco minutos depois estava morto. A galinha comeu o coelho e
no dia seguinte morreu tambm. Ento fizemos de abutres:
apodermo-nos da galinha e abrimo-la. Desta vez todos os
sintomas particulares tinham desaparecido e s restavam os
sintomas gerais. Nenhuma indicao especial em nenhum rgo;
apenas excitao do sistema nervoso e vestgios de congesto
cerebral, mas mais nada. A galinha no fora envenenada,
morrera de apoplexia.  um caso raro entre as galinhas, bem
sei, mas muito comum entre os homens.

A Sr.a de Villefort parecia cada vez mais pensativa.

-  uma sorte - disse ela - que semelhantes substncias s
possam ser preparadas por qumicos, pois de contrrio metade
do mundo envenenaria a outra metade.

- Por qumicos ou por pessoas que se ocupem da qumica -
respondeu negligentemente Monte-cristo.

- E depois - disse a Sr.a de Villefort, arrancando-se com
esforo aos seus pensamentos --, por mais habilmente preparado
que seja, o crime  sempre o crime, e se escapa  investigao
humana, no escapa ao olhar de Deus. Os Orientais so mais
fortes do que ns nos casos de conscincia e suprimiram
prudentemente o Inferno...

- Bom, minha senhora, isso  um escrpulo que brota
naturalmente de uma alma pura como a sua, mas que no tardar
a ser extirpado pelo raciocnio. O lado mau do pensamento
humano ser sempre resumido por este paradoxo de Jean-Jacques
Rousseau, como sabe: "O mandarim que se mata a cinco mil
lguas de distncia levantando a ponta do dedo." A vida do
homem passa-se a fazer tais coisas e a sua inteligncia
esgota-se a arquitect-las. Encontra muito pouca gente
disposta a espetar brutalmente uma faca no corao do seu
semelhante ou a administrar-lhe, para o fazer desaparecer da
superfcie do globo, a quantidade de arsnico a que nos
referamos h pouco. H nisso realmente uma excentricidade ou
uma tolice. Para se chegar a esse ponto  necessrio que o
sangue aquea a trinta e seis graus, que o pulso bata a
noventa pulsaes e que a alma saia dos seus limites
correntes. Mas se passarmos, como se pratica em filologia, da
palavra ao sinnimo atenuado, procedemos a uma simples
eliminao. Em vez de cometermos um assassnio ignbil, se
afastarmos pura e simplesmente do nosso caminho aquele que nos
incomoda, e isso sem choque, sem violncia, sem recorrer ao
aparelho dos sofrimentos que descambando em suplcio, fazem da
vtima um mrtir e daquele que assim procede um carniceiro na
pior acepo da palavra; se no houver sangue, nem berros, nem
contores, nem sobretudo essa horrvel e comprometedora
instantaneidade da execuo, ento escapamos ao gldio da lei
humana, que nos diz: "No perturbe a sociedade! "  assim que
procedem e triunfam as gentes do Oriente, personagens graves e
fleumticas, que se preocupam pouco com questes de tempo nas
conjecturas de certa importncia.

- Resta a conscincia - disse a Sr.a de Villefort, com voz
estrangulada e um suspiro abafado.

- Sim, felizmente resta a conscincia, sem a qual seramos
infelicssimos - concordou Monte-cristo. - Depois de qualquer
aco um pouco enrgica,  a conscincia que nos salva, porque
nos fornece mil boas desculpas, das quais s ns somos juzes.
E essas razes, por mais excelentes que sejam para nos
conservar o sono, talvez fossem medocres perante um tribunal
para nos conservar a vida. Assim, Ricardo III, por exemplo,
deve ter sido maravilhosamente servido pela conscincia depois
da supresso dos dois filhos de Eduardo IV. Com efeito podia
dizer para consigo: "Estes dois filhos de um rei cruel e
perseguidor, e que tinham herdado os vcios do pai, que s eu
soube reconhecer nas suas inclinaes juvenis; estes dois
filhos impediam-me de fazer a felicidade do povo ingls, de
que teriam infalivelmente feito a infelicidade." Assim foi
servida pela sua conscincia Lady Macbeth, que pretendia, ao
contrrio do que disse Shakespeare, dar um trono, no ao
marido, mas sim ao filho. Ah, o amor materno  uma virtude to
grande, um mbil to poderoso, que leva a desculpar muitas
coisas! Por isso depois da morte de Duncan, Lady Macbeth teria
sido infelicssima sem a sua conscincia.

A Sr.a de Villefort absorvia com avidez estas medonhas mximas
e estes horrveis paradoxos proferidos pelo conde com a
ingnua ironia que lhe era peculiar.

Passado um momento de silncio, observou:

- Sabe, Sr. Conde, que  um terrvel argumentador e que v o
mundo a uma luz um tanto lvida? Foi observando a humanidade
atravs dos alambiques e das retortas que a julgou dessa
maneira? Porque tinha razo,  um grande qumico, e esse
elixir que deu ao meu filho e que to rapidamente o trouxe 
vida...

- Oh, no exagere, minha senhora! - redarguiu Monte-cristo. -
Uma gota desse elixir bastou para trazer  vida uma criana
que morria, mas trs gotas ter-lhe-iam impelido o sangue para
os pulmes de maneira a causar-lhe palpitaes, seis
cortar-lhe-iam a respirao e causar-lhe-iam uma sncope muito
mais grave do que aquela em que se encontrava, e, finalmente,
dez t-lo-iam fulminado. Lembra-se, minha senhora, de o
afastar daqueles frascos, nos quais tinha a imprudncia de
tocar?

- Trata-se portanto de um veneno terrvel?

- Meu Deus, no! Antes de mais nada admitamos isto: que o meu
veneno no existe, pois empregam-se em medicina venenos mais
violentos, que se tornam, devido  forma como so
administrados, remdios salutares.

- De que se trata ento?

- De um engenhoso preparado do meu amigo, esse excelente abade
Adelmonte, de que ele me ensinou a servir.

- Oh, deve ser um ptimo antiespasmdico! - exclamou a Sr.a de
Villefort.

- Soberano, minha senhora, como viu - respondeu o conde. -
Utilizo-o com frequncia, embora com toda a prudncia
possvel, evidentemente - acrescentou rindo.

- Acredito - replicou no mesmo tom a Sr.a de Villefort. - Pelo
que me diz respeito, to nervosa e atreita a perder os
sentidos como sou, bem precisaria de um Dr. Adelmonte para me
inventar meios que me permitissem respirar livremente e
tranquilizar-me acerca do receio que tenho de morrer um belo
dia asfixiada. Entretanto, como o remdio  difcil de
encontrar em Frana, e provavelmente o seu abade no est
disposto a vir a Paris por minha causa, contento-me com os
antiespasmdicos do Sr. Planche e com a hortel-pimenta e as
gotas de Hoffmann, esperando que desempenhem em mim um grande
papel. Olhe, aqui tem as pastilhas que mando fazer
propositadamente. So em dose dupla.

Monte-cristo abriu a caixa de tartaruga que lhe estendia a
jovem senhora e aspirou o aroma das pastilhas como um amador
digno de apreciar aquele preparado.

- So excelentes - disse --, mas tm um contra: esto
submetidas  necessidade da deglutio, funo que muitas
vezes a pessoa desmaiada no pode desempenhar. Prefiro o meu
especfico.

- Evidentemente que tambm eu o preferiria, sobretudo depois
dos efeitos que lhe vi. Mas trata-se decerto de um segredo e
no sou suficientemente indiscreta para lho pedir.

- Mas, minha senhora - redarguiu Monte-cristo, levantando-se
--, sou eu suficientemente galante para lho oferecer.

- Oh, senhor!

- Mas no se esquea de uma coisa: que em pequena dose  um
remdio e em forte dose um veneno. Uma gota restitui a vida,
como viu; cinco ou seis matariam infalivelmente, e de forma
tanto mais terrvel quanto  certo que, deitadas num copo de
vinho, lhe no alterariam o gosto. Mas no digo mais nada,
minha senhora, pois leria quase o ar de a aconselhar.
Acabavam de soar seis e meia e anunciaram uma amiga da Sr.a de
Villefort que vinha jantar com ela.

- Se tivesse a honra de o ver pela terceira ou quarta vez, Sr.
Conde, em vez de o ver pela segunda - disse a Sr.a de
Villefort --; se no receasse abusar, insistiria que ficasse
para jantar e no desistiria  primeira recusa.

- Mil agradecimentos, minha senhora - respondeu Monte-cristo
--, mas eu prprio lenho um compromisso ao qual no posso
faltar. Prometi acompanhar ao teatro uma princesa grega minha
amiga que ainda no viu a Grande pera e que conta comigo
para l a levar.

- V, senhor, mas no esquea a minha receita.

- Como havia de a esquecer, minha senhora? Para isso seria
preciso esquecer tambm a hora de conversa que acabo de passar
junto de si, o que  absolutamente impossvel.

Monte-cristo cumprimentou e saiu.

A Sr.a de Villefort ficou pensativa.

- Aqui est um homem estranho - murmurou - e que tem todo o ar
de se chamar Adelmonte de seu nome de baptismo.

Quanto a Monte-cristo, o resultado excedera a sua
expectativa.

- Aqui est uma boa terra - disse para consigo enquanto saa.
- Estou convencido de que a semente que nessa se lance no
deixar de germinar...

E no dia seguinte, fiel  sua promessa, mandou a receita
pedida.


Captulo LIII

Roberto, o diabo


A desculpa da pera era tanto mais fcil de dar quanto  certo
haver naquela noite sesso solene na Academia Real de Msica.
Levasseur, depois de uma demorada indisposio, regressava no
papel de Bertram, e, como sempre, a obra do maestro da moda
atrara a mais brilhante sociedade de Paris.

Morcerf, como a maioria dos rapazes ricos, tinha a sua cadeira
de orquestra, alm de mais dez camarotes de pessoas de seu
conhecimento s quais podia ir pedir lugar, sem contar com
aquele a que tinha direito no camarote dos lees.

Chteau-Renaud tinha uma cadeira ao p dele.

Beauchamp, na sua qualidade de jornalista, era rei da sala e
tinha lugar em toda a parte.

Naquela noite, Lucien Debray dispunha do camarote do ministro
e oferecera-o ao conde de Morcerf, o qual, perante a recusa de
Mercds, o cedera a Danglars, mandando-lhe dizer que
provavelmente faria durante o espectculo uma visita 
baronesa e  filha, se elas se dignassem aceitar o camarote
que lhe oferecia. Claro  que elas aceitaram. No h como os
milionrios para cobiarem camarotes que lhes no custam nada.

Quanto a Danglars, declarara que os seus princpios polticos
e a sua qualidade de deputado da oposio lhe no permitiam
entrar no camarote do ministro. Por consequncia, a baronesa
escrevera a Lucien para que a viesse buscar, atendendo a que
no podia ir  pera sozinha com Eugnie.

Com efeito, se as duas mulheres fossem ss, toda a gente teria
achado isso de muito mau gosto, ao passo que Mademoiselle
Danglars, indo  pera com a me e o amante da me, no
provocava quaisquer comentrios.  preciso aceitar o mundo
como ele .

O pano subiu, como de costume, perante uma sala quase vazia.
Era mais um hbito da sociedade parisiense: chegar ao teatro
depois de o espectculo comear. Da resultava que o primeiro
acto se passava, da parte dos espectadores chegados, no a ver
ou ouvir a pea, mas sim a ver entrar os espectadores que iam
chegando e ouvir apenas o barulho das portas e das conversas.

- Olha! - exclamou de sbito Albert ao ver abrir-se um
camarote de primeira ordem. - Olha a condessa G...!

- Quem  essa condessa G...? - perguntou Chteau-Renaud.

- Essa agora, baro! A est uma pergunta que lhe no perdoo!
Pergunta quem  essa condessa G...?

- Ah,  verdade!-exclamou Chteau-Renaud -- No  aquela
encantadora veneziana?

- Exactamente.

Neste momento a condessa G... viu Albert e trocou com ele um
cumprimento acompanhado de um sorriso.

- Conhece-a? - perguntou Chteau-Renaud.

- Conheo - respondeu Albert. - Fui-lhe apresentado em Roma
pelo Franz.

- Quer prestar-me em Paris o mesmo favor que Franz lhe prestou
em Roma?

- Com muito prazer.

- Caluda! - protestou o pblico.

Os dois rapazes continuaram a conversar sem parecerem
preocupar-se absolutamente nada com o desejo que a plateia
manifestava de querer ouvir a msica.

- Vi-a nas corridas do Campo de Marte - informou
Chteau-Renaud.

- Hoje?

- Sim.

- Ah, de facto havia corridas. Apostou?

- Apostei. Oh, uma misria! Cinquenta luses.

- E quem ganhou?

- O Nautilus. Apostei nele.

- Mas no havia trs corridas?

- Havia. E tambm havia o prmio do Jockey-Club, uma taa de
ouro. At aconteceu uma coisa deveras estranha.

-- Qual?

- Caluda! - tornou a gritar o pblico.

- Qual? - repetiu Albert.

- Foi um cavalo e um jquei completamente desconhecidos que
ganharam essa corrida.

- Como?...

- Palavra! Ningum prestara ateno a um cavalo inscrito sob o
nome de Vampa, nem a um jquei inscrito sob o nome de
Job, quando se viu avanar a toda a velocidade um admirvel
alazo e um jquei do tamanho de um palmo. Tiveram de lhe
meter vinte libras de chumbo nas algibeiras, o que no o
impediu de chegar ao fim com trs comprimentos de avano sobre
o Ariel e o Barbaro, que corriam com ele.

- E ningum descobriu a quem pertenciam o cavalo e o jquei?

- Ningum.

- Disse que o cavalo estava inscrito sob o nome de...

- Vampa.

- Ento estou mais adiantado do que voc - disse Albert. - Sei
a quem pertence.

- Silncio! - gritou pela terceira vez a plateia.

Desta vez o protesto era to firme que os dois jovens deram
finalmente por isso e verificaram que era a eles que o pblico
se dirigia. Viraram-se um instante, procurando na multido um
homem que tomasse a responsabilidade do que consideravam uma
impertinncia, mas ningum disse nada e eles voltaram-se para
o palco.

Neste momento o camarote do ministro abriu-se e a Sr.a
Danglars, a filha e Lucien Debray ocuparam os seus lugares.

- Ah, ah! - murmurou Chteau-Renaud. - Esto ali umas pessoas
suas conhecidas, visconde. Que diabo est a ver do lado
direito? Procuram-no.

Albert virou-se e os seus olhos encontraram efectivamente os
da baronesa Danglars, que o cumprimentou com o leque. Quanto a
Mademoiselle Eugnie, foi a custo que os seus grandes olhos
negros se dignaram a descer at  orquestra.

- Na verdade, meu caro - disse Chteau-Renaud --, no
compreendo, exceptuando a diferena de condio social, e no
creio que isso o preocupe muito, no compreendo, repito, que,
exceptuando a diferena de condio social, possa ter qualquer
coisa contra Mademoiselle Danglars, que  realmente uma
lindssima rapariga.

- Muito bonita, decerto - concordou Albert. - Mas confesso-lhe
que em vez de beleza preferiria qualquer coisa mais meiga,
mais suave, mais feminina, enfim.

- Ora vejam estes rapazes! - exclamou Chteau-Renaud. que, na
sua qualidade de homem de trinta anos, tomava com Morcerf ares
paternais. - Nunca esto satisfeitos. Ento, meu caro,
arranjam-lhe uma noiva que parece uma Diana caadora e voc
no est contente?!

- Precisamente por isso. Preferiria qualquer coisa no gnero
da Vnus de Milo ou de Cpua. Aquela Diana caadora sempre no
meio das suas ninfas assusta-me um pouco. Receio que me trate
como Acton.

Com efeito, uma olhadela  jovem quase podia explicar o
sentimento que acabava de confessar Morcerf. Mademoiselle
Danglars era bela, mas, como dissera Albert, de uma beleza um
pouco parada. Os seus cabelos eram de um bonito negro, mas nas
suas ondas naturais notava-se certa rebelio  mo que queria
impor-lhes a sua vontade; os seus olhos, negros como os
cabelos, emoldura  dos por magnficas sobrancelhas, que s
tinham um defeito, o de se franzirem de vez em quando, eram
sobretudo notveis por uma expresso de firmeza que admirava
encontrar no olhar de uma mulher; o seu nariz tinha as
propores exactas que um estaturio daria ao de Juno; apenas
a boca era demasiado grande, mas guarnecida de lindos dentes,
que ainda mais faziam sobressair os lbios, cujo carmim
excessivamente vivo contrastava com a palidez do rosto;
finalmente, um sinal preto colocado ao canto da boca, e maior
do que so habitualmente tais caprichos da natureza, acabava
de lhe dar  fisionomia o ar decidido que assustava um
bocadinho Morcerf.

Alis, todo o resto da pessoa de Eugnie se conjugava com a
cabea que acabamos de tentar descrever. Era, como dissera
Chteau-Renaud, uma Diana caadora, mas com qualquer coisa
ainda de mais firme e musculoso na sua beleza.

Quanto  educao que recebera, se havia alguma critica a
fazer-lhe era que, como certos pontos da sua fisionomia,
parecia pertencer um bocadinho ao outro sexo. Com efeito,
falava duas ou trs lnguas, desenhava facilmente, escrevia
versos e compunha msica. Era sobretudo apaixonada por esta
ltima arte, que estudava com uma das suas amigas de colgio,
jovem sem fortuna mas dotada de todas as condies exigveis
para se tornar, segundo se afirmava, uma excelente cantora. Um
grande compositor dedicava-lhe, ao que constava, um interesse
quase paternal e fazia-a trabalhar, confiado em que ela
encontraria um dia uma fortuna na voz.

A possibilidade de Mademoiselle Louise de Armilly, assim se
chamava a jovem artista, entrar um dia para o teatro fazia com
que Mademoiselle Danglars, embora a recebesse em sua casa, se
no mostrasse em pblico na sua companhia. De resto, sem ter
em casa do banqueiro a posio independente de uma amiga,
Louise tinha uma posio superior  das vulgares professoras.

Poucos segundos depois da entrada da Sr.a Danglars no seu
camarote, o pano descera, e graas  faculdade, permitida pelo
tamanho dos intervalos, de as pessoas poderem passear no
foyer ou fazerem visitas durante meia hora, a plateia
desguarnecera-se pouco a pouco.

Morcerf e Chteau-Renaud tinham sido os primeiros a sair. Por
um momento, a Sr.a Danglars pensara que a pressa de Albert
tinha como finalidade vir apresentar-lhe os seus cumprimentos,
e inclinara-se ao ouvido da filha para lhe anunciar a visita.
Mas a jovem limitara-se a abanar a cabea sorrindo. E ao mesmo
tempo, como que para provar at que ponto a denegao de
Eugnie era fundada, Morcerf apareceu num camarote de primeira
ordem. Esse camarote era o da condessa G...

- Ah, ei-lo, Sr. Viajante! - exclamou a condessa,
estendendo-lhe a mo com toda a cordialidade de uma velha
amiga. - Foi muito amvel da sua parte ter-me reconhecido e
sobretudo ter-me dado a preferncia para a sua primeira
visita.

- Creia, minha senhora - respondeu Albert --, que se tivesse
sabido da sua chegada a Paris e conhecesse a sua morada, no
teria esperado at to tarde. Mas permita-me que lhe apresente
o Sr. Baro de Chteau-Renaud, meu amigo, um dos raros
gentis-homens, que ainda restam em Frana e por quem acabo de
saber que a senhora esteve nas corridas do Campo de Marte.

Chteau-Renaud cumprimentou.

- Ah, o senhor esteve nas corridas? - disse vivamente a
condessa.

- Estive, sim, minha senhora.

- Nesse caso - prosseguiu, no menos vivamente, a Sr.a G...
--, poder dizer-me a quem pertencia o cavalo que ganhou o
prmio do Jockey-Club?

- No, minha senhora - respondeu Chteau-Renaud --, e ainda
h pouco fazia a mesma pergunta ao Albert.

- Tem muito interesse nisso, Sr.a Condessa? - perguntou
Albert.

- Em qu?

- Em conhecer o dono do cavalo.

- Infinito. Imagine... Mas ser por acaso o senhor, visconde?

- Minha senhora, ia contar uma histria: "Imagine...",
comeou.

- Pois sim! Imagine que aquele encantador cavalo alazo e
aquele bonito joqueizinho de casaca cor-de-rosa me inspiraram
 primeira vista to viva simpatia que eu "puxava" por um e
por outro, exactamente como se tivesse apostado neles metade
da minha fortuna. Por isso, quando o vi chegar ao fim com um
avano de trs comprimentos sobre os outros concorrentes,
fiquei to contente que desatei a bater palmas como uma louca.
Imagine a minha surpresa quando, ao regressar a casa,
encontrei na escada o joqueizinho cor-de-rosa! Pensei que o
vencedor da corrida morasse por acaso no mesmo prdio que eu,
quando, mal abri a porta da sala, a primeira coisa que vi foi
a taa de ouro que constitua o prmio ganho pelo cavalo e
pelo jquei desconhecidos. Na taa havia iam papelinho com
estas palavras escritas: " condessa G... Lorde Ruthwen."

-  precisamente isso - disse Morcerf.

- Como?  precisamente isso o qu? Que quer dizer?

- Quero dizer que se trata de Lorde Ruthwen em pessoa.

- Qual Lorde Ruthwen?

- O nosso, o vampiro, o do Teatro Argentina.

- Deveras?! - exclamou a condessa. - Ele est c?

- Exactamente.

- E o senhor v-o, recebe-o, vai a casa dele?

-  meu amigo ntimo, e o prprio Sr. de Chteau-Renaud tem a
honra de o conhecer.

- Que o leva a crer que foi ele quem ganhou?

- O seu cavalo inscrito com o nome de Vampa.

- Que tem isso?

- No se lembra do nome do famoso bandido que me fez
prisioneiro?

- Ah,  verdade!

- E das mos do qual o conde me tirou miraculosamente? - Sem
dvida. - Chama-se Vampa. Bem v que  ele.

- Mas porque me mandou a taa, a mim?

- Primeiro, Sr.a Condessa, porque lhe falei muito a seu
respeito, como pode imaginar; depois, porque ter ficado
encantado por encontrar uma compatriota e feliz com o
interesse que essa compatriota tomava por ele.

- Espero que nunca lhe tenha contado as loucuras que dissemos
a seu respeito!

- Palavra que no juraria tal coisa, e essa maneira de lhe
oferecer a taa sob o nome de Lorde Ruthwen...

- Mas isso  horrvel e ele vai-me detestar mortalmente!

- O seu procedimento  o de um inimigo?

- No, confesso...

- Ento...

- Est portanto em Paris?

-  verdade.

- E que sensao fez?

- Bom, falou-se dele durante oito dias - respondeu Albert --
mas depois da sua chegada deu-se a coroao da rainha de
Inglaterra e o roubo dos diamantes de Mademoiselle Mars, e no
se falou mais disso.

- Meu caro - interveio Chteau-Renaud --, bem se v que o
conde  seu amigo e que o trata em conformidade. No acredite
no que lhe diz Albert, Sr.a Condessa, pois, pelo contrrio, s
se fala do conde de Monte-cristo em Paris. Comeou por
oferecer  Sr.a Danglars cavalos de trinta mil francos;
depois, salvou a vida  Sr.a de Villefort, e em seguida ganhou
a corrida do Jockey-Cluh, ao que parece. Ao contrrio do que
diz Morcerf, sustento que no falta quem se ocupe ainda do
conde neste momento, nem faltar quem se ocupe dele daqui a um
ms ou mais, se quiser continuar a fazer excentricidades, o
que, de resto, parece ser a sua maneira de viver habitual.

-  possvel - disse Morcerf. - Entretanto, quem  que est
agora no camarote do embaixador da Rssia?

- Qual ? - perguntou a condessa.

- O intercolnio da primeira ordem. Parece-me que est l
gente inteiramente nova.

- De facto - concordou Chteau-Renaud. - Esteve l algum
durante o primeiro acto?

- Onde?

- No camarote.

- No - respondeu a condessa --, no vi ningum. Portanto -
continuou, voltando  primeira conversa --, acha que foi o seu
conde de Monte-cristo quem ganhou o prmio?

- Tenho a certeza.

- E que me mandou a taa?

- Sem dvida nenhuma.

- Mas eu no o conheo - disse a condessa - e estou com muita
vontade de lha devolver.

- Oh, no faa isso! Mandava-lhe outra, talhada em qualquer
safira ou escavada nalgum rubi. So as suas maneiras de agir.
Que quer que lhe faa,  preciso aceit-lo como .

Neste momento ouviu-se a campainha que anunciava que o segundo
acto ia comear e Albert levantou-se para regressar ao seu
lugar.

- Voltarei a v-lo? - perguntou a condessa.

- Nos intervalos, se me permitir, virei informar-me se lhe
posso ser til nalguma coisa em Paris.

- Meus senhores - disse a condessa --, todos os sbados 
noite, na Rua de Rivoli, n.o 22, estou em casa para os meus
amigos. Ficam prevenidos.

Os dois rapazes cumprimentaram e saram.

Quando entraram na sala viram a plateia de p e com os olhos
lixos num nico ponto. O seu olhar seguiu a direco geral e
deteve-se no antigo camarote do embaixador da Rssia. Acabava
de l entrar um homem vestido de preto, de trinta e cinco a
quarenta anos, com uma mulher em traje oriental. A mulher era
da maior beleza e o traje de tal riqueza que, como dissemos,
todos os olhos se tinham voltado instantaneamente para ela.

-  Monte-cristo e a sua grega - informou Albert.

Com efeito, era o conde e Hayde.

Pouco depois, a jovem era alvo no s da ateno da plateia,
mas tambm de toda a sala. As mulheres debruavam-se dos
camarotes para ver correr, sob as luzes dos lustros, aquela
cascata de diamantes.

O segundo acto decorreu no meio desse rumor abafado que indica
estar muita gente suspensa do mesmo acontecimento. Ningum se
lembrou de pedir silncio. Aquela mulher to nova, to bela,
to deslumbrante, era o mais curioso espectculo que se podia
ver.

Desta vez, um sinal da Sr.a Danglars indicou claramente a
Albert que a baronesa desejava ter a sua visita no intervalo
seguinte.

E Morcerf era demasiado delicado para se fazer esperar quando
lhe indicavam claramente que o esperavam.
Terminado o acto, apressou-se portanto a subir ao camarote de
boca.

Cumprimentou as duas senhoras e estendeu a mo a Debray.
A baronesa acolheu-o com um sorriso encantador e Eugnie com a
sua frieza habitual.

- Meu caro - disse Debray --, dou-lhe a minha palavra de que
est perante um homem exausto e que o chama em seu auxlio
para o substituir. Esta senhora esmaga-me com perguntas sobre
o conde e quer que eu saiba de onde , donde vem e para onde
vai. Ora eu confesso que no sou Cagliostro, e para me tirar
de apuros disse: "Pergunte tudo isso a Morcerf, que conhece o
seu Monte-cristo como as suas mos." Foi ento que ela lhe
fez sinal.

- No  incrvel que um homem que tem meio milho de fundos
secretos  sua disposio no esteja melhor informado? -
perguntou a baronesa.

- Minha senhora - respondeu Lucien --, peo-lhe que acredite
que se tivesse meio milho ao meu dispor o empregaria em tudo
menos em tirar informaes do Sr. de Monte-cristo, que a meus
olhos s tem o mrito de ser duas vezes rico como um nababo.
Mas passei a palavra ao meu amigo Morcerf. Entenda-se com ele,
que isso j me no diz respeito.

- De facto, s um nababo me mandaria uma parelha de cavalos de
trinta mil francos e com quatro diamantes nas orelhas de cinco
mil francos cada um.

- Oh, os diamantes! - exclamou, rindo, Morcerf. - So a sua
mania. Creio que, como Potemkin, os traz sempre nas algibeiras
e que os semeia no seu caminho como o Polegarzinho fazia com
os seus seixos.

- Talvez tenha descoberto alguma mina - sugeriu a Sr.a
Danglars. - Sabem que ele tem um crdito ilimitado sobre a
casa do baro?

- No, no sabia - respondeu Albert --, mas assim deve ser.

- E que anunciou ao Sr. Danglars que contava ficar um ano em
Paris e gastar seis milhes?

-  o x da Prsia que viaja incgnito.

- E aquela mulher, Sr. Lucien, j reparou como  bonita? -
inquiriu Eugnie.

- Na verdade, menina, no conheo ningum to pronto como a
minha amiga a fazer justia s pessoas do seu sexo.

Lucien aproximou o monculo do olho.

- Encantadora - disse.

- E aquela mulher, Sr. de Morcerf, sabe quem ?

- Menina - disse Albert, respondendo a esta interpelao quase
directa -- sei mais ou menos, como tudo o que diz respeito 
personagem misteriosa de que nos ocupamos. Aquela mulher  uma
grega.

- Isso v-se facilmente pelo seu traje; no vale a pena
dizer-me o que toda a sala j sabe to bem como ns.

- Estou desolado - declarou Morcerf - por ser um cicerone to
ignorante, mas devo confessar que a tanto se limitam os meus
conhecimentos. Sei tambm que  msica, porque um dia em que
tomei o pequeno-almoo com o conde ouvi os sons de uma gusla
que no podiam vir certamente seno dela.

- O seu conde recebe? - perguntou a Sr.a Danglars.

- E de uma forma esplndida, juro-lhe.

- Tenho de convencer Danglars a oferecer um jantar, um baile,
ao conde de Monte-cristo; enfim, qualquer coisa que nos
retribua.

- E capaz de ir a casa dele? - perguntou Debray, rindo.

- Porque no? Com o meu marido!

- Mas ele  solteiro, esse misterioso conde.

- Bem v que no - redarguiu tambm rindo a baronesa,
indicando a bela grega.

- Essa mulher  uma escrava, segundo ele prprio nos disse.
Lembra-se, Morcerf; no seu almoo?

- Admita, meu caro Lucien, que tem mais o ar de uma princesa -
observou a baronesa.

- Das Mil e Uma Noites.

- Das Mil e Uma Noites, no digo que no. Mas que faz as
princesas, meu caro? So os diamantes, e esta est coberta
deles.

- At de mais - observou Eugnie. - Seria mais bonita sem
eles, pois ver-se-lhe-iam o colo e as mos, que so
encantadores de forma.

- Oh, a artista! Reparem como se apaixona! - exclamou a Sr.a
Danglars.

- Gosto de tudo o que  belo - redarguiu Eugnie.

- Ento que me diz do conde? - perguntou Debray. - Parece-me
que tambm no est mal...

- O conde? - volveu-lhe Eugnie, como se ainda no tivesse
pensado em observ-lo. - O conde  demasiado plido.

- Precisamente nessa palidez  que reside o segredo que
buscamos - disse Morcerf. - A condessa G... afirma, como
sabem, que  um vampiro.

- Est ento de volta, a condessa G ... perguntou a baronesa.

- Est naquele camarote lateral, quase defronte de ns, minha
me - informou Eugnie. - Aquela mulher, com os seus
admirveis cabelos louros,  ela.

- Oh, sim, claro! - exclamou a Sr.a Danglars. - Sabe o que
devia fazer, Morcerf?


- Ordene, minha senhora.

- Devia ir visitar o seu conde de Monte-cristo e traz-lo c.

- Para qu? - perguntou Eugnie.

- Para lhe falarmos. No tens curiosidade de o ver?

- Nenhuma.

- Estranha criana! - murmurou a baronesa.

- Oh, provavelmente vir por si mesmo! - informou Morcerf. -
Repare, viu-a, minha senhora, e est a cumpriment-la.

A baronesa retribuiu ao conde o cumprimento, acompanhado de um
sorriso encantador.

- Pronto, sacrifico-me - declarou Morcerf. - Deixo-as e vou
ver se haver maneira de lhe falarem.

- V ao seu camarote;  muito simples.

- Mas no fui apresentado...

- A quem?

-  bela grega.

- No diz que  uma escrava ?

- Digo, mas a senhora afirma que  uma princesa... No, espero
que quando me vir sair ele tambm saia.

-  possvel. V!

- C vou.

Morcerf cumprimentou e saiu. Efectivamente, quando passava
diante do camarote do conde, a porta abriu-se, o conde disse
algumas palavras em rabe a Ali, que se encontrava no
corredor, e pegou no brao de Morcerf.

Ali fechou a porta e ficou de p diante dela. No corredor
havia muito movimento  volta do nbio.

- Na verdade, o vosso Paris  uma cidade estranha e os vossos
parisienses, um povo singular - disse Monte-cristo. -
Dir-se-ia que  a primeira vez que vem um nbio. Veja como se
comprimem  volta do pobre Ali, que no sabe o que querem
dele. Quer saber uma coisa? Um parisiense pode ir, por
exemplo, a Tunes, a Constantinopla, a Bagdade, ou ao Cairo,
que ningum far crculo  sua volta.

- Porque vs, Orientais, sois pessoas sensatas e s olhais
para o que vale a pena ser visto. Acredite, porm, que Ali s
goza de tanta popularidade porque lhe pertence e porque neste
momento o senhor  o homem da moda.

- Deveras? E a quem devo esse favor?

- Por Deus, a si mesmo! O senhor oferece parelhas de mil
luses, salva a vida  mulher do procurador rgio, faz correr
sob o nome de major Brack cavalos puros-sangues e jqueis do
tamanho de saguins... finalmente, ganha taas de ouro e
oferece-as a mulheres bonitas.

- Quem diabo lhe contou todas essas loucuras?

- Ora essa! A primeira, a Sr.a Danglars, que est mortinha por
o ver no seu camarote, ou antes, que o vejam l; a segunda, o
jornal de Beauchamp, e a terceira, a minha prpria imaginao.
Porque chama ao seu cavalo Vampa, se quer guardar o
incgnito?

- Tem razo! - admitiu o conde. - Foi uma imprudncia. Mas
diga-me, o conde de Morcerf nunca vem  pera?
Procurei-o com a vista e no o vi em parte alguma.

- Vir esta noite.

- E onde ficar?

- No camarote da baronesa, parece-me.

- Aquela jovem encantadora que est com ela  sua filha?

-- .

-- Dou-lhe os meus parabns, meu amigo...

Morcerf sorriu.

- Voltaremos a falar disso mais tarde e em pormenor -
redarguiu. - Que me diz da msica?

- Qual msica?

- Aquela que veio ouvir.

- Digo que  linda como msica composta por um compositor
humano e cantada por passarinhos de dois ps e sem penas, como
dizia o defunto Digenes.

- Essa  boa! Mas, meu caro conde, parece-me que poderia
ouvir, se lhe apetecesse, os sete coros do Paraso...

-  mais ou menos o que fao. Quando quero ouvir msica
admirvel, visconde, msica como nunca nenhum ouvido mortal
ouviu, durmo.

- Nesse caso, est s mil maravilhas aqui! Durma, meu caro
conde, durma. A pera no foi inventada para outra coisa.

- No, na realidade, a orquestra faz demasiado barulho. Para
que durma o sono a que me refiro preciso de calma, silncio e
certa preparao...

- Ah, sim, o famoso haxixe!

- Justamente, visconde. Quando quiser ouvir msica, v cear
comigo.

- J a ouvi uma vez que fui tomar o pequeno-almoo consigo -
redarguiu Morcerf.

- Em Roma?

- sim.

- Ah, era a gusla de Hayde! Sim, a pobre exilada distrai-se
algumas vezes a tocar canes do seu pas.

Morcerf no insistiu mais. Pela sua parte o conde calou-se.

Neste momento a campainha tocou.

- D-me licena? - pediu o conde, retomando o caminho do seu
camarote.

- Evidentemente!

- D muitas recomendaes  condessa G... da parte do seu
vampiro.

- E  baronesa?

- Diga-lhe que terei a honra, se me permitir, de a ir
cumprimentar no outro intervalo.

Comeou o terceiro acto. Durante ele o conde de Morcerf veio,
como prometera, juntar-se  Sr.a Danglars.

O conde no era de modo algum um desses homens que provocam
alvoroo numa sala. Por isso, ningum notou a sua chegada,
excepto as pessoas em cujo camarote tomou lugar.

No entanto, Monte-cristo viu-o e aflorou-lhe aos lbios um
leve sorriso.

Quanto a Hayde, no via nada enquanto o pano estava
levantado. Como todas as naturezas primitivas, adorava tudo o
que impressiona o ouvido e a vista.

O terceiro acto decorreu como de costume. Mademoiselle Noblet,
Jlia e Leroux executaram os seus saltos de dana habituais, o
prncipe de Granada foi desafiado por Roberto-Mrio e,
finalmente, o majestoso rei, que o leitor conhece, deu a volta
 sala para mostrar o seu manto de veludo, levando a filha
pela mo. Em seguida o pano desceu e a sala despejou-se
imediatamente no foyer e nos corredores.

O conde saiu do seu camarote e um instante depois apareceu no
da baronesa Danglars.

A baronesa no conteve um grito de surpresa. Levemente
matizado de alegria.

- Entre, entre. Sr. Conde! - exclamou. - Sinceramente, tinha
pressa de juntar os meus agradecimentos verbais aos que j lhe
dei por escrito.

- Ento, minha senhora, ainda se lembra dessa misria? -
protestou o conde. - Eu j a tinha esquecido.

- Pois sim, mas o que se no esquece, Sr. Conde,  que no dia
seguinte salvou a minha boa amiga Sr.a de Villefort do perigo
que a faziam correr esses mesmos cavalos.

- Tambm desta vez no mereo os seus agradecimentos, minha
senhora. Foi Ali, o meu nbio, que teve a felicidade de
prestar  Sr.a de Villefort esse eminente servio.

- E foi tambm Ali - interveio o conde de Morcerf - que tirou
o meu filho das mos dos bandidos romanos?

- No, Sr. Conde - respondeu Monte-cristo, apertando a mo
que o general lhe estendia --, no. Quanto a isso, os
agradecimentos pertencem-me. Mas o senhor j mos deu, eu j os
recebi, e na verdade constrange-me encontr-lo ainda to
reconhecido. Conceda-me a honra, suplico-lhe, Sr.a Baronesa,
de me apresentar a sua filha.

- Oh, esto todos apresentados, pelo menos de nome, porque h
dois ou trs dias que s falamos do senhor! Eugnie -
continuou a baronesa, virando-se para a filha --, o Sr. Conde
de Monte-cristo....

O conde inclinou-se; Mademoiselle Danglars fez um ligeiro
aceno de cabea.

- Acompanha-o uma jovem admirvel, Sr. Conde - disse Eugnie.
-  sua filha?

- No, menina - respondeu Monte-cristo, surpreendido com
aquela extraordinria ingenuidade ou aquele espantoso
atrevimento. -  uma pobre grega de quem sou tutor.

- E que se chama?...

- Hayde - respondeu Monte-cristo.

- Uma grega! - murmurou o conde de Morcerf.

- Sim, conde - disse a Sr. a Danglars. - E diga-me c se
alguma vez viu na corte de Ali-Tebelin, que o senhor serviu
to gloriosamente, traje to admirvel como aquele que temos
ali diante dos olhos.

- Serviu em Janina, Sr. Conde? - perguntou Monte-cristo.

- Fui inspector-geral das tropas do pax - respondeu Morcerf
--, e a pouca fortuna que amealhei devo-a, no o oculto, s
liberalidades do ilustre chefe albans.

- Mas veja! - insistiu a Sr.a Danglars.

- Onde? - balbuciou Morcerf.

- Ali! - disse Monte-cristo.

E rodeando o conde com o brao, inclinou-se com ele para fora
do camarote.

Neste momento, Hayde, que procurava o conde com a vista,
viu-lhe o rosto plido junto do de Morcerf, que ele tinha
abraado.

Aquele rosto produziu na jovem o efeito da cabea de Medusa.
Esboou um movimento para diante, como se quisesse devorar
ambos com a vista, e depois, quase imediatamente, lanou-se
para trs e soltou um gritinho, que no entanto foi ouvido
pelas pessoas que se encontravam mais perto dela, e por Ali,
que abriu sem demora a porta.

- Repare, que ter acontecido  sua pupila, Sr. Conde? -
observou Eugnie. - Dir-se-ia que se sentiu mal...

- Assim parece, com efeito - respondeu o conde. - Mas no se
assuste, Hayde  muito nervosa e por consequncia muito
sensvel aos cheiros. Um perfume de que no goste basta para a
fazer perder os sentidos. Mas - acrescentou o conde, tirando
um frasco da algibeira - tenho aqui o remdio.

E depois de cumprimentar a baronesa e a filha com a mesma
inclinao de cabea, trocou um ltimo aperto de mo com o
conde e com Debray e saiu do camarote da Sr.a Danglars.

Quando entrou no seu, Hayde ainda estava muito plida, e mal
o viu, pegou-lhe na mo.

Monte-cristo notou que as mos da jovem estavam hmidas e
geladas.

- Com quem estavas a conversar ali, senhor? - perguntou a
jovem.

- Com o conde de Morcerf, que esteve ao servio do teu ilustre
pai e confessa dever-lhe a sua fortuna - respondeu
Monte-cristo.

- Ah, o miservel! - exclamou Hayde. - Foi ele quem o vendeu
aos Turcos, e essa fortuna foi o preo da sua traio. No
sabias, meu querido senhor?

- J tinha ouvido qualquer coisa a esse respeito, no Epiro -
respondeu Monte-cristo --, mas ainda ignoro os pormenores.
Vem, minha filha, dar-mos-s; devem ser curiosos...

- Oh, sim, vamos, vamos! Parece que morreria se ficasse mais
tempo diante desse homem.

E Hayde levantou-se bruscamente, envolveu-se no seu albornoz
de caxemira branca bordado a prolas e coral e saiu
precipitadamente no momento em que o pano subia.

- Aquele homem no faz nada como os outros! - disse a condessa
G... a Albert, que voltara para junto dela. - Ouve
religiosamente o terceiro acto de Roberto e sai no momento
em que o quarto vai comear.


Captulo LIV

A alta e a baixa


Alguns dias depois deste encontro, Albert de Morcerf foi
visitar o conde de Monte-cristo  sua casa dos Campos
Elsios, que j adquirira certos ares de palcio que o conde,
graas  sua imensa fortuna, dava s suas residncias, mesmo
as mais passageiras.

Vinha renovar-lhe os agradecimentos da Sr.a Danglars, que j
lhe mandara uma carta assinada "baronesa Danglars, nascida
Herminie de Servieux".

Albert era acompanhado por Lucien Debray, o qual juntou s
palavras do amigo alguns cumprimentos, que no eram oficiais,
sem dvida, mas de cuja origem o conde, graas  sua
perspiccia, no podia duvidar.

Pareceu-lhe at que Lucien o vinha ver movido por um duplo
sentido de curiosidade e que metade desse sentimento emanava
da Rua da Chausse-d'Antin. Com efeito, era-lhe lcito supor,
sem receio de se enganar, que a Sr.a Danglars, no podendo
conhecer pelos prprios olhos a intimidade de um homem que
oferecia cavalos de trinta mil francos e ia  pera com uma
escrava grega adornada com um milho em diamantes, encarregara
os olhos pelos quais tinha o hbito de ver de a informar
acerca dessa intimidade.

Mas o conde no pareceu desconfiar da existncia da mais
pequena correlao entre a visita de Lucien e a curiosidade da
baronesa.

- O senhor mantm relaes estreitas com o baro Danglars? -
perguntou a Albert de Morcerf.

- Claro, Sr. Conde. Creio que j lhe falei a esse respeito.

- E o compromisso tambm se mantm?

- Mais do que nunca - interveio Lucien.  assunto arrumado.

E Lucien, julgando sem dvida que esta frase metida na
conversa lhe dava o direito de se alhear dela, colocou o
monculo de tartaruga no olho e, mordendo o casto de ouro do
seu pingalim, ps-se a percorrer a sala, examinando as armas e
os quadros.

- Ah! - exclamou Monte-cristo. - Mas, a julgar pelo que me
disse, no esperava uma deciso to rpida.

- Que quer, as coisas andam sem que demos por isso.
Enquanto no pensamos nelas, pensam elas em ns, e quando nos
precatamos ficamos espantados com o caminho que andaram. O meu
pai e o Sr. Danglars serviram juntos em Espanha, o meu pai no
Exrcito e o Sr. Danglars nos abastecimentos. Foi l que o meu
pai, arruinado pela Revoluo, e o Sr. Danglars, que nunca
tivera patrimnio, lanaram os alicerces, meu pai, da sua
fortuna poltica e militar, que  excelente, e o Sr. Danglars,
da sua fortuna poltica e financeira, que  admirvel.

- Sim, com efeito -  disse Monte-cristo --, creio que durante
a visita que lhe fiz o Sr. Danglars me falou disso. E
--continuou deitando uma olhadela a Lucien, que folheava um
lbum --, e ela,  bonita, Mademoiselle Eugnie? Porque creio
que se chama Eugnie.

- Muito bonita, ou antes, muito bela - respondeu Albert -- mas
de uma beleza que no aprecio. Sou um indigno!

- Fala dela como se j fosse seu marido!

- Oh! - exclamou Albert, olhando  sua volta para ver por sua
vez o que fazia Lucien.

- Sabe que no me parece entusiasmado com esse casamento? -
observou Monte-cristo, baixando a voz.

- Mademoiselle Danglars  demasiado rica para mim e isso
assusta-me - declarou Morcerf.

- Ora, ora, que boa razo! - exclamou Monte-cristo. - O
senhor tambm no  rico?

- O meu pai tem qualquer coisa como umas cinquenta mil libras
de rendimento e desse dinheiro talvez me d dez ou doze mil
quando me casar.

- Na verdade  pouco - admitiu o conde --, sobretudo em Paris.
Mas a fortuna no  tudo neste mundo, tambm vale alguma coisa
um belo nome e uma alta posio social. O seu nome  clebre,
a sua posio, magnfica, e depois o conde de Morcerf  um
soldado e o mundo gosta de ver a integridade de Bayard aliada
 pobreza de Du Guesclin. O desinteresse  o mais belo raio de
sol a que possa reluzir uma nobre espada. Eu, muito pelo
contrrio, acho que essa unio no pode ser mais vantajosa:
Mademoiselle Danglars enriquec-lo- e o senhor enobrec-la-!

Albert abanou a cabea e ficou pensativo.

- H ainda outra coisa - disse.

- Confesso - prosseguiu Monte-cristo - que tenho dificuldade
em compreender essa repugnncia por uma rapariga rica e bela.

- Oh, meu Deus, esta repugnncia, se repugnncia existe, no
vem toda do meu lado! - declarou Morcerf.

- De que lado mais vem ento? Porque o senhor disse-me que o
seu pai desejava esse casamento...

- Do lado da minha me, e a minha me possui uma viso
prudente e segura. Ora esta unio no lhe sorri. Tem no sei
que preveno contra os Danglars.

- Oh, isso compreende-se! - redarguiu o conde em tom um pouco
forado. - A Sr.a Condessa de Morcerf, que  a distino, a
aristocracia e a delicadeza em pessoa, hesita um pouco em
tocar numa mo plebeia, grosseira e brutal.  natural.

- No sei se se trata disso, na realidade - respondeu Albert
mas o que sei  que me parece que este casamento, se se fizer,
a tornar infeliz. J nos devamos ter reunido para tratar das
coisas h seis semanas, mas tenho andado com umas dores de
cabea...

- Reais? - perguntou o conde, sorrindo.

- Oh, muitssimo reais! Se no as dores de cabea, pelo menos
o medo, sem dvida... que j me levou a adiar a reunio por
dois meses. No h pressa, compreende? Ainda no tenho vinte e
um anos e Eugnie s tem dezassete. Mas os dois meses expiram
para a semana e  preciso ir para diante. No pode imaginar,
meu caro conde, como estou embaraado... Ah, como o senhor 
feliz por ser livre!

- Nesse caso, seja livre tambm. Quem lho impede, se me
permite que lho pergunte?

- Oh, seria uma grande decepo para o meu pai se eu no
casasse com Mademoiselle Danglars!

- Ento case - respondeu o conde, com um singular movimento de
ombros.

- Pois sim, mas para a minha me isso ser mais do que
decepo, ser dor - redarguiu Morcerf.

- Ento no case - tornou o conde.

- Verei, tentarei... Dar-me- um conselho, no  verdade? E se
lhe for possvel tirar-me- deste embarao. Oh, para no
desgostar a minha excelente me creio que seria capaz de me
indispor com o conde!

Monte-cristo virou-se; parecia comovido.

- Eh! - disse a Debray, sentado numa poltrona profunda na
extremidade da sala e que segurava na mo direita um lpis e
na esquerda uma agenda. - Que est a fazer, um esboo de
Poussin?

- Eu? - respondeu o outro tranquilamente. - Oh, eu fazer um
esboo?! Era o que faltava! Gosto demasiado de pintura para me
meter nisso... No, fao tudo o que h de mais oposto 
pintura; fao contas.

- Contas?...

- Sim. Calculo... Isto diz-lhe indirectamente respeito,
visconde. Calculo o que a Casa Danglars ganhou com a ltima
alta do Haiti: de duzentos e seis, os fundos subiram para
quatrocentos e nove em trs dias, e o prudente banqueiro
comprara muitos a duzentos e seis. Deve ter ganho trezentas
mil libras.

- Esse no  o seu melhor golpe - disse Morcerf. - No ganhou
este ano um milho com os ttulos de Espanha?

- Oua, meu caro - disse Lucien --, est aqui o Sr. conde de
Monte-Cristo, que lhe dir como os Italianos:

Danaro e santia
Met della Met (1).

E  ainda muito. Por isso, quando me vm com semelhantes
histrias, encolho os ombros.

- Mas falava do Haiti? - perguntou Monte-cristo.

- Oh, o Haiti  outra coisa! O Haiti  o cart da agiotagem
francesa. Pode-se gostar da bouillotte, adorar o whist,
ser doido pelo boston (2), e no entanto renunciar a tudo
isso. Mas volta-se sempre ao cart.  um acepipe. Assim, o
Sr. Danglars vendeu ontem a quatrocentos e nove e embolsou
trezentos mil francos. Se tivesse esperado para hoje, os
fundos desceriam novamente a duzentos e cinco, e em vez de
ganhar trezentos mil francos, perderia vinte ou vinte e cinco
mil.

- E por que motivo os fundos desceram de quatrocentos e nove
para duzentos e cinco? - perguntou Monte-cristo. - Peo-lhe
desculpa, mas sou muito ignorante de todas essas intrigas de
bolsa.

- Porque - respondeu Albert, rindo - as notcias sucedem-se e
no se assemelham...

- Demnio, o Sr. Danglars arrisca trezentos mil francos num
dia!  obra! Mas ento deve ser enormemente rico... - observou
Monte-cristo.

- No  ele que joga! - atalhou vivamente Lucien. -  a Sr.a
Danglars, que  realmente uma mulher intrpida.

- Mas voc, que  razovel e sabe alguma coisa de estabilidade
de notcias, uma vez que est na fonte, deveria impedi-la
dessas loucuras - disse Morcerf, sorrindo.

- Como o conseguiria se o marido o no consegue? - perguntou
Lucien. - Conhece o temperamento da baronesa; ningum tem
influncia sobre ela e s faz absolutamente o que quer.

(1) Dinheiro e santidade/Metade da metade. (N. do T.)

(2) cart, bouillotte, whist e boston so jogos de cartas.
(N. do T.)

- Oh, se estivesse no seu lugar!... - insinuou Albert.

- Que faria?

- Curava-a desse vcio. Seria um favor que prestaria ao seu
futuro genro.

- Mas como?

- Meu Deus, de maneira muito fcil: dava-lhe uma lio!

- Uma lio?...

- Sim. A sua posio de secretrio do ministro d-lhe uma
grande autoridade no tocante s notcias. Se voc no abrir a
boca, os cambistas no estenogrataro a correr as suas
palavras. Faa-a perder uma centena de milhar de trancos,
sucessivamente, e ver que isso a torna prudente.

- No compreendo... - balbuciou Lucien.

- Pois  simples - respondeu o rapaz, com uma ingenuidade que
no tinha nada de simulada. - Anuncie-lhe uma bela manh
qualquer coisa inaudita, uma notcia telegrfica que s voc
possa saber. Que Henrique IV, por exemplo, foi visto ontem em
casa de Gabrielle. Isso far subir os fundos, ela far a sua
jogada de bolsa em conformidade e perder certamente quando
Beauchamp escrever no dia seguinte no seu jornal: " sem
fundamento que as pessoas bem informadas afirmam que o rei
Henrique IV foi visto anteontem em casa de Gabrielle. Essa
notcia  completamente inexacta; o rei Henrique IV no saiu
da Ponte Nova.

Lucien desatou a rir desdenhosamente. Mas Monte-cristo,
embora aparentando indiferena, no perdera uma palavra do
dilogo e o seu olhar perscrutador julgara mesmo ter
descoberto um segredo no embarao do secretrio particular.

E em consequncia desse embarao, que escapara completamente a
Albert, Lucien abreviou a sua visita.
Sentia-se evidentemente pouco  vontade. Ao acompanh-lo 
sada, o conde disse-lhe algumas palavras em voz baixa, s
quais ele respondeu:

- Com muito gosto, Sr. Conde. Aceito.

O conde voltou para junto do jovem Morcerf.

- No acha, pensando melhor - disse-lhe --, que fez mal em
falar como falou da sua sogra diante do Sr. Debray?

- Por favor, conde - pediu Morcerf --, suplico-lhe que no
diga antecipadamente essa palavra.

- Realmente, e sem exagero, a condessa  a tal ponto contrria
a esse casamento?

- A tal ponto que a baronesa raras vezes vai l a casa e que a
minha me no esteve, creio, duas vezes na vida em casa da
Sr.a Danglars.

- Sendo assim - disse o conde --, sinto-me tentado a falar-lhe
de corao nas mos. O Sr. Danglars  meu banqueiro e o Sr. de
Villefort cumulou-me de gentilezas como agradecimento de um
servio que um feliz acaso me permitiu prestar-lhe. Adivinho
debaixo de tudo isso um alude de jantares e festas mundanas.
Ora, para no parecer que tiro faustosamente partido de tudo
isso, e at para ter o mrito de me antecipar, se o meu amigo
concordar, projectei reunir na minha casa de campo de Auteuil
o Sr. e a Sr.a Danglars e o Sr. e a Sr.a de Villefort. Se o
convidasse para esse jantar, assim como o Sr. Conde e a Sr.a
Condessa de Morcerf, no pareceria tratar-se de uma espcie de
encontro matrimonial, ou pelo menos a Sr.a Condessa de Morcerf
no veria as coisas dessa maneira, sobretudo se o Sr. Baro
Danglars me desse a honra de levar a filha?  Ento a sua me
tomar-me-ia horror, o que no quero de maneira nenhuma que
acontea. Pretendo, pelo contrrio, e diga-lho todas as vezes
que tiver oportunidade disso, ter o melhor lugar possvel no
seu esprito.

- Palavra de honra, conde - disse Morcerf --, que lhe estou
muito grato por ter comigo essa franqueza, e aceito a excluso
que me prope. Diz que deseja ocupar o melhor lugar possvel
no esprito da minha me, pois parece-me que j ocupa nele um
lugar privilegiado.

- Acha? - perguntou Monte-cristo com interesse.

- Oh, tenho a certeza! Depois de nos deixar, no outro dia,
conversmos uma hora a seu respeito. Mas voltemos quilo de
que estvamos a falar; se a minha me pudesse saber dessa
ateno da sua parte, e eu arriscar-me-ia a dizer-lha, estou
certo de que lhe ficaria reconhecidssima.  certo que, pela
sua parte, o meu pai ficaria furioso...

O conde desatou a rir.

- Pronto, est prevenido - disse a Morcerf. - Mas creio que
no ser s o seu pai quem ficar furioso; o Sr. e a Sr.a
Danglars vo considerar-me um homem muito incorrecto. Sabem
que tenho consigo certa intimidade, que o senhor  mesmo o meu
mais antigo conhecimento parisiense, e quando o no virem em
minha casa perguntar-me-o porque o no convidei. Pense ao
menos em arranjar um compromisso anterior que tenha alguma
aparncia de probabilidade e escreva-me um bilhete a
informar-me. Como sabe, com os banqueiros s o preto no branco
tem valor.

- Farei melhor do que isso, Sr. Conde - disse Albert. - A
minha me quer ir respirar o ar do mar. Em que dia  o seu
jantar?

- No sbado.

- Hoje  tera-feira; se partirmos amanh  tarde, depois de
amanh estaremos em Trport... Sabe, Sr. Conde, que  um homem
encantador por pr assim as pessoas  vontade?

- Eu? Na realidade, d-me mais valor do que aquele que tenho.
Desejo ser-lhe agradvel e mais nada.

- Em que dia faz os convites?

- Hoje mesmo.

- Muito bem! Corro a casa do Sr. Danglars e anuncio-lhe que
samos de Paris amanh, minha me e eu. Como no o vi no sei
nada do seu jantar.

- No diga disparates! E o Sr. Debray, que acaba de o ver c
em casa?

- Tem razo!

- Pelo contrrio, esteve c e eu convidei-o aqui, sem
cerimnia, mas o senhor respondeu-me muito simplesmente que
no podia aceitar o convite porque partia para Trport.

- Pronto, est combinado! Mas ir visitar a minha me ainda
hoje?

- Ainda hoje  difcil. Alm disso, iria cair no meio dos seus
preparativos de partida.

- Faa ento melhor do que isso. Por ora  apenas um homem
encantador, seja um homem adorvel...

-- Que tenho de fazer para alcanar essa sublimidade?

-- Que tem de fazer?

--  o que pergunto.

- Hoje est livre como o ar; venha jantar comigo. Ser um
jantar ntimo, apenas com o senhor, a minha me e eu. Mal viu
a minha me; assim ter ensejo de a ver de perto.  uma mulher
notabilssima e s lamento uma coisa: que no exista outra
igual com menos vinte anos. Haveria brevemente, juro-lhe, uma
condessa e uma viscondcssa de Morcerf. Quanto ao meu pai, no
o encontrar. Est de servio esta noite e janta com o
referendrio-mor. V, falaremos de viagens. O senhor, que j
viu o mundo inteiro, contar-nos- as suas aventuras, a
histria dessa bela grega que estava na outra noite consigo na
pera, a quem chama sua escrava, mas que trata como uma
princesa. Falaremos em italiano e espanhol. Vamos, aceite; a
minha me agradecer-lhe-.

- Mil agradecimentos - respondeu o conde. - O convite  dos
mais cativantes e lamento vivamente no o poder aceitar. No
estou livre, como pensa; tenho, pelo contrrio, um encontro
importante.

- Cautela! Ensinou-me h pouco como, a propsito de um jantar,
nos podemos descartar de uma coisa desagradvel. Quero uma
prova. Felizmente no sou banqueiro como o Sr. Danglars, mas
previno-o de que sou to incrdulo como ele.

- Vou dar-ma - disse o conde.

E tocou.

- Hum!... murmurou Morcerf. - J por duas vezes recusou jantar
com a minha me... Tem alguma coisa contra ela, conde?

Monte-cristo estremeceu.

- No diga isso - redarguiu. - Alis, a est a minha prova.

Baptistin entrou e ficou junto da porta, de p e  espera.

- No estava prevenido da sua visita, pois no?

- Demnio, o senhor  um homem to extraordinrio que no me
atrevo a responder negativamente.

- Mas pelo menos no podia adivinhar que me convidaria para
jantar...

- Oh, quanto a isso  provvel.

-- Muito hem. Escute, Baptistin: que lhe disse esta manh
quando o chamei ao meu gabinete de trabalho?

- Que mandasse fechar a porta do Sr. Conde assim que dessem
cinco horas.

- E depois?

- Ento, Sr. Conde... - protestou Albert.

- No, no, quero absolutamente desembaraar-me dessa
reputao misteriosa que me arranjou, meu caro visconde. 
muito difcil fazer eternamente de Manfredo. Quero viver numa
casa de vidro. E depois... Continue, Baptistin.

- E depois que s receberia o Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti
e o filho.

- Como ouviu, o Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti, um homem da
mais velha nobreza italiana e de que Dante se deu ao incmodo
de ser o Hozier... Talvez se lembre ou talvez se no lembre,
no canto X de O Inferno... Alm dele, o filho, um jovem
encantador, pouco mais ou menos da sua idade, visconde, que
usa o mesmo ttulo que o senhor e faz a sua entrada na
sociedade parisiense  sombra dos milhes do pai. O major
traz-me esta noite seu filho Andrea, o contino, como dizemos
em Itlia. Confia-mo. Ajud-lo-ei, se lhe encontrar algum
mrito. E o senhor, ajudar-me- a mim?

-  Sem dvida! Esse major Cavalcanti  portanto. . . um velho
amigo seu? - perguntou Albert.

- De modo nenhum.  um digno fidalgo, muito delicado, muito
modesto, muito discreto, como h muitos em Itlia;
descendentes de numerosas geraes de velhas famlias. Vi-o
vrias vezes, quer em Florena, quer em Bolonha, quer em Luca,
e ele preveniu-me da sua chegada. Os conhecimentos de viagem
so exigentes: exigem de ns, em qualquer parte, a amizade que
lhos testemunhmos uma vez por acaso; como se o homem
civilizado, que sabe viver uma hora com qualquer pessoa, no
tivesse sempre o seu pensamento reservado! Esse bom major
Cavalcanti vai rever Paris, que s viu de passagem, durante o
Imprio, quando se foi fazer gelar em Moscovo. Dar-lhe-ei um
bom jantar e ele deixar-me- o filho. Prometer-lhe-ei velar
por ele, mas deix-lo-ei fazer todas as loucuras que lhe
apetecer e ficaremos quites.

- ptimo! - exclamou Albert. - No h dvida que o senhor 
um precioso mentor. Adeus, pois; estaremos de volta no
domingo. A propsito, recebi notcias de Franz.

- Sim? E continua a dar-se bem em Itlia? - perguntou
Monte-cristo.

- Penso que sim. Mas sente a sua falta. Diz que o senhor era o
sol de Roma e que sem a sua presena o tempo est triste. No
sei at se vai ao ponto de dizer que chove.

- Mudou portanto de ideias a meu respeito o seu amigo Franz?

- Pelo contrrio, persiste em consider-lo fantstico no mais
alto grau. Por isso sente a sua falta.

- Encantador rapaz! - exclamou Monte-cristo. - Senti viva
simpatia por ele logo na primeira noite em que o vi  procura
de qualquer coisa para cear e se dignou aceitar comer comigo.
E filho do general de Epinay, no ?

- Exactamente.

- O mesmo que foi miseravelmente assassinado em 1815?

- Pelos bonapartistas.

-  isso! Palavra que gosto muito dele. No h tambm
projectos de casamento para ele?

- H. Deve casar com Mademoiselle de Villefort.

- Deveras?

- Tal como eu devo casar com Mademoiselle Danglars - redarguiu
Albert, rindo.

- O senhor ri

- Pois rio.

- Porque ri?

- Rio porque me parece ver desse lado tanta simpatia pelo
casamento como existe deste lado entre Mademoiselle Danglars e
eu. Mas realmente, mel caro conde,
estamos a falar de mulheres como as mulheres falam de homens;
 imperdovel!

Albert levantou-se.

- Vai-se embora?

- A pergunta  boa! H duas horas que o mao e ainda tem a
delicadeza de me perguntar se me vou embora! Na verdade,
conde, o senhor  o homem mais corts do mundo. E os seus
criados, como esto bem treinados! O Sr. Baptistin,
sobretudo. Nunca vi nenhum como ele. Os meus parecem seguir
todos o exemplo dos do Teatro Francs, que precisamente por s
terem uma palavra a  dizer vm sempre diz-la na ribalta.
Portanto, se se desfizer do Sr. Baptistin, peo-lhe que se
lembre de mim e me d a preferncia.

- Pois sim, visconde.

- No  tudo, espere. D os meus cumprimentos ao seu discreto
lucano, ao Sr. Cavalcante dei Cavalcanti. E se por acaso ele
pretender casar o filho, arranje-lhe uma mulher muito rica e
muito nobre, pelo menos pelo lado da me, e muito baronesa
pelo lado do pai... Ajud-lo-ei nisso, se quiser.

- Oh, oh! - exclamou o conde de Monte-cristo. - Ento as
coisas j chegaram a esse ponto?

- J.

- Bom, no quero prometer nada...

- Ah, conde, que favor me prestaria e como o estimaria cem
vezes ainda mais se, graas a si, ficasse solteiro nem que
fosse s mais dez anos! - exclamou Morcerf.

- Tudo  possvel - respondeu gravemente Monte-cristo.

E despedindo-se de Albert voltou para dentro e tocou trs
vezes a campainha.

Bertuccio apareceu.

- Sr. Bertuccio, tome nota de que recebo no sbado na minha
casa de Auteuil.

Bertuccio estremeceu levemente.

- Muito bem, senhor.

- Necessito de si - continuou o conde - para que tudo seja
preparado convenientemente. Aquela casa  muito bonita ou pelo
menos pode ser muito bonita.

- Seria preciso mudar tudo para se conseguir isso, Sr. Conde,
porque o papel das paredes est velho.

- Mude portanto tudo, com uma nica excepo: o quarto de
damasco vermelho. Esse deixe-o absolutamente tal como est.

Bertuccio inclinou-se.

- No toque tambm no jardim. Mas no ptio, por exemplo, faa
tudo o que quiser. At me ser agradvel que o no possam
reconhecer.

- Farei o possvel para que o Sr. Conde fique satisfeito.
Entretanto, ficaria mais tranquilo se o Sr. Conde me quisesse
dizer as suas intenes para o jantar.

- Na verdade, meu caro Sr. Bertuccio - disse o conde -- desde
que se encontra em Paris acho-o desorientado, medroso... Ento
j me no conhece?

-  Mas, enfim, V. Ex.a poderia dizer-me quem recebe!

- Ainda no sei nada a tal respeito e o senhor tambm no tem
necessidade de o saber. Lculo janta em casa de Lculo e mais
nada.

Bertuccio inclinou-se e saiu.


Captulo LV


O major Cavalcanti

Nem o conde nem Baptistin tinham mentido ao anunciar a Morcerf
a visita do major lucano, que servira a Monte-Cristo de
pretexto para recusar o jantar que Albert lhe oferecia.

Acabavam de dar sete horas e o Sr. Bertuccio, conforme a ordem
que recebera, partira havia duas horas para Auteuil, quando um
fiacre parou  porta do palcio e pareceu fugir muito
envergonhado logo que deixou ao p do porto um homem de cerca
de cinquenta e dois anos, metido numa dessas sobrecasacas
verdes com alamares pretos, cuja espcie  imperecvel, ao que
parece, na Europa. Umas amplas calas de tecido azul, botas
ainda bastante aceitveis, embora de um verniz duvidoso e de
solas um tanto grossas, luvas de pele de gamo, chapu que pela
forma se assemelhava ao de um gendarme e colarinho preto
debruado a branco que, se o seu proprietrio o no usasse de
sua livre e inteira vontade, poderia passar por uma golilha,
tal era o traje pitoresco com que se apresentou a personagem
que tocou ao porto, perguntou se no era no n.o 30 da Avenida
dos Campos Elsios que morava o conde de Monte-Cristo e, em
vista da resposta afirmativa do porteiro, entrou, fechou o
porto atrs de si e dirigiu-se para a escadaria.

A cabea pequena e angulosa do homem, os seus cabelos j
brancos e o seu bigode espesso e grisalho identificaram-no
perante Baptistin, que possua os sinais exactos do visitante
e o esperava ao fundo do vestbulo. Por isso, assim que
pronunciou o seu nome diante do inteligente criado, o conde de
Monte-Cristo foi prevenido da sua chegada.

Introduziram o estrangeiro na sala mais simples. O conde
esperava-o a e foi ao seu encontro com ar risonho.

- Seja bem-vindo, meu caro senhor - disse. - Esperava-o.

- Deveras, V. Ex.a esperava-me? - perguntou o lucano.

- Esperava. Preveniram-me da sua chegada hoje, s sete horas.

- Da minha chegada? Estava prevenido da minha chegada?

- Exactamente.

- Ah, tanto melhor! Receava, confesso, que se tivessem
esquecido dessa pequena precauo.

- Qual?

- De o prevenir.

- Oh, no!

- Mas tem a certeza de se no enganar?

- Tenho.

- Era de facto eu que V. Ex.a esperava hoje, s sete horas?

- Era. De resto, podemos verificar.

- Oh, se me esperava no vale a pena! - respondeu o lucano.

- Claro, claro! - concordou Monte-Cristo.

O lucano pareceu ligeiramente inquieto.

- Vejamos, no  o Sr. Marqus Bartolomeo Cavalcanti? -
perguntou Monte-Cristo.

- Bartolomeo Cavalcanti... - repetiu o lucano, satisfeito. -
Sim,  isso... - Ex-major ao servio da ustria?

- Era mesmo major que eu era? - perguntou timidamente o velho
militar.

- Claro que era mesmo major - respondeu Monte-Cristo.-

E assim que se designa em Frana o posto que o senhor ocupava
em Itlia. - Bom, no peo mais, compreende?... - disse o
lucano.

- Alis, o senhor no est aqui por sua prpria
iniciativa-acrescentou Monte-Cristo.

- Oh, evidentemente!

- Foi-me enviado por algum

- Pois fui.

- Pelo excelente abade Busoni?

- Exacto! - exclamou o major, satisfeito.

- No tem uma carta?

- Ei-la!

- Ainda bem. D-ma.

E Monte-Cristo pegou na carta, que abriu e leu.

O major olhava o conde com os olhos muito abertos de espanto,
com os quais de vez em quando percorria curiosamente cada
canto do aposento, mas que regressavam invariavelmente ao dono
da casa.

-  isto, de facto... Querido abade! "O major Cavalcanti, um
digno patrcio de Luca, descendente dos Cavalcanti de
Florena" - continuou a ler Monte-Cristo - "e possuidor de
uma fortuna que lhe d meio milho de rendimento..."
Monte-Cristo levantou os olhos por cima do papel e
cumprimentou.

- Meio milho - repetiu. - Apre, meu caro Sr. Cavalcanti!

- Ele diz meio milho? - perguntou o lucano.

- Com todas as letras. E assim deve ser, pois o abade Busoni 
o homem que melhor conhece todas as grandes fortunas da
Europa.

- Seja ento meio milho - admitiu o lucano. - Mas palavra de
honra que no esperava que ascendesse a tanto.

- Porque tem um intendente que o rouba. Que quer, caro Sr.
Cavalcanti, so coisas que se no podem evitar!

- O senhor acaba de me esclarecer - disse gravemente o lucano.
- Porei o velhaco na rua.

Monte-Cristo continuou:

- "E a quem s falta uma coisa para ser feliz..."

- Oh, meu Deus, sim, s uma! - reconheceu o lucano,
suspirando.

- "Encontrar um filho adorado..."

- Um filho adorado!

- "Raptado na sua juventude, quer por algum inimigo da sua
nobre famlia, quer por ciganos..."

- Com cinco anos de idade, senhor - acrescentou o lucano, com
um profundo suspiro e erguendo os olhos ao Cu.

- Pobre pai! - disse Monte-Cristo.

O conde continuou:

- "Restitui-lhe a esperana, restitui-lhe a vida, Sr. Conde,
anunciando-lhe que o senhor poder ajud-lo a encontrar esse
filho que h quinze anos procura em vo..."

O lucano olhou para Monte-Cristo com indefinvel expresso de
inquietao. - Pois posso - respondeu Monte-Cristo.

O major endireitou-se.

-- Ah, ah! - exclamou. - A carta era ento verdadeira at ao
fim? - Tinha alguma dvida a tal respeito, caro Sr.
Bartolomeo?

- Nenhuma, nenhuma! Como havia de ter? Um homem grave, um
homem revestido de carcter religioso como o abade Busoni no
se permitiria semelhante brincadeira. Mas no leu tudo,
Excelncia...

- Ah,  verdade, h um post-scriptum! - disse Monte-Cristo.

- Pois, h... um... post-scriptum... - repetiu o lucano.

- "Para no causar ao major Cavalcanti o embarao de
transferir fundos dos cofres do seu banqueiro, mandei-lhe uma
ordem de pagamento de dois mil francos para as suas despesas
de viagem e um crdito sobre o senhor de quarenta e oito mil
francos, que o Sr. Conde me fica a dever."

O major seguiu com os olhos o post-scriptum, com visvel
ansiedade.

- Muito bem! - limitou-se a dizer o conde.

- Ele disse "muito bem!" - murmurou o lucano. - Portanto...
senhor... - prosseguiu.

- Portanto?... - perguntou o conde.

- Portanto, o post-scriptum?...

-- Sim, o post-scriptum?...

--  acolhido pelo senhor to favoravelmente como o resto da
carta?

- Certamente. Temos contas um com o outro, o abade Busoni e
eu. No sei exactamente se lhe estou a dever quarenta e oito
mil libras, mas entre ns no fazemos caso de algumas notas a
mais ou a menos. Mas vejamos, porque atribua assim to grande
importncia ao post-scriptum, meu caro Sr. Cavalcanti?

- Confesso-lhe - respondeu o lucano - que, cheio de confiana
na assinatura do abade Busoni, no me muni doutros fundos. De
forma que se esse recurso me faltasse, me encontraria muito
embaraado em Paris.

- Porventura um homem como o senhor se embaraa nalgum lado? -
observou Monte-Cristo. - Ora deixe-se disso!

- Ora essa, no conhecendo ningum... - redarguiu o lucano.

- Mas conhecem-no ao senhor.

- Sim, conhecem-me. De forma que...

- Acabe, caro Sr. Cavalcanti!

- De forma que... entrega-me essas quarenta e oito mil libras?

- Ao seu primeiro pedido.

O major arregalava os olhos espantado.

- Mas sente-se - disse Monte-Cristo. - Na verdade, no sei
onde tenho a cabea... Deixei-o de p durante um quarto de
hora.

- No se preocupe.

O major puxou uma cadeira e sentou-se.

- Agora, quer tomar alguma coisa? - perguntou o conde. - Um
copo de xerez, de porto ou de alicante?

- De alicante, que  o meu vinho preferido.

- Tenho um excelente. Com um biscoito, no  verdade?

- Com um biscoito, j que insiste.

Monte-Cristo tocou. Baptistin apareceu.

O conde foi ao seu encontro.

- Ento?... - perguntou baixinho.

- O rapaz est c - respondeu o criado de quarto no mesmo tom.

- Bem. Para onde o mandou entrar?

- Para a sala azul, como V. Ex.a ordenou.

- ptimo. Traga vinho de Alicante e biscoitos.

Baptistin saiu.

- Na verdade - disse o lucano --, estou a dar-lhe tanto
incmodo que me sinto constrangido...

- No tem importncia! - redarguiu Monte-Cristo.

Baptistin regressou com os copos, o vinho e os biscoitos.

O conde encheu um copo e deitou no segundo apenas algumas
gotas do lquido cor de rubi que continha a garrafa, toda
coberta de teias de aranha e doutros sinais que indicavam a
velhice do vinho muito mais seguramente do que as rugas no
homem.

O major no se enganou ao tirar o copo; pegou no que estava
cheio e serviu-se de um biscoito.

O conde ordenou a Baptistin que deixasse a bandeja ao alcance
da mo do seu hspede, que comeou por saborear o alicante com
a ponta dos lbios, fez uma careta de satisfao e meteu
delicadamente o biscoito no copo.

- Portanto, senhor - disse Monte-Cristo --, reside em Luca, 
rico,  nobre, goza da considerao geral e possui tudo o que
pode fazer um homem feliz.

- Tudo, Excelncia - admitiu o major, engolindo o seu
biscoito. - Absolutamente tudo.

- E s faltava uma coisa para a sua felicidade?

-  verdade, s uma - respondeu o lucano.

- Encontrar o seu filho?

-  Sim, tambm me faltava isso! - exclamou o major, tirando
segundo biscoito.

O digno lucano levantou os olhos ao Cu e fez um esforo para
suspirar.

- Vejamos agora uma coisa, meu caro Sr. Cavalcanti - disse
Monte-Cristo. - De quem era esse filho to chorado? Porque me
disseram que o senhor era solteiro...

- Era o que se julgava, senhor - respondeu o major --, e eu
prprio...

- Sim - prosseguiu Monte-Cristo --, e o senhor prprio
acreditara nesse boato. Um pecado da juventude que ocultou a
todos os olhos.

O lucano endireitou-se, tomou o seu ar mais calmo e mais digno
e baixou ao mesmo tempo modestamente os olhos, quer para
manter a sua atitude, quer para ajudar a sua imaginao ou
observar por baixo o conde, cujo sorriso estereotipado nos
lbios manifestava sempre a mesma benevolente curiosidade.

-  verdade, senhor, desejava ocultar essa falta a todos os
olhos.

- No por si, claro - observou Monte-Cristo --, porque um
homem est acima dessas coisas.

- Oh, no por mim, certamente! - reconheceu o major, sorrindo
e abanando a cabea.

- Mas pela me do seu filho - disse o conde.

- Sim, pela sua me! - exclamou o lucano, tirando terceiro
biscoito. - Pela sua pobre me!

- Beba, caro Sr. Cavalcanti - disse Monte-Cristo, deitando ao
lucano segundo copo de alicante. - A comoo sufoca-o.

- Pela sua pobre me! - murmurou o lucano, procurando que a
sua fora de vontade actuasse sobre a glndula lacrimal e lhe
permitisse molhar o canto do olho com uma lgrima falsa.

- Que pertencia a uma das primeiras famlias da Itlia,
segundo creio...

- Uma nobre famlia de Fiesole, Sr. Conde; uma nobre famlia
de Fiesole!

- Chamada?

- Deseja saber o seu nome?

- Oh, meu Deus,  intil que mo diga, conheo-o! - declarou
Monte-Cristo.

- O Sr. Conde sabe tudo - observou o lucano, inclinando-se.

- Oliva Corsinari, no  verdade?

- Oliva Corsinari.

- Marquesa?

- Marquesa.

- E o senhor acabou por casar com ela, entretanto, apesar das
oposies da famlia?

- Meu Deus, sim, acabei por fazer isso!

- E - prosseguiu Monte-Cristo - em boa ordem? Traz os seus
documentos.

- Quais documentos? - perguntou o lucano.

- Mas a sua certido de casamento com Oliva Corsinari e a
certido de nascimento da criana.

- A certido de nascimento da criana?

- Sim, a certido de nascimento de Andrea Cavalcanti, do seu
filho. No se chama Andrea?

- Creio que sim - respondeu o lucano.

- Como? Cr?!

- Diabo, no me atrevo a afirmar; h tanto tempo que o perdi!

- Tem razo - disse Monte-Cristo. - Enfim, tem todos esses
documentos?

- Sr. Conde,  com pesar que lhe anuncio que, no tendo sido
avisado para me munir desses documentos, esqueci-me de os
trazer comigo.

- Demnio! - exclamou Monte-Cristo.

- So absolutamente necessrios?

- Indispensveis!

O lucano coou a testa.

- Ah, per Baccho! - exclamou. - Indispensveis!

- Sem dvida. Pode-se levantar aqui alguma dvida acerca da
validade do seu casamento e da legitimidade do seu filho!

- Tem razo, podem-se levantar dvidas - concordou o lucano.

- O que seria desagradvel para o rapaz.

- Oh, seria fatal!

- Poderia faz-lo perder qualquer magnfico casamento

- O peccato!

- Em Frana so rigorosos, compreende? No basta, como na
Itlia, ir procurar um padre e dizer-lhe: "Amamo-nos,
case-nos." Em Frana h casamento civil, e para as pessoas
casarem civilmente so precisos documentos que provem
a sua identidade.

- Infelizmente, no tenho esses documentos.

- Mas felizmente tenho-os eu - declarou Monte-Cristo.

- O senhor?

- Sim.

- O senhor tem-nos?

- Tenho.

- Oh, que sorte! - exclamou o lucano, que, vendo o fim da sua
viagem ir por gua abaixo por falta de tais documentos, temia
que semelhante esquecimento levantasse qualquer dificuldade a
respeito das quarenta e oito mil libras. - Oh, que sorte! Sim,
que sorte - repetiu --, por que no pensei nisso?

- Demnio, parece-me que o senhor no pensa em nada! Mas
felizmente o abade Busoni pensou nisso por si.

- Querido abade!

- Sim,  um homem cauteloso.

-  um homem admirvel - declarou o lucano. - E ele
mandou-lhos?

- Aqui esto.

O lucano juntou as mos em sinal de admirao.

- O senhor casou com Oliva Corsinari na Igreja de S. Paulo de
Monte-Cattini. Aqui est a certido do padre.

- Sim,  verdade, a est! - confirmou o major, olhando o
documento com espanto.

- E aqui est tambm a certido de baptismo de Andrea
Cavalcanti, passada pelo proco de Saravezza.

- Tudo em regra - disse o major.

- Vamos, tome conta destes documentos, que para mim no tem
interesse, e d-os ao seu filho para que os guarde
cuidadosamente.

- Pois sim. Se ele os perdesse...

- Como, se ele os perdesse?! - saltou Monte-Cristo.

- Bom, teramos de escrever para Itlia e levaria muito tempo
a arranjar outros - concluiu o lucano.

- De facto, seria difcil - concordou Monte-Cristo.

- Quase impossvel - acrescentou o lucano.

- Folgo muito por o senhor compreender o valor destes
documentos.

- Enfim, devo consider-los inestimveis.

- Agora - disse Monte-Cristo --, quanto  me do rapaz?...

- Quanto  me do rapaz... - repetiu o major, inquieto.

- Sim, quanto  marquesa Corsinari?

- Meu Deus! - exclamou o lucano, que tinha a sensao de as
dificuldades lhe nascerem debaixo dos ps. - Haver
necessidade dela?

- No, senhor - respondeu Monte-Cristo. - Alis, ela no?...

- Claro, claro! - apressou-se a dizer o major. - Ela...

- Pagou o seu tributo  natureza, no  verdade?

- Infelizmente, pagou! - confirmou o lucano.

- Tambm soube isso - declarou Monte-Cristo. -
Morreu h dez anos.

- E ainda choro a sua morte, senhor - disse o major, tirando
da algibeira um leno de quadrados e limpando alternadamente
primeiro o olho esquerdo e depois o olho direito.

- Que quer, somos todos mortais... - confortou-o
Monte-Cristo. - Agora espero que compreenda, caro Sr.
Cavalcanti, espero que compreenda que  intil saber-se em
Frana que esteve quinze anos separado do seu filho. Todas
essas histrias de ciganos que raptam crianas no so
correntes aqui. O senhor p-lo a educar num colgio de
provncia e deseja que acabe a sua educao na  sociedade
parisiense. Por isso o senhor deixou Via-Reggio, onde morava
desde a morte da sua mulher. Isto bastar.

- Acha?

- Certamente.

- Muito bem, ento.

- Mas se se soubesse alguma coisa acerca dessa separao...

- Ah, sim! Que diria?

- Que um perceptor infiel, vendido aos inimigos da sua
famlia...

- Aos Corsinari?

- Certamente... raptara a criana para que o seu nome se
extinguisse.

- Est certo, porque ele  filho nico.

- Bom, agora que est tudo assente, que as suas recordaes,
mais frescas, o no atraioaro, j adivinhou sem dvida que
lhe reservo uma surpresa?

- Agradvel? - perguntou o lucano.

- Verifico - disse Monte-Cristo - que se no enganam
facilmente os olhos e o corao de um pai.

- Hum!... - resmungou o major.

- Fizeram-lhe qualquer revelao indiscreta ou adivinhou que
ele estava c?

- Que estava c, quem?

- o seu filho, o seu Andrea.

- Adivinhei - respondeu o lucano, com a maior fleuma do mundo.
- Est ento c?

- Aqui mesmo - respondeu Monte-Cristo. - Quando entrou, h
pouco, o criado de quarto preveniu-me da sua chegada.

- Ah, muito bem! Ah, muito bem! - disse o major, apertando a
cada exclamao os alamares da sua polonesa.

- Meu caro senhor - prosseguiu Monte-Cristo --, compreendo a
sua emoo e acho que precisa de tempo para se recompor. Quero
tambm preparar o rapaz para esse encontro to desejado,
porque presumo que ele no est menos impaciente do que o
senhor.

- Tambm me parece - admitiu Cavalcanti.

- Pois bem, daqui a um quarto de hora estaremos consigo.

- Vai trazer-mo? Leva a sua bondade ao ponto de mo apresentar
pessoalmente?

- No, no quero colocar-me de modo algum entre um pai e um
filho, estaro ss, Sr. Major. Mas fique tranquilo: mesmo no
caso de a voz do sangue ficar muda, no ter nada que se
enganar, pois ele entrar por esta porta.  um simptico rapaz
louro, talvez um bocadinho louro de mais, de modos corteses...
enfim, o senhor ver.

- A propsito - disse o major --, como sabe, s trouxe comigo
os dois mil francos que o bom abade Busoni me mandou entregar.
Depois disso fiz a viagem e...

- E tem necessidade de dinheiro...  justssimo, meu caro Sr.
Cavalcanti. Tome, para arredondar a conta, mais oito mil
francos.

Os olhos do major brilharam como carbnculos.

- Agora fico a dever-lhe quarenta mil francos - declarou
Monte-Cristo.

- V. Ex.a quer um recibo? - perguntou o major, guardando as
notas na algibeira interior da sua polonesa.

- Para qu? - volveu-lhe o conde.

- Para abater nas suas contas com o abade Busoni.

- Bom, o senhor dar-me- um recibo geral quando receber os
restantes quarenta mil francos. Entre pessoas honestas
semelhantes precaues so inteis.

- Sim,  verdade - concordou o major. - Entre pessoas
honestas...

- S mais uma palavra, marqus.

- Faz favor.

- Permite-me que lhe faa uma pequena recomendao, no 
verdade?

- Como no? Peo-a!

- No faria mal se deixasse essa polonesa...

- Deveras? - redarguiu o major, olhando a vestimenta com certa
complacncia.

- Sim. Isso usa-se ainda em Via-Reggio, mas em Paris h j
muito tempo que esse traje, por muito elegante que seja,
passou de moda.

- Que pena! - lamentou-se o lucano.

- Oh, se gosta assim tanto dela poder tornar a vesti-la
quando se for embora!

- Mas entretanto que usarei?

- O que encontrar nas suas malas...

- Como nas minhas malas? S trouxe uma maleta...

- Consigo, sem dvida. Para que havia de vir carregado? De
resto, um velho soldado gosta de marchar com equipamento
ligeiro.

- Foi precisamente por isso...

- Mas como  um homem precavido, mandou as malas adiante e
elas chegaram ontem ao Hotel dos Prncipes, na Rua de
Richelieu. Foi l que mandou reservar os seus aposentos.

- Ento essas malas?...

- Presumo que tomou a precauo de ordenar ao seu criado de
quarto que metesse tudo o que precisava: trajes civis,
uniformes militares... Nas grandes circunstncias usar
uniforme;  mais conveniente. E no esquea as suas
condecoraes. Em Frana zomba-se disso, mas toda a gente
continua a us-las.

- Muito bem, muito bem, muito bem! - exclamou o major, que ia
de deslumbramento em deslumbramento.

- E agora - disse Monte-Cristo - que o seu corao est
preparado para as emoes demasiado vivas, chegou a altura,
caro Sr. Cavalcanti, de tornar a ver o seu filho Andrea.

E saudando delicadamente o lucano, deslumbrado, extasiado,
Monte-Cristo desapareceu atrs da tapearia.


Captulo LVI

Andrea Cavalcanti


O conde de Monte-Cristo entrou na sala contgua, que
Baptistin designara por sala azul, e onde o acabava de
preceder um rapaz de ar decidido, vestido com certa elegncia,
e que um cabriol de praa deixara meia hora antes  porta do
 palcio. Baptistin no tivera dificuldade em o reconhecer:
era sem dvida o rapaz alto, de cabelos louros, barba rua,
olhos pretos e pele resplandecente de brancura que lhe tora
indicado pelo amo.

Quando o conde entrou na sala, o jovem estava negligentemente
recostado num sof e fustigava distraidamente a bota com uma
chibatinha de casto de ouro.

Ao ver Monte-Cristo levantou-se vivamente.

- O senhor  o conde de Monte-Cristo? - perguntou.

- Sou, sim, senhor - respondeu este --, e creio ter a honra de
falar ao Sr. Visconde Andrea Cavalcanti...

- Visconde Andrea Cavalcanti - repetiu o rapaz, acompanhando
estas palavras de um cumprimento cheio de desenvoltura.

- Deve ter uma carta que o acredite junto de mim... - disse
Monte-Cristo.

- No lhe falei logo dela por causa da assinatura, que me
pareceu estranha.

- Simbad, o Marinheiro, no  verdade?

- Exactamente. Ora como nunca conheci outro Simbad, o
Marinhedo, seno o das Mil e Uma Noite...

- Bom, trata-se de um dos seus descendentes, um dos seus
amigos, muito rico, um ingls mais do que original, quase
louco, cujo verdadeiro nome  Lorde Wilmore.

- Isso assim j me explica tudo - declarou Andrea. - Agora
corre tudo s mil maravilhas.  o mesmo ingls que conheci
em... Sim, perfeitamente! ... Sr. Conde, estou s suas ordens.

- Se o que acaba de me dizer  verdade - replicou o conde
sorrindo --, espero que no se importe de me dar alguns
pormenores a respeito da sua pessoa e da sua famlia.

- Com muito prazer, Sr. Conde - respondeu o jovem, com uma
volubilidade que provava a solidez da sua memria. - Sou, como
disse, o visconde Andrea de Cavalcanti, filho do major
Bartolomeo Cavalcanti, descendente dos Cavalcantis inscritos
no Livro de Ouro de Florena. A nossa famlia, apesar de ser
ainda muito rica, pois o meu pai tem meio milho de
rendimento, passou por muitas dificuldades, e eu prprio,
senhor, fui aos cinco ou seis anos raptado por um perceptor
infiel, de forma que h quinze anos que no vejo o autor dos
meus dias. Desde que cheguei  idade da rato e que sou livre
e senhor de mim que o procuro inutilmente. Por fim, a carta do
seu amigo Simbad anunciou-me que ele estava em Paris e
autorizou-me a dirigir-me ao senhor para obter mais
informaes.

- Na verdade, senhor, tudo o que me acaba de contar 
interessantssimo - declarou o conde, observando com sombria
satisfao aquele rosto decidido, dotado de uma beleza
semelhante  do anjo mau - e fez muitssimo bem em respeitar
integralmente as indicaes do meu amigo Simbad, porque o seu
pai est de facto aqui e procura-o.

Desde que entrara na sala o conde no perdera de vista o
rapaz. Admirara a segurana do seu olhar e a firmeza da sua
voz. Mas ao escutar esta palavras to naturais:

"-- O seu pai est de facto aqui e procura-o", o jovem Andrea
deu um salto -exclamou:

- O meu pai! O meu pai est aqui?...

- Sem dvida - respondeu Monte-Cristo. - O seu pai, major
Bartolomeo Cavalcanti.

A expresso de terror que surgira no rosto do rapaz
desapareceu quase imediatamente.

- Ah, sim,  verdade, o major Bartolomeo Cavalcanti!... E diz,
Sr. Conde, que ele est aqui, o querido pai?

- Sim, senhor. E acrescento at que o deixei agora mesmo e que
a histria que me contou a respeito do filho querido raptado
outrora me impressionou muito. Na verdade, os seus
sofrimentos, os seus temores e as suas esperanas dariam um
poema comovedor. Enfim, recebeu um dia notcias que lhe
anunciavam que os raptores do filho estavam dispostos a
entreg-lo ou a indicar onde se encontrava mediante um resgate
bastante grande e nada conteve esse bom pai. O resgate foi
enviado para a fronteira do Piemonte, com um passaporte todo
visado para a Itlia. O senhor encontrava-se no Sul da Frana,
no  verdade?

- , sim, senhor - respondeu Andrea, com ar bastante
embaraado. - Sim, estava no Sul da Frana.

- E uma carruagem devia esper-lo em Nice?

- Exactamente, senhor. Essa carruagem levou-me de Nice a
Gnova, de Gnova a Turim, de Turhn a Chambry, de Chambry a
Pont-de-Beauvoisin e de Pont-de-Beauvoisin a Paris.

- ptimo! Ele esperava encontr-lo a todo o momento no
caminho, por ser essa a estrada que ele prprio seguia. Foi
at por isso que o seu itinerrio foi traado assim.

- Mas - observou Andrea -- se me tivesse encontrado, o querido
pai, duvido que me reconhecesse; mudei um bocado desde que ele
me perdeu de vista.

- Oh, a voz do sangue!... - exclamou Monte-Cristo.

- Sim,  verdade, no pensei na voz do sangue.

- Agora - prosseguiu Monte-Cristo - s uma coisa preocupa o
marqus Cavalcanti: o que o senhor fez enquanto estava
separado dele, como foi tratado pelos seus raptores, se lhe
dispensaram todas as atenes que lhe eram devidas pelo seu
nascimento e finalmente se o sofrimento moral a que esteve
exposto, sofrimento cem vezes pior do que o sofrimento fsico,
lhe no enfraqueceu de algum modo as faculdades de que a
natureza to generosamente o dotou e se se considera capaz de
reassumir e manter dignamente por si mesmo na sociedade o
lugar que lhe compete.

- Senhor - balbuciou o rapaz, desorientado --, espero que
nenhum falso relatrio...

- Que diz? Ouvi falar do senhor pela primeira vez ao meu amigo
Wilmore, o filantropo. Soube que o encontrara numa posio
desagradvel, mas ignoro qual e no lhe fiz nenhuma pergunta.
No sou curioso. As suas desgraas interessaram-no e engraou
consigo. Disse-me que lhe queria restituir a posio social
que perdera, que procuraria o seu pai e que havia de o
encontrar. E de facto procurou-o e encontrou-o, ao que parece,
uma vez que ele est aqui. Finalmente, preveniu-me ontem da
sua chegada e deu-me ainda outras instrues relativas  sua
fortuna. E mais nada. Sei que o meu amigo Wilmore  um
original, mas como  ao mesmo tempo um homem que sabe o que
faz, rico como uma mina de ouro, e que por consequncia se
pode entregar s suas originalidades sem que  elas o
arruinem, prometi seguir as suas instrues. Agora, senhor,
no se ofenda com a minha pergunta: como serei obrigado a
auxili-lo um pouco, gostaria de saber se as desgraas por que
passou, desgraas independentes da sua vontade e que no
diminuem de modo algum a considerao que me merece, o no
tomaram um tanto estranho a essa sociedade em que a sua
fortuna e o seu nome o chamam a fazer to boa figura...

- Senhor - respondeu o rapaz, recuperando o sangue-frio 
medida que o conde falava --, tranquilize-se quanto a isso. Os
raptores que me afastaram do meu pai e que sem dvida tinham
como objectivo vender-me mais tarde a ele, como fizeram,
calcularam que para tirar bom partido de mim era necessrio
deixar-me todo o meu valor pessoal, e at aument-lo, se fosse
possvel. Recebi portanto uma educao bastante boa e fui
tratado pelos ladres de crianas mais ou menos como o eram na
sia Menor os escravos, de que os seus senhores faziam
gramticos, mdicos e filsofos para os venderem mais caros no
mercado de Roma.

Monte-Cristo sorriu com satisfao; ao que parece, no
esperava tanto do Sr. Andrea Cavalcanti.

- Alis - prosseguiu o jovem --, se houvesse em mim qualquer
falha de educao, ou antes, de hbito da sociedade, teriam,
suponho, a indulgncia de me desculpar em considerao para
com as infelicidades que acompanharam o meu nascimento e
perseguiram a minha juventude.

- Bom - disse Monte-Cristo negligentemente --, far como
quiser, visconde, pois  senhor de si e isso diz-lhe respeito;
mas se estivesse no seu lugar, dou-lhe a minha palavra de
honra que, pelo contrrio, no diria uma palavra acerca de
todas essas aventuras. A sua histria  um romance, e a
sociedade, que adora os romances metidos entre duas capas de
papel amarelo, desconfia estranhamente daqueles que v
encadernados em pergaminho vivo, mesmo dourado, como o senhor
o pode ser.

"O problema para que me permito chamar-lhe a ateno, Sr.
Visconde,  este: assim que contar a algum a sua comovente
histria, ela correr pela sociedade completamente deturpada.
Ver-se- obrigado a armar em Antony, e o tempo dos Antonies
est um pouco ultrapassado. Talvez obtenha um xito de
curiosidade, mas ningum gosta de ser centro de observaes e
alvo de comentrios. Cansar-se-ia, por certo.

- Creio que tem razo, Sr. Conde - concordou o jovem,
empalidecendo, malgrado seu, sob o olhar inflexvel de
Monte-Cristo. - Seria um grave inconveniente.

- Oh, tambm no se deve exagerar! - redarguiu Monte-Cristo.
- Porque assim, para evitar um inconveniente, cairamos numa
loucura. No, trata-se de traar um simples plano de conduta;
e no caso de um homem inteligente como o senhor, esse plano 
to mais fcil quanto  certo estar de acordo com os seus
interesses.

"Dever-se- combater por meio de testemunhas e de amizades
respeitveis tudo o que o seu passado tenha de obscuro.

Andrea perdeu visivelmente o -vontade.

- Oferecer-me-ia de boa vontade como seu fiador e garante -
disse Monte-Cristo --, mas  em mim um hbito moral
desconfiar dos meus melhores amigos e uma necessidade procurar
levar os outros a tambm duvidar. Por isso, desempenharia no
caso um papel que me no iria a caracter, como dizem os
trgicos, e arriscar-me-ia a ser assobiado, o que seria
intil.

- No entanto, Sr. Conde - atalhou Andrea, com audcia em
considerao para com Lorde Wilmore, que me recomendou ao
senhor...

- Sim, claro-prosseguiu Monte-Cristo. - Mas Lorde Wilmore no
me deixou ignorar, caro Sr. Andrea, que o senhor teve uma
juventude um tanto tempestuosa. Oh, no lhe peo nenhuma
confisso! - exclamou o conde, ao ver o gesto que fazia
Andrea. - Alis, foi para que no necessitasse de ningum que
mandmos vir de Luca o Sr. Marqus Cavalcanti, seu pai. Vai
v-lo...  um bocadinho emproado, um bocadinho bombstico, mas
trata-se de uma questo de uniforme, e quando se souber que
esteve dezoito anos ao servio da ustria tudo se lhe
desculpar. Em geral, no somos exigentes com os Austracos.
Em suma, trata-se de um pai muito aceitvel, garanto-lhe.

- Tranquiliza-me, senhor. Separmo-nos h tanto tempo que no
conservo nenhuma recordao dele.

- E depois, como sabe, uma grande fortuna desculpa muitas
coisas?

- O meu pai  portanto realmente rico, senhor?

- Milionrio... Quinhentas mil libras de rendimento.

- Quer dizer que me vou encontrar numa posio... agradvel? -
perguntou o rapaz, com ansiedade.

- Das mais agradveis, meu caro senhor. Ele concede-lhe
cinquenta mil libras de rendimento por ano durante todo o
tempo que o senhor estiver em Paris.

- Nesse caso, no ficarei c para sempre?

- Bom... quem pode adivinhar o futuro? O homem pe e Deus
dispe...

Andrea suspirou.

- Mas enfim, durante todo o tempo que estiver em Paris, desde
que nenhuma circunstncia me obrigue a afastar de c, esse
dinheiro de que me falava h pouco ser-me- assegurado.

- Perfeitamente!

- Por meu pai? - perguntou Andrea, com inquietao.

- Sim, mas garantido por Lorde Wilmore, que lhe abriu, a
pedido do seu pai, um crdito de cinco mil francos por ms no
banco do Sr. Danglars, um dos mais seguros banqueiros de
Paris.

- E o meu pai tenciona ficar muito tempo em Paris?-perguntou
Andrea, preocupado.

- Apenas uns dias - respondeu Monte-Cristo. - O seu servio
no lhe permite ausentar-se mais de duas ou trs semanas.

- Oh, querido pai! - exclamou Andrea, visivelmente encantado
com to pronta partida.

- Por isso - disse Monte-Cristo, simulando enganar-se com o
tom daquelas palavras --, por isso, no quero demorar um
instante o momento de se reunirem. Est preparado para abraar
o digno Sr. Cavalcanti?

- Decerto no o pe em dvida, espero...

- Pois bem, entre ento nessa sala, meu caro amigo, e
encontrar o seu pai, que o espera.

Andrea fez um rasgado cumprimento ao conde e entrou na sala.

O conde seguiu-o com a vista e, assim que o viu desaparecer,
carregou numa mola correspondente a um quadro, o qual,
afastando-se da moldura, deixava ver a sala atravs de um
interstcio habilmente dissimulado.

Andrea fechou a porta atrs de si e avanou para o major, que
se levantou assim que ouviu o rudo dos passos que se
aproximavam.

- Ah, senhor e querido pai! - disse Andrea em voz alta e de
maneira que o conde o ouvisse atravs da porta fechada.
-  de facto o senhor?

- Boas noites, meu querido filho - respondeu gravemente o
major.

- Que felicidade tornar a v-lo depois de tantos anos de
separao! - disse Andrea, continuando a olhar para a porta.

- Com efeito, a separao foi longa...

- No nos abraamos, senhor? - prosseguiu Andrea.

- Como queiras, meu filho - respondeu o major.

E os dois homens abraaram-se como os actores se abraam no
Teatro Francs, isto , passando a cabea por cima do ombro.

- Eis-nos pois reunidos! - exclamou Andrea.

- Sim, eis-nos reunidos - repetiu o major.

- Para nunca mais nos separarmos?

- Evidentemente. Creio, meu querido filho, que consideras
agora a Frana uma segunda ptria...

- De facto, ficaria desesperado se tivesse de deixar Paris -
redarguiu o rapaz.

- E eu, compreendes, no saberia viver fora de Luca.
Regressarei pois a Itlia logo que possa.

- Mas antes de partir, queridssimo pai, decerto me entregar
documentos com os quais me seja fcil demonstrar a que famlia
perteno.

- Sem dvida nenhuma. Vim c propositadamente para isso e tive
tanta dificuldade em te encontrar, a fim de tos entregar, que
se tivssemos de recomear a procurar-nos iria nisso o resto
da minha vida.

- E esses documentos?

- Esto aqui.

Andrea pegou avidamente na certido de casamento do pai e na
sua certido de baptismo e depois de abrir ambos os documentos
com uma ansiedade perfeitamente natural num bom filho, leu-os
com uma rapidez e uma segurana que denotavam uma vista bem
exercitada e o mais vivo interesse.

Quando acabou, brilhava-lhe nos olhos uma indefinvel
expresso de alegria. E fitando o major com um sorriso
estranho:

- Que significa isto? Que no h gals na Itlia? - observou
em excelente toscano.

O major empertigou-se.

- Porque dizes isso? - inquiriu.

- Porque conseguem forjar impunemente documentos destes. Por
menos de metade, meu queridssimo pai, em Frana mandavam-nos
a ares para Toulon por cinco anos.

- Como? - redarguiu o lucano, tentando tomar um ar majestoso.

- Meu caro Sr. Cavalcanti - disse Andrea, apertando o brao do
major --, quanto lhe do para ser meu pai?

O major ia a responder, mas Andrea interrompeu-o.

- Caluda! - disse, baixando a voz. - Vou dar-lhe o exemplo da
confiana. A mim do-me cinquenta mil francos por ano para ser
seu filho; logo, deve compreender que no seria eu quem
estaria disposto a negar que o senhor  meu
pai.

O major olhou com inquietao  sua volta.

- Eh, esteja tranquilo, estamos ss! - disse Andrea. - Alm
disso, falamos em italiano.

- Bom, a mim do-me cinquenta mil francos pagos de uma vez -
declarou o lucano.

- Sr. Cavalcanti, acredita em contos de fadas? - perguntou
Andrea.

- Dantes no acreditava, mas agora no tenho outro remdio.

- Isso quer dizer que teve provas?

O major tirou da algibeira das calas um punhado de ouro.

- Palpveis, como v...

- Pensa portanto que posso acreditar nas promessas que me
fizeram?

- Acho que sim.

- E que o conde as cumprir ?

- Ponto por ponto. Mas para isso, compreende, temos de
desempenhar o nosso papel.

- Que quer dizer?

- Eu, de terno pai ..

- E eu de filho respeitoso.

- Uma vez que eles desejam que voc descenda de mim...

- Eles, quem?

- Com a breca, no sei nada a tal respeito! Eles... aqueles
que lhe escreveram. No recebeu uma carta?

- Recebi.

- Tambm eu.

- De quem?

- De um tal abade Busoni.

- Que no conhece?

- Que nunca vi.

- Que dizia essa carta?

- Voc no me atraioa?...

- Deus me livre! Os nossos interesses so os mesmos.

- Ento leia.

E o major passou uma carta ao rapaz.

Andrea leu em voz baixa:

" pobre e espera-o uma velhice infeliz Quer ser, seno rico,
pelo menos independente?

"Parta imediatamente para Paris e v reclamar ao Sr. Conde de
Monte-Cristo, Avenida dos Campos Elsios, n.o 30, o filho que
teve da marquesa de Corsinari e que lhe foi raptado aos cinco
anos de idade.

"Esse filho chama-se Andrea Cavalcanti.

"Para que no duvide das intenes do signatrio de lhe ser
prestvel, encontrara aqui Junto:

"1.o Uma ordem de pagamento de duas mil e quatrocentas libras
toscanas sobre o Sr. Gozzi, de Florena;

"2.o Uma carta de apresentao para o Sr. Conde de
Monte-Cristo, sobre o qual lhe credito a importncia de
quarenta e oito mil francos.

"Esteja em casa do conde no dia 26 de Maio s sete horas da
noite. - Abade Busoni."

-  isso.

-  isso o qu? Que quer dizer? - perguntou o major.

- A carta que recebi  maiss ou menos idntica.

- Sim?

- Sim.

- E tambm  do abade Busoni?

- No.

- De quem , ento.

- De um ingls, um tal Lorde Wilmore, que usa o nome de
Simbad, o Marinheiro.

- E que voc conhece to bem como eu conheo o abade Busoni?

- Evidentemente. Mas eu estou mais adiantado do que voc.

- Viu-o?

- Sim, uma vez.

- Onde?

- Ah, precisamente isso  que lhe no posso dizer! Ficaria a
saber tanto como eu, o que  intil.

- E essa carta dizia-lhe?...

- Leia.

" pobre e tem um futuro miservel. Quer ter um nome, ser
livre e ser rico?"

  - Com a breca, como se semelhante pergunta se fizesse! -
exclamou o rapaz, balouando-se nos calcanhares.

"Tome a sege de posta, que encontrar pronta saindo de Nice
pela porta de Gnova. Passe por Turhn, Chambly e
Pont-de-Beauvoisin. Apresente-se em casa do Sr. Conde de
Monte-Cristo, Avenida dos Campos Elisios, no dia 26 de Maio,
s sete horas da noite, e pergunte-lhe pelo seu pai.

"O senhor  filho do marqus Bartolomeo Cavalcanti e da
marquesa Oliva Corsinari, como certificaro os documentos que
lhe sero entregues pelo marqus e que lhe permitiro
apresentar-se sob esse nome na sociedade parisiense.

"Quanto  sua categoria social, um rendimento de cinquenta
mil libras por ano permitir-lhe- mant-la.

"Junto uma ordem de pagamento de cinco mil libras sobre o Sr.
M. Ferrea, banqueiro em Nice, e uma carta de apresentao para
o Conde de Monte-Cristo, encarregado por mim de prover s
suas necessidades. - Simbad, o Marinheiro."

- Hum!... - resmungou o major. -  demasiado bom...

- Ento no ?

- Viu o conde?

- Acabo de o deixar.

- E ele confirmou?

- Tudo.

- Compreende alguma coisa disso?

- Palavra que no.

- Anda a um lorpa no meio de tudo isso...

- Em todo o caso, no  voc nem eu, pois no?

- No, claro.

- Sendo assim...

- Pouco nos importa, no  verdade?

- Era precisamente o que queria dizer. Vamos at ao fim e
joguemos pelo seguro.

- Seja. Ver que sou digno de ser seu parceiro.

- Nunca duvidei um s instante, meu querido pai.

- Lisonjeia-me, meu querido filho.

Monte-Cristo escolheu este momento para entrar na sala.
Ao ouvirem o rudo dos seus passos, os dois homens lanaram-se
nos braos um do outro. O conde
encontrou-os abraados.

- Ento, Sr. Marqus - disse Monte-Cristo --, parece que
encontrou um filho de acordo com o seu corao

- Ah, Sr. Conde, sufoco de alegria!

- E o senhor, meu rapaz?

-Ah, Sr. Conde, sufoco de felicidade!

- Feliz pai! Feliz filho! - sentenciou o conde.
- S uma coisa me entristece - disse o major - a necessidade
que tenho de deixar Paris com urgncia.

- Mas, meu caro Sr. Cavalcanti - atalhou Monte-Cristo
--, espero que no parta sem que o tenha apresentado a uns
amigos...

- Estou s suas ordens, Sr. Conde - respondeu o major.

- E agora, meu rapaz, confesse-se.

- A quem?

- Mas ao senhor seu pai! Diga-lhe alguma coisa acerca do
estado das suas finanas.

- Demnio, tocou-me na corda sensvel! - exclamou Andrea.

- Ouviu, major? - perguntou Monte-Cristo.

- Claro que ouvi.

- Pois sim, mas compreendeu?

- Maravilhosamente.

- Diz que precisa de dinheiro, o querido pequeno.

- E que quer que lhe faa?

- Que lho d, ora essa!

- Eu?

- O senhor, sim.

Monte-Cristo passou entre os dois homens.

- Tome - disse a Andrea, metendo-lhe um mao de notas na mo.

- Que  isto?

- A resposta do seu pai.

- Do meu pai?

- Sim. No acaba de lhe dizer que precisava de dinheiro?

- Acabo, sim, e depois?

- E depois ele encarregou-me de lhe entregar isso.

- Por conta dos meus rendimentos?

- No, para as suas despesas de instalao.

- Oh, querido pai!

- Silncio! - ordenou Monte-Cristo. - Bem v que no quer que
se saiba que foi ele quem lhe deu o dinheiro.

- Aprecio a delicadeza - disse Andrea, metendo as notas na
algibeira das calas.

- Pronto - disse Monte-Cristo --, agora retirem-se.

- E quando teremos a honra de tornar a ver o Sr. Conde? -
perguntou Cavalcanti.

- Ah, sim, quando teremos essa honra? - perguntou tambm
Andrea.

- No sbado, se quiserem... sim, no sbado... Tenho a jantar
na minha casa de Auteuil, na Rua de la Fontaine, n.o 28,
vrias pessoas, e entre elas o Sr. Danglars, vosso banqueiro.
Apresentar-vos-ei ao baro, pois  necessrio que ele conhea
ambos para vos entregar o vosso dinheiro.

- Grande uniforme? - perguntou a meia voz o major.

- Grande uniforme. Uniforme, condecoraes e calo.

- E eu? - perguntou Andrea.

- Oh, o senhor o mais simples possvel! Cala preta, botas de
verniz, colete branco, casaca preta ou azul, gravata comprida.
Escolha Blin ou Vronique para se vestir. Se no sabe o seu
endereo, Baptistin dar-lho-. Quanto menos afectar pretenso
no seu traje, sendo rico como , melhor efeito causar. Se
comprar cavalos, adquira-os no Devedeux. E se comprar feton,
compre-o no Baptiste.

- A que horas devemos aparecer? - perguntou o rapaz.

- Por volta das seis e meia.

- Muito bem, assim faremos - declarou o major, levando a mo
ao chapu. Os dois Cavalcanti cumprimentaram o conde e saram.

O conde aproximou-se da janela e viu-os atravessar o ptio de
brao dado.

- Esto ali, na verdade, dois grandes miserveis. - disse para
consigo. - Que pena no serem realmente pai e filho!

E aps um instante de sombria reflexo:

- Vamos a casa dos Morrels - disse. - Creio que o nojo me
nauseia ainda mais do que o dio.


Captulo LVII

O campo de Luzerna


Os nossos leitores devem permitir-nos reconduzi-los a este
campo, que confina com a casa do Sr. de Villefort e onde,
atrs do porto invadido por ramos de castanheiros,
reencontraremos personagens j nossas conhecidas.

Desta vez, Maximilien foi o primeiro a chegar.  ele quem, de
olho colado ao tapume, espreita para o jardim impenetrvel, 
espera de ver aparecer uma sombra entre as rvores e de ouvir
o rangido de umas botinas de seda no saibro das alamedas.

Por fim, o rangido to desejado soou, mas em vez de uma sombra
foram duas sombras as que se aproximaram. A demora de
Valentine fora ocasionada por uma visita da Sr.a Danglars e de
Eugnie, visita que se prolongara para alm da hora em que
Valentine era esperada. Ento, para no faltar ao encontro, a
jovem propusera a Mademoiselle Danglars um passeio no jardim,
a fim de mostrar a Maximilien que no era culpada do atraso
que sem dvida o fazia sofrer.

O rapaz compreendeu tudo com a rapidez de intuio peculiar
aos apaixonados e o seu corao descontraiu-se. Alis, sem lhe
chegar ao alcance da voz, Valentine dirigiu o passeio de
maneira que Maximilien a pudesse ver passar e repassar, e de
cada vez que passava e repassava deitava para o outro lado do
porto, sem que a sua companheira o notasse, um olhar que o
rapaz recebia e em que lhe dizia: "Tenha pacincia, meu
amigo, mas bem v que a culpa no  minha."

E Maximilien aceitava efectivamente o caso com pacincia, ao
mesmo tempo que admirava o contraste entre as duas jovens:
entre a loura de olhos languidos e busto inclinado como um
belo salgueiro e a morena de olhos orgulho os e busto direito
como um lamo. Depois, escusado ser diz-lo, da comparao
entre duas naturezas to opostas toda a vantagem ia para
Valentine, pelo menos no corao do rapaz..

Ao cabo de meia hora de passeio as duas jovens afastaram-se e
Maximilien compreendeu que chegara o termo da visita da
Sr.a Danglars.

Com efeito, pouco depois Valentine reapareceu sozinha. Com
receio de que algum olhar indiscreto a seguisse no regresso,
caminhava devagar e, em vez de se dirigir directamente para o
portilo, foi sentar-se num banco, depois de disfaradamente
observar cada tufo de folhagem e de mergulhar a vista no fundo
de todas as alamedas.

Tomadas estas precaues, correu para o porto.

- Boas tardes, Valentine - disse uma vez.

-Boas tardes, Maximilien. Fi-lo esperar, mas no viu a causa?

- Vi. Reconheci Mademoiselle Danglars. No a julgava to
ntima dessa rapariga.

- E quem lhe disse que ramos ntimas, Maximilien?

- Ningum. Mas pareceu-me que isso saltava  vista, dada a
forma como davam o brao uma  outra e conversavam. Dir-se-iam
duas amigas de colgio trocando confidncias.

- E trocvamos efectivamente confidncias - reconheceu
Valentine. - Ela confessava-me a sua repugnncia por um
casamento com o Sr. de Morcerf e eu, pela minha parte,
confessava-lhe que considerava uma infelicidade casar com o
Sr. de Epinay.

- Querida Valentine!

- Aqui tem, meu amigo - continuou a jovem --, porque motivo
notou essa aparncia de abandono entre mim e Eugnie.  que
enquanto falava do homem que no posso amar pensava no homem
que amo.

- Como  boa em tudo, Valentine, e possui uma coisa que
Mademoiselle Danglars nunca ter: o encanto indefinido que
est para a mulher como o perfume est para a flor e o sabor
para o fruto. Porque no basta uma flor ser bela, nem um fruto
ser agradvel  vista.

-  o seu amor que o leva a ver as coisas assim, Maximilien.

- No, Valentine, juro-lhe. Olhe, observava ambas h pouco e
dou-lhe a minha palavra de honra de que, embora prestando
justia  beleza de Mademoiselle Danglars, no compreendia que
um homem se apaixonasse por ela.

- Porque, como dizia, Maximilien, eu estava aqui e a minha
presena tornava-o injusto.

- No... mas diga-me... uma questo de mera curiosidade
resultante de certas ideias que tenho a respeito de
Mademoiselle Danglars...

- Oh, e decerto muito injustas, mesmo sem eu saber quais!
Quando os homens nos julgam. ns, pobres mulheres, no devemos
esperar indulgncia.

- Como se, entre elas, as mulheres fossem justas umas para com
as outras!

- Porque quase sempre h paixo nos nossos julgamentos. Mas
voltemos  sua pergunta.

-  por amar algum que Mademoiselle Danglars receia o seu
casamento com o Sr. de Morcerf?

- Maximilien, j lhe disse que no era amiga de Eugnie.

- Mas, meu Deus, mesmo sem serem amigas as raparigas fazem
confidncias umas s outras! Admita que lhe fez algumas
perguntas a tal respeito... Ah, j a vejo sorrir!...

- Sendo assim, Maximilien, no serve de nada haver este tapume
entre ns...

- Vejamos, que lhe disse ela?

- Disse-me que no amava ningum - respondeu Valentine. - Que
tinha horror ao casamento; que a sua maior alegria seria levar
uma vida livre e independente, e que quase desejaria que o pai
perdesse a fortuna para se tornar artista como a sua amiga
Mademoiselle Louise d'Armilly.

- Est a ver?...

- E ento, que prova isso? - perguntou Valentine.

- Nada - respondeu Maximilien sorrindo.

- Nesse caso, porque sorri tambm agora? - quis saber
Valentine.

- Pronto, desta vez tambm a apanhei a espreitar, Valentine! -
exclamou Maximilien.

- Quer que me v embora?

- Oh, no, no! Mas voltemos a ns.

- Sim,  melhor, porque no podemos estar juntos mais de dez
minutos.

- Meu Deus! - exclamou Maximilien, consternado.

- Tem razo, Maximilien - admitiu Valentine, com melancolia. -
Tem em mim uma pobre amiga, Maximilien. Que existncia o fao
passar, pobre amigo, to bem talhado para ser feliz!
Censuro-me por isso amargamente, acredite.

- No se preocupe, Valentine. Sinto-me feliz assim e julgo-me
recompensado desta espera eterna por v-la durante cinco
minutos, por ouvir duas palavras da sua boca e por esta
convico profunda, eterna, de que Deus no criou dois
coraes to em harmonia como os nossos, e sobretudo no os
reuniu quase milagrosamente, para os separar.

- Obrigada, Maximilien. Tenha esperana pelos dois; isso j me
torna meio feliz.

- Que mais lhe aconteceu, Valentine, para que me deixe to
depressa?

- No sei. A Sr.a de Villefort mandou-me pedir que fosse aos
seus aposentos para ouvir uma comunicao da qual depende,
segundo ela, parte da minha fortuna. Meu Deus, que fiquem com
ela, com a minha fortuna! Sou demasiado rica. E que depois de
se apoderarem dela me deixem tranquila e livre. Tambm me
amaria se fosse pobre, no  verdade, Maximilien?

- Oh, am-la-ei sempre! Que me importaria riqueza ou pobreza
se a minha Valentine estivesse junto de mim e tivesse a
certeza de que ningum ma  roubaria? Mas essa comunicao,
Valentine, no receia que seja alguma notcia relacionada com
o seu casamento?

- No creio.

- No entanto, oua-me, Valentine, e no se assuste, pois
enquanto viver no serei doutra.

- Julga tranquilizar-me dizendo-me isso, Maximilien?

- Desculpe! Tem razo, sou um bruto. Mas o que lhe queria
dizer era que h dias encontrei o Sr. de Morcerf.

- E depois?

- O Sr. Franz  seu amigo, como a Valentine sabe.

- Pois sei. E depois?

- E depois?... Ele recebeu uma carta de Franz em que lhe
anuncia o seu prximo regresso.

Valentine empalideceu e apoiou a mo no porto.

- Ah, meu Deus, se fosse isso!... - murmurou. - Mas no, a
comunicao no viria da Sr.a de Villefort.

- Porqu?

- Porque... no sei porqu... mas parece-me que a Sr.a de
Villefort, embora se lhe no oponha francamente, no v com
bons olhos o casamento.

- Nesse caso, Valentine, parece-me que vou adorar a Sr.a de
Villefort!

- Oh, no tenha pressa, Maximilien! - redarguiu Valentine, com
um sorriso triste.

- Bom, se o casamento lhe  antiptico, no daria ouvidos a
qualquer outra proposta, quanto mais no fosse para o romper?

- No tenha iluses a esse respeito, Maximilien. No so os
maridos que ela detesta,  o casamento.

- Como? O casamento! Se detesta assim tanto o casamento, por
que motivo se casou?

- No me est a compreender, Maximilien. Quando h um ano
falei em retirar-me para um convento, ela, apesar das
observaes que achou dever fazer, aceitou a minha sugesto
com alegria. O meu prprio pai concordou, instigado por ela,
estou certa. S o meu pobre av me reteve. No pode imaginar,
Maximilien, quanta expresso h nos olhos do pobre velho, que
s a mim ama no mundo e que, Deus me perdoe se  uma
blasfmia, s por mim  amado no mundo. Se soubesse como me
olhou quando soube a minha resoluo, o que havia de censuras
naquele olhar e de desespero nas lgrimas que lhe corriam, sem
queixumes, sem suspiros, ao longo das faces imveis! Ah,
Maximilien, experimentei qualquer coisa como um remorso!
Lancei-me a seus ps gritando: "Perdo! Perdo, av! Faro de
mim o que quiserem, mas nunca o deixarei." Ento, ergueu os
olhos ao cu. Maximilien, poderei sofrer muito, mas aquele
olhar do meu velho av recompensou-me antecipadamente do que
sofrerei.

- Querida Valentine!  um anjo e no sei realmente como
mereci, espadeirando bedunos a torto e a direito, a menos que
Deus os tenha considerado infiis, no sei, repito, como
mereci que se interessasse por mim. Mas enfim, vejamos,
Valentine, que interesse tem a Sr.a de Villefort em que no se
case?

- No me ouviu dizer h pouco que era rica, Maximilien,
demasiado rica? Da parte da minha me lenho perto de cinquenta
mil libras de rendimento; o meu av e a minha av, o marqus e
a marquesa de Saint-Mran, devem deixar-me
outro tanto, e o Sr. Noirtier tem visivelmente a inteno de
me tornar a sua nica herdeira. De tudo isto resulta portanto
que, comparado comigo, o meu irmo Edouard, que no espera do
lado da Sr.a de Villefort nenhuma fortuna,  pobre. Ora, a
Sr.a de Villefort adora essa criana, e se eu entrasse para o
convento toda a minha fortuna, concentrada em meu pai, que
herdaria. do marqus, da marquesa e de mim, reverteria a favor
do filho.

- Oh, como  estranha essa cupidez numa jovem e bela mulher!

- Note que no se trata dela, Maximilien, mas sim do filho, e
que o que lhe censura como um defeito  quase uma virtude do
ponto de vista do amor materno.

- Mas vejamos, Valentine, e se cedesse parte dessa fortuna a
esse filho? - sugeriu Morrel.

- E como fazer semelhante proposta, sobretudo a uma mulher que
no se cansa de salientar  boca cheia o seu desinteresse? -
redarguiu Valentine.

- Valentine, o meu amor sempre foi para mim uma coisa sagrada,
e como toda a coisa sagrada cobri-o com o vu do meu respeito
e encerrei-o no meu corao. Ningum no mundo, nem mesmo a
minha irm, suspeita da existncia deste amor, que no confiei
a quem quer que seja. Valentine, permite-me que fale deste
amor a um amigo?

Valentine estremeceu.

- A um amigo?... - repetiu. - Oh, meu Deus, Maximilien, tremo
s de o ouvir falar assim! A um amigo?... E quem  esse amigo?

- Escute, Valentine: nunca sentiu por ningum uma dessas
simpatias irresistveis que fazem com que, embora vendo essa
pessoa pela primeira vez, julgue conhec-la h muito tempo, a
ponto de perguntar a si prpria onde e quando a viu, de forma
que, na impossibilidade de se recordar, quer do lugar quer do
tempo, acabe por se convencer ter sido num mundo anterior ao
nosso e que tal simpatia no passa de uma recordao que
desperta?

- J.

- Pois a tem o que senti a primeira vez que vi aquele homem
extraordinrio.

- Um homem extraordinrio?...

- Sim.

- Que conhece h muito tempo?

- Apenas h oito ou dez dias.

- E chama seu amigo a um homem que conhece h oito ou dez
dias? Oh, Maximilien, julgava-o mais avaro do belo nome de
amigo!

- Logicamente tem razo, Valentine. Mas diga o que disser,
nada me far mudar de opinio acerca deste sentimento
instintivo. Creio que esse homem estar envolvido em tudo o
que me acontecer de bom no futuro, futuro que s vezes o seu
olhar profundo parece conhecer e a sua mo poderosa dirigir.

- Trata-se portanto de um adivinho? - perguntou, sorrindo,
Valentine.

- Palavra que muitas vezes me sinto tentado a crer que
adivinha... o bem, sobretudo - respondeu Maximilien.

- Oh, apresente-me esse homem, Maximilien! - pediu Valentine,
tristemente. - Quero que me diga se serei amada o suficiente
para me sentir recompensada de tudo o que tenho sofrido.

- Pobre amiga! Mas a Valentine conhece-o!

- Eu?

- Sim.  aquele que salvou a vida  sua madrasta e ao filho.

- O conde de Monte-Cristo?

- O prprio.

- Oh, esse nunca poder ser meu amigo, pois -o demasiado da
minha madrasta! - exclamou Valentine.

- O conde, amigo da sua madrasta, Valentine? O meu instinto
no se enganaria a esse ponto. Estou certo de que est
enganada.

- Oh, se soubesse, Maximilien! J no  Edouard quem reina c
em casa,  o conde. Solicitado pela Sr.a de Villefort, que v
nele o repositrio dos conhecimentos humanos; admirado, oua
bem, admirado pelo meu pai, que diz nunca ter ouvido formular
com mais eloquncia ideias mais elevadas; idolatrado por
Edouard, que, apesar do seu medo dos grandes olhos negros do
conde, corre para ele assim que o v chegar e lhe abre a mo,
onde encontra sempre qualquer brinquedo admirvel, o Sr. de
Monte-Cristo no est aqui em casa do meu pai, o Sr. de
Monte-Cristo no est aqui em casa da Sr.a de Villefort, o
Sr. de Monte-Cristo est aqui em sua casa.

- Nesse caso, querida Valentine, se as coisas so assim como
diz, deve j sentir, ou em breve sentir, os efeitos da sua
presena. Encontra Albert de Morcerf em Itlia e arranca-o das
mos dos bandidos; conhece a Sr.a Danglars e oferece-lhe um
presente real; a sua madrasta e o seu irmo passam-lhe diante
da porta e o seu nbio salva-lhes a vida. Trata-se de um homem
que recebeu, evidentemente, o poder de influir nas coisas.
Nunca vi gostos mais simples aliados a to alia magnificncia.
O seu sorriso  to afectuoso quando mo dirige que esqueo que
os outros acham o seu sorriso amargo. Diga-me, Valentine, ele
j lhe sorriu assim? Se sorriu, ser feliz.

- A mim?-redarguiu a jovem. - Meu Deus, Maximilien, nem se
quer me olha! Ou antes, se passo por acaso, desvia a vista de
mim. Ou no  generoso, ou no possui esse olhar profundo que
l no fundo dos coraes, como o Maximilien supe erradamente.
Porque se fosse generoso, vendo-me sozinha e triste nesta
casa, proteger-me-ia com a influncia que exerce. Se, como o
Maximilien pretende, desempenha o papel de Sol, aquecer-me-ia
o corao com um dos seus raios. Diz que gosta de si,
Maximilien... Meu Deus, que sabe o senhor a tal respeito? Os
homens mostram boa cara a um oficial de cinco ps e seis
polegadas de altura, como o senhor, e ainda por cima possuidor
de um grande bigode e de um comprido sabre, mas julgam poder
esmagar sem receio uma pobre rapariga que chora.

- Oh, Valentine, est enganada, juro-lhe!

- Vejamos, Maximilien, se no fosse assim, isto , se ele me
tratasse diplomaticamente, como homem que, de uma maneira ou
doutra, se quer introduzir na casa, honrar-me-ia, nem que
fosse uma s vez, com esse sorriso que tanto me elogia. Mas
no, viu-me infeliz, sabe que no lhe posso ser til para
nada, e nem sequer me presta ateno. Quem sabe at se, para
fazer a corte ao meu pai,  Sr.a de Villefort ou ao meu irmo,
me no perseguir tambm assim que o possa fazer? Francamente;
no sou mulher que se despreze assim, sem motivo; o senhor
mesmo mo disse... Oh, perdoe-me! - continuou a jovem, ao ver a
impresso que as suas palavras causavam a Maximilien. - Sou m
e estou para aqui a dizer-lhe acerca desse homem coisas que
nem sequer sabia ter no corao. Olhe, no nego que essa
influncia de que fala existe e que ele a exerce tambm
sobre mim; mas exerce-a de uma maneira nociva e corruptora de
bons pensamentos, como v.

- Est bem, Valentine, no falemos mais disso - redarguiu
Morrel, suspirando. - No lhe direi nada.

- Que infelicidade a minha, meu amigo, aflijo-o, bem vejo! -
exclamou Valentine. - Oh, no poder apertar-lhe a mo e
pedir-lhe perdo! Mas enfim, no pretendo mais do que ser
convencida... Diga-me, que fez por si esse conde de
Monte-Cristo?

- Embaraa-me muito, confesso-lhe, Valentine, perguntando-me o
que fez o conde por mim. Ostensivamente, nada, bem sei. Por
isso, como j lhe disse, a minha ateno por ele 
absolutamente instintiva e no tem nada de racional. O Sol
fez-me porventura alguma coisa? No. Apenas me aquece e  
sua luz que a vejo, Valentine. Tal ou tal perfume fez alguma
coisa por mim? No. Mas o seu aroma impressiona agradavelmente
um dos meus sentidos. No posso responder mais nada quando me
perguntam porque elogio esse perfume. A minha amizade por ele
 to estranha como a sua por mim. Uma voz ntima diz-me que
h mais do que acaso nesta amizade imprevista e recproca.
Encontro correlao at nas suas mais simples aces, at nos
seus mais secretos pensamentos, com as minhas aces e os meus
pensamentos. Vai rir novamente de mim, Valentine, mas desde
que conheo esse homem meteu-se-me na cabea a ideia absurda
de que tudo o que me acontece provem dele. No entanto, vivi
trinta anos sem necessitar de semelhante protector, no 
verdade! No importa. Olhe, por exemplo: convidou-me para
jantar, no sbado, o que  natural no ponto em que as nossas
relaes se encontram, no acha? Imagina o que soube depois? O
seu pai est convidado para esse jantar e a sua madrasta
tambm. Encontrar-me-ei l com eles e quem sabe o que
resultar no futuro desse encontro?
Aparentemente, trata-se de tudo quanto h de mais simples;
contudo, vejo nisso algo que me espanta, mas em que deposito
uma confiana estranha. Digo para comigo que o conde, esse
homem singular que adivinha tudo, quis que me encontrasse com
o Sr. e a Sr.a de Villefort, e s vezes procuro, juro-lhe, ler
nos seus olhos se ele adivinhou o meu amor.

- Meu bom amigo - disse Valentine --, tom-lo-ia por um
visionrio e recearia sinceramente pelo seu bom senso se
apenas lhe ouvisse semelhantes raciocnios. O qu, v outra
coisa a no ser o acaso nesse encontro?! Vamos, reflicta. Meu
pai, que nunca sai, esteve quase por dez vezes a recusar esse
convite  Sr.a de Villefort, a qual, pelo contrrio. est
ansiosa por ver a casa desse nababo extraordinrio e
dificilmente conseguiu que ele a acompanhasse. No, no,
acredite que no tenho, exceptuando o senhor, Maximilien,
outro auxlio a esperar neste mundo a no ser o do meu av, um
cadver, nem outro apoio a procurar que no seja na minha
pobre me, um fantasma!

- Sinto que tem razo, Valentine, e que a lgica est do seu
lado - respondeu Maximilien. - Mas a sua meiga voz, que tanto
poder tem sempre sobre mim, hoje no me convence.

- Nem a sua - redarguiu Valentine. - E confesso que se no tem
outro exemplo para me dar...

- Tenho mais um - respondeu Maximilien, hesitante. - Mas na
verdade, Valentine, sou forado a confessar eu prprio que 
ainda mais absurdo do que o primeiro.

- Pacincia! - exclamou Valentine, sorrindo.

- E no entanto - continuou Morrel - ele nem por isso  menos
concludente para mim, homem todo de inspirao e sentimento, e
que tenho algumas vezes, desde que h dez anos sou militar,
devido a vida a um desses impulsos ntimos que nos ditam um
movimento de avano ou recuo para que a bala que nos devia
matar passe a nosso lado.

- Querido Maximilien, porque no atribuir s minhas preces
esse desvio das balas? Quando est ausente, no  por mim nem
por minha me que peo a Deus,  por si.

- Sim, desde que a conheo - respondeu Morrel, sorrindo. - Mas
antes de a conhecer, Valentine?

- Bom, j que me no quer dever nada, mauzo, vejamos esse
exemplo que o senhor mesmo confessa ser absurdo...

- Pois sim. Espreite pelas tbuas e veja ali adiante, naquela
rvore, o cavalo novo em que vim.

- Oh, que lindo animal! - exclamou Valentine. - Porque no o
trouxe para junto do porto? Falar-lhe-ia e ele ouvir-me-ia .

-  efectivamente, como v, um animal bastante valioso - disse
Maximilien. - Ora, como sabe, Valentine, a minha fortuna 
pequena e eu sou o que se chama um homem sensato. Pois bem, vi
num alquilador aquele magnfico Mdah, como lhe chamo, e
perguntei quanto custava. Responderam-me que custava quatro
mil e quinhentos francos. Como compreende, tive de me abster
de o achar bonito durante mais tempo e sa, confesso, bastante
impressionado, porque o cavalo me olhara meigamente,
acariciara-me com a cabea e caracolara debaixo de mim da
forma mais altaneira e encantadora que se possa imaginar.
Naquela mesma noite recebia alguns amigos l em casa: o Sr. de
Chteau-Renaud, o Sr. Debray e mais cinco ou seis patuscos
que a Valentine tem a felicidade de no conhecer, mesmo de
nome. Algum props uma bouillotte. Nunca jogo, pois no sou
suficientemente rico para poder perder, nem bastante pobre
para desejar ganhar. Mas estava em minha casa, compreende, e
no tinha outra coisa a fazer seno mandar buscar cartas, e
foi o que fiz.

"Quando nos sentvamos  mesa chegou o Sr. de Monte-Cristo.
Tomou o seu lugar, jogmos e ganhei. Quase me no atrevo a
dizer-lhe isto, Valentine: ganhei... cinco mil francos.
Separmo-nos  meia-noite. Incapaz de me conter, meti-me num
cabriol e fiz-me conduzir a casa do meu alquilador.
Palpitante, febril, toquei. Quem veio abrir deve ter-me tomado
por um louco. Corri para o outro lado da porta mal abriram.
Entrei na cavalaria e olhei para as manjedouras. Que sorte!
Mdah tasquinhava o seu feno. Corri para uma sela,
coloquei-lha eu prprio, pus-lhe o freio e mdah
prestou-se com a melhor boa vontade do mundo a esta operao!
Depois, depositei os quatro mil e quinhentos francos nas mos
do alquilador estupefacto, sa e passei a noite a passear nos
Campos Elsios. Vi luz na janela do conde e pareceu-me
distinguir a sua sombra atrs das cortinas. Agora, Valentine,
juraria que o conde soube que eu desejava o cavalo e perdeu de
propsito para eu ganhar.

- Meu querido Maximilien, , na verdade, demasiado imaginativo
- redarguiu Valentine. - No me amar muito tempo... Um homem
que compe assim poesia seria incapaz de estiolar sem motivo
numa paixo montona como a nossa... Mas, valha-me Deus, esto
a chamar-me... no ouve?!

- Valentine - pediu Maximilien atravs do buraquito do tapume
--, d-me o seu dedo mendinho para que o beije...

- Maximilien, tnhamos prometido que seramos um para o outro
duas vozes, duas sombras!

- Como queira, Valentine.

- Ficaria feliz se fizesse o que deseja?

- Oh, sim!

Valentine subiu para um banco e passou, no o dedo mendinho
pela abertura, mas sim a mo toda por cima do tapume.

Maximilien soltou um grito e, subindo por seu turno para o
marco, pegou naquela mo adorada e aplicou-lhe os lbios
ardentes. Mas a mozinha fugiu-lhe imediatamente por entre as
suas e o rapaz ouviu correr Valentine, talvez assustada com a
sensao que acabava de experimentar.


Captulo LVIII

O Sr. Noirtier de Villefort

Eis o que se passara em casa do procurador rgio depois da
sada da Sr.a Danglars e da filha e durante o dilogo que
acabamos de relatar.

O Sr. de Villefort entrara nos aposentos do pai, acompanhado
da Sr.a de Villefort. Quanto a Valentine, j sabemos onde
estava.

Depois de cumprimentarem o velho e mandarem sair Barrois,
criado que estava h mais de vinte e cinco anos ao servio do
invlido, sentaram-se ambos a seu lado.

O Sr. Noirtier, sentado na sua grande cadeira de rodas, onde o
colocavam de manh e donde o tiravam  noite, e diante de um
espelho que reflectia todo o aposento e lhe permitia ver, sem
mesmo tentar um movimento, que alis lhe seria impossvel,
quem entrava no seu quarto e quem saa e o que se passava 
sua volta, o Sr. Noirtier, dizamos, imvel como um cadver,
observava com olhos inteligentes e vivos os filhos, cuja
cerimoniosa reverncia lhe anunciava qualquer diligncia
oficial inesperada.

A vista e o ouvido eram os dois nicos sentidos que ainda
animavam, como duas centelhas, aquela matria humana j trs
quartas partes preparada para o tmulo. No entanto, desses
dois sentidos s um podia revelar exteriormente a vida
interior que animava a esttua. E o olhar que denunciava essa
vida interior parecia uma dessas luzes distantes que durante a
noite indicam ao viajante perdido no deserto que ainda existe
um ser que vela no silncio e na escurido.

Por isso, nos olhos negros do velho Noirtier, encimados por
sobrancelhas tambm negras, enquanto toda a cabeleira, que
usava comprida e cada sobre os ombros, era branca, nesses
olhos, como acontece com qualquer rgo do homem que funciona
 custa doutros rgos, tinham-se concentrado toda a
actividade, toda a sagacidade, toda a energia, toda a
inteligncia, distribudas outrora por aquele corpo e por
aquele esprito. Claro que faltavam o gesto do brao, o som da
voz, a atitude do corpo; mas aquele olhar poderoso supria
tudo. Mandava com os  olhos; agradecia com os olhos; era um
cadver com olhos vivos, e nada era por vezes mais aterrador
do que aquele rosto de mrmore no cimo do qual brilhava uma
clera ou uma alegria. Apenas trs pessoas compreendiam aquela
linguagem do pobre paraltico: Villefort, Valentine e o velho
criado de quem j falmos. Mas como Villefort s raramente via
o pai, e por assim dizer quando no podia deixar de ser, e
como quando o via no procurava agradar-lhe compreendendo-o,
toda a felicidade do velho assentava na neta, e Valentine
conseguira, a poder de dedicao, amor e pacincia,
compreender com o olhar todos os pensamentos de Noirtier.
quela linguagem muda ou ininteligvel para qualquer outra
pessoa respondia ela com toda a sua voz, toda a sua
fisionomia, toda a sua alma, de tal forma que se estabeleciam
dilogos animados entre a jovem e aquela pretensa argila, em
breve transformada em p, mas que entretanto era ainda um
homem de um saber imenso, de uma penetrao inaudita e de uma
vontade to forte quanto o pode ser a alma encerrada numa
matria pela qual perdeu o poder de se fazer obedecer.

Valentine resolvera portanto o estranho problema de
compreender o pensamento do velho e de fazer-lhe compreender o
dela; e, graas a esse estudo, era muito raro que no tocante
s coisas correntes da vida ela no interpretasse com
exactido o desejo daquela alma viva ou a necessidade daquele
cadver semi-insensvel.

Quanto ao criado, como, tal como dissemos, havia vinte e cinco
anos que servia o amo, conhecia to bem todos os seus hbitos
que era raro Noirtier necessitar de lhe pedir qualquer coisa.

Villefort no precisava, porm, da ajuda nem de um nem de
outro para entabular com o pai a singular conversa que vinha
provocar. Ele prprio, como dissemos, conhecia perfeitamente o
vocabulrio do velho, e se o no utilizava com mais frequncia
era por comodismo e indiferena. Deixou portanto Valentine
descer ao jardim, mandou Barrois embora e, depois de se sentar
 direita do pai, enquanto a Sr.a de Villefort se sentava 
esquerda, comeou:

- Senhor, no se admire de Valentine no ter subido connosco e
de ter afastado Barrois, porque a conferncia que vamos ter 
daquelas que se no podem efectuar diante de uma jovem ou de
um criado. A Sr.a de Villefort e eu temos uma comunicao a
fazer-lhe.

O rosto de Noirtier permaneceu impassvel durante este
preambulo, ao passo que, pelo contrrio, o olhar de Villefort
parecia querer penetrar at ao mago do corao do velho.

- A Sr.a de Villefort e eu - prosseguiu o procurador rgio no
seu tom gelado e que parecia nunca admitir contestao -
estamos certos de que esta comunicao lhe agradar.

O olhar do velho continuou a permanecer inexpressivo.
Limitava-se a escutar.

- Senhor - prosseguiu Villefort --, vamos casar Valentine.
Uma figura de cera no teria ficado mais fria ao ouvir esta
notcia do que ficou o semblante do velho.

- O casamento realizar-se- dentro de trs meses - acrescentou
Villefort. O olhar do velho continuou inanimado.

A Sr.a de Villefort tomou por sua vez a palavra e apressou-se
a acrescentar:

- Pensmos que esta notcia lhe interessasse, senhor, tanto
mais que Valentine sempre pareceu merecer a sua afeio. S
nos resta portanto dizer-lhe o nome do rapaz que lhe est
destinado. Trata-se de um dos mais respeitveis partidos a que
Valentine poderia aspirar:  rico, possui um belo nome...
enfim, aquele que lhe destinamos d garantias perfeitas de
felicidade, tanto pelo seu comportamento como pelos seus
gostos. Alis, o seu nome no lhe deve ser desconhecido.
Trata-se do Sr. Franz de Quesnel, baro de Epinay.

Enquanto a mulher fazia o seu discursozinho, Villefort cravava
no velho um olhar mais atento do que nunca. Quando a Sr.a de
Villefort pronunciou o nome de Franz, os olhos de Noirtier,
que o filho conhecia to bem, tremeram e as plpebras,
dilatando-se como o fariam lbios para deixar passar palavras,
deixaram passar um relmpago.

O procurador rgio, que conhecia as antigas relaes de
inimizade pblica existentes entre o pai e o pai de Franz,
compreendeu aquele estremecimento e aquela agitao; fez porm
de conta que no dera por nada e disse, retomando a palavra
onde a mulher a deixara:

- Senhor,  importante, como bem compreende, que Valentine se
case finalmente, pois est quase a fazer dezanove anos. No
entanto, no nos temos esquecido do senhor nas conferncias e
assegurmo-nos antecipadamente de que o marido de Valentine
aceitar, seno viver junto de ns, que talvez incomodssemos
um jovem casal, pelo menos que o senhor, a quem Valentine ama
especialmente e  qual o senhor parece retribuir essa afeio,
viva junto deles, de forma a no ter de alterar nenhum dos
seus hbitos e ficar apenas com dois filhos em vez de um para
olhar por si.

O brilho do olhar de Noirtier tornou-se cruel.

Sem dvida nenhuma passava-se algo horrvel na alma do velho;
sem dvida nenhuma subia-lhe  garganta um grito de dor e de
clera que, na impossibilidade de explodir, o sufocava, pois o
seu rosto purpureou-se e os seus lbios tornaram-se azuis.

Villefort abriu tranquilamente uma janela e comentou:

- Est muito calor aqui e este calor faz mal ao Sr. Noirtier.

Depois voltou a aproximar-se do pai, mas no se sentou.

- O casamento - acrescentou a Sr.a de Villefort -  muito do
agrado do Sr. de Epinay e da sua famlia. Alis, a sua famlia
compe-se apenas de um tio e uma tia. Como a me morreu ao
d-lo  luz e o pai foi assassinado em 1815, isto , quando o
filho contava apenas dois anos, ele no tem de dar conta dos
seus actos a ningum.

- Assassnio misterioso - salientou Villefort - e cujos
autores ficaram no anonimato, embora a suspeita tenha pairado,
sem se abater, sobre a cabea de muita gente...

Noirtier fez tal esforo que os seus lbios se contraram como
que para sorrir.

- Ora - continuou Villefort --, os verdadeiros culpados,
aqueles que sabem que cometeram o crime, aqueles sobre os
quais pode descer a justia dos homens durante a sua vida e a
justia de Deus depois da sua morte, seriam muito felizes se
estivessem no nosso lugar e tivessem uma filha para oferecer
ao Sr. Franz de Epinay, a fim de apagarem at a mais pequena
aparncia de suspeita.

Noirtier acalmara-se graas a uma energia que se no esperaria
encontrar naquele organismo depauperado.

- Sim, compreendo - respondeu com o olhar a Villefort, e esse
olhar exprimia simultaneamente a clera inteligente e o desdm
profundo.

Pela sua parte, Villefort respondeu quele olhar, no qual lera
o que continha, com um leve encolher de ombros.

Depois, fez sinal  mulher para se levantar.

- Os meus cumprimentos, senhor - disse a Sr.a de Villefort. -
Gostaria que Edouard lhe viesse apresentar tambm os seus
cumprimentos?

Estava assente que o velho exprimiria a sua aprovao fechando
os olhos e a sua recusa abrindo-os e fechando-os vrias vezes,
e que desejaria exprimir qualquer desejo quando os erguesse ao
cu.

Se queria Valentine, fechava apenas o olho direito.

Se queria Barrois, fechava o olho esquerdo.

Ao ouvir a proposta da Sr.a de Villefort, piscou vivamente o
olhos.

Brindada com uma recusa evidente, a Sr.a de Villefort contraiu
os lbios.

- Nesse caso, quer que lhe mande Valentine? - perguntou.

- Quero - respondeu o velho, fechando os olhos com vivacidade.

O Sr. e a Sr.a de Villefort cumprimentaram, saram e ordenaram
que se chamasse Valentine, j prevenida, de resto, de que
teria de fazer qualquer coisa durante o dia junto do Sr.
Noirtier.

Ainda muito corada de emoo, Valentine entrou no quarto do
velho depois deles sarem. E bastou-lhe um olhar para
adivinhar como o av sofria e quantas coisas tinha para lhe
dizer.

- Ento, avozinho, que aconteceu? Fizeram-te zangar, no 
verdade, e ests irritado?

- Estou - respondeu ele fechando os olhos.

- Com quem? Com o meu pai? No. Com a Sr.a de Villefort?
Tambm no. Comigo?

O velho fez sinal que sim.

- Comigo? - repetiu Valentine, atnita.

O velho repetiu o sinal.

- E que te fiz eu, avozinho? - inquiriu Valentine.

Nenhuma resposta. Ela continuou:

- No te pude ver durante o dia. Contaram-te alguma coisa a
meu respeito?

- Contaram - respondeu o olhar do velho, com vivacidade.

- Deixa-me procurar... Meu Deus, juro-te, avozinho... Ah! O
Sr. e a Sr.a de Villefort estiveram aqui, no estiveram?

- Estiveram.

- E foram eles que te disseram coisas que te zangaram? O qu?
Queres que lhes v perguntar para que me possa justificar
junto de ti?

- No, no - respondeu o olhar.

- Oh, assustas-me! Que te tero dito, meu Deus?

E procurou.

- Oh, j sei! - exclamou baixando a voz e aproximando-se do
velho. - Falaram do meu casamento, talvez?...

- Falaram - replicou o olhar, irritado.

- Compreendo, ests zangado comigo por causa do meu silncio.
Mas, que queres, tinham-me recomendado que no te dissesse
nada; nem a mim prpria  tinham dito nada, eu  que de certo
modo lhes descobri o segredo, por indiscrio. Aqui tens
porque fui to reservada contigo. Perdoa-me, avozinho
Noirtier.

De novo fixo e inexpressivo, o olhar pareceu responder. "No
 apenas o teu silncio que me aflige."

- Que mais  ento? - perguntou a jovem. - Julgas talvez que
te abandonarei, avozinho, e que o meu casamento me tornar
esquecida?

- No - respondeu o velho.

- Disseram-te ento que o Sr. de Epinay consentia que
morssemos juntos?

- Disseram.

- Ento porque ests zangado?

Os olhos do velho adquiriram uma expresso de infinita doura.

- Sim, compreendo - disse Valentine. - Porque me amas?

O velho fez sinal que sim.

- E tens medo que seja infeliz?

- Tenho.

- No gostas do Sr. Franz?

Os olhos repetiram trs ou quatro vezes: "No, no, no."

- E  por isso que ests to triste, avozinho?

- .

- Ento, escuta - disse Valentine, ajoelhando diante de
Noirtier e rodeando-lhe o pescoo com os braos. - Tambm
estou muito triste porque, como tu, no gosto do Sr. Franz de
Epinay.

Um relmpago de alegria passou pelos olhos do velho.

- Lembras-te de quando quis ir para o convento tambm te
zangaste muito comigo?

Uma lgrima humedeceu a plpebra ressequida do velho.

- Pois era para fugir a esse casamento que me enche de
desespero - confessou Valentine.

A respirao de Noirtier tornou-se arquejante.

- Ento o meu casamento entristece-te muito, avozinho? Oh, meu
Deus, se pudesses ajudar-me, se pudssemos ambos destruir-lhes
o seu projecto! Mas no tens foras para eles... Tu, que no
entanto possuis um esprito to vivo e uma vontade to firme,
quando se trata de lutar s to fraco e at mais fraco do que
eu. Pouca sorte a minha! Tu, que terias sido para mim um
protector to poderoso quando tinhas fora e sade, hoje s
podes compreender-me e regozijar-te ou afligir-te comigo.  a
derradeira felicidade que Deus se esqueceu de me levar com as
outras.

Depois destas palavras surgiu nos olhos de Noirtier uma tal
expresso de malcia e eloquncia que a jovem julgou ler
neles: "Enganas-te, posso ainda fazer muito por ti."

- Podes fazer alguma coisa por mim, querido avozinho? -
traduziu Valentine.

- Posso.

Noirtier ergueu os olhos ao cu. Era o sinal convencionado
entre ele e Valentine quando desejava qualquer coisa.

- Que queres, querido avozinho? Vejamos...

Valentine procurou um instante na memria, exprimiu em voz
alta os seus pensamentos  medida que lhe acudiam e, vendo que
a tudo o que dizia o velho respondia constantemente "no",
murmurou:

- J que sou to estpida, recorramos aos grandes meios...

Ento recitou uma aps outra todas as letras do alfabeto, do A
ao N, enquanto com um sorriso interrogava o olhar do
paraltico. No N, Noirtier fez sinal que sim.

- Ah! - exclamou Valentine. - O que quer comea pela letra N!
 o N que nos interessa? Muito bem! Vejamos o que juntamos ao
N... Na, ne, ai, no...

- Sim, sim, sim - disse o velho.

- Ah!  o no?

- .

Valentine foi buscar um dicionrio que colocou numa estante de
msica diante de Noirtier. Abriu-o e quando viu os olhos do
velho nas folhas percorreu vivamente as colunas, de alto a
baixo, com o dedo.

O exerccio, praticado desde que havia seis anos Noirtier
cara no estado deplorvel em que se encontrava, tornara-se
to fcil que ela adivinhava com tanta rapidez o pensamento do
velho como se ele prprio pudesse consultar o dicionrio.

Noirtier fez-lhe sinal para parar na palavra notrio.

- Notrio! - exclamou Valentine. - Queres um notrio,
avozinho?

O velho fez sinal de que era efectivamente um notrio o que
desejava.

- Devemos ento mandar chamar um notrio? - perguntou
Valentine.

- Sim.

- O meu pai deve saber?

- Deve.

- Tens pressa de falar com o notrio?

- Tenho.

- Ento, vamos mandar cham-lo imediatamente, querido
avozinho.  tudo o que desejas?

- .

Valentine correu para a campainha, chamou um criado e mandou-o
pedir ao Sr. e  Sr.a de Villefort que viessem ao quarto do
av.

- Ests satisfeito? - perguntou Valentine.-Sim... bem vejo!
Mas olha que no era fcil descobrir o que pretendias...

E a jovem sorriu ao av como sorriria a uma criana.

O Sr. de Villefort entrou, trazido por Barrois.

- Que deseja, senhor? - perguntou ao paraltico.

- Senhor - respondeu Valentine --, o meu av deseja um
notrio.

Ao ouvir aquele pedido estranho e sobretudo inesperado, o Sr.
de Villefort trocou um olhar com o paraltico.

- Sim - confirmou o velho, com uma firmeza que indicava que
com o auxlio de Valentine e do seu velho criado, que sabia
agora o que ele desejava, estava pronto para sustentar a luta.

- Quer um notrio? - repetiu Villefort.

- Quero.

- Para qu?

Noirtier no respondeu.

- Mas para que necessita de um notrio? - insistiu Villefort.
O olhar do paraltico permaneceu imvel, e por consequncia
mudo, o que significava: "Persisto na minha vontade."

- Para nos pregar alguma partida, no? - insinuou Villefort. -
Valer a pena?

- Mas enfim - interveio Barrois, pronto a insistir, com a
perseverana dos velhos criados --, se o senhor quer um
notrio  aparentemente porque precisa dele. Portanto, vou
buscar um notrio.

Barrois no reconhecia outro amo a no ser Noirtier e nunca
admitia que as suas vontades fossem contestadas em nada.

- Sim, quero um notrio - teimou o velho, fechando os olhos em
ar de desafio e como se dissesse: "Vejamos se se atrevem a
recusar o que quero."

- Ter um notrio, uma vez que o deseja absolutamente, senhor,
mas desculpar-me-ei junto dele, assim como o senhor mesmo ter
de se desculpar, porque a cena ser muitssimo ridcula.

- No importa - redarguiu Barrois. - Mesmo assim, vou
busc-lo.

E o velho servidor saiu triunfante.


Captulo LIX

O testamento


Quando Barrois saiu, Noirtier olhou para Valentine com uma
expresso maliciosa que anunciava muitas coisas. A jovem
compreendeu aquele olhar, e Villefort tambm, pois a sua testa
ensombrou-se e o seu sobrolho franziu-se.

Pegou numa cadeira, instalou-se no quarto do paraltico e
esperou.

Noirtier assistiu a tudo com absoluta indiferena, mas pelo
rabo do olho ordenou a Valentine que no se inquietasse e
ficasse tambm.

Trs quartos de hora mais tarde o criado regressou com o
notrio.

- Senhor - disse Villefort, depois dos primeiros cumprimentos
--, quem o mandou chamar foi o Sr. Noirtier de Villefort, aqui
presente. Uma paralisia geral tirou-lhe o uso dos membros e da
voz e s ns, com grande dificuldade, conseguimos apreender
alguns fragmentos dos seus pensamentos.

Noirtier apelou com a vista para Valentine, apelo to grave e
imperioso que ela respondeu imediatamente:

- Eu, senhor, compreendo tudo o que quer dizer o meu av.

-  verdade - acrescentou Barrois. - Tudo, absolutamente tudo,
como disse ao senhor pelo caminho.

- Permita-me, senhor, e a menina tambm - disse o notrio,
dirigindo-se a Villefort e a Valentine --, que ponha as minhas
reservas. Trata-se de um caso em que um funcionrio pblico
no pode proceder inconsideradamente sem assumir uma
responsabilidade perigosa. A primeira condio para que um
acto seja vlido  que o notrio esteja convencido de que
interpretou fielmente a vontade daquele que a exprime. Ora, eu
prprio no posso estar certo da aprovao ou da desaprovao
de um cliente que no fala. E como o objecto dos seus desejos
e  das suas repugnncias no pode, devido ao seu mutismo,
ser provado claramente, o meu ministrio  mais do que intil
e seria ilegalmente exercido.

O notrio deu um passo para se retirar. Um imperceptvel
sorriso de triunfo desenhou-se nos lbios do procurador rgio.
Pela sua parte, Noirtier fitou Valentine com tal expresso de
dor que ela se colocou no caminho do notrio.

- Senhor - disse --, a lngua que falo com o meu av  uma
lngua que se pode aprender facilmente, e assim como eu a
compreendo, tambm posso em poucos minutos conseguir que o
senhor a compreenda. De que precisa, senhor, para que a sua
conscincia fique perfeitamente edificada?

- O que  necessrio para que os nossos actos sejam vlidos,
menina - respondeu o notrio --, isto , a certeza da
aprovao ou da desaprovao. Pode-se testar doente de corpo,
mas tem de se estar so de esprito.

- Muito bem, senhor. Com dois sinais, adquirir essa certeza,
a certeza de que o meu av nunca esteve mais na plenitude da
sua inteligncia do que neste momento. O Sr. Noirtier, privado
da voz, privado de movimento, te ha os olhos quando quer dizer
sim e pestaneja vrias vezes quando quer dizer no. Sabe
agora, senhor, o suficiente para falar com o Sr. Noirtier.
Experimente.

O olhar que o velho deitou a Valentine estava to hmido de
ternura e reconhecimento que o prprio notrio o compreendeu.

- Ouviu e compreendeu o que acaba de dizer a sua neta, senhor?
- perguntou o notrio.

Noirtier fechou suavemente os olhos e abriu-os um instante
depois.

- E aprova o que ela disse, isto , que os sinais indicados
por ela so de facto aqueles com o auxlio dos quais o senhor
faz compreender o seu pensamento?

- Aprovo - respondeu novamente o velho.

- Foi o senhor que me mandou chamar?

- Fui.

- Para fazer o seu testamento?

- Sim.

- E no quer que me retire sem ter feito esse testamento?

O paraltico pestanejou vivamente e por diversas vezes.

- Ento, senhor, compreende agora e a sua conscincia j est
tranquila? - perguntou a jovem.

Mas antes de o notrio ter tempo de responder, Villefort
puxou-o  parte.

- Senhor, parece-lhe que um homem possa suportar impunemente
um abalo fsico to terrvel como o que experimentou o Sr.
Noirtier de Villefort sem que o prprio moral tenha sido
gravemente atingido?

- Isso no  precisamente o que me inquieta, senho r-
respondeu o notrio. - O que pergunto a mim mesmo  como
conseguiremos adivinhar-lhe os pensamentos, a fim de lhe
provocar as respostas.

- Bem v que  impossvel - insistiu Villefort.

Valentine e o velho ouviam esta conversa. Noirtier pousou um
olhar to fixo e to firme em Valentine que esta compreendeu
que tal olhar exigia evidentemente uma resposta.

- Senhor - interveio --, no se preocupe com isso. Por mais
difcil que seja, ou antes, que lhe parea descobrir o
pensamento do meu av, revelar-lho-ei de forma a desfazer
todas as dvidas a esse respeito. H seis anos que convivo de
perto com o Sr. Noirtier e ele prprio que diga se, nesses
seis anos, um s dos  seus desejos ficou sepultado no seu
corao por no conseguir dar-mo a entender.

- No - respondeu o velho.

- Experimentemos ento - disse o notrio. - Aceita esta menina
como a sua intrprete?

O paraltico tez sinal que sim

- Muito bem. Vejamos ento, senhor, que deseja de mim, qual 
o acto que pretende praticar...

Valentine recitou todas as letras do alfabeto at  letra T.

Uma eloquente olhadela de Noirtier deteve-a nessa altura.

- O senhor pede a letra T - disse o notrio. - A escolha 
visvel.

- Espere - pediu Valentine, que em seguida se virou para o av
e recitou:  - Ta... te...

o velho deteve-a na segunda destas slabas.

Ento, Valentine pegou no dicionrio e folheou as pginas
diante do olhar atento do notrio.

- Testamento - disse, parando o dedo a um sinal de olhos de
Noirtier.

- Testamento! - exclamou o notrio. -  evidente, o senhor
quer testar.

- Quero - confirmou Noirtier vrias vezes.

- Convenhamos que  maravilhoso, senhor! - disse o notrio,
estupefacto, a Villefort.

- De facto - replicou este e ainda mais maravilhoso ser o
testamento. Porque, enfim, no creio que os artigos se alinhem
no papel, palavra por palavra, sem a inteligente inspirao da
minha filha. Ora, Valentine talvez seja um pouco interessada
nesse testamento e por isso uma intrprete no muito
conveniente das obscuras vontades do Sr. Noirtier de
Villefort.

- No, no! - contraps o paraltico.

- Como, Valentine no  interessada no seu testamento? -
estranhou Villefort.

- No - repetiu Noirtier.

- Senhor - interveio o notrio, que, encantado com a
experincia, prometia a si mesmo contar em sociedade os
pormenores daquele episdio pitoresco --, senhor, nada me
parece mais fcil agora do que o que h pouco olhava como uma
coisa impossvel. O testamento ser muito simplesmente um
testamento mstico, quer dizer, previsto e autorizado pela lei
desde que seja lido diante de sete testemunhas, aprovado pelo
testador diante delas e fechado pelo notrio, sempre diante
delas. Quanto ao prazo, durar apenas mais tempo do que um
testamento ordinrio. Vm primeiro as frmulas consagradas, e
que so sempre as mesmas, e quanto aos pormenores, na sua
maioria, sero fornecidos pelo prprio estado dos negcios do
testador e pelo senhor, que, tendo-os gerido, os conhece. Mas
mesmo assim, para que o acto seja inatacvel, vamos dar-lhe a
mais completa autenticidade. Um dos meus colegas servir-me-
de ajudante e, contra o que  hbito, assistir ao ditado.
Est satisfeito, senhor? - acrescentou o notrio, dirigindo-se
ao velho.

- Estou - respondeu Noirtier, radiante por ser compreendido.

"Que ir ele fazer?", perguntou a si prprio Villefort, a quem
a alta posio que ocupava impunha a maior reserva e que,
alis, no podia adivinhar qual era o objectivo do pai. :

Virou-se para mandar buscar o segundo notrio designado pelo
primeiro. Mas Barrois, que ouvira tudo e adivinhara o desejo
do amo, j sara.

Ento, o procurador rgio mandou dizer  mulher que subisse.

Passado um quarto de hora toda a gente estava reunida no
quarto do paraltico e chegara o segundo notrio.

Os dois funcionrios pblicos chegaram a acordo em poucas
palavras. Leram a Noirtier uma frmula de testamento vaga,
vulgar; depois, para comear, por assim dizer, a investigao
acerca da sua inteligncia, o primeiro notrio disse-lhe,
virando-se para ele:

- Quando se faz um testamento, senhor,  a favor de algum...

- Pois  - respondeu Noirtier.

- Tem alguma ideia da importncia a quanto monta a sua
fortuna?

- Tenho.

- Vou dizer vrias importncias, que iro subindo
gradualmente. Deter-me- quando atingir aquela que julgue ser
a sua.

- Pois sim.

Havia neste interrogatrio uma espcie de solenidade. Alis,
nunca a luta da inteligncia contra a matria fora talvez mais
visvel. E se no era um sublime, como amos a dizer, era pelo
menos um curioso espectculo.

Formara-se roda  volta de Noirtier. O segundo notrio estava
sentado a uma mesa, pronto para escrever. O primeiro estava de
p diante de Noirtier e interrogava-o.

- A sua fortuna ultrapassa os trezentos mil francos, no 
verdade?

Noirtier tez sinal que sim.

- Possui quatrocentos mil francos? - perguntou o notrio.
Noirtier ficou imvel.

- Quinhentos mil?

A mesma imobilidade.

- Seiscentos mil? Setecentos mil? Oitocentos mil? Novecentos
mil?

Noirtier fez sinal que sim.

- Possui novecentos mil francos?

- Possuo.

- Em imveis? - perguntou o notrio.

Noirtier fez sinal que no.

- Em ttulos de divida pblica?

Noirtier fez sinal que sim.

- Esses ttulos esto em seu poder?

Uma olhadela dirigida a Barrois fez sair o velho servidor, que
regressou pouco depois com uma caixinha.

- Permite-me que abra esta caixa? - perguntou o notrio.

Noirtier fez sinal que sim.

Aberta a caixa, encontraram-se ttulos de dvida pblica no
valor de novecentos mil francos.

O primeiro notrio passou, um aps outro, cada ttulo ao
colega. A soma era a indicada por Noirtier.

- Est certa - disse o segundo notrio. -  evidente que
a inteligncia se encontra em toda a sua capacidade e
extenso.

O primeiro notrio virou-se ento para o paraltico e
disse-lhe: - O senhor possui portanto novecentos mil francos
de capital, que, dada a forma como esto investidos, lhe devem
dar quarenta mil libras de rendimento, aproximadamente...

-  verdade - respondeu Noirtier.

- A quem deseja deixar essa fortuna?

- Oh - interveio a Sr.a de Villefort --, quanto a isso no h
qualquer dvida! O Sr. Noirtier ama unicamente a neta,
Mademoiselle Valentine de Villefort. E ela que cuida dele h
seis anos. Soube cativar com os seus cuidados assduos a
afeio do av e quase direi o seu reconhecimento.  portanto
justo que receba a paga da sua dedicao.

Os olhos de Noirtier lanaram um relmpago, como que a
significar que no se deixava enganar pelo falso assentimento
dado pela Sr.a de Villefort s intenes que ela lhe supunha.

-  ento a Mademoiselle Valentine de Villefort que lega
esses novecentos mil francos? - perguntou o notrio, que
julgava nada mais haver a fazer do que registar aquela
clusula, mas que, no entanto, tinha de se assegurar do
assentimento de Noirtier e desejava que esse assentimento
fosse verificado por todas as testemunhas da estranha cena.

Valentine dera um passo atrs e chorava de olhos baixos. O
velho fitou-a um instante com expresso de profunda ternura;
depois, virou-se para o notrio e piscou os olhos de forma
bastante significativa.

- No? - disse o notrio. - Como, no  Mademoiselle Valentine
de Villefort quem institui sua herdeira universal?

Noirtier fez sinal que no.

- No est enganado? - insistiu o notrio, atnito. - Quer
mesmo dizer no?

- No! - repetiu Noirtier. - No!

Valentine levantou a cabea. Estava estupefacta, no por ser
deserdada, mas sim por ter provocado o sentimento que
habitualmente dita semelhantes actos.

Mas Noirtier olhou-a com to profunda expresso de ternura que
ela exclamou:

- Oh, meu bom av, bem vejo que s me priva da sua fortuna!
Mas deixar-me- sempre o seu corao?

- Oh, sim, certamente! - disseram os olhos do paraltico,
fechando-se com uma expresso que no podia enganar Valentine.

- Obrigada! Obrigada! - murmurou a jovem.

Entretanto, a rejeio fizera nascer no corao da Sr.a de
Villefort uma esperana inesperada. Aproximou-se do velho e
perguntou:

- Ento,  ao seu neto douard de Villefort que deixa a sua
fortuna, caro Sr. Noirtier?

O batimento de plpebras foi terrvel, quase exprimia dio.

- No - disse o notrio. - Ento,  ao senhor seu filho aqui
presente?

- No - replicou o velho.

Os dois notrios entreolharam-se estupefactos. Villefort e a
mulher sentiram-se corar, um de vergonha e o outro de clera.

- Mas que lhe fizemos ns, av? -  perguntou Valentine. -  J
no gosta de ns?

O olhar do velho passou rapidamente pelo filho e pela nora e
deteve-se em Valentine com expresso de profunda
ternura.

- Sendo assim - disse ela --, se de facto me amas, av,
procura conjugar esse amor com o que fazes neste momento.
Conheces-me, sabes que nunca pensei na tua fortuna. Alis,
dizem que sou rica pelo lado da minha me, demasiado rica at.
Vamos, explica-te.

Noirtier cravou o olhar ardente na mo de Valentine.

- A minha mo? - perguntou ela.

- Sim - respondeu Noirtier.

- A sua mo! - repetiram todos os presentes.

- Ah, senhores, bem vem que tudo isto  intil e que o meu
pobre pai est louco! - disse Villefort.

- Oh, compreendo!-exclamou de sbito Valentine. - O meu
casamento, no , av!

- Sim, sim, sim! - repetiu trs vezes o paraltico, e os olhos
relampejavam-lhe cada vez que abria as plpebras.

- Ests zangado connosco por causa do casamento, no ?

- .

- Mas isso  absurdo? - interveio Villefort.

- Perdo, senhor - redarguiu o notrio --, mas, pelo
contrrio,  muito lgico e parece-me encadear-se
perfeitamente.

- No queres que case com o Sr. Franz de Epinay?

- No, no quero - exprimiu o olhar do velho.

- E deserda a sua neta por ela casar contra a sua vontade? -
perguntou o notrio.

- Deserdo - respondeu Noirtier.

- Portanto, sem esse casamento ela seria sua herdeira?

- Sim.

Fez-se um profundo silncio  volta do velho.

Os dois notrios consultavam-se; Valentine, com as mos
juntas, fitava o av com um sorriso reconhecido; Villefort
mordia os lbios delgados e a Sr.a de Villefort no conseguia
reprimir um sentimento de prazer, que, malgrado seu, se lhe
reflectia na cara.

- Mas - disse por fim Villefort, o primeiro a quebrar o
silncio - parece-me que sou o nico juiz das vantagens que
militam a favor da dessa unio. nico senhor da mo da minha
filha, quero que ela case com o Sr. Franz de Epinay e casar!

Valentine caiu, chorando, numa cadeira.

- Senhor - prosseguiu o notrio, dirigindo-se ao velho que
tenciona fazer da sua fortuna no caso de Mademoiselle
Valentine casar com o Sr. Franz?

O velho permaneceu imvel.

- Tenciona dispor dela?

- Tenciono - respondeu Noirtier.

- A favor de algum da sua famlia?

- No.

- A favor dos pobres, ento?

- Sim.

- Mas - observou o notrio - sabe que a lei se ope a que
despoje inteiramente o seu filho?

- Sei.

- S dispor portanto da parte que a lei o autoriza a dispor.

Noirtier ficou imvel.

- Continua a querer dispor de tudo?

- Continuo.

- Mas depois da sua morte contestaro o testamento!

- No.

- O meu pai conhece-me, senhor - interveio Villefort --, e
sabe que a sua vontade ser sagrada para mim. De resto,
compreende que na minha posio no posso pleitear contra os
pobres.

O olhar de Noirtier exprimiu triunfo.

- Que decide, senhor? - perguntou o notrio a Villefort.

- Nada, senhor. Trata-se de uma resoluo firme no esprito do
meu pai e sei que o meu pai no muda de resoluo.
Resigno-me portanto. Esses novecentos mil francos sairo da
famlia para ir enriquecer os hospitais; mas no cederei a um
capricho de velho e f-lo-ei de acordo com a minha
conscincia.

E Villefort retirou-se com a mulher, deixando ao pai a
liberdade de testar como entendesse.

O testamento foi lavrado no mesmo dia. Foram buscar as
testemunhas, o velho aprovou o documento, fecharam-no na sua
presena e depositaram-no no cartrio do Sr. Deschamps,
notrio da famlia.


Captulo LX

O telgrafo


O Sr. e a Sr.a de Villefort souberam, ao regressar aos seus
aposentos, que o Sr. Conde de Monte-Cristo, que viera
visit-los, fora introduzido na sala, onde os esperava. A Sr.a
de Villefort, demasiado emocionada para entrar assim de
sbito, passou pelo seu quarto, enquanto o procurador rgio,
mais senhor de si, se dirigiu directamente para a sala.

Mas por mais senhor que fosse das suas sensaes, por mais que
soubesse compor o rosto, o Sr. de Villefort no conseguiu com
igual facilidade afastar a nuvem que lhe toldava a fronte, de
forma que o conde, cujo sorriso brilhava radioso, lhe no
notasse o ar sombrio e pensativo.

- Oh, meu Deus, que tem, Sr. de Villefort?! - perguntou
Monte-Cristo aps os primeiros cumprimentos. - Terei chegado
na altura em que redigia alguma acusao um tanto capital?

Villefort tentou sorrir.

- No, Sr. Conde, aqui a nica vitima sou eu - respondeu. -
Sou eu que perco o meu processo e foi o acaso, a teimosia e a
loucura que formularam a acusao.

- Que quer dizer? - perguntou Monte-Cristo com um interesse
perfeitamente simulado. - Aconteceu-lhe realmente algum
contratempo grave?

- Oh, Sr. Conde, nem vale a pena falar do caso! - respondeu
Villefort com uma calma cheia de amargura.
- Quase nada, uma simples perda de dinheiro.

- Com efeito - concordou Monte-Cristo --, uma perda de
dinheiro  pouca coisa comparada com uma fortuna como a que o
senhor possui e com um esprito filosfico e elevado como o
seu!

- Por isso - redarguiu Villefort - no  tanto a questo de
dinheiro que me preocupa, embora no fim de contas novecentos
mil francos valham bem um pesar, ou pelo menos um gesto de
despeito. Fere-me sobretudo o capricho do destino, do acaso ou
da fatalidade (no sei como chamar ao poder que dirige o golpe
que me fere) que destri as minhas esperanas de fortuna e
talvez o futuro da minha filha por intermdio de um velho
regressado  infncia.

- Meu Deus, o que a vai! - exclamou o conde. - Novecentos mil
francos, no foi o que o senhor disse? Na verdade, a
importncia merece ser lamentada, mesmo por um filsofo, como
o senhor mesmo confessou. E quem lhe d esse desgosto?

- O meu pai, de quem j lhe falei.

- O Sr. Noirtier? Deveras? Mas o senhor tinha-me dito, se me
no engano, que ele estava completamente paraltico e que
todas as suas faculdades se encontravam aniquiladas...

- Sim, as faculdades fsicas, porque no se pode mexer nem
falar, mas apesar disso pensa, quer e age como v. Deixei-o h
cinco minutos e neste momento est ocupado a ditar um
testamento a dois notrios.

- Mas ento j fala?

- No, mas faz-se compreender.

- Como assim?

- Com a ajuda do olhar. Os seus olhos continuaram a viver e,
como v, matam.

- Meu amigo - disse a Sr.a de Villefort, que acabava de entrar
por seu turno --, no estar a exagerar a situao?

- Minha senhora... - cumprimentou o conde, inclinando-se.

A Sr.a de Villefort retribuiu o cumprimento com o seu mais
gracioso sorriso.

- Pois muito me conta, Sr. de Villefort. Que desgraa
incompreensvel!... -  exclamou Monte-Cristo.

- Incompreensvel, diz bem! - concordou o procurador rgio,
encolhendo os ombros. - Um capricho de velho!

- E no h maneira de o levar a desistir dessa deciso?

- Claro que h - respondeu a Sr.a de Villefort. - E depende
at do meu marido que esse testamento, em vez de ser feito em
detrimento de Valentine, seja pelo contrrio feito a seu
favor.

O conde, vendo que os dois esposos comeavam a falar por meias
palavras, tomou um ar distrado e olhou com a mais profunda
ateno e a aprovao mais completa o jovem douard, que
deitava tinta de escrever no bebedouro dos pssaros.

- Minha querida - disse Villefort, respondendo  mulher bem
sabe que gosto pouco de armar em patriarca em minha casa e que
nunca acreditei que o destino do universo dependesse de um
aceno 'da minha cabea. No entanto, desejo que as minhas
decises sejam respeitadas na minha famlia e que a loucura de
um velho e o capricho de uma criana no deitem por terra um
projecto traado no meu esprito h muitos anos. O baro de
Epinay era meu amigo, como sabe, e uma aliana com o filho 
convenientssima.

- Acha que Valentine est combinada com ele?... - perguntou a
Sr.a de Villefort. - Com efeito... ela sempre se ops ao
casamento e no me admiraria que tudo o que acabamos de ver e
ouvir tosse a execuo de um plano concertado entre ambos.

- Ningum renuncia assim, acredite, a uma fortuna de
novecentos mil francos - respondeu Villefort.

- Ela renunciaria ao mundo, senhor. Ainda h um ano queria
entrar para um convento.

- No importa - prosseguiu Villefort. - Insisto em que esse
casamento tem de se realizar!

- Apesar da vontade do seu pai? - perguntou a Sr.a de
Villefort, ferindo outra corda. -  muito grave!...

Monte-Cristo simulava nada ouvir, embora no perdesse uma
palavra do que se dizia.

- Senhora - prosseguiu Villefort --, posso dizer que sempre
respeitei o meu pai, porque ao sentimento natural da gerao
se juntava a conscincia da sua superioridade moral; porque,
enfim, um pai  sagrado a dois ttulos, sagrado como nosso
criador e sagrado como nosso senhor; mas hoje tenho de
renunciar a reconhecer uma inteligncia no velho que, baseado
numa simples recordao de rancor para com o pai, persegue
assim o filho. Seria portanto ridculo da minha parte pautar a
minha conduta pelos seus caprichos. Continuarei a ter o maior
respeito pelo Sr. Noirtier, suportarei sem me queixar o
castigo pecunirio que me Impe; mas permanecerei firme na
minha vontade e o mundo apreciar de que lado est a s razo.
Assim, casarei a minha filha com o baro Franz de Epinay,
porque tal casamento , na minha opinio, bom e respeitvel e
porque, em ltima anlise, quero casar a minha filha com quem
me aprouver.

- Pois qu - interveio o conde, cuja aprovao o procurador
rgio solicitara constantemente com o olhar --, pois qu, o
Sr. Noirtier deserda, diz o senhor, Mademoiselle Valentine por
ela casar com o Sr. Baro Franz de Epinay?!

- Exactamente, senhor,  essa a razo - respondeu Villefort,
encolhendo os ombros.

- A razo visvel, pelo menos - acrescentou a Sr.a de
Villefort.

- A razo real, minha senhora. Acredite no que lhe digo,
conheo o meu pai.

- Concebe-se semelhante coisa? - perguntou ela. - Em qu,
diga-me, o Sr. de Epinay pode desagradar mais do que qualquer
outro ao Sr. Noirtier?

- De facto - disse o conde --, conheci o Sr. Franz de Epinay,
o filho do general de Quesnel, no  verdade, aquele que foi
feito baro de Epinay pelo rei Carlos X...

- Exactamente - confirmou Villefort.

- Pois achei-o um jovem encantador!

- Por isso, a oposio do Sr. Noirtier no passa de um
pretexto, estou certa - declarou a Sr.a de Villefort. - Os
velhos so tiranos nas suas afeies e o Sr. Noirtier no quer
que a neta se case.

- E no conhecem a causa desse rancor? - perguntou
Monte-Cristo.

- Meu Deus, quem a saber?

- Alguma antipatia poltica, talvez...

- Efectivamente, o meu pai e o pai do Sr. de Epinay viveram
naqueles tempos tempestuosos de que s assisti aos ltimos
dias - respondeu Villefort.

- O seu pai no era bonapartista? - inquiriu Monte-Cristo. -
Creio lembrar-me de o senhor me ter dito qualquer coisa a tal
respeito...

- Meu pai foi principalmente jacobino - respondeu Villefort
levado pela emoo para alm dos limites da prudncia - e a
toga de senador que Napoleo lhe lanou sobre os ombros apenas
mascarou o antigo republicano, mas sem o modificar. Quando o
meu pai conspirava, no era pelo imperador, era contra os
Bourbons. Porque o meu pai tinha isto de terrvel: nunca
combatia pelas utopias irrealizveis, mas sim pelas coisas
possveis, e aplicava ao xito dessas coisas possveis as
terrveis teorias da Montanha, que no recuavam diante de
nenhum meio.

- Bom, deve ser isso - sugeriu Monte-Cristo. - O Sr. Noirtier
e o Sr. de Epinay devem ter-se digladiado no campo da
poltica. O Sr. General de Epinay, embora tivesse servido no
tempo de Napoleo, no guardaria no fundo do corao
sentimentos monrquicos? No foi o mesmo que assassinaram numa
noite,  sada de um clube napolenico, onde o tinham atrado
na esperana de encontrar nele um adepto?

Villefort fitou o conde quase com terror:

- Engano-me? - perguntou Monte-Cristo.

- No, senhor - respondeu a Sr.a de Villefort. - Pelo
contrrio, foi mesmo assim que as coisas se passaram. E foi
tambm devido ao que acaba de dizer que, para acabar com
velhos dios, o Sr. de Villefort teve a ideia de levar a
amarem-se dois filhos cujos pais se tinham odiado.

- Uma ideia sublime! - exclamou Monte-Cristo. - Uma ideia
cheia de caridade e que o mundo devia aplaudir. Com efeito,
seria bonito ver Mademoiselle Noirtier de Villefort chamar-se
Sr.a Franz de Epinay.

Villefort estremeceu e fitou Monte-Cristo como se quisesse
ler-lhe no fundo do corao a inteno que lhe ditara as
palavras que acabava de preferir.

Mas o conde conservou o benvolo sorriso estereotipado que
tinha nos lbios e ainda desta vez, apesar da acuidade do seu
olhar, o procurador rgio no viu para l da epiderme.

- Por isso, -- prosseguiu Villefort --, embora seja uma grande
perda para Valentine ficar sem a fortuna do av, no creio que
o casamento fique sem eleito. O Sr. de Epinay no recuar
diante desse contratempo pecunirio, estou certo; ver que
valho mais do que esse dinheiro, uma vez que o sacrifico ao
desejo de lhe manter a minha palavra. Alm disso, calcular
que Valentine  rica por herana da me, administrada pelo Sr.
e pela Sr.a de Saint-Mran, seus avs maternos, que a amam
ternamente.

- E que merecem bem que os amem e os tratem como Valentine tem
tratado o Sr. Noirtier - disse a Sr.a de Villefort. - De
resto, devem vir a Paris no mximo dentro de um ms e, depois
de tal afronta, Valentine ser dispensada de se enterrar, como
tem feito at aqui, junto do Sr. Noirtier.

O conde escutava com complacncia a voz dissonante daqueles
amores prprios feridos e daqueles interesses prejudicados.

- Parece-me, no entanto - disse Monte-Cristo, aps um
instante de silncio --, e peo-lhes antecipadamente perdo do
que vou dizer, parece-me que o Sr. Noirtier deserda
Mademoiselle de Villefort por a considerar culpada de querer
casar com um rapaz cujo pai detestou, no tem a mesma razo de
queixa da parte do querido douard...

- Pois no  verdade, senhor? - apressou-se a concordar a Sr.a
de Villefort, com uma intonao impossvel de descrever. - No
 verdade que  injusto? O pobre douard tambm  neto do Sr.
Noirtier, tanto como Valentine, e no entanto, se Valentine no
casasse com o Sr. Franz., o Sr Noirtier deixava-lhe tudo o que
possui. Alm disso, douard  o continuador do nome da
famlia o que no impede que, mesmo supondo que Valentine seja
efectivamente deserdada pelo av, ela seja ainda trs vezes
mais rica do que ele.

Depois deste golpe, o conde escutou e no disse mais nada.

- Pronto - interveio Villefort. - Pronto, Sr. Conde, ponhamos
de parte, peo-lhe, estas misrias de famlia. Sim,  verdade,
a minha fortuna vai aumentar os rendimentos dos pobres, que
so hoje os verdadeiros ricos. Sim, meu pai frustrar-me- uma
esperana legitima e sem qualquer razo. Mas procederei como
um homem de bem, como um homem de corao. O Sr. de Epinay, a
quem prometera o rendimento desse dinheiro, receb-lo-, nem
que tenha de me impo as mais cruis privaes.

- Entretanto - prosseguiu a Sr.a de Villefort, voltando 
nica ideia que lhe murmurava constantemente no fundo do
corao - , talvez fosse melhor comunicar este contratempo ao
Sr. de Epinay, para o caso de ele prprio se querer desobrigar
da sua palavra...

- Mas isso seria uma grande desgraa! - exclamou Villefort.

- Uma grande desgraa? - repetiu Monte-Cristo.

- Sem dvida - prosseguiu Villefort, acalmando-se. - Um
casamento anulado, mesmo por motivos de dinheiro, lana o
descrdito sobre uma rapariga. Alm disso, voltariam a ganhar
consistncia antigos boatos que desejo extinguir. Mas no,
isso no acontecer. Se o Sr. de Epinay for um homem honesto,
considerar-se- ainda mais comprometido pela deserdao de
Valentine do que anteriormente. De contrrio, procederia
apenas como se tivesse em vista um simples objectivo de
cupidez. No,  impossvel.

- Penso como o Sr. de Villefort - declarou Monte-Cristo,
olhando para a Sr.a de Villefort. - E se me pudesse considerar
suficientemente seu amigo para me permitir dar-lhe um
conselho, convid-lo-ia, uma vez que o Sr. de Epinay vai
regressar, pelo menos segundo me disseram, a atar to
solidamente esses laos que nunca mais se pudessem desatar.
Por ltimo, empenhar-me-ia em conseguir que tudo terminasse da
forma mais honrosa possvel para o Sr. de Villefort.

Este ltimo levantou-se, dominado por visvel satisfao,
enquanto a mulher empalidecia ligeiramente.

- Era exactamente isso que exigiria e esperaria de um
conselheiro como o senhor - disse, estendendo a mo a
Monte-Cristo. - Portanto, que toda a gente aqui considere o
que se passou hoje como se no tivesse acontecido. No h
qualquer alterao nos nossos projectos.

- Senhor - disse o conde --, o mundo, por mais injusto que
seja, saber, garanto-lhe, ter na devida conta a sua
resoluo. Os seus amigos sentir-se-o orgulhosos e o Sr. de
Epinay, se tiver de aceitar Mademoiselle de Villefort sem
dote, o que decerto no acontecer, ficar encantado por
entrar numa famlia onde as pessoas sabem elevar-se  altura
de tais sacrifcios para cumprir a sua palavra e o seu dever.

Ao mesmo tempo que dizia isto, o conde levantava-se retirar.
e preparava-se para se

- J nos deixa Sr. Conde? - perguntou a Sr.a de Villefort.

- Sou obrigado a isso minha senhora. Vim apenas recordar-lhes
a sua promessa para sbado.

- Receava que a esquecssemos?

- A senhora  demasiado bondosa, mas o Sr. de Villefort tem
to graves e por vezes to urgentes ocupaes...

- O meu marido deu a sua palavra, senhor -
redarguiu a Sr.a de Villefort. - Ora, se, como acaba de ver, a
mantm quando tem tudo a perder, com mais forte razo a
cumprir quando tem tudo a ganhar.

- A reunio  na sua casa dos Campos Elsios? - perguntou
Villefort.

- No - respondeu Monte-Cristo --, e  isso que torna a sua
aceitao ainda mais meritria.  no campo.

- No campo?

- sim.

- Mas onde? Suponho que perto de Paris...

- s portas, a uma meia hora da barreira, em Auteuil.

- Em Auteuil! - exclamou Villefort. - Ah,  verdade, a minha
mulher j me tinha dito que o senhor tencionava residir em
Auteuil e que fora para sua casa que a tinham transportado! E
em que stio de Auteuil?

- Na Rua de la Fontaine.

- Na Rua de la Fontaine! - repetiu Villefort, com voz.
estrangulada. - e em que nmero?

- No 28.

- Nesse caso... foi ao senhor que venderam a casa do Sr. de
Saint-Mran?

- Do Sr. de Saint-Mran? - perguntou Monte-Cristo. - Aquela
casa pertencia ao Sr. de Saint-Mran?

- Pertencia - respondeu a Sr.a de Villefort. E quer saber uma
coisa, Sr. Conde?

- Qual?

- Acha essa casa bonita, no  verdade?

- Encantadora.

- Pois o meu marido nunca l quis morar.

- Oh! - exclamou Monte-Cristo. - Na verdade, senhor, trata-se
de uma preveno que no compreendo.

- No gosto de Auteuil - respondeu o procurador rgio, fazendo
um esforo sobre si mesmo.

- Espero no entanto no ter a pouca sorte de me ver privado do
prazer de o receber por causa dessa antipatia... - disse
Monte-Cristo com inquietao.

- No, Sr. Conde. Tenho esperana... creia que farei tudo o
que puder - balbuciou Villefort.

- No admito desculpas - respondeu Monte-Cristo. -
Espero-o no sbado s seis horas e se no for julgarei... sei
l...
julgarei que pesa sobre aquela casa desabitada h mais de
vinte anos alguma lgubre tradio, alguma lenda sangrenta.


- Irei, Sr. Conde, irei - prometeu vivamente Villefort.

- Obrigado - disse Monte-Cristo. - Agora, permitam-me que me
retire.

- De facto, j nos tinha dito que era obrigado a deixar-nos,
Sr. Conde -   declarou a Sr.a de Villefort --, e at, se me
no engano, ia a dizer-nos o motivo por que se retirava quando
se interrompeu para passar a outra ideia.

- Na verdade, minha senhora - respondeu Monte-Cristo
--, no sei se me atreva a dizer-lhe aonde vou.

- Ora, diga sempre!

- Vou, como autntico papalvo que sou, visitar uma coisa que
muitas vezes me tem feito sonhar horas inteiras.

- Qual?

- Um telgrafo. Pronto, l me desca com a lngua!

- Um telgrafo! - repetiu a Sr.a de Villefort.

- Sim, meu Deus, um telgrafo. s vezes vejo na extremidade
de um caminho, num outeiro, debaixo de um belo sol,
erguerem-se uns braos negros e dobrveis, semelhantes s
patas de um enorme coleptero, e nunca os vejo sem emoo,
juro-lhe, pois julgava que esses sinais estranhos que cruzam o
ar com preciso e levam a trezentas lguas de distancia a
vontade desconhecida de um homem sentado diante de uma mesa a
outro homem sentado na extremidade da linha diante doutra
mesa, se desenhavam no cinzento das nuvens ou no azul do cu
apenas pela fora de vontade de um chefe todo-poderoso.
Acreditava ento nos gnios, nos silfos, nos gnomos, nos
poderes ocultos, enfim, e ria. ora, nunca me dera na veneta
ver de perto esses grandes insectos de ventre branco e patas
negras e magras, porque receava encontrar-lhes debaixo das
asas de pedra um geniozinho humano emproado, pretensioso,
repleto de cincia, de cabala ou feiticeira. At que uma bela
manh soube que o motor de cada telgrafo era o pobre diabo de
um funcionrio que ganhava mil e duzentos francos por ano para
olhar durante todo o dia, no o cu, como um astrnomo, no a
gua, como um pescador, no a paisagem, como um crebro oco,
mas sim o insecto de ventre branco e patas negras seu
correspondente, colocado a cerca de quatro ou cinco lguas de
distncia. Ento, senti-me dominado por um desejo curioso de
ver de perto essa crislida viva e de assistir ao espectculo
que do fundo do seu casulo d  outra crislida, puxando uma
aps outra algumas pontas de corda.

- E vai l?

- Vou.

- A que telgrafo? Ao do Ministrio do Interior ou ao do
Observatrio?

- Oh, no! Encontraria l pessoas que quereriam obrigar-me a
compreender coisas que prefiro ignorar, e que me explicariam,
malgrado meu, um mistrio que no conhecem. Apre! Acho melhor
conservar as iluses que ainda tenho a respeito dos insectos;
basta-me ter j perdido as que tinha acerca dos homens. No
irei portanto nem ao telgrafo do Ministrio do Interior, nem
ao telgrafo do Observatrio. Prefiro o telgrafo em pleno
campo, com o puro homenzinho petrificado na sua torre.

- Nunca vi um grande senhor to singular - observou Villefort.

- Que linha me aconselha a estudar?

- A mais ocupada a esta hora.

- Nesse caso, a de Espanha, no?

- Exactamente. Quer uma carta do ministro para que lhe
expliquem...

- No, no! - recusou Monte-Cristo. - Se lhe digo que, pelo
contrrio, no quero compreender nada daquilo. No momento em
que compreendesse  qualquer coisa, adeus telgrafo, no
haveria nem mais um sinal do Sr. Duchtel
ou do Sr. de Montalivet transmitido ao prefeito de Baiona a
coberto de duas palavras gregas: tele e graphein. Quero
conservar em toda a sua pureza e em toda a minha venerao o
animal das patas negras e a palavra assustadora.

- Sendo assim, v, pois dentro de duas horas anoitecer e j
no ver nada.

- Demnio, assusta-me. Qual  o mais prximo? Na estrada de
Baiona?

- Sim v pela estrada de Baiona.

-  o de Chtillon?
sim.

-- E depois do de Chtillon?

- O da torre de Montlhry, creio.

- Obrigado e at  vista! No sbado contar-lhe-ei as minhas
impresses.

 porta, o conde encontrou-se com os dois notrios que
acabavam de deserdar Valentine e se retiravam encantados por
terem presidido a um acto que no podia deixar de lhes
proporcionar grande honra.


Captulo LXI

Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares
que lhe comem os pssegos


No na mesma tarde, como dissera, mas sim no dia seguinte, o
conde de Monte-Cristo saiu pela barreira do Inferno, tomou a
estrada de Orlees, passou pela aldeia de Linas sem se deter
no telgrafo, que precisamente no momento da passagem do conde
movia os seus longos braos descarnados, e alcanou a torre de
Montlhry, situada, como toda a gente sabe, no ponto mais
elevado da plancie do mesmo nome.

Ao p da colina o conde apeou-se e, por um carreirinho
circular, de dezoito polegadas de largura, comeou a subir a
encosta. Chegado ao cimo, viu-se detido por uma sebe na qual
frutos verdes tinham sucedido s flores cor-de-rosa e brancas.

Monte-Cristo procurou a porta do pequeno recinto e no tardou
a encontr-la. Era uma cancelinha de madeira que girava em
gonzos de vime e se fechava com um prego e um cordel.

O conde no tardou a descobrir o funcionamento do "mecanismo"
e a porta abriu-se.

Monte-Cristo encontrou-se ento num jardinzito de vinte ps
de comprimento por doze de largura, limitado por um lado pela
parte da sebe em que se enquadrava o engenhoso maquinismo que
descrevemos sob o nome de porta e pelo outro pela velha torre
rodeada de hera, toda salpicada de mostarda-brava e goivos.

Ningum diria, ao v-la assim engelhada e florida como uma av
a quem os netinhos acabassem de dar os parabns pelo seu
aniversrio, que poderia contar  muitos dramas terrveis se
juntasse uma voz aos ouvidos ameaadores que um velho
provrbio atribui s muralhas.

Percorria-se o jardim seguindo por uma alameda coberta de
saibro vermelho, ladeada de espessa sebe de luxo de vrios
tons, que teriam deliciado os olhos de Delacroix, o nosso
Ruhens moderno. A alameda tinha a forma de um X e serpenteava
continuamente de forma a abrir num jardim de vinte ps um
passeio de sessenta. Nunca Flora, a alegre e fresca deusa dos
bons jardineiros latinos, fora honrada com um culto to
minucioso e puro como o que lhe prestavam naquele
recintozinho.

Com efeito, de vinte roseiras que compunham os canteiros nem
uma folha apresentava sinal de mosca, nem uma hastezinha o
pequeno cacho de pulges-verdes que devastam e roem as plantas
que vegetam em terreno hmido. No entanto, no era a humidade
o que faltava naquele jardim a terra negra como fuligem e a
folhagem opaca das rvores bem o denunciavam. Alis, a
humidade artificial substituiria rapidamente a humidade
natural, se fosse preciso, graas ao casco cheio de gua
estagnada que escavava um dos cantos do jardim e no qual
estacionavam, numa toalha verde, uma r e um sapo, que, por
incompatibilidade de humor, sem dvida, se conservavam sempre,
de costas um para o outro, nos dois pontos opostos do crculo.

Alm disso, nem uma erva nas alamedas, nem um rebento parasita
nas guarnies dos canteiros. Uma elegante pretensiosa
arranjaria e podaria com menos cuidado os gernios, os cactos
e os rododendros da sua jardineira de porcelana do que o dono
at ento invisvel do pequeno recinto.

Monte-Cristo parou depois de fechar a porta prendendo o
cordel no prego e abarcou num olhar toda a propriedade.
"Parece que o homem do telgrafo tem jardineiros contratados
ao ano ou ento que se dedica apaixonadamente  jardinagem",
disse para consigo.

De sbito, esbarrou com qualquer coisa agachada atrs de um
carrinho de mo carregado de folhas. Essa qualquer coisa
endireitou-se, deixou escapar uma exclamao que denotava a
sua surpresa e Monte-Cristo encontrou-se diante de um
homenzinho dos seus cinquenta anos que apanhava morangos que
colocava em cima de folhas de videira.

Ao levantar-se, o pobre homem quase deixou cair morangos,
folhas e prato.

- Est a fazer a sua colheita, senhor? - perguntou
Monte-Cristo, sorrindo.

- Perdo, senhor - respondeu o homenzinho, levando a mo ao
bon --, no estou l em cima,  certo, mas acabo de descer
neste preciso instante.

- No quero incomod-lo em nada, meu amigo - tranquilizou-o o
conde. - Apanhe os seus morangos  vontade, se ainda no
acabou.

- Faltam-me dez - disse o homem. - Esto aqui onze e ao todo
so vinte e um, mais cinco do que o ano passado. Mas no
admira, este ano a Primavera foi quente e os morangos precisam
de calor. A est porque, cm vez dos dezasseis que tive o ano
passado, este ano tenho, como v, onze j colhidos... doze,
treze, catorze, quinze, dezasseis, dezassete, dezoito,
dezanove... Oh, meu Deus, faltam-me dois! E ainda c estavam
ontem, senhor; estavam, tenho a certeza, porque os contei.
Oxal no tenha sido o filho da Tia Simon que mos roubou; vi-o
a rondar por aqui esta manh... Grande patife, roubar num
recinto fechado! Bem se v que no sabe onde isso o pode
levar.

- De facto - concordou Monte-Cristo - o caso  grave, mas o
senhor ter em conta a juventude do delinquente e a sua
gulodice.

- Claro - respondeu o jardineiro. - Mas mesmo assim, o caso
no deixa de ser muito desagradvel. Oh, mais uma vez perdo,
senhor?  talvez um chefe que fao esperar assim?...

E interrogava com um olhar receoso o conde e a sua sobrecasaca
azul.

- Tranquilize-se, meu amigo - respondeu o conde com aquele
sorriso que tornava  sua vontade to terrvel e to
benevolente, e que desta vez s exprimia benevolncia - no
sou um chefe vindo para o inspeccionar, mas sim um simples
viajante levado pela curiosidade e que comea at a
arrepender-se da sua visita por ver que lhe faz perder o seu
tempo.

- Oh, o meu tempo no vale muito! - replicou o homenzinho, com
um sorriso melanclico. - No entanto,  o tempo do Governo e
no deveria perd-lo, mas como recebi o sinal de que podia
descansar uma hora... - e olhou para o relgio de sol, porque
havia de tudo no recinto da torre de Montlhry, at um relgio
de sol - e como v ainda disponho, de dez minutos... Alm
disso, os meus morangos estavam maduros, e mais um dia...
Acha, senhor, que so os ratos que mos comem?

- Creio que no - respondeu Monte-Cristo, gravemente. -  mas
 m vizinhana, essa dos ratos-dos-pomares, sobretudo para
ns que no os comemos barrados de mel, como faziam os
Romanos.

- Ah! Os Romanos comiam-nos? - admirou-se o jardineiro.
Comiam os ratos-dos-pomares?

- Li-o em Petrnio - respondeu o conde.

- Deveras? No devem saber bem, embora os haja bem gordos. E
no admira que sejam gordos, atendendo a que dormem todo o
santo dia e s acordam para roer toda a noite. Olhe, o ano
passado tinha quatro adamasqueiros; atacaram-me um. E tinha
tambm um pessegueiro, um s, desses que do pssegos-carecas,
um fruto raro... Pois bem, senhor, devoraram-me metade dele do
lado da muralha. Um pessegueiro soberbo e que dava uns
pssegos excelentes. Nunca comi outros melhores.

- Comeu-os? - perguntou Monte-Cristo.

- Quero dizer, comi a metade que restava, como deve compre
nder. Eram deliciosos, senhor! Claro, esses cavalheiros no
escolhem os piores bocados. So como o filho da Tia Simon, que
tambm no escolheu os piores morangos, isso sim! Mas este ano
- continuou o jardineiro - pode estar tranquilo que isso no
me acontecer, nem que eu tenha, quando os frutos estiverem
quase maduros, de passar a noite a guard-los.

Monte-Cristo j vira o bastante. Cada homem tem a sua paixo
que o ri no fundo do corao, assim como cada fruto tem o seu
bicho. A paixo do homem do telgrafo era a pomicultura.
Ps-se a colher as folhas da videira que ocultavam os cachos
do sol e conquistou assim o corao do jardineiro.

- O senhor veio para ver o telgrafo? - perguntou o
homenzinho.

- Vim, se isso no  proibido pelos regulamentos.

- De modo nenhum - respondeu o jardineiro --, atendendo a que
no h nada de perigoso, pois ningum sabe nem pode saber o
que transmitimos.

- De facto, disseram-me - prosseguiu o conde - que os senhores
repetem sinais que so os primeiros a no compreender.

- Claro, senhor, e por mim prefiro que seja assim - respondeu,
rindo, o homem do telgrafo.

- Porque prefere que seja assim?

- Porque assim no tenho responsabilidades. Sou apenas uma
mquina, e mais nada, e desde que funcione,  tudo, quanto me
exigem.

"Demnio!", disse Monte-Cristo para consigo mesmo. "Terei por
acaso deparado com um homem sem ambies? Irra, seria
demasiada pouca sorte!"

- Senhor - disse o jardineiro, deitando uma olhadela ao
relgio de sol --, os dez minutos esto a acabar e tenho de
regressar ao meu posto. Gostaria de subir comigo?

- Acompanho-o.

Com efeito, Monte-Cristo entrou na torre, dividida em trs
andares. O de baixo continha algumas alfaias agrcolas, tais
como enxadas, ancinhos e regadores, encostadas  muralha, e
mais nada.

O segundo era a residncia habitual, ou antes, nocturna, do
funcionrio. Continha alguns pobres utenslios domsticos, uma
cama, uma mesa, duas cadoiras, uma bilha de barro e algumas
ervas secas pendentes do tecto, e que o conde identificou como
ervilhas-de-cheiro e feijoeiros-escarlates, cujas sementes o
homenzinho conservava na sua vagem, tudo etiquetado com um
cuidado que faria inveja a um tcnico do Jardim Botnico.

-  preciso muito tempo para aprender telegrafia, senhor? -
indagou Monte-Cristo.

- No, a aprendizagem no  longa, o que  longo  o tempo que
se passa como supranumerrio.

-- e quanto ganham?

- Mil francos, senhor.

- No  muito...

- Pois no, mas temos alojamento, como v.

Monte-Cristo olhou o quarto.

- Oxal que no esteja agarrado a isto - murmurou.

Passaram ao terceiro andar: era a sala do telgrafo.
Monte-Cristo olhou alternadamente os dois manpulos de ferro
com o auxlio dos quais o funcionrio fazia trabalhar a
mquina.

- Isto  muito interessante - disse --, mas com o tempo esta
vida no lhe parecer um bocado inspida?

- Sim, ao princpio tm-se torcicolos  fora de olhar, mas ao
cabo de um ano ou dois acostumamo-nos. Alm disso, temos as
nossas horas de folga e os nossos dias de descanso.

- Dias de descanso?

- Sim.

- Quais?

- Aqueles em que h nevoeiro.

- Ah, tem razo!

- So os meus dias de festa. Nesses dias deso ao jardim e
planto, podo, aparo e dou cabo das lagartas que apanho. Em
suma, o tempo passa.

- H quanto tempo est aqui?

- H dez anos, mais cinco de supranumerrio, quinze.

- Que idade tem?

- Cinquenta e cinco anos.

- Quanto tempo de servio lhe falta para ter direito 
reforma?

- Oh, senhor, vinte e cinco anos!

- E de quanto  a penso?

- Cem escudos (1).

(1) Escudos franceses da poca: trezentos francos. (n. do T.)

- Pobre humanidade! - murmurou Monte-Cristo.

- Que diz, senhor?... - perguntou o funcionrio.

-- Digo que  muito interessante.

- O qu?

- Tudo o que me mostra... e o senhor no percebe nada,
absolutamente nada dos seus sinais?

- Absolutamente nada.

- Nunca tentou compreend-los?

- Nunca. Para qu?

- No entanto, h sinais que lhe so destinados directamente.

- Sem dvida.

- E esses compreende-os?

- So sempre os mesmos.

- E que dizem?

- "Nada de novo", "Tem uma hora", ou "At amanh"

- Nada mais simples - observou o conde. - Mas repare, no  o
seu correspondente que se est a pr em movimento?

-  verdade. Obrigado, senhor.

- Que lhe diz ele?  alguma coisa que o senhor compreenda?

- . Pergunta-me se estou pronto.

- E que lhe responde?

- Respondo-lhe com um sinal que informa ao mesmo tempo o meu
correspondente da direita que estou pronto e convida o meu
correspondente da esquerda a preparar-se por seu turno.

- Muito engenhoso - disse o conde.

- Vai ver - prosseguiu o homenzinho com orgulho. - Dentro de
cinco minutos comea a transmitir.

- Tenho portanto cinco minutos - disse Monte-Cristo. -  mais
do que preciso. Meu caro senhor - prosseguiu --, permite-me
que lhe faa uma pergunta?

- Decerto.

- Gosta da jardinagem?

- Com paixo.

- E seria feliz se em vez de ter um bocado de terreno de vinte
ps tivesse um recinto de duas jeiras?

- Senhor, faria dele um paraso terrestre.

- Vive mal com os seus mil francos?

- Bastante mal. Mas enfim, vivo...

- Pois sim, mas tem apenas um jardim miservel.

- L isso  verdade; o jardim no  grande.

- E mesmo assim, tal como , est minado de ratos que lhe
devoram tudo.

- Isso  o meu flagelo.

- Diga-me uma coisa: se por descuido virasse a cabea quando o
correspondente da direita comeasse a transmitir, que
aconteceria?

- No o veria.

- E que aconteceria?

- No poderia repetir os sinais.

- E depois?

- No os tendo repetido por negligncia, seria multado.

- Em quanto?

- Cem francos.

- A dcima parte do seu vencimento. Bonito!

- Ah! - suspirou o funcionrio.

- J lhe aconteceu isso? - perguntou Monte-Cristo.

- Uma vez, senhor, uma vez, em que me entretive a enxertar uma
roseira cor de avel.

- Bem. E agora, se se atrevesse a alterar qualquer coisa ao
sinal ou a transmitir outro?

- Nesse caso, seria diferente: seria despedido e perderia a
minha penso.

- Trezentos francos?

- Cem escudos, sim, senhor. Portanto, como deve compreender,
nunca farei semelhante coisa.

- Nem mesmo por quinze anos dos seus vencimentos?
Vejamos,  caso para pensar, hem?

- Por quinze mil francos?

- Sim.

- O senhor assusta-me.

- Ora!

- O senhor quer-me tentar?

- Exactamente! Quinze mil francos, compreende?

- Senhor, deixe-me olhar o meu correspondente da direita!

- Pelo contrrio, no olhe para ele, olhe para isto.

- Que  isto?

- Como! No conhece estes papelinhos?

- Notas!

- Autnticas. Esto aqui quinze.

- Para quem so?

- Para si, se quiser.

- Para mim?! - gritou o funcionrio, sufocado.

- Meu Deus, sim, para si e em propriedade plena.

- Senhor, o meu correspondente da direita est a transmitir.

- Deixe-o transmitir.

- O senhor distraiu-me e vou ser multado.

- O que lhe custar cem francos. Bem v que tem todo o
interesse em aceitar as minhas quinze notas.

- Senhor, o meu correspondente da direita impacienta-se e
repete os seus sinais.

- Deixe-o repetir e pegue neste dinheiro.

O conde meteu o mao na mo do funcionrio.

- Mas isto ainda no  tudo. Os quinze mil francos no lhe
dariam para viver.

-- Continuaria a ter o meu lugar.

- No, perd-lo-, porque vai transmitir um sinal diferente do
do seu correspondente.

- Oh, senhor, que pretende de mim?

- Uma brincadeira de criana.

- Senhor, a no ser que seja obrigado a isso...

- Espero obrig-lo, efectivamente.

E Monte-Cristo tirou da algibeira outro mao de notas.

- Aqui esto mais dez mil francos - disse. - Com os quinze mil
que tem na algibeira, so vinte e cinco mil. Com cinco mil
francos comprar uma bonita casinha e duas jeiras de terra;
com os restantes vinte mil, arranjar mil francos de
rendimento.

- Um jardim de duas jeiras?

- E mil francos de rendimento.

- Meu Deus! Meu Deus!

- Tome, vamos!

E Monte-Cristo meteu  fora os dez mil francos na mo do
funcionrio.

- Que devo lazer?

- Nada muito difcil.

- Mas mesmo assim...

- Repetir estes sinais.

Monte-Cristo tirou da algibeira um papel com trs sinais
traados e nmeros a indicar a ordem por que deviam ser
transmitidos.

- No levar muito tempo, como v.

- Pois no, mas...

- Se quer ter pssegos-carecas tem de os merecer, assim como o
resto.

O homenzinho decidiu-se. Rubro de excitao e suando por todos
os poros, executou um aps outro os trs sinais dados pelo
conde, apesar das horrveis deslocaes do correspondente da
direita, que, no compreendendo nada daquela troca de sinais,
comeava a crer que o homem dos pssegos enlouquecera.

Quanto ao correspondente da esquerda, repetiu
conscienciosamente os mesmos sinais, que foram recebidos
definitivamente no Ministrio do Interior.

- Pronto, agora est rico - disse Monte-Cristo.

- Pois sim - respondeu o funcionrio --, mas porque preo!

- Escute, meu amigo - redarguiu Monte-Cristo --, no quero
que tenha remorsos. Acredite, porque lho juro, que no fez mal
a ningum e serviu os planos de Deus.

O funcionrio olhava as notas, apalpava-as, contava-as. To
depressa estava plido como estava corado. Por fim,
precipitou-se para o seu quarto, a fim de beber um copo de
gua. Mas no teve tempo de chegar  bilha; desmaiou no meio
dos feijes secos.

Cinco minutos depois de a notcia telegrfica chegar ao
ministrio, Debray mandou atrelar os cavalos ao seu cup e
correu a casa de Danglars.

- O seu marido tem cupes do emprstimo espanhol? - perguntou
 baronesa.

-- Creio que sim! Cerca de seis milhes.

- Que os venda por qualquer preo.

- Porqu?

- Porque D. Carlos fugiu de Burges e regressou a Espanha.

- Como sabe disso?

- Com a breca, como sei as notcias! - redarguiu Debray,
encolhendo os ombros.

A baronesa no esperou que ele repetisse a recomendao:
correu ao encontro do marido, o qual correu por sua vez a casa
do seu corrector, a quem ordenou que vendesse os cupes por
qualquer preo.

Quando se soube que o Sr. Danglars vendia, os fundos espanhis
baixaram imediatamente. Danglars perdeu quinhentos mil
francos, mas desembaraou-se de todos os seus cupes.

 tarde leu-se no messager:

despacho telegrfico. - O rei D. Carlos escapou 
vigilncia que se exercia sobre ele em Burges e regressou a
Espanha pela fronteira da Catalunha. Barcelona sublevou-se a
seu favor.

Durante toda a noite s se falou da previso de Danglars, que
vendera os seus cupes, e da sorte do especulador, que perdia
apenas quinhentos mil francos com semelhante golpe.

Aqueles que tinham conservado os seus cupes ou comprado os de
Danglars consideraram-se arruinados e passaram uma m noite.

No dia seguinte leu-se no Moniteur:

Foi sem qualquer fundamento que o Messager anunciou ontem a
fuga de D. Carlos e a revolta de Barcelona

O rei D. Carlos no saiu de Burges e a Pennsula goza da mais
profunda tranquilidade.

Um sinal telegrfico mal interpretado, devido ao nevoeiro, deu
origem a este erro.


Os fundos subiram para o dobro do valor a que tinham descido,
o que acarretou a Danglars, entre prejuzos e lucros perdidos,
um milho a menos.

- Bom - disse Monte-Cristo a Morrel, que se encontrava em sua
casa no momento em que foi anunciada a singular reviravolta de
bolsa de que Danglars fora vtima --, acabo de fazer por vinte
e cinco mil francos uma descoberta por que pagaria cem mil.

- Que descobriu? - perguntou Maximilien.

- Descobri o meio de livrar um jardineiro dos
ratos-dos-pomares que lhe comiam os pssegos.


Captulo LXII

Os fantasmas


 primeira vista, e examinada de fora, a casa de Auteuil no
tinha nada de esplndida, nada do que se poderia esperar de
uma residncia destinada ao magnfico conde de Monte-Cristo.
Mas tal simplicidade devia-se  vontade do proprietrio, que
ordenara taxativamente que nada fosse mudado no exterior. Mas
o exterior era o exterior e o interior era o interior, como
era fcil de demonstrar. Com eleito, mal se abria a porta, o
espectculo mudava.

O Sr. Bertuccio excedera-se a si mesmo no bom gosto das
decoraes e na rapidez da execuo. Assim como outrora o
duque de Antin mandara abater numa noite uma alameda de
rvores que incomodava a vista de Lus XIV tambm em trs dias
o Sr. Bertuccio mandara encher de plantas um ptio
inteiramente nu, e belos lamos e sicmoros, trazidos com os
seus enormes blocos de razes, sombreavam a fachada principal
da casa, diante da qual em vez de pedras semiocultas pelas
ervas, se estendia um tapete de relva cujas placas tinham sido
colocadas naquela mesma manh, tapete vasto ainda perlado da
gua com que tora regado.

Quanto ao resto, as ordens provinham do conde. Ele prprio
entregara a Bertuccio uma planta onde estavam indicados o
nmero e a localizao das rvores que deviam ser plantadas,
bem como a forma e o espao do relvado que devia suceder 
calada.

Vista assim, a casa tornara-se irreconhecvel, e o prprio
Bertuccio protestava que j a no reconhecia, assim metida na
sua moldura de vegetao.

O intendente no desgostaria, enquanto ali estava, de fazer
algumas transformaes no jardim, mas o conde proibira-o
taxativamente de tocar fosse no que fosse. Bertuccio vingou-se
enchendo de flores as antecmaras, as escadas e as chamins.

O que denotava a extrema habilidade do intendente e a profunda
cincia do amo, um para servir e o outro para se fazer servir,
era o facto de aquela casa, deserta havia vinte anos, to
sombria e to triste ainda na vspera, toda impregnada do
cheiro a mofo que se poderia chamar odor do tempo, ter
adquirido num dia, com o aspecto da vida, os aromas preferidos
do proprietrio e at o seu grau de luminosidade favorito.
Porque o conde, quando chegasse, teria ali, ao alcance da mo,
os seus livros e as suas armas, diante dos olhos os seus
quadros preferidos e nas antecmaras o co de cujas carcias
gostava e os pssaros cujo canto apreciava. Porque toda aquela
casa, acordada do seu longo sono como o palcio da Bela do
Bosque Adormecido, vivia, cantava, expandia-se, semelhante a
essas casas que amamos h muito tempo e nas quais, quando por
infelicidade as deixamos, fica involuntariamente parte da
nossa alma.

Os criados iam e vinham contentes naquele belo ptio: uns, j
senhores das cozinhas, cirandavam, como se sempre tivessem
morado naquela casa, pelas escadas restauradas na vspera;
outros enchiam as cocheiras, onde as carruagens, numeradas e
arrumadas, pareciam instaladas havia cinquenta anos, e outros
ainda percorriam as cavalarias, onde os cavalos, 
manjedoura, respondiam  relinchando aos moos de estrebaria
que lhes talavam com infinitamente mais respeito do que muitos
criados falam aos amos.

A biblioteca estava disposta em dois corpos, de ambos os lados
da parede, e continha cerca de dois mil volumes. Uma seco
inteira estava destinada aos romances modernos e o que sara
na vspera j estava arrumado no seu lugar, pavoneando-se na
sua encadernao vermelha e ouro.

Do outro lado da casa, no mesmo plano da biblioteca, ficava a
estufa, guarnecida de plantas raras que vegetavam em grandes
jarres japoneses, e no meio da estufa, maravilha ao mesmo
tempo da vista e do olfacto, um bilhar que dir-se-ia
abandonado havia uma hora no mximo pelos jogadores, que
tinham deixado as bolas imobilizarem-se no tapete.

Apenas um quarto fora respeitado pelo magnfico Bertuccio.
Diante desse quarto, situado no canto esquerdo do primeiro
andar e ao qual se podia subir pela escada secreta, os criados
passavam com curiosidade e Bertuccio com terror.

s cinco horas exactas, acompanhado de Ali, o conde chegou
diante da casa de Auteuil. Bertuccio esperava a sua chegada
com uma impacincia laivada de inquietao Esperava alguns
cumprimentos, mas tambm temia uma franzidela de sobrolho.

Monte-Cristo apeou-se no ptio, percorreu toda a casa e deu a
volta ao jardim, silencioso e sem exteriorizar o menor sinal
de aprovao ou descontentamento.

Apenas quando entrou no seu quarto, situado do lado oposto ao
quarto fechado, estendeu a mo para a gaveta de um movelzinho
de pau-rosa, que j lhe chamara a ateno na sua primeira
visita.

- Isto s pode servir para guardar luvas - disse.

- Com efeito, Excelncia - respondeu Bertuccio, encantado. -
Se a abrir, encontrar luvas.

Nos outros mveis o conde encontrou tambm o que esperava
encontrar: garrafas, charutos, jias.

- Muito bem! - disse novamente.

E o Sr. Bertuccio retirou-se encantado, to grande era o poder
e real a influncia daquele homem sobre tudo o que o rodeava.

s seis horas exactas ouviu-se tropear um cavalo diante da
porta de entrada. Era o nosso capito de sipaios, que chegava
montado em Mdah.

Monte-Cristo esperava-o na escadaria, de sorriso nos lbios.

- Tenho a certeza de que sou o primeiro a chegar!-gritou-lhe
Morrel. - Vim propositadamente mais cedo para o ter um
instante para mim s, antes de toda a gente. Julie e Emmanuel
mandam-lhe milhes de cumprimentos. Ah! Sabe que tudo isto
aqui  magnfico? Diga-me uma coisa, conde: a sua gente
cuidar do meu cavalo como deve ser?

- Esteja tranquilo, meu caro Maximilien, eles sabem o que
fazem.

-  que ele precisa de ser esfregado com palha. Se visse o
andamento que trouxe! Uma verdadeira tromba!

- Acredito. Nem outra coisa era de esperar de um cavalo de
cinco mil francos! - redarguiu Monte-Cristo, no tom em que um
pai falaria a um filho.

- Lamenta-os? - perguntou Morrel, com um sorriso franco.

- Eu? Deus me defenda! - respondeu o conde. - No. S
lamentaria que o cavalo no fosse bom.

-  to bom, meu caro conde, que o Sr. de Chteau-Renaud, o
homem mais conhecedor de Frana, e o Sr. Debray, que monta os
rabes do ministrio, correm atrs de mim neste momento, um
pouco distanciados, como v, e ainda so seguidos pelos
cavalos da baronesa Danglars, que vm num trote que lhes
permite percorrer com facilidade as suas seis lguas por hora.

- Seguem-no, ento? - perguntou Monte-Cristo.

- Olhe, a os tem!

Com efeito, naquele preciso momento um cup com a parelha toda
fumegante e dois cavalos de sela j sem flego chegavam diante
do porto da casa, que se abriu diante deles.

O cup descreveu imediatamente o seu crculo e foi parar
diante da escadaria, seguido dos dois cavaleiros.

Num instante, Debray desmontou e chegou  portinhola. Ofereceu
a mo  baronesa, que ao descer lhe fez um sinal imperceptvel
para todos, excepto para Monte-Cristo.

Mas o conde no perdia nada, e naquele gesto viu brilhar um
bilhetinho branco, to imperceptvel como o sinal, e que
passou, com uma facilidade que indicava o hbito de semelhante
manobra, da mo da Sr.a Danglars para a do secretrio do
ministro.

Atrs da mulher desceu o banqueiro, plido como se sasse do
sepulcro em vez de sair do seu cup.

A Sr.a Danglars lanou  sua volta um olhar rpido e
investigador, que Monte-Cristo foi o nico a compreender, e
no qual abarcou o ptio, o peristilo e a fachada da casa.
Depois, reprimindo uma leve emoo, que sem dvida se lhe
reflectiria no rosto se fosse permitido ao seu rosto
empalidecer, subiu a escadaria ao mesmo tempo que dizia a
Morrel:

- Se o senhor fosse um dos meus amigos, perguntar-lhe-ia se o
seu cavalo est  venda.

Morrel esboou um sorriso, que mais parecia uma careta, e
virou-se para Monte-Cristo, como se lhe suplicasse que o
tirasse do embarao em que se encontrava.

O conde compreendeu-o.

- Minha senhora - respondeu --, porque no me faz antes a mim
essa pergunta?

- Porque consigo, senhor - declarou a baronesa --, no temos o
direito de desejar seja o que for, pois estamos demasiado
certas de o obter. Por isso me dirigi ao Sr. Morrel.

- Infelizmente - prosseguiu o conde --, sou testemunha de que
o Sr. Morrel no pode ceder o seu cavalo, pois deu a sua
palavra de honra de que o conservaria.

- Como assim?

- Apostou que domaria Mdah no espao de seis meses.
Compreende agora, baronesa, que se se desfizesse dele antes do
prazo fixado na aposta no s o perderia como ainda diriam que
tinha medo? Ora um capito de sipaios no pode, mesmo para
satisfazer um capricho de uma mulher bonita, na minha opinio
uma das coisas mais sagradas deste mundo, deixar que se
espalhe semelhante boato.

- Como v, minha senhora... - disse Morrel, dirigindo a
Monte-Cristo um sorriso de reconhecimento.

- De resto, parece-me - interveio Danglars num tom desabrido
mal disfarado por um sorriso forado - que a senhora j tem,
cavalos de sobra.

No estava nos hbitos da Sr.a Danglars deixar passar
semelhantes ataques sem ripostar, e no entanto, com grande
admirao dos mais novos, fingiu no ouvir e no respondeu
nada.

Monte-Cristo sorriu do seu silncio, que denotava uma
humildade desacostumada, e mostrou  baronesa dois enormes
vasos de porcelana da China sobre os quais serpenteavam
vegetaes marinhas de um tamanho e de um trabalho tais que s
 natureza era dado possuir tanta riqueza, tanta seiva e tanta
espiritual idade.

A baronesa estava maravilhada.

- Pois sim, mas noutras mos plantar-lhes-iam l dentro um
castanheiro das Tulherias! - observou. - Como ter sido
possvel cozer alguma vez semelhantes enormidades?

- Minha senhora, no devemos fazer tal pergunta a ns
prprios, fabricantes de estatuetas e de vidro despolido com
desenhos transparentes; neste caso, trata-se de uma obra
doutros tempos, de uma espcie de criao de gnios da terra e
do mar.

- Explique-se melhor. De que poca so estes vasos?

- No sei. Apenas ouvi dizer que o imperador da China mandou
fazer um forno de propsito; que nesse forno, um aps outro,
se cozeram doze vasos idnticos a estes; que dois se quebraram
devido ao calor excessivo do lume, e que os restantes dez
foram descidos a trezentas braas no fundo do mar. Mar que,
sabendo o que se pretendia dele, lanou sobre os vasos as suas
lianas, torceu os seus corais e incrustou as suas conchas.
Tudo isto foi cimentado por uma permanncia de duzentos anos
naquelas profundezas inauditas, porque uma revoluo derrubou
o imperador que ordenara a experincia e s deixou a acta de
que constava o cozimento dos vasos e a sua descida ao fundo do
mar. Passados duzentos anos encontrou-se a acta e pensou-se
recuperar os vasos. Mergulhadores munidos de mquinas
construdas propositadamente partiram  descoberta na baa em
que tinham sido lanados; mas dos dez s se encontraram trs:
os outros tinham sido dispersos e quebrados pelas vagas. Quero
muito a estes vasos no fundo dos quais imagino s vezes que
monstros informes, assustadores, misteriosos e idnticos
queles que s os mergulhadores vem, fixaram com espanto o
seu olhar mortio e frio, e nos quais dormiram cardumes de
peixes, que neles se refugiaram para fugir  perseguio dos
seus inimigos.

Entretanto, Danglars, pouco apreciador de curiosidades,
arrancava maquinalmente, uma a uma, as flores de uma magnfica
laranjeira. E quando acabou com a laranjeira dirigiu-se para o
cacto, mas este, de temperamento menos fcil do que a
laranjeira, picou-o afrontosamente.

Ento, estremeceu e esfregou os olhos como se sasse de um
sonho.

- Senhor - disse-lhe Monte-Cristo sorrindo --, sei que 
apreciador de quadros e que tem alguns magnficos; por isso,
no lhe recomendo os meus, embora tenha aqui dois Hobbemas, um
Paul Potter, um Mieris, dois gerards Dow, um Rafael, um Van
Dyck, um Zurbaran e dois ou trs Murillos dignos de lhe serem
apresentados.

- Aqui est um Hobbema - disse Debray. - Reconheo-o.

- Sim,  verdade!

- Ofereceram-no ao museu.

- Que no tem nenhum, creio? - arriscou Monte-Cristo.

- No, e mesmo assim no o quis comprar.

- Porqu? - perguntou Chteau-Renaud.

- Voc tem graa! Porque o Governo no  suficientemente rico
para isso.

-Perdo! - desculpou-se Chteau-Renaud. - Apesar de ouvir
dizer isso todos os dias, de h oito anos a esta parte, ainda
no me consegui habituar.

- Acabar por se habituar - disse Debray.

- No me parece - respondeu Chteau-Renaud.

- O Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti! O Sr. Visconde Andrea
Cavalcanti ! - anunciou Baplistin.

De gravata de cetim preto acabada de sair das mos do
fabricante, barba acabada de fazer, bigode grisalho, olhar
atrevido e uniforme de major adornado com trs placas e cinco
cruzes, em suma, numa indumentria impecvel de velho soldado,
assim apareceu o major Bartolomeo Cavalcanti, o terno pai que
conhecemos.

Junto dele, de casaca novinha em folha, caminhava de sorriso
nos lbios o visconde Andrea Cavalcanti, o filho respeitoso
que tambm j conhecemos.

Os trs jovens conversavam juntos. Olharam para o pai e para o
filho, mas muito naturalmente os seus olhos detiveram-se mais
tempo no ltimo, que examinaram com mincia.

- Cavalcanti... - disse Debray.

- Um belo nome - acrescentou Morrel. - Que figura!

- Sim - disse Chteau-Renaud --,  verdade, os italianos
denominam-se bem, mas vestem-se mal.

- Voc  difcil de contentar, Chteau-Renaud - contraps
Debray.  -- Aquela casaca  de um excelente alfaiate e novinha
em folha.

-  precisamente isso que lhe critico Aquele cavalheiro tem ar
de quem se veste assim hoje pela primeira vez.

- Quem so aqueles senhores? - perguntou Danglars ao conde de
Monte-Cristo.

- Bem ouviu: so os Cavalcanti.

- Fico esclarecido quanto ao nome, mas mais nada.

-  verdade, o senhor no est ao corrente da nossa nobreza de
Itlia. Quem diz Cavalcanti diz estirpe de prncipes.

- Boa fortuna? - perguntou o banqueiro.

- Fabulosa.

- Que fazem?

- Procuram gast-la sem o conseguirem. Alis, tm crditos
sobre o senhor, segundo me disseram quando me visitaram
anteontem. Convidei-os at em sua inteno. Hei-de
apresentar-lhos.

- Mas parece-me que falam muito correctamente o francs -
observou Danglars.

- O filho foi educado num colgio do Meio-Dia, em Marselha ou
nos arredores, creio. Ver pelo seu entusiasmo.

- A propsito de qu? - perguntou a baronesa.

- Das francesas, minha senhora. Est absolutamente decidido a
casar em Paris.

- Que rica ideia! - exclamou Danglars, com desdm, encolhendo
os ombros.

A Sr.a Danglars fitou o marido com uma expresso que em
qualquer outro momento pressagiaria tempestade, mas pela
segunda vez calou-se.

- O baro parece hoje muito sombrio - observou Monte-Cristo 
Sr.a Danglars. - Por acaso tero querido faz-lo ministro?

- Ainda no, que eu saiba. Creio antes que jogou na Bolsa, que
perdeu e que no sabe como se justificar.

- O Sr. e a Sr.a de Villefort! - gritou Baptistin.

As duas pessoas anunciadas entraram. O Sr. de Villefort,
apesar do seu domnio sobre si mesmo, estava visivelmente
impressionado. Quando lhe apertou a mo, Monte-Cristo
sentiu-a tremer.

"Decididamente, no h como as mulheres para saberem
dissimular", disse Monte-Cristo para consigo, vendo a Sr.a
Danglars sorrir ao procurador rgio e beijar a mulher deste.

Depois dos primeiros cumprimentos, o conde viu Bertuccio, que,
ocupado at ali do lado da copa, se esgueirava para uma
salinha contgua quela onde se encontravam.

Foi ter com ele.

- Que deseja, Sr. Bertuccio? - perguntou-lhe.

- V. Ex.a no me disse quantos convidados eram.

- Ah,  verdade!

- Quantos talheres?

- Conte-os o senhor mesmo.

- J chegou toda a gente, Excelncia?

- J.

Bertuccio olhou atravs da porta entreaberta. Monte-Cristo
no o perdia de vista.

- Oh, meu Deus! - exclamou o intendente.

- Que ? - perguntou o conde.

- Aquela mulher!... Aquela mulher!...

- Qual?

- Aquela de vestido branco e cheia de diamantes! A loura!...

- A Sr.a Danglars?

- No sei como se chama, mas  ela, senhor,  ela!

- Ela, quem?

- A mulher do jardim! A que estava grvida! A que passeava
enquanto esperava!

Bertuccio ficou de boca aberta, plido e com os cabelos em p.

-- Enquanto esperava quem?

Sem responder, Bertuccio indicou Villefort com o dedo, mais ou
menos da mesma maneira que Macbeth indicou Banco.

- Oh!... Oh!... - murmurou por fim - v?

- O qu? Quem?

- Ele!

- Ele?... O Sr. Procurador Rgio? O Sr. de Villefort? Claro
que vejo.

- Mas ento... no o matei?

- Tem cada uma! Comeo a convencer-me que enlouqueceu, meu
caro Sr. Bertuccio - redarguiu o conde.

- No morreu?..

- No, claro que no morreu, como v! Em vez de o ferir entre
a sexta e a stima costela esquerda, como fazem os seus
Compatriotas, o senhor feriu-o mais acima ou mais abaixo, e
aquela gente da justia tem a alma muito agarrada ao corpo,
no sabia? A no ser que nada do que me contou fosse verdade,
no passasse de um sonho da sua imaginao, de uma alucinao
do seu esprito. Provavelmente adormeceu depois de digerir mal
a sua vingana; ela pesou-lhe no estmago, o senhor teve um
pesadelo e pronto! Vamos, recupere a calma e conte: o Sr. e a
Sr.a de Villefort, dois; o Sr. e a Sr.a Danglars, quatro; o
Sr. de Chteau-Renaud, o Sr. Debray e o Sr. Morrel, sete; o
Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti, oito.

- Oito! - repeliu Bertuccio.

- Espere! Espere! Est com muita pressa de se ir embora, que
diabo! Esquece-se de um dos meus convidados.
Desvie-se um bocadinho pala a esquerda... olhe... o Sr.
Andrea Cavalcanti, aquele jovem de casaca preta que est a
admirar a Virgem de Murillo e que s vira agora.

Desta vez, Bertuccio comeou um grito, que o olhar de
Monte-Cristo lhe extinguiu nos lbios.

- Benedetto!.. - murmurou baixinho. - Que fatalidade!

- Esto a dar seis e meia, Sr. Bertuccio - disse severamente o
conde. - Est na hora a que dei ordem para se ir para a mesa;
bem sabe que no gosto de esperar.

E Monte-Cristo voltou  sala, onde o esperavam os seus
convidados, enquanto Bertuccio regressava  sala de jantar
apoiando-se nas paredes.

Cinco minutos mais tarde, as duas portas da sala abriram-se,
Bertuccio apareceu, e fazendo, como Vatel em Chantilly, um
derradeiro e herico esforo, anunciou:

- O Sr. Conde est servido.

Monte-Cristo ofereceu o brao  Sr.a de Villefort.

- Sr. de Villefort - disse --, seja o par da Sr.a Baronesa
Danglars, peo-lhe.

Villefort obedeceu e entraram na sala de jantar.

Captulo LXIII

O jantar

Era evidente que ao entrarem na sala de jantar o mesmo
sentimento dominava todos os convivas. Perguntavam a si
prprios que estranha influncia levara todos quela casa, e
no entanto, por mais surpreendidos e at inquietos que alguns
estivessem por ali se encontrar, no desejariam de modo algum
l no estar.

Contudo, relaes de fresca data, bem como a posio
excntrica e isolada e a fortuna desconhecida e quase fabulosa
do conde, impunham aos homens o dever de serem circunspectos e
s mulheres a regra de no entrarem numa casa  onde no
havia mulheres para as receber. Mas mesmo assim, homens e
mulheres tinham passado por cima, uns da circunspeco e as
outras das convenincias. A curiosidade, espicaando-os com o
seu aguilho irresistvel, prevalecera sobre tudo.

At os Cavalcanti, pai e filho, apesar do constrangimento de
um e da desenvoltura do outro, pareciam preocupados por se
encontrarem reunidos, em casa de um homem cujo objectivo no
compreendiam, com outros homens que viam pela primeira vez.

A Sr.a Danglars fizera um movimento ao ver, a convite de
Monte-Cristo, o br. de Villefort aproximar-se dela para lhe
oferecer o brao, e o Sr. de Villefort, sentira a vista
turvar-se-lhe detrs dos culos de ouro ao sentir o brao da
baronesa pousar no seu.

Nenhuma destas duas reaces escapara ao conde. Alis, o
simples contacto estabelecido entre os indivduos possui j
para o observador da cena o maior interesse.

o Sr. de Villefort tinha  sua direita a Sr.a Danglars e 
sua esquerda Morrel.

o conde estava sentado entre a Sr.a de Villefort e Danglars.

Os outros lugares estavam ocupados por Debray, sentado entre
Cavalcanti pai e Cavalcanti filho, e por Chteau-Renaud.
sentado entre a Sr.a de Villefort e Morrel.

A refeio foi magnfica. Monte-Cristo tomara a peito alterar
completamente as normas parisienses e dar ainda mais 
curiosidade do que ao apetite dos seus convivas o alimento que
ela desejava. Ofereceu-lhes um festim oriental,  maneira como
poderiam s-lo os festins das fadas orientais.

Todos os frutos que as quatro parles do mundo podem lanar,
intactos e saborosos, na cornucpia da abundncia da Europa se
empilhavam em pirmides em vasos da China e taas do Japo. As
aves raras, com a parte brilhante da sua plumagem, os peixes
monstruosos deitados em chapas de prata, todos os vinhos do
Arquiplago, da sia Menor e do Cabo, encerrados em frascos
de formas extravagantes que pareciam aumentar-lhes ainda o
sabor, desfilaram como numa dessas revistas que Apcio passava
com os seus convivas diante dos Parisienses, que compreendiam
perfeitamente que se pudessem gastar mil lus s num jantar de
dez pessoas desde que, como Clepatra, se comessem prolas ou,
como Loureno de Mdicis, se bebesse ouro derretido.

Monte-Cristo viu a surpresa geral e desatou a rir e a
ridicularizar-se em voz alta.

- Meus senhores - disse --, decerto concordam com o que lhes
vou dizer. No  verdade que, quando se atinge certo grau de
fortuna, no h nada mais necessrio do que o suprfluo, da
mesma maneira que, como estas senhoras admitiro, atingindo
certo grau de exaltao, no h nada mais positivo do que o
ideal? Ora, prosseguindo com o raciocnio, que  o
maravilhoso? O que no compreendemos. Que  um bem realmente
desejvel? Um bem que no podemos ter. Por isso, ver coisas
que no posso compreender e adquirir coisas impossveis de
possuir, tal  o desejo de toda a minha vida. E satisfao-o
com dois meios: o dinheiro e a vontade. Ponho em satisfazer um
capricho, por exemplo, a mesma perseverana que o senhor, meu
caro Danglars, emprega para criar uma linha de
caminho-de-ferro; o senhor, meu caro Villefort, para que um
homem seja condenado a morte; o senhor, meu caro Debray, para
pacificar um
reino; o senhor, meu caro Chteau-Renaud, para agradar a uma
mulher, e o senhor, meu caro Morrel, para domar um cavalo que
ningum consegue montar. Assim, por exemplo, vejam estes dois
peixes, nascidos um a cinquenta lguas de Sampetersburgo e o
outro a cinco lguas de Npoles: no  interessante reuni-los
na mesma mesa?

- Como se chamam esses dois peixes? - perguntou Danglars.

- Aqui est o Sr. de Chteau-Renaud, que viveu na Rssia, que
lhes dir o nome de um - respondeu Monte-Cristo. - E aqui
est o Sr. Major Cavalcanti, que  italiano, que lhes dir o
nome do outro.

- Este - disse Chteau-Renaud -- , se me no engano, um
esturjo.

- Exacto.

- E aquele - disse Cavalcanti - , se no estou em erro, uma
lampreia.

- Isso mesmo. Agora, Sr. Danglars, pergunte queles dois
senhores onde se pescam estes peixes.

- Os esturjes - respondeu Chteau-Renaud - pescam-se
exclusivamente no Volga.

- E guas que dem lampreias deste tamanho - disse Cavalcanti
- s conheo as do lago Fusaro.

- Exacto, um veio do Volga e o outro do lago Fusaro.

- Impossvel! - exclamaram em unssono todos os convivas.

- Ora  isso precisamente que me diverte - redarguiu
Monte-Cristo. - Sou como Nero: cupitor impossibilium. E
tambm o que os diverte neste momento. Eis, enfim, o que faz
com que esta carne, que na realidade talvez no valha mais do
que a da perca e a do salmo, lhes v parecer deliciosa daqui
a pouco, s porque no esprito de todos era impossvel
consegui-la. E no entanto ela aqui est...

- Mas como foi possvel transportar esses dois peixes para
Paris?

- Oh, meu Deus, nada mais simples! Os dois peixes foram
transportados cada um numa grande barrica, uma revestida de
canios e ervas do rio e a outra de juncos e plantas do lago,
ambas embarcadas num furgo feito de propsito. Viveram assim
o esturjo doze dias e a lampreia oito. E ambos viviam
perfeitamente quando o meu cozinheiro tomou conta deles para
fazer morrer um em leite e o outro em vinho. No acredita, Sr.
Danglars?

- Duvido, pelo menos - respondeu Danglars, sorrindo
foradamente.

- Baptistin! - chamou Monte-Cristo. - Mande trazer o outro
esturjo e a outra lampreia, aqueles que vieram nas outras
barricas e que ainda esto vivos.

Danglars arregalou os olhos de espanto; os restantes convivas
bateram palmas.

Quatro criados trouxeram duas barricas guarnecidas de plantas
marinhas, em cada uma das quais palpitava um peixe idntico
aos que estavam na mesa.

- Mas porqu dois de cada espcie? - perguntou Danglars.

- Porque um podia morrer - respondeu simplesmente
Monte-Cristo.

- O senhor  realmente um homem prodigioso - reconheceu
Danglars - e os filsofos escusam de dizer o contrrio, pois 
soberbo ser rico.

- E sobretudo ter ideias - acrescentou a Sr.a Danglars.

-Oh, no me atribua a honra desta, minha senhora!  uma honra
que pertence aos Romanos. Plnio conta que se mandavam de
stia para Roma, por meio de mudas de escravos, que os
transportavam  cabea, peixes da espcie do  chamado
mulus, e que, segundo a descrio que dele existe, 
provavelmente a dourada. Era tambm um luxo conserv-lo vivo e
um espectculo deveras interessante v-lo morrer, pois ao
morrer mudava trs ou quatro vezes de cor e, como um arco-ris
que se evapora, passava por todos os cambiantes do prisma,
depois do que o mandavam para as cozinhas. A sua agonia fazia
parte do seu mrito. Se no o vissem vivo, no o queriam
morto.

-  verdade - confirmou Debray. - Mas tambm de stia a Roma
so apenas sete ou oito lguas.

- De acordo - concordou Monte-Cristo. - Mas onde estaria o
mrito de vivermos mil e oitocentos anos depois de Lculo se
no fizssemos melhor do que ele?

Os dois Cavalcanti arregalavam muito os olhos, mas tinham o
bom senso de no dizer nada.

- Tudo isso  muito amvel - declarou Chteau-Renaud. - No
entanto, o que mais admiro, confesso,  a admirvel prontido
com que o senhor  servido. No  verdade, Sr. Conde, que s
comprou esta casa h cinco ou seis dias?

- Sim, quando muito - respondeu Monte-Cristo.

- Pois bem, estou certo de que em to pouco tempo sofreu uma
transformao completa. Se me no engano, ela tinha outra
entrada como esta e o ptio estava calcetado e vazio, enquanto
que hoje tem um magnfico relvado orlado de rvores que
parecem centenrias.


- Que quer, aprecio a verdura e a sombra - respondeu
Monte-Cristo.

- Com efeito - interveio a Sr.a de Villefort --, dantes
entrava-se por uma porta que dava para a estrada, e no dia da
minha milagrosa salvao foi pela estrada, recordo-me, que o
senhor me trouxe para casa.

-  verdade, minha senhora - confirmou Monte-Cristo. - Mas
depois preferi uma entrada que me permite ver o Bosque de
Bolonha atravs do porto.

- Em quatro dias,  um prodgio! - exclamou Morrel.

- De facto - disse Chteau-Renaud --, transformar uma casa
velha numa casa nova  coisa miraculosa. Porque ela era muito
velha e at muito triste. Recordo-me de ter sido encarregado
pela minha me de a visitar quando o Sr. de Saint-Mran a ps
 venda, h dois ou trs anos.

- O Sr. de Saint-Mran? - admirou-se a Sr.a de Villefort. -
Mas esta casa pertencia ao Sr. de Saint-Mran antes de o
senhor a comprar?

- Parece que sim - respondeu Monte-Cristo.

- Parece?... No sabe a quem a comprou?

- Palavra que no.  o meu intendente que se ocupa de todos
esses pormenores.

-  certo que havia dois anos, pelo menos, que no era
habitada - prosseguiu Chteau-Renaud --, e causava uma grande
tristeza v-la com as persianas fechadas, as portas trancadas
 o ptio cheio de ervas. Na verdade, se no tivesse
pertencido ao sogro de um procurador rgio poder-se-ia tom-la
por uma dessas casas malditas onde se cometeu qualquer crime.

Villefort, que at ali no tocara nos trs ou quatro copos de
vinhos extraordinrios colocados diante de si, pegou num ao
acaso e bebeu-o de um s trago.

Monte-Cristo deixou passar um instante. Depois, no meio
do silncio que se seguiu s palavras de Chteau-Renaud,
disse:

-  estranho, Sr. Baro, mas tive o mesmo pensamento da
primeira vez que c entrei. A casa pareceu-me to lgubre que
nunca a teria comprado se o meu intendente a no tivesse
adquirido por mim. Provavelmente, o maroto recebeu algumas
"luvas" do tabelio...

-  provvel - balbuciou Villefort, tentando sorrir. - Mas
acredite que no meti prego nem estopa nesse suborno. O Sr. de
Saint-Mran quis que esta casa, que faz parte do dote da
neta, tosse vendida porque, se permanecesse mais trs ou
quatro anos desabitada, cairia em runas.

Foi a vez de Morrel empalidecer.

- Havia sobretudo um quarto - continuou Monte-Cristo
--, oh, meu Deus, um quarto aparentemente muito simples, um
quarto como todos os quartos forrado de damasco vermelho, que
me pareceu, no sei porqu, deveras dramtico!

- Dramtico?... Dramtico porqu? - perguntou Debray.

- No costumam ter a percepo das coisas instintivas? -
perguntou Monte-Cristo. - No  verdade que h stios onde
parece que se respira naturalmente a tristeza? Porqu? Ningum
sabe nada a tal respeito. Mas isso acontece, quer por um
encadeamento de recordaes, quer por um capricho do
pensamento que nos conduz a outros tempos, a outros lugares
sem qualquer relao com os tempos e os lugares onde nos
encontramos. Tanto assim que aquele quarto me recordava
admiravelmente o quarto da marquesa de Ganges ou o de
Desdmona. Olhem, uma vez que j acabmos de jantar, quero que
o vejam. Depois desceremos para tomar o caf no jardim. Depois
do jantar, o espectculo.

Monte-Cristo fez um sinal como se consultasse os seus
convidados. A Sr.a de Villefort levantou-se, Monte-Cristo
imitou-a e toda a gente lhe seguiu o exemplo.

Villefort e a Sr.a Danglars ficaram um instante como que
pregados no seu lugar. Interrogavam-se com a vista, frios,
mudos e aterrorizados.

- Ouviu? - perguntou a Sr.a Danglars.

- Temos de ir - respondeu Villefort, levantando-se e
oferecendo-lhe o brao.

Toda a gente se espalhara j pela casa, impelida pela
curiosidade, pois pensavam que a visita no se limitaria ao
tal quarto e que ao mesmo tempo percorreriam o resto daquele
pardieiro que Monte-Cristo transformara num palcio. Todos
correram portanto para as portas abertas. Monte-Cristo
esperou pelos dois retardatrios. Depois, quando eles tambm
saram, fechou o cortejo, com um sorriso que, se o pudessem
compreender, apavoraria muito mais os convivas do que o quarto
onde iam entrar.

Comearam, com efeito, por percorrer os aposentos, os quartos
mobilados  oriental, com divs e almofadas a servirem de cama
e cachimbos e armas a fazerem as vezes de mveis; as salas com
as paredes cobertas dos mais belos quadros dos velhos mestres;
os boudoirs revestidos de tecidos da China, de cores
caprichosas e desenhos extravagantes, maravilhosos; por fim,
chegaram ao famoso quarto.

No tinha nada de especial, excepto a circunstncia de, apesar
de o dia estar a morrer, se no encontrar iluminado e se
apresentar em toda a sua vetustez, quando todos os outros
quartos haviam sido arranjados de novo.

Estas duas causas bastavam, efectivamente, para lhe dar um
aspecto lgubre.

- Oh,  horrvel, com efeito! - exclamou a Sr.a de Villefort.


A Sr.a Danglars procurou balbuciar algumas palavras, que
ningum ouviu.

Cruzaram-se vrias observaes cujo resultado foi concluir-se
que na verdade o quarto de damasco vermelho tinha um aspecto
sinistro.

- No  verdade? - perguntou Monte-Cristo. - Vejam como a
cama est estranhamente colocada e como  sombrio e sangrento
o damasco das paredes! E aqueles dois retratos a pastel, que a
humidade desbotou, no parecem dizer, com os seus lbios
lvidos e os seus olhos esgazeados: "Eu vi!"

Villefort perdeu por completo a cor e a Sr.a Danglars caiu num
canap colocado perto da lareira.

- Oh! - exclamou a Sr.a de Villefort, sorrindo. - Tem a
coragem de se sentar nesse canap, onde talvez o crime foi
cometido?...

A Sr.a Danglars levantou-se vivamente.

- Mas isto no  tudo... - disse Monte-Cristo.

- Que mais temos? - perguntou Debray, a quem a comoo da Sr.a
Danglars no escapara.

- Sim, que mais temos ainda? - secundou-o Danglars. - Porque,
at agora. confesso que no vi grande coisa. E o senhor, major
Cavalcanti?

- Oh! - exclamou o interpelado. - Ns temos em Pisa a torre de
Ugolino, em Ferrara a priso de Tasso e em Rimini o quarto de
Francisca e Paulo...

- Pois sim, mas no tm esta escadinha - atalhou
Monte-Cristo, abrindo uma porta disfarada na parede. -
Vejam-na e digam o que lhes parece.

-- Que escada-de-caracol mais sinistra! - exclamou
Chteau-Renaud, rindo.

- A verdade  que - confessou Debray - no sei se  o vinho de
Chio que me pe melanclico, mas no h dvida de que acho
esta casa muito soturna.

Quanto a Morrel, desde que ouvira falar do dote de Valentine,
ficara triste e no proferira uma palavra.

- Imaginem - sugeriu Monte-Cristo - um Otelo ou um abade de
Ganges qualquer descendo passo a passo, numa noite escura e
tempestuosa, esta escada, com qualquer lgubre fardo que tem
pressa de furtar  vista dos homens, seno ao olhar de Deus...

A Sr.a Danglars semidesmaiou nos braos de Villefort, que por
sua vez foi obrigado a encostar-se  parede.

- Meu Deus, senhora! - gritou Debray. - Que tem? Como est
plida!

- O que ela tem  muito simples - interveio a Sr.a de
Villefort. - Est morta de medo.  o resultado de o Sr. Conde
de Monte-Cristo se pr a contar-nos histrias horrveis, na
inteno de nos aterrorizar.

- Claro - concordou Villefort. - De facto, conde, o senhor
aterroriza as senhoras...

- Que tem? - repetiu baixinho Debray  Sr.a Danglars.

- Nada, nada - respondeu ela, fazendo um estoro. - Preciso
apenas de ar...

- Quer descer ao jardim? - perguntou Debray, oferecendo o
brao  Sr.a Danglars e encaminhando-se para a escada secreta.

- No, no - disse ela. - Prefiro ficar aqui.

- Na verdade, minha senhora, esse terror  verdadeiro? -
perguntou Monte-Cristo.

- No, senhor - respondeu a Sr.a Danglars. - Mas o senhor tem
uma maneira de supor as coisas que d  iluso o aspecto da
realidade.

- Oh, meu Deus, tem razo! - exclamou Monte-Cristo, sorrindo.
- Tudo isto no passa de imaginao... Afinal, por que motivo
no havemos antes de imaginar este quarto como um bom e
respeitvel quarto de me de famlia? E esta cama, com os seus
cortinados cor de prpura, como uma cama visitada pela deusa
Lucina? E esta escada misteriosa como a passagem por onde,
devagarinho, para no perturbar o sono reparador da
parturiente, entra o mdico ou a ama, ou o prprio pai, para
levar o filho que dorme?...

Desta vez, a Sr.a Danglars, em vez de se tranquilizar com to
suave viso, soltou um gemido e desmaiou por completo.

- A Sr.a Danglars encontra-se mal - balbuciou Villefort. -
Talvez seja melhor transport-la para a sua carruagem.

- Oh, meu Deus, e eu que me esqueci do meu frasco! -
lamentou-se Monte-Cristo...

- Mas eu tenho o meu - disse a Sr.a de Villefort.

E passou a Monte-Cristo um frasco cheio de um licor vermelho
idntico quele cuja benfazeja influncia o conde
experimentara em douard.

- Ah!... - exclamou Monte-Cristo, recebendo-o das mos da
Sr.a de Villefort.

- Sim - murmurou esta --, experimentei de acordo com as suas
indicaes e...

- E conseguiu?

- Creio que sim.

Tinham transportado a Sr.a Danglars para o quarto contguo.
Monte-Cristo deitou-lhe nos lbios uma gota do licor vermelho
e ela voltou a si.

- Oh, que sonho horrvel! - exclamou.

Villefort apertou-lhe fortemente o pulso para lhe fazer
compreender que no sonhara.

Procuraram o Sr. Danglars. Mas, pouco propenso s impresses
poticas, descera ao jardim e conversava com o Sr. Cavalcanti
pai acerca de um projecto de caminho-de-ferro de Liorne a
Florena.

Monte-Cristo parecia desesperado. Deu o brao  Sr.a Danglars
e conduziu-a ao jardim, onde encontraram o Sr. Danglars a
tomar o caf entre os Srs. Cavalcanti pai e filho.

- Na verdade, minha senhora, assustei-a assim tanto? -
perguntou Monte-Cristo  Sr.a Danglars.

- No, senhor. Mas, como sabe, as coisas impressionam-nos
conforme a disposio de esprito em que nos encontramos.

Villefort esforou-se por rir.

- E ento, compreende, basta uma suposio, uma quimera...

- No entanto, acreditem ou no, se quiserem, estou convencido
de que foi cometido um crime nesta casa -- teimou
Monte-Cristo.

- Cautela - recordou a Sr.a de Villefort --, temos aqui o
procurador rgio...

- Bom, j que as coisas esto neste p, aproveito a
oportunidade para fazer a minha declarao - redarguiu
Monte-Cristo.

- A sua declarao? - repetiu Villefort.

- Sim, e diante de testemunhas.

- Tudo isto  deveras interessante - disse Debray. - E se
houve realmente crime, vamos fazer admiravelmente a digesto.

- Houve crime - insistiu Monte-Cristo. - Venham por aqui,
meus senhores. Venha, Sr. de Villefort. Para que a declarao
seja vlida, deve ser feita s autoridades competentes.

Monte-Cristo pegou no brao de Villefort, ao mesmo tempo que
apertava debaixo do seu o da Sr.a Danglars, e arrastou o
procurador rgio at ao pltano, onde a sombra era mais
espessa.

Todos os outros convidados os seguiram.

- Veja - disse Monte-Cristo. - Aqui, precisamente  aqui - e
batia na terra com o p --, aqui, para rejuvenescer estas
rvores, j velhas, mandei cavar a terra e adub-la. Pois bem,
os meus trabalhadores, ao cavarem, desenterraram um cofre, ou
antes, as ferragens de um cofre, no meio das quais estava o
esqueleto de uma criana recm-nascida. Espero que no tomem
isto como fantasmagoria...

Monte-Cristo sentiu retesar-se o brao da Sr.a Danglars e
tremer a mo de Villefort.

- Uma criana recm-nascida? - repetiu Debray. - Diabo,
parece-me que o caso esta a pr-se srio...

- Bom - interveio Chteau-Renaud --, no me enganava portanto
quando afirmava h pouco que as casas tinham uma alma e um
rosto como os homens e que na sua fisionomia transparecia um
reflexo do seu ntimo. A casa era triste porque tinha
remorsos, e tinha remorsos porque ocultava um crime.

- Quem diz que  um crime? - contraps Villefort, tentando um
derradeiro esforo.

- Como, uma criana enterrada viva num jardim no  um crime?
- exclamou Monte-Cristo. - Como designa ento essa aco, Sr.
Procurador Rgio?

- Mas quem diz que foi enterrada viva?

- Para qu enterr-la aqui se estivesse morta? Este jardim
nunca foi um cemitrio.

- Que fazem aos infanticidas neste pas? - perguntou
ingenuamente o major Cavalcanti.

- Meu Deus, cortam-lhes muito simplesmente o pescoo! -
respondeu Danglars.

- Ah, cortam-lhes o pescoo!... - repetiu Cavalcanti.

- Parece-me... No  assim, Sr. de Villefort? - perguntou
Monte-Cristo.

- , Sr. Conde - respondeu o interpelado num tom que j no
tinha nada de humano.

Monte-Cristo viu que as duas personagens para as quais
preparara aquela cena no podiam suportar mais. E como no
queria lev-las demasiado longe, mudou de assunto:

- Ento o caf, meus senhores? Parece-me que o esquecemos!

E levou os convidados para a mesa colocada no meio do relvado.

- Na verdade, Sr. Conde - disse a Sr.a Danglars --, tenho
vergonha de confessar a minha fraqueza, mas todas essas
histrias horrveis me perturbaram. Deixe-me sentar, peo-lhe.

E caiu numa cadeira.

Monte-Cristo cumprimentou-a e aproximou-se da Sr.a de
Villefort.

- Creio que a Sr.a Danglars ainda precisa do seu frasco... -
disse-lhe.

Mas antes de a Sr.a de Villefort se aproximar da amiga, j o
procurador rgio dissera ao ouvido da Sr.a Danglars:

- Preciso de lhe falar.

- Quando?

- Amanh.

- Onde?

- No meu gabinete... no tribunal, se no se importa.  ainda o
lugar mais seguro.

- Irei.

Neste momento, a Sr.a de Villefort aproximou-se.

- Obrigada, querida amiga - disse a Sr.a Danglars, procurando
sorrir.

- Isto no  nada e j me sinto muito melhor.


Captulo LXIV


O mendigo


A festa ia adiantada. A Sr.a de Villefort manifestara o desejo
de regressar a Paris, o que no se atrevera a fazer a Sr.a
Danglars, apesar do mal-estar evidente que experimentava.

A pedido da mulher, o Sr. de Villefort deu portanto o primeiro
sinal de partida e ofereceu  Sr.a Danglars lugar no seu
land, a fim de ela poder ter os cuidados da mulher.
Quanto ao Sr. Danglars, absorvido numa conversa industrial das
mais interessantes com o Sr. Cavalcanti, no prestava nenhuma
ateno ao que se passava.

Ao pedir o frasco  Sr.a de Villefort, Monte-Cristo notara
que o Sr. de Villefort se aproximara da Sr.a Danglars; e
guiado pela sua intuio, adivinhara o que ele lhe dissera,
embora tivesse falado to baixo que a prpria Sr.a Danglars
mal o ouvira.

Deixou, sem se opor a nenhuma combinao, partir Morrel,
Debray e Chteau-Renaud a cavalo, e subir as duas senhoras
para o land do Sr de Villefort. Pela sua parte, Danglars,
cada vez mais encantado com Cavalcanti pai, convidou-o a
acompanh-lo no seu cup.

Quanto a Andrea Cavalcanti, dirigiu-se para o seu tlburi, que
o esperava diante da porta e cujo groom, que exagerava os
adornos da moda inglesa, lhe segurava, erguendo-se na ponta
das botas, o enorme cavalo cinzento-escuro.

Andrea no falara muito durante o jantar, precisamente por ser
um rapaz muito inteligente e ter, como era natural, receado
dizer alguma tolice no meio daqueles convivas ricos e
poderosos, entre os quais os seus olhos dilatados talvez no
vissem sem receio um procurador rgio.

Em seguida fora aambarcado pelo Sr. Danglars, que, depois de
uma rpida olhadela ao velho major empertigado e ao filho
ainda um bocadinho tmido, juntara a todos estes sintomas a
hospitalidade de Monte-Cristo e conclura que tinha diante de
si algum nababo vindo a Paris para aperfeioar o filho na vida
mundana.

Admirara portanto com indizvel satisfao o enorme diamante
que brilhava no dedo mindinho do major, porque o major, como
homem prudente e experimentado, com receio de que acontecesse
qualquer acidente s suas notas de banco, as convertera
imediatamente num objecto de valor. Mais tarde, depois do
jantar, sempre sob pretexto de indstria e viagens,
interrogara o pai e o filho acerca da sua maneira de viver. E
o pai e o filho, sabedores de que era no banco de Danglars que
lhes deviam ser abertos, a um, o seu crdito de quarenta e
oito mil francos, uma vez concedidos, e ao outro, o seu
crdito anual de cinquenta mil libras, tinham sido
encantadores e cheios de afabilidade para com o banqueiro, a
cujos criados, se estes se no tivessem esquivado, teriam
apertado a mo, de tal forma o seu reconhecimento
experimentava necessidade de expanso.

Uma coisa sobretudo aumentou a considerao, quase diramos a
venerao de Danglars por Cavalcanti. Este, fiel aos
princpios de Horcio: nil admirari, limitara-se, como
vimos, a dar provas de saber dizendo em que lago se pescavam
as melhores lampreias. Depois comera a sua parte daquela sem
dizer uma nica palavra. Danglars conclura da que
semelhantes espcies de sumptuosidades eram familiares ao
ilustre descendente dos Cavalcanti, o qual provavelmente se
alimentava em Luca com trutas que mandava vir da Sua e com
lagostas que lhe enviavam da Bretanha por processos idnticos
queles de que o conde se servira para mandar vir lampreias do
lago Fusaro, e esturjes do rio Volga. Por isso, acolhera com
muita satisfao estas palavras de Cavalcanti.

- Amanh, senhor, terei a honra de o visitar para tratarmos de
negcios.

- E eu, senhor, sentir-me-ei honrado em o receber - respondera
Danglars.

Em seguida propusera a Cavalcanti, desde que no lhe custasse
muito separar-se do filho, acompanh-lo ao Hotel dos Princes.

Cavalcanti respondeu que o filho estava habituado, havia muito
tempo, a levar vida de rapaz independente; que, portanto,
tinha os seus cavalos e as suas carruagens, e que, como no
tinham vindo juntos, no via dificuldade em que se fossem
embora separadamente.

O major subira pois para a carruagem de Danglars e o banqueiro
sentara-se a seu lado, cada vez mais encantado com as ideias
de ordem e economia daquele homem, que no entanto dava ao
filho cinquenta mil francos por ano, o que supunha a
existncia de uma fortuna que lhe proporcionava quinhentas ou
seiscentas mil libras de rendimento.

Quanto a Andrea, comeou por se dar ares, ralhando ao groom
por, em vez de o ir buscar  escadaria, o esperar  porta de
sada, o que o obrigara ao incmodo de percorrer trinta passos
para ir ao encontro do seu tlburi.

O groom recebeu a descompostura com humildade, pegou com a
mo esquerda no freio, para segurar o cavalo impaciente e que
batia com as patas, e estendeu com a direita as rdeas a
Andrea, que as recebeu e pousou ligeiramente a bota de verniz
no estribo.

Nesse momento apoiou-se-lhe uma mo no ombro. O rapaz
virou-se, pensando que Danglars ou Monte-Cristo se tinham
esquecido de lhe dizer alguma coisa e voltavam  carga no
momento da partida.

Mas, em vez de um ou de outro, viu apenas uma figura estranha,
tisnada pelo sol, de barba hirsuta, olhos brilhantes como
carbnculos e sorriso trocista numa boca onde brilhavam,
alinhados no seu lugar e sem que lhe faltasse um s, trinta e
dois dentes brancos, aguados e famintos, como os de um lobo
ou de um chacal.

Cobria-lhe a cabea, de cabelos grisalhos e sujos de terra, um
leno de quadrados vermelhos e envolvia-lhe o corpo alto,
magro e ossudo, cujos ossos, como os de um esqueleto, davam a
sensao de tilintar ao andar, um camisolo dos mais sebosos e
esburacados que se possa imaginar. Por ltimo, a mo que se
apoiou no ombro de Andrea, e que foi a primeira coisa que o
rapaz viu, pareceu-lhe de uma dimenso gigantesca.

O jovem reconheceu aquela cara  claridade da lanterna do
tburi ou ficou apenas impressionado com o aspecto horrvel do
seu interlocutor? No o, saberamos dizer.

Mas o tacto  que estremeceu e recuou vivamente.

- Que me quer? - perguntou.

- Perdo, nosso burgus! - respondeu o homem, levando a mo ao
leno vermelho. - Incomodo-o, talvez, mas preciso de lhe
falar.

- No se mendiga de noite - interveio o groom, esboando um
gesto para desembaraar o amo do importuno.

- Eu no mendigo, meu lindo menino - respondeu o homem
desconhecido ao criado, com um sorriso irnico e to horrvel
que o rapaz se afastou. - Desejo apenas dizer duas palavras ao
seu patro, que me encarregou de um recado h quinze dias,
pouco mais ou menos.

- Vejamos, que deseja? Diga depressa, meu amigo - atalhou
Andrea em tom bastante decidido para que o criado no notasse
a sua atrapalhao.

- Desejaria... desejaria... - redarguiu baixinho o homem do
leno encarnado - que se dignasse poupar-me o sacrifcio de
regressar a Paris a p. Estou muito cansado e, como no jantei
to bem como tu, mal me tenho nas pernas.

O jovem estremeceu perante esta estranha familiaridade.

- Mas enfim, que deseja? - insistiu.

- Desejo que me deixes subir para a tua bela carruagem e que
me leves ao meu destino.

Andrea empalideceu, mas no respondeu.

-- Meu Deus, sim! - insistiu o homem do leno encarnado,
metendo as mos nas algibeiras e fitando o rapaz com olhos
provocadores. -  c uma ideia das minhas, percebes, meu
querido Benedetto?...

Ao ouvir este nome, o jovem reflectiu sem dvida, pois
aproximou-se do groom e disse-lhe:

- Este homem foi efectivamente encarregado por mim de um
recado de que me vem dar conta. Vai a p at  barreira e toma
l um cabriol a fim de no chegares atrasado.

O criado afastou-se, surpreendido.

- Deixe-me ao menos chegar ao escuro - pediu Andrea.

- Oh, quanto a isso, eu mesmo vou levar-te para um excelente
lugar! Espera a - disse o homem do leno vermelho.

E pegando no cavalo pelo freio conduziu o tlburi para um
stio onde era efectivamente impossvel a quem quer que fosse
ver a honra que lhe concedia Andrea.

- Oh, no  pela glria de entrar numa boa carruagem! -
declarou. - No,  apenas porque estou cansado e tambm um
bocadinho porque preciso de falar de negcios contigo.

- Vamos, suba - disse o rapaz.

Que pena no ser de dia, pois proporcionaria um espectculo
curioso ver aquele maltrapilho comodamente sentado nas
almofadas de brocado ao lado do jovem e elegante condutor do
tlburi.

Andrea conduziu o cavalo at  ltima casa da aldeia sem dizer
uma nica palavra ao companheiro, que, pelo seu lado, sorria e
guardava silncio, como se estivesse deslumbrado por passear
em to excelente meio de locomoo.

Uma vez fora de Auteuil, Andrea olhou  sua volta para se
assegurar, sem dvida, de que ningum os podia ver nem ouvir,
e ento deteve o cavalo e cruzou os braos diante do homem do
leno vermelho.

-  capaz de me dizer porque veio perturbar a minha
tranquilidade? - perguntou.

- E tu, meu rapaz, porque desconfias de mim?

- E em que  que eu desconfiei de si?

- Em qu? Ainda perguntas? Separmo-nos na Ponte do Var,
depois de me dizeres que ias viajar pelo Piemonte e pela
Toscana, e em vez disso vens para Paris...

- Em que  que isso o incomoda?

- Em nada. Pelo contrrio, espero que me ajude...

- Ah, ah! - riu Andrea. - Quer dizer que est com ideias de me
explorar no?

- Pronto, l vm as tiradas bombsticas!

- Pois olhe que faria mal, mestre Caderousse, j o previno...

- Meu Deus, no te zangues, pequeno! No entanto, deves saber o
que  a desgraa... A desgraa torna-nos invejosos. Julgava-te
a percorrer o Piemonte e a Toscana, obrigado a fazer de
faccino ou cicerone, e lamentava-te do fundo do corao como
lamentaria um filho. Bem sabes que sempre te considerei meu
filho...

- Adiante, adiante!

- Tem pacincia, com a breca!

- Tenho pacincia, mas acabe de uma vez.

- E vejo-te de repente passar a Barreira dos Bons-Homens, com
um groom, um tlburi e uma casaca novinha em folha! Demnio,
descobriste alguma, mina ou compraste um cargo de corrector?

- De forma que, como confessou, tem inveja?...

- No, estou contente, to contente que quis apresentar-te os
meus cumprimentos, pequeno! Mas como no estava vestido
decentemente, tomei as minhas precaues para no te
comprometer.

- Bonitas precaues! - redarguiu Andrea. - Dirigiu-se-me
diante do meu criado!

- Que querias que fizesse, meu filho? Abordei-te quando te
pude apanhar. Tens um cavalo muito vivo e um tlburi muito
ligeiro. Alm disso, s naturalmente escorregadio como uma
enguia. Se no te apanhasse esta noite, correria o risco de
nunca mais te pr a vista em cima.

- Bem v que no me escondo.

- s um felizardo! Gostaria muito de poder dizer o mesmo...
Pois eu escondo-me. Sem contar que tinha medo que me no
reconhecesses. Mas reconheceste-me!  - acrescentou Caderousse
com o seu sorriso. - s muito amvel...

- Vejamos, que quer de mim? - perguntou Andrea.

- J me no tratas por tu e isso no est certo, Benedetto...
No se procede assim com um antigo camarada. Acautela-te que
ainda acabas por me tornar exigente.

Esta ameaa fez desaparecer a clera do rapaz. O vento da
prudncia acabava de soprar por cima da sua cabea.

Ps o cavalo a trote.

-  mau para ti mesmo, Caderousse - disse --, procederes assim
para com um antigo camarada, como dizias h pouco. s
marselhs e eu sou...

- Agora j sabes o que s?

- No, mas fui criado na Crsega. s velho e teimoso; eu sou
novo e casmurro. Entre gente como ns, a ameaa  mau sistema
e tudo se deve fazer amigavelmente. Tenho culpa se a sorte,
que continua a ser m para ti,  pelo contrrio boa para mim?

- Tiveste ento sorte, hem?... No se trata de um groom de
emprstimo, de um tlburi de emprstimo, nem de uma casaca de
emprstimo? Pois tanto melhor! - exclamou Caderousse com os
olhos brilhantes de cobia.

- Vs e sabes isso perfeitamente, pois de contrrio no me
abordarias - observou Andrea, animando-se pouco a pouco. - Se
trouxesse um leno como o teu na cabea, um camisolo sebento
pelos ombros e sapatos rotos nos ps, no me reconhecerias.

- No h dvida que me desprezas, pequeno, e fazes mal. Agora
que te encontrei, nada me impede de vestir do bom e do melhor,
como qualquer outro, pois sei que tens bom corao. Se possuis
duas casacas, dar-me-s uma, como eu te dava a minha rao de
sopa e feijo quando estavas cheio de fome.

-  verdade - concordou Andrea.

- Tinhas c um destes apetites! Continuas a ser assim comilo?

- Continuo - respondeu Andrea, rindo.

- Como deves ter jantado em casa desse prncipe donde vens!...

- No  um prncipe,  apenas um conde.

- Um conde, e rico, no?

- Sim, mas no te fies nisso. O cavalheiro no tem nada um ar
tranquilizador...

- Meu Deus, podes estar sossegado! No temos projectos acerca
do teu conde, podes ficar com ele s para ti... Mas -
acrescentou Caderousse retomando o mau sorriso que j lhe
aflorara aos lbios -  preciso dar qualquer coisa em troca,
compreendes?

- Quanto?

- Creio que com cem francos por ms...

- Sim?

- ...viverei.

- Com cem francos?

- Mas mal, bem sabes. Mas com...

- Com?

- ...cento e cinquenta francos serei muito feliz.

- Aqui tens duzentos - disse Andrea.

E meteu na mo de Caderousse dez luses de ouro.

- ptimo... - murmurou Caderousse.

- Apresenta-te ao porteiro todos os primeiros dias do ms e
ters outro tanto.

- Pronto, l ests outra vez a humilhar-me!

- Como assim?

- Empurras-me para a criadagem. Isso no. Quero tratar
contigo.

- Seja. Procura-me todos os primeiros dias do ms e assim que
eu receber a minha mesada tu recebers a tua.

- Muito bem, vejo que me no tinha enganado, que s um
excelente rapaz e que  uma bno quando a sorte bafeja
pessoas como tu. Vamos, conta-me a tua boa sorte.

- Que necessidade tens de saber isso? - perguntou Cavalcanti.

- A est outra vez a desconfiana!

- No. Encontrei o meu pai...

- Um verdadeiro pai?

- Com a breca, enquanto pagar...

- Acreditars e honrars.  justo. Como se chama o teu pai?

- Major Cavalcanti.

- E ele est satisfeito contigo?

- At agora parece que sim.

- E quem te fez encontrar esse pai?

- O conde de Monte-Cristo.

- Aquele de casa de quem vens?

- Sim.

- Bom, j que isso  assim, v se me consegues meter em casa
dele como av, pois deve dar tacho...

- Est bem, falar-lhe-ei de ti. Mas entretanto que vais fazer?

- Eu?

- Sim, tu.

- s muito amvel em te preocupar com isso - disse
Caderousse.

- Parece-me que, uma vez que te interessas por mim, tambm
tenho o direito de querer saber alguma coisa de ti - redarguiu
Andrea.

-  justo... Vou alugar um quarto numa casa respeitvel,
vestir umas roupas decentes, barbear-me todos os dias e ler os
jornais no caf.  noite, irei a qualquer espectculo com um
chefe de claque. Enfim, parecerei um padeiro reformado... E o
meu sonho.

- ptimo! Se quiseres pr esse projecto em execuo e ter
juzo, correr tudo s mil maravilhas.

- Ver, Sr. Bossuet!... E tu, que vais ser? Par de Frana?

- Eh, eh! - riu Andrea. - Quem sabe?...

- O Sr. Major Cavalcanti talvez o seja ... mas infelizmente a
hereditariedade foi abolida.

- Nada de poltica, Caderousse!... E agora que tens o que
querias e chegmos, salta da minha carruagem e desaparece.

- Nem por sombras, caro amigo!

- Como nem por sombras?...

- Pensa um bocadinho, pequeno. Um leno encarnado na cabea,
quase sem sapatos, nenhuns documentos e dez napolees de ouro
na algibeira, sem contar com o que j l havia e que soma
exactamente duzentos francos... Prendiam-me  infalivelmente
na Barreira! Ento seria forado, para me justificar, a dizer
que foras tu quem me dera os dez napolees... Da, informao,
inqurito. Descobrem que deixei Toulon sem pedir licena e
reconduzem-me de brigada em brigada at s margens do
Mediterrneo. Volto a ser pura e simplesmente o n.o 106 e
adeus ao meu sonho de parecer um padeiro reformado! Nem por
sombras, meu filho. Prefiro ficar respeitavelmente na capital.

Andrea franziu o sobrolho. Era, como ele prprio se gabara,
to casmurro como o filho putativo do Sr. Major Cavalcanti.
Deteve-se um instante, deitou uma rpida olhadela  sua volta,
e quando o seu olhar acabava de descrever o crculo
investigador a sua mo desceu inocentemente  algibeira das
calas, onde comeou a acariciar o guarda-mato de uma pistola
de bolso.

Entretanto, porem, Caderousse, que no perdia de vista o
companheiro, passava a mo por detrs das costas e abria muito
devagarinho uma grande navalha espanhola, que trazia consigo
para o que desse e viesse.

Como se v, os dois amigos eram dignos de se compreender e
compreenderam-se. A mo de Andrea saiu inofensivamente da
algibeira e subiu at ao seu bigode ruivo, que afagou durante
algum tempo.

- Vais ento ser feliz, meu bom Caderousse? - perguntou.

- Farei todo o possvel para isso - respondeu o estalajadeiro
da Ponte do Gard, guardando a navalha na manga.

- Vamos ento, entremos em Paris. Mas como vais fazer para
passar a Barreira sem despertar suspeitas? Parece-me que com
essa fatiota te arriscas ainda mais de carruagem do que a p.

- Espera, j vais ver... - disse Caderousse.

Pegou no chapu de Andrea e no capote de grande cabeo que o
groom exilado do tlburi deixara no seu lugar e p-lo pelas
costas, depois do que tomou a atitude impassvel de um criado
de casa rica cujo amo conduz pessoalmente.

- E eu, vou ficar em cabelo? - protestou Andrea.

- Ora! Est tanto vento que a brisa pode muito bem ter-te
levado o chapu...

- Vamos ento e acabemos com isto - resignou-se Andrea.

- Que te detm? - perguntou Caderousse. - No sou eu,
espero...

- Caluda! - recomendou Cavalcanti.

Atravessaram a Barreira sem contratempos.

Na primeira rua transversal, Andrea parou o cavalo e
Caderousse apeou-se.

- Eh! - gritou Andrea. - Ento e o capote do meu criado e o
meu chapu?

- Decerto no queres que corra o risco de me constipar... -
redarguiu Caderousse.

- Mas eu?

- Tu s novo, ao passo que eu comeo a estar velho. At mais
ver, Benedetto!

E entrou na ruela, onde desapareceu.

- Infelizmente - disse Andrea, soltando um suspiro --, no se
pode ser completamente feliz neste mundo!


Captulo LXV

Cena conjucal


Os trs rapazes separaram-se na Praa de Lus XV, isto ,
Morrel seguiu pelos bulevares, Chteau-Renaud meteu pela
Ponte da Revoluo e Debray pelo cais.

Segundo todas as probabilidades, Morrel e Chteau-Renaud
alcanaram os seus lares domsticos, como se diz agora na
tribuna da Cmara, nos discursos bem escritos, e no teatro da
Rua de Richelieu, nas peas igualmente bem escritas. Mas o
mesmo no aconteceu com Debray. Chegado  passagem do Luvre,
virou  esquerda, atravessou o Carrossel a galope, meteu pela
Rua de Saint-Roch, desembocou pela Rua da Michodire e chegou
 porta do Sr. Danglars no momento em que o land do Sr. de
Villefort, depois de o deixar a ele e  mulher no Arrabalde de
Saint-Honor, parava para a baronesa se apear em sua casa.

Debray, como homem familiar da casa, entrou  frente no ptio,
atirou as rdeas para as mos de um lacaio e dirigiu-se para a
portinhola da carruagem a fim de receber a Sr.a Danglars, 
qual ofereceu o brao para a acompanhar aos seus aposentos.

Uma vez a porta fechada e a baronesa e Debray no ptio, o
rapaz perguntou:

- Que tem, Hermine? Por que motivo se sentiu mal ao ouvir
aquela histria, ou antes, a fbula que o conde contou?

- Porque estava horrivelmente deprimida esta noite, meu amigo
- respondeu a baronesa.

- No, Hermine - prosseguiu Debray --, no posso acreditar
nisso. Pelo contrrio, estava com excelente disposio quando
chegou a casa do conde. O Sr. Danglars  que estava um pouco
aborrecido, isso  verdade, mas bem sei o pouco caso que a
senhora faz do seu mau humor. Algum lhe fez qualquer coisa, a
si. Conte-me o que foi. Bem sabe que nunca toleraria uma
impertinncia para consigo.

- Engana-se, Lucien, garanto-lhe - redarguiu a Sr.a Danglars.
- As coisas so como lhe disse, mais o mau humor em que
reparou e de que julgava no valer a pena falar-lhe.

Era evidente que a Sr.a Danglars se encontrava sob a
influncia de uma dessas crises nervosas de que muitas vezes
as prprias mulheres se no do conta, ou que, como adivinhara
Debray, experimentara qualquer comoo oculta que no queria
confessar a ningum. Como homem habituado a reconhecer os
flatos como um dos elementos da vida feminina, no insistiu
mais e resolveu esperar o momento oportuno, quer para nova
interrogao, quer para uma confisso de motu proprio.

 porta do seu quarto a baronesa encontrou Mademoiselle
Cornlie. Mademoiselle Connlie era a criada de quarto de
confiana da baronesa.

- Que faz a minha filha? - perguntou a Sr.a Danglars.

- Estudou toda a noite e em seguida foi-se deitar - respondeu
Mademoiselle Cornlie.

- No entanto, parece-me que ouo o seu piano...

- E Mademoiselle Louise de Armilly que toca enquanto a menina
est deitada.

- Bem, venha despir-me - ordenou a Sr.a Danglars.
Entraram no quarto. Debray estendeu-se num grande canap e a
Sr.a Danglars dirigiu-se para o seu quarto de vestir com
Mademoiselle Cornlie.

- Meu caro Sr. Lucien - disse a Sr.a Danglars atravs da porta
do quarto de vestir --, porque est sempre a queixar-se de que
Eugnie no lhe d a honra de lhe dirigir a palavra?

- Minha senhora - respondeu Lucien, brincando com o cozinho
da baronesa, o qual, reconhecendo a sua qualidade de amigo da
casa, tinha o hbito de lhe fazer mil carcias --, no sou o
nico que lhe fao semelhantes recriminaes.

Creio ter ouvido um dia destes Morcerf queixar-se a si mesma
de que no conseguia arrancar uma nica palavra  noiva.

-  verdade - reconheceu a Sr.a Danglars. - Mas creio que uma
destas manhs tudo isso mudar e ver entrar Eugnie no seu
gabinete.

- No meu gabinete?

- Quero dizer, no do ministrio.

- E porqu?

- Para lhe pedir um contrato para a pera! Na verdade, nunca
vi tal entusiasmo pela msica. Chega a ser ridculo numa
pessoa da sociedade.

Debray sorriu.

- Bom, desde que aparea com o seu consentimento e baro,
arranjar-lhe-emos esse contrato e procuraremos que esteja de
acordo com o seu mrito, embora sejamos muito pobres para
pagar to grande talento como o dela.

- Pode ir, Cornlie, j no preciso de si - disse a Sr.a
Danglars.

Cornlie saiu e pouco depois a Sr.a Danglars saiu tambm do
quarto de vestir num elegante nglig e foi sentar-se ao p
de Lucien.

Depois, pensativa, ps-se a afagar o petit-pagneul.

Lucien olhou-a um instante em silncio.

- Vejamos, Hermine, responda francamente: que  que a
preocupa? - perguntou por fim.

- Nada - respondeu a baronesa.

E no entanto, como sufocasse, levantou-se, tentou respirar e
foi ver-se ao espelho.

- Estou medonha, esta noite - declarou.

Debray ia a levantar-se, sorrindo, para ir tranquilizar a
baronesa a tal respeito, quando a porta se abriu de sbito.

O Sr. Danglars entrou. Debray voltou a sentar-se.

Ao ouvir o barulho da porta, a Sr.a Danglars virou-se e olhou
o marido com um espanto que nem sequer se incomodou a
dissimular.

- Boas noites, minha senhora. Boas noites, Sr. Debray.

A baronesa julgou, sem dvida, que aquela visita inesperada
significava qualquer coisa como o desejo de reparar as
palavras amargas que tinham escapado ao baro durante o dia.

Assumiu por isso um ar digno e, virando-se para Lucien, sem
responder ao marido, disse-lhe:

- Leia-me qualquer coisa, Sr. Debray.

Debray, a quem a visita comeava por inquietar ligeiramente,
tranquilizou-se ao ver a calma da baronesa e estendeu a mo
para um livro marcado ao meio por uma faca de lmina de
madreprola incrustada de ouro.

- Perdo - disse o banqueiro --, mas cansar-se-ia demasiado
ficando acordada at to tarde. So onze horas e o Sr. Debray
mora muito longe.

Debray ficou tolhido de surpresa, no porque o tom de Danglars
no fosse perfeitamente calmo e delicado mas, enfim, atravs
daquela calma e daquela delicadeza transparecia certa
veleidade pouco habitual de contrariar a vontade da mulher
naquela noite.

A baronesa tambm ficou admirada e manifestou a sua surpresa
com um olhar que sem dvida daria que pensar ao marido se este
no tivesse os olhos fixos num jornal onde procurava o fecho
da Bolsa.

Devido a isso, esse olhar to ferino foi lanado em pura perda
e falhou completamente o seu efeito.

- Sr. Lucien - disse a baronesa --, declaro-lhe que no tenho
a mais pequena vontade de dormir, que tenho inmeras coisas
para lhe contar esta noite e que o senhor vai passar a noite a
ouvir-me, nem que tenha de dormir de p.

- s suas ordens, minha senhora - respondeu fleumaticamente
Lucien.

- Meu caro Sr. Debray - disse por sua vez o banqueiro -- no
perca tempo, peo-lhe, a escutar esta noite as loucuras da
Sr.a Danglars, pois escut-las- facilmente amanh. Mas esta
noite  minha, reservo-ma, e dedicla-ei, se se dignar
permitir-mo, a conversar de graves interesses com a minha
mulher.

Desta vez o golpe era de tal forma directo e firme que deixou
Lucien e a baronesa desorientados.

Ambos se interrogaram com a vista, como se procurassem um no
outro socorro contra aquela agresso. Mas o poder irresistvel
do dono da casa triunfou e deu fora ao marido.

- Que nem sequer lhe passe pela cabea que o ponho na rua, meu
caro Debray - continuou Danglars. - No, por nada deste mundo.
Apenas uma circunstncia imprevista me obriga a desejar ter
esta mesma noite uma conversa com a baronesa. Isto acontece-me
muito raramente e portanto espero que me no guardem rancor.

Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu,
chocando com as esquinas, como Nat em :Atalia.

-  incrvel - disse quando a porta se fechou atrs de si --
como estes maridos que achamos to ridculos adquirem
facilmente vantagem sobre ns!

Depois de Lucien sair, Danglars instalou-se no seu lugar no
canap, fechou o livro que ficara aberto e, tomando uma
atitude horrivelmente pretensiosa, continuou a brincar com o
co. Mas como o co, que no tinha por ele a mesma simpatia
que por Debray, o quisesse morder, agarrou-o pelo cachao e
atirou-o para cima doutro canap colocado do lado oposto do
quarto.

O animal ganiu ao atravessar o espao; mas chegado ao seu
destino aninhou-se atrs de uma almofada e, estupefacto com
semelhante tratamento a que no estava habituado, ficou mudo e
quedo.

- Sabe, senhor - disse a baronesa sem pestanejar - que est a
fazer progressos? Habitualmente  apenas grosseiro; esta noite
 brutal.

-  que estou esta noite de mais mau humor do que
habitualmente - respondeu Danglars.

Hermine olhou o banqueiro com supremo desdm. Regra geral,
tais olhares exasperavam o orgulho de Danglars; mas naquela
noite pareceu quase no reparar neles.

- E que me interessa a mim o seu mau humor? - replicou a
baronesa, irritada com a impassibilidade do marido. -
Porventura essas coisas dizem-me respeito? Guarde os seus maus
humores para si ou descarregue-os nos seus escritrios. Uma
vez que tem empregados a quem paga, eles que lhe aturem os
maus humores!

- De modo nenhum - respondeu Danglars. - Os seus conselhos so
insensatos, minha senhora, e por isso no os seguirei. Os meus
escritrios so o meu Pactolo, como diz, se me no engano, o
Sr. Desmoustiers, e no desejo mudar-lhe o curso nem
perturbar-lhe a calma. Os meus empregados so pessoas
honestas, que me ganham a minha fortuna e a quem pago uma taxa
infinitamente inferior  que merecem, se os avaliar de acordo
com o que me rendem. Portanto, no descarregarei a minha
clera sobre eles; descarreg-la-ei sobre aqueles que papam os
meus jantares, rebentam os meus cavalos e esvaziam o meu
cofre.

- E quem so essas pessoas que esvaziam o seu cofre?
Explique-se mais claramente, senhor, peo-lhe.

- Oh, esteja tranquila! Embora fale por enigmas, estou certo
de que no precisar de muito tempo para os decifrar -
redarguiu Danglars. - As pessoas que esvaziam o meu cofre so
aquelas que numa hora tiram dele a bagatela de quinhentos mil
francos.

- No o compreendo, senhor - disse a baronesa, procurando
dissimular simultaneamente a emoo da voz e o rubor do rosto.

- Pelo contrrio, compreende muito bem - contraps Danglars. -
Mas se a sua m vontade continuar, dir-lhe-ei que acabo de
perder setecentos mil trancos do emprstimo espanhol.

- Essa agora! - exclamou a baronesa, troando. - E  a mim que
torna responsvel por essa perda?

- Porque no?

- Tenho por acaso a culpa se o senhor perdeu setecentos mil
francos?

- Seja como for, eu  que a no tenho.

- De uma vez para sempre, senhor - redarguiu azedamente a
baronesa --, repito-lhe: nunca me fale em dinheiro!  uma
linguagem que no aprendi nem em casa de meus pais nem em casa
do meu primeiro marido.

- Acredito, meu Deus! - volveu-lhe Danglars. Pois se nem um
nem outro tinham um chavo!

- Mais uma razo para que no tenha aprendido em sua casa o
calo bancrio com que me matam aqui o bichinho do ouvido de
manh  noite. Esse barulho de moedas que contam e recontam
-me odioso, e s o som da sua voz me  ainda mais
desagradvel.

- Na verdade, como tudo isto  estranho! - comentou Danglars.
- E eu que julgava que a senhora dedicava o mais vivo
interesse s minhas operaes!

- Eu? Quem lhe meteu na cabea semelhante tolice?

- A senhora mesma.

- Ora essa!

- Sem dvida.

- Gostaria muito que me dissesse quando isso aconteceu.

- Nada mais fcil, meu Deus! Em Fevereiro ltimo, a senhora
foi a primeira pessoa a falar-me dos fundos de Haiti. Sonhara
que um navio entrava no porto do Havre e que esse navio trazia
a notcia de que se ia efectuar um pagamento que se  julgava
relegado para as calendas gregas. Conheo a lucidez do seu
sono, por isso, mandei comprar  socapa todos os cupes que
consegui encontrar da dvida do Haiti e ganhei quatrocentos
mil francos, cem mil dos quais lhe foram religiosamente
entregues. A senhora fez o que quis desse dinheiro e eu nunca
lhe pedi contas dele.

"Em Maro, tratava-se de uma concesso de caminho-de-ferro.
Concorriam trs empresas que davam iguais garantias. A senhora
disse-me que o seu instinto... (Aqui entre ns, embora a
senhora se pretenda alheia s especulaes, creio, pelo
contrrio, que possui um instinto desenvolvidssimo a respeito
de certas matrias... ) Pois nesse caso disse-me que o seu
instinto lhe segredava que a concesso seria dada  empresa
chamada do Meio-Dia.

"Inscrevi-me imediatamente para subscrever dois teros das
aces dessa sociedade. A concesso foi-lhe efectivamente
dada, como a senhora previra; as aces triplicaram de valor e
eu embolsei um milho, do qual lhe entreguei duzentos e
cinquenta mil francos para os seus alfinetes. Como empregou
esses duzentos e cinquenta mil francos?

- Mas onde quer o senhor chegar? -- gritou-lhe a baronesa,
trmula de despeito e impacincia.

- Calma, minha senhora. L iremos...

- Assim espero!

- Em Abril, jantou em casa do ministro. Falou-se de Espanha e
a senhora ouviu uma conversa secreta. Tratava-se da expulso
de D. Carlos. Comprei fundos espanhis. A expulso realizou-se
e eu ganhei seiscentos mil francos no dia em que Carlos V
transps o Bidassoa. Desses seiscentos mil francos a senhora
recebeu cinquenta mil escudos. Eram seus, disps deles como
muito bem entendeu e no lhe peo contas. Mas nem por isso 
menos verdade que recebeu este ano quinhentas mil libras.

- E depois, senhor?

- Ah, sim, e depois! A  que precisamente o gato vai s
filhs.

- Tem cada maneira de se exprimir... na verdade...

- Dizem o que quero dizer e isso  tudo o que pretendo.
Depois, h trs dias... H trs dias a senhora falou de
poltica com o Sr. Debray e julgou adivinhar nas suas palavras
que D. Carlos regressara a Espanha. Ento vendi os meus
ttulos, a notcia espalhou-se, houve pnico e em vez de
vender acabei por dar. No dia seguinte descobre-se que a
notcia era falsa e devido a essa falsa notcia perdi
setecentos mil francos!

- E depois?

- E depois?... Se lhe dou um quarto quando ganho, a senhora
deve-me um quarto quando perco. Ora, um quarto de setecentos
mil francos so cento e setenta e cinco mil francos.

- Tudo o que tem estado para a a dizer  extravagante e no
vejo por que motivo mistura o nome do Sr. Debray em toda essa
histria.

- Porque se por acaso no tem os cento e setenta e cinco mil
francos que reclamo, ter de os pedir emprestados aos seus
amigos e o Sr. Debray  um dos seus amigos.

- Era o que faltava! - gritou a baronesa.

- Oh, deixe-se de gestos, de gritos, de drama moderno, minha
senhora! De contrrio, obrigar-me- a dizer-lhe que j estou a
ver o Sr. Debray a rir junto das  quinhentas mil libras que
a senhora lhe deu este ano e dizendo para consigo que
descobriu finalmente o que nem os mais hbeis jogadores nunca
descobriram, ou seja, uma roleta onde se ganha sem entrar no
jogo e onde no se perde quando se perde.

A baronesa explodiu.

- Miservel! Atreve-se a dizer-me que no sabia o que hoje
ousa censurar-me?

- No lhe digo que sabia nem lhe digo que no sabia; digo-lhe:
observe o meu comportamento desde que h quatro anos no 
minha mulher e que no sou seu marido e ver se no tem sido
sempre consequente consigo mesmo. Algum tempo antes do nosso
rompimento, a senhora desejou estudar msica com aquele famoso
bartono que se estreou com tanto xito no Teatro Italiano e
eu quis estudar dana com aquela bailarina que adquirira to
grande fama em Londres. Isso custou-me, tanto pela sua parte
como pela minha, perto de cem mil francos. No disse nada,
porque deve haver harmonia no lar. Cem mil francos para que o
homem e a mulher saibam bem a fundo dana e msica no  muito
caro. Mas a senhora no tardou a aborrecer-se do canto e a
vir-lhe  ideia estudar diplomacia com um secretrio de um
ministro. Deixei-a estudar... Compreende: que me importava a
mim, se a senhora pagava as lies da sua bolsa? Mas hoje
verifico que o dinheiro sai da minha e que a sua aprendizagem
me pode custar setecentos mil francos por ms... Alto a,
minha senhora, porque as coisas no podem continuar assim! Ou
o diplomata passa a dar as lies... de graa, e toler-lo-ei,
ou no pe mais os ps c em casa. Compreendeu, minha senhora?

- Oh,  de mais, senhor! - gritou Hermine, sufocada. - O
senhor ultrapassa os limites do ignbil!

- Mas - continuou Danglars - verifico com prazer que a senhora
no me fica atrs e que obedece voluntariamente quela
disposio do cdigo que diz: "A mulher deve seguir o marido."

- Insultos!

- Tem razo: fiquemo-nos pelos factos e raciocinemos
friamente. Nunca me meti na sua vida a no ser para seu bem.
Faa o mesmo. O meu cofre no lhe diz respeito, no  o que a
senhora afirma? Seja. Cuide do seu, mas no encha nem despeje
o meu. Alis, quem sabe se tudo isso no passa de uma pulhice
poltica? Se o ministro, furioso por me ver na oposio e
invejoso das simpatias populares que suscito, no est feito
com o Sr. Debray para me arruinar?

- Acha isso possvel?

- Mas sem dvida! S quem nunca viu isso... uma falsa notcia
telegrfica, isto , o impossvel ou quase... Sinais
absolutamente diferentes transmitidos pelos dois ltimos
telgrafos!... Para mim,  esta a realidade.

- Senhor - disse mais humildemente a baronesa --, no ignora,
parece-me, que esse funcionrio foi expulso, que se falou at
de lhe levantar um processo, que se deu ordem para o prender e
que essa ordem teria sido cumprida se ele se no tivesse
subtrado s primeiras buscas por meio de uma fuga que prova a
sua loucura ou a sua culpabilidade... Foi um erro.

- Sim, que fez rir os tolos, passar uma m noite ao ministro,
escrevinhar os Srs. Secretrios de Estado, mas que me custou a
mim setecentos mil francos.

- Mas, senhor - disse de sbito Hermine --, se tudo isso, em
seu entender,  culpa do Sr. Debray, por que motivo, em vez de
dizer todas essas coisas directamente ao Sr. Debray, mas diz a
mim? Porque acusa o homem e censura a mulher?

- Conheo porventura o Sr. Debray? - perguntou Danglars. -
Interessa-me porventura conhec-lo? Quero porventura saber se
ele d conselhos? Estou porventura disposto a segui-los? Jogo,
porventura? No,  a senhora que faz tudo isto e no eu!

- Mas parece-me, uma vez que o senhor tira proveito disso...
Danglars encolheu os ombros.

- Loucas criaturas, na verdade, estas mulheres que se julgam
gnios s porque levaram a bom termo uma ou duas intrigas sem
serem apontadas a dedo por todo o Paris! Mas fique ciente que
mesmo que tivesse conseguido ocultar os seus desregramentos ao
seu marido, o que seria o abc da arte, porque a maior parte do
tempo os maridos no querem ver, a senhora no passaria de uma
plida cpia do que faz metade das suas amigas da alta-roda.
Mas comigo as coisas no se passam assim Tenho visto e sempre
vi. H dezasseis anos, mais ou menos, talvez me tivesse
ocultado um pensamento, mas no um procedimento, uma aco,
uma falta. Enquanto pelo seu lado se felicitava pela sua
astcia e julgava firmemente enganar-me, que acontecia? Graas
 minha pretensa ignorncia, desde o Sr. de Villefort at ao
Sr. Debray, no h um dos seus amigos que no tenha tremido
diante de mim. No h um que no me tenha tratado como dono da
casa, a minha nica pretenso junto de si. No h um, enfim,
que se tenha atrevido a dizer-lhe de mim o que eu prprio lhe
digo agora. Permito-lhe que me torne odioso, mas impedi-la-ei
de me tornar ridculo, e sobretudo probo-a concretamente e
acima de tudo de me arruinar.

At ao momento em que o nome de Villefort fora pronunciado, a
baronesa conservara-se aparentemente calma. Mas ao ouvir
aquele nome, empalidecera e, erguendo-se como se fosse
impelida por uma mola, estendera os braos como que para
conjurar uma apario e deu trs passos na direco do marido,
como se quisesse arrancar-lhe o fim do segredo que ele no
conhecia ou que talvez, por meio de qualquer clculo odioso
como eram quase sempre todos os clculos de Danglars, ele no
queria revelar inteiramente.

- O Sr. de Villefort? Que significa... que quer dizer?

- Quer dizer, minha senhora, que o Sr. de Nargonne, seu
primeiro marido, no sendo filsofo nem banqueiro, ou talvez
sendo um e outro, e vendo que no tinha nenhum partido a tirar
de um procurador rgio, morreu de desgosto ou de raiva por a
encontrar grvida de seis meses, depois de uma ausncia de
nove. Sou brutal, e no s o sei como ainda me gabo disso. 
um dos meus meios de xito nas minhas operaes comerciais.
Por que motivo, em vez de matar se matou a si mesmo? Porque
no tinha de salvar o seu dinheirinho. Mas eu devo-me ao meu
dinheiro. O Sr. Debray, meu scio, fez-me perder setecentos
mil francos; pois que suporte a sua parte do prejuzo e
continuaremos a negociar. De contrrio, que declare falncia
perante mim por essas cento e setenta e cinco mil libras e
faa o que fazem os falidos, desaparea. Meu Deus,  um rapaz
encantador, bem sei, quando as suas notcias so exactas; mas
quando o no so, h cinquenta no mundo que valem mais do que
ele.

A Sr.a Danglars estava aterrada. No entanto, fez um derradeiro
esforo para ripostar ao ltimo ataque. Mas caiu numa poltrona
a pensar em Villefort, na cena do jantar e na estranha srie
de contrariedades que havia alguns dias se abatiam uma a uma
sobre a sua casa e transformavam em debates escandalosos a
calma forada do seu lar. Danglars nem sequer a olhou, embora
ela fizesse todo o  possvel para desmaiar. Bateu com a
porta do quarto sem acrescentar uma nica palavra e regressou
ao seu. Assim, quando voltou a si do seu meio desmaio, a Sr.a
Danglars pde acreditar que tivera um mau sonho.


Captulo LXVI

Projectos de casamento


No dia seguinte ao desta cena,  hora que Debray costumava
escolher para, antes de ir para o seu gabinete, fazer uma
visitinha  Sr.a Danglars, o seu cup no apareceu no ptio.

A essa hora, isto , por volta do meio-dia e meia hora, a Sr.a
Danglars pediu a sua carruagem e saiu.

Danglars, colocado atrs de uma cortina, espreitara aquela
sada, que esperava, e ordenou que o prevenissem imediatamente
quando a senhora voltasse. Mas s duas horas ela ainda no
tinha regressado.

s duas horas, Danglars pediu os seus cavalos, dirigiu-se
para a Cmara e inscreveu-se para falar contra o oramento.

Do meio-dia s duas horas, Danglars permanecera no seu
gabinete a ler a sua correspondncia com ar cada vez mais
sombrio e a alinhar nmeros sobre nmeros, alm de receber,
entre outras, a visita do major Cavalcanti, que, sempre
lvido, hirto e pontual, se apresentou  hora anunciada na
vspera para concluir o seu negcio com o banqueiro.

Quando saiu da Cmara, Danglars, que dera sinais evidentes de
agitao durante a sesso e que sobretudo fora mais acerbo do
que nunca contra o ministrio, meteu-se na sua carruagem e
ordenou ao cocheiro que o conduzisse  Avenida dos Campos
Elsios, n.o 30.

Monte-Cristo estava em casa; mas como estava com algum,
pedia a Danglars que esperasse um instante na sala.

Enquanto o banqueiro esperava, a porta abriu-se e ele viu
entrar um homem vestido de abade, que, em vez de esperar como
ele, o cumprimentou e, decerto por ser mais familiar do que
ele na casa, se dirigiu para o interior desta e desapareceu.
Pouco depois, a porta por onde entrara o padre voltou a
abrir-se e Monte-Cristo apareceu.

- Desculpe, meu caro baro - disse--, mas um dos meus melhores
amigos, o abade Busoni, que deve ter visto passar, acaba de
chegar a Paris. Havia muito tempo que no nos vamos e no
tive coragem de o deixar imediatamente.
Espero que, atendendo ao motivo, me desculpe t-lo feito
esperar.

- Ora essa, eu  que escolhi mal o momento. Mas o remdio 
simples: retiro-me.

- De modo nenhum, Pelo contrrio, faa favor de se sentar.
Mas, meu Deus, que tem o senhor? Tem o ar de estar muito
preocupado. Na verdade, assusta-me. Um capitalista preocupado
 como os cometas: pressagia sempre alguma grande desgraa no
mundo.

- Meu caro senhor - respondeu Danglars --, h vrios dias que
a pouca sorte me persegue e que s recebo ms noticias.

- Meu Deus, voltou a perder na Bolsa? - perguntou
Monte-Cristo.

- No, disso j me ressarci, pelo menos por alguns dias.
Trata-se muito simplesmente para mim de uma falncia em
Trieste.

- Sim? E o seu falido ser por acaso Jacopo Manfredi?

- Exactamente! Imagine um homem que tinha comigo, h no sei
quanto tempo, negcios no montante de oitocentos ou novecentos
mil francos por ano. Nunca um erro de contas, nunca um atraso.
Um figuro que pagava como um prncipe... dos que pagam.
Adiantei-lhe um milho e o diabo do meu Jacopo Manfredi
suspende pagamentos!

- Deveras?

- Uma fatalidade inaudita. Saco sobre ele seiscentas mil
libras e o papel vem-me devolvido incobrado, e alm disso sou
ainda portador de quatrocentos mil francos de letras aceites
por ele e pagveis no fim deste ms no seu correspondente em
Paris. Estamos a 30, mandei receber. Pois sim, o
correspondente desapareceu! Juntamente com o meu negcio de
Espanha, tenho um bonito fim de ms.

- Mas foi realmente uma perda o seu negcio de Espanha?

- Claro, setecentos mil francos tora do meu cofre, apenas
isso!

- Como diabo cometeu semelhante asneira, o senhor, um velho
especulador?

- A culpa foi da minha mulher. Sonhou que D. Carlos regressara
a Espanha. Ela acredita nos sonhos. Trata-se de magnetismo,
diz ela, e quando sonha uma coisa, essa coisa, ao que afirma,
tem infalivelmente de acontecer. Dada a sua convico, deixo-a
jogar. Ela tem o seu p-de-meia, e o seu corrector. Joga e
perde. E certo que se no trata do meu dinheiro e sim do seu,
mas mesmo assim o caso interessa-me. Compreende, quando da
bolsa da mulher saem setecentos mil francos, o marido acaba
sempre por descobrir. Como, no sabia de nada? Pois olhe que o
caso deu muito que falar.

- Efectivamente ouvi qualquer coisa a esse respeito, mas
ignorava os pormenores, pois no h ningum mais ignorante
desses negcios de Bolsa do que eu.

- O senhor no joga?

- Eu? Como queria que jogasse? Tenho j tanta dificuldade em
cuidar dos meus rendimentos que, alm do meu intendente, seria
obrigado a contratar um escriturrio e um caixa. Mas a
propsito de Espanha, parece-me que a baronesa no sonhou
completamente com a histria do regresso de D. Carlos. Os
jornais no disseram qualquer coisa a esse respeito?

- E o senhor acredita nos jornais?

- Absolutamente nada. Mas parece-me que esse honesto
Messager era uma excepo  regra e s anunciava as
notcias verdadeiras, as notcia telegrficas

- Pois isso mesmo  que  inexplicvel - redarguiu Danglars. -
O regresso de D. Carlos era efectivamente uma notcia
telegrfica.

- De modo que o senhor perdeu este ms um milho e setecentos
mil francos, pouco mais ou menos? - perguntou Monte-Cristo.

- No h pouco mais ou menos, foi exactamente essa verba.

- Demnio, para uma fortuna de terceira ordem,  um rude
golpe! - declarou Monte-Cristo, com compaixo.

- De terceira ordem? - repetiu Danglars um pouco vexado. - Que
diabo entende o senhor por isso?

- Sem dvida - prosseguiu Monte-Cristo. - Divido as fortunas
em trs categorias: fortuna de primeira ordem, fortuna de
segunda ordem e fortuna de terceira ordem. Chamo fortuna de
primeira ordem  que se compe de tesouros ao alcance da mo:
terras, minas, ttulos sobre Estados como a Frana, a ustria
e a Inglaterra, contanto que esses tesouros, essas minas e
esses ttulos atinjam o total de uma centena de milhes. Chamo
fortuna de segunda ordem s exploraes manufactureiras, s
empresas por quotas, aos vice-reinos e aos principados que no
excedam um milho e quinhentos mil trancos de rendimento e ao
todo possuam um capital  volta de cinquenta milhes.
Finalmente, chamo fortuna de terceira ordem aos capitais que
frutificam por meio de juros compostos, cujos ganhos dependem
da vontade doutrm ou dos caprichos do acaso, que uma falncia
desmorona, que uma notcia telegrfica abala; s especulaes
eventuais e, enfim, s operaes submetidas aos acasos dessa
fatalidade, que poderamos chamar fora menor comparando-a com
a tora maior, que  a fora natural; tudo constituindo um
capital fictcio ou real dos seus quinze milhes. No  pouco
mais ou menos esta a sua situao, diga?

- Pois sim, ! - respondeu Danglars.

- O que significa que com seis fins de ms como este -
continuou imperturbavelmente Monte-Cristo - uma casa de
terceira ordem estaria na agonia.

- Oh! - exclamou Danglars, com um sorriso muito plido. - Onde
o senhor j vai!...

- Digamos sete meses - replicou Monte-Cristo, no mesmo tom. -
J pensou alguma vez que sete vezes um milho e setecentos mil
francos fazem cerca de doze milhes?... No? Claro, tem razo,
pois com semelhantes reflexes nunca ningum arriscaria os
seus capitais, que so para o financeiro o que a pele  para o
homem civilizado. Temos as nossas roupas, mais ou menos
sumptuosas, que so o nosso crdito. Mas quando o homem morre
tem apenas a sua pele, tal como, se renunciasse aos negcios,
o senhor s teria a sua fortuna real, cinco ou seis milhes
quando muito.

"Porque as fortunas de terceira ordem quase s valem a tera
ou a quarta parte do que aparentam, tal como a locomotiva de
um comboio no passa quase sempre, no meio do fumo que a
envolve e a faz parecer maior, de uma mquina mais ou menos
forte. Pois bem, dos cinco milhes que constituem o seu activo
real, o senhor acaba de perder  volta de dois, que diminuem
em igual quantia a sua fortuna fictcia ou o seu crdito. Quer
dizer, meu caro Sr. Danglars! Precisa de dinheiro? Quer que
lho empreste?

- O senhor  um mau calculador! - protestou Danglars, chamando
em seu auxlio toda a filosofia e toda a dissimulao da
aparncia. - Neste momento o dinheiro j entrou nos meus
cofres graas a outras especulaes bem sucedidas. O sangue
sado pela sangria voltou a entrar pela nutrio. Perdi uma
batalha em Espanha e fui vencido em Trieste, mas a minha frota
da ndia apresou com certeza alguns galees e os meus
pioneiros do Mxico devem ter descoberto alguma mina.

- ptimo, ptimo! Mas a cicatriz ficar e ao primeiro
prejuzo reabrir...

- No, porque me baseio em certezas - prosseguiu Danglars, com
a  loquacidade vulgar do charlato que procura no deixar o
seu crdito por mos alheias. - Para me derrubar seria preciso
que trs governos cassem.

- Bom... j se tem visto.

- Que a terra no produzisse.

- Lembre-se das sete vacas gordas e das sete vacas magras.

- Ou que o mar se abrisse, como no tempo do fara. Mas h
vrios mares e os navios poderiam transformar-se em
caravanas...

- Tanto melhor, mil vezes tanto melhor, caro Sr. Danglars -
disse Monte-Cristo. - Verifico que me enganei e que o senhor
pertence s fortunas de segunda ordem.

- Creio poder aspirar a essa honra - redarguiu Danglars, com
um daqueles sorrisos estereotipados que causavam a
Monte-Cristo o eleito de uma dessas luas pastosas com que os
maus pintores pintalgam as suas runas. - Mas j que estamos a
falar de negcios - acrescentou, encantado por encontrar
pretexto para mudar de conversa - diga-me mais ou menos o que
posso fazer pelo Sr. Cavalcanti.

- Mas dar-lhe dinheiro, se ele tiver um crdito sobre o senhor
e se esse crdito lhe parecer hom.

- Excelente! Apresentou-se-me esta manh com uma ordem de
quarenta mil francos, pagvel  vista sobre o senhor, assinada
por Busoni e endossada a mim por si. Como calcula,
entreguei-lhe imediatamente os quarenta mil francos.

Monte-Cristo fez um sinal de cabea que indicava estar
plenamente de acordo.

- Mas isto no  tudo - continuou Danglars. - Abriu ao filho
um crdito sobre mim.

- Quanto, se no  indiscrio, d ele ao rapaz?

- Cinco mil francos por ms.

- Sessenta mil francos por ano. J desconfiava disso - disse
Monte-Cristo, encolhendo os ombros. - So uns forretas, esses
Cavalcanti! Que quer ele que um rapaz faa com cinco mil
francos por ms?

- Mas se o rapaz necessitar de mais alguns milhares de
francos...

- No caia nessa! O pai no lhos pagava. O senhor no conhece
todos os milionrios transalpinos; so autnticos sovinas. E
por intermdio de quem lhe abriu o crdito?

- Por intermdio da Casa Fenzi, uma das melhores de Florena.

- No quero dizer que o seu dinheiro no esteja seguro, nem
por sombras; mas, mesmo assim, cinja-se aos termos da carta de
crdito.

- Devo entender que no meu lugar no confiaria no Cavalcanti?

- Eu? Dar-lhe-ia dez milhes mediante a sua assinatura. A dele
faz parte das fortunas de segunda ordem de que lhe falava h
pouco, meu caro Sr. Danglars.

- E, no entanto, como  simples! Tom-lo-ia apenas por um
major, se no soubesse mais nada a seu respeito.

- E j seria uma grande honra para ele! Porque o senhor tem
razo, o homem no tem grande figura. Quando o vi pela
primeira vez, pareceu-me um velho tenente que tivesse criado
bolor debaixo da sua charlateira. Mas todos os italianos so
assim: lembram velhos judeus, quando no deslumbram como magos
do Oriente.

- O rapaz  melhor - declarou Danglars.

- Sim, mas talvez um bocadinho tmido. No entanto, pareceu-me
aceitvel. Estava preocupado, sabe?

- Porqu?

- Porque o senhor viu-o em minha casa pouco depois da sua
entrada na sociedade, pelo menos segundo me disseram. Viajou
com um preceptor severssimo e nunca viera a Paris.

- Todos esses italianos de alta linhagem tm o hbito de casar
entre si, no  verdade? - perguntou negligentemente Danglars.
- Gostam de juntar as suas fortunas.

- Habitualmente procedem assim,  verdade; mas Cavalcanti  um
original que no faz nada como os outros. Ningum me tira da
ideia que mandou vir o filho para Frana a fim de ele arranjar
c mulher.

- Parece-lhe?

- Tenho a certeza.

- J ouviu falar da sua fortuna?

- No se fala doutra coisa. - Simplesmente, uns atribuem-lhe
milhes, ao passo que outros pretendem que no possui chavo.

- E qual  a sua opinio?

- No deve confiar demasiado nela;  meramente pessoal.

- Mas enfim...

- Na minha opinio, todos esses antigos podestades, todos
esses velhos condottieri, porque os Cavalcanti comandaram
exrcitos e governaram provncias; na minha opinio, repito,
eles enterraram milhes em recantos que s os seus
primognitos conhecem e do a conhecer aos seus primognitos
de gerao em gerao. E a prova  que so todos amarelos e
magros como os seus florins do tempo da Repblica, de que
conservam um reflexo  fora de os olhar.

- Perfeito - concordou Danglars. - E isso  tanto mais verdade
quanto  certo ningum conhecer uma polegada de terra a toda
essa gente.

- Muito pouca, pelo menos. Pela minha parte, s conheo a
Cavalcanti o seu palcio de Luca.

- Ah, ele tem um palcio! -- exclamou, rindo, Danglars. - J 
qualquer coisa.

- Pois , embora o tenha alugado ao ministro das Finanas,
enquanto ele mora num casinhoto. Oh, mas como j lhe disse,
creio que o homenzinho  um avarento!

- Ento, ento, no seja to severo...

- Oua, eu mal o conheo. Creio t-lo visto trs vezes na
minha vida. O que sei a seu respeito  por intermdio do abade
Busoni e por ele mesmo. Falava-me esta manh dos seus
projectos acerca do filho e deixava-me entrever que, farto de
ver dormir fundos considerveis em Itlia, que  um pais
morto, gostaria de encontrar maneira, quer em Frana, quer em
Inglaterra, de fazer frutificar os seus milhes. Mas tome
sempre bem nota que, embora tenha a maior confiana no abade
Busoni, pessoalmente no garanto nada.

- No importa. Obrigado pelo cliente que me arranjou. Trata-se
de um belssimo nome a inscrever nos meus registos, e o meu
tesoureiro, a quem expliquei quem eram os Cavalcanti, ficou
todo orgulhoso. A propsito, e isto no passa de um simples
pormenor sem importncia, quando essa gente casa os filhos
d-lhes dote?

- Meu Deus,  conforme! Conheci um prncipe italiano, rico
como uma  mina de ouro, um dos primeiros nomes da Toscana,
que quando os filhos casavam a seu gosto lhes dava milhes, e
quando casavam contra sua vontade se limitava a conceder-lhes
uma mesada de trinta escudos por ms. Admitamos que Andrea
casa de acordo com os desejos do pai; talvez este lhe d um,
dois ou trs milhes. E se casasse com a filha de um
banqueiro, por exemplo, talvez adquirisse uma quota na casa do
sogro do filho...

" Mas suponha tambm que a nora lhe desagradava: adeus,
minhas encomendas, o pai Cavalcanti pegava na chave do cofre,
dava-lhe duas voltas na fechadura e mestre Andrea via-se
obrigado a viver como um filho-famlia parisiense, marcando
cartas ou viciando dados.

- Esse rapaz encontrar uma princesa bvara ou peruana.
Ambicionar uma coroa fechada, um Eldorado atravessado pelo
Potosi.

- No, todos os grandes senhores do outro lado dos montes
casam frequentemente com simples mortais. So como Jpiter,
gostam de cruzar as raas. Mas diga-me c, meu caro Sr.
Danglars:  por pretender casar Andrea que me faz todas essas
perguntas?...

- Confesso - respondeu Danglars - que no me parece m
especulao. E eu sou um especulador...

- Presumo que no seja com Mademoiselle Danglars... -- Decerto
no quereria ver o pobre Andrea degolado por Albert...

- Albert? - exclamou Danglars, encolhendo os ombros. Bem se
preocuparia ele com isso!

- Mas, se me no engano, trata-se do noivo da sua filha...

- Bom, o Sr. de Morcerf e eu falmos algumas vezes desse
casamento; mas a Sr.a de Morcerf e Albert...

- Decerto no me vai dizer que no  um bom partido...

- Eh, eh, Mademoiselle Danglars vale bem o Sr. de Morcerf,
parece-me!

- O dote de Mademoiselle Danglars ser excelente, com efeito,
no duvido disso, sobretudo se o telgrafo no fizer mais
novas loucuras.

- Oh, no se trata apenas do dote? Mas diga-me uma coisa...

- O qu?

- Porque no convidou Morcerf e a famlia para o seu jantar?

- Tambm o convidei, mas ele objectou-me com uma viagem a
Dieppe com a Sr.a de Morcerf, a quem recomendaram o ar do mar.

- Sim, sim - disse Danglars rindo --, deve fazer-lhe bem...

- Porque diz isso?

- Porque foi o ar que ela respirou na juventude.

Monte-Cristo deixou passar o epigrama sem parecer prestar-lhe
ateno.

- Mas enfim - disse o conde --, se Albert no  to rico como
Mademoiselle Danglars, o senhor no pode negar que possui um
belo nome.

- De acordo, mas tambm gosto do meu - redarguiu Danglars.

- Claro que o seu nome  popular e honrou o ttulo com que se
sups honr-lo, mas o senhor  um homem suficientemente
inteligente para compreender que, de acordo com certos
preconceitos excessivamente enraizados para que os extirpem,
nobreza de cinco sculos vale mais do que nobreza de vinte
anos.

- E exactamente por isso - respondeu Danglars com um sorriso
que procurou tornar sardnico --,  por isso que preferiria o
Sr. Andrea Cavalcanti ao Sr. Albert de
Morcerf.

- Mas eu supunha que os Morcerfs no ficavam atrs dos
Cavalcanti... -  observou Monte-Cristo.

- Os Morcerfs!... Oua, meu caro conde - prosseguiu Danglars
--, o senhor  um homem de sociedade, no  verdade?

- Julgo que sim.

- E, alm disso, perito em brases?

- Um pouco.

- Pois ento, veja a cor do meu;  mais firme do que a do
braso de Morcerf. - Porqu?

- Porque eu, se no sou baro de nascimento, ao menos chamo-me
Danglars.

- E depois?

- Ao passo que ele no se chama Morcerf.

- Como  que no se chama Morcerlf.

- Nem por sombras.

- Mas porqu?!

- A mim, algum me fez baro e portanto sou-o; ele fez-se
conde sozinho e portanto no o .

- Impossvel.

- Escute, meu caro conde - continuou Danglars. - O Sr. de
Morcerf  meu amigo, ou antes, meu conhecido h trinta anos.
Eu, como o senhor sabe, no ligo importncia ao meu braso,
pois nunca esqueci donde vim.

- Prova de uma grande humildade ou de um grande orgulho -
comentou Monte-Cristo.

- Pois bem, quando eu era praticante de escritrio, Morcerf
era simples pescador.

- E ento chamava-se?...

- Fernand.

- Apenas?

- Fernand Mondego.

- Tem a certeza disso?

- Ora essa! Vendeu-me peixe mais do que suficiente para que o
conhea.

- Ento porque lhes dava a sua filha?

- Porque Fernand e Danglars no passam de dois novos-ricos,
ambos enobrecidos, ambos enriquecidos, que no fundo valem
tanto um como outro, excepto no tocante a certas coisas que se
disseram dele e que nunca se disseram de mim.

- O qu?

- Nada.

- Ah, sim, compreendo! O que me diz agora refresca-me a
memria a propsito do nome de Fernand Mondego. Ouvi
pronunciar esse nome na Grcia.

- A propsito do caso de Ali-Pax?

- Exactamente.

-  a que reside o mistrio - prosseguiu Danglars --, e
confesso que daria muito para o descobrir.

- No  difcil, se tem muita vontade disso.

- Como?

- Sem dvida tem algum correspondente na Grcia?...

- Claro!

- Em Janina?

- Tenho-os em toda a parte...

- Bom, escreva ao seu correspondente em Janina e pergunte-lhe
que papel desempenhou na catstrofe de Ali-Tebelin um francs
chamado Fernand.

- Tem razo! - exclamou Danglars, levantando-se vivamente. -
Escreverei hoje mesmo!

- Faa-o.

- Vou faz-lo.

- E se receber alguma notcia muito escandalosa...

- Inform-lo-ei.

- Dar-me-ia muito prazer.

Danglars correu para fora da sala e num salto alcanou a sua
carruagem.

Captulo LXVII


No gabinete do Procurador Rgio


Deixemos o banqueiro retirar-se a todo o galope dos seus
cavalos e sigamos a Sr.a Danglars na sua excurso matinal.
Dissemos que ao meio-dia e meia hora a Sr.a Danglars pedira os
seus cavalos e sara de carruagem.

Dirigiu-se para os lados do Arrabalde de Saint-Germain, meteu
pela Rua Mazarino e mandou parar na passagem da Ponte Nova.

Apeou-se e atravessou a passagem. Estava vestida com muita
simplicidade, como convm a uma mulher de bom gosto que sai de
manh.

Na Rua de gungaud meteu-se num fiacre e mandou seguir para
a Rua do Harlay.

Assim que se instalou na viatura, tirou da bolsa um vu preto
muito espesso, que prendeu ao chapu de palha. Depois, voltou
a pr o chapu na cabea e viu com prazer, olhando-se num
espelhinho de algibeira, que s se podia ver de si a pele
branca e as pupilas cintilantes dos seus olhos.

O fiacre atravessou a Ponte Nova e entrou pela Praa Dauphine
no ptio do Harlay. A Sr.a Danglars pagou a corrida quando o
cocheiro lhe abriu a portinhola, e correu para a escada, que
subiu ligeiramente, e no tardou a chegar  Sala dos Passos
Perdidos.

De manh h muitos julgamentos e ainda mais pessoas afadigadas
no Palcio da Justia, e as pessoas atarefadas no olham muito
para as mulheres. A Sr.a Danglars atravessou pois a Sala dos
Passos Perdidos sem ser mais notada do que as outras dez
mulheres que procuravam ver aparecer o seu advogado.

Havia muita gente na antecmara do Sr. de Villefort, mas a
Sr.a Danglars nem sequer necessitou de pronunciar o seu nome.
Assim que apareceu, um continuo levantou-se, foi ao seu
encontro, perguntou-lhe se era a pessoa a quem o Sr.
Procurador Rgio concedera audincia e, perante a sua resposta
afirmativa, conduziu-a por um corredor reservado ao gabinete
do Sr. de Villefort.

O magistrado escrevia, sentado na sua plataforma, de costas
para a porta. Ouviu esta abrir-se, o continuo dizer "Entre,
minha senhora!" e a porta voltara a fechar-se, sem fazer um
nico gesto; mas logo que ouviu diminuir o rudo dos passos do
continuo, que se afastava, virou-se vivamente, foi correr os
ferrolhos e os reposteiros e examinar lodos os cantos do
gabinete.

Depois, quando adquiriu a certeza de que no podia ser visto
nem ouvido e, por consequncia, ficou tranquilo, disse:

- Obrigado, minha senhora; obrigado pela sua pontualidade.

E ofereceu-lhe uma cadeira, que a Sr.a Danglars aceitou,
porque o corao pulsava-lhe to fortemente que ela se sentia
prestes a sufocar.

- H quanto tempo - comeou o procurador rgio, sentando-se
por sua vez e fazendo a poltrona descrever um semicrculo a
fim de ficar defronte da Sr.a Danglars --, h quanto tempo,
minha senhora, no tinha a felicidade de conversar a ss
consigo. E com meu grande pesar, reencontramo-nos para ter uma
conversa deveras penosa.

- No entanto, senhor, bem v que acorri ao seu primeiro
chamamento, embora certamente esta conversa seja ainda mais
penosa para mim do que para si.

Villefort sorriu amargamente.

-  ento verdade - prosseguiu, respondendo muito mais ao seu
prprio pensamento do que s palavras da Sr.a Danglars --, 
ento verdade que todos os nossos actos deixam vestgios, uns
sombrios, outros luminosos, no nosso passado!  ento verdade
que todos os nossos passos nesta vida se assemelham ao
andamento do rptil na areia e deixam rasto! Infelizmente,
para muitos esse rasto, esse sulco,  o das suas lgrimas!

- Senhor, compreende a minha emoo, no  verdade? -
perguntou a Sr.a Danglars - Poupe-me portanto, suplico-lhe.
Este gabinete, por onde tantos culpados tm passado, trmulos
e envergonhados; esta cadeira, onde me sento por minha vez
tambm envergonhada e trmula... Oh, acredite que necessito de
toda a minha razo para no ver em mim uma mulher culpada e em
si um juiz ameaador.

Villefort abanou a cabea e suspirou.

- E eu - redarguiu --, e eu no digo para comigo que o meu
lugar no  na poltrona do juiz, mas sim no banco do ru?

- O senhor? - disse a Sr.a Danglars, surpreendida.

- Sim, eu.

- Creio que da sua parte, senhor, o seu puritanismo exagera a
situao - contraps a Sr.a Danglars, cujos olhos, to belos,
brilharam fugazmente. - Os sulcos de que acaba de falar foram
traados por todas as juventudes ardentes. No fundo das
paixes, para l do prazer, h sempre um pouco de remorso. 
por isso que o Evangelho, esse recurso eterno dos infelizes,
nos deu como amparo, a ns, pobres mulheres, a admirvel
parbola da jovem pecadora e da mulher adltera. Por isso,
confesso-lhe, quando me recordo desses delrios da minha
juventude, penso s vezes que Deus mos perdoar, porque se no
a desculpa, pelo menos a compensao encontra-se nos meus
sofrimentos. Mas o senhor, que tem a temer de tudo isso, se
aos homens toda a gente os desculpa e o escndalo nobilita-os?

- Minha senhora - replicou Villefort --, no me conhece. No
sou um hipcrita ou pelo menos no armo em hipcrita sem
motivo. Se a minha fronte  severa, isso deve-se s desgraas
que a tm assombrado; se o meu corao se
petrificou, foi para poder suportar os choques que tem
recebido. No era assim na minha juventude, no era assim na
noite de noivado em que estvamos todos sentados  roda de uma
mesa na Rua do Cours, em Marselha. Mas depois tudo mudou em
mim e  minha volta; a minha vida gastou-se a perseguir coisas
difceis e a quebrar, nas dificuldades, aqueles que voluntria
ou involuntariamente, por sua livre vontade ou por acaso, se
encontraram colocados no meu caminho para me suscitar essas
coisas.  raro que o que desejamos ardentemente no seja
defendido com afinco por aqueles de quem o pretendemos obter
ou aos quais tentamos arranc-lo. Assim, a maioria das ms
aces dos homens vieram ao encontro deles mascaradas
especiosamente de necessidade. Depois da m aco cometida num
momento de exaltao, de medo e de delrio, chegamos 
concluso de que poderamos ter passado por ela e evitado-a.
Ento, o meio que teria sido conveniente empregar, mas que,
cegos como estvamos, no vimos surge-nos diante dos olhos
fcil e simples, e dizemos para connosco: "Porque no fiz isto
em vez de fazer aquilo?" As senhoras, pelo contrrio, muito
raramente so atormentadas por remorsos, porque tambm muito
raramente a deciso  sua. As suas desgraas so-lhes quase
sempre impostas, as suas faltas so quase sempre o crime dos
outros.

- Em todo o caso - respondeu a Sr.a Danglars --, admita que,
se cometi uma falta, essa falta foi pessoal e por ela fui
severamente castigada a noite passada.

- Pobre mulher! - murmurou Villefort, apertando-lhe a mo.

-- Demasiado severamente para a sua energia, pois por duas
vezes esteve quase a sucumbir, e no entanto...

- O qu?

- Bom, devo dizer-lhe ... Apele para toda a sua coragem, minha
senhora, porque ainda no chegou ao fim.

- Meu Deus! - exclamou a Sr.a Danglars, aterrada. - Que mais
h ainda?

- A senhora s v o passado, e claro que ele  sombrio. Pois
imagine um futuro ainda mais sombrio, um futuro... horrvel,
certamente... e talvez sangrento!

A baronesa conhecia a calma de Villefort. Por isso, ficou to
apavorada com a sua exaltao que abriu a boca para gritar,
mas o grito morreu-lhe na garganta.

- Como ressuscitou esse passado terrvel? - disse Villefort. -
Como saiu como um fantasma do fundo da sepultura e do fundo
dos nossos coraes, onde dormia, para nos fazer empalidecer
as faces e corar a fronte?

- Infelizmente, sem dvida, por acaso - declarou Hermine.

- Por acaso! - repetiu Villefort. - No, no, minha senhora,
no se trata de obra do acaso!

- Claro que trata. No foi o acaso, fatal  certo, mas de
qualquer maneira o acaso, que originou tudo aquilo? No foi
por acaso que o conde de Monte-Cristo comprou aquela casa.
No foi por acaso que mandou cavar a terra? Finalmente no foi
por acaso que a infeliz criana foi enterrada debaixo das
rvores? Pobre criatura sada de mim,  qual nunca pude dar um
beijo, mas a quem tenho dado muitas lgrimas. Ah, todo o meu
corao voou ao encontro do conde quando ele falou do querido
despojo debaixo das flores!

- No, minha senhora, e  isso que tenho de terrvel para lhe
dizer - redarguiu Villefort com a voz estrangulada --; no,
no houve despojo encontrado  debaixo das flores; no, no
houve criana desenterrada; no,  intil chorar; no, 
intil gemer, no, o que devemos  tremer!

- Que quer dizer, senhor? - perguntou a Sr.a Danglars,  muito
agitada.

- Quero dizer que o Sr. de Monte-Cristo no pde encontrar,
ao cavar ao p das arvores, nem esqueleto de criana, nem
ferragem de cofre, porque debaixo das rvores no havia nem um
nem outra.

- No havia nem um nem outra?! - repetiu a Sr.a Danglars,
cravando no procurador rgio uns olhos cujas pupilas,
horrivelmente dilatadas, indicavam terror. - No havia nem um
nem outra! - repetiu mais uma vez, como uma pessoa que procura
fixar pelo som das palavras e pelo rudo da voz as ideias
prestes a fugir-lhe.

- No! - insistiu Villefort, deixando cair a fronte nas mos.
- No, cem vezes no!...

- Mas no foi ali que sepultou a pobre criana, senhor?
Porque me enganou? Com que fim, diga-me!

- Tem razo. Mas oua-me, minha senhora, oua-me, e ver que
me lamenta, a mim que trouxe durante vinte anos s costas, sem
nunca lhe pedir que carregasse com a mais pequena parte, o
fardo de dores de que lhe vou falar.

- Meu Deus, o senhor assusta-me! Mas no imporia; fale,
escuto-o.

- Sabe o que se passou naquela noite dolorosa em que a senhora
expirava no seu leito, naquele quarto de damasco vermelho,
enquanto eu, quase to arquejante como a senhora, esperava que
desse  luz. A criana nasceu, foi-me entregue sem movimentos,
sem respirao e sem voz, e julgmo-la morta.

A Sr.a Danglars fez um gesto rpido, como se quisesse saltar
da cadeira. Mas Villefort deteve-a juntando as mos, como que
para lhe implorar ateno.

- Julgmo-la morta - repetiu. - Meti-a num cofre, que deveria
substituir o caixo, desci ao jardim, abri uma cova e
enterrei-a precipitadamente. Mal acabara de cobrir a sepultura
de terra quando o brao do corso se estendeu para mim. Vi como
que uma sombra erguer-se, como que reluzir um relmpago. Senti
uma dor, quis gritar, um arrepio gelado percorreu-me todo o
corpo e apertou-me a garganta... Ca moribundo e julguei-me
assassinado. Nunca esquecerei a sua coragem sublime quando ao
voltar a mim me arrastei, expirando, at ao fundo da escada,
onde, expirando tambm, a senhora veio ao meu encontro. Era
necessrio ocultar a terrvel catstrofe. A senhora teve a
coragem de voltar para casa amparada pela sua ama; um duelo
foi o pretexto do meu ferimento. Contra toda a expectativa,
ningum revelou o nosso segredo. Transportaram-me para
Versalhes; durante trs meses estive s portas da morte. Por
fim, como parecesse agarrar-me  vida, recomendaram-me o sol e
os ares do Meio-Dia. Quatro homens transportaram-me de Paris
a Chalon, percorrendo seis lguas por dia. A Sr.a de Villefort
acompanhava a maca na sua carruagem. Em Chalon puseram-me no
Sena, depois passei para o Rdano e, levado apenas pela
velocidade da corrente, desci at Arles. Em Arles retomei a
maca e continuei o meu caminho para Marselha. A minha
convalescena durou seis meses. Nunca mais ouvira falar da
senhora e no me atrevia a perguntar o que lhe acontecera.
Quando regressei a Paris, soube que, viva do Sr. Nargonne,
casara com o Sr. Danglars.

"Em que pensei depois de recuperar os sentidos? Pensava
sempre na mesma coisa, sempre naquele cadver de criana, que
todas as noites, nos meus sonhos, saa do seio da terra e
pairava por cima da cova, ameaando-me com a vista e
com o gesto. Por isso, assim que regressei a Paris
informei-me. A casa no voltara a ser habitada desde que a
deixmos, mas acabava de ser alugada por nove anos. Procurei o
locatrio, fingi ter um grande desejo de no ver passar a mos
estranhas aquela casa que pertencia ao pai e  me da minha
mulher e ofereci uma indemnizao pela renncia ao
arrendamento. Pediram-me seis mil trancos, mas eu daria dez
mil, daria vinte mil. Como trazia o dinheiro comigo, fiz o
inquilino assinar imediatamente a resciso. Depois, logo que
me encontrei de posse desse documento to desejado, parti a
galope para Auteuil. Ningum, desde que eu de l sara,
entrara naquela casa.

" Eram cinco horas da tarde. Subi ao quarto vermelho e esperei
pela noite.

"Ali, tudo o que dizia a mim prprio havia um ano, na minha
agonia contnua, me veio  ideia de forma muito mais
ameaadora do que nunca.

"Aquele corso que me declarara a vendetta e me seguira de
Nimes a Paris; aquele corso, que se encontrava escondido no
jardim e me ferira, vira-me abrir a cova, vira-me enterrar a
criana e poderia acabar por descobrir quem era a senhora.
Talvez at j a conhecesse... No a faria pagar um dia o
segredo do terrvel acontecimento?... No seria isso para ele
uma, agradvel vingana, quando soubesse que eu no morrera da
sua punhalada? Era portanto urgente que antes de mais nada, e
acontecesse o que acontecesse, fizesse desaparecer os
vestgios do passado, destrusse todo e qualquer rasto
material, embora na minha memria a realidade permanecesse
sempre demasiado viva.

"Fora para isso que rescindira o arrendamento, fora para isso
que viera, era para isso que esperava.


" Anoiteceu, mas esperei at que a noite ficasse bem escura.
No tinha luz no quarto, onde as rajadas de vento faziam
tremer os reposteiros atrs dos quais julgava sempre ver algum
espio emboscado. De vez em quando estremecia e parecia-me
ouvir atrs de mim, na cama, os seus gemidos, minha senhora,
mas no ousava voltar-me. O meu corao pulsava no meio do
silncio e sentia-o bater to violentamente que cheguei a
pensar que o meu ferimento se reabrisse. Por fim, ouvi
extinguirem-se um aps outro todos os diversos rudos do
campo. Compreendi que j no tinha nada a temer, que no
poderia ser visto nem ouvido, e decidi-me a descer.

"Oua, Hermine, considero-me to corajoso como qualquer outro
homem, mas quando retirei do peito a chavinha da escada,
aquela chavinha a que os dois tanto queramos e que a senhora
mandara prender a uma argola de ouro; quando abri a porta e vi
atravs das janelas uma lua plida lanar sobre os degraus em
espiral uma comprida faixa de luz branca semelhante a um
fantasma, agarrei-me  parede e estive prestes a gritar. Tinha
a sensao de enlouquecer.

"Por fim consegui dominar-me e desci a escada degrau a
degrau. A nica coisa que no conseguira vencer era uma
estranha tremura nos joelhos. Agarrei-me ao corrimo; se o
largasse, por um instante que fosse, precipitar-me-ia por ali
abaixo.

"Cheguei  porta do jardim. Da parte de fora, encostada 
parede, estava uma enxada. Munira-me de uma lanterna de
furta-fogo. No meio do relvado parei para a acender e depois
continuei o meu caminho.

"Novembro eslava prestes a terminar, toda a verdura do jardim
desaparecera, as rvores no eram mais do que esqueletos de
compridos braos descarnados e as tolhas mortas rangiam com o
saibro debaixo dos meus ps.

"O terror apertava-me to fortemente o corao que ao
aproximar-se do macio tirei uma pistola da algibeira e
destravei-a. Julgava sempre ver aparecer atravs dos ramos a
cara do corso.

"iluminei o macio com a minha lanterna de furta-fogo; estava
vazio. Olhei em redor de mim e verifiquei que me encontrava
sozinho. Nenhum rudo perturbava o silncio da noite, excepto
o canto de uma coruja, que emitia o seu pio agudo e lgubre
como um chamamento aos fantasmas da noite.

"Pendurei a lanterna num ramo em forma de forquilha, em que
j reparara um ano antes, no prprio local onde me detivera
para abrir a cova.

"Durante o Vero, a erva crescera ali bem espessa, e chegado
o Outono ningum houvera na casa para a apanhar. No entanto,
um sitio menos guarnecido chamou-me a ateno. Era evidente
que fora ali que eu revolvera a terra. Deitei mos  obra.

"Chegara portanto o momento por que esperara mais de um ano!

"Como confiava, como trabalhava, como sondava cada tufo de
relva, julgando sentir resistncia na ponta da enxada! Mas
nada. E contudo abri um buraco duas vezes maior do que o
primeiro. Julguei ter-me enganado no lugar. Orientei-me,
observei as rvores, procurei reconhecer os pormenores que me
tinham impressionado. Soprava uma brisa fria e cortante
atravs dos ramos nus e no entanto o suor escorria-me da
testa. Lembrei-me de que recebera a punhalada no momento em
que calcava a terra para tapar a cova; para isso, apoiava-me
numa giesteira. Atrs de mim havia um rochedo artificial
destinado a servir de banco aos passeantes. Ao cair, depois de
largar a giesteira, a minha mo sentira a frescura da pedra.
 minha direita encontrava-se a giesteira e atrs de mim o
rochedo. deixei-me cair do mesmo modo, levantei-me e pus-me a
aprofundar e alargar a cova. Nada! Sempre nada! O cofre no
estava ali.

- O cofre no estava ali? - murmurou a Sr.a Danglars, sufocada
de pavor.

- No julgue que me limitei quela tentativa - continuou
Villefort. No. Revistei todo o macio. Pensei que o assassino
tivesse desenterrado o cofre julgando tratar-se de um tesouro,
e que, resolvido a apoderar-se dele, o tivesse levado. Depois,
descobrindo o seu erro, abrira por sua vez uma cova, onde o
depositara. Nada! Em seguida assaltou-me a ideia de que no
tomara tantas precaues e o atirara pura e simplesmente para
um canto. Nesta ltima hiptese, tinha de esperar que
amanhecesse para proceder s minhas buscas. Subi ao quarto e
esperei.

- Oh, meu Deus!

- Quando amanheceu, desci de novo. A minha primeira visita foi
ao macio; esperava encontrar nele vestgios que me tivessem
escapado na escurido. Revolvera a terra numa superfcie de
mais de vinte ps quadrados e numa profundidade de mais de
dois ps. Um dia de trabalho mal chegaria a um assalariado
para fazer o que eu fizera numa hora. Nada, no vi
absolutamente nada.

"Ento, pus-me a procurar o cofre, partindo da suposio de
ter sido atirado para qualquer canto. Sendo assim, devia estar
no caminho que levava  portinha de sada. Mas a nova
investigao foi to intil como a primeira e, de corao
opresso, voltei ao macio, que por si prprio j me no
alimentava qualquer esperana.

- Oh, era caso para enlouquecer! - exclamou a Sr.a Danglars.


- Por um instante pensei que isso me acontecesse, mas no tive
essa sorte. Entretanto, apelando para a minha energia e por
consequncia para as minhas ideias, perguntei a mim mesmo:
"Porque teria o homem levado o cadver?"

- O senhor j o disse: para ter uma prova - lembrou a Sr.a
Danglars.

- No, no, minha senhora, j no podia ser isso. Ningum
guarda um cadver durante um ano; mostra-o a um magistrado e
faz o seu depoimento. Ora nada semelhante acontecera.

- Bom, e ento?... - perguntou Hermine toda palpitante.

- Ento, tratava-se de qualquer coisa mais terrvel, mais
fatal, mais assustadora para ns: a criana estava talvez viva
e o assassino salvara-a.

A Sr.a Danglars soltou um grito terrvel e agarrou as mos de
Villefort.

- O meu filho estava vivo! O senhor enterrou o meu filho vivo!
Garantira-me que o meu filho estava morto e enterrou-o... Oh!

A Sr.a Danglars levantara-se e mantinha-se de p e quase
ameaadora diante do procurador rgio, cujos pulsos apertava
com as mos delicadas.

- Que queria que lhe dissesse? Disse-lhe isso como lhe poderia
dizer outra coisa - redarguiu Villefort com uma fixidez de
olhar indicadora de que aquele homem to poderoso estava
prestes a atingir os limites do desespero e da loucura.

- Ah, meu filho, meu pobre filho! - gritou a baronesa, caindo
de novo na cadeira e abafando os soluos com o leno.

Villefort caiu em si e compreendeu que para desviar a
tempestade materna que se acumulava sobre a sua cabea era
necessrio que a Sr.a Danglars se recompusesse do terror que
ele prprio experimentava.

- Como deve compreender, se o caso  assim, estamos perdidos -
disse, levantando-se por seu turno e aproximando-se da
baronesa para lhe falar em voz mais baixa. - Essa criana
vive, algum sabe que vive, algum possui o nosso segredo. E
uma vez que Monte-Cristo fala diante de ns de uma criana
desenterrada de um local onde essa criana j no existia,
quem est de posse do segredo  ele.

- Deus, Deus justo, - Deus vingador! - murmurou a Sr.a
Danglars.

Em resposta, Villefort limitou-se a soltar uma espcie de
rugido.

- Mas e essa criana, essa criana, senhor? - insistiu a me,
obstinada.

- Oh, o que a procurei! - respondeu Villefort, torcendo os
braos. - Quantas vezes a chamei nas minhas longas noites sem
sono! Quantas vezes desejei possuir uma riqueza real para
comprar um milho de segredos a um milho de homens e
encontrar o meu segredo entre os deles! Enfim, um dia em que
pela centsima vez pegava na enxada, perguntei a mim mesmo
tambm pela centsima vez que teria o corso feito da criana.
Uma criana estorva um fugitivo... Talvez notasse que ainda
estava viva e a tivesse atirado ao rio.

- Oh, impossvel! - exclamou a Sr.a Danglars. - Assassina-se
um homem por vingana, mas no se afoga a sangue-frio uma
criana!

- Talvez a tivesse entregado s Crianas Expostas... -
acrescentou Villefort.

- Oh, sim, sim! - exclamou a baronesa. - O meu filho est a,
senhor!

- Corri ao hospcio e soube que naquela mesma noite de 20 de
Setembro fora depositada uma criana na roda. Tal criana
estava envolta em metade de  uma toalha de pano fino,
intencionalmente rasgada. Essa metade da toalha tinha metade
de uma coroa de baro e a leira H.

-  isso,  isso! - gritou a Sr.a Danglars. - Toda a minha
roupa est marcada assim! O Sr. de Nargonne era baro e eu
chamo-me Hermine. Obrigada, meu Deus! O meu filho no estava
morto!

- No, no estava morto!

- E o senhor diz-me isso... diz-me isso sem receio de me fazer
morrer de alegria! Onde est ele? Onde est o meu filho?

Villefort encolheu os ombros.

- Como quer que saiba? E julga que se o soubesse a faria
passar por todas estas gradaes, como o faria um dramaturgo
ou um romancista? No, infelizmente no sei. Quando contava
cerca de seis meses, uma mulher foi reclamar a criana com a
outra metade da toalha. Essa mulher deu todas as garantias que
a lei exigia e por isso entregaram-lha.

- Mas devia ter-se informado acerca dessa mulher, devia t-la
procurado...

- E que julga que fiz, minha senhora? Simulei uma instruo
criminal e mandei procur-la pelos mais finos agentes secretos
e pelos mais hbeis detectives da Polcia. Encontraram-lhe a
pista at Chalon; ai perderam-na.

- Perderam-na?...

- Sim, perderam-na; perderam-na para sempre.

A Sr.a Danglars escutara o relato soltando de vez em quando um
suspiro, deixando correr uma lgrima ou emitindo um grito,
conforme as circunstncias.

-  tudo? - perguntou. - O senhor limitou-se a isso?

- Oh, no! - protestou Villefort. - Nunca deixei de procurar,
de investigar, de me informar. No entanto, h dois ou trs
anos descansei um pouco. Mas agora vou recomear com mais
perseverana e encarniamento do que nunca. E vencerei, pode
ter a certeza; porque j no  a conscincia que me ir pele, 
o medo.

- Mas o conde de Monte-Cristo no sabe de nada - declarou a
Sr.a Danglars. - De contrrio, parece-me que no nos
procuraria como nos procurou.

- Oh, a maldade dos homens  muito grande! - sentenciou
Villefort. - Muito maior do que a bondade de Deus. Reparou nos
olhos desse homem enquanto nos falava?

- No.

- Mas observou-o atentamente algumas vezes?

- Sem dvida.  estranho, mas mais nada. Houve s uma coisa
que me impressionou: de toda a requintada refeio que nos
serviu no tocou em nada, no se serviu de nenhum prato.

- Tem razo, tem razo! - disse Villefort. - Tambm notei
isso. Se soubesse o que sei agora, teria feito o mesmo, no
tocaria em nada. Julgaria que nos queria envenenar.

- E ter-se-ia enganado, bem v.

- Sim, sem dvida. Mas acredite no que lhe digo: esse homem
tem outros projectos. Por isso quis v-la, por isso desejei
falar consigo, por isso quis precav-la contra toda a gente,
mas sobretudo contra ele. Diga-me - continuou Villefort,
cravando ainda mais profundamente do que at ali os olhos na
baronesa --, no falou da nossa ligao a ningum?

- Nunca, a ningum.

- Compreende o que quero dizer -- prosseguiu afectuosamente
Villefort --, quando digo a ningum, perdoe-me a insistncia,
retiro-me a ningum no mundo, percebe?

- Oh, sim, sim, compreendo perfeitamente! -- respondeu a
baronesa, corando. - Nunca! Juro-lhe.

- J no tem o hbito de escrever  noite o que se passou
durante o dia? J no tem dirio?

- No. Infelizmente, a minha vida passa levada pela
frivolidade. Eu prpria a esqueo.

- No sonha em voz alta, que saiba?

- Durmo como uma criana. J no se lembra?...

A prpura subiu ao rosto da baronesa e o medo invadiu o de
Villefort.

-  verdade - disse ele, to baixo que mal se ouviu.

- E agora? - perguntou a baronesa.

- Agora? J sei o que devo fazer - declarou Villefort. -
Dentro de oito dias, saberei quem  o Sr. de Monte-Cristo,
donde vem, para onde vai e por que motivo fala diante de ns
de crianas desenterradas no seu jardim.

Villefort proferiu estas palavras num tom que faria tremer o
conde se as pudesse ouvir.

Depois apertou a mo que a baronesa hesitava em estender-lhe e
acompanhou-a respeitosamente  porta.

A Sr.a Danglars tomou outro fiacre, que a levou  passagem, do
outro lado da qual encontrou a sua carruagem e o seu cocheiro,
que, enquanto esperava, dormia calmamente no seu lugar.


Captulo LXVIII

Um baile de vero


No mesmo dia, mais ou menos  mesma hora em que a Sr.a
Danglars tinha o encontro a que nos referimos no gabinete do
Sr. Procurador Rgio, uma calea de viagem entrava na Rua do
Helder, transpunha a porta n.o 27 e parava no ptio.
Pouco depois a portinhola abriu-se e a Sr.a de Morcerf
apeou-se apoiada no brao do filho.

Assim que Albert acompanhou a me aos seus aposentos, pediu um
banho e os seus cavalos, entregou-se nas mos do seu criado de
quarto e em seguida fez-se conduzir aos Campos Elsios, a casa
do conde de Monte-Cristo.

O conde recebeu-o com o seu sorriso habitual. Coisa estranha:
nunca ningum parecia avanar um passo no corao ou no
espirito daquele homem. Os que queriam, se assim se pode
dizer, forar a passagem da sua intimidade deparavam com uma
parede.

Morcerf, que corria para ele de braos abertos, deixou-os cair
ao v-lo, apesar do seu sorriso amistoso, e ousou, quando
muito, estender-lhe a mo.

Pela sua parte, Monte-Cristo tocou-lhe nela, como fazia
sempre, mas sem a apertar.

- Pronto, aqui me tem, meu caro conde - disse Albert.

- Seja bem-vindo.

- Cheguei h uma hora.

- De Dieppe?

- Do Trport.

- Ah,  verdade!

- E a minha primeira visita  para o senhor.

-  amvel da sua parte - disse Monte-Cristo, como diria
qualquer outra coisa.

- Ento, que notcias me d?

- Notcias?... Pede notcias a mim, um estrangeiro?

- Eu explico-me: quando pergunto que notcias, quero dizer se
o senhor fez qualquer coisa por mim...

- Tinha-me encarregado de alguma incumbncia? - perguntou
Monte-Cristo, simulando inquietao.

- Ento, ento, no simule indiferena? - exclamou Albert.
- Dizem que existem avisos simpticos que transpem a
distncia. Pois bem, no Trport recebi o meu choque elctrico:
o senhor, se no trabalhou para mim, pensou pelo menos em mim.

-  possvel - admitiu Monte-Cristo. - De facto, pensei em
si; mas a corrente magntica de que era o condutor actuava,
confesso, independentemente da minha vontade.

- Deveras? Conte-me isso. Peo-lhe.

-  fcil. O Sr. Danglars jantou em minha casa.

- Bem sei, pois foi para fugir  sua presena que partimos, a
minha me e eu. - Mas jantou com o Sr. Andrea Cavalcanti.

- O seu prncipe italiano?

- No exageremos. O Sr. Andrea usa apenas o ttulo de
visconde.

- Usa, diz o senhor?

- Digo: usa.

- No o , portanto?

- Sei l! Ele usa-o, eu dou-lho, toda a gente lho d... No 
como se tivesse? - Que homem estranho o senhor me saiu! E
depois?

- E depois o qu?

- Portanto, o Sr. Danglars jantou em sua casa?

- Jantou.

- Com o seu visconde Andrea Cavalcanti?

- Com o visconde Andrea Cavalcanti, o marqus seu pai, a Sr.a
Danglars, o Sr. e a Sr.a de Villefort, pessoas encantadoras, o
Sr. Debray, Maximilien Morrel e ainda...
espere... Ah, o Sr. de Chteau-Renaud!

- Falaram de mim?

- Nem uma palavra.

- Tanto pior.

- Porqu? Se o esqueceram, parece-me que, procedendo assim,
fizeram apenas o que o senhor desejava...

- Meu caro conde, se ningum falou de mim foi porque pensaram
muito na minha pessoa, o que me deixa desesperado.

- Que lhe interessa isso, se Mademoiselle Danglars no foi uma
das pessoas  que pensaram em si em minha casa? Verdade seja
que podia pensar em casa dela...

- Oh, quanto a isso no, tenho a certeza! Ou se pensasse seria
certamente da mesma maneira que penso nela.

- Comovente simpatia! - comentou o conde. - Ento detestam-se?

- Escute - pediu Morcerf. - Se Mademoiselle Danglars fosse
mulher que se compadecesse do mrtir que no est disposto a
sofrer por ela e me quisesse recompensar disso  margem das
convenes matrimoniais estabelecidas entre as nossas duas
famlias, seria maravilhoso. Em resumo, creio que Mademoiselle
Danglars daria uma amante encantadora, mas como esposa,
diabo...

-  assim que encara o seu futuro? - perguntou Monte-Cristo,
rindo.

- Meu Deus, ! De forma um pouco brutal, confesso, mas pelo
menos verdadeira. Ora, como no  possvel transformar este
sonho em realidade; como para chegar a determinado fim, 
indispensvel que Mademoiselle Danglars seja minha mulher,
isto , que viva comigo, que pense junto de mim, que cante ao
p de mim, que escreva versos e msica a dez passos de mim, e
isso durante toda a minha vida, apavora-me. Uma amante, meu
caro conde, deixa-se; mas uma mulher, com a breca,  outra
coisa! Conserva-se eternamente, perto ou longe. Ora, 
horrvel ter de conservar sempre Mademoiselle Danglars, mesmo
longe.

- O senhor  muito exigente, visconde.

- Pois sou, porque muitas vezes penso numa coisa impossvel.

- Qual?

- Encontrar para mim uma mulher como o meu pai encontrou uma
para ele.

Monte-Cristo empalideceu e fitou Albert, sem deixar de
brincar com umas pistolas magnficas cuja fecharia percutia
rapidamente.

- O seu pai tem sido portanto muito feliz? - perguntou.

- Sabe a minha opinio acerca de minha me, Sr. Conde: um anjo
do Cu. Vejo-a ainda bonita, espiritual, cada vez melhor do
que nunca. Venho de Trport; para qualquer outro filho, meu
Deus, acompanhar a me seria uma condescendncia ou um frete!
Pois eu passei quatro dias a conversar com ela, mais
satisfeito, mais repousado e confesso-lhe que mais potico at
do que se tivesse levado para Trport a rainha Mab ou Titnia.

- Trata-se de uma perfeio invulgar e com isso o senhor d a
todos aqueles que o ouvem enormes desejos de ficar solteiros.

-  precisamente por saber que existe no mundo uma mulher
perfeita que no tenho pressa de casar com Mademoiselle
Danglars. J notou alguma vez como o nosso egosmo reveste de
cores brilhantes tudo o que nos pertence? O diamante que
cintilava na montra de Marl ou Fossin torna-se muito mais
belo desde que  o nosso diamante; mas se a evidncia nos
fora a reconhecer que existem diamantes de uma gua mais pura
e somos obrigados a usar eternamente esse diamante inferior a
outro, compreende o sofrimento?

- Mundano! - murmurou o conde.

- A est porque saltarei de alegria no dia em que
Mademoiselle Eugnie descubra que no passo de um msero tomo
e que com dificuldade possuo tantas centenas de milhares de
francos como ela possui milhes.
Monte-Cristo sorriu.

- Tinha pensado noutra coisa - continuou Albert. - Franz
aprecia as excentricidades e, mal-grado seu, procurei que se
apaixonasse por Mademoiselle  Danglars. Mas a quatro cartas
que lhe escrevi no estilo mais sedutor, Franz respondeu-me
imperturbavelmente: "Sou excntrico,  verdade, mas a minha
excentricidade no vai ao ponto de retirar a minha palavra
depois de a dar."

- Ora a est o que chamo a dedicao da amizade: dar a outro
a mulher que para ns mesmos s queramos como amante?

Albert sorriu.

- A propsito - prosseguiu --, o caro Franz vem a. Mas a
notcia pouco lhe interessa, creio. O senhor no gostava dele,
pois no?

- Eu? - redarguiu Monte-Cristo. - Meu caro visconde, onde
descobriu que eu no gostava do Sr Franz? Gosto de toda a
gente.

- E eu estou includo no "toda a gente"... Obrigado.

- No confundamos - defendeu-se Monte-Cristo. - Gosto de toda
a gente da maneira que Deus nos ordena que amemos o prximo,
cristmente; mas s estimo realmente certas pessoas. Voltemos
ao Sr. Franz de Epinay. Diz que vem a?

- Exacto. Mandado chamar pelo Sr. de Villefort, to empenhado,
ao que parece, em casar Mademoiselle Valentine como o Sr.
Danglars em casar Mademoiselle Eugnie.
Decididamente, parece tratar-se de um estado dos mais
fatigantes ser pai de filhas crescidas. Afigura-se-me que
ficam febris e que o pulso lhes bate  razo de noventa
pulsaes por minuto enquanto se no vem livres delas.

- Mas o Sr. de Epinay no se parece consigo; aceita a sua cruz
com pacincia.

- Mais do que isso, toma-a a srio. Usa gravatas brancas e
fala j da sua famlia. De resto, tem uma grande considerao
pelos Villeforts.

- Merecida, no  verdade?

- Creio que sim. O Sr. de Villefort sempre foi considerado um
homem severo, mas justo.

- At que enfim! - exclamou Monte-Cristo. - Haja ao menos um
que o senhor no trate como o pobre Sr. Danglars!...

- Talvez isso se deva ao facto de no ser obrigado a casar com
a sua filha - respondeu Albert, rindo.

- Na verdade, meu caro senhor, acho-o de uma fatuidade
revoltante - declarou Monte-Cristo.

- Eu?

- Sim, o senhor. Mas tome um charuto.

- Com muito prazer. E por que motivo sou ftuo?

- Porque est para ai a defender-se, a debater-se para no
casar com Mademoiselle Danglars. Meu Deus, deixe as coisas
correr e talvez no seja o primeiro a retirar a sua palavra!

- Ora, ora! - exclamou Albert, de olhos muito abertos.

- Que diabo, Sr. Visconde, no fim de contas decerto ningum
lhe por a corda ao pescoo! Falemos seriamente - prosseguiu
Monte-Cristo mudando de intonao --apetece-lhe romper?

- Daria cem mil francos para isso.

- Pronto, seja feliz: o Sr. Danglars est disposto a dar o
dobro para atingir o mesmo fim.

- Isso  verdade, essa sorte? - perguntou Albert, que, no
entanto, ao proferir estas palavras, no pde evitar que uma
sombra imperceptvel lhe passasse pela fronte. - Mas, meu caro
conde, o Sr. Danglars tem motivos para isso?

- Ora a est, natureza orgulhosa e egosta! At que enfim
encontro o homem que quer destruir o amor-prprio de outrem 
machadada, mas que protesta quando lhe picam o seu com uma
agulha!

- No! Mas  que me parece que o Sr. Danglars...

- Deveria estar encantado com o senhor, no ? Pois bem, o Sr.
Danglars  um homem de mau gosto, como se sabe, e est ainda
mais encantado com outro...

- Com quem?

- No sei. Examine, observe, procure ouvir as aluses 
passagem dele e tire disso o melhor partido que puder.

- Compreendo. Oua, a minha me... No, estou enganado, no
foi a minha me! O meu pai teve a ideia de dar um baile...

- Um baile nesta altura do ano?

- Os bailes de Vero esto na moda.

- Se no estivessem, bastaria a condessa querer para estarem.

- Talvez. Compreende, so bailes "puro-sangue". Aqueles que
ficam em Paris em Julho so verdadeiros parisienses. Quer
encarregar-se de um convite para os Srs. Cavalcanti?

- Daqui a quantos dias se realiza o seu baile?

- No sbado.

- J o Sr. Cavalcanti pai ter partido.

- Mas o Sr. Cavalcanti filho fica. Quer encarregar-se de levar
o Sr. Cavalcanti filho?

- Oua, visconde, eu no o conheo...

- No o conhece?

- No. Vi-o pela primeira vez h trs ou quatro dias e no
respondo por ele em nada.

- Mas o senhor recebe-o bem!

- Comigo  outra coisa. Foi-me recomendado por um excelente
abade, que no entanto pode muito bem ter sido ele prprio
enganado. Convide-o directamente, se quiser, mas no me pea
que lho apresente. Se mais tarde casasse com Mademoiselle
Danglars, o senhor acusar-me-ia de manejos e quereria bater-se
comigo. De resto, no sei se eu mesmo irei.

- Aonde?

- Ao seu baile.

- Porque no iria?

- Primeiro porque o senhor ainda me no convidou...

- Vim c de propsito trazer-lhe pessoalmente o seu convite.

- Oh, que amabilidade! Mas posso ter qualquer impedimento.

- Quando lhe disser uma coisa, creio que ser suficiente
amvel para nos sacrificar todos os impedimentos.

- Diga.

- A minha me pede-lhe que v.

- A Sr.a Condessa de Morcerf? - perguntou Monte-Cristo,
estremecendo.

- Ah, conde - disse Albert --, previno-o de que a Sr.a de
Morcerf conversa livremente comigo! E se o senhor no sentiu
ainda vibrar em si as fibras simpticas de que lhe falava h
pouco,  porque essas fibras lhe faltam completamente, pois
durante quatro dias s falmos do senhor.

- De mim? Na verdade, confunde-me!

- Privilgio do seu comportamento. Quando se  um problema
vivo...

- Ah! Sou portanto tambm um problema para a sua me?... Para
ser franco, julgava-a demasiado sensata para se dedicar a
semelhantes fantasias!

- Problema, meu caro conde, problema para todos, tanto para a
minha me como para os outros; problema aceite, mas no
adivinhado, pois o senhor continua a ser um enigma.
Tranquilize-se: a minha me apenas se interroga constantemente
como  possvel que o senhor seja to novo. Creio que no
fundo, enquanto a condessa G... o toma por Lorde Ruthwen, a
minha me toma-o por Cagliostro ou pelo conde de
Saint-Germain. A primeira vez que vir a Sr.a de Morcerf,
confirme-lhe essa opinio. No lhe ser difcil, pois possui a
pedra filosofal de um e o espirito do outro.

- Agradeo-lhe ter-me prevenido - redarguiu o conde, sorrindo.
- Procurarei pr-me em condies de enfrentar todas as
hipteses.

- Portanto, ir no sbado?

- Se a Sr.a de Morcerf mo pede...

-  muito amvel.

- E o Sr. Danglars?

- Oh, j recebeu o triplo convite! O meu pai encarregou-se
disso. Procuraremos ter tambm o grande Aguesseau, ou seja, o
Sr. de Villefort, mas duvido.

- Nunca se deve duvidar de nada, diz o provrbio.

- Dana, caro conde?

- Eu?

- O senhor, sim. Que haveria de surpreendente se danasse?

- Com efeito, enquanto se no passa dos quarenta... No, no
dano; mas gosto de ver danar. E a Sr.a de Morcerf dana?

- Tambm no, nunca. Conversaro. Ela tem tanta vontade de
conversar consigo!

- Deveras?

- Palavra de honra! E declaro-lhe que o senhor  o primeiro
homem por quem a minha me manifestou tal curiosidade.

Albert pegou no chapu e levantou-se. O conde acompanhou-o at
 porta.

- Tenho de me penitenciar - disse Monte-Cristo, detendo
Albert no cimo da escadaria.

- De qu?

- Fui indiscreto, no lhe devia ter falado do Sr. Danglars.

- Pelo contrrio, fale-me mais, fale-me muitas vezes, fale-me
sempre. Mas da mesma forma...

- Bom, tranquiliza-me! A propsito, quando chega o Sr. Epinay?

- Daqui a cinco ou seis dias, o mais tardar.

- E quando se casa?

- Logo aps a chegada do Sr. e da Sr.a de Saint-Mran.

- Traga-mo quando estiver em Paris. Embora o senhor pretenda
que no gosto dele, declaro-lhe que terei prazer em v-lo.

- Muito bem, as suas ordens sero cumpridas, senhor.

- At breve!

- At sbado, pelo menos, claro, no  verdade?

- Ora essa! A palavra est dada.

O conde seguiu Albert com a vista, acenando-lhe com a mo.
Depois dele subir para o seu feton, virou-se e deparou com
Bertuccio atrs de si.

- Ento? - perguntou.

- Foi ao Palcio da Justia - respondeu o intendente.

- Esteve l muito tempo?

- Hora e meia.

- E depois regressou a casa?

- Directamente.

- Muito bem! Agora, meu caro Sr. Bertuccio - acrescentou o
conde --, se quer um conselho, v ver se encontra na Normandia
o bocadinho de terra de que
lhe falei.

Bertuccio inclinou-se, e como os seus desejos estavam
perfeitamente de acordo com a ordem recebida, partiu naquela
mesma tarde.


Captulo LXIX

As informaes


O Sr. de Villefort cumpriu a palavra que dera  Sr.a Danglars,
e sobretudo a si mesmo, e procurou saber de que forma o Sr.
Conde de Monte-Cristo conseguira descobrir a histria da casa
de Auteuil.

Escreveu no mesmo dia a um tal Sr. de Boville, que, depois de
ter sido noutros tempos inspector das prises, fora colocado
num alto posto da Polcia de Segurana. Pediu-lhe que lhe
desse as informaes que desejava e Boville solicitou-lhe dois
dias para saber ao certo junto de quem se poderia informar.

Passados esses dois dias, o Sr. de Villefort recebeu a
seguinte nota:

A pessoa chamada conde de Monte-Cristo  conhecida
especialmente de Lorde Wilmore, rico estrangeiro que  visto
algumas vezes em Paris, onde se encontra neste momento. 
igualmente conhecida do abade Busoni, padre siciliano de
grande reputao no Oriente, onde tem feito muito boas obras.

O Sr. de Villefort respondeu ordenando que tirassem acerca
desses dois estrangeiros as informaes mais rpidas e
rigorosas. No dia seguinte  tarde as suas ordens estavam
cumpridas. Eis as informaes que recebeu:

O abade, que se encontrava havia apenas um ms em Paris,
residia atrs da Igreja de S. Suipcio numa casinha composta
unicamente de rs-do-cho e primeiro andar: quatro divises,
duas em cima e duas em baixo, constituam toda a habitao,
onde morava sozinho.

As duas divises do rs-do-cho eram uma sala de jantar com
mesa, cadeiras e aparador de nogueira e uma sala forrada de
madeira pintada de branco, sem ornamentos, tapetes e relgio
de sala. Via-se que pessoalmente o abade se limitava aos
objectos estritamente necessrios.

Verdade seja que o abade ocupava de preferncia a sala do
primeiro andar. Essa sala, repleta de livros de teologia e
pergaminhos, no meio dos quais passava, dizia o seu criado de
quarto, meses inteiros, era na realidade menos uma sala do que
uma biblioteca.

O criado observava os visitantes atravs de uma espcie de
postigo e quando a sua cara lhe era desconhecida ou no lhe
agradava, respondia que o Sr. Abade se no encontrava em
Paris, com o que muita gente se contentava, pois sabia-se que
o abade viajava frequentemente e ficava s vezes muito tempo
ausente.

De resto, quer estivesse em casa, quer no estivesse, quer se
encontrasse em Paris, quer se encontrasse no Cairo, o abade
dava sempre e o postigo servia de roda s esmolas que o criado
distribua incessantemente em nome do seu amo.

A outra diviso, situada ao p da biblioteca, era um quarto de
dormir. Uma cama sem cortinados, quatro cadeiras e um canap
de veludo-de-utreque amarelo formavam, com um genuflexrio,
todo o seu mobilirio.

Quanto a Lorde Wilmore, residia da Rua
Fontaine-Saint-Georges. Era um desses turistas ingleses que
gastam toda a sua fortuna em viagens. Alugara mobilado o
apartamento em que morava, no qual passava apenas duas ou trs
horas por dia e onde raramente dormia. Uma das suas manias era
recusar-se terminantemente a falar a lngua francesa, que no
entanto escrevia, afirmava-se, com muita pureza.

No dia seguinte quele em que estas preciosas informaes
chegaram s mos do Sr. Procurador Rgio, um homem que se
apeara de uma carruagem  esquina da Rua Frou foi bater a uma
porta pintada de verde-azeitona e perguntou pelo abade Busoni.

- O Sr. Abade saiu logo de manhzinha - respondeu o criado.

- Poderia no me contentar com essa resposta - redarguiu o
visitante --, porque venho da parte de uma pessoa para quem
toda a gente est sempre em casa. Mas queira entregar ao abade
Busoni...

- J lhe disse que no estava - repetiu o criado.

- Ento, quando voltar, entregue-lhe este carto e esta carta.
O Sr. Abade estar em casa s oito horas, esta noite?

- Com certeza, senhor, a menos que o Sr. Abade trabalhe,
porque ento  como se tivesse sado.

- Voltarei portanto esta noite,  hora indicada - disse o
visitante.

E retirou-se.

Com efeito,  hora indicada o mesmo homem voltou na mesma
carruagem, que, desta vez, em lugar de parar  esquina da Rua
Frou, se deteve diante da porta verde. Bateu, abriram e
entrou.

Pelos sinais de respeito de que o criado foi prdigo para com
ele, compreendeu que a sua carta produzira o efeito desejado.

- O Sr. Abade est em casa? - perguntou?

- Est. Trabalha na sua biblioteca, mas vai atender o senhor -
respondeu o criado.

O desconhecido subiu uma escada bastante ngreme e, diante de
uma secretria cujo tampo estava inundado da luz que
concentrava um grande quebra-luz, enquanto o resto da sala
ficava na sombra, viu o abade, em vestes eclesisticas e com a
cabea coberta por um desses capuzes com que ocultavam o
crnio os pretensos sbios da Idade Mdia.

-  ao Sr Busoni que tenho a honra de falar? - perguntou o
visitante.

- , sim, senhor - respondeu o abade. - E o senhor  a pessoa
que o Sr. de Boville, antigo intendente das prises, me manda
da parte do Sr. Prefeito da Polcia?

- Exactamente, senhor.

- Um dos agentes afectos  Segurana de Paris?

- Sim, senhor - respondeu o desconhecido, com uma espcie de
hesitao e sobretudo um pouco de rubor.

O abade reajustou os grandes culos, que lhe cobriam no s os
olhos, mas tambm as tmporas, e voltando a sentar-se, fez
sinal ao visitante para se sentar igualmente.

- Estou s suas ordens, senhor - disse o abade, com um acento
italiano dos mais pronunciados.

- A misso de que me encarregaram, senhor - comeou o
visitante, vincando cada uma das palavras, como se tivessem
dificuldade em sair --,  uma misso de confiana para quem a
desempenha e para a pessoa junto da qual a desempenha.

O abade inclinou-se.

- Sim-prosseguiu o desconhecido --, a sua probidade, Sr.
Abade,  to conhecida do Sr. Prefeito da Polcia que ele
deseja saber do senhor, como magistrado, uma coisa que
interessa  segurana pblica em nome da qual o venho
procurar. Esperamos, portanto, Sr. Abade, que no haja nem
laos de amizade nem considerao humana que possam lev-lo a
ocultar a verdade  justia.

- Conquanto, senhor, que as coisas que deseja saber no
briguem em nada com os escrpulos da minha conscincia. Sou
padre, senhor, e os segredos da confisso, por exemplo, devem
ficar entre mim e a justia de Deus, e no entre mim e a
justia humana.

- Oh, esteja tranquilo, Sr. Abade! - disse o desconhecido. -
Seja em que circunstncias for, respeitaremos a sua
conscincia.

Ao ouvir estas palavras, o abade carregou do seu lado no
quebra-luz, o qual se levantou do lado oposto, de forma que,
embora iluminasse em pleno rosto o desconhecido, deixava a
cara do abade na sombra.

- Perdo, Sr. Abade - disse o enviado do Sr. Prefeito da
Polcia --, mas essa luz fere-me horrivelmente a vista.

O abade baixou o carto verde.

- Agora, senhor, escuto-o. Fale.

- Vou direito ao assunto. Conhece o Sr. Conde de
Monte-Cristo?

- Refere-se ao Sr. Zaccone, presumo?...

- Zaccone! ... No se chama portanto Monte-Cristo?

- Monte-Cristo  o nome de uma terra, ou antes, de um
rochedo, e no um nome de famlia.

- Pois seja. No discutamos as palavras, e visto o Sr. de
Monte-Cristo e Sr. Zaccone serem o mesmo homem...
disse o abade, com um acento italiano dos

- Absolutamente o mesmo.

- Falemos do Sr. Zaccone.

- Pois sim.

- Conhece-o?

- Perfeitamente.

- Quem ?

- O filho de um rico armador de Malta.

- Sim, bem sei,  o que se diz. Mas, como o senhor compreende,
a Polcia no se pode contentar com um diz-se...

- No entanto - prosseguiu o abade, com um sorriso afabilssimo
--, quando esse diz-se  a verdade, toda a gente se deve
contentar com ele e  necessrio que a Polcia proceda como
toda a gente.

- Mas o senhor tem a certeza do que diz?

- Como? Se tenho a certeza?!

- Note, senhor, que no duvido de forma alguma da sua boa-f.
Limito-me a perguntar: tem a certeza?

- Oua, eu conheci o Sr. Zaccone pai.

- Ah, ah!

- Sim, e em criana brinquei vrias vezes com o filho nos seus
estaleiros navais.

- No entanto, esse ttulo de conde...

- Como sabe, compra-se.

- Em Itlia?

- Em qualquer parte.

- Mas as suas riquezas, que so imensas, ao que tambm se
diz...

- Oh, quanto a isso, "imensas",  a palavra adequada! -
respondeu o abade.

- Quanto calcula que possui, o senhor que o conhece?

- Oh, tem bem cento e cinquenta a duzentas mil libras de
rendimento!

- Sim,  razovel - admitiu o visitante. - Mas fala-se de trs
ou quatro milhes!

- Duzentas mil libras de rendimento, senhor, do precisamente
quatro milhes de capital.

- Mas fala-se de trs ou quatro milhes de rendimento!

- Oh, isso no  crvel!

- E o senhor conhece a sua ilha de Monte-Cristo?

- Certamente. Qualquer homem que tenha vindo de Palermo, de
Npoles ou de Roma para Frana, por mar, a conhece, pois
passou por ela e viu-a ao passar.

- Trata-se de um stio encantador, ao que se afirma...

-  um rochedo.

- Porque ter o conde comprado um rochedo?

- Justamente para ser conde. Na Itlia, para se ser conde
ainda  necessrio possuir um condado.

- Decerto ouviu falar das aventuras de juventude do Sr.
Zaccone.

- Do pai?

- No, do filho.

- A  que comeam as minhas incertezas, porque em dada altura
perdi o meu jovem companheiro de vista.

-- Ele entrou na guerra?

- Creio que serviu.

- Em que arma?

- Na Marinha.

- Vejamos, o senhor no  o seu confessor?

- No, senhor. Creio que  luterano.

- Como, luterano?!

- Digo que creio; no afirmo. De resto, julgava a liberdade de
cultos estabelecida em Frana.

- Sem dvida. Por isso, no  das suas crenas que nos
ocupamos neste momento, mas sim dos seus actos. Em nome do Sr.
Prefeito da Polcia, convido-o a dizer o que saiba.

- Passa por homem muito caritativo. O nosso Santo Padre, o
Papa f-lo cavaleiro de Cristo, honra que quase s concede aos
prncipes, pelos servios eminentes que prestou aos cristos
do Oriente. Alm disso, possui cinco ou seis gr-cruzes,
concedidas por servios prestados tanto aos prncipes como aos
Estados.

- Usa-as?

- No, mas orgulha-se de as possuir. Diz que aprecia mais as
recompensas concedidas aos benfeitores da humanidade do que as
atribudas aos destruidores dos homens.

-  ento um quacre, esse homem?

- Exacto,  um quacre, mas sem o grande chapu e o fato
castanho, evidentemente.

- Tem amigos?

- Tem. So seus amigos todos aqueles que o conhecem.

- Mas, enfim, tambm deve ter inimigos.

- S um.

- Como se chama?

- Lorde Wilmore.

- Onde se encontra?

- Neste momento, em Paris.

- E poder dar-me informaes?

- Preciosas. Esteve na ndia ao mesmo tempo que Zaccone. -
Sabe onde mora?

- Algures na Chausse-d'Antin, mas ignoro a rua e o nmero.

- O senhor tem ms relaes com esse ingls?

- Estimo Zaccone e ele detesta-o. No nos damos bem por isso.

- Sr. Abade, acha que o conde de Monte-Cristo esteve alguma
vez em Frana antes da viagem que acaba de fazer a Paris?

- Quanto a isso posso responder-lhe concretamente. No,
senhor, nunca c esteve, pois dirigiu-se a mim, h seis meses,
para obter as informaes que desejava. Pela minha parte, como
ignorava quando eu prprio regressaria a Paris, recomendei-lhe
o Sr. Cavalcanti.

- Andrea?

- No. Bartolomeo, o pai.

- Muito bem, senhor. No tenho mais nada a perguntar-lhe,
excepto uma coisa, e peo-lhe, em nome da honra, da humanidade
e da religio, que me responda francamente.

- Diga, senhor.

- Sabe com que fim o Sr. Conde de Monte-Cristo comprou uma
casa em Auteuil?

- Sei, porque ele mo disse.

- Com que fim, senhor?

- Com o de instalar um hospital psiquitrico no gnero do
fundado pelo baro de Pisani, em Palermo. Conhece esse
hospital?

- De nome, senhor.

-  uma instituio magnfica.

E dito isto, o abade cumprimentou o desconhecido como um homem
que desejasse dar a entender que se no importaria de voltar
ao trabalho interrompido.

O visitante, quer porque tivesse compreendido o desejo do
abade, quer porque no tivesse mais perguntas a fazer,
levantou-se por seu turno.

O abade acompanhou-o at  porta.

- O senhor d muitas esmolas - disse o visitante --, mas
embora se diga que  rico, atrevo-me a oferecer-lhe qualquer
coisa para os seus pobres. Importa-se de aceitar a minha
oferenda?

- Obrigado, senhor, mas h apenas uma coisa de que sou cioso
no mundo:  que o bem que faa provenha de mim.

- No entanto...

-  uma resoluo inabalvel. Mas procure, senhor, e
encontrar. Infelizmente! No caminho de cada homem rico
cruzam-se muitas misrias.

O abade cumprimentou mais uma vez e abriu a porta. O
desconhecido cumprimentou por seu turno e saiu.

A carruagem levou-o direito a casa do Sr. de Villefort.

Uma hora mais tarde a carruagem tornou a sair e desta vez
dirigiu-se para a Rua Fontaine-Saint-Georges. Parou no n.o
5. Era ali que morava Lorde Wilmore.

O desconhecido escrevera a Lorde Wilmore pedindo-lhe que o
recebesse e este marcara o encontro para as dez horas. Por
isso, como o enviado do Sr. Prefeito da Polcia chegou s dez
horas menos dez minutos, foi-lhe respondido que Lorde Wilmore,
que era a exactido e a pontualidade em pessoa ainda no
chegara, mas que chegaria sem dvida ao bater as dez.

O visitante esperou na sala, a qual no tinha nada de notvel
e era como todas as salas das casas alugadas mobiladas.

Uma chamin com dois vasos de Svres modernos, um relgio de
sala com um Amor retesando o seu arco, um espelho bipartido,
de cada lado do espelho uma gravura, representando uma Homero
conduzido pelo seu guia, a outra, Belisrio pedindo esmola,
paredes forradas de papel cinzento de vrios tons e um sof de
tecido vermelho estampado a preto, tal era a sala de Lorde
Wilmore.

Iluminavam-na globos de vidro fosco, que espalhavam apenas uma
luz fraca, a qual parecia preparada propositadamente para os
olhos cansados do enviado do Sr. Prefeito da Polcia.

Ao cabo de dez minutos de espera, o relgio de sala deu as dez
horas, e  quinta pancada a porta abriu-se e Lorde Wilmore
apareceu.

Lorde Wilmore era um homem mais alto do que baixo, de suas
ralas e ruivas, tez branca e cabelo louro-grisalho. Vestia com
toda a excentricidade inglesa, isto , envergava casaca azul
com botes dourados e gola alta  pespontada, como se usava
em 1811, colete de casimira branca e calas de nanquim trs
polegadas mais curtas do que deviam, mas que presilhas do
mesmo tecido passadas por baixo dos ps impediam de lhe subir
aos joelhos.

As suas primeiras palavras quando entrou foram:

- Como sabe, senhor, no falo francs.

- Sei, pelo menos, que no gosta de falar na nossa lngua -
respondeu o enviado do Sr. Prefeito da Polcia.

- Mas o senhor pode falar nela - redarguiu Lorde Wilmore
--, pois se a no falo, compreendo-a.

- E eu - replicou o visitante, mudando de idioma - falo o
ingls com facilidade suficiente para sustentar uma conversa
nessa lngua. No se incomode, pois, senhor.

- Hao! - exclamou Lorde Wilmore, com a intonao exclusiva
dos mais puros naturais da Cr-Bretanha.

O enviado do prefeito da Polcia entregou a Lorde Wilmore a
sua carta de apresentao. Este leu-a com uma fleuma muito
anglicana e quando terminou a leitura disse, em ingls:

- Compreendo. Compreendo perfeitamente.

Comearam ento as perguntas.

Foram pouco mais ou menos as mesmas que tinham sido dirigidas
ao abade Busoni. Mas como Lorde Wilmore, na sua qualidade de
inimigo do conde de Monte-Cristo, no punha nas suas
respostas a mesma reserva que o abade, estas foram muito mais
extensas. Contou a juventude de Monte-Cristo, que, segundo
ele, entrara aos dez anos ao servio de um desses pequenos
soberanos da ndia que guerreiam os Ingleses. Fora l que
ele, Wilmore, o encontrara pela primeira vez e tinham
combatido um contra o outro. Nessa guerra, Zaccone fora feito
prisioneiro e enviado para Inglaterra num ponto, mas fugira a
nado. Tinham comeado ento as suas viagens, os seus duelos e
as suas paixes. Por essa altura, a Grcia revoltara-se e ele
servira nas fileiras dos Gregos. Enquanto estava ao seu
servio, descobrira uma mina de prata nas montanhas da
Tesslia, mas no revelara a ningum tal descoberta. Depois de
Navarino e da consolidao do governo grego, pediu ao rei Oto
um alvar para explorar a mina, o qual lhe foi concedido. Dai
a sua imensa fortuna, que, segundo Lorde Wilmore, podia
ascender a um ou dois milhes de rendimento, fortuna que no
entanto poderia exaurir-se de sbito, se a mina se esgotasse.

- Mas no sabe porque veio a Frana? - perguntou o visitante.

- Quer especular nos caminhos-de-ferro - respondeu Lorde
Wilmore. - Alm disso, como  um hbil qumico e um fsico no
menos distinto, descobriu um novo telgrafo cuja aplicao
ambiciona.

- Quanto gasta pouco mais ou menos por ano? - perguntou o
enviado do Sr. Prefeito da Polcia.

- Oh, quinhentos ou seiscentos mil francos, no mximo! -
respondeu Lorde Wilmore. -  um sovina.

Era evidente que o rancor  que fazia falar o ingls, o qual,
no sabendo o que censurar ao conde, lhe censurava a avareza.

- Sabe alguma coisa a respeito da sua casa de Auteuil?

- Claro que sei.

- Nesse caso, que sabe?

- Quer saber com que fim a comprou?

- Quero.

- Bom, o conde  um especulador que certamente acabar por se
arruinar com experincias e utopias. Pretende que existe em
Auteuil, nas imediaes da casa que acaba de comprar, uma
corrente de gua mineral capaz de rivalizar com as guas de
Bagnres, de Luchon e de Cauterets. Quer transformar a sua
aquisio num bad-haus, como dizem os Alemes. l revolveu
duas ou trs vezes o jardim  procura do famoso curso de gua,
e como o no conseguiu descobrir, vai ver que dentro de pouco
tempo desata a comprar as casas que rodeiam a dele. Ora, como
lhe desejo, espero que graas ao seu caminho-de-ferro, ao seu
telgrafo elctrico ou  sua explorao de banhos acabe por se
arruinar. Ento, c estarei para desfrutar a sua runa, que
no pode deixar de acontecer mais dia menos dia.

- Mas porque lhe quer assim to mal? - perguntou o visitante.

- Odeio-o - respondeu Lorde Wilmore - porque numa das suas
passagens por Inglaterra seduziu a mulher de um dos meus
amigos.

- Mas se o odeia, porque no procura vingar-se dele?

- J me bati trs vezes com o conde - respondeu o ingls. - A
primeira vez,  pistola, a segunda,  espada, e a terceira, ao
montante.

- E qual foi o resultado desses duelos?

- Da primeira vez, partiu-me um brao; da segunda vez,
traspassou-me um pulmo, e da terceira, fez-me este ferimento.

O ingls baixou o colarinho da camisa, que lhe subia at s
orelhas, e mostrou-lhe uma cicatriz cuja vermelhido indicava
ser pouco antiga.

- De forma que o odeio muito - repetiu o ingls - e que
desejo, evidentemente, que morra apenas s minhas mos.

- Mas assim o senhor no leva jeitos de o vir a matar,
parece-me - observou o enviado da Prefeitura.

- Hao! - exclamou o ingls. - Vou todos os dias  carreira
de tiro e de dois em dois dias Grisier vem a minha casa.

Era o que queria saber o visitante, ou antes, era tudo o que
parecia saber o ingls. O agente levantou-se portanto e,
depois de cumprimentar Lorde Wilmore, que lhe correspondeu com
a rigidez e a cortesia inglesas, retirou-se.

Pela sua parte, Lorde Wilmore, depois de ouvir fechar-se a
porta da rua, entrou no seu quarto, onde num pice perdeu os
seus cabelos louros, as suas suas ruivas, o seu falso
maxilar e a sua cicatriz, para readquirir os cabelos pretos, a
tez mate e os dentes de prolas do conde de Monte-Cristo.

Verdade seja que, pelo seu lado, foi o Sr. de Villefort e no
o enviado do Sr. Prefeito da Polcia que entrou em casa do
mesmo Sr. de Villefort.

O procurador rgio ficara um pouco tranquilizado depois das
duas visitas, que alis lhe no tinham revelado nada de
tranquilizador, mas que tambm lhe no haviam dado motivos de
inquietao. Da que, pela primeira vez desde o jantar de
Auteuil, dormisse naquela noite um bocadinho mais
tranquilo.


Captulo LXX

O baile


Tinham chegado os mais quentes dias de Julho quando se
apresentou por seu turno, na ordem do tempo, o sbado em que
se devia realizar o baile do Sr. de Morcerf.
Eram dez horas da noite. As grandes rvores do jardim do
palcio do conde destacavam-se pelo seu porte num cu onde
deslizavam, descobrindo um tapete azul recamado de estrelas
douradas, os ltimos vapores de uma tempestade que trovejara
ameaadora durante todo o dia.

Nas salas do rs-do-cho ouvia-se ressoar a msica e rodopiar
a valsa e o galope, enquanto faixas deslumbrantes de luz
passavam delgadas atravs dos intervalos das persianas.

O jardim estava entregue naquele momento a uma dezena de
criados, a quem a dona da casa, tranquilizada por o tempo.
acalmar de momento a momento, acabava de ordenar que servissem
a ceia.

At ali hesitara-se se se cearia na sala de jantar ou debaixo
de uma comprida tenda de lona erguida no relvado. Mas aquele
belo cu azul, todo recamado de estrelas, acabava de decidir o
processo a favor da tenda e do relvado.

Iluminavam-se as alamedas do jardim com lanternas de cor, como
 hbito em Itlia, e cobria-se de velas e de flores a mesa da
ceia, como  uso em todos os pases onde se compreende um
pouco o luxo da mesa, o mais raro de todos os luxos, quando se
pretende torn-lo completo.

No momento em que a condessa de Morcerf entrava nos seus
sales, depois de dar as suas ltimas ordens, os sales
comeavam a encher-se de convidados, atrados muito mais pela
encantadora hospitalidade da condessa do que pela posio de
relevo do conde. Porque se podia ter antecipadamente a certeza
de que a festa proporcionaria, graas ao bom gosto de
Mercds, alguns pormenores dignos de ser contados ou
copiados, se necessrio.

A Sr.a Danglars, a quem os acontecimentos que narramos tinham
inspirado profunda inquietao, hesitava em ir a casa da Sr.a
de Morcerf quando de manh a sua carruagem se cruzara com a de
Villefort. Este fizera-lhe um sinal, as duas viaturas
tinham-se aproximado e o procurador rgio perguntara atravs
das portinholas:

- Vai a casa da Sr.a de Morcerf, no vai?

- Faz mal - observou Villefort, com um olhar significativo. -
Seria importante que a vissem l.

- Acha? - perguntou a baronesa.

- Acho.

- Nesse caso, irei.

E as duas viaturas tinham retomado a sua direco oposta. A
Sr.a Danglars viera portanto, no s bela pela sua prpria
beleza, mas tambm deslumbrante de luxo. Entrava por uma porta
no preciso instante em que Mercds entrava pela outra.

A condessa mandou Albert ao encontro da Sr.a Danglars. Albert
obedeceu, apresentou  baronesa, a propsito da sua
toilette, os devidos cumprimentos e  ofereceu-lhe o brao
para a conduzir ao lugar que lhe aprouvesse escolher, Albert
olhou  sua volta.

- Procura a minha filha? - inquiriu, sorrindo, a baronesa.

- Confesso que sim - respondeu Albert. - Seria capaz de
cometer a crueldade de no no-la trazer ?

- Tranquilize-se, encontrou Mademoiselle de Villefort e
deu-lhe o brao. Olhe, ai vm atrs de ns, ambas de vestido
branco, uma com um ramo de camlias e a outra com um ramo de
miostis. Mas diga-me uma coisa...

- Que procura a senhora por sua vez? - perguntou Albert,
sorrindo.

- No tero esta noite o conde de Monte-Cristo?

- Dezassete! - respondeu Albert.

- Que quer dizer?

- Quero dizer que as coisas vo bem - esclareceu o visconde,
rindo - e que a senhora  a dcima stima pessoa que faz a
mesma pergunta. No h dvida, o conde est bem lanado!...
Tenho de o felicitar...

- O senhor responde a toda a gente como a mim?

- Ah,  verdade, no lhe respondi! Sossegue, minha senhora,
teremos o homem da moda, pertencemos ao nmero dos
privilegiados.

- Foi ontem  pera?

- No.

- Ele estava l.

- Deveras? E o excentric man teve alguma nova
originalidade?

- Pode porventura exibir-se sem isso? Eissler danava O
Diabo Coxo; a princesa grega estava enleada. Depois da
cachucha, ele meteu um anel magnfico no p de um ramo de
flores e atirou-o  encantadora bailarina, que no terceiro
acto reapareceu em cena, para o distinguir, com o anel no
dedo. E a sua princesa grega, tambm vir?

- No, tem de ter pacincia e privar-se dela, mas a sua
situao em, casa do conde no est bem definida.

- Olhe, deixe-me aqui e v cumprimentar a Sr.a de Villefort -
disse a baronesa. - Adivinho que est ansiosa por lhe falar.

Albert cumprimentou a Sr.a Danglars e foi ao encontro da Sr.a
de Villefort, que abria a boca  medida que ele se aproximava.

- Aposto - disse Albert, interrompendo-a - que sei o que me
vai perguntar...

- Essa agora! - exclamou a Sr.a de Villefort.

- Se acertar, confessa-mo?

- Confesso.

- Palavra de honra?

- Palavra de honra!

- Ia perguntar-me se o conde de Monte-Cristo j veio ou ainda
vem...

- De modo nenhum. No me ocupo dele neste momento. Ia
perguntar-lhe se recebeu notcias do Sr. Franz.

- Recebi, ontem.

- Que lhe dizia?

- Que partia ao mesmo tempo que a sua carta.

- Muito bem. E agora, que me diz do conde?

- O conde vir, fique tranquila.

- Sabe que tem outro nome alm do de Monte-Cristo?

- No, no sabia.

- Monte-Cristo  o nome de uma ilha e ele tem um nome de
famlia.

- Nunca lho ouvi pronunciar.

- Ento estou mais adiantada do que o senhor. Ele chama-se
Zaccone.

-  possvel.

- E  malts.

- Tambm  possvel.

- Filho de um armador.

- Oh, mas na verdade a senhora devia contar essas coisas ali,
em voz alta! Teria o maior xito.

- Serviu na ndia, explora uma mina de prata na Tesslia e
veio a Paris para montar um estabelecimento de guas minerais
em Auteuil.

-- Que grandes notcias! - exclamou Morcerf. - Permite-me que
as repita? - Pois sim, mas pouco a pouco, uma a uma, sem dizer
que provm de mim.

- Porqu?

- Porque  quase um segredo roubado.

- A quem?

-  Polcia.

- Ento essas notcias espalhavam-se...

- Ontem  noite, em casa do prefeito. Paris impressionou-se,
como sabe, perante aquele luxo inusitado e a Polcia tirou
informaes.

- Muito bem. S faltava prender o conde como vagabundo a
pretexto de ser demasiado rico.

- Era o que poderia muito bem acontecer-lhe se as informaes
no fossem to favorveis.

- Pobre conde! Desconfia do perigo que correu?

- No creio.

- Ento ser uma obra de caridade avis-lo. No deixarei de o
fazer quando ele chegar.

Neste momento um bonito rapaz de olhos vivos, cabelo preto e
bigode brilhante veio cumprimentar respeitosamente a Sr.a de
Villefort. Albert estendeu lhe a mo.

- Minha senhora - disse Albert --, tenho a honra de lhe
apresentar o Sr. Maximilien Morrel, capito de sipaios, um dos
nossos bons e sobretudo dos nossos bravos oficiais.

- J tive o prazer de encontrar este senhor em Auteuil, em
casa do Sr. Conde de Monte-Cristo - respondeu a Sr.a de
Villefort, virando-se com acentuada frieza.

Esta resposta, e sobretudo o tom em que foi dada, apertou o
corao do pobre Morrel. Mas estava-lhe reservada uma
compensao: ao voltar-se, descobriu  porta uma bela figura
branca cujos olhos azuis, dilatados e sem expresso aparente,
se cravavam nele, enquanto o ramo de miostis lhe subia
lentamente aos lbios.

Este cumprimento foi to bem compreendido que Morrel, com a
mesma expresso no olhar, aproximou por sua vez o leno da
boca. E as duas esttuas vivas, cujo corao pulsava
rapidamente sob o mrmore aparente do rosto,
separadas uma da outra por toda a largura da sala,
esqueceram-se por um instante, ou antes, por um instante
esqueceram toda a gente naquela muda contemplao.
E poderiam ter ficado muito mais tempo assim absortas uma na
outra, sem que ningum notasse o seu alheamento de tudo e de
todos, se o conde de Monte-Cristo no acabasse de entrar.

J o dissemos: o conde, quer por prestigio fictcio, quer por
prestigio natural, atraia a ateno em toda a parte onde se
apresentava. No era a sua casaca preta, de corte impecvel, 
certo, mas simples e sem condecoraes; no era o seu colete
branco sem qualquer bordadura; no eram as suas calas, que se
ajustavam a um p da forma mais delicada, que atraiam a
ateno: eram a sua tez mate, o seu cabelo preto, ondulado,
era o seu rosto calmo e puro, era o seu olhar profundo e
melanclico, era finalmente a sua boca desenhada com uma
delicadeza maravilhosa, e que adquiria facilmente a expresso
de um alto desdm, que levavam todos os olhos a fixarem-se
nele.

Poderia haver homens mais belos, mas no os havia, sem dvida,
mais significativos, passe a expresso. Tudo no conde queria
dizer qualquer coisa e tinha o seu valor; porque o hbito do
pensamento til dera s suas feies,  expresso do seu rosto
e ao mais insignificante dos seus gestos uma flexibilidade e
uma firmeza incomparveis.

No entanto, a nossa sociedade parisiense  to estranha que
ele talvez no tivesse despertado a ateno por tudo isso se
debaixo de tudo isso no houvesse uma histria misteriosa
dourada por uma imensa fortuna.

Como quer que fosse, adiantou-se sob o peso dos olhares e,
trocando pelo caminho breves cumprimentos, at  Sr.a de
Morcerf, que de p diante da chamin guarnecida de flores o
vira aparecer num espelho colocado defronte da porta e se
preparava para o receber.

Virou-se portanto para ele com um sorriso grave precisamente
no momento em que Monte-Cristo se inclinava diante dela.

A condessa sups, sem dvida, que o conde lhe dirigiria a
palavra, e pela sua parte ele tambm imaginou, sem dvida, que
ela lhe falaria; mas ambos ficaram mudos, de tal forma uma
banalidade lhes pareceu, decerto, indigna deles. E aps uma
troca de cumprimentos, Monte-Cristo dirigiu-se para Albert,
que vinha ao seu encontro de mo aberta.

- Viu a minha me? - perguntou Albert.

- Acabo de ter a honra de a cumprimentar - respondeu conde --,
mas ainda no vi o seu pai.

- Olhe, conversa de poltica ali, naquele grupinho de grandes
celebridades.

- Na verdade aqueles cavalheiros so celebridades? -
admirou-se Monte-Cristo. - Nunca o suporia! E de que gnero?
H celebridades de toda a espcie, como sabe.

- Em primeiro lugar, um sbio, aquele cavalheiro alto e magro:
descobriu na campina de Roma uma espcie de lagarto que tem
mais uma vrtebra do que os outros e essa descoberta valeu-lhe
fazer parte do Instituto. A coisa foi durante muito tempo
contestada, mas enfim o cavalheiro alto e magro levou a
melhor. A vrtebra causara grande alvoroo no mundo
cientfico. O cavalheiro alto e magro, que era apenas
cavaleiro da Legio de Honra, foi nomeado oficial.

- At que enfim! - exclamou Monte-Cristo. - A est uma
condecorao que me parece sensatamente dada. Ento, se
encontrar segunda vrtebra, f-lo-o comendador?

-  provvel - respondeu Morcerf.

- E aquele que teve a singular ideia de vestir uma casaca azul
bordada a verde quem ?

- No foi ele que teve a ideia de se meter naquela casaca, foi
a Repblica, a qual, como sabe, era um tanto artista. Por
isso, desejando dar um uniforme aos acadmicos, pediu a David
que lhe desenhasse uma casaca.

- Tem razo - concordou Monte-Cristo. - Portanto aquele
senhor  um acadmico?

- H oito dias que faz parte da douta assembleia.

- E qual  o seu mrito, a sua especialidade?

- A sua especialidade? Parece-me que espeta alfinetes na
cabea de coelhos, que obriga as galinhas a comer garana e
que extrai com barbas de baleia a espinal-medula aos ces.

- E  da Academia das Cincias por isso?

- No, da Academia Francesa.

- Mas que tem a Academia Francesa a ver com essas coisas?

- Vou dizer-lhe. Parece...

- Que as suas experincias fizeram, decerto, a cincia dar um
grande passo?

- No, mas que escreve num excelente estilo.

- O que deve lisonjear enormemente o amor-prprio dos coelhos
em que espeta alfinetes na cabea, as galinhas cujos ossos
tinge de vermelho e os ces a que extrai a espinal-medula -
comentou Monte-Cristo.

Albert desatou a rir.

- E aquele? - perguntou o conde.

- Qual?

- O terceiro.

- Ah! O de casaca azul-clara?

- Sim.

-  um colega do conde que acaba de se opor energicamente a
que a Cmara dos Pares tenha um uniforme. Por causa disso
obteve um grande xito na tribuna. Andava de candeias s
avessas com as gazetas liberais, mas a sua nobre oposio aos
desejos da corte acaba de o reconciliar com elas. Fala-se em
nome-lo embaixador.

- E quais so os seus ttulos para o pariato?

- Escreveu duas ou trs operas cmicas, intentou quatro ou
cinco aces contra o Sicle e votou cinco ou seis anos pelo
ministrio.

- Bravo, visconde! - exclamou Monte-Cristo, rindo. - O senhor
 um cicerone notvel. Agora, importa-se de me fazer um favor?

- Qual?

- No me apresente a esses cavalheiros e se eles pedirem para
me serem apresentados, previna-me.

Neste momento o conde sentiu que lhe pousavam uma mo no
brao. Virou-se. Era Danglars.

- Ah! E o senhor, baro?

- Porque me chama baro? - redarguiu Danglars. - Bem sabe que
no ligo importncia ao meu ttulo. No sou como o senhor,
visconde; o senhor liga mesmo importncia ao seu, no 
verdade?

- Certamente - respondeu Albert --, pois se no fosse visconde
no seria mais nada, ao passo que o senhor pode sacrificar o
seu ttulo de baro porque ainda lhe fica o de milionrio.

- O que me parece o mais belo ttulo que se possa desejar na
monarquia de Julho - salientou Danglars.

- Infelizmente - atalhou Monte-Cristo --, no se  milionrio
vitalcio como se  baro, par de Frana ou acadmico; assim o
provam os milionrios Franck  Poulmann, de Francoforte, que
acabam de abrir falncia.

- Sim? - murmurou Danglars, empalidecendo.

- Palavra. Recebi a notcia esta tarde, por um correio. Tinha
qualquer coisa como um milho na casa deles, mas, avisado a
tempo, exigi o seu reembolso h coisa de um ms, pouco mais ou
menos.

- Ah, meu Deus, sacaram sobre mim duzentos mil francos! -
exclamou Danglars.

- Ento est avisado - a sua assinatura vale cinco por cento.

- Pois sim, mas o seu aviso vem demasiado tarde - redarguiu
Danglars. - J honrei a assinatura deles.

- Bom, so mais duzentos mil francos que se foram juntar... -
comeou Monte-Cristo.

- Caluda! - atalhou Danglars. - No fale dessas coisas...

Depois, aproximando-se de Monte-Cristo:

- Sobretudo diante do Sr. Cavalcanti filho - acrescentou o
banqueiro, que, ao pronunciar estas palavras, se virou
sorrindo para o lado do jovem italiano.

Morcerf deixara o conde para ir falar  me.

Danglars deixou-o para cumprimentar Cavalcanti filho.
Monte-Cristo encontrou-se por um instante sozinho.

Entretanto, o calor comeava a tornar-se excessivo.

Os criados circulavam pelos sales com bandejas carregadas de
fruta e gelados.

Monte-Cristo enxugou com o leno o rosto perlado de suor.
Mas recuou quando a bandeja passou diante dele e no tirou
nada para se refrescar.

A Sr.a de Morcerf no tirava os olhos de Monte-Cristo. Viu
passar a bandeja sem que ele lhe tocasse e notou tambm a
forma como se afastou dela.

- Albert, reparaste numa coisa?

- Qual, minha me?

- Que o conde nunca aceitou jantar em casa do Sr. de Morcerf.

- Pois sim, mas aceitou almoar em minha casa, e foi at por
intermdio desse almoo que entrou na sociedade.

- Em tua casa no  em casa do conde - murmurou Mercds. -
Alm disso, desde que chegou que o observo.

- E ento?

- E ento? Ainda no tomou nada.

- O conde  muito sbrio.

Mercds sorriu tristemente.

- Aproxima-te dele - pediu, e  primeira bandeja que passar,
insiste.

- Porqu, minha me?

- Faz-me esse favor, Albert - insistiu Mercds.

Albert beijou a mo da me e foi postar-se junto do conde.
Passou outra bandeja, carregada como as precedentes. A
condessa viu Albert insistir com o conde, tirar mesmo um
gelado e oferecer-lho, mas ele recusar obstinadamente.
Albert voltou para junto da me. A condessa estava muito
plida.

- Como viste, recusou.

-  verdade, mas em que  que isso a pode preocupar?

- Como sabes, Albert, as mulheres tm manias singulares.
Teria visto com prazer o conde tomar qualquer coisa em minha
casa, nem que fosse um bago de rom. Mas talvez no se adapte
aos costumes franceses, talvez prefira outras coisas...

- Meu Deus, no! Na Itlia vi-o tomar de tudo. Sem dvida est
maldisposto esta noite.

- Achas que tendo residido sempre em climas quentes, ser
menos sensvel ao calor do que as outras pessoas? - perguntou
a condessa.

- No creio, pois queixava-se de que asfixiava e perguntava
por que motivo, visto j se terem aberto as janelas, no se
abriam tambm as persianas.

- Com efeito - disse Mercds --,  um meio de me assegurar se
a sua abstinncia  alguma atitude preconcebida...

E saiu do salo.

Pouco depois, as persianas abriram-se e todos puderam ver,
atravs dos jasmins e das clematites que guarneciam as
janelas, todo o jardim iluminado com lanternas e a ceia
servida debaixo da tenda.

Danarinos e danarinas, jogadores e conversadores soltaram um
grito de alegria. Todos aqueles pulmes vidos aspiravam com
delcia o ar que entrava a jorros.

Ao mesmo tempo, Mercds reapareceu, mais plida do que sara,
mas com a serenidade de rosto que era notvel nela em
determinadas circunstncias. Foi direita ao grupo de que o
marido era o centro e disse-lhe:

- No retenha estes cavalheiros aqui, Sr. Conde. Se no jogam,
decerto preferiro tomar ar no jardim a abafar c dentro.

- Mas, minha senhora - interveio um velho general muito
galante, que cantara Partamos para a Sria! em 1809 --, no
iremos sozinhos para o jardim...

- Seja, estou pronta a dar o exemplo - respondeu Mercds.

E virando-se para Monte-Cristo:

- Sr. Conde, quer dar-me a honra de me oferecer o seu brao?

O conde quase cambaleou ao ouvir estas simples palavras.
Em seguida fitou um momento Mercds. Esse momento teve a
rapidez do relmpago e no entanto pareceu  condessa ter
durado um sculo, tantos pensamentos pusera
Monte-Cristo nesse nico olhar.

Ofereceu o brao  condessa. Esta apoiou-se nele ou, para
melhor dizer, aflorou-o com a sua mozinha, e ambos desceram
uma das escadas adornadas de rododendros e camlias.

Atrs deles, e pela outra escada, correram para o jardim,
soltando ruidosas exclamaes de prazer, cerca de vinte
convidados.


captulo LXXI

O po e o sal


A Sr.a de Morcerf entrou debaixo da abbada de folhagem com o
companheiro. A abbada era formada pelas rvores de uma
alameda de tlias que conduzia a uma estufa.

- Fazia demasiado calor no salo, no  verdade, Sr. Conde?

- , sim, minha senhora, e a sua ideia de mandar abrir as
portas e as persianas foi uma excelente ideia.

Quando acabou de proferir estas palavras, o conde notou que a
mo de Mercds tremia.

- Mas a senhora, com esse vestido leve e sem mais nada a
agasalhar-lhe o pescoo do que essa charpa de gaze, no ir
talvez ter frio? - perguntou.

- Sabe aonde o levo? - inquiriu a condessa, sem responder 
pergunta de Monte-Cristo.

- No, minha senhora - respondeu ele. - Mas, como v, no
oponho resistncia.

-  estufa que v ali, ao fundo desta alameda.

O conde olhou Mercds como se a quisesse interrogar, mas ela
continuou o seu caminho sem nada dizer e pela sua parte
Monte-Cristo tambm se manteve calado.

Chegaram  estufa, cheia de frutos magnficos, que desde o
principio de Julho ali amadureciam debaixo de uma temperatura
sempre regulada de forma a substituir o calor do sol, tantas
vezes ausente entre ns.

A condessa largou o brao de Monte-Cristo e foi colher a uma
cepa um cacho de uvas moscatis.

- Tome, Sr. Conde - ofereceu com um sorriso to triste que se
lhe viram as lgrimas surgir  beira dos olhos. - Tome. As
nossas uvas de Frana no so comparveis, bem sei, s uvas da
Siclia e de Chipre, mas o senhor ser indulgente com o nosso
pobre sol do Norte.

O conde inclinou-se e deu um passo atrs.

- Recusa o que lhe ofereo? - perguntou Mercds, com voz
trmula.

- Minha senhora - respondeu Monte-Cristo --, peo-lhe muito
humildemente que me desculpe, mas nunca como uvas moscatis.

Mercds deixou cair o cacho, suspirando. Um pssego magnifico
pendia de uma espaldeira vizinha, aquecido, como a vide, pelo
calor artificial da estufa. Mercds aproximou-se do fruto
aveludado e colheu-o.

- Tome ento este pssego - ofereceu.

Mas o conde fez o mesmo gesto de recusa.

- Oh, tambm?! - exclamou ela em tom to magoado que se
adivinhava conter um soluo. - Na verdade, estou com pouca
sorte.

A esta cena seguiu-se um longo silncio. O pssego, como o
cacho de uvas, jazia no saibro.

- Sr. Conde - prosseguiu finalmente Mercds, pousando em
Monte-Cristo um olhar suplicante --, h um comovente costume
rabe que torna amigos eternos aqueles que partilham o po e o
sal debaixo do mesmo tecto...

- Conheo-o, minha senhora - respondeu o conde. - Mas estamos
em Frana e no na Arbia, e em Frana no existe nem amizade
eterna nem partilha do sal e do po.

- Mas, enfim - disse a condessa, palpitante, sem tirar os
olhos de Monte-Cristo, cujo brao apertava convulsivamente
com ambas as mos --, ns somos amigos, no  verdade?

O sangue afluiu ao corao do conde, que se tornou plido como
um morto, e depois subiu-lhe do corao  garganta e
invadiu-lhe as faces, e os seus olhos vogaram no nada durante
alguns segundos, como os de um homem fascinado.

- Claro que somos amigos, minha senhora - replicou. - Alis,
porque o no seriamos?

Este tom estava to longe do que desejaria a Sr.a de Morcerf
que ela se virou para deixar escapar um suspiro, que mais
parecia um gemido.

- Obrigada - disse, e recomeou a andar.

Deram assim a volta ao jardim sem pronunciarem uma s palavra.

- Senhor - disse de sbito a condessa, depois de dez minutos
de passeio silencioso --,  verdade que tem visto muito,
viajado muito e sofrido muito?

- Sim, minha senhora,  verdade que tenho sofrido muito -
respondeu Monte-Cristo.

- Mas agora  feliz?

- Sem dvida, pois ningum me ouve queixar - respondeu o
conde.

- E a sua felicidade presente adoa-lhe a alma?

- A minha felicidade presente iguala a minha misria passada.

- No casou? - perguntou a condessa.

- Eu, casar? - respondeu Monte-Cristo, estremecendo. - Quem
lhe disse isso?

- Ningum mo disse, mas tm-no visto acompanhar vrias vezes 
pera uma jovem muito bonita.

-  uma escrava que comprei em Constantinopla, minha senhora,
a filha de um prncipe de quem fiz minha filha e que no tem
outra afeio no mundo.

- Portanto vive s?

- Sim, vivo s.

- No tem irm... filho... pai?...

- No tenho ningum

- Como pode viver assim, sem nada que o prenda  vida?

- A culpa no  minha, senhora. Em Malta amei uma rapariga e
ia casar com ela quando veio a guerra e me levou para longe
dela como um turbilho. Julgava que me amasse o suficiente
para me esperar, para permanecer at fiel  minha sepultura,
mas quando regressei estava casada.  a histria de todo o
homem que passou a idade dos vinte anos. Eu tinha talvez o
corao mais fraco do que os outros e por isso sofri mais do
que eles sofreriam no meu lugar, foi s isso.

A condessa parou um momento, como se necessitasse desse alto
para respirar.

- Sim, e esse amor ficou-lhe no corao... - disse. - S se
ama uma vez... E alguma vez tornou a ver essa mulher?

- Nunca.

- Nunca?

- Nunca mais voltei ao pais onde ela vivia.

- A Malta?

- Sim, a Malta.

- Ela era ento de Malta?

- Creio que sim.

- E perdoou-lhe o que ela o fez sofrer?

- A ela, sim.

- Mas s a ela. Continua a odiar aqueles que o separaram dela?

A condessa colocou-se diante de Monte-Cristo. Tinha ainda na
mo um bocadinho do cacho de uvas perfumado.

- Tome - pediu.

- Nunca como uvas moscatis, minha senhora - respondeu
Monte-Cristo como se fosse a primeira vez que tocavam em tal
assunto.

A condessa atirou o cacho para o macio mais prximo com um
gesto de desespero.

- Inflexvel! - murmurou.

Monte-Cristo ficou to impassvel como se a censura lhe no
fosse dirigida.

Albert apareceu neste momento.

- Oh, minha me, que grande desgraa! - exclamou.

- Que foi? Que aconteceu? - perguntou a condessa,
endireitando-se, como se depois do sonho acabasse de ser
trazida  realidade. - Uma desgraa, dizes tu? Com efeito,
devem aproximar-se desgraas...

- O Sr. de Villefort est c.

- E ento?

- Vem buscar a mulher e a filha.

- Porqu?

- Porque a Sr.a Marquesa de Saint-Mran, chegou a Paris com a
notcia de que o Sr. de Saint-Mran morreu depois de sair de
Marselha, na primeira muda de cavalos. A Sr.a de Villefort
estava to alegre que no era capaz de compreender nem de
acreditar em semelhante desgraa. Mas Mademoiselle Valentine,
mal ouviu as primeiras palavras, apesar das precaues que o
pai tomou, adivinhou tudo. O golpe fulminou-a como um raio e
caiu sem sentidos.

- Que  o Sr. de Saint-Mran a Mademoiselle de Villefort? -
perguntou o conde.

- Av materno. Vinha para apressar o casamento de Franz com a
neta.

- Ah, sim?!

- L tem o Franz de esperar mais um tempo! Porque no seria o
Sr. de Saint-Mran tambm av de Mademoiselle Danglars?...

- Albert! Albert! - interveio a Sr.a de Morcerf em tom de
meiga censura. - Que ests para a a dizer? Olhe, Sr. Conde,
diga-lhe o senhor, por quem ele tem to grande considerao,
que no deve falar assim.

A condessa deu alguns passos em frente.

Monte-Cristo olhou-a to estranhamente e com uma expresso ao
mesmo tempo to pensativa e to cheia de afectuosa admirao
que ela voltou atrs.

Ento, pegou-lhe na mo, ao mesmo tempo que apertava a do
filho e juntava ambas, e perguntou:

- Somos amigos, no somos?

- Ser seu amigo, minha senhora,  pretenso que no tenho; mas
de qualquer forma sou um seu respeitoso servidor.

A condessa retirou-se com inexprimvel aperto no corao, e
antes de dar dez passos o conde viu-a levar o leno aos olhos.

- Acaso no esto de acordo, minha me e o senhor? - perguntou
Albert, surpreendido.

- Pelo contrrio - respondeu o conde. - Acaba de me dizer
diante do senhor que somos amigos.

Regressaram, ao salo que acabavam de deixar Valentine e o Sr.
e a Sr.a de Villefort.

Escusado ser dizer que Morrel sara atrs deles.

Captulo LXXII


A Sr.a de Saint-Mran


Uma cena lgubre acabava, com efeito, de se passar em casa do
Sr. de Villefort. Depois da sada das duas senhoras para o
baile, aonde todas as instancias da Sr.a de Villefort no
tinham conseguido resolver o marido a acompanh-las, o
procurador rgio metera-se, como era seu hbito, no seu
gabinete com uma pilha de processos que assustaria qualquer
outro, mas que nos seus bons tempos mal chegaria para
satisfazer o seu insacivel apetite de trabalhador.

Desta vez, porm, os processos no passavam de mero pr-forma.
Villefort no se isolava para trabalhar, mas sim para pensar.
Uma vez dada ordem para s o incomodarem em caso de
importncia e fechada a porta, sentou-se na sua poltrona e
ps-se a rever mentalmente mais uma vez o que havia sete a
oito dias fazia transbordar a taa dos seus desgostos e das
suas amargas recordaes.

Ento, em vez de "atacar" os processos empilhados diante de
si, abriu uma gaveta da secretria, fez funcionar um mecanismo
de segredo e tirou o mao dos seus apontamentos pessoais,
manuscritos preciosos, em que classificara e etiquetara. por
meio de cdigo s dele conhecido os nomes de todos aqueles que
na sua carreira poltica, nos seus negcios de dinheiro, na
sua aco judicial ou nos seus amores misteriosos se tinham
tornado seus inimigos.

Actualmente o nmero destes era to formidvel que comeara a
tremer. E no entanto todos esses nomes, por mais poderosos que
fossem, tinham-no feito muitas vezes sorrir, como sorri o
viajante que do ponto mais alto da montanha olha a seus ps os
picos agudos, os caminhos impraticveis e os bordos dos
precipcios junto dos quais teve, para chegar, de rastejar
durante tanto tempo e to penosamente.

Depois de repassar todos esses nomes na memria, de os reler,
de os estudar e de os confrontar com as suas listas, abanou a
cabea.

- No - murmurou --, nenhum destes inimigos esperaria paciente
e laboriosamente at hoje para me vir esmagar agora com aquele
segredo. s vezes, como diz Hamlet, a voz das coisas mais
profundamente enterradas sai da terra e, como as chamas do
fsforo, corre loucamente pelo ar. Trata-se porem de chamas
que brilham um momento para enganar. A histria ter sido
contada pelo  corso a algum padre, que por sua vez a ter
recontado, o Sr. de Monte-Cristo soube-a, e para se
esclarecer...

"Mas esclarecer-se com que fim? - prosseguia Villefort
passado um instante de reflexo. - Que interesse teria o Sr.
de Monte-Cristo ou o Sr. Zaccone, filho de um armador de
Malta, explorador de uma mina de prata na Tesslia, vindo pela
primeira vez a Frana, em esclarecer um caso sombrio,
misterioso e intil como aquele? No meio das informaes
incoerentes que me foram dadas pelo abade Busoni e por Lorde
Wilmore, por um amigo e por um inimigo, apenas uma coisa 
clara, precisa e patente a meus olhos: em tempo algum, em
qualquer caso, em nenhuma circunstncia pode ter havido o mais
pequeno contacto entre mim e ele.

Mas Villefort dizia a si prprio estas palavras sem ele mesmo
acreditar no que dizia. Para si, o mais terrvel no era ainda
a revelao, porque podia negar ou at desmentir. Pouco se
incomodava com o mane, thecel, phares que aparecia de sbito
na parede, em letras de sangue. O que lhe interessava era
saber a que corpo pertencia a mo que as traara.

No momento em que procurava tranquilizar-se a si mesmo e, em
vez do futuro poltico que nos seus sonhos ambiciosos
entrevira algumas vezes, se preparava para aceitar, no receio
de acordar aquele inimigo adormecido havia tanto tempo, um
futuro confinado s alegrias do lar, ouviu-se no ptio o rudo
de uma carruagem. Em seguida soaram na escada os passos de uma
pessoa idosa, acompanhados de soluos e ais, como costumam
fazer os criados quando querem mostrar que participam na dor
dos amos.

Apressou-se a correr o ferrolho do seu gabinete e pouco
depois, sem ser anunciada, entrou uma senhora de idade, de
xaile no brao e chapu na mo. Os cabelos brancos coroavam
uma testa mate como o marfim amarelecido e os seus olhos, nos
cantos dos quais a idade cavara rugas profundas, quase
desapareciam sob o inchao das lgrimas.

- Oh, senhor! Oh, senhor, que desgraa! Tambm vou morrer! Oh,
sim, tenho a certeza, tambm vou morrer! - exclamava.

E caindo na poltrona mais perto da porta, rompeu em soluos.

Os criados, de p no limiar e sem se atreverem a ir mais
longe, olhavam o velho servidor de Noirtier, que, tendo ouvido
aquele barulho no quarto do amo, acorrera tambm e se
conservava atrs dos outros. Villefort levantou-se e correu
para a sogra, pois era ela.

- Meu Deus, senhora, que aconteceu? Que a perturba assim? E o
Sr. de Saint-Mran no a acompanha? - perguntou.

- O Sr. de Saint-Mran morreu - respondeu a velha marquesa,
sem prembulo, sem expresso e com uma espcie de espanto.

Villefort recuou um passo e bateu com as mos uma na outra.

- Morto!... - balbuciou. - Morto, assim.. subitamente?

- H oito dias - continuou a Sr.a de Saint-Mran --,
metemo-nos na carruagem depois do jantar. O Sr. de
Saint-Mran havia uns dias que no se sentia bem; no entanto,
a ideia de tornar a ver a nossa querida Valentine encorajava-o
e, apesar dos seus sofrimentos, insistira em partir. Aconteceu
porm que a seis lguas de Marselha foi dominado, depois de
tomar as suas pastilhas habituais por um sono to profundo que
no me pareceu natural. Mesmo assim, hesitava em acord-lo
quando tive a impresso de que o rosto se
lhe purpureava e as veias das tmporas lhe latejavam mais
violentamente do que de costume. No entanto, como anoitecera e
no notei mais nada, deixei-o dormir. De repente, soltou um
grito abafado e dilacerante como o de um homem que sofre a
sonhar, e, num movimento brusco, inclinou a cabea para trs.
Chamei o criado de quarto, mandei parar o postilho e chamei o
Sr. de Saint-Mran, a quem dei a respirar o meu frasco de
sais, mas tudo acabara: estava morto e foi ao lado de um
cadver que cheguei a Aix.

Villefort permanecia estupefacto, de boca aberta.

- Claro que chamou o mdico?...

- Imediatamente. Mas, como j lhe disse, era demasiado tarde.

- Sem dvida. Mas conseguiu ao menos descobrir de que doena
morrera o pobre marqus?

- Meu Deus, senhor, claro que conseguiu! Ele disse-mo: parece
que foi uma apoplexia fulminante.

- E que fez ento a senhora?

- O Sr. de Saint-Mran sempre dissera que se morresse longe
de Paris queria que o seu corpo fosse sepultado no jazigo de
famlia Mandei-o meter num caixo de chumbo e precedo-o de
alguns dias.

- Oh, meu Deus, pobre me! - exclamou Villefort. - Tantas
canseiras depois de semelhante golpe e na sua idade!

- Deus deu-me foras at ao fim. De resto, o querido marqus
teria com certeza feito por mim o que fiz por ele.  certo que
desde que me separei dele parece-me que enlouqueci. No
consigo chorar. Verdade seja que se diz que na minha idade j
no h lgrimas; no entanto, parece-me que quando se sofre
tanto se deveria poder chorar. Onde est Valentine, senhor?
Foi por ela que viemos; quero ver Valentine.

Villefort pensou que seria horrvel responder que Valentine
estava num baile. Por isso, limitou-se a dizer  marquesa que
a neta sara com a madrasta, mas que ia mandar preveni-la.

- Imediatamente, senhor; imediatamente, suplico-lhe - pediu a
velha senhora.

Villefort tomou o brao da Sr.a de Saint-Mran e acompanhou-a
ao seu quarto.

- Descanse, minha me - recomendou.

Ao ouvir esta ltima palavra, a marquesa levantou a cabea, e
ao ver aquele homem, que lhe recordava a filha to chorada,
mas que ressuscitava para ela em Valentine, sentiu-se
comovida. Aquele nome de me f-la romper em lgrimas e cair
de joelhos junto de uma poltrona, onde escondeu a cabea
venervel.

Villefort recomendou-a aos cuidados das mulheres, enquanto o
velho Barrois subia muito transtornado ao quarto do amo.
Porque nada aterroriza tanto os velhos do que quando a morte
se afasta por instantes do seu lado para ir atingir outro
velho. Depois, enquanto a Sr.a de Saint-Mran, sempre
ajoelhada, rezava fervorosamente, Villefort mandou chamar uma
carruagem de praa e foi ele mesmo buscar a casa da Sr.a de
Morcerf a mulher e a filha. Estava to plido quando apareceu
 porta do salo que Valentine correu para ele gritando:

- Oh, meu pai, aconteceu alguma desgraa?!...

- A tua av acaba de chegar, Valentine - respondeu o Sr. de
Villefort.

- E o av? - perguntou a jovem, muito trmula.

O Sr. de Villefort no respondeu, limitou-se a oferecer o
brao  filha.

Era tempo: Valentine teve uma vertigem e cambaleou; a Sr.a de
Villefort apressou-se a ampar-la e a ajudar o marido a
lev-la para a carruagem, ao mesmo tempo que dizia:

- Que coisa estranha! Quem podia esperar semelhante desgraa?
Oh, no h dvida que  muito estranho!

E toda aquela famlia desolada se retirou assim, lanando a
sua tristeza, como um vu negro, sobre o resto da festa.
 chegada, Valentine encontrou Barrois  sua espera ao fundo
da escada.

- O Sr. Noirtier deseja v-la esta noite - disse-lhe ele
baixinho.

- Diga-lhe que irei quando sair do quarto da minha av -
respondeu Valentine.

Na delicadeza da sua alma, a jovem compreendera que quem mais
necessitava dela naquele momento era a Sr.a de Saint-Mran.

Valentine encontrou a av na cama. Carcias mudas, dolorosas
expanses do corao, suspiros entrecortados, lgrimas
escaldantes, eis os nicos pormenores reproduzveis daquele
encontro a que assistiu, pelo brao do marido, a Sr.a de
Villefort, cheia de respeito, pelo menos aparente, para com a
pobre viva.

Passado um instante, inclinou-se ao ouvido do marido e
disse-lhe:

- Com sua licena, acho melhor retirar-me, pois a minha
presena parece afligir ainda mais a sua sogra.

A Sr.a de Saint-Mran ouviu-a e disse ao ouvido de Valentine:

- Sim, sim, que se v embora. Mas tu fica, tu fica.

A Sr.a de Villefort saiu e Valentine ficou sozinha junto do
leito da av, porque o procurador rgio, consternado com
aquela morte imprevista, seguira a mulher.

Entretanto, Barrois subira pela primeira vez para junto do
velho Noirtier, mas este, que ouvira todo o barulho que se
fazia na casa, mandara, como dissemos o velho criado
informar-se do que se passava.

No regresso, aqueles olhos to vivos, e sobretudo to
inteligentes, interrogaram o mensageiro.

- Valha-nos Deus, senhor! - disse Barrois. - Aconteceu uma
grande desgraa: a Sr.a de Saint-Mran. est c e o marido
morreu.

O Sr. de Saint-Mran e Noirtier nunca tinham estado ligados
por uma amizade muito profunda, no entanto, sabe-se o efeito
que produz sempre num velho o anncio da morte doutro velho.

Noirtier deixou cair a cabea para o peito, como um homem
acabrunhado ou como um homem que pensa, e depois fechou um s
olho.

- Mademoiselle Valentine? - perguntou Barrois.

Noirtier fez sinal que sim.

- Est no baile, como o senhor muito bem sabe, pois veio c
despedir-se em traje de cerimnia.

Noirtier voltou a fechar o olho esquerdo.

- Sim, quer v-la?

O velho fez sinal de que era isso que desejava.

- Decerto vo mandar busc-la a casa da Sr.a de Morcerf.
Esper-la-ei no seu regresso e pedir-lhe-ei que suba ao quarto
do senhor.  isto?

-  - respondeu o paraltico.

Barrois esperou portanto o regresso de Valentine e, como
vimos, exps-lhe o desejo do av.

Em consequncia desse desejo, Valentine subiu ao quarto de
Noirtier quando saiu do da Sr.a de Saint-Mran, a qual,
apesar de muito agitada, acabara por sucumbir  fadiga e
dormia um sono febril.

Tinham-lhe posto ao alcance da mo uma mesinha com uma garrafa
de laranjada, sua bebida habitual, e um copo.

Como dissemos, a jovem deixou a marquesa para subir ao quarto
de Noirtier.

Valentine beijou o velho, que a olhou to ternamente que a
jovem sentiu brotarem-lhe de novo dos olhos lgrimas cuja
fonte julgava esgotada.

O velho insistia com o olhar.

- Sim, sim, queres dizer que continuo a ter um av, no ? -
traduziu Valentine.

O velho fez sinal de que efectivamente era isso que o seu
olhar queria dizer. - De contrrio, que seria de mim, meu
Deus?

Era uma hora da madrugada. Barrois, que tambm tinha vontade
de se deitar observou que depois de uma noite to dolorosa
toda a gente precisava de repouso. O velho no quis dizer que
para si o repouso era ver a neta e mandou embora Valentine, a
quem efectivamente a dor e a fadiga davam um ar abatido.

No dia seguinte, quando entrou no quarto da av, Valentine
encontrou-a na cama. A febre no descera; pelo contrrio, um
fogo sombrio brilhava nos olhos da velha marquesa, que parecia
dominada por violenta irritao nervosa.

- Oh, meu Deus, est pior avozinha?! - exclamou Valentine ao
ver todos aqueles sintomas de agitao.

- No, minha filha, no - respondeu a Sr.a de Saint-Mran. -
Mas esperava com impacincia que chegasses para mandar chamar
o teu pai.

- O meu pai? - perguntou Valentine, inquieta.

- Sim, quero falar com ele.

Valentine no ousou opor-se ao desejo da av, cuja finalidade
ignorava, alis, e pouco depois Villefort entrou.

- Senhor - disse a Sr.a de Saint-Mran sem empregar qualquer
circunlquio, como se receasse que o tempo lhe faltasse --,
vamos ao assunto: no me escreveu acerca do casamento desta
criana?

- Escrevi, sim, minha senhora - respondeu Villefort. -
Trata-se at de mais do que de um projecto, trata-se de uma
conveno.

- O seu futuro genro chama-se Franz de Epinay?

- Chama, sim, minha senhora.

- E  filho do general de Epinay, que era dos nossos e foi
assassinado poucos dias antes de o usurpador regressar da ilha
de Elba?

- Exactamente.

- Essa aliana com a neta de um jacobino no lhe repugna?

- As nossas dissenses sociais acabaram-se, felizmente, minha
me - redarguiu Villefort. O Sr. de Epinay era quase uma
criana quando o pai morreu; conhecia muito mal o Sr. Noirtier
e v-lo-, seno com prazer, pelo menos com indiferena.

-  um partido vantajoso?

- Sob todos os aspectos.

- O rapaz...

- Goza da considerao geral.

- E  decente?

-  um dos homens mais distintos que conheo.

Valentine permaneceu calada durante toda esta conversa.

- Pois bem, senhor - disse a Sr.a de Saint-Mran. aps alguns
segundos de reflexo --,  melhor despachar-se porque me resta
pouco tempo de vida.

- A senhora?! A avozinha ?! - exclamaram o Sr. de Villefort e
Valentine.

- Sei o que digo - prosseguiu a marquesa. - Portanto,
despachem-se, para que, j que no tem me, ela tenha ao menos
a av para lhe abenoar o casamento. Sou a nica pessoa que
lhe resta do lado da minha pobre Rene, que o senhor esqueceu
to depressa...

- Minha senhora, esquece-se de que era preciso dar uma me a
esta pobre criana, que j a no tinha! - protestou Villefort.

- Uma madrasta nunca  uma me, senhor! Mas no  disso que se
trata agora, trata-se de Valentine. Deixemos os mortos
sossegados.

Tudo isto era dito com tal volubilidade e tal tom que havia
qualquer coisa neste dilogo que se assemelhava a um princpio
de delrio.

- Ser feita a sua vontade, minha senhora - disse Villefort
--, e com tanto mais prazer quanto  certo a sua vontade estar
de acordo com a minha. Assim que o Sr. de Epinay chegar a
Paris...

- Minha boa avozinha - interveio Valentine --, as
convenincias, o luto to recente... Desejaria fazer um
casamento sob to tristes auspcios?

- Minha filha - interrompeu-a vivamente a av --, deixemo-nos
dessas razes vulgares que impedem os espritos fracos de
construir solidamente o futuro. Tambm casei no leito de morte
da minha me e no fui decerto infeliz por isso.

- Outra vez essa ideia de morte, senhora! - ralhou Villefort.

- Outra vez! Sempre!... Repito-lhe que vou morrer, ouviu?
Pois antes de morrer quero ver o seu futuro genro; quero
ordenar-lhe que faa a minha neta feliz; quero ler-lhe nos
olhos se tenciona obedecer-me; quero conhec-lo, enfim! -
exclamou a av com uma expresso aterradora. - E isto para o
vir procurar do fundo da minha sepultura se no se portar como
deve ser, se no for como tem de ser!

- Minha senhora - redarguiu Villefort --, deve afastar de si
essas ideias exaltadas, que raiam quase a loucura. Os mortos,
uma vez deitados no seu tmulo, a dormem eternamente.

- Sim, sim, minha boa avozinha, sossega! - secundou-o
Valentine.

- E eu, senhor, digo-lhe que as coisas no se passam nada
assim, como julga. Esta noite dormi um sono terrvel; de certo
modo, via-me a mim prpria a dormir, como se a minha alma j
pairasse sobre o meu corpo. Os meus olhos, que me esforava
por abrir, fechavam-se, mal-grado meu. E no entanto sei muito
bem que isto lhes parece impossvel, sobretudo ao senhor...
Pois bem, de olhos fechados vi, exactamente no stio onde o
senhor est, vinda desse canto onde h uma porta que d para o
quarto de vestir da Sr.a de Villefort, vi entrar sem rudo uma
forma branca...

Valentine soltou um grito.

- Era a febre que a agitava, minha senhora - disse Villefort.

- Duvide se quiser, mas tenho a certeza do que digo: vi uma
forma branca. E como se Deus receasse que recusasse o
testemunho de um s dos meus  sentidos, ouvi mexer no meu
copo... olhe, olhe, neste mesmo que est aqui, em cima da
mesa!

- Oh, avozinha, era um sonho!...

- Era to pouco um sonho que estendi a mo para a campainha e,
quando fiz este gesto, a sombra desapareceu. A criada de
quarto entrou ento com uma luz. Os fantasmas s se mostram
queles que os devem ver: era a alma do meu marido. Pois bem,
se a alma do meu marido volta para me chamar, porque no h-de
a minha alma voltar para defender a minha neta? O parentesco 
ainda mais directo, parece-me.

- Ento, minha senhora, no d largas a essas ideias lgubres
- aconselhou Villefort, agitado, a seu pesar, at ao mais
ntimo de si mesmo. - Viver connosco, viver durante muito
tempo feliz, amada, respeitada, e f-la-emos esquecer...

- Nunca, nunca, nunca! - ripostou a marquesa. - Quando
regressa o Sr. de Epinay?

- Esperamo-lo de um momento para o outro.

- Est bem. Assim que ele chegar, avisem-me.
Despachemo-nos, despachemo-nos! Depois, quero tambm falar com
um notrio, para me assegurar de que todos os nossos bens
revertem a favor de Valentine.

- Ento, av, quer que eu morra tambm? - murmurou Valentine,
pousando os lbios na testa escaldante da marquesa. - Meu
Deus, est com febre! No  um notrio que se deve mandar
chamar,  um mdico!

- Um mdico? - repetiu a doente, encolhendo os ombros. - No
me di nada: s tenho sede.

- Que quer beber, avozinha?

- Como sempre, bem sabes, a minha laranjada. O copo est em
cima da mesa. D-mo, Valentine.

Valentine deitou a laranjada da garrafa no copo e pegou-lhe
com certo terror para o dar  avo, visto ser o mesmo copo que,
segundo ela, fora tocado pela sombra.

A marquesa despejou o copo de um s golo.

Depois, virou-se na almofada e insistiu:

- O notrio, o notrio!...

O Sr. de Villefort saiu. Valentine sentou-se ao p da cama da
av. A pobre criana parecia ela prpria muito necessitada do
mdico que recomendara  av. Um rubor idntico a uma chama
queimava-lhe as faces, tinha a respirao opressa e arquejante
e o pulso batia-lhe como se tivesse febre.

 que ela pensava, a pobre criana, no desespero de Maximilien
quando soubesse que a Sr.a de Saint-Mran, em vez de ser uma
aliada, procedia, sem o saber, como se fosse uma inimiga.

Por mais de uma vez Valentine pensara em dizer tudo  av, e
no teria hesitado um s instante se Maximilien Morrel se
chamasse Albert de Morcerf ou Raoul de Chteau-Renaud. Mas
Morrel era de origem plebeia e Valentine sabia o desprezo que
a orgulhosa marquesa de Saint-Mran nutria por todos aqueles
que no fossem da sua linhagem O seu segredo fora portanto, em
todos os momentos em que estivera prestes a ser revelado,
contido no seu corao pela triste certeza de que o confiaria
inutilmente e de que, uma vez esse segredo conhecido do pai e
da madrasta, tudo estaria perdido.

Passaram-se assim cerca de duas horas. A Sr.a de Saint-Mran
dormia um sono febril e agitado. Anunciaram o notrio.

Embora o anncio tivesse sido feito muito baixo, a Sr.a de
Saint-Mran soergueu-se na almofada.

- O notrio?... Que venha, que venha! - ordenou.

O notrio estava  porta e entrou.

- Sai, Valentine, deixa-me sozinha com este senhor - disse a
Sr.a de Saint-Mran.

- Mas, av...

- Vai, vai.

A jovem inclinou a cabea diante da av e saiu com o leno nos
olhos.

Encontrou  porta um criado que lhe disse que o mdico
esperava na sala.

Valentine desceu rapidamente. o mdico era um amigo da famlia
e ao mesmo tempo um dos homens mais competentes da poca.
Gostava muito de Valentine, que vira nascer. Tinha uma filha
pouco mais ou menos da idade de Mademoiselle de Villefort, mas
nascida de me tuberculosa.
O mdico vivia pois num temor permanente em relao  filha.

- Oh, meu caro Sr. de Avrigny, no imagina com que impacincia
o espervamos! - exclamou Valentine. - Mas antes de mais nada
como esto Madeleine e Antoinette?

Madeleine era a filha do Sr. de Avrigny e Antoinette, sua
sobrinha.

O S r. de Avrigny sorriu tristemente.

- Antoinette est ptima e Madeleine assim-assim -  respondeu.
- Mandou-me chamar, querida filha? Mas nem o seu pai nem a
Sr.a de Villefort esto doentes... Quanto a ns, embora seja
visvel que no conseguimos livrar-nos dos nossos nervos, no
vejo que tenha necessidade de mim, a no ser para lhe
recomendar que no d demasiadas largas  sua imaginao...

Valentine corou. O Sr. de Avrigny possua a cincia da
adivinhao quase at ao prodgio, pois era um desses mdicos
que tratam sempre o fsico atravs do moral.

- No  para mim,  para a minha pobre av - esclareceu a
jovem. - J sabe a desgraa que nos aconteceu, no sabe?

- No sei nada - respondeu o Sr. de Avrigny.

- O meu av morreu - informou Valentine, contendo os soluos.

- O Sr. de Saint-Mran?

- Sim.

- Subitamente?

- De um ataque de apoplexia fulminante.

- De uma apoplexia? - repetiu o mdico.

- Sim. De forma que a minha pobre av se aferrou  ideia de
que o marido, de quem nunca se separou, a chama e de que se
lhe deve ir juntar... Oh, Sr. de Avrigny, recomendo-lhe muito
a minha pobre av!

- Onde est ela?

- No seu quarto com o notrio.

- E o Sr. Noirtier?

- Sempre na mesma: uma lucidez de esprito perfeita, mas a
mesma imobilidade, o mesmo mutismo.

- E o mesmo amor por si, no  verdade, minha querida filha?


-  - respondeu Valentine, suspirando. - Ama-me de facto
muito.

- Quem a no amaria?

Valentine sorriu tristemente.

- E que sente a sua av?

- Uma excitao nervosa singular, um sono agitado e estranho.
Esta manh pretendia que enquanto dormia a alma lhe pairava
por cima do corpo, que via a dormir. Delrio, claro. Afirma
ter visto um fantasma entrar-lhe no quarto e ter ouvido o
barulho que fazia o pretenso fantasma a mexer-lhe no copo.

-  singular, no sabia que a Sr.a de Saint-Mran, fosse
sujeita a alucinaes... - disse o mdico.

- Foi a primeira vez que a vi assim - respondeu Valentine e
esta manh at me assustou muito; julguei que tivesse
enlouquecido. No entanto, mesmo o meu pai, Sr. de Avrigny (o
meu pai, que o senhor conhece bem como um esprito ponderado),
at o meu prprio pai me pareceu impressionadssimo.

- Havemos de ver isso - declarou o Sr. Avrigny. - O que me diz
parece-me estranho...

O notrio descia. Vieram prevenir Valentine de que a av
estava sozinha.

- Suba - disse ela ao mdico.

- E a menina?

- Oh, eu no me atrevo! Ela tinha-me proibido de o mandar
chamar... Depois como o senhor diz, eu prpria estou agitada,
febril, mal disposta... Vou dar uma volta pelo jardim para me
recompor.

O mdico apertou a mo a Valentine e enquanto ele subia ao
quarto da marquesa, a jovem descia a escadaria da entrada.

Escusamos de indicar que parte do jardim constitua o passeio
favorito de Valentine. Depois de dar duas ou trs voltas na
parte que rodeava a casa e de colher uma rosa para pr na
cintura ou no cabelo, embrenhava-se na alameda sombria que
levava ao banco e do banco ao porto.

Desta vez, como de resto era seu hbito, Valentine deu duas ou
trs voltas no meio das suas flores, mas sem colher nenhuma. O
luto do seu corao, que ainda no tivera tempo de se estender
 sua pessoa, repudiava aquele simples ornamento. Depois
dirigiu-se para a sua alameda.  medida que avanava
parecia-lhe ouvir uma voz pronunciar o seu nome. Parou
surpreendida.

Ento, a voz chegou-lhe mais distinta aos ouvidos e reconheceu
a voz de Maximilien.


Captulo LXXIII


A promessa


Era efectivamente Morrel, que desde a vspera no sossegava.
Com o instinto peculiar aos apaixonados e s mes, adivinhara
que depois do regresso da Sr.a de Saint-Mran e da morte do
marqus se passaria qualquer coisa
em casa de Villefort que interessaria ao seu amor por
Valentine.

Como vamos ver, os seus pressentimentos tinham-se concretizado
e j no era uma simples inquietao que o trazia,
sobressaltado e trmulo, ao porto dos castanheiros.
Mas Valentine no estava prevenida de que Morrel a esperava,
pois habitualmente ele no vinha quela hora, e foi por mero
acaso ou, se se preferir, por feliz coincidncia que a jovem
desceu ao jardim. Quando apareceu, Morrel chamou-a e ela
correu para o porto.

- O senhor a esta hora? - admirou-se.

- Sim, pobre amiga - respondeu Morrel. - Venho buscar e trazer
ms notcias.

- Nesse caso, estamos na casa da desgraa - observou
Valentine. - Fale, Maximilien. Mas na verdade a soma de
sofrimentos  j mais do que suficiente.

- Querida Valentine - comeou Morrel, procurando conter a sua
prpria emoo para falar convenientemente --, oua-me com
ateno, suplico-lhe, porque tudo o que lhe vou dizer 
solene. Quando conta casar?

- Escute - disse por sua vez Valentine. - No quero
esconder-lhe nada, Maximilien. Esta manh falou-se do meu
casamento, e a minha av, com quem contava como um apoio que
me no faltaria, no s se declarou a favor do casamento, como
ainda o deseja a tal ponto que s o facto de o Sr. de Epinay
estar ausente o atrasa. Mas no dia seguinte ao da sua chegada
o contrato ser assinado.

Um doloroso suspiro saiu do peito do rapaz, que olhou longa e
tristemente a jovem.

- Meu Deus - redarguiu em voz baixa --,  horrvel ouvir dizer
tranquilamente  mulher que se ama: "O momento do seu suplcio
est marcado; ter lugar dentro de poucas horas. Mas no
importa, tem de ser assim e pela minha parte no lhe
levantarei nenhuma oposio." Pois bem, uma vez que, segundo
diz, s se espera a chegada do Sr. de Epinay para assinar o
contrato e a Valentine ser dele no dia seguinte ao da
chegada, ser j amanh que pertencer ao Sr. de Epinay, pois
ele chegou a Paris esta manh.

Valentine soltou um grito.

- Encontrava-me em casa de Monte-Cristo h uma hora - disse
Morrel. - Conversvamos, ele a respeito do luto desta casa e
eu acerca do luto de Valentine, quando de sbito rodou uma
carruagem no ptio. Oua: at ali no acreditava em
pressentimentos, Valentine; mas agora sou forado a acreditar.
O rudo daquela carruagem arrepiou-me; pouco depois ouvi
passos na escada. Os passos sonoros do comendador no
apavoraram mais D. Joo do que me apavoraram aqueles passos.
Por fim, a porta abriu-se. Albert de Morcerf entrou  frente e
eu ia a duvidar de mim mesmo, ia crer que me enganara, quando
atrs dele apareceu outro rapaz e o conde gritou: "Ah, o Sr.
Baro Franz de Epinay!" Para me conter, apelei para tudo o que
possuo de energia e coragem no corao. Talvez tenha
empalidecido, talvez tenha tremido; mas sem dvida nenhuma
fiquei de sorriso nos lbios. No entanto, passados cinco
minutos sai sem ter ouvido uma palavra do que se disse durante
esses cinco minutos. Estava aniquilado.

- Pobre Maximilien! - murmurou Valentine.

- Aqui tem, Valentine. Agora responda-me como a um homem a
quem a sua resposta dar a morte ou a vida: que conta fazer?

Valentine baixou a cabea; estava acabrunhada.

- Oua - disse Morrel --, no  a primeira vez que pensa na
situao em que nos encontramos.  uma situao grave, penosa,
suprema. No creio que seja este o momento para nos
entregarmos a uma dor estril; isso  bom para aqueles que
sentem prazer em sofrer e beber as suas lgrimas
resignadamente. H pessoas assim e Deus ter-lhes- sem dvida
em conta no Cu a sua resignao na terra. Mas todo aquele que
sinta vontade de lutar no perde um tempo precioso e retribui
imediatamente ao destino o golpe que dele recebeu. Est
disposta a lutar contra a adversidade, Valentine? Responda,
pois  isso que lhe venho pedir.

Valentine estremeceu e cravou em Morrel uns grandes olhos
assustados. A ideia de resistir ao pai,  av, a toda a
famlia, enfim, nem sequer lhe ocorrera.

- Que me diz, Maximilien? - perguntou Valentine. - A que chama
luta? Oh, isso  um sacrilgio! O qu, eu lutar contra a ordem
de meu pai, contra a vontade de minha av moribunda?! 
impossvel!

Morrel fez um movimento.

- O senhor  um corao demasiado nobre para me no
compreender, e compreende-me muito bem, querido Maximilien,
pois vejo-o calado. Lutar, eu? Deus me livre! No, no. Guardo
toda a minha energia para lutar contra mim mesma e beber as
minhas lgrimas, como o senhor diz. Quanto a afligir meu pai,
quanto a perturbar os ltimos momentos da minha av, nunca!

- Tem toda a razo - respondeu fleumaticamente Morrel.

-- Como o senhor me diz isso, meu Deus! - exclamou Valentine,
magoada.

- Digo-lhe isto como um homem que a admira, menina -
acrescentou Maximilien.

- Menina! - exclamou Valentine. - Menina! Oh, o egosta, no
v o meu desespero e finge no me compreender!

- Engana-se. Pelo contrrio, compreendo-a perfeitamente. No
quer contrariar o Sr. de Villefort nem quer desobedecer 
marquesa e amanh assinar o contrato que a ligar ao seu
marido.

- Mas, meu Deus, posso porventura fazer outra coisa?

- No apele para mim, menina, pois sou um mau juiz nessa causa
e o meu egosmo cegar-me- - respondeu Morrel, cuja voz
abafada e os punhos cerrados denotavam exasperao crescente.

- Que me proporia, Morrel, se me encontrasse disposta a
aceitar a sua proposta? Vamos, responda. No basta dizer que
fao mal,  preciso dar um conselho.

- Diz-me isso seriamente, Valentine? Quer de facto que a
aconselhe? Responda.

- Decerto, querido Maximilien, porque se o conselho for bom,
segui-lo-ei. Bem sabe que tenho em alta conta a sua opinio.

- Valentine - disse Morrel, acabando de afastar uma tbua j
solta --, d-me a sua mo como prova de que me perdoa a minha
irritao. Como v, estou com a cabea num caos e h uma hora
que as ideias mais disparatadas me atravessam o esprito. Oh,
no caso de recusar o meu conselho!...

- Venha esse conselho.

- Aqui o tem, Valentine.

A jovem ergueu os olhos ao cu e soltou um suspiro.

- Sou livre - prosseguiu Maximilien - e suficientemente rico
para ns dois. Juro-lhe que ser minha mulher antes de os meus
lbios lhe pousarem na testa.

- O senhor assusta-me - disse a jovem.

- Venha comigo - continuou Morrel. - Lev-la-ei para casa da
minha irm, que  digna de ser sua irm.
Embarcaremos para Argel, para Inglaterra ou para a Amrica, se
no preferir que nos retiremos para qualquer provncia e a
esperaremos, para regressar a Paris, que os nossos amigos
venam a resistncia da sua famlia.

Valentine abanou a cabea.

- J o esperava, Maximilien - disse. -  um conselho de
insensato e eu seria ainda mais insensata do que o senhor se o
no detivesse imediatamente com esta simples palavra:
impossvel, Morrel, impossvel.

- Seguir portanto o seu destino tal como o acaso lho traar
e sem sequer tentar combat-lo? - perguntou Morrel,
contristado.

- Seguirei. Nem que tenha de morrer por isso!

- Est bem, Valentine - admitiu Maximilien. - Repito-lhe mais
uma vez que tem razo. De tacto, eu  que sou um louco,
enquanto a Valentine me prova que a paixo cega os espritos
mais justos. Obrigado, portanto, a si que raciocina sem
paixo. Pronto, o caso est arrumado: amanh ser
irrevogavelmente prometida ao Sr. Franz de Epinay, no por via
dessa formalidade teatral inventada para desenlace das
comdias, e que se chama a assinatura do contrato, mas sim por
sua prpria vontade.

- Mais uma vez me desespera, Maximilien! - redarguiu
Valentine. - Mais uma vez revolve o punhal na chaga? Diga-me,
que faria se a sua irm escutasse um conselho como o que acaba
de me dar?

- Menina  - respondeu Morrel, com um sorriso amargo. --Sou um
egosta, como disse, e na minha qualidade de egosta no penso
no que fariam os outros na minha posio, mas sim no que conto
fazer eu. Penso que a conheo h um ano e que, desde o dia em
que a conheci, depositei todas as minhas oportunidades de
felicidade no seu amor; que chegou um dia em que me disse que
me amava; que nesse dia colocaria todas as minhas esperanas
de futuro na sua posse. Era a minha vida. Agora no penso em
mais nada; digo apenas para comigo que a sorte mudou, que
esperava ganhar o Cu e o perdi. Isto acontece todos os dias,
quando um jogador perde no s o que tem, mas tambm o que no
tem.

Morrel pronunciou estas palavras com uma calma perfeita.
Valentine fitou-o um instante com os seus grandes olhos
perscrutadores, procurando no deixar que os de Morrel
penetrassem at  agitao que lhe turbilhonava j no fundo do
corao.

-- Mas enfim, que vai fazer? - perguntou Valentine.

- Vou ter a honra de lhe dizer adeus, menina, tomando como
testemunha Deus, que escuta as minhas palavras e l no fundo
do meu corao, de que lhe desejo uma vida bastante calma,
bastante feliz e bastante cheia para que nela no haja lugar
para a minha recordao.

- Oh! - murmurou Valentine.

- Adeus, Valentine, adeus! - disse Morrel, inclinando-se.

- Aonde vai? - gritou ela, estendendo a mo atravs das grades
e agarrando Maximilien pela sobrecasaca, pois compreendia pela
sua agitao interior que a calma do seu apaixonado no podia
ser verdadeira. - Aonde vai?

- Vou providenciar para no trazer nova perturbao  sua
famlia e dar um exemplo que podero seguir todos os homens
honestos e dedicados que se encontrarem na minha situao.

- Antes de me deixar, diga-me o que vai fazer, Maximilien.

O jovem sorriu tristemente.

- Oh, fale, fale, suplico-lhe! - pediu Valentine.

- A sua resoluo mudou, Valentine?

- No pode mudar, infeliz! Sabe isso muito bem! - gritou a
jovem.

- Ento, adeus, Valentine!

Valentine abanou o porto com uma fora de que ningum a
julgaria capaz. E como Morrel se afastasse, passou as mos
atravs das grades e juntou-as, torcendo os braos.

- Que vai fazer? Quero saber! - gritou. - Aonde vai?

- Oh, esteja tranquila! - respondeu Maximilien, parando a trs
passos do porto. - No tenho inteno de tomar outro homem
responsvel pelos rigores que o destino me reserva. Outro
amea-la-ia, de ir procurar o Sr. Franz, de o provocar e de
se bater com ele, mas tudo isso seria insensato. Qual  o
papel do Sr. Franz no meio de tudo isto? Viu-me esta manh
pela primeira vez e j esqueceu que me viu. Nem sequer sabia
da minha existncia aquando das convenes estabelecidas entre
as suas duas famlias, em que ficou decidido que seriam um
para o outro. No tenho portanto nada a ver com o Sr. Franz e
juro-lhe que o no irei desafiar nem acusar de nada.

- Em quem se vingar ento? Em mim?

- Em si, Valentine? Oh, no, Deus me defenda! A mulher 
sagrada, e a mulher que se ama  santa.

- Em si mesmo, ento, desgraado, em si mesmo?

- No sou eu o culpado? - observou Morrel.

- Maximilien - disse Valentine --, Maximilien, venha c,
ordeno-lho!

Maximilien aproximou-se com o seu sorriso meigo, e se no
fosse a sua palidez, poder-se-ia julg-lo no seu estado
normal.

- Oua, minha querida, minha adorada Valentine - disse na sua
voz melodiosa e grave --, as pessoas como ns, que nunca
tiveram um pensamento de que tivessem de corar diante de
ningum, perante os seus pais e perante Deus, as pessoas como
ns podem ler no corao um do outro como num livro aberto.
Nunca armei em romntico, no sou um heri melanclico, nem
tomo atitudes de Manfredo nem de Antony. Mas sem palavras, sem
protestos, sem juramentos, dei-lhe a minha vida. Falta-me e
tem motivo para proceder assim, j lho disse e repito-lho. Mas
enfim, perco-a e a minha vida est perdida. A partir do
momento em que se afastar de mim, Valentine, ficarei sozinho
no mundo. A minha irm  feliz com o marido, um marido que
para mim no passa de um cunhado, isto , de um homem ligado a
mim apenas pelas convenes sociais. Ningum necessita
portanto de mim neste mundo, a minha existncia  intil. Eis
o que farei: esperarei at ao ltimo segundo que esteja
casada, pois no quero perder a sombra de uma dessas
probabilidades inesperadas que s vezes nos reserva o acaso,
porque, enfim, daqui at l o Sr. Franz de Epinay pode morrer,
no momento em que se  aproximarem um raio pode cair sobre o
altar... Tudo parece crvel ao condenado  morte e para ele os
milagres entram na classe do possvel desde que se trate da
salvao da sua vida. Esperarei pois, repito, at ao
derradeiro momento, e quando a minha infelicidade for certa,
irremedivel, sem esperana, escreverei uma carta confidencial
ao meu cunhado e outra ao prefeito da Polcia para o pr ao
corrente das minhas intenes, e num recanto de qualquer
bosque,  beira de qualquer fosso, na margem de qualquer rio,
farei saltar os miolos, to certo como eu ser filho do homem
mais honesto que alguma vez viveu em Frana.

Um tremor convulso agitou os membros de Valentine. Largou o
porto, que segurava com ambas as mos, os braos caram-lhe
ao longo do corpo e duas grossas lgrimas rolaram-lhe pelas
faces.

O rapaz ficou diante dela, sombrio e resoluto.

- Oh, por piedade, por piedade! - exclamou Valentine. -
Viver, no  verdade?

- Palavra de honra que no - respondeu Maximilien. -  Mas que
lhe interessa isso? Cumprir o seu dever e ficar com a
conscincia tranquila.

Valentine caiu de joelhos e comprimiu o corao, que parecia
querer rebentar-lhe.

- Maximilien - disse --, Maximilien, meu amigo, meu irmo na
Terra, meu verdadeiro esposo no Cu, suplico-te que faas,
como eu, que vivas com o sofrimento. Talvez um dia nos
juntemos...

- Adeus, Valentine! - repetiu Morrel.

- Meu Deus - disse Valentine, erguendo as mos ao cu com uma
expresso sublime --, bem vs que fiz tudo o que podia para me
conservar filha submissa: pedi, supliquei, implorei, mas ele
no ouviu nem os meus pedidos, nem as minhas splicas, nem as
minhas lgrimas. Pois bem -  continuou, enxugando as lgrimas
e recuperando a sua firmeza --, no quero morrer de remorsos,
prefiro morrer de vergonha. Viver, Maximilien, e no serei de
ningum a no ser de si. A que horas? Em que momento?
Imediatamente? Fale, ordene, estou pronta.

Morrel, que dera de novo alguns passos para se afastar, voltou
para trs e, plido de alegria, com o corao dilatado,
estendeu atravs das grades as mos a Valentine.

- Valentine - disse --, querida amiga, no me fale assim ou
ento terei de me deixar morrer. Por que motivo a deveria 
violncia, se me ama como a amo? Quer obrigar-me a viver
apenas por humanidade? Nesse caso, prefiro morrer.

- Na verdade - murmurou Valentine --, quem  que me ama no
mundo? Ele. Quem me tem confortado em todos os meus
sofrimentos? Ele. Em quem deposito as minhas esperanas, em
quem se fixa o meu olhar transviado, em que descansa o meu
corao ensanguentado? Nele, nele, sempre nele. Pois bem, tens
tambm razo, Maximilien: seguir-te-ei, deixarei a casa
paterna, tudo. Oh, como sou ingrata! -  exclamou Valentine,
soluando. - Tudo... At do meu av me esquecia!

- No - atalhou Maximilien --, no o deixars. Disseste-me que
o Sr. Noirtier pareceu manifestar simpatia por mim. Pois antes
de fugires contar-lhe-s tudo, fars do seu consentimento um
escudo perante Deus. Depois, assim que casarmos, ir viver
connosco. Em vez de um neto ter dois. Disseste-me como te
falava e como lhe respondias, depressa aprenderei essa
linguagem  comovente de sinais, Valentine. Oh, juro-te que
em vez do desespero que nos espera  a felicidade que te
prometo!

- Repara, Maximilien, repara como  grande a tua influncia
sobre mim... Quase me fazes acreditar no que me dizes, e no
entanto o que me dizes  insensato, pois o meu pai
amaldioar-me-. Conheo-lhe o corao inflexvel e sei que
nunca me perdoar. Por isso, escuta-me, Maximilien: se por
artifcio, por splica ou por acidente, sei l... Se, enfim,
por qualquer meio conseguir adiar o casamento, esperars por
mim?

- Esperarei, juro-o, desde que me jures tambm que esse
horrvel casamento se no realizar e que, ainda que te
arrastem perante o magistrado, perante o padre, dirs no.

- Juro-te, Maximilien, pelo que tenho de mais sagrado no
mundo, pela memria da minha me!

- Esperemos ento - disse Morrel.

- Sim, esperemos - repetiu Valentine, que respirou ao ouvir
esta palavra. - H tantas coisas que podem salvar infelizes
como ns.

- Confio em ti, Valentine - acrescentou Morrel. - Tudo o que
fizeres estar bem feito. No entanto, se no fizerem caso das
tuas splicas, se o teu pai e a Sr.a de Saint-Mran exigirem
que o Sr. Franz de Epinay seja chamado amanh para assinar o
contrato...

- Nesse caso, tens a minha palavra, Morrel.

- Em vez de assinares...

- Virei ter contigo e fugiremos. Mas entretanto no tentemos
Deus, Morrel; no nos vejamos. E um milagre que ainda no nos
tenham surpreendido, uma graa da Providncia. Se nos
surpreendessem, se soubessem como nos encontramos, estaria
tudo perdido.

- Tens razo, Valentine. Mas como saber...

- Pelo notrio, o Sr. Deschamps.

- Conheo-o.

- E por mim mesma. Escrever-te-ei, acredita. Meu Deus, este
casamento Maximilien, -me to odioso como a ti!

- Ainda bem, ainda bem! Obrigado, minha Valentine. Adorada -
disse Morrel. - Est tudo combinado, ento: assim que souber a
hora, correrei para aqui, transpors este muro nos meus
braos, o que no ser difcil, uma carruagem esperar-te- 
porta da cerca, subirs para ela comigo e levar-te-ei para
casa da minha irm. L, incgnitos, se quiseres, ou
abertamente, se o desejares, teremos a conscincia da nossa
fora e da nossa vontade e no nos deixaremos degolar como o
cordeiro que s se defende com os seus balidos.

- Seja - concordou Valentine. - Por minha vez, digo-te:
Maximilien, o que fizeres estar bem feito.

- Oh!...

- Ento, ests contente com a tua mulher? - perguntou
tristemente a jovem.

- Minha Valentine adorada,  bem pouco dizer que sim.

- Diz sempre.

Valentine aproximara-se, ou antes, aproximara os lbios da
grade, e as suas palavras deslizavam, com o seu hlito
perfumado, at aos lbios de Morrel, que colava a boca do
outro lado do frio e inexorvel tapume.

- Adeus! - despediu-se Valentine, arrancando-se quele enleio.
- Adeus! - Escrever-me-s?

- Sim.

- Obrigado, querida mulher! Adeus.

Ouviu-se o rudo de um beijo inocente e perdido e Valentine
fugiu por baixo das tlias.

Morrel escutou os ltimos rudos do seu vestido ao roar na
vegetao e dos seus ps a fazerem ranger o saibro, ergueu os
olhos ao cu com um sorriso inefvel para agradecer a Deus
permitir-lhe ser amado assim, e desapareceu por seu turno.

O rapaz regressou a casa e esperou durante todo o resto da
noite e durante todo o dia seguinte sem receber nada. Por fim,
dois dias depois, por volta das dez horas da manh, quando se
preparava para ir procurar o Sr. Deschamps, o notrio, recebeu
pelo correio um bilhetinho que reconheceu ser de Valentine,
embora nunca lhe tivesse visto a letra. Era concebido nestes
termos:

Lgrimas, suplicas, rogos, nada conseguiram. Ontem, estive
durante duas horas na Igreja de S. Filipe do Roule, e durante
essas duas horas pedi a Deus do fundo da alma. Mas Deus
mostra-se insensvel como os homens e a assinatura do contrato
est marcada para esta noite s nove horas.

S tenho uma palavra, tal como s tenho um corao, Morrel; e
essa palavra dei-ta. Quanto ao corao,  teu!

Portanto esta noite, s nove horas menos um quarto, espero-te
no porto.

Tua mulher,

Valentine de Villefort.

P.S. - A minha pobre av vai de mal a pior. Ontem, a sua
exaltao transformou-se em delrio; hoje, o seu delrio 
quase loucura.

Amar-me-s muito, no  verdade, Morrel, para me esquecer de
que a deixarei neste estado?

Creio que escondem ao av Noirtier que a assinatura do
contrato est marcada para esta noite.


Morrel no se contentou com as informaes que lhe dava
Valentine. Foi a casa do notrio, que lhe confirmou a notcia
de que a assinatura do contrato estava marcada para as nove
horas da noite.

Em seguida passou por casa de Monte-Cristo e foi l que soube
o resto: Franz viera anunciar a cerimnia; pela sua parte, a
Sr.a de Villefort escrevera ao conde pedindo-lhe desculpa por
o no convidar, mas a morte do Sr. de Saint-Mran e o estado
em que se encontrava a viva lanavam sobre a reunio um vu
de tristeza, que no queria nublasse a fronte do conde, a quem
desejava as maiores felicidades.

Na vspera, Franz tora apresentado  Sr.a de Saint-Mran, que
deixara o leito para essa apresentao e para ele voltara
imediatamente.

Como  fcil de compreender, Morrel encontrava-se num estado
de agitao que no podia escapar a um olhar to penetrante
como era o do conde. Por isso, Monte-Cristo foi para com ele
mais afectuoso do que nunca; to afectuoso que por duas ou
trs vezes Maximilien esteve prestes a contar-lhe tudo.
Recordou-se, porm, da promessa formal feita a Valentine e o
seu segredo permaneceu-lhe no fundo do corao.

O jovem releu vinte vezes durante o dia a carta de Valentine.
Era a primeira vez que ela lhe escrevia e logo naquelas
circunstncias. Todas as vezes que relia a carta, Maximilien
renovava a si mesmo o juramento de tornar Valentine feliz. Com
efeito, que autoridade no tem a rapariga que toma uma
resoluo to corajosa! Que dedicao no merece da parte
daquele a quem tudo sacrifica! Como deve ser realmente para o
seu apaixonado o primeiro e mais digno objecto do seu culto! 
simultaneamente rainha e mulher e um corao no basta para
lhe agradecer e para a amar.

Morrel pensava com inexprimvel agitao no momento em que
Valentine chegaria e diria: "Aqui estou, Maximilien, sou tua!"

Organizara pormenorizadamente a fuga: escondera duas escadas
na luzerna do cercado; esperava-os um cabriol, que o prprio
Maximilien conduziria; nada de criados, nada de luzes; s
virada a esquina da primeira rua acenderiam as lanternas, a
fim de evitarem, por um excesso de precaues, cair nas mos
da Polcia.

De vez em quando todo o corpo de Morrel era percorrido por
arrepios. Pensava no momento em que, do cimo do muro,
protegeria a descida de Valentine e em que sentiria trmula e
abandonada nos seus braos aquela a quem nunca apertara mais
do que a mo e beijara a ponta dos dedos.
Mas quando chegou a tarde, quando Morrel sentiu aproximar-se a
hora, experimentou a necessidade de estar s. O sangue
fervia-lhe, as simples perguntas ou at apenas a voz de um
amigo t-lo-iam irritado. Fechou-se no seu quarto e tentou
ler; mas o seu olhar deslizou pelas pginas sem nada
compreender do que nelas estava escrito, e acabou por largar o
livro para voltar a desenhar pela segunda vez o seu plano, as
suas escadas e o seu terreno.

Por fim a hora aproximou-se.

Nunca um homem deveras apaixonado deixou os relgios marcarem
tranquilamente o tempo. Morrel atormentou de tal forma os seus
que eles acabaram por marcar oito e meia s seis horas. Disse
ento para consigo que era tempo de ir, que nove horas era
efectivamente a hora da assinatura do contrato, mas que
segundo todas as probabilidades, Valentine no esperaria por
essa assinatura intil, e depois de tudo isto Morrel cometeu a
proeza de partir da Rua Meslay s oito e meia no seu relgio
de sala e entrar no cercado quando davam oito horas em S.
Filipe do Rouie!

Cavalo e cabriol foram escondidos atrs de um casebre em
runas, em que Morrel costumava abrigar-se.

Pouco a pouco anoiteceu e as folhagens do jardim
transformaram-se em frondosos tufos de um negro opaco.

Morrel saiu ento do casebre e foi espreitar, com o corao
palpitante, pelo buraco do porto. No havia ainda ningum.

Soaram oito e meia.

Passou mais meia hora. Morrel passeava de um lado para o
outro, e a intervalos cada vez mais curtos espreitava pelas
tbuas. O jardim escurecia de momento a momento, mas nas
trevas em vo se procuraria o vestido branco de Valentine e no
silncio inutilmente se tentaria distinguir o rudo dos seus
passos.

A casa, que se divisava atravs da folhagem, permanecia s
escuras e no apresentava nenhuma das caractersticas de uma
casa que se abre para um acontecimento to importante como  a
assinatura de um contrato de casamento.

Morrel consultou o seu relgio, que marcava nove horas e trs
quartos; mas quase imediatamente a mesma voz do relgio j
ouvida duas ou trs vezes rectificou o erro do relgio de
bolso batendo nove e meia.

Passava j meia hora da que a prpria Valentine marcara: ela
dissera nove horas, para menos, que no para mais.

Aquele foi o momento mais terrvel para o corao do rapaz, no
qual cada segundo caa como um martelo de chumbo.

O mais tnue rudo da folhagem, o mais pequeno sopro do
vento faziam-no apurar o ouvido e cobriam-lhe a testa de suor.
Ento, muito trmulo, prendia a escada e, para no perder
tempo, punha o p no primeiro degrau.

No meio destas alternncias de dvida e esperana, destas
dilataes e destes apertos de corao, soaram dez horas na
igreja.

- Oh! - murmurou Maximilien, com terror. -  impossvel que a
assinatura de um contrato dure tanto tempo, a menos que se
verifiquem acontecimentos imprevistos. J avaliei todas as
hipteses e calculei o tempo que duram todas as formalidades,
e no h dvida que aconteceu qualquer coisa.

E ento, ora passeava agitado diante do porto, ora ia apoiar
a testa escaldante no ferro gelado. Teria Valentine desmaiado
depois do contrato ou fora detida na fuga? Estas eram as duas
nicas hipteses em que o jovem se podia deter, ambas
desesperantes.

A ideia a que se agarrou foi a de que, em plena fuga, as
foras tinham faltado a Valentine e esta cara sem sentidos no
meio de alguma alameda.

- Oh, sendo assim - gritou, correndo para o cimo da escada --,
perd-la-ei e por minha culpa!

O demnio que lhe segredara este pensamento j no o deixou e
passou a sussurrar-lho ao ouvido com aquela persistncia que
faz com que certas dvidas, ao cabo de um instante, pela fora
do raciocnio, se transformem em convices. Os seus olhos,
que procuravam devassar a escurido crescente, julgavam
distinguir na alameda sombria um corpo cado.
Morrel arriscou-se a chamar e pareceu-lhe que o vento lhe
trazia um gemido inarticulado.

Por fim, deram dez e meia. Era-lhe impossvel conter-se mais
tempo; todas as hipteses eram admissveis. As tmporas de
Maximilien latejavam com fora e passavam-lhe nuvens diante
dos olhos. Encavalitou-se no muro e saltou para o outro lado.
Estava em casa de Villefort, onde acabava de entrar por
escalamento. Lembrou-se das consequncias que lhe poderia
acarretar semelhante procedimento, mas no viera at ali para
recuar.

Num instante encontrou-se na extremidade do macio. Do ponto
onde estava via-se a casa.

Ento, Morrel assegurou-se de uma coisa de que j suspeitara
ao tentar ver atravs das rvores: em lugar das luzes que
pensava ver brilhar em cada janela,  como  natural nos dias
de cerimnia, s viu a massa cinzenta do edifcio, velada
ainda por uma grande cortina de sombra projectada por uma
nuvem imensa que tapava a Lua.

De vez em quando, como que transviada, passava a correr uma
luz diante de trs janelas do primeiro andar. Essas trs
janelas eram as dos aposentos da Sr.a de Saint-Mran.
Outra luz permanecia imvel atrs dos cortinados vermelhos do
quarto da Sr.a de Villefort.

Morrel adivinhou tudo isto. Tantas vezes, para acompanhar
Valentine em pensamento a qualquer hora do dia, esboara a
planta da casa, que a conhecia sem a ter visto.

O rapaz ficou ainda mais assustado com aquela escurido e
aquele silncio do que ficara com a ausncia de Valentine.

Desorientado, louco de dor, decidido a arriscar tudo para
tornar a ver Valentine e assegurar-se da desgraa que
pressentia, fosse qual fosse, Morrel alcanou a orla do macio
e preparava-se para atravessar o mais rapidamente possvel o
jardim, em campo aberto, quando um som de vozes ainda bastante
afastado, mas que o vento lhe trazia, chegou at si.

Ao ouvir tal barulho, recuou um passo; j meio sado da
folhagem, embrenhou-se nela completamente e ficou imvel e
calado, mergulhado na obscuridade.

A sua resoluo estava tomada: se fosse Valentine, sozinha,
avis-la-ia com uma palavra  sua passagem; se Valentine
estivesse acompanhada, pelo menos v-la-ia e assegurar-se-ia
de que no lhe acontecera nenhum mal; se fossem estranhos,
apanharia algumas palavras do seu dilogo, que talvez lhe
permitissem compreender aquele mistrio, at ali
incompreensvel.

A Lua saiu ento da nuvem que a ocultava e Morrel viu aparecer
Villefort  porta da entrada principal, acompanhado de um
homem vestido de preto. Desceram os degraus e dirigiram-se
para o macio. Ainda no tinham dado quatro passos quando
Morrel reconheceu o Dr. de Avrigny no homem vestido de preto.

Ao ver que vinham na sua direco, o jovem recuou
maquinalmente diante deles, at encontrar o tronco de um
sicmoro que formava o centro do macio; ai foi obrigado a
parar.

Em breve o saibro deixou de ranger sob os passos dos dois
passeantes.

- Ah, caro doutor, decididamente, o Cu declara-se contra a
minha casa! - disse o procurador rgio. - Que morte horrvel!
Que golpe inesperado! No tente confortar-me; infelizmente, a
chaga  demasiado viva e profunda! Morte, morte!

Um suor frio gelou a fronte do rapaz e f-lo bater os dentes.
Quem teria morrido naquela casa que o prprio Villefort dizia
amaldioada?

- Meu caro Sr. de Villefort - respondeu o mdico, num tom que
redobrou o terror do rapaz --, no o trouxe aqui para o
confortar, muito pelo contrrio.

- Que quer dizer? - perguntou o procurador rgio, assustado.

- Quero dizer que atrs da desgraa que acaba de lhe acontecer
existe outra talvez ainda maior.

- Oh, meu Deus! - murmurou Villefort, juntando as mos. - Que
mais me vai dizer?

- Estamos bem ss, meu amigo?

- Sim, estamos absolutamente ss... Mas que significam todas
essas precaues?

- Significam que tenho uma confidncia terrvel a fazer-lhe -
respondeu o mdico. - Sentemo-nos.

Villefort mais se deixou cair do que se sentou no banco. O
mdico ficou de p diante dele, com uma das mos pousada no
ombro do magistrado. Morrel, gelado de terror, tinha uma das
mos na testa e com a outra comprimia o corao, cujas
pulsaes receava se ouvissem.

"Morte, morte!", repetia em pensamento com a voz do corao.

E ele prprio se sentia morrer.

- Fale, doutor, escuto-o - disse Villefort. - Fira, estou
preparado para tudo.

- A Sr.a de Saint-Mran era de facto muito idosa, sem dvida,
mas gozava de excelente sade.

Morrel respirou pela primeira vez nos ltimos dez minutos.

- O desgosto matou-a - disse Villefort. - Sim, o desgosto,
doutor! H quarenta anos que estava habituada a viver com o
marqus...

- No foi o desgosto, meu caro Villefort - redarguiu o mdico.
- O desgosto pode matar, embora os casos sejam raros, mas no
mata num dia, mas no mata numa hora, mas no mata em dez
minutos.

Villefort no respondeu nada; apenas levantou a cabea, que
at ali conservara baixa, e fitou o mdico com olhos
esgazeados.

- Assistiu  agonia? - perguntou o Sr. de Avrigny.

- Assisti - respondeu o procurador rgio. - O senhor disse-me
em voz baixa para no me afastar.

- Notou os sintomas do mal a que a Sr.a de Saint-Mran
sucumbiu?

- Certamente. A Sr.a de Saint-Mran teve trs ataques
sucessivos com poucos minutos de intervalo uns dos outros e de
cada vez mais prximos e mais graves. Quando o senhor chegou,
havia j alguns minutos que a Sr.a de Saint-Mran estava
arquejante; teve ento uma crise, que tomei por um simples
ataque de nervos; mas s me comecei a assustar realmente
quando a vi soerguer-se na cama, com os membros e o pescoo
estendidos. Ento, pela sua cara, doutor, compreendi que o
caso era mais grave do que supunha. Passada a crise, procurei
os seus olhos, mas j os no encontrei, doutor. O senhor
segurava-lhe no pulso e contava as pulsaes, e a segunda
crise surgiu antes de o meu amigo se virar para mim. Essa
segunda crise foi mais terrvel do que a primeira.
Verificaram-se os mesmos movimentos nervosos e a boca
contraiu-se-lhe e tornou-se roxa.  terceira, expirou. J
depois do fim da primeira eu tinha reconhecido o ttano, e o
senhor confirmou-me tal opinio.

- Sim, diante de toda a gente - salientou o mdico. - Mas
agora estamos ss.

- Que me vai dizer, meu Deus?

- Que os sintomas do ttano e do envenenamento por produtos
vegetais so absolutamente os mesmos.

O Sr. de Villefort levantou-se. Em seguida, depois de um
instante de imobilidade e silncio, voltou a deixar-se cair no
banco.

- Meu Deus, doutor, pensou bem no que acaba de me dizer?

Morrel no sabia se sonhava ou se estava acordado.

- Oua - disse o mdico - conheo a importncia da minha
declarao e o cargo do homem a quem a fao.

-  ao magistrado ou ao amigo que fala? - perguntou Villefort.

- Ao amigo, apenas ao amigo, neste momento. As semelhanas
entre os sintomas do ttano e os sintomas do envenenamento por
substancias vegetais so de tal modo grandes que se tivesse de
assinar o que lhe digo declaro-lhe que hesitaria. Por isso,
repito-lhe, no  ao magistrado que me dirijo,  ao amigo.
Pois bem, ao amigo digo: durante os trs quartos de hora que
durou, estudei a agonia, as convulses e a morte da Sr.a de
Saint-Mran, e  minha convico que no s a Sr.a de
Saint-Mran morreu envenenada, como ainda direi... sim, direi
que conheo o veneno que a matou.

- Senhor, senhor!

- Tudo se conjuga, repare: sonolncia interrompida por crises
nervosas, sobreexcitao do crebro, torpor dos centros... A
Sr.a de Saint-Mran. sucumbiu a uma dose violenta de brucina
ou estricnina, que por acaso, sem dvida, que por erro,
talvez, lhe administraram.

Villefort pegou na mo do mdico.

- Oh,  impossvel! - exclamou. - Sonho, meu Deus! Sonho! 
horrvel ouvir dizer semelhantes coisas por um homem como o
senhor! Em nome do Cu, suplico-lhe, caro doutor, que me diga
que pode estar enganado!

- Sem dvida que posso, mas...

- Mas?...

- Mas no creio.

- Doutor, tenha compaixo de mim. H alguns dias acontecem-me
tantas coisas inauditas que creio na possibilidade de
enlouquecer.

- Mais algum alm de mim viu a Sr.a de Saint-Mran?

- Ningum.

- Mandaram aviar  farmcia alguma receita que me no tenham
mostrado?

- Nenhuma.

- A Sr.a de Saint-Mran tinha inimigos?

- Nunca lhos conheci.

- Algum tinha interesse na sua morte?

- No, meu Deus, no! A minha filha  a sua nica herdeira.
Valentine sozinha... Oh, se semelhante pensamento me
assaltasse apunhalar-me-ia para castigar o meu corao por ter
sido capaz de abrigar um s instante tal pensamento!

- Deus no permita, caro amigo - redarguiu o Sr. de Avrigny
--, que no tenha de acusar algum! Refiro-me apenas a um
acidente, compreende? A um erro. Mas acidente ou erro, o facto
a est a falar em voz baixa  minha conscincia e a exigir
que a minha conscincia lhe fale em voz alta. Informe-se.

- Com quem? Como? De qu?

- Vejamos: Barrois, o criado velho, no se teria enganado e
dado  Sr.a de Saint-Mran alguma poo preparada para o seu
amo?

- Para o meu pai?

- Sim.

- Mas como poderia uma poo preparada para o Sr. Noirtier
envenenar a Sr.a de Saint-Mran? : ,

- Nada mais simples: como sabe, em certas doenas os venenos
actuam como um remdio. A paralisia  uma dessas doenas. H
cerca de trs meses, depois de ter empregado tudo para
restituir o movimento e a palavra ao Sr. Noirtier, decidi
tentar um ltimo meio; h trs meses, repito, que o trato com
brucina. Assim, na ltima poo que lhe receitei entravam seis
centigramas de brucina; seis centigramas sem aco sobre os
rgos paralisados do Sr. Noirtier, e aos quais alis ele se
acostumou por meio de doses sucessivas, seis centigramas
bastam para matar qualquer outra pessoa que no seja ele.

- Meu caro doutor, no h nenhuma comunicao entre os
aposentos do Sr. Noirtier e os da Sr.a de Saint-Mran, e
nunca Barrois entraria no quarto da minha sogra. Enfim,
doutor, permita-me que lhe diga que, embora o considere o
homem mais competente e sobretudo mais consciencioso do mundo,
embora em todas as circunstncias a sua palavra seja para mim,
uma luz que me guia,  semelhana da luz do Sol, pois bem,
doutor, pois bem... apesar dessa convico, necessito de me
apoiar neste axioma: errare humanum est.

- Escute, Villefort - replicou o mdico --, existe algum
colega meu em quem tenha tanta confiana como em mim?
-Porque pergunta isso? Aonde quer chegar?

- Chame-o, dir-lhe-ei o que vi, o que notei, e faremos a
autpsia.

- E encontraro vestgios do veneno?

- No, do veneno, no; no disse isso. Mas verificaremos a
irritao do sistema nervoso, reconheceremos a asfixia
patente, incontestvel, e dir-lhe-emos: "Caro Villefort, se
foi por negligncia que o caso aconteceu, vigie os seus
criados; se foi por dio, vigie os seus inimigos."

- Oh, meu Deus, que me est a propor, Avrigny?! - respondeu
Villefort, abatido. - A partir do momento em que haja outro,
alm do senhor, metido no segredo, impor-se- proceder a um
inqurito, e um inqurito em minha casa  impossvel! No
entanto - prosseguiu o procurador rgio, contendo-se e olhando
o mdico com inquietao --, no entanto, se quer, se o exige
absolutamente, f-lo-ei. Com efeito, talvez deva dar
seguimento ao caso... O meu cargo impe-mo. Mas, doutor,
semelhante ideia aflige-me e entristece-me antecipadamente,
como v: introduzir na minha casa tanto escndalo depois de
tanta dor... Oh, a minha mulher e a minha filha morreriam! E
eu, eu, doutor, o senhor bem sabe que um homem no chega aonde
eu cheguei, um homem no  procurador rgio durante vinte e
cinco anos sem ter arranjado bom nmero de inimigos. Os meus
so numerosos. Este caso, uma vez divulgado, ser para eles um
triunfo que os far pular de alegria e a mim me cobrir de
vergonha. Doutor, desculpe-me estas ideias mundanas. Se o
senhor fosse um padre, no ousaria dizer-lhe isto; mas o
senhor  um homem e conhece os outros homens. Doutor, doutor,
o senhor no me disse nada, no  verdade?

- Meu caro Sr. de Villefort - respondeu o mdico, abalado
--, o meu primeiro dever  a humanidade. Teria salvado a Sr.a
de Saint-Mran se a cincia a pudesse salvar, mas ela est
morta e eu devo-me aos vivos. Sepultemos no mais profundo dos
nossos coraes esse terrvel segredo. Se os olhos de algum
se abrirem a tal respeito, permitirei que se impute  minha
ignorncia o silncio que guardarei. Entretanto, senhor,
continue a procurar, procure activamente, pois talvez as
coisas no fiquem por ai... E quando descobrir o culpado, se o
descobrir, serei eu que lhe direi: "O senhor  um magistrado,
faa o que quiser."

- Oh, obrigado, obrigado, doutor! - exclamou Villefort, com
indizvel alegria. - Nunca tive melhor amigo do que o senhor.

E como se temesse que o Sr. de Avrigny voltasse com a palavra
atrs, levantou-se e arrastou o mdico para os lados da casa.

Afastaram-se.

Morrel, como se tivesse necessidade de respirar, deitou a
cabea tora do arvoredo e a Lua iluminou-lhe o rosto to
plido que o poderiam tomar por um fantasma.

- Deus protege-me de uma evidente mas terrvel forma -
murmurou. - Mas Valentine, Valentine, pobre amiga, resistir
ela a tanto sofrimento?

A medida que proferia estas palavras, olhava alternadamente as
janelas dos cortinados vermelhos e as trs janelas de
cortinados brancos.

A luz desaparecera quase completamente da janela dos
cortinados vermelhos. Sem dvida a Sr.a de Villefort acabava
de apagar o candeeiro e a lamparina mal se reflectia nos
vidros.

Na extremidade do edifcio, pelo contrrio, viu abrir uma das
trs janelas de cortinados brancos. Uma vela colocada na
chamin projectou no exterior alguns raios da sua luz plida e
uma sombra veio por instantes  varanda.

Morrel estremeceu; parecia-lhe ter ouvido um soluo.

No era de admirar que aquela alma, habitualmente to corajosa
e to forte, mas agora perturbada e exaltada pelas duas mais
fortes paixes humanas, o amor e o medo, tivesse enfraquecido
ao ponto de sofrer alucinaes supersticiosas.

Embora fosse impossvel, oculto como estava, que o olhar de
Valentine o distinguisse, julgou ser chamado pela sombra da
janela; o seu esprito perturbado dizia-lho e o seu corao
ardente repetia-lho. Este duplo erro transformou-se numa
realidade irresistvel e, por um desses incompreensveis
impulsos da juventude, Morrel saltou para fora do seu
esconderijo e em duas passadas, com risco de ser visto, de
assustar Valentine e de esta dar o alarme por meio de algum
grito involuntrio, transps o jardim, que o luar tornava
amplo e branco como um lago, e, depois de alcanar o renque de
laranjeiras que se estendia diante da casa, atingiu os degraus
da escadaria, que subiu rapidamente, e empurrou a porta, que
se abriu sem resistncia diante dele.

Valentine no o vira. Os seus olhos erguidos para o cu
seguiam uma nuvem prateada que deslizava no azul e cuja forma
era a de um fantasma a subir ao cu. O seu esprito exaltado
segredava-lhe que era a alma da av.

Entretanto, Morrel atravessara a antecmara e encontrara o
corrimo da escada. A passadeira que cobria os degraus
abafava-lhe os passos. Alis, Morrel chegara a tal ponto de
exaltao que nem a presena do prprio Villefort o teria
assustado. Se Villefort lhe aparecesse, a sua resoluo estava
tomada: aproximar-se-ia dele, confessar-lhe-ia tudo e
pedir-lhe-ia desculpa e que aprovasse aquele amor que o ligava
 filha e a filha a ele. Morrel estava louco.

Por sorte, no encontrou ningum.

E foi ento que o conhecimento que adquirira atravs de
Valentine da planta interior da casa lhe serviu. Chegou sem
novidade ao cimo da escada, e como, uma vez l chegado,
procurasse orientar-se, um soluo que reconheceu indicou-lhe o
caminho que devia seguir. Virou-se. Uma porta entreaberta
deixava chegar at ele o reflexo de uma luz e o som da voz que
gemia. Empurrou essa porta e entrou.

Ao fundo de uma alcova, debaixo do lenol branco que lhe
cobria a cabea e lhe desenhava a forma, jazia a morta, mais
assustadora ainda aos olhos de Morrel depois da revelao do
segredo de que o acaso o tornara possuidor.

Ao lado da cama, de joelhos, com a cabea escondida nas
almofadas de uma grande poltrona, Valentine, trmula e agitada
pelos soluos, estendia por cima da cabea, que se no via, as
mos juntas e hirtas.

Deixara a janela, que ficara aberta, e rezava em voz alta num
tom que comoveria o corao mais insensvel. As palavras
safam-lhe dos lbios, rpidas, incoerentes, ininteligveis, de
tal forma a dor lhe apertava a garganta com os seus tentculos
ardentes.

O luar, insinuando-se atravs da abertura das persianas,
tornava mais plida a luz da vela e cobria de tons fnebres
aquele quadro desolador.

Morrel no pde resistir quele espectculo. No era de uma
devoo exemplar nem era fcil de impressionar, mas Valentine
a sofrer, a chorar, a torcer os braos na sua presena, era
mais do que podia suportar em silncio. Soltou um suspiro,
murmurou um nome e a cabea imersa em lgrimas e contrastante
com o veludo da poltrona, uma cabea de Madalena, de
Correggio, ergueu-se e ficou virada para ele.

Valentine viu-o e no demonstrou qualquer surpresa. No
existem emoes intermdias num corao ocupado por um
desespero supremo.

Morrel estendeu a mo  amiga. Como nica desculpa de no ter
ido ao seu encontro, Valentine indicou-lhe o cadver jacente
sob o lenol fnebre e recomeou a soluar.

Nem um nem outro ousava falar naquele quarto. Ambos hesitavam
em quebrar aquele silncio que parecia imposto pela Morte, de
p em qualquer canto e com o dedo nos lbios.

Por fim, Valentine foi a primeira a aventurar-se.

- Amigo, como est aqui? - perguntou. - Dir-lhe-ia "seja
bem-vindo", se no fosse a Morte quem lhe abriu a porta desta
casa.

- Valentine - disse Morrel com voz trmula e de mos juntas
--, esperei-a desde as oito e meia. Como a no visse vir,
inquietei-me, saltei o muro e penetrei no jardim. Ento, vozes
que falavam do fatal acidente...

- Que vozes? - perguntou Valentine.

Morrel estremeceu, pois toda a conversa do mdico e do Sr. de
Villefort lhe acudiu ao esprito, e atravs do lenol julgava
ver os braos contorcidos, o pescoo rgido e os lbios roxos
da morta.

- Vozes dos seus criados revelaram-me tudo.

- Mas vir aqui equivale a perder-nos, meu amigo - observou
Valentine, sem terror e sem clera.

- Perdoe-me - respondeu Morrel, no mesmo tom. - Vou-me j
retirar.

- No - redarguiu Valentine. - Encontr-lo-iam. Fique.

- Mas se vem algum?

A jovem abanou a cabea.

- No vir ningum, esteja descansado - disse. - Est ali a
nossa proteco.

E indicou o cadver moldado pelo lenol.

-- Mas que foi leito do Sr. de Epinay? Diga-me,
suplico-lhe - pediu Morrel.

- O Sr. Franz chegou para assinar o contrato no momento em que
a minha boa av exalava o ltimo suspiro.

- Graas a Deus! - exclamou Morrel, com uma sensao de
alegria egosta, pois pensava para consigo mesmo que aquela
morte retardaria indefinidamente o casamento de Valentine.

- Mas o que redobra a minha dor - continuou a jovem, como se
tal sensao devesse receber imediatamente castigo -  que a
pobre e querida av ordenou, ao morrer, que se efectuasse o
casamento o mais cedo possvel. Tambm ela, meu Deus! Julgando
proteger-me, tambm ela agia contra mim.

- Escute! -- sussurrou Morrel.

Os dois jovens ficaram silenciosos.

Ouviu-se abrir uma porta e passos fazerem estalar o parqu do
corredor e os degraus da escada.

-  o meu pai que sai do seu gabinete - disse Valentine.

- E acompanha o mdico - acrescentou Morrel.

- Como sabe que  o mdico? - perguntou Valentine,
surpreendida.

- Presumo - respondeu Morrel.

Valentine olhou o rapaz.

Entretanto, ouviu-se fechar a porta da rua. O Sr. de Villefort
foi ainda dar outra volta  chave da do jardim e em seguida
voltou a subir a escada.

Chegado  antecmara, parou um instante, como se hesitasse se
devia entrar no seu quarto ou no quarto da Sr.a de
Saint-Mran. Morrel correu para trs de um reposteiro.
Valentine no fez um gesto; dir-se-ia que uma dor supre 1a a
colocava acima dos temores vulgares.

O Sr. de Villefort entrou no seu quarto.

- Agora - disse Valentine - o senhor no pode sair nem pela
porta do jardim, nem pela da rua.

Morrel olhou a jovem atnito.

- Agora - continuou ela - s h uma sada possvel e segura: a
dos aposentos do meu av.

Levantou-se.

- Venha - disse.

- Aonde? - perguntou Maximilien.

- Aos aposentos do meu av.

- Eu, aos aposentos do Sr. Noirtier?!

- Sim.

- J pensou no que vai fazer, Valentine?

- J e h muito tempo. S tenho esse amigo no mundo e ambos
precisamos dele... Venha.

- Cautela, Valentine - aconselhou Morrel, hesitando em fazer o
que a jovem lhe ordenava. - Cautela! A venda caiu-me dos olhos
e vindo aqui pratiquei um acto de demncia. Est bem certa do
que vai fazer, querida amiga?

- Estou - respondeu Valentine - e s tenho um escrpulo no
mundo: deixar ss os restos mortais da minha pobre av, que me
encarreguei de velar.

- Valentine, a morte  sagrada por si mesma - observou Morrel.

- Pois  - concordou a jovem. -  De resto, a ausncia ser
curta. Venha.

Valentine atravessou o corredor e desceu uma escadinha que
levava aos aposentos de Noirtier. Morrel seguiu-a em bicos de
ps. Chegados ao patamar dos aposentos, encontraram o velho
criado.

- Barrois, feche a porta e no deixe entrar ningum -
ordenou-lhe Valentine.

Foi a primeira a entrar

Noirtier, ainda na sua poltrona, atento ao mais pequeno rudo,
informado pelo seu velho criado de tudo o que se passava,
olhava ansiosamente para a entrada do quarto. Viu Valentine e
os seus olhos brilharam.

Havia no andar e na atitude da jovem algo de grave e solene
que impressionou o velho. Por isso, de brilhantes que estavam
os seus olhos, tornaram-se interrogadores.

- Querido av - disse ela em tom breve -- escuta-me bem. Sabes
que a avozinha Saint-Mran morreu h uma hora e que,
exceptuando tu, agora no tenho mais ningum que me ame no
mundo?

Uma expresso de infinita ternura passou pelos olhos do velho.

- Portanto, s a ti, no  verdade, posso confiar os meus
desgostos e as minhas esperanas?

O paraltico fez sinal que sim

Valentine tomou Maximilien pela mo.

- Ento, olha bem para este senhor.

O velho pousou os olhos perscrutadores e levemente atnitos em
Morrel.

-  o senhor Maximilien Morrel - continuou Valentine --, o
filho daquele honesto comerciante de Marselha de quem sem
dvida ouviste falar...

- Sim - indicou o velho.

-  um nome irrepreensvel, que Maximilien est em vias de
tornar glorioso, porque aos trinta anos  capito de sipaios e
oficial da Legio de Honra.

O velho fez sinal de que se lembrava dele.

- Pois bem, avozinho - disse Valentine, ajoelhando diante do
velho e indicando Maximilien com a mo --, amo-o e s serei
dele! Se me obrigarem a casar com outro, deixar-me-ei morrer
ou matar-me-ei.

Os olhos do paraltico exprimiam um mundo de pensamentos
tumultuosos.

-Tu gostas do Sr. Maximilien Morrel,. no  verdade, avozinho?
- perguntou a jovem.

- Gosto - indicou o velho, imvel.

- E podes proteger-nos, visto sermos tambm teus filhos, da
vontade do meu pai?

Noirtier pousou o seu olhar inteligente em Morrel, como que
para lhe dizer: " conforme..."

Maximilien compreendeu.

- Valentine - disse --, tem um dever sagrado a cumprir no
quarto da sua av; quer dar-me a honra de permitir que
converse um instante com o Sr. Noirtier?

- Sim, sim,  isso - indicou o olhar do velho.

Depois fitou Valentine com inquietao.

- Como conseguir compreender-te, no  o que queres dizer,
querido av?

-- .

- Oh, est descansado! Temos falado tantas vezes de ti que ele
sabe bem como te falo.

Depois, virando-se para Maximilien com um sorriso adorvel,
apesar de velado por profunda tristeza, disse:

- Ele sabe tudo o que eu sei.

Valentine levantou-se, aproximou uma cadeira para Morrel
recomendou a Barrois que no deixasse entrar ningum e, depois
de beijar ternamente o av e de se despedir tristemente de
Morrel, saiu.

Ento Morrel, para provar a Noirtier que tinha a confiana de
Valentine e conhecia todos os seus segredos, pegou no
dicionrio, na pena e no papel e colocou tudo em cima de uma
mesa onde havia um candeeiro.

- Mas primeiro - disse - permita-me, senhor, que lhe diga quem
sou, como amo Mademoiselle Valentine e quais so as minhas
intenes a seu respeito.

- Escuto-o - deu a entender Noirtier.

Constitua um espectculo deveras impressionante ver como
aquele velho, aparentemente um fardo intil, se tornara o
nico protector, o nico apoio, o nico juiz de dois
apaixonados jovens, belos, fortes e no comeo da vida.

O seu rosto, de uma nobreza e de uma austeridade notveis,
impunha-se a Morrel, que comeou a falar com voz incerta.

Contou ento como conhecera e amara Valentine, e como
Valentine, no seu isolamento e na sua infelicidade, acolhera a
oferta da sua dedicao. Revelou-lhe quais eram o seu
nascimento, a sua posio e a sua fortuna, e por mais de uma
vez, quando interrogou com a vista o paraltico, ele lhe
respondeu tambm com a vista:

- Est bem, continue.

- Agora - disse Morrel quando concluiu a primeira parte da sua
narrativa --, agora que j lhe revelei, senhor, o meu amor e
as minhas esperanas, devo revelar-lhe tambm os nossos
projectos?

- Deve - respondeu o velho.

- Muito bem. Eis o que tnhamos resolvido.

E contou tudo a Noirtier: como um cabriol os esperava no
cercado, como contava raptar Valentine, lev-la para casa da
irm e casar com ela e como, depois, estavam dispostos a
esperar, numa respeitosa expectativa, o perdo do Sr. de
Villefort.

- No - disse o Sr. Noirtier.

- No? - repetiu Morrel. - No  assim que devemos proceder?

- No.

- Quer dizer que este projecto no tem o seu assentimento?

- No.

- Nesse caso, h outro meio - respondeu Morrel.

O olhar interrogador do velho perguntou:

- Qual?

- Irei - continuou Maximilien --, irei procurar o Sr. Franz de
Epinay (ainda bem que lhe posso dizer isto na ausncia de
Mademoiselle de Villefort) e comportar-me-ei com ele de
maneira a obrig-lo a ser um homem galante...

O olhar de Noirtier continuou a interrogar.

- Que farei?

- Sim.

- Isto: irei procur-lo, como lhe dizia, revelar-lhe-ei os
laos que me ligam a Mademoiselle de Villefort, e se ele for
um homem delicado provar a sua delicadeza renunciando
espontaneamente  mo da sua noiva. A partir desse momento,
ser-lhe-ei dedicado at  morte. Mas se recusar, quer por
interesse, quer por um orgulho ridculo o levar a persistir,
depois de lhe provar que com a sua atitude coagiria uma mulher
que me pertence, que Valentine me ama e no pode amar outro
alm de mim, bater-me-ei com ele dando-lhe todas as vantagens,
e mat-lo-ei ou ele me matar. Se o matar, no casar com
Valentine; se me matar, estou certo de que Valentine no
casar com ele.

Noirtier observava com indizvel prazer aquela nobre e sincera
fisionomia em que se espelhavam todos os sentimentos que a
boca exprimia, acrescentando-lhos, atravs da expresso de um
belo rosto, tudo o que a cor acrescenta a um desenho vigoroso
e real.

No entanto, quando Morrel acabou de falar, Noirtier fechou os
olhos diversas vezes, o que era, como se sabe, a sua maneira
de dizer no.

- No? - repetiu Morrel. - Portanto, o senhor desaprova o
segundo projecto, como j desaprovou o primeiro?

- Sim, desaprovo-o - respondeu o velho.

- Que fazer ento, senhor? - perguntou Morrel. - As ltimas
palavras da Sr.a de Saint-Mran foram que o casamento da neta
se no fizesse esperar. Deverei deixar que os acontecimentos
se consumam?

Noirtier ficou imvel.

- Sim, compreendo - disse Morrel. - Devo esperar.

- sim.

- Mas qualquer atraso nos perder senhor - observou o rapaz. -
Sozinha, Valentine no tem fora e coagi-la-o como a uma
criana. Entrado aqui milagrosamente para saber o que se
passava e no menos milagrosamente na sua presena, no posso
razoavelmente esperar que a sorte me continue a bafejar.
Acredite, s  possvel optar por um ou por outro dos dois
partidos que lhe indiquei, desculpe esta vaidade  minha
juventude, para chegarmos a uma soluo.
Diga-me qual dos dois prefere. Autoriza Mademoiselle Valentine
a confiar-se  minha honra?

- No.

- Prefere que v procurar o Sr. de Epinay?

- No.

- Mas, meu Deus, de quem nos vir o socorro que esperamos, do
Cu?

O velho sorriu com os olhos, como tinha o hbito de sorrir
quando lhe falavam do Cu. Ficara sempre um bocadinho de
atesmo nas ideias do velho jacobino.

- Do acaso? - insistiu Morrel.

- No.

- Do senhor?

- Sim.

- Do senhor?...

- Sim - repetiu o velho.

- Compreende bem o que lhe peo, senhor? Desculpe a minha
insistncia, porque a minha vida est na sua resposta: a nossa
salvao vir-nos- do senhor?


- Sim.

- Tem a certeza?

- Tenho.

- Assume essa responsabilidade?

- Assumo.

E havia no olhar que fazia esta afirmao tal firmeza que no
era possvel duvidar quer da sua vontade, quer da sua fora.

- Oh, obrigado, senhor, obrigado cem vezes! Mas como, a
no ser que um milagre do Senhor lhe restitua a palavra, o
gesto, o movimento, como poder, preso a essa poltrona, mudo e
imvel, como poder opor-se ao casamento?

Um sorriso iluminou o rosto do velho, sorriso estranho como o
daqueles olhos numa fisionomia imvel.

- Portanto, devo esperar? - perguntou o rapaz.

- Deve.

- Mas o contrato?

Reapareceu o mesmo sorriso.

- Quer dizer que no ser assinado?

- Quero - respondeu Noirtier.

- Assim, o contrato no ser mesmo assinado! - exclamou
Morrel. - Oh, desculpe, senhor! Quando nos anunciam uma grande
felicidade,  legtimo duvidar. O contrato no ser
assinado?...

- No - respondeu o paraltico.

Apesar desta segurana, Morrel hesitava em acreditar.
Aquela promessa de um velho impotente era to estranha que em
vez de provir de uma fora de vontade podia emanar de um
enfraquecimento de rgos. No  natural que o insensato que
ignora a sua loucura pretenda realizar coisas superiores s
suas foras?

O fraco fala dos pesos que levanta, o tmido, dos gigantes que
enfrenta, o pobre dos tesouros que maneja, o mais humilde
campons, no cmulo do seu orgulho, julga-se Jpiter.

Quer porque Noirtier tivesse adivinhado a indeciso do rapaz,
quer porque no confiasse completamente na docilidade que
mostrara, olhou-o fixamente.

- Que deseja, senhor? - perguntou Morrel. - Que lhe renove a
minha promessa de nada fazer?

O olhar de Noirtier permaneceu fixo e firme, como se quisesse
dizer que lhe no bastava uma promessa. Depois passou da cara
para a mo.

- Quer que jure, senhor? - perguntou Maximilien.

- Quero - respondeu o paraltico com a mesma solenidade. -
Quero.

Morrel compreendeu que o velho atribua grande importncia ao
juramento. Estendeu a mo.

- Juro-lhe pela minha honra - disse - esperar o que decidir
para agir contra o Sr. de Epinay.

- Bem - disseram os olhos do velho.

- Agora, senhor, quer que me retire? - perguntou Morrel.

- Quero.

- Sem tornar a ver Mademoiselle Valentine?

- Sim.

Morrel fez sinal de que estava pronto a obedecer.

- Agora - prosseguiu - permite-me, senhor, que o seu neto o
beije como beijou h pouco a sua neta?

No havia motivo para se enganar com a expresso dos olhos de
Noirtier.

O rapaz pousou os lbios na testa do velho, no mesmo stio
onde Valentine pousar os dela.

Depois, cumprimentou segunda vez o velho e saiu.

Encontrou no patamar o velho criado. Prevenido por Valentine,
este esperava Morrel e guiou-o atravs dos meandros de um
corredor escuro que levava a uma portinha que dava para o
jardim.

Chegado a, Morrel alcanou o porto atravs da alameda de
bordos e chegou num instante ao cimo do muro. Depois, pela
escada, apenas num segundo, alcanou o campo de luzerna onde o
cabriol o esperava.

Subiu para a carruagem e, cansado de tantas emoes, mas com o
corao mais liberto, chegou por volta da meia-noite  Rua
Meslay, atirou-se para cima da cama e dormiu como se estivesse
mergulhado em profunda embriaguez.

captulo LXXIV

O jazigo da famlia Villefort


Dois dias mais tarde, por volta das dez horas da manh,
encontrava-se reunida uma multido considervel  porta do Sr.
de Villefort, para ver passar uma longa fila de carros
fnebres e carruagens particulares ao longo do Arrabalde de
Saint-Honor e da Rua da Ppinire.

Entre essas carruagens havia uma de forma singular e que
parecia ter feito longa viagem. Era uma espcie de furgo
pintado de preto e fora dos primeiros a comparecer ao fnebre
encontro.

Os curiosos tinham-se informado e haviam sabido que, devido a
uma coincidncia estranha, aquele carro encerrava o corpo do
Sr. Marqus de Saint-Mran e que, portanto, aqueles que
tinham vindo para acompanhar um s cadver acompanhariam dois.

Preveniram-se imediatamente as autoridades e conseguiu-se que
os dois funerais se realizassem ao mesmo tempo. Uma segunda
viatura adornada com a mesma pompa funerria da primeira foi
trazida para diante da porta do Sr. de Villefort e a urna
transportada no furgo de posta transferida para a carruagem
fnebre.

Os dois corpos deviam ser inumados no Cemitrio do
Pre-Lachaise, onde havia muito tempo o Sr. de Villefort
mandara erguer o jazigo destinado a sepultar toda a sua
famlia.

No jazigo fora j depositado o corpo da pobre Rene, a quem o
pai e me se vinham juntar depois de dez anos de separao.

Paris, sempre curioso, sempre comovido com as pompas fnebres,
viu passar em religioso silncio o cortejo esplndido que
acompanhava  sua ltima morada dois dos mais clebres nomes
da velha aristocracia, pelo seu esprito tradicional, pela
firmeza das suas convices e pela dedicao obstinada aos
prncipes.

Beauchamp, Albert e Chteau-Renaud, que seguiam na mesma
carruagem, trocavam impresses acerca daquela morte quase
sbita.

- Vi a Sr.a de Saint-Mran ainda o ano passado, em Marselha,
no meu regresso da Arglia - dizia Chteau-Renaud. - Parecia
uma mulher destinada a viver cem anos, graas  sua perteita
sade, ao seu esprito sempre atento e  sua actividade sempre
prodigiosa. Que idade tinha ela?

- Sessenta e seis - respondeu Albert. - Pelo menos foi o que
Franz me disse. Mas no foi a idade que a matou, foi o
desgosto que lhe causou a morte do marqus. Parece que depois
dessa morte, que a abalou violentamente, ela nunca mais
recuperou por completo a razo.

- Mas enfim, de que morreu? - perguntou Beauchamp.

- De uma congesto cerebral, parece, ou de uma apoplexia
fulminante. No  a mesma coisa?

- Mais ou menos.

- De apoplexia? - repetiu Beauchamp. -  difcil de acreditar.
A Sr.a de Saint-Mran, que tambm vi uma vez ou duas na minha
vida, era baixinha, frgil e de constituio muito mais
nervosa do que sangunea. So raras as apoplexias produzidas
pelo desgosto em corpos de constituio idntica ao da Sr.a de
Saint-Mran.

- Em todo o caso - observou Albert --, qualquer que tenha sido
a doena ou o mdico que a matou, a esto o Sr. de Villefort,
ou Mademoiselle Valentine, ou ainda o nosso amigo Franz, de
posse de uma magnfica herana: oitenta mil libras de
rendimento, parece-me.

- Herana que quase duplicar por morte do velho jacobino
Noirtier.

- A est um av resistente - observou Beauchamp. - Tenacem
propositi virum. Apostou com a morte, creio, que enterraria
todos os seus herdeiros. E consegui-lo-, estou certo.  bem o
velho convencional de 93 que dizia a Napoleo em 1814:
"Declinais porque o vosso imprio  um jovem caule cansado
pelo seu crescimento. Tomais a Repblica como tutor,
regressemos com uma boa constituio aos campos de batalha e
prometo-vos quinhentos mil soldados, outro Marengo e segundo
Austerlitz. As ideias no morrem, sire, dormitam s vezes,
mas acordam mais fortes do que antes de adormecer."

- Parece que para ele os homens so como as ideias - disse
Albert. - Apenas uma coisa me preocupa: saber como Franz de
Epinay se entender com o av da sua futura mulher, visto o
velho no poder passar sem ela. Mas onde est Franz?

- Na primeira carruagem, com o Sr. de Villefort, que o
considera j como se fosse da famlia.

Em todas as carruagens que acompanhavam o funeral a conversa
era pouco mais ou menos a mesma. As pessoas admiravam-se com
aquelas duas mortes to prximas e to rpidas, mas nenhuma
suspeitava do terrvel segredo que no seu passeio nocturno o
Sr. de Avrigny revelara ao Sr. de Villefort.

Ao fim de cerca de uma hora de marcha, o prstito chegou 
porta do cemitrio. O tempo estava calmo, mas sombrio,
portanto muito de harmonia com a fnebre cerimnia que se
estava a realizar. Entre os grupos que se dirigiram para o
jazigo de famlia, Chteau-Renaud reconheceu Morrel, que
viera sozinho e de cabriol. Caminhava isolado, muito plido e
silencioso, pelo carreiro orlado de teixos.

-- Voc aqui? - perguntou Chteau-Renaud, passando o brao
pelo do jovem capito. - Quer dizer que conhece o Sr. de
Villefort? Como  isso possvel se nunca o vi em casa dele?

- No conheo, o Sr. de Villefort - respondeu Morrel. - Quem
eu conhecia era a Sr.a de Saint-Mran.

Neste momento, Albert juntou-se-lhes com Franz.

- O stio  mal escolhido para uma apresentao - disse
Albert. - Mas no importa, no somos supersticiosos. Sr.
Morrel, permita que lhe apresente o Sr. Franz de Epinay, um
excelente companheiro de viagem, com o qual percorri a Itlia.
Meu caro Franz, o Sr. Maximilien Morrel, um excelente amigo
que adquiri na tua ausncia e cujo nome me ouvirs citar todas
as vezes que falar de corao, de esprito e de amabilidade.

Morrel teve um momento de indeciso e perguntou a si mesmo se
no seria uma condenvel hipocrisia saudar quase amigavelmente
o homem que combatia em segredo. Mas o seu juramento e a
gravidade das circunstncias vieram-lhe  memria. Esforou-se
por no deixar transparecer nada no rosto, conteve-se e
cumprimentou Franz.

- Mademoiselle de Villefort est muito triste, no  verdade?
- perguntou Debray a Franz.

- Oh, de uma tristeza inexplicvel, senhor! - respondeu Franz.
- Esta manh estava to desfigurada que mal a reconheci.

Estas palavras aparentemente to simples feriram o corao de
Morrel. Aquele homem vira Valentine e falara-lhe...

Foi ento que o jovem e impetuoso oficial necessitou de toda a
sua energia para resistir ao desejo de violar o seu juramento.

Pegou no brao de Chteau-Renaud e arrastou-o rapidamente
para o jazigo, diante do qual os empregados da agncia
funerria acabavam de depositar as duas urnas.

- Magnfica habitao - comentou Beauchamp, admirando o
mausolu. - Palcio de Vero e palcio de Inverno. Nele
residir um dia, meu caro Epinay, porque em breve tambm ser
da famlia. Eu, na minha qualidade de filsofo prefiro uma
casinha de campo, um chal  sombra das rvores, e menos
pedras trabalhadas sobre o meu pobre corpo. Quando morrer,
direi aos que me rodearem o que Voltaire escrevia a Piron: E
o rus e tudo estar acabado... Vamos, caramba! Franz,
coragem, a sua mulher herda.

- Na verdade, Beauchamp, voc  insuportvel - redarguiu
Franz. - A poltica habituou-o a rir de tudo e os homens que a
dirigem tm o hbito de no acreditar em nada. Mas enfim,
Beauchamp, quando tenha a honra de se encontrar entre homens
vulgares e a sorte de se afastar por instantes da poltica,
procure trazer consigo o corao em vez de o deixar no
bengaleiro da Cmara dos Deputados ou da Cmara dos Pares.

- Mas, meu Deus, que  a vida? - redarguiu Beauchamp. - Uma
paragem na antecmara da morte.

- No estou a gostar nada da conversa de Beauchamp - disse
Albert.

E recuou quatro passos com Franz, deixando Beauchamp continuar
as suas dissertaes filosficas com Debray.

O jazigo da famlia Villefort formava um quadrado de pedra
branca de cerca de vinte ps de altura. Uma separao interior
dividia em dois compartimentos a  famlia Saint-Mran e a
famlia Villefort, e cada compartimento tinha a sua porta de
entrada.

No se via, como nos outros jazigos, essas ignbeis
prateleiras sobrepostas, em que uma distribuio econmica
encerra os mortos com uma inscrio que mais parece uma
etiqueta. Tudo o que de incio se via atravs da porta de
bronze era uma antecmara severa e escura, separada por uma
parede do tmulo propriamente dito.

Era no meio dessa parede que se abriam as duas portas de que
falmos h pouco e que comunicavam com as sepulturas Villefort
e Saint-Mran.

Ali podia-se dar livre curso  dor sem que os passeantes
despreocupados, que fazem de uma visita ao Pre-Lachaise um
passeio ao campo ou um encontro amoroso, perturbassem com os
seus cantos, os seus gritos ou as suas correrias a muda
contemplao ou a prece banhada de lgrimas do visitante do
jazigo.

As duas urnas entraram no jazigo da direita, o da famlia
Saint-Mran, e foram colocadas em cima de cavaletes j
preparados antecipadamente e que s esperavam o seu depsito
mortal. Villefort, Franz e mais alguns parentes prximos
penetraram sozinhos no santurio.

Como as cerimnias religiosas tinham sido efectuadas  porta e
no havia discursos a pronunciar, os acompanhantes
retiraram-se imediatamente. Chteau-Renaud, Albert e Morrel
foram por um lado e Debray e Beauchamp por outro.

Franz ficou sozinho com o Sr. de Villefort  porta do
cemitrio. Morrel deteve-se sob qualquer pretexto. Viu sair
Franz e o Sr. de Villefort numa carruagem e teve um mau
pressgio daquela conversa ntima. Por fim, regressou a Paris
na mesma carruagem em que vinham Chteau-Renaud e Albert, mas
no ouviu nem uma palavra do que disseram os dois rapazes.

Com efeito, no momento em que Franz se ia separar do Sr. de
Villefort, este perguntara-lhe:

- Sr. Baro, quando o tornarei a ver?

- Quando quiser, senhor - respondera Franz.

- O mais cedo possvel.

- Estou s suas ordens, senhor. Quer que regressemos juntos?

- Se isso lhe no causa nenhum transtorno...

- Nenhum.

Foi assim que o futuro sogro e o futuro genro subiram para a
mesma carruagem e que Morrel, ao v-los passar, concebeu com
razo graves preocupaes.

Villefort, e Franz regressaram ao Arrabalde de Saint-Honor.

Sem ver ningum, nem falar  mulher e  filha, o procurador
rgio levou o jovem para o seu gabinete, indicou-lhe uma
cadeira e disse-lhe:

- Senhor de Epinay, devo recordar-lhe, e o momento no 
talvez to mal escolhido como se poder crer  primeira vista,
porque a obedincia aos mortos  a primeira oferenda que se
deve depositar sobre o caixo, devo portanto lembrar-lhe o
desejo manifestado anteontem pela Sr.a de Saint-Mran no seu
leito de morte, isto , que o casamento de Valentine no fosse
adiado. Como sabe, os assuntos da defunta esto perfeitamente
em ordem e o seu testamento assegura a Valentine toda a
fortuna dos Saint-Mrans. O notrio mostrou-me  ontem as
minutas que permitem redigir definitivamente o contrato de
casamento. Pode procurar o notrio e pedir-lhe da minha parte
que lhe mostre as minutas.
O notrio  o Sr. Deschamps, Praa Beauvau , Arrabalde de
Saint-Honor.

- Senhor - respondeu Epinay --, este talvez no seja o momento
indicado para Mademoiselle Valentine, mergulhada como est na
sua dor, pensar num marido. Na verdade,
recearia...

- Valentine - interrompeu-o o Sr. de Villefort - no ter mais
vivo desejo do que cumprir as ltimas vontades da av.
Portanto, os obstculos no viro desse lado, garanto-lhe.

- Nesse caso, senhor - respondeu Franz --, como tambm no
viro do meu, pode fazer o que entender. Dei a minha palavra e
cumpri-la-ei no s com prazer, mas tambm com felicidade.

- Nesse caso, nada nos detm - disse Villefort. - O contrato
deveria ter sido assinado h trs dias e portanto
encontraremos tudo preparado. Podemos assin-lo hoje mesmo.

- E o luto? - lembrou Franz, hesitante.

- Sossegue, senhor - prosseguiu Villefort. - No  hbito em
minha casa descurar as convenincias. Mademoiselle de
Villefort poder retirar-se durante os trs meses da praxe
para a sua propriedade de Saint-Mran. Digo a sua
propriedade, porque lhe pertence. A, dentro de oito dias, se
achar bem, sem barulho, sem dar nas vistas, sem fausto,
celebrar-se- o casamento naquela propriedade. Concludo o
casamento, o senhor poder regressar a Paris, enquanto a sua
mulher passar o tempo de luto com a madrasta.

- Como lhe aprouver, senhor - disse Franz.

- Ento, queira ter o incmodo de esperar cerca de meia hora -
prosseguiu Villefort. - Valentine vai descer  sala. Mandarei
buscar o Sr. Deschamps, leremos e assinaremos o contrato
imediatamente e ainda esta tarde a Sr.a de Villefort,
acompanhar Valentine  sua propriedade, onde daqui a oito
dias iremos ter com elas.

- Tenho apenas um pedido a fazer-lhe, senhor - disse Franz.

- Qual?

- Desejo que Albert de Morcerf e Raoul de Chteau-Renaud
estejam presentes a essa assinatura. Como sabe, so minhas
testemunhas.

- Meia hora basta para os avisar. Quer ir busc-los
pessoalmente ou deseja mand-los chamar?

- Prefiro ir eu, senhor.

- Esper-lo-ei portanto dentro de meia hora, baro, e dentro
de meia hora tambm Valentine estar pronta.

Franz cumprimentou o Sr. de Villefort a saiu.

Assim que a porta da rua se fechou atrs do jovem, Villefort
mandou prevenir Valentine de que deveria descer  sala dentro
de meia hora, altura em que se esperava a chegada do notrio e
das testemunhas do Sr. de Epinay.

Esta notcia inesperada produziu grande sensao na casa. A
Sr.a de Villefort, nem queria acreditar e Valentine ficou como
que fulminada.

Olhou  sua volta, como se procurasse a quem pedir socorro.

Quis descer aos aposentos do av, mas encontrou na escada o
Sr. de Villefort, que a agarrou por um brao e a levou para a
sala.

Na antecmara, Valentine encontrou Barrois e deitou ao velho
criado um olhar desesperado.

Pouco depois de Valentine entrou na sala a Sr.a de Villefort
com o pequeno douard. Era visvel que a jovem senhora tivera
o seu quinho nos desgostos da famlia; estava plida e
parecia horrivelmente fatigada.

Sentou-se, pegou em douard ao colo e de vez em quando
apertava ao peito, com gestos quase convulsos, aquela criana
em que toda a sua vida parecia concentrada.

No tardou a ouvir-se o rudo de duas carruagens que entravam
no ptio.

Uma era a do notrio e a outra a de Franz e dos seus amigos.

Num instante, toda a gente se reuniu na sala.

Valentine estava to plida que se lhe viam as veias azuladas
das tmporas desenharem-se  roda dos olhos e correrem-lhe ao
longo das faces.

Franz no conseguia disfarar uma emoo bastante viva.
Chteau-Renaud e Albert entreolharam-se surpreendidos: a
cerimnia que pouco antes terminara no lhes parecera menos
triste do que a que ia comear.

A. Sr.a de Villefort colocara-se na sombra, atrs do
reposteiro de veludo, e como estava constantemente inclinada
para o filho, era difcil ler-lhe no rosto o que lhe ia na
alma.

O Sr. de Villefort estava, como sempre, impassvel.

Depois de ter, com o mtodo peculiar dos funcionrios da
justia, alinhado os papis em cima da mesa, tomado lugar na
sua poltrona e tirado os culos, o notrio virou-se para
Franz.

-  o Sr. Franz de Quesnel, baro de Epinay? - perguntou,
embora o soubesse perfeitamente.

- Sim, senhor - respondeu Franz.

O notrio inclinou-se.

- Devo portanto preveni-lo, senhor, da parte do Sr. de
Villefort, que o seu casamento com Mademoiselle de Villefort
modificou as disposies do Sr. de Noirtier para com a neta e
que ele alienou inteiramente a fortuna que lhe devia
transmitir. Apressamo-nos a acrescentar - continuou o notrio
- que, como o testador no tinha o direito de alienar seno
uma parte da sua fortuna e a alienou toda, o testamento no
resistir  sua contestao e ser declarado nulo e sem nenhum
efeito.

-  verdade - declarou Villefort. - No entanto, desde j
previno o Sr. de Epinay que enquanto eu for vivo nunca o
testamento do meu pai ser contestado, pois a minha posio
probe-me at a sombra de um escndalo.

- Senhor - disse Franz --, penaliza-me que se tenha suscitado
semelhante questo na presena de Mademoiselle Valentine.
Nunca me informei do montante da sua fortuna, que, por mais
reduzida que seja, ser sempre mais considervel do que a
minha. O que a minha famlia procurou na aliana com o Sr. de
Villefort foi a considerao; o que eu procuro  a felicidade.

Valentine fez um imperceptvel sinal de agradecimento,
enquanto duas lgrimas silenciosas lhe corriam ao longo das
faces.

- De resto, senhor - acrescentou Villefort, dirigindo-se ao
seu futuro genro --, exceptuando a perda de parte das suas
esperanas, esse testamento inesperado no tem nada que
pessoalmente o possa melindrar; ele explica-se pela fraqueza
de esprito do Sr. Noirtier. O que desagrada a meu pai, no 
que  Mademoiselle de Villefort se torne baronesa de Epinay,
 que Valentine se case. Uma unio com qualquer outro
causar-lhe-ia o mesmo desgosto. A velhice  egosta, senhor, e
Mademoiselle de Villefort fazia ao Sr. de Noirtier uma assdua
companhia que lhe no poder fazer a Sr.a Baronesa de Epinay.
O triste estado em que se encontra meu pai contribui para que
raramente lhe talemos de assuntos srios, que a fraqueza do
seu esprito lhe no permitiria acompanhar, e estou
absolutamente convencido de que neste momento, embora
conservando a lembrana de que a neta se casa, o Sr. Noirtier
at j esqueceu o nome daquele que vai ser seu neto.

Mal o Sr. de Villefort acabara de proferir estas palavras, s
quais Franz respondia com uma inclinao, a porta da sala
abriu-se e apareceu Barrois.

- Senhores - disse uma voz estranhamente firme, para um criado
que se dirige a seus amos numa circunstncia to solene-,
senhores, o Sr. Noirtier de Villefort deseja falar
imediatamente com o Sr. Franz de Quesnel, baro de Epinay.
Tambm ele, como o notrio, e a fim de no poder haver erro de
pcssoa, dava todos os ttulos ao noivo.

Villefort estremeceu, a Sr.a de Villefort deixou escorregar o
filho do colo e Valentine ergueu-se, plida e muda como uma
esttua.

Albert e Chteau-Renaud trocaram segundo olhar, mais atnito
ainda do que 0 primeiro.

O notrio olhou para Villefort.

-  impossvel - disse o procurador rgio. - De resto, o Sr.
de Epinay no pode sair da sala neste momento.

-  precisamente neste momento - redarguiu Barrois com a mesma
firmeza - que o Sr. Noirtier, meu amo, deseja falar de
assuntos importantes com o Sr. Franz de Epinay.

-  Ento o av Noirtier j fala? - perguntou douard, com a
sua impertinncia habitual.

Mas esta gracinha nem sequer fez sorrir a Sr.a de Villefort,
de tal modo os espritos se encontravam preocupados, de tal
modo a situao parecia solene.

- Diga ao Sr. Noirtier - respondeu Villefort - que o seu
pedido no pode ser satisfeito.

- Ento, o Sr. Noirtier previne V. Ex ,as de que se vai fazer
transportar ele prprio para a sala - replicou Barrois.

O espanto atingiu o cmulo.

Uma espcie de sorriso desenhou-se no rosto da Sr.a de
Villefort, e Valentine, como que a seu pesar, levantou os
olhos para o tecto a fim de agradecer ao Cu.

- Valentine - disse o Sr. de Villefort --, v num instante
saber, peo-lhe, que novo capricho  esse do seu av.

Valentine deu vivamente alguns passos para sair, mas o Sr. de
Villefort mudou de ideia.

- Espere, acompanho-a.

- Perdo, senhor - interveio Franz --, mas parece-me, uma vez
que foi a mim que o Sr. Noirtier mandou chamar, que 
sobretudo a mim que compete satisfazer os seus desejos.
Alis, terei muito prazer em lhe apresentar os meus respeitos,
visto no ter tido ainda ensejo de solicitar essa honra.

- Meu Deus, no vale a pena incomodar-se! - insistiu
Villefort, visivelmente inquieto.

- Desculpe, senhor - redarguiu Franz, no tom de um homem que
tomou a sua resoluo --, mas no desejo perder a oportunidade
de provar ao Sr. Noirtier como faria mal em conceber contra
mim repugnncias que estou decidido a vencer, sejam quais
forem, com a minha profunda dedicao.

E sem se deixar reter mais tempo por Villefort, Franz
levantou-se por seu turno e seguiu Valentine, que j descia a
escada com a alegria de um nufrago que se agarra a uma rocha.

O Sr. de Villefort seguiu-os.

Chteau-Renaud e Morcerf trocaram terceiro olhar, ainda mais
atnito do que os dois primeiros.


Captulo LXXV

A acta da sesso


Noirtier esperava, vestido de preto e instalado na sua
poltrona.

Quando as trs pessoas cuja chegada esperava entraram, olhou
para a porta, que o seu criado de quarto fechou imediatamente.

- Preste ateno - disse Villefort em voz baixa a Valentine,
que no conseguia conter a sua alegria. - Se o Sr. Noirtier
nos quiser comunicar coisas que impeam o seu casamento,
probo-a de o compreender.

Valentine corou, mas no respondeu.

Villefort aproximou-se de Noirtier.

- Aqui tem o Sr. Franz de Epinay - disse-lhe. - Mandou-o
chamar e ele satisfaz os seus desejos. Claro que desejmos
este encontro h muito tempo o ficaria encantado se ele lhe
provasse at que ponto a sua oposio ao casamento de
Valentine era infundada.

Noirtier respondeu apenas com um olhar que fez correr um
arrepio nas veias de Villefort.

O velho fez com os olhos sinal a Valentine para se aproximar.

Num momento, graas aos meios de que a jovem costumava
servir-se nas suas conversas com o av, ela encontrou a
palavra chave.

Ento, consultou o olhar do paraltico, que se fixou na gaveta
de um movelzinho colocado entre duas janelas.

Valentine abriu a gaveta e encontrou efectivamente uma chave.

De posse dessa chave e depois de o velho lhe fazer sinal de
que era de facto aquilo que pretendia, os olhos do paraltico
dirigiram-se para uma velha secretria esquecida havia muitos
anos e que s continha, ao que se julgava, papis inteis.

- Quer que eu abra as gavetas?

- Quero.

- As dos lados?

- No.

- A do meio?

- Sim

Valentine abriu-a e tirou um mao de papis.

-  isto que deseja, av?

- No.

Ela tirou sucessivamente todos os outros papis, at no ficar
absolutamente mais nada na gaveta.

- Mas a gaveta est vazia, agora - disse Valentine.

Os olhos de Noirtier estavam fixos no dicionrio.

- Sim, av, compreendo-o - declarou a jovem.

E repetiu, uma aps outra, cada letra do alfabeto. No S,
Noirtier deteve-a.

Ela abriu o dicionrio e folheou-o at  palavra segredo.

- Ah, existe um segredo! - exclamou Valentine.

- Existe - respondeu Noirtier.

- E quem conhece esse segredo?

Noirtier olhou a porta por onde saa o criado.

- Barrois? - perguntou ela.

- Sim - respondeu Noirtier.

- Quer que o chame?

- Quero.

Valentine foi  porta e chamou Barrois.

Entretanto o suor da impacincia perlava a testa de Villefort
e Franz estava estupefacto de surpresa.

O velho criado entrou.

- Barrois - disse Valentine --, o meu av mandou-me tirar uma
chave daquela consola, abrir esta secretria e puxar esta
gaveta. Mas agora h um segredo na gaveta e parece que voc o
conhece. Abra-a.

Barrois olhou para o velho.

- Obedece - disse o olhar inteligente de Noirtier.

Barrois obedeceu. Abriu-se um fundo duplo e apareceu um mao
de papis atados com uma fita preta.

-  isto que deseja, senhor? - perguntou Barrois.

-  - respondeu Noirtier.

- A quem devo entregar estes papis? Ao Sr. de Villefort?

- No.

- A Mademoiselle Valentine?

- No.

- Ao Sr. Franz de Epinay?

- Sim

Franz, atnito, deu um passo em frente.

- A mim, senhor? - perguntou.

- Sim.

Franz recebeu os papis das mos de Barrois, olhou para a capa
e leu: "Para ser depositado, depois da minha morte,  guarda
do meu amigo general Durand, que, por sua vez, ao morrer,
legar este mao de papis a seu filho, com a recomendao de
o conservar como um documento da mais alta importncia."

- Bom, senhor, que deseja que faa destes papis? -  perguntou
Franz.

- Que os conserve, selados como esto, sem dvida - sugeriu o
procurador rgio.

- No, no! - respondeu vivamente Noirtier.

- Deseja talvez que este senhor os leia? - perguntou
Valentine.

- Sim - respondeu o velho.

- Como viu, Sr. Baro, o meu av pede-lhe que leia esses
papis - disse Valentine.

- Ento, sentemo-nos - disse Villefort, com impacincia --,
porque isso demorar algum tempo.

- Sentem-se - disse o olhar do velho.

Villefort sentou-se, mas Valentine ficou de p ao lado do av,
encostada  sua poltrona, e Franz, de p diante dele.

Segurava o misterioso documento na mo.

- Leia - disseram os olhos do velho.

Franz abriu o mao e fez-se um grande silncio no quarto. No
meio desse silncio, leu: "Extracto da acta de uma sesso do
clube bonapartista da Rua Saint-Jacques, efectuada em 5 de
Fevereiro de 1815."

Franz deteve-se.

- 5 de Fevereiro de 1815! Foi o dia em que assassinaram o meu
pai!

Valentine e Villefort permaneceram calados. Apenas o olhar do
velho disse claramente:

- Continue.

- Mas foi ao sair desse clube que o meu pai desapareceu! -
insistiu Franz.

O olhar de Noirtier continuou a dizer:

- Leia.

Franz prosseguiu:

- "Os abaixo assinados, Louis-Jacques Beaurepaire,
tenente-coronel de artilharia; Etienne Duchampy, general de
brigada, e Claude Lecharpal, director das guas e Florestas,

"Declaram que em 4 de Fevereiro de 1815 chegou da ilha de
Elba uma carta que recomendava  benevolncia e  confiana
dos membros do clube bonapartista o general Flavien de Quesnel
que, tendo servido o imperador desde 1804 at 1815, deveria
ser dedicadssimo  dinastia napolenica, apesar do ttulo de
baro que Lus XVIII acabava de atribuir  sua propriedade de
Epinay.

"Nesta conformidade, dirigiu-se ao general de Quesnel um
bilhete pedindo-lhe que assistisse  sesso do dia seguinte,
5. O bilhete no indicava nem a rua nem o nmero da casa onde
se devia efectuar a reunio. Tambm no tinha nenhuma
assinatura, mas anunciava ao general que se estivesse pronto o
iriam buscar s nove horas da noite.

"As sesses realizavam-se das nove  meia-noite.

"s nove horas o presidente do clube apresentou-se em casa do
general. O general estava pronto. O presidente disse-lhe que
uma das condies da sua admisso era que ignorasse
eternamente o local da reunio e que deixasse vendarem-lhe os
olhos, depois de jurar no levantar de modo algum a venda.

"O general de Quesnel aceitou a condio e prometeu pela sua
honra no procurar ver aonde o conduziriam.

"O general mandara preparar a sua carruagem; mas o presidente
disse-lhe que era impossvel utilizarem-na, pois assim no
valeria a pena vendar os olhos  do amo se o cocheiro ficasse
com os seus abertos e identificasse por onde passariam.

" -- Como proceder ento? - perguntou o general.

"-- Tenho a minha carruagem - respondeu o presidente.

"-- Est assim to seguro do seu cocheiro que lhe confia um
segredo que considera imprudente revelar ao meu?

"-- O nosso cocheiro  um membro do clube - respondeu o
presidente. - Seremos conduzidos por um conselheiro de Estado.

"-- Ento, corremos outro risco: o de nos virarmos - observou
o general, rindo.

"Registamos este gracejo como prova de que o general no foi
de forma alguma obrigado a assistir  sesso,  qual
compareceu de sua livre vontade.

"Uma vez instalados na carruagem, o presidente recordou ao
general a promessa que fizera de deixar vendar os olhos. O
general no levantou qualquer oposio a tal formalidade. Um
leno de pescoo preparado para o efeito na carruagem fez as
vezes de venda.

"Durante o caminho, o presidente julgou notar que o general
procurava ver por baixo da venda e recordou-lhe o seu
juramento.

"-- Tem razo - disse o general.

"A viatura parou diante de uma passagem da Rua
Saint-Jacques. O general apeou-se apoiado no brao do
presidente, cuja dignidade ignorava e que tomava por um
simples membro do clube. Atravessaram a passagem, subiram um
andar e entraram na sala das deliberaes.

"A sesso j comeara. Os membros do clube, prevenidos da
espcie de apresentao que se deveria efectuar naquela noite,
tinham comparecido na sua totalidade. Chegado ao meio da sala,
o general foi convidado a tirar a venda. Acedeu imediatamente
ao convite e pareceu ficar muito impressionado por encontrar
to grande nmero de caras conhecidas numa sociedade de que
at ali nem sequer suspeitara a existncia.

"Interrogaram-no acerca dos seus sentimentos, mas limitou-se
a responder que as cartas da ilha de Elba lhos deviam ter dado
a conhecer..."

Franz interrompeu-se.

- O meu pai era monrquico. No havia necessidade de o
interrogarem acerca dos seus pensamentos; eram conhecidos.

- E da vinha a minha ligao com o seu pai, meu caro Sr.
Franz - declarou Villefort. - As pessoas ligam-se facilmente
quando partilham as mesmas opinies.

- Leia - continuou a dizer o olhar do velho.

Franz prosseguiu:

 -- "O presidente tomou ento a palavra para convidar o
general a exprimir-se mais explicitamente, mas o Sr. de
Quesnel respondeu que desejava antes de mais nada saber o que
pretendiam dele.

"Foi ento dado conhecimento ao general da carta da ilha de
Elba que o recomendava ao clube como um homem com cujo
concurso se podia contar. Um pargrafo inteiro expunha o
provvel regresso da ilha de Elba e prometia nova carta e mais
amplos pormenores  chegada do Pharaon, navio pertencente
ao armador Morrel, de Marselha, e cujo comandante era
inteiramente dedicado ao imperador.

"Durante toda esta leitura, o general, com o qual se julgara
poder contar como um irmo, deu pelo contrrio visveis sinais
de descontentamento e repugnncia.

"Terminada a leitura, permaneceu silencioso e de sobrolho
franzido.

"-- Ento, que diz a esta carta, Sr. General? - perguntou o
presidente.

"-- Digo que ainda h to pouco tempo se prestou juramento ao
rei Lus XVIII, que no justifica viol-lo j em benefcio do
ex-imperador.

"Desta vez a resposta era to clara que ningum se podia
enganar a respeito dos seus sentimentos.

"-- General - disse o presidente --, para ns no existe o rei
Lus XVIII, tal como no existe ex-imperador. Para ns s
existe Sua Majestade o imperador e rei, afastado h dez meses
da Frana, seu Estado, pela violncia e pela traio.

"-- Perdo, senhores - redarguiu o general. -  possvel que
para vs no exista o rei Lus XVIII, mas existe para mim. Foi
ele quem me fez baro e marechal-de-campo e nunca esquecerei
que  ao seu auspicioso regresso a Frana que devo ambos os
ttulos.

"-- Senhor, tome cautela com o que diz - recomendou-lhe o
presidente, em tom muito srio e levantando-se. - As suas
palavras demonstram-nos claramente que se enganaram a seu
respeito na ilha de Elba e que nos enganaram. A comunicao
que lhe fizemos baseou-se na confiana depositada no senhor e,
por consequncia, num sentimento que o honrava. Verificamos
agora que estvamos enganados. Um ttulo e um posto ligaram-no
ao novo governo que queremos derrubar. No o obrigaremos a
prestar-nos o seu concurso; no recrutaremos ningum contra a
sua conscincia e a sua vontade; mas obrig-lo-emos a proceder
como um homem digno, mesmo no caso de no estar disposto a
isso.

"-- Acham que  ser um homem digno conhecer esta conspirao e
no a revelar? Chamo a isso ser cmplice dos senhores. Como
vem, sou ainda mais franco do que os presentes..."

-- Ah, meu pai, compreendo agora porque te assassinaram! -
exclamou Franz.

Valentine no se pde impedir de lanar uma olhadela a Franz.
O rapaz estava realmente belo no seu entusiasmo filial.

Villefort passeava de um lado para o outro atrs dele.

Noirtier acompanhava com a vista a expresso de cada um e
conservava a sua atitude digna e severa.

Franz voltou ao manuscrito e continuou:

-- "Senhor - disse o presidente --, pediram-lhe que
comparecesse nesta assembleia, onde ningum o trouxe  fora.
Propuseram-lhe vendar-lhe os olhos e o senhor aceitou. Quando
acedeu a ambas as coisas, sabia perfeitamente que no nos
dedicvamos a consolidar o trono de Lus XVIII, pois de
contrrio no poramos tanto cuidado em nos escondermos da
Polcia. Agora, como deve compreender, seria demasiado cmodo
colocar uma mscara para surpreender segredos alheios e em
seguida no ter mais do que tirar essa mscara para perder
aqueles que confiaram no senhor. No, no! Antes de mais nada,
vai dizer-nos francamente se  pelo rei de acaso que reina
neste momento ou por S. M. o imperador.

" -- Sou monrquico - redarguiu o general. - Prestei juramento
a Lus XVIII e mantenho esse juramento.

"Estas palavras foram seguidas de um murmrio geral e pde
ver-se, pelos olhares de numerosos membros do clube, que
estavam dispostos a fazer o Sr. de Epinay arrepender-se das
suas palavras imprudentes.

"O presidente levantou-se de novo e imps silncio.

"-- Senhor - disse-lhe --,  um homem suficientemente
responsvel e sensato para compreender as consequncias da
situao em que nos encontramos uns perante os outros, e a sua
prpria franqueza nos dita as condies que nos resta
apresentar-lhe. O senhor vai portanto jurar pela sua honra
nada revelar do que ouviu.

"O general levou a mo  espada e gritou:

"-- Se quer falar de honra, comece por no menosprezar as suas
leis nem impor nada pela violncia!

"-- E o senhor - continuou o presidente, com uma calma talvez
mais terrvel do que a clera do general - no toque na sua
espada;  um conselho que lhe dou.

"O general viu  sua volta olhares que denotavam um princpio
de inquietao. No entanto, nem mesmo assim cedeu. Pelo
contrrio, apelando para toda a sua energia, exclamou:

"-- No jurarei!

"-- Ento, senhor, morrer -- respondeu tranquilamente o
presidente.

"O Sr. de Epinay empalideceu profundamente. Olhou segunda vez
 sua volta. Vrios membros do clube cochichavam e procuravam
armas debaixo das capas.

"-- General - disse o presidente --, esteja tranquilo.
Encontra-se entre pessoas honradas, que procuraro por todos
os meios convenc-lo antes de recorrerem contra o senhor a
medidas extremas. Mas tambm, como o senhor mesmo disse, est
entre conspiradores, conhece o nosso segredo e tem de no-lo
guardar.

"A estas palavras seguiu-se um silncio cheio de significado.
E como o general no respondesse nada, o presidente ordenou
aos porteiros:

"-- Fechem as portas!

"O mesmo silncio mortal sucedeu a estas palavras.

"Ento o general adiantou-se e disse, fazendo um violento
esforo sobre si mesmo:

"-- Tenho um filho e devo pensar nele quando me encontro no
meio de assassinos.

"-- General - disse com nobreza o presidente da assembleia --,
um s homem tem sempre o direito de insultar cinquenta:  o
privilgio da fraqueza. Simplesmente, faz mal em usar esse
direito. Creia no que lhe digo, general: jure e no nos
insulte.

"O general, mais uma vez dominado pela superioridade do
presidente da assembleia, hesitou um instante; mas por fim
aproximou-se da mesa do presidente e perguntou:

"-- Qual  a frmula?

"-- Esta: "Juro pela minha honra jamais revelar a quem quer
que seja no mundo o que vi e ouvi em 5 de Fevereiro de 1815,
entre as nove e as dez horas da noite, e declaro merecer a
morte se violar o meu juramento."

"O general pareceu experimentar um frmito nervoso, que o
impediu de responder durante alguns segundos. Por fim,
contendo uma repugnncia evidente, proferiu o juramento
exigido, mas em voz to baixa que mal se ouviu. Por isso,
vrios membros exigiram que o repetisse em voz mais alta e
distinta, o que foi feito.

"-- Agora desejo retirar-me - disse o general. - Estou
finalmente livre?

"O presidente levantou-se, designou trs membros da
assembleia para o acompanharem e subiu para a carruagem com o
general, depois de lhe vendar os olhos. O cocheiro que os
trouxera fazia parte do nmero desses trs membros.

"Os outros membros do clube separaram-se em silncio.

"-- Aonde quer que o reconduzamos? - perguntou o presidente.

"-- A qualquer parte onde possa ficar livre da presena dos
senhores - respondeu o Sr. de Epinay

"-- Senhor - disse ento o presidente --, tome cautela: j no
est na assembleia, tem apenas consigo homens isolados. No os
insulte, se no quer ter de assumir a responsabilidade do
insulto.

"Mas em vez de compreender esta linguagem, o Sr. de Epinay
respondeu:

"-- O senhor  sempre to valente na sua carruagem como no seu
clube, pela simples razo de que quatro homens so sempre mais
fortes do que um s.

"O presidente mandou parar a carruagem.

"Estavam precisamente  entrada do Cais dos Olmos, onde fica
a escada que desce para o rio.

"-- Porque mandou parar aqui? - perguntou o Sr. de Epinay.

"-- Porque - respondeu o presidente - o senhor insultou um
homem e esse homem no quer dar nem mais um passo sem lhe
pedir lealmente uma reparao.

"-- Mais uma maneira de assassinar - redarguiu o general,
encolhendo os ombros.

"-- Deixemo-nos de palavreado, senhor - respondeu o presidente
--, se no quer que o considere como um dos homens a que se
referia h pouco, isto , como um cobarde que toma a sua
fraqueza como escudo. Est s e um s lhe responder; tem uma
espada ao lado e eu tenho outra nesta bengala; no tem
testemunha, um destes senhores ser a sua. Agora, se quiser,
pode tirar a venda.

"O general arrancou imediatamente o leno que lhe cobria os
olhos.

"-- At que enfim vou saber com quem estou metido! --
exclamou.

"Abriu-se a carruagem; os quatro homens apearam-se..."

Franz interrompeu-se mais uma vez e enxugou o suor que lhe
escorria da testa. Havia algo assustador em ver o filho,
trmulo e plido, ler em voz alta os pormenores, at ali
ignorados, da morte do pai.

Valentine juntara as mos como se rezasse.

Noirtier olhava para Villefort com uma expresso quase sublime
de desprezo e orgulho.

Franz continuou:

"Estava-se, como dissemos, em 5 de Fevereiro. Havia trs dias
que nevava e a temperatura rondava os cinco ou seis graus. A
escada encontrava-se coberta de gelo. O general era corpulento
e alto e o presidente ofereceu-lhe o lado do corrimo para
descer.

"As duas testemunhas seguiam atrs.

"A noite estava escura e o terreno, da escada ao rio,
encontrava-se hmido de nove e geada. Via-se a gua correr,
negra e profunda, arrastando alguns pedaos de gelo.

"Uma das testemunhas foi buscar uma lanterna a um barco de
carvo,  luz da qual examinaram as armas.

"A espada do presidente, que era apenas, como ele dissera,
uma espada que trazia na bengala, era mais curta do que a do
seu adversrio e no tinha guarda.

"O general props que se tirasse  sorte as duas espadas, mas
o presidente respondeu que fora ele quem o desafiara e que ao
desafi-lo pretendera que cada um se servisse das suas armas.

"As testemunhas tentaram insistir; o presidente imps-lhes
silncio.

"Pousaram a lanterna no cho; os dois adversrios
observaram-se de ambos os lados; o combate comeou.

"A luz transformava as duas espadas em relmpagos. Quanto aos
homens, mal se viam, de tal forma a escurido era densa.

"O general passava por ser uma das melhores laminas do
Exrcito. Mas atacou to vivamente logo aos primeiros botes
que escorregou, e escorregando caiu.

"As testemunhas julgaram-no morto; mas o seu adversrio, que
sabia no lhe ter tocado, estendeu-lhe a mo para o ajudar a
levantar-se. Esta circunstncia, em vez de o acalmar, irritou
o general, que se precipitou sobre o adversrio.

"Mas este no recuou um passo e recebeu-o na ponta da espada.
Trs vezes o general recuou, depois de se empenhar demasiado a
fundo, e trs vezes voltou  carga.

" terceira vez voltou a cair.

"Julgaram que tivesse escorregado, como da primeira vez. No
entanto, ao verem que se no levantava, as testemunhas
aproximaram-se e tentaram p-lo de p. Mas aquela que o
segurava pela cintura sentiu na mo um calor hmido. Era
sangue.

"O general, que se encontrava quase desmaiado, recuperou os
sentidos.

"-- Ah, mandaram-me algum espadachim, algum mestre-de-armas de
regimento! - exclamou.

"Sem responder, o presidente aproximou-se da testemunha que
segurava na lanterna, arregaou a manga e mostrou o brao
perfurado em dois pontos pela espada do seu adversrio. Em
seguida, abriu a sobrecasaca, desabotoou o colete e mostrou o
quadril dilacerado por terceiro ferimento.

"Contudo, nem sequer soltara um suspiro.

"O general de Epinay entrou em agonia e expirou passados
cinco minutos..."

Franz leu as ltimas palavras com voz to estrangulada que mal
se puderam ouvir. Depois de as ler, deteve-se e passou a mo
pelos olhos, como que para afastar uma nuvem.

Mas, aps um instante de silncio, continuou:

- "O presidente voltou a subir a escada depois de meter a
espada na bengala. Um rego de sangue assinalava a sua passagem
na neve.

"Ainda no chegara ao cimo da escada quando ouviu um barulho
abafado na gua; era o corpo do general, que as testemunhas
acabavam de lanar ao rio depois de verificarem a morte.

"O general sucumbiu portanto num duelo leal e no numa
emboscada, como se poderia dizer.

"E como prova assinamos a presente, para estabelecer a
verdade dos factos, com receio de que algum dia qualquer dos
intervenientes nesta cena terrvel possa ser acusado de
assassnio com premeditao ou de infraco s leis da honra.

assinado: BEAUREGARD, DUCHAMPY e LECHARPAL."

Quando Franz terminou a leitura, to terrvel para um filho,
Valentine, plida de emoo, enxugou uma lgrima e Villefort,
trmulo e encolhido a um canto, procurou conjurar a tempestade
por meio de olhares suplicantes dirigidos ao velho implacvel.
Entretanto, Epinay dirigiu-se nestes termos a Noirtier.

- Senhor, uma vez que conhece esta terrvel histria em todos
os seus pormenores, visto a ter feito atestar por testemunhas
fidedignas, e porque, finalmente, parece interessar-se por
mim, embora o seu interesse s se tenha at agora revelado
atravs da dor, no me recuse uma ltima satisfao, diga-me o
nome do presidente do clube, para que eu conhea enfim aquele
que matou o meu pobre pai.

Villefort procurou, como que alucinado, o puxador da porta.
Valentine, que adivinhara antes de qualquer outra pessoa a
resposta do velho e que muitas vezes notara no antebrao do
av as cicatrizes de duas espadeiradas, recuou um passo.

- Em nome do Cu, menina - pediu Franz, dirigindo-se  noiva
--, junte-se a mim, para que eu saiba o nome do homem que me
fez rfo aos dois anos!

Valentine ficou imvel e muda.

- Oua, senhor - interveio Villefort --, acredite no que lhe
digo e no prolongue mais esta cena horrvel. Alis, os nomes
foram ocultados de propsito. Nem mesmo o meu pai sabe quem
era esse presidente, e ainda que o soubesse no o poderia
revelar: os nomes prprios no se encontram no dicionrio.

- Que pouca sorte a minha! - exclamou Franz. - A nica
esperana que me amparou durante toda a leitura e me deu
foras para ir at ao fim era saber ao menos o nome daquele
que matou o meu pai! Senhor, senhor - suplicou, virando-se
para Noirtier --, em nome do Cu, faa o que lhe seja
possvel... veja se consegue, suplico-lhe, indicar-me, dar-me
a entender...

- Sim - respondeu Noirtier.

- Menina, menina! - exclamou Franz. - O seu av fez sinal de
que podia indicar... esse homem... Ajude-me... compreende-o...
d-me a sua ajuda!

Noirtier olhou o dicionrio.

Franz pegou-lhe a tremer nervosamente e pronunciou
sucessivamente as letras do alfabeto at ao E.

Ao ouvir esta letra, o velho fez sinal que sim.

- E! - repetiu Franz.

O dedo do jovem percorreu as palavras; mas a todas Noirtier
respondia com um sinal negativo.

Valentine ocultava a cara entre as mos.

Por fim, Franz chegou  palavra EU.

- Sim - indicou o velho.

- O senhor?! - exclamou Franz, cujos cabelos se puseram em p.
- O Sr. Noirtier?... Foi o senhor que matou o meu pai?

- Sim - respondeu Noirtier, cravando no rapaz um olhar
majestoso. Franz caiu sem foras numa poltrona. Villefort
abriu a porta e fugiu, pois ocorrera-lhe a ideia de sufocar a
pouca existncia que ainda restava no corao do terrvel
velho.


Captulo LXXVI

Os progressos de Cavalcanti filho


Entretanto, o Sr. Cavalcanti pai partira para retomar o
servio, no no exrcito de S. M. o imperador da ustria, mas
sim na roleta das termas de Luca, de que era um dos mais
assduos cortesos.

Escusado ser dizer que embolsara com a mais escrupulosa
exactido, ate ao ltimo soldo, a importncia que lhe fora
concedida para a viagem e como recompensa pela forma majestosa
e solene como desempenhara o seu papel de pai.

O Sr. Andrea herdara,  sua partida, todos os documentos que
provavam ter a honra de ser filho do marqus Bartolomeo e da
marquesa Leanora Corsinari.

Encontrava-se pois quase admitido na sociedade parisiense, to
pronta a receber os estrangeiros e a trat-los no de acordo
com o que so, mas sim de acordo com o que pretendem ser.

De resto, que se pede a um rapaz em Paris? Que fale
assim-assim a sua lngua, que se vista convenientemente, que
seja bom jogador e que pague em ouro.

Escusado ser dizer que se  menos exigente com um estrangeiro
do que com um parisiense.

Andrea adquirira portanto em quinze dias uma excelente
posio. Tratavam-no por "Sr. Conde", dizia-se que tinha
cinquenta mil libras de rendimento e falava-se dos tesouros
imensos do senhor seu pai, enterrados, dizia-se, nas pedreiras
de Saravezza.

Um perito diante do qual se mencionava esta ltima
circunstncia como um facto, declarou ter visto tais
pedreiras, o que deu um grande peso a asseres que at ento
tinham pairado em estado de dvida e que a partir dai
adquiriram a consistncia da realidade.

As coisas encontravam-se neste p no circulo da sociedade
parisiense onde introduzimos os nossos leitores quando
Monte-Cristo veio uma tarde visitar o Sr. Danglars. Este
safra, mas propuseram ao conde ser recebido pela baronesa, que
estava visvel, o que ele aceitou.

No era nunca sem uma espcie de estremecimento nervoso que
depois do jantar de Auteuil e dos acontecimentos subsequentes
a Sr.a Danglars ouvia pronunciar o nome de Monte-Cristo. Se a
presena do conde se no seguia ao anncio do seu nome, a
sensao dolorosa tornava-se mais intensa; mas se, pelo
contrrio, o conde aparecia, a sua fisionomia franca, os seus
olhos brilhantes, a sua amabilidade e at a sua galanteria
bastavam, no tocante  Sr.a Danglars, para expulsar
rapidamente at  ltima impresso de receio. Parecia
impossvel  baronesa que um homem to encantador  superfcie
pudesse alimentar maus  desgnios contra ela. Alis, os
coraes mais corrompidos s podem acreditar no mal desde que
baseado em qualquer interesse; o mal intil. e sem causa
repugna como uma anomalia.

Quando Monte-Cristo entrou no boudoir onde j uma vez
introduzimos os nossos leitores e a baronesa seguia com olhar
bastante inquieto os desenhos que a filha lhe passava depois
de os ver com o Sr. Cavalcanti filho, a sua presena produziu
o efeito habitual e foi sorrindo que, depois de se sentir um
bocadinho perturbada ao ouvir o nome do visitante, a baronesa
recebeu o conde.

Este, pela sua parte, abarcou toda a cena num olhar.

Junto da baronesa, e quase deitada num canap, encontrava-se
Eugnie. Cavalcanti estava de p.
Vestido de preto como um heri de Goethe, de sapatos de verniz
e meias de seda branca bordadas, passava uma das mos,
suficientemente branca e razoavelmente tratada, pelos cabelos
louros, no meio dos quais cintilava um diamante que, apesar
dos conselhos de Monte-Cristo, o vaidoso jovem no resistira
ao desejo de usar no dedo mendinho.

O gesto era acompanhado de olhares assassinos lanados a
Mademoiselle Danglars e de suspiros enviados na mesma direco
dos olhares.

Mademoiselle Danglars continuava a ser a mesma, isto , bela,
fria e trocista. Nenhum daqueles olhares nem nenhum daqueles
suspiros de Andrea lhe escapavam. Mas dir-se-ia que deslizavam
pela couraa de Minerva, couraa que alguns filsofos
pretendem cobrir por vezes o peito de Safo.

Eugnie cumprimentou friamente o conde e aproveitou as
dificuldades iniciais da conversa para se retirar para a sua
sala de estudos, onde no tardaram a ouvir-se duas vozes
risonhas e barulhentas de mistura com os primeiros acordes de
um piano. Monte-Cristo ficou assim a saber que Mademoiselle
Danglars acabava de preferir  sua e  de Cavalcanti a
companhia de Mademoiselle Louise de Armilly, sua professora de
canto.

Foi sobretudo ento que, enquanto conversava com a Sr.
Danglars e embora parecesse absorvido pelo encanto da
conversa, o conde notou a solicitude do Sr. Andrea Cavalcanti
e a sua maneira de ir escutar a msica  porta, que no ousava
transpor, e de manifestar a sua admirao.

O banqueiro no tardou a regressar. O seu primeiro olhar foi
para Monte-Cristo,  certo, mas o segundo foi para Andrea.

Quanto  mulher, cumprimentou-a como certos maridos
cumprimentam a esposa, isto , de uma maneira de que os
solteiros s podero fazer ideia quando for publicado o cdigo
minucioso da conjugalidade.

- Ento aquelas meninas no o convidaram para tocar com elas?
- perguntou Danglars a Andrea.

- Infelizmente, no, senhor - respondeu Andrea, com um suspiro
ainda mais profundo do que os outros.

Danglars dirigiu-se imediatamente para a porta de comunicao
e abriu-a.

Viram-se ento as duas raparigas sentadas no mesmo banco e
diante do mesmo piano. Acompanhavam-se cada uma com uma das
mos, exerccio a que se tinham habituado por brincadeira e se
haviam tornado de uma percia notvel.
Mademoiselle de Armilly, que formava com Eugnie, graas 
moldura da porta, um desses quadros vivos muito em uso na
Alemanha, era de uma beleza deveras notvel, ou antes, de uma
gentileza requintada. Era uma mulherzinha  franzina e loura
como uma fada, de comprido cabelo encaracolado que lhe caa
sobre o pescoo um bocadinho alto, como Perugino retratava s
vezes as suas virgens, e olhos velados pela fadiga. Dizia-se
que tinha o peito fraco e que, como a Antnia do Violino de
Cremona, morreria um dia a cantar.

Monte-Cristo deitou quele gineceu um olhar rpido e curioso.
Era a primeira vez que via Mademoiselle de Armilly, de quem
tantas vezes ouvira falar naquela casa.

- Ento estamos excludos da funo? - perguntou o banqueiro 
filha.

Em seguida levou o rapaz para a salinha e, quer por acaso,
quer de propsito, a porta foi empurrada atrs de Andrea de
maneira que do stio onde se encontravam sentados
Monte-Cristo e a baronesa no pudessem ver nada. Mas como o
banqueiro acompanhara Andrea, a Sr.a Danglars nem sequer
pareceu notar semelhante pormenor.

Pouco depois o conde ouviu a voz de Andrea soar aos acordes do
piano acompanhando uma cano corsa.

Enquanto o conde escutava sorrindo a cano, que lhe fazia
esquecer Andrea e recordar Benedetto, a Sr.a Danglars gabava a
Monte-Cristo a fora de alma do marido, que ainda naquela
manh perdera numa falncia milanesa, trezentos ou
quatrocentos mil francos.

E, com eleito, o elogio era merecido. Porque se o conde no
tivesse sabido do caso pela baronesa ou talvez por um dos
meios que tinha de saber tudo, a cara do baro nada lhe teria
revelado a tal respeito.

"Bom, comea a esconder o que perde. H um ms, gabava-se ...
", pensou Monte-Cristo.

Depois, em voz alta:

- Mas, minha senhor, o Sr. Danglars conhece to bem a Bolsa
que recuperar sempre l o que perder noutro lado.

- Vejo que labora no erro comum - redarguiu a Sr.a Danglars.

- E qual  esse erro? - perguntou Monte-Cristo.

- O de que o Sr. Danglars joga, quando, pelo contrrio, nunca
joga.

- Tem razo, minha senhora. Recordo-me de o Sr. Debray me
haver dito... A propsito, que  feito do Sr. Debray? H trs
ou quatro dias que o no vejo.

- Nem eu - respondeu a Sr.a Danglars, com uma presena de
esprito admirvel. - Mas o senhor comeou uma frase que ficou
inacabada.

- Qual?

- Afirmava que o Sr. Debray lhe dissera...

- Ah,  verdade? O Sr. Debray disse-me que era a senhora que
sacrificava ao demnio do jogo.

- Tive esse gosto durante algum tempo, confesso, mas j o no
tenho - declarou a Sr.a Danglars.

- Pois faz mal, minha senhora. Meu Deus, as oportunidades da
fortuna so to precrias que se eu fosse mulher - e o acaso
me tivesse tornado esposa de um banqueiro, por mais confiana
que depositasse na sorte do meu marido (porque em especulao,
como sabe,  tudo sorte e azar), repito; por mais confiana
que depositasse na sorte do meu marido, comearia sempre por
me garantir uma fortuna independente, ainda que para adquirir
essa fortuna tivesse de confiar os meus interesses a mos que
lhe fossem desconhecidas.

A Sr.a Danglars corou, a seu pesar.

- Olhe - prosseguiu Monte-Cristo, como se no tivesse visto
nada --, fala-se de um bom golpe dado ontem com ttulos de
Npoles.

- No tenho - respondeu vivamente a baronesa --, nem nunca os
tive. Mas parece-me que j falmos o suficiente de Bolsa, Sr.
Conde. Parecemos dois correctores... Falemos um pouco dos
pobres Villeforts, to perseguido neste momento pela
fatalidade.

- Que lhes aconteceu? - perguntou Monte-Cristo com perfeita
ingenuidade.

- Ento no sabe? Depois de perderem o Sr. de Saint-Mran,
trs ou quatro dias depois da sua partida, acabam de perder a
marquesa, trs ou quatro dias depois da sua chegada.

- Ah,  verdade, soube disso! - declarou Monte-Cristo. - Mas
como diz Cldio a Hamlet, trata-se de uma lei da natureza: os
seus pais morreram antes deles e eles choraram-nos; eles
morrero antes dos seus filhos e os seus filhos chor-los-o.

- Mas isso no  tudo.

- Como no  tudo?

- No. Como sabe, iam casar a filha...

- Com o Sr. Franz de Epinay... Desfizeram o casamento?

- Ontem de manh, ao que parece, Franz restituiu-lhes a sua
palavra.

- Deveras?... E conhecem-se as causas desse rompimento?

- No.

- Que notcias me d, meu Deus! A Sr.a e o Sr. de Villefort
como aceitaram todas essas desgraas?

- Como sempre, com filosofia.

Neste momento, Danglars voltou a entrar, sozinho.

- Ento deixou o Sr. Cavalcanti com a sua filha? - observou a
baronesa.

- E Mademoiselle de Armilly no  ningum? - replicou o
banqueiro.

Depois, virando-se para Monte-Cristo:

- Encantador rapaz, no  verdade? Refiro-me ao prncipe
Cavalcanti... Mas ele  mesmo prncipe?

- No garanto - respondeu Monte-Cristo. - Apresentaram-me o
pai como marqus; logo, ele seria conde. Mas creio que ele
mesmo no tem grandes pretenses a esse ttulo.

- Porqu? - redarguiu o banqueiro. - Se  prncipe, faz mal em
no o dizer. A cada um o que lhe pertence. No gosto que as
pessoas reneguem a sua origem.

- Mas o senhor  um democrata! - exclamou Monte-Cristo,
sorrindo.

- Veja ao que se expe - observou a baronesa ao marido.

Se o Sr. de Morcerf entrasse por acaso e encontrasse o Sr.
Cavalcanti numa sala onde ele, noivo de Eugnie, nunca teve
permisso de entrar...

- Faz bem em dizer por acaso - replicou o banqueiro --, porque
na verdade dir-se-ia, to raramente o vemos, que  de facto
por acaso que ele c vem.

- Enfim, se viesse e encontrasse esse rapaz com a nossa filha
poderia no gostar.

- Ele? Meu Deus, como est enganada! O Sr. Albert no nos d a
honra de ter cimes da sua noiva; no a ama o bastante para
isso. De resto, que me importa que goste ou no goste?

- No entanto, no ponto em que estamos ...

- Sim, no ponto em que estamos. Quer saber no ponto em que
estamos? No baile da me, ele danou uma nica vez com a minha
filha, o Sr. Cavalcanti danou trs vezes com ela e ele nem
sequer deu por isso.

- O Sr. Visconde Albert de Morcerf! - anunciou um criado
A baronesa levantou-se vivamente. Ia a dirigir-se para a sala
de estudos, a fim de prevenir a filha, quando Danglars a
deteve por um brao.

- Deixe - disse-lhe.

Ela olhou-o atnita.

Monte-Cristo fingiu no ter visto nada.

Albert entrou. Vinha elegante e alegre. Cumprimentou a
baronesa com -vontade, Danglars com familiaridade e
Monte-Cristo com amizade.

Depois, virando-se para a. baronesa, perguntou:

- Permite-me minha senhora, que lhe pea o favor de me dizer
como est Mademoiselle Danglars?

- Est ptima, senhor - respondeu vivamente Danglars. - Neste
momento toca um pouco de msica na sua salinha com o Sr.
Cavalcanti.

Albert conservou O seu ar calmo e indiferente. Talvez
experimentasse algum despeito ntimo, mas sentia o olhar de
Monte-Cristo fixo nele.

- O Sr. Cavalcanti tem uma belssima voz de tenor - disse - e
Mademoiselle Eugnie  um magnfico soprano, sem contar que
toca piano como Thalberg. Deve ser um agradvel concerto.

- De facto, harmonizam-se admiravelmente - acrescentou
Danglars. Albert pareceu no notar a grosseira ambiguidade da
frase, to grosseira que a Sr.a Danglars corou.

- Eu tambm sou msico - continuou o rapaz. - Pelo menos  o
que dizem os meus professores... Pois, coisa estranha, at
agora nunca consegui harmonizar a minha voz com qualquer
outra, e com a voz dos sopranos ainda menos do que com as
outras.

Danglars esboou um sorriso que significava: "Pois sim, mas
acusaste o toque!"

- Por isso - replicou, esperando sem dvida chegar ao fim que
pretendia --, o prncipe e a minha filha causaram ontem a
admirao geral. No esteve ontem no baile, Sr. de Morcerf?

- Qual prncipe? - perguntou Albert.

- O prncipe Cavalcanti - respondeu Danglars, que continuava a
obstinar-se a dar este titulo ao rapaz.

- Perdo, ignorava que fosse prncipe! - redarguiu Albert. -
Com que ento o prncipe Cavalcanti cantou ontem com
Mademoiselle Eugnie?... Na verdade, deve ter sido maravilhoso
e lamento muito profundamente no ter ouvido. Mas no pude
corresponder ao seu convite, tive de acompanhar a Sr.a de
Morcerf a casa da baronesa de Chteau-Renaud, onde cantavam
os alemes.

E aps um silncio, como se nada se tivesse passado, insistiu:

- Ser-me- permitido apresentar os meus cumprimentos a
Mademoiselle Danglars?

- Oh, espere, espere, suplico-lhe! - interveio o banqueiro,
detendo o jovem. - Oua esta maravilhosa cavatina... T, t,
t, ti, t, t!... Maravilhoso! Est quase a terminar...  s
um segundo. Perfeito! Bravo! Bravi! Brava!

E o banqueiro desatou a aplaudir com frenesi.

- Efectivamente - disse Albert --,  delicioso, e deve ser
impossvel algum compreender melhor a msica do seu pas do
que o prncipe Cavalcanti. Disse prncipe, no  verdade?
Alis, se no for prncipe, f-lo-o prncipe; em Itlia 
fcil. Mas para voltarmos aos nossos adorveis cantores,
deveria proporcionar-nos um prazer, Sr. Danglars: sem os
prevenir de que est aqui um estranho, deveria pedir a
Mademoiselle Danglars e ao Sr. Cavalcanti que cantassem outro
trecho.  to delicioso ouvir msica um pouco afastado, na
penumbra, sem ser visto, sem ver e, portanto, sem incomodar os
msicos... e podermo-nos entregar assim a todo o instinto do
seu gnio ou a lodo o mpeto do seu corao.

Desta vez a fleuma do rapaz desarmou Danglars.

Chamou Monte-Cristo  parte e perguntou-lhe:

- Que me diz do nosso apaixonado?

- Demnio, parece-me frio isso  incontestvel... Mas que lhe
quer fazer? o senhor est comprometido...

- Claro que estou comprometido, mas prefiro dar a minha filha
a um homem que a ame do que a um homem que a no ame. Veja-o:
frio como mrmore e orgulhoso como o pai. Se fosse rico, ainda
v; se tivesse a fortuna dos Cavalcanti, passaramos por cima
disso, mas assim... Ainda no consultei a minha filha, mas se
ela tivesse bom gosto...

- No sei se ser a minha amizade por ele que me cega - disse
Monte-Cristo --, mas garanto-lhe que o Sr. de Morcerf  um
jovem encantador, que far a sua filha feliz e que mais tarde
ou mais cedo ser algum. Porque, enfim, a posio do pai 
excelente...

- Hum! -- resmungou Danglars.

- Porqu essa dvida?

- H sempre o passado... aquele passado obscuro.

- Mas o filho no tem nada a ver com o passado do pai.

- Pois no, pois no!

- Vamos, no perca a cabea. H um ms, achava este casamento
excelente... Compreende, a minha situao  desagradvel: foi
em minha casa que o senhor viu o jovem Cavalcanti, que eu nem
sequer conhecia, repito-lhe.

- Conheo-o eu e isso basta - redarguiu Danglars.

- Conhece-o? Quer dizer que tirou informaes dele? -
perguntou Monte-Cristo.

- Acha necessrio? No se v jogo  primeira vista com quem
estamos a tratar? Em primeiro lugar,  rico...

- No garanto. - Ento porque responde por ele?

- Cinquenta mil libras, uma misria!...

- Tem uma excelente educao.

- Hum!... - resmungou por sua vez Monte-Cristo.

-  msico.

- Todos os italianos o so.

- Olhe, conde, o senhor no  justo com esse rapaz.

- Bom... confesso que veio com desgosto, sabendo dos seus
compromissos com os Morcerfs, o rapaz vir assim meter-se de
permeio e abusar da sua sorte.

Danglars desatou a rir.

- Oh, o senhor  puritano! - exclamou. - Mas estas coisas
fazem-se todos os dias no mundo.

- No entanto, no pode romper assim, meu caro Sr. Danglars. Os
Morcerfs contam com esse casamento.

- Contam?...

- Positivamente.

- Ento, que se expliquem. O senhor deveria dizer umas
palavrinhas a esse respeito ao pai, meu caro conde, visto ser
to bem recebido l em casa.

- Eu? Onde diabo viu o senhor isso?

- No baile que eles deram, se me no engano... Ento a
condessa, a orgulhosa Mercds, a desdenhosa catal, que quase
desdenha abrir a boca para dirigir a palavra aos seus mais
velhos conhecimentos, no lhe deu o brao e saiu consigo para
o jardim, no meteu pelas alamedas mais isoladas e no
reapareceu passada apenas cerca de meia hora?...

- Ah, baro, baro!... - interveio Albert. - O senhor
impede-nos de ouvir. Num melmano como o senhor, que
barbaridade!

- Est bem, est bem, senhor trocista - redarguiu Danglars.
Depois, voltando-se para Monte-Cristo:

- Encarrega-se de falar ao pai?

- De boa vontade, se assim o deseja.

-Mas que desta vez as coisas sejam feitas de maneira explcita
e definitiva. Sobretudo que me pea a minha filha, que marque
uma data, que declare as suas condies monetrias, enfim, que
nos entendamos ou desentendamos.
Mas, compreende, nada de mais adiamentos.

- Pronto, falarei com ele.

- No lhe digo que espero com prazer que seja bem sucedido;
mas enfim, espero-o. Um banqueiro, como sabe, deve ser escravo
da sua palavra.

E Danglars soltou um daqueles suspiros que soltava meia hora
antes o jovem Cavalcanti.

- Bravi! Bravo! Brava.! -- gritou Morcerf, parodiando o
banqueiro aplaudindo o fim do trecho.

Danglars comeava a olhar Albert de esguelha quando lhe vieram
dizer umas palavras em voz baixa.

- Volto j - disse o banqueiro a Monte-Cristo: - Espere por
mim. Talvez tenha alguma coisa a dizer-lhe daqui a pouco.

E saiu.

A baronesa aproveitou a ausncia do marido para empurrar a
porta da sala de estudos da filha, e todos viram
endireitar-se, como que impelido por uma mola, o Sr. Andrea
Cavalcanti, que estava sentado ao piano com Mademoiselle
Eugnie.
Albert cumprimentou sorrindo Mademoiselle Danglars, que, sem
parecer de modo algum perturbada, lhe correspondeu com um
cumprimento to frio como de costume.

Cavalcanti pareceu evidentemente embaraado; cumprimentou
Morcerf, que lhe retribuiu, o cumprimento com o ar mais
impertinente do mundo.

Depois, Albert comeou a desfazer-se em elogios  voz de
Mademoiselle Danglars e a lamentar que, atendendo ao que
acabava de ouvir, lhe no tivesse sido possvel assistir 
festa da vspera...

Cavalcanti, deixado entregue a si mesmo, afastou-se com
Monte-Cristo.

- Bom - disse a Sr.a Danglars basta de msica e de
cumprimentos; venham tomar ch.

- Vem, Louise - disse Mademoiselle Danglars  amiga.
Passaram  sala contgua, onde efectivamente o ch estava
preparado.

No momento em que comeavam a deixar,  moda inglesa, as
colheres nas chvenas, a porta abriu-se e Danglars reapareceu
visivelmente muito agitado.

Monte-Cristo, sobretudo, notou essa agitao e interrogou o
banqueiro com a vista.

- Acabo de receber o meu correio da Grcia... - disse
Danglars.

- Ah, ah! - exclamou o conde. - Foi por isso que o vieram
chamar?

- Foi.

- Como est o rei Oto? - perguntou Albert no tom mais jovial
que se possa imaginar.

Danglars olhou-o de esguelha, sem lhe responder, e
Monte-Cristo virou-se para esconder a expresso de piedade
que acabava de lhe surgir no rosto e que se desvaneceu quase
imediatamente.

- Samos juntos, no  verdade? - perguntou Albert ao conde.

- Sim, se quiser - respondeu este.

Albert no compreendeu o olhar que o banqueiro lhe deitou.
Por isso, virando-se para Monte-Cristo, que compreendera
perfeitamente, observou:

- Viu como ele me olhou?

- Vi - respondeu o conde. - Mas nota alguma coisa de especial
no seu olhar?

- Creio bem que sim. Que quer ele dizer com as suas notcias
da Grcia?

- Como quer que saiba?

- Porque, segundo presumo, o senhor tem entendimentos no pas.

Monte-Cristo sorriu como sorriem sempre as pessoas quando
querem dispensar-se de responder.

- Olhe - disse Albert --, a vem ele ter consigo. Enquanto
felicito Mademoiselle Danglars pelo seu camafeu, o pai ter
tempo de falar com o senhor...

- Se a vai felicitar, felicite-a ao menos pela sua voz -
aconselhou Monte-Cristo.

- No, isso seria o que faria toda a gente.

- Meu caro visconde - disse Monte-Cristo --, o senhor tem a
fatuidade da impertinncia.

Albert aproximou-se de Eugnie com o sorriso nos lbios.
Entretanto, Danglars inclinou-se ao ouvido do conde.

- O senhor deu-me um excelente conselho - cochichou. Existe
uma histria horrvel relacionada com estes dois nomes:
Fernand e Janina.

- Ah, sim?!...

- Sim. Depois lhe conto. Agora leve daqui o rapaz. Ficaria
muito embaraado se tivesse de falar neste momento com ele.

-  o que vou fazer: lev-lo comigo. Ainda  preciso
mandar-lhe o pai?

- Agora, mais do que nunca.

- Est bem.

O conde fez um sinal a Albert.

Ambos cumprimentaram as senhoras e saram. Albert, com um ar
perfeitamente indiferente para com os desdens de Mademoiselle
Danglars; Monte-Cristo, reiterando  Sr.a Danglars os seus
conselhos a respeito da prudncia que deve ter a mulher de um
banqueiro quanto a assegurar o seu futuro.

O Sr. Cavalcanti ficou senhor do campo de batalha.


Captulo  LXXVII

Hayde


Ainda mal os cavalos do conde tinham virado a esquina do
bulevar e j Albert se virava para Monte-Cristo e desatava a
rir, mas de forma to ruidosa que no podia deixar de ser um
pouco forada.

- Bom, pergunto-lhe como o rei Carlos IX perguntava a Catarina
de Mdicis depois da S. Bartolomeu (1): como acha que
desempenhei o meu pequeno papel?

(1) Referncia ao massacre da noite de S. Bartolomeu, a
corrida em Paris na noite de 24-8-1572, o episdio mais
sangrento da guerra religiosa. (N. da R.)

- A que propsito? - perguntou Monte-Cristo.

- Mas a propsito da instalao do meu rival em casa do Sr.
Danglars.

- Qual rival?

- Homessa, qual rival?! O seu protegido, o Sr. Andrea
Cavalcanti!

- Oh, deixemo-nos de gracejos, visconde! No protejo de modo
algum o Sr. Andrea, pelo menos junto do Sr. Danglars.

- Censur-lo-ia por isso se o rapaz necessitasse de proteco.
Mas, felizmente para mim, pode passar sem ela.

- Como, parece-lhe que ele faz a sua corte?...

- Respondo-lhe: pelo menos deita olhos e modula sons de
apaixonado; aspira  mo da orgulhosa Eugnie. Olhe, fiz um
verso! Palavra de honra que no foi de propsito. Mas no
interessa, repito-o: aspira  mo da orgulhosa Eugnie (2).

(2) Em francs "il aspire  la main de la fire Eugnie."
(N. do T.)

- Que importa, se s pensam no senhor?

- No me diga isso, meu caro conde; atacam-me dos dois lados.

- Como, dos dois lados?

- Sem dvida: Mademoiselle Eugnie mal me respondeu e
Mademoiselle de Armilly, sua confidente, no me disse
absolutamente nada.

- Pois sim, mas o pai adora-o - observou Monte-Cristo.

- Ele? Mas pelo contrrio, cravou-me mil punhais no corao.
Punhais que recolhem no punho,  certo, punhais de tragdia,
mas que ele julgava realmente a srio.

- O cime indica afeio.

- Pois sim, mas no estou com cimes.

- Est ele.

- De quem? De Debray?

- No, do senhor.

- De mim? Aposto que dentro de oito dias me fecha a porta na
cara.

- Engana-se, meu caro visconde.

- Uma prova.

- Quere-a?

- Quero.

- Estou encarregado de pedir ao Sr. Conde de Morcerf que faa
uma diligncia definitiva junto do baro.

- Por quem?

- Pelo prprio baro.

- Oh! - exclamou Albert com toda a indolncia de que era
capaz. - Mas o senhor no far isso, no  verdade, meu caro
conde?

- Engana-se, Albert, f-lo-ei porque o prometi.

- Pronto - redarguiu Albert com um suspiro --, parece que o
senhor est absolutamente decidido a casar-me.

- Estou decidido a estar de bem com toda a gente. Mas a
propsito de Debray: nunca mais o vi em casa da baronesa.

- Est de relaes cortadas.

- Com a senhora?

- No, com o senhor.

- Descobriu-se ento alguma coisa?

- Ah, que boa piada!

- Acha que ele desconfiava? - inquiriu Monte-Cristo,
com encantadora ingenuidade.

- Ora essa!... Donde veio o senhor, meu caro conde?

- Do Congo, se quiser.

- Ainda no  suficientemente longe.

- Quer dizer que no conheo os maridos parisienses?

- Meu caro conde, os maridos so os mesmos em toda a parte. A
partir do momento em que tenha estudado o indivduo em
qualquer pas, conhece a espcie.

- Mas ento por que motivo se zangaram Danglars e Debray?
Pareciam entender-se to bem... - observou Monte-Cristo, com
novo assomo de ingenuidade.

- Ora a est! Nesse caso entramos nos mistrios de sis, e
eu no sou iniciado. Quando o Sr. Cavalcanti filho for da
famlia, pergunte-lhe isso.

A carruagem parou.

- Pronto, chegmos - disse Monte-Cristo. - So apenas dez e
meia, suba.

- De boa vontade.

- A minha carruagem lev-lo .

- No, obrigado. O meu cup deve ter-nos seguido.

- De facto, vem a - confirmou Monte-Cristo, apeando-se.

Entraram ambos na casa. A sala estava iluminada e para l se
dirigiram.

- Faa-nos ch, Baptistin - ordenou Monte-Cristo.
Baptistin saiu sem abrir a boca. Passados dois segundos
reapareceu com uma bandeja completamente servida e que, como
as colaes das mgicas, parecia sada do cho.

- Na verdade - disse Morcerf --, o que admiro no senhor, meu
caro conde, no  a sua riqueza; talvez haja pessoas mais
ricas do que o senhor. Nem o seu esprito; Beaumarchais no
tinha mais, mas tinha tanto.  a sua maneira de ser servido,
sem que lhe respondam uma palavra, num minuto, num segundo,
como se o adivinhassem, a forma como pede o que deseja e como
o que deseja est sempre pronto.

- O que diz  um pouco verdade. Conhecem os meus hbitos. Por
exemplo, vai ver: no deseja fazer qualquer coisa enquanto
bebe o seu ch?

- Bom, apetece-me fumar...

Monte-Cristo aproximou-se da campainha e tocou uma vez.

Passado um segundo, abriu-se uma porta particular e apareceu
Ali com dois chbuques cheios de excelente tabaco turco.

-  maravilhoso - confessou Morcerf.

- Mas no,  tudo simples - redarguiu Monte-Cristo. -  Ali
sabe que habitualmente, quando tomo ch ou caf, fumo. Sabe
que pedi ch, sabe que vim consigo, ouve-me cham-lo, supe
por que motivo, e como  de um pas onde a hospitalidade se
exerce com o cachimbo, principalmente, em vez de um chbuque
trouxe dois.

- Claro que se trata de uma explicao como qualquer outra;
mas nem por isso  menos verdade que como o senhor no existe
outro... Oh, mas que estou a ouvir?!

E Morcerf inclinou-se para a porta, pela qual entravam
efectivamente sons correspondentes aos de uma guitarra.

- Palavra, meu caro visconde, que est votado  msica esta
noite; s escapou ao piano de Mademoiselle Danglars para cair
na gusla de Hayde.

- Hayde! Que nome adorvel! H portanto mulheres que se
chamam realmente Hayde sem ser nos poemas de Lorde Byron?

- Com certeza. Hayde  um nome muito raro em Frana, mas
bastante comum na Albnia e no Epiro.  como se dissesse, por
exemplo, castidade, pudor, inocncia. Trata-se de uma espcie
de nome de baptismo, como dizem os seus Parisienses.

- Oh, como  encantador! - exclamou Albert, como se esperasse
ver as nossas francesas chamarem-se Mademoiselle Bondade,
Mademoiselle Silncio, Mademoiselle Caridade Crist! - Imagine
se Mademoiselle Danglars, em vez de se chamar
Claire-Marie-Eugnie, como se chama, se chamasse
Mademoiselle Castidade Pudor Inocncia Danglars - apre! --, o
efeito que isso no faria numa publicao de banhos!

- Louco! - redarguiu o conde. - No graceje to alto que
Hayde poder ouvi-lo.

- E zangar-se-ia?

- No - respondeu o conde, com o seu ar altivo.

-  boa pessoa? - perguntou Albert.

- No se trata de bondade, mas sim de dever: uma escrava no
se zanga com o seu senhor.

- Vamos, no graceje o senhor agora! Porventura ainda h
escravos?

- Sem dvida, uma vez que Hayde  a minha.

- Com efeito, o senhor no faz nada nem  em nada como os
outros. Escrava do Sr. Conde de Monte-Cristo!  uma posio
em Frana. Da forma  como o senhor espalha o dinheiro,  um
lugar que deve valer cem mil escudos por ano.

- Cem mil escudos! A pobre criana j possuiu mais do que
isso. Veio de um mundo em que os tesouros so tantos que ao p
deles os das Mil e Uma Noites so bem pouca coisa.

-  portanto realmente uma princesa?

- Sem dvida nenhuma, e at uma das maiores do seu pas.

- J tinha imaginado. Mas como se tornou uma grande princesa
escrava?

- Como se tornou Dinis, o Tirano, professor primrio?
Acasos da guerra, meu caro visconde, caprichos da sorte.

- E o seu nome  segredo?

- , para toda a gente. Mas para o senhor, caro visconde, que
 um dos meus amigos e que se calar... No  verdade que me
promete calar-se?

- Oh, palavra de honra!

- Conhece a histria do pax de Janina?

- De Ali-Tebelin? Sem dvida, pois foi ao seu servio que o
meu pai fez fortuna.

-  verdade, tinha-me esquecido.

- Bom, que era Hayde a Ali-tebelin?

- Sua filha, muito simplesmente.

- Como, filha de Ali-Pax?!

- E da bela Vasiliki.

- E  sua escrava?

- Oh, meu Deus, !

- Como  possvel?

- Ora essa, comprei-a ao passar um dia pelo Mercado de
Constantinopla.

- Esplndido! Consigo, meu caro conde, no se vive, sonha-se.
Agora oua:  muito indiscreto o que lhe vou pedir...

- Pea sempre.

- Mas uma vez que sai com ela, que a leva  pera...

- E depois?

- Posso arriscar-me a pedir-lhe isto?

- O senhor pode arriscar-se a pedir-me tudo.

- Nesse caso, meu caro conde, apresente-me  sua princesa.
- Com muito prazer. Mas com duas condies.

- Aceito-as antecipadamente.

- A primeira  que no revelar a ningum essa apresentao.

- Muito bem! - Morcerf estendeu a mo. - Juro-o!

- A segunda  que no lhe dir que o seu pai serviu o dela.

- Juro-o tambm.

- ptimo, visconde. No se esquecer desses dois juramentos,
pois no?

- Oh! - exclamou Albert.

- Muito bem. Sei que  um homem de honra.

O conde tocou de novo a campainha. Ali apareceu.

- Previne Hayde - disse-lhe Monte-Cristo - de que vou tomar
o caf com ela e d-lhe a entender que peo licena para lhe
apresentar um dos meus amigos.

Ali inclinou-se e saiu.

- Portanto, est combinado, nada de perguntas directas caro
visconde. Se desejar saber alguma coisa, pergunte-a a mim e eu
pergunt-la-ei a ela.

- Est combinado.

Ali reapareceu pela terceira vez e manteve o reposteiro
levantado para indicar ao amo e a Albert que podiam passar.

- Entremos - disse Monte-Cristo.

Albert passou a mo pelo cabelo e cofiou o bigode. O conde
pegou no chapu, calou as luvas e precedeu Albert nos
aposentos que Ali guardava como uma sentinela avanada e que
defendiam como um posto as trs criadas de quarto francesas,
comandadas por Myrtho.

Hayde esperava na primeira diviso, que era a sala, com os
olhos muito abertos de surpresa. Porque era a primeira vez que
outro homem alm de Monte-Cristo penetrava nos seus
aposentos. A jovem estava sentada num sof, a um canto, com as
pernas cruzadas debaixo do corpo, e fizera por assim dizer um
ninho nos estofos de seda listrados e bordados, os mais ricos
do Oriente. Junto dela encontrava-se o instrumento cujos sons
a tinham denunciado. Eslava encantadora assim.

Ao ver Monte-Cristo, levantou-se com o duplo sorriso de filha
e amante que s ela possua. Monte-Cristo aproximou-se e
estendeu-lhe a mo, que ela, como de costume, beijou.

Albert ficara ao p da porta, dominado por aquela beleza
estranha que via pela primeira vez e de que se no podia fazer
qualquer ideia em Frana.

- Quem me trazes? - perguntou em romaico a jovem a
Monte-Cristo. - Um irmo, um amigo, um simples conhecido ou
um inimigo?

- Um amigo - respondeu Monte-Cristo na mesma lngua.

- O seu nome?

- O visconde Albert, o mesmo que tirei das mos dos bandidos
em Roma.

- Em que lngua queres que lhe fale?

Monte-Cristo virou-se para Albert e perguntou-lhe:

- Conhece o grego moderno?

- Ai de mim, nem mesmo o grego antigo, meu caro conde! -
respondeu Albert. - Nunca Homero e Plato tiveram mais fraco
e, ouso at dizer, mais desdenhoso estudante.

- Ento - disse Hayde, provando com as suas prprias palavras
que entendera a pergunta de Monte-Cristo e a resposta de
Albert --, falarei em francs ou em italiano, se o meu senhor
desejar que fale.

Monte-Cristo reflectiu um instante.

- Falars em italiano - disse.

Depois, virando-se para Albert:

-  pena que no perceba o grego moderno ou o grego antigo,
pois Hayde fala ambos admiravelmente. A pobre pequena vai ser
obrigada a falar-lhe em italiano, o que talvez lhe d uma
falsa ideia a seu respeito.

Em seguida fez um sinal de Hayde.

- Seja bem-vindo, amigo, que vem com o meu senhor e amo -
disse a jovem em excelente toscano, com a suave pronncia
romana que torna a lngua de Dante to sonora como a lngua de
Homero. - Ali, caf e cachimbos!

E Hayde fez com a mo sinal a Albert para se aproximar,
enquanto Ali se retirava para cumprir as ordens da sua jovem.

Monte-Cristo indicou a Albert dois bancos articulados e cada
um foi buscar o seu, que trouxe para junto de uma espcie de
mesinha cujo centro era ocupado por um narguil e na qual se
viam com profuso flores naturais, desenhos e lbuns de
msica.

Ali regressou com o caf e os chbuques. Quanto ao Sr.
Baptistin, aquela parte da casa estava-lhe vedada.

Albert recusou o cachimbo que lhe apresentava o nbio.

- Oh, aceite, aceite! - disse Monte-Cristo. - Hayde  quase
to civilizada como uma parisiense. O havano -lhe
desagradvel porque no aprecia os maus cheiros. Mas o tabaco
do Oriente  um perfume, como sabe.

Ali saiu.

As chvenas de caf estavam preparadas. Apenas se juntara,
para Albert, um aucareiro. Monte-Cristo e Hayde tomavam a
bebida rabe  moda dos rabes, isto , sem acar.

Hayde estendeu a mo e pegou com a ponta dos deditos rosados
e afilados a chvena de porcelana do Japo, que levou aos
lbios com o prazer ingnuo de uma criana que bebe ou come
uma coisa de que gosta.

Ao mesmo tempo, entraram duas mulheres com mais duas bandejas
carregadas de gelados e sorvetes, que depositaram em cima de
duas mesinhas destinadas a esse fim.

- Meu caro anfitrio, e vs, signora - disse Albert em
italiano --, desculpai a minha estupefaco. Estou
completamente aturdido, como  natural. Eis-me no Oriente, no
verdadeiro Oriente, infelizmente no tal como o vi, mas sim
tal como o sonhei em Paris. Ainda h pouco tinha a sensao de
ouvir passar o nibus e tocar as campainhas dos vendedores de
limonadas... Oh, signora, que pena eu no falar grego! A sua
conversao, juntamente com este ambiente ferico,
proporcionar-me-ia uma noite de que nunca mais me esqueceria.

- Falo bastante bem o italiano para falar consigo, senhor -
respondeu tranquilamente Hayde. - E farei o possvel, se
gosta do Oriente, para que o reencontre aqui.

- De que posso falar? - perguntou baixinho Albert a
Monte-Cristo.

- Mas de tudo o que quiser. Do seu pas, da sua juventude, das
suas recordaes. Depois, se preferir, de Roma, de Npoles ou
de Florena.

- Oh, no valeria a pena estar diante de uma grega para lhe
falar de tudo o que falaria a uma parisiense! - protestou
Albert. - Deixe-me falar-lhe do Oriente.

- De facto, meu caro Albert,  a conversao que mais lhe
agrada.

Albert virou-se para Hayde.

- Com que idade, signora, deixou a Grcia? - perguntou.

- Aos cinco anos - respondeu Hayde.

- E ainda se lembra da sua ptria?

- Quando fecho os olhos, revejo tudo o que vi. H dois
olhares: o olhar do corpo e o olhar da alma. O olhar do corpo
pode s vezes esquecer, mas o da alma lembra-se sempre.

- E qual  o tempo mais distante de que se recorda?

- Mal andava. A minha me, que se chamava Vasiliki (Vasiliki
quer dizer real) - acrescentou a jovem, erguendo a cabea. - A
minha me pegava-me na mo e, ambas cobertas com um vu,
depois de metermos na bolsa todo o ouro  que possuamos,
amos pedir esmola para os prisioneiros dizendo: "Quem d aos
pobres, empresta a Deus." (1) Depois, quando tnhamos a bolsa
cheia, regressvamos ao palcio e, sem dizer nada ao meu pai,
mandvamos todo o dinheiro que nos tinham dado, tomando-nos
por pobres mulheres, ao superior do convento, que o distribua
entre os prisioneiros.

(1) provrbios, XIX.

- E nessa poca que idade tinha?

- Trs anos - respondeu Hayde.

- Ento, lembra-se de tudo o que se passou  sua volta a
partir dos trs anos?

- De tudo.

- Conde - disse baixinho Morcerf a Monte-Cristo --, devia
permitir  signora que nos contasse um pouco da sua
histria. Proibiu-me de lhe falar do meu pai, mas talvez ela
me fale dele, e no imagina quo feliz seria ouvindo sair o
seu nome de to bonita boca.

Monte-Cristo virou-se para Hayde, e com um franzir de
sobrolho indicativo de que devia conceder a maior ateno 
recomendao que lhe ia fazer, disse-lhe em grego:

- Conta-nos o destino do teu pai, mas no digas o nome do
traidor nem fales da traio.

Hayde soltou um longo suspiro e uma nuvem escura passou-lhe
pela fronte to pura.

- Que lhe disse? - perguntou Morcerf em voz baixa.

- Repeli-lhe que o senhor  um amigo e que no tem de se
coibir na sua presena.

- Portanto - disse Albert --, esse remoto peditrio para os
prisioneiros  a sua primeira recordao. Qual  a outra?

- A outra? Vejo-me  sombra dos sicmoros, junto de um lago de
que distingo ainda, atravs da folhagem, o espelho trmulo. O
meu pai estava sentado em coxins ao p do mais velho e
frondoso, e eu, fraca criana, enquanto a minha me estava
deitada aos ps do marido, brincava com a barba branca do meu
progenitor, que lhe descia at ao peito. E com o canjar de
punho de diamantes que trazia  cintura. Depois, de vez em
quando, aproximava-se dele um albans que lhe dizia algumas
palavras a que eu no prestava ateno e s quais ele
respondia no mesmo tom de voz: "matem!", ou: "perdoem!"

--  estranho - observou Albert - ouvir sair tais coisas da
boca de uma jovem, sem ser num teatro.

Ao mesmo tempo, dizia para consigo: "Isto no  fico." E em
seguida perguntou:

- Comparados com esse ambiente to potico e com esse passado
maravilhoso, como acha a Frana?

- Creio que  um belo pas - respondeu Hayde. - Mas eu vejo a
Frana tal como , porque a vejo com olhos de mulher, ao passo
que me parece, pelo contrrio, que o meu pas, que s vi com
olhos de criana, est sempre envolto numa neblina luminosa ou
sombria, conforme os meus olhos a vem como uma doce ptria ou
como um lugar de amargos sofrimentos.

- To jovem j signora - disse Albert, cedendo, mal-grado
seu, ao poder da banalidade --, como pode ter sofrido?

Hayde olhou para Monte-Cristo, que, fazendo um sinal
imperceptvel, murmurou:

- Conta.

- Nada compe o fundo da alma como as primeiras recordaes,
e, exceptuando as duas que acabo de lhe referir, todas as
recordaes da minha juventude so tristes.

- Fale, fale, signora - pediu Albert --, pois juro-lhe que a
escuto com inexprimvel prazer.

Hayde sorriu tristemente.

- Quer ento que passe s minhas outras recordaes?... -
perguntou.

- Suplico-lhe - respondeu Albert.

- Pois bem, tinha quatro anos quando, uma noite, fui acordada
por minha me. Estvamos no palcio de Janina.
Ela pegou-me dos coxins onde eu dormia e quando abri os olhos
vi os seus cheios de grossas lgrimas.

"Levou-me sem dizer nada.

"Ao v-la chorar, eu ia chorar tambm.

"-- Silncio, filha! - disse-me ela.

"Muitas vezes, apesar das consolaes ou das ameaas
maternas, eu, caprichosa como todas as crianas, continuava a
chorar. Mas desta vez havia na voz da minha pobre me tal
intonao de terror que me calei imediatamente.

"Ela levava-me rapidamente.

"Vi ento que descamos uma escada larga. Diante de ns,
todas as criadas da minha me, com cofres, saquinhos, objectos
de adorno, jias e bolsas de ouro desciam a mesma escada, ou
antes, precipitavam-se por ela.

"Atrs das mulheres vinha uma guarda de vinte homens armados
de compridas espingardas e pistolas e envergando aquele traje
que os senhores conhecem em Frana desde que a Grcia voltou a
ser uma nao.

"Havia algo de sinistro, acredite - acrescentou Hayde,
abanando a cabea e empalidecendo s de rememorar tais
acontecimentos --, naquela longa fila de escravas e mulheres
meio entorpecidas pelo sono, ou pelo menos assim me parecia,
pois talvez julgasse os outros adormecidos por estar mal
acordada.

"Na escada corriam sombras gigantescas, que os archotes de
abeto faziam tremer nas abbadas.

"-- Despachem-se! - gritou uma voz ao fundo da galeria.

"Aquela voz fez curvar toda a gente, tal como o vento ao
passar pela plancie faz curvar um campo de espigas.

"A mim fez-me estremecer.

"Aquela voz era a do meu pai.

"Vinha atrs, envergando os seus esplndidos trajes e
empunhando uma carabina que o vosso imperador lhe
oferecera; e, ajudado pelo seu favorito Selim, levava-nos
adiante de si como um pastor leva um rebanho tresmalhado.

"o meu pai - disse Hayde, erguendo a cabea - era um homem
ilustre que a Europa conheceu sob o nome de Ali-Tebelin, pax
de Janina, e diante do qual a Turquia tremeu.

Sem saber porqu, Albert estremeceu ao ouvir estas palavras,
proferidas com indefinvel acento de altivez e dignidade.
Pareceu-lhe que algo sombrio e  assustador brilhava nos
olhos da jovem quando, qual pitonisa que evoca um fantasma,
recordou a figura sangrenta, cuia morte terrvel tornou
gigantesca aos olhos da Europa contempornea.

- Em breve - continuou Hayde - a corrida se deteve.
Estvamos ao fundo da escada e  beira de um lago. A minha me
apertava-me ao peito ofegante, e vi, dois passos atrs, meu
pai, que deitava para todos os lados olhares inquietos.

"Diante de ns estendiam-se quatro degraus de mrmore, e ao
fundo do ltimo degrau balouava uma barca.

"Donde estvamos via-se no meio do lago uma massa escura; era
o quiosque para onde amos.

"O quiosque parecia-me encontrar-se a uma distncia
considervel, talvez devido  obscuridade.

"Metemo-nos na barca. Lembro-me de que os remos no faziam
nenhum rudo ao tocar na gua. Inclinei-me para os ver:
estavam envoltos nas faixas dos nossos palicrios.

"Na barca, alm dos remadores, s seguiam mulheres, meu pai,
minha me, Selim e eu.

"Os palicrios tinham ficado  beira do lago, ajoelhados no
ltimo degrau e utilizando os outros trs como parapeito para
o caso de serem atacados.

"A nossa barca voava como o vento.

"-- Porque vai a barca to depressa? - perguntei  minha me.

"-- Caluda, minha filha - respondeu-me ela. -  porque
fugimos.

"No compreendi. Porque fugia o meu pai, o homem
todo-poderoso diante do qual habitualmente fugiam os outros e
que tomara como divisa: Odeiam-me, portanto temem-me?

"Com efeito, era uma fuga o que o meu pai empreendia atravs
do lago. Disse-me depois que a guarnio do castelo de Janina,
cansada de um longo perodo de servio...

Aqui, Hayde pousou o seu olhar expressivo em Monte-Cristo,
que no tirava os olhos dela. Em seguida continuou lentamente,
como quem inventa ou suprime.

- Dizia, signora - interveio Albert, que prestava a maior
ateno  narrativa --, que a guarnio de Janina, cansada de
um longo perodo de servio...

- Se entendera com o serasqueiro Kurchid, enviado pelo sulto
para se apoderar do meu pai. Fora ento que o meu pai
resolvera retirar-se, depois de enviar ao sulto um oficial
francs em quem depositava toda a confiana, para o retiro que
ele prprio preparara havia muito tempo e a que chamava
kataplrygion, ou seja, o seu refgio."

- E lembra-se do nome desse oficial, signora? - perguntou
Albert.

Monte-Cristo trocou com a jovem um olhar rpido como um
relmpago, mas que passou despercebido a Morcerf.

-  No, no me recordo - respondeu ela. - Mas talvez tarde me
recorde e ento dir-lho-ei.

Albert ia pronunciar o nome do pai, quando Monte-Cristo
levantou devagar o dedo em sinal de silncio. O jovem
lembrou-se do seu juramento e calou-se.

- Era para o quiosque que vogvamos.

"Um rs-do-cho ornado de arabescos e com os terraos ao
nvel da gua, e um primeiro andar que dava para o lago, era
tudo o que o palcio oferecia de visvel  vista.

"Mas por baixo do rs-do-cho e prolongando-se pela ilha
ficava um subterrneo, uma grande caverna para onde nos
levavam, minha me, eu e as nossas criadas, e se amontoavam
sessenta mil bolsas e duzentos barris. Nas bolsas havia vinte
e cinco milhes em ouro e nos barris trinta mil libras de
plvora.

"Selim, o favorito do meu pai de quem j lhe falei, velava
dia e noite junto dos barris, tendo na mo uma lana na ponta
da qual ardia uma mecha. Tinha ordem de fazer ir tudo pelo ar,
quiosque, guardas, pax, mulheres e ouro, ao primeiro sinal do
meu pai.

"Recordo-me de que as nossas escravas, conhecedoras daquela
temvel vizinhana, passavam os dias e as noites a rezar, a
chorar e a gemer.

"Quanto a mim, no me sai da retina o jovem soldado plido e
de olhos negros, e quando o anjo da morte descer at mim,
estou certa de que reconhecerei Selim.

"-me impossvel dizer quanto tempo ficmos assim. Nessa
poca, ainda ignorava o que era o tempo. s vezes, mas
raramente, meu pai mandava-nos chamar, a minha me e a mim, ao
terrao do palcio. Eram as minhas horas de recreio,  margem
daquelas em que s via no subterrneo sombras gemebundas e a
lana acesa de Selim. Sentado diante de uma grande abertura,
meu pai observava com olhar sombrio as profundezas do
horizonte, e especialmente cada ponto negro que aparecia no
lago, enquanto a minha me, semideitada junto dele, apoiava a
cabea no seu ombro e eu brincava a seus ps, admirando com os
exageros da infncia, que aumentam ainda mais os objectos, as
escarpas do Pindo, que se erguiam no horizonte, os palcios de
Janina, que safam brancos e angulosos das guas do lago, e os
imensos tufos de verdura escura, presos como lquenes s
rochas da montanha, que de longe pareciam musgos, mas de perto
eram abetos gigantescos e mirtos infindveis.

"Uma manh, meu pai mandou-nos chamar. Encontrmo-lo bastante
calmo, mas mais plido do que de costume.

"-- Tem pacincia, Vasiliki, hoje tudo ficar resolvido. Hoje
chega o irmo do sulto e a minha sorte ser decidida. Se o
perdo for completo, regressaremos triunfantes a Janina; se as
notcias forem ms, fugiremos esta noite.

"-- E se no nos deixam fugir? - perguntou a minha me.

"-- Oh, est tranquila - respondeu Ali, sorrindo. - Selim e a
sua lana acesa encarregar-se-o deles. gostariam de me ver
morto, mas com a condio de no morrerem comigo.

"A minha me respondeu apenas com suspiros s suas palavras
de conforto, que no partiam do corao do meu pai.

"Ela preparou-lhe a gua gelada que ele bebia a cada
instante, pois desde que se retirara para o quiosque era
devorado por uma febre ardente; perfumou-lhe a barba branca e
acendeu-lhe o chbuque, cujo fumo volatilizando-se no ar ele
seguia s vezes durante horas inteiras, distraidamente, com os
olhos.

"De sbito, fez um gesto to brusco que me assustou.

"Depois, sem desviar os olhos do ponto de que fixava com
ateno, pediu o culo.

"A minha me passou-lho, mais branca do que o estuque a que
se encostava.

"Vi a mo do meu pai tremer.

"-- Uma barca!... Duas!... Trs!... - murmurou o meu pai.
- Quatro!...

"E levantou-se, pegou nas suas armas e deitou, lembro-me
perfeitamente, plvora na caoleta das pistolas.

"-- Vasiliki - disse a minha me, tremendo visivelmente --,
chegou o instante que vai decidir de ns. Dentro de meia hora
saberemos a resposta do Sublime Imperador. Retira-te para o
subterrneo com Hayde.

"-- No te quero deixar - redarguiu Vasiliki. - Se morreres,
meu senhor, quero morrer contigo.

"-- Vai para junto de Selim! - gritou o meu pai.

"-- Adeus, senhor - murmurou minha me, obedecendo, dobrada em
duas, como se esperasse a aproximao da morte.

"-- Levem Vasiliki - ordenou meu pai aos seus palicrios.

"Mas eu, de quem se esqueciam, corri para ele e estendi-lhe
as mos. Ele viu-me, inclinou-se para mim e beijou-me na
testa.

"Oh, esse beijo foi o ltimo e ainda o sinto na testa!

"Quando descemos distinguimos atravs das latadas do terrao
as barcas que iam aumentando de tamanho no lago e que,
semelhantes pouco antes a pontos negros, pareciam agora aves
rasando a superfcie das ondas.

"Entretanto, no quiosque, vinte palicrios, sentados aos ps
de meu pai e escondidos pelos madeiramentos, espiavam com
olhos raiados de sangue a chegada dos barcos e tinham junto de
si grandes espingardas incrustadas de madreprola e prata; no
parque encontravam-se espalhados numerosos cartuchos.
Meu pai consultava o relgio e passeava angustiado.

"Foi isso que mais me impressionou quando deixei meu pai
depois de me dar o ltimo beijo que recebi dele.

"Atravessmos, minha me e eu, o subterrneo. Selim
continuava no seu posto. Sorriu-nos tristemente. Fomos buscar
almofadas ao outro lado da caverna e viemos sentar-nos junto
de Selim. Nos grandes perigos, procuram-se os coraes
dedicados e, apesar de muito criana, sentia instintivamente
que uma grande desgraa pairava sobre a nossa cabea.

Albert ouvira muitas vezes contar, no pelo pai, que nunca
falava disso, mas sim por estranhos, os ltimos momentos do
vizir de Janina. Tambm lera diversas narrativas da sua morte.
Mas aquela histria, tornada viva na pessoa e pela voz da
jovem, aquele tom expressivo e aquela lamentvel elegia,
penetravam-no simultaneamente de um encanto e de um horror
inexprimveis.

Quanto a Hayde, toda entregue a to terrveis recordaes,
calara-se por instantes. A sua cabea, como uma flor que se
verga em dia de tempestade, estava inclinada sobre uma das
mos, e os seus olhos, vagamente perdidos, pareciam ver ainda
no horizonte o Pindo verdejante e as guas azuis do lago de
Janina, espelho mgico que reflectia o quadro sombrio que ela
esboava.

Monte-Cristo olhava-a com indefinvel expresso de interesse
e piedade.

- Continua, minha filha - disse o conde em lngua romaica.
Hayde ergueu a cabea como se as palavras sonoras que
Monte-Cristo acabara de pronunciar a tivessem arrancado a um
sonho e prosseguiu:

- Eram quatro da tarde. Mas embora o dia estivesse
lmpido e brilhante l fora, ns estvamos mergulhados na
sombra do subterrneo.

"Uma nica claridade brilhava na caverna, semelhante a uma
estrela tremeluzente no fundo de um cu negro: a mecha de
Selim. A minha me, que era crist, rezava.

"Selim repetia de vez em quando estas palavras consagradas:
"Deus  grande!"

"No entanto, a minha me ainda tinha alguma esperana. Ao
descer julgara reconhecer o francs que fora enviado a
Constantinopla e no qual o meu pai depositava toda a
confiana, pois sabia que os soldados do sulto francs eram
geralmente nobres e generosos. Minha me deu alguns passos
para a escada e escutou.

"-- Aproximam-se - disse ela. - Oxal tragam a paz e a vida.

"-- Que receias, Vasiliki? - perguntou-lhe Selim, na sua voz
to suave e ao mesmo tempo to orgulhosa. - Se no trouxerem a
paz, dar-lhes-emos a morte.

"E espevitou a chama da lana com um gesto que o assemelhava
ao Dionisos da antiga Creta.

"Mas eu, que era to criana e to ingnua, tinha medo
daquela coragem que me parecia feroz e insensata, e
horrorizava-me a morte terrvel que pairava no ar e na chama.

"A minha me experimentava as mesmas impresses, porque
sentia-a tremer.

"-- Meu Deus! Meu Deus, mezinha! - gritava. - Vamos morrer?

"E perante os meus gritos, os choros e as preces das escravas
redobravam.

"-- Criana - respondeu-me Vasiliki --, Deus te defenda de
vires a desejar a morte que hoje temes!

"Depois, baixinho:

"-- Selim, qual  a ordem do senhor? - perguntou.

"-- Se me enviar o seu punhal, ser sinal de que o sulto
recusa perdoar-lhe e pego o fogo; se me mandar o seu anel, 
porque o sulto lhe perdoa e deixo a plvora.

"-- Amigo-prosseguiu a minha me--, quando a ordem do senhor
chegar, se for o punhal que enviar, em vez de nos matares a
ambas dessa maneira que nos horroriza, estender-te-emos o
pescoo e matar-nos-s com o punhal.

"-- Pois sim, Vasiliki - respondeu tranquilamente Selim.

"De sbito, ouvimos como que grandes gritos. Escutmos: eram
gritos de alegria. Ouvia-se o nome do francs que fora enviado
a Constantinopla repetido pelos nossos palicrios. Era
evidente que trazia a resposta do Sublime Imperador e que essa
resposta era favorvel.

- E no se lembra do nome desse francs? - perguntou Morcerf,
pronto a ajudar a memria da narradora.

Monte-Cristo fez-lhe um sinal.

- No, no me lembro - respondeu Hayde, que prosseguiu: - O
barulho aumentava. ouviam-se passos cada vez mais prximos.
Desciam os degraus do subterrneo.

"Selim preparou a lana.

"No tardou a aparecer uma sombra no crepsculo azulado
formado pelos raios do Sol que penetravam at  entrada do
subterrneo.

"-- Quem s tu? - gritou Selim. - Mas sejas quem fores, no
ds mais um passo.

"-- Glria ao Sulto! - gritou o homem. - Foi concedido perdo
completo ao vizir Ali. E no s tem a vida salva, como ainda
lhe restituem a sua fortuna e os seus bens
" A minha me soltou um grito de alegria e apertou-me ao
corao.

"-- Pra! - gritou-lhe Selim, vendo que ela corria j para a
sada. - Bem sabes que me falta o anel.

"-- Tens razo - concordou minha me, e ao mesmo tempo que
cala de joelhos erguia-me para o cu, como se no lhe bastasse
pedir a Deus por mim e quisesse ainda aproximar-me dele.

E Hayde deteve-se pela segunda vez, dominada por tal emoo
que o suor lhe escorria da testa plida e a voz estrangulada
parecia no conseguir sair-lhe da garganta ressequida.

Monte-Cristo deitou um pouco de gua gelada num copo e
ofereceu-lho, ao mesmo tempo que dizia com uma doura em que
se notavam laivos de ordem:

- Coragem, minha filhaa!

Hayde limpou os olhos e a testa e continuou:

- Entretanto, os nossos olhos, habituados ao escuro, tinham
reconhecido o enviado do pax: era um amigo.

"Selim reconhecera-o, mas o corajoso rapaz s sabia uma
coisa: obedecer!

"-- Em nome de quem vens? - perguntou.

"-- Venho em nome do nosso amo, Ali-Tebelin.

"-- Se vens em nome de Ali, sabes o que me deves entregar?

"-- Sei e trago-te o seu anel - respondeu o enviado.

"Ao mesmo tempo, ergueu a mo acima da cabea. Mas estava
demasiado longe e no havia luz suficiente para que Selim
pudesse, donde estvamos, distinguir e reconhecer o objecto
que lhe apresentavam.

"-- No vejo o que tens na mo - disse Selim.

"-- Aproxima-te ou aproximar-me-ei eu - sugeriu o mensageiro.

"-- Nem um nem outro - respondeu o jovem soldado. - Pe a
onde ests e debaixo desse raio de luz o objecto que me
mostras e retira-te at eu o ver.

"-- Seja - disse o mensageiro.

"E retirou-se, depois de colocar o sinal de reconhecimento no
lugar indicado.

"O nosso corao palpitava. Porque o objecto nos parecia ser
efectivamente um anel. Mas seria o anel do meu pai?

"Selim, empunhando sempre a mecha acesa, aproximou-se da
abertura, inclinou-se radiante sob os raios de luz e apanhou o
sinal.

"-- O anel do senhor - disse, beijando-o. - Muito bem.

"E deitando a mecha ao cho, calcou-a e apagou-a.

"O mensageiro soltou um grito de alegria e bateu as mos. A
este sinal, quatro soldados do serasqueiro Kurchid acorreram e
Selim caiu atingido por cinco punhaladas. Cada um dera a sua.

"E depois, brios do crime que tinham cometido, embora
plidos de medo, percorreram o subterrneo, procurando por
toda a parte se havia fogo e rebolando-se sobre os sacos de
ouro.

"Entretanto, a minha me tomou-me nos braos e, gil, metendo
por sinuosidades s nossas conhecidas, chegou a uma escada
oculta do quiosque, no qual reinava um tumulto medonho.

"As salas de baixo estavam inteiramente ocupadas pelos
tchodoares de Kurchid, isto , pelos nossos inimigos.

"No momento em que a minha me ia empurrar a portinha,
ouvimos soar, terrvel e ameaadora, a voz do pax.

"A minha me colou um olho s fendas das tbuas; uma abertura
ficou, por acaso diante de mim e olhei.

"-- Que quereis? - perguntava o meu pai a uns homens que
tinham um papel com caracteres dourados na mo.

"-- O que queremos - respondeu um deles --  comunicar-te a
vontade de Sua Alteza. Vs este firmo?

"-- Vejo - respondeu o meu pai.

"-- Ento, l-o. Pede a tua cabea.

"Meu pai soltou uma gargalhada, mais assustadora do que se
fosse uma ameaa. Ainda se no calara quando dois tiros
partiram das suas mos e mataram dois homens.

"Os palicrios, que estavam deitados  volta do meu pai, de
cara para o cho, levantaram-se ento e fizeram fogo. A sala
encheu-se de barulho, chamas e fumo.

"No mesmo instante o fogo comeou do outro lado e as balas
vieram perfurar as tbuas  nossa volta.

"Oh, como era belo, como era grande, o vizir Ali-Tebelin,
meu pai, no meio das balas, de cimitarra em punho e a cara
negra de plvora! Como os seus inimigos fugiam!

"-- Selim! Selim! Guarda do fogo, cumpre o leu dever! -
gritava.

"-- Selim morreu! - respondeu uma voz que parecia sair das
profundezas do quiosque. - E tu, meu senhor Ali, ests
perdido!

"Ao mesmo tempo, ouviu-se uma detonao abafada e o pavimento
voou em pedaos a toda a volta do meu pai.

" Os tchodoares disparavam atravs do parque. Trs ou
quatro palicrios caram, atingidos de baixo para cima, com
ferimentos por todo o corpo.

"O meu pai rugiu, meteu os dedos nos buracos das balas e
arrancou uma tbua inteira.

"Mas ao mesmo tempo, por essa abertura soaram vinte tiros e
as chamas, como se sassem da cratera de um vulco, alcanaram
as tapearias, que devoraram.

"No meio de todo aquele tumulto horrvel, no meio daqueles
gritos terrveis, dois tiros mais distintos do que os outros e
dois gritos mais dilacerantes do que quaisquer outros
gelaram-me de terror. As duas exploses tinham atingido
mortalmente o meu pai e fora ele que soltara os dois gritos.

"No entanto, tinha ficado de p, agarrado a uma janela. Minha
me sacudia a porta para ir morrer com ele, mas a porta estava
fechada por dentro.

" roda dele, os palicrios contorciam-se nas convulses da
agonia; dois ou trs, que no estavam feridos ou o estavam
apenas ligeiramente, atiraram-se das janelas. Ao mesmo tempo,
todo o pavimento estalou, quebrado por baixo. Meu pai caiu
sobre um joelho. Imediatamente se estenderam vinte braos
armados de  sabres, pistolas e punhais, e vinte golpes
atingiram simultaneamente um s homem. Meu pai desapareceu num
turbilho de togo ateado por aqueles demnios rugidores, como
se o Inferno se lhe tivesse aberto debaixo dos ps.

"Senti-me cair no cho; era a minha me que perdia os
sentidos.

Hayde deixou cair os braos, soltou um gemido e olhou o
conde, como se lhe perguntasse se estava satisfeito com a sua
obedincia.

O conde levantou-se, aproximou-se dela, pegou-lhe na mo e
disse-lhe em romaico:

- Descansa, querida filha, e ganha coragem pensando que h um
Deus que castiga os traidores.

- Uma histria espantosa, conde - disse Albert, muito
preocupado com a palidez de Hayde. - J estou arrependido de
ter sido to cruelmente indiscreto.

- Isto no  nada - respondeu Monte-Cristo.

Depois, ps a mo na cabea da jovem e acrescentou:

- Hayde  uma mulher corajosa e encontra por vezes alvio
falando dos seus sofrimentos.

- Porque, meu senhor - disse vivamente a jovem --, porque os
meus sofrimentos me recordam os teus benefcios.
Albert olhou-a com curiosidade, porque ela ainda no contara o
que mais desejava saber, isto , como se tornara escrava do
conde.

Hayde viu expresso o mesmo desejo, tanto nos olhos do conde
como nos de Albert. E continuou:

- Quando a minha me recuperou os sentidos, estvamos diante
do serasqueiro.

"-- Mata-me - disse ela --, mas poupa a honra da viva de Ali.

"-- No  a mim que te deves dirigir - redarguiu Kurchid.

"-- Ento a quem?

"-- Ao teu novo senhor.

"-- Quem ?

"-- Ei-lo.

"E Kurchid indicou-nos um daqueles que mais tinham
contribudo para a morte do meu pai - acrescentou a jovem, com
uma clera sombria.

- Tornaram-se ento propriedade desse homem? - perguntou
Albert.

- No - respondeu Hayde. - No ousou conservar-nos e
vendeu-nos a negociantes de escravos que iam para
Constantinopla. Atravessmos a grcia e chegmos quase
moribundas  porta imperial, cheia de curiosos, que se
afastavam para nos deixar passar. De sbito, a minha me
seguiu com a vista a direco dos seus olhares, soltou um
grito e caiu, ao mesmo tempo que me mostrava uma cabea por
cima da porta. Por baixo da cabea encontravam-se escritas
estas palavras: "Esta  a cabea de Ali-Tebelin, pax de
Janina."

"Tentei, chorando, levantar minha me; estava morta!

"Levaram-me para o bazar. Um rico armnio comprou-me,
mandou-me educar, deu-me professores, e quando fiz treze anos
vendeu-me ao sulto Mahmud.

- A quem - interveio Monte-Cristo a resgatei; como j lhe
disse, Albert, em troca da esmeralda idntica quela onde
guardo as minhas pastilhas de haxixe.

- Oh, tu s bom, tu s grande, meu senhor! - exclamou Hayde,
beijando a mo de Monte-Cristo. - E sou muito feliz por te
pertencer!

Albert ficara aturdido com o  que acabava de ouvir.

- Acabe a sua chvena de caf - disse-lhe o conde. - A
histria terminou.


captulo LXXVIII

Escrevem-nos de Janina


Franz sara do quarto de Noirtier to cambaleante e
desorientado que a prpria Valentine tivera compaixo dele.
Villefort, que apenas articulara algumas palavras sem sentido
e se metera no seu gabinete, recebeu duas horas mais tarde a
seguinte carta:

"Depois do revelado esta manh, o Sr. Noirtier de Villefort
no acha possvel uma aliana entre a sua famlia e a do Sr.
Franz de Epinay. O Sr. Franz de Epinay, pela sua parte,
considera horrvel que o Sr. Villefort, que parecia conhecer
os acontecimentos revelados esta manh, o no tenha prevenido
a tal respeito."

Quem visse naquele momento o magistrado vergado ao golpe que o
atingira no acreditaria que o previssc. Com efeito, nunca lhe
passaria pela cabea que o pai levassc a franqueza, ou antes a
rudeza, ao ponto de contar semelhante histria. Verdade seja
que o Sr. Noirtier, que no ligava grande importncia 
opinio do filho, nunca se preocupara em esclarecer o caso aos
olhos de Villefort, e que este sempre acreditara que o general
de Quesnel ou o baro de Epinay, como se lhe quisesse chama,
tratando-o pelo nome com que nascera ou por aquele que lhe
tinham dado, fora assassinado e no morto lealmente em duelo.

Esta carta, to dura da parte de um rapaz at ali to
respeitoso, era mortal para o orgulho de um homem como
Villefort.

Mal acabara de entrar no gabinete, apareceu a mulher,

A sada de Franz, chamado pelo Sr. Noirtier, surpreendera de
tal modo toda a gente que a posio da Sr.a de Villefort, que
ficara sozinha com o notrio e as testemunhas, se tornara de
momento a momento mais embaraosa. Ento, a Sr.a de Villefort
tomara a deciso de sair, anunciando que ia saber o que se
passava.

O Sr. de Villefort limitou-se a dizer-lhe que depois de uma
explicao entre ele, o Sr. Noirtier e o Sr. de Epinay o
casamento de Valentine com Franz fora desfeito.

Era difcil dar semelhante notcia queles que esperavam. Por
isso, a Sr.a de Villefort, limitou-se a dizer, quando
regressou, que o Sr. Noirtier tivera, no inicio da
conferncia, uma espcie de ataque de apoplexia, pelo que
naturalmente o contrato era adiado por alguns dias.

Esta notcia, apesar de falsa, vinha to singularmente na
sequncia de duas desgraas do mesmo gnero que os presentes
se entreolharam atnitos e se retiraram sem dizer palavra.

Entretanto, Valentine, feliz e assustada ao mesmo tempo,
depois de beijar e agradecer ao pobre velho, que acabava de
quebrar assim, de um s golpe, uma unio que ela via j como
indissolvel, pedira licena para se retirar para o seu
quarto, a fim de se recompor, e Noirtier dera-lhe, de olhar
brilhante, a licena solicitada.

Mas em vez de subir ao seu quarto, Valentine, logo que saiu,
meteu pelo corredor, transps a portinha e correu para o
jardim. No meio de todos os acontecimentos que acabavam de se
amontoar uns sobre os outros, um terror surdo oprimira-lhe
constantemente o corao. Esperava de um momento para o outro
ver aparecer Morrel, plido e ameaador como o laird de
Ravenswood no contrato de Lucie de Lammermoor.

Com efeito, era tempo de se dirigir ao porto. Maximilien, que
desconfiara do que se iria passar ao ver Franz deixar o
cemitrio com o Sr. de Villefort, seguira-o. Em seguida,
depois de o ver entrar, vira-o sair novamente e regressar com
Albert e Chateau-Rcnaud. Para ele, no havia portanto mais
dvidas. Correra ento para o seu cercado, pronto para o que
desse e viesse, e certo de que no primeiro momento de
liberdade que conseguisse, Valentinc correria ao seu encontro.

No se enganara; com efeito, de olho colado s tbuas, viu
aparecer a jovem, que, sem tomar nenhuma das precaues
habituais, corria para o porto. Ao primeiro olhar que lhe
deitou, Maximilien ficou tranquilo, e  primeira palavra que
ela pronunciou. saltou de alegria.

- Salvos! - disse Valentine.

- Salvos! - repetiu Morrel, sem poder acreditar em semelhante
felicidade. -  Mas salvos por quem?

- Pelo meu av. Oh, ame-o muito, Morrel!

Morrel jurou amar o velho com toda a sua alma, juramento que
lhe no custava nada fazer, pois naquele momento no se
limitava a am-lo como um amigo ou como um pai, adorava-o como
um deus.

- Mas como foi isso? - perguntou Morrel. - Que meio estranho
empregou ele?

Valentine abria j a boca para contar tudo, mas pensou que
havia no fundo de tudo aquilo um segredo terrvel que no
pertencia exclusivamente ao av.

- Mais tarde contar-lhe-ei tudo - respondeu.

- Mas quando?

- Quando for sua mulher.

Era colocar a conversa num p em que Morrel era capaz de
entender tudo. Por isso, entendeu mesmo que se devia contentar
com o que sabia, e que era bastante para um dia.
No entanto, s consentiu em se retirar depois de ter a
promessa de que veria Valentine no dia seguinte  noite.

Valentine prometeu o que Morrel quis. A seus olhos tudo
mudara, e claro que lhe era agora menos difcil acreditar que
casaria com Maximilien do que convencer-se uma hora antes que
no casaria com Franz.

Entretanto, a Sr.a de Villefort subira aos aposentos de
Noirtier.

Noirtier olhou-a com o ar sombrio e severo com que costumava
receb-la.

- Senhor - comeou ela --, escuso de lhe dizer que o casamento
de Valentine foi desfeito, pois foi aqui que o rompimento se
verificou.

Noirtier permaneceu impassvel.

- Mas - continuou a Sr.a de Villefort - o que o senhor no
sabe  que sempre me opus a esse casamento, que se efectuava
mal-grado meu.

Noirtier fitou a nora como homem que espera uma explicao.

- Ora, agora que o casamento, acerca do qual eu conhecia a sua
repugnncia, est desfeito, venho fazer junto do senhor uma
diligncia que nem o Sr. de Villefort nem Valentine podem
fazer.

Os olhos de Noirtier perguntaram qual era essa diligncia.

- Venho pedir-lhe, senhor - continuou a Sr.a de Villefort
--, como a nica pessoa que tem esse direito, pois sou a nica
que no ganharei nada com isso venho pedir-lhe, repito, que
restitua, no direi as suas boas graa, porque ela sempre as
teve, mas sim a sua fortuna  sua neta.

Os olhos de Noirtier ficaram um instante indecisos; procurava
evidentemente os motivos de tal diligncia e no os conseguia
encontrar.

- Posso esperar, senhor, que as suas intenes estejam de
harmonia com o pedido que acabo de lhe fazer? - perguntou a
Sr.a de Villefort.

- Pode - respondeu Noirtier.

- Nesse caso, senhor, retiro-me ao mesmo tempo reconhecida e
feliz - declarou a Sr a de Villefort

E retirou-se depois de cumprimentar Noirtier.

Com efeito, no dia seguinte Noirtier mandou chamar o notrio.
O primeiro testamento foi rasgado e fez-se outro novo em que
ele deixava toda a sua fortuna a Valentine, com a condio de
a no separarem dele.

Algumas pessoas calcularam ento que Mademoiselle de
Villefort, herdeira do marqus e da marquesa de Saint-Mran e
reentrada nas boas graas do av, teria um dia muito perto de
trezentas mil libras de rendimento

Enquanto o casamento se rompia em casa dos Villeforts, o Sr.
Conde de Morcerf recebia a visita de Monte-Cristo, e, para
mostrar a Danglars a sua prontido, envergava o seu grande
uniforme de tenente-general, que adornara com todas as suas
condecoraes, e pedia os seus melhores cavalos.
Assim vestido, dirigiu-se para a Rua da Chausse-d'Antin e
mandou-se anunciar a Danglars, que elaborava o seu balancete
de fim de ms.

Havia algum tempo que aquele no era o momento mais indicado
para apanhar o banqueiro de bom humor.
Por isso, ao ver o aspecto do seu velho amigo, Danglars tomou
o seu ar majestoso e instalou-se sem cerimnia na sua
poltrona.

Morcerf, habitualmente to empertigado, tomara, pelo
contrrio, um ar risonho e afvel; e como estava quase certo
de que a sua proposta ia receber um bom acolhimento, ps de
lado a diplomacia e foi direito ao assunto:

- Baro, aqui estou - disse. - H muito tempo que giramos 
volta das nossas palavras de outrora.

Morcerf esperava, aps estas palavras, ver abrir-se o rosto do
banqueiro, cujo ar carrancudo atribua ao silncio que
mantivera at ali; mas, pelo contrrio, o rosto do banqueiro
tornou-se, o que era quase incrvel, ainda mais impassvel e
frio.

Por isso, Morcerf parara no meio da frase.

- Quais palavras, Sr. Conde? - perguntou o banqueiro, como se
procurasse em vo no seu esprito a explicao do que o
general queria dizer.

- Oh,  formalista, meu caro senhor, e lembra-me que o
cerimonial deve obedecer a todos os ritos! - redarguiu o
conde. - Muito bem! Perdoe-me, mas como s tenho um filho e 
a primeira vez que penso em cas-lo, estou ainda a aprender.
Vamos, desculpe-me.

e Morcerf, com um sorriso forado, levantou-se, fez uma
profunda reverncia a Danglars e disse-lhe:

- Sr. Baro, tenho a honra de lhe pedir a mo de Mademoiselle
Eugnie Danglars, sua filha, para o meu filho, o visconde
Albert de Morcerf.

Mas Danglars, em vez de acolher estas palavras com a
satisfao que Morcerf devia esperar dele, franziu o sobrolho
e, sem convidar o conde, que estava de p, a sentar-se,
redarguiu:

- Sr. Conde, preciso de reflectir antes de lhe responder.

- De reflectir! - exclamou Morcerf, cada vez mais atnito. -
No teve tempo de reflectir desde que h perto de oito anos
falmos deste casamento pela primeira vez?

- Sr. conde - disse Danglars --, todos os dias acontecem
coisas que levam a que as reflexes que se julgavam feitas
tenham de ser revistas.

-- Como? - perguntou Morcerf. - Cada vez o compreendo menos,
baro!

- Quero dizer, senhor, que h quinze dias, novas
circunstncias...

- Um momento - atalhou Morcerf. - Estamos ou no estamos a
desempenhar uma comdia?

- Ora essa, uma comdia?...

- Sim, expliquemo-nos categoricamente.

- No quero outra coisa.

- Falou com o Sr. de Monte-Cristo!

- Falo com ele muitas vezes - respondeu Danglars, sacudindo as
pregas do peitilho. - E um dos meus amigos.

- Pois numa das ltimas vezes que falou com ele disse-lhe que
eu parecia esquecido, irresoluto, a respeito do casamento.

-  verdade.

- Por isso aqui estou. No sou nem esquecido nem irresoluto,
como v, pois venho convid-lo a cumprir a sua promessa.

Danglars no respondeu.

- Mudou assim to depressa de opinio ou provocou o meu pedido
apenas para ter o prazer de me humilhar? - quis saber Morcerf.

Danglars compreendeu que, se continuasse a conversa naquele
tom, o caso poderia tomar mau aspecto para si.

- Sr. Conde - disse --, tem razo em estar surpreendido com a
minha reserva. Compreendo isso e creia que sou o primeiro a
lament-lo. Mas a minha atitude -me imposta por
circunstncias imperiosas.

- Isso so desculpas de mau pagador, meu caro senhor, com que
talvez se contentasse qualquer pobre-diabo. Mas o conde de
Morcerf no  um pobre-diabo. E quando um homem como ele vem
procurar outro homem e lembrar-lhe a palavra dada, e esse
homem falta  sua palavra, tem o direito de exigir que lhe
dem ao menos uma boa razo.

Danglars era cobarde, mas no o queria parecer, e sentiu-se
picado pelo tom que Morcerf acabava de tomar.

- Tambm no  a boa razo que me falta - replicou.

- Que pretende dizer?

- Que tenho essa boa razo, mas que  difcil de
d-la.

- V no entanto - redarguiu Morcerf - que no posso
contentar-me com as suas reticncias. Em todo o caso, uma
coisa me parece clara: que recusa a minha aliana.

- No, senhor - contraps Danglars. -- suspendo apenas a
minha resoluo.

- Suponho, porm, que no tem a pretenso de crer que me
submeto aos seus caprichos a ponto de esperar tranquila e
humildemente que me volte a conceder as suas boas graas?...

- Nesse caso, Sr. Conde, se no pode esperar, consideremos os
nossos projectos anulados.

O conde mordeu os lbios at sangraram para no explodir como
o seu temperamento orgulhoso e irritvel lhe aconselhava. No
entanto, compreendendo que em semelhantes circunstncias o
ridculo estaria do seu lado, comeara j a dirigir-se para a
polia da sala, quando, reconsiderando, voltou atrs.

Acabava de lhe passar uma nuvem pela testa, onde ficara, em
vez do orgulho ferido, vestgios de uma vaga inquietao.

- Vejamos, meu caro Danglars: conhecemo-nos h muitos anos e
portanto devemos ter alguma considerao um pelo outro. O
senhor deve-me uma explicao, e o menos que posso desejar 
saber a que infeliz acontecimento deve o meu filho a perda das
suas boas intenes a seu respeito.

- No e nada que se relacione pessoalmente com o visconde, 
tudo o que lhe posso dizer, senhor - respondeu Danglars, que
reassumia o seu ar impertinente  medida que via Morcerf
amansar.

- Ento relaciona-se pessoalmente com quem? - perguntou
Morcerf com voz alterada, ao mesmo tempo que a testa se lhe
cobria de palidez.

Danglars, a quem nenhum destes sintomas escapava, pousou nele
um olhar mais firme do que de costume.

- Agradea-me no me explicar mais - disse.

Uma tremura nervosa, proveniente sem dvida de uma clera
contida agitava Morcerf:

- Tenho o direito... - comeou, fazendo um violento esforo
sobre si mesmo. - Tenciono exigir-lhe que se explique. Tem
alguma coisa contra a Sr.a de Morcerf?  a minha fortuna que 
insuficiente? So as minhas opinies, que, por serem
contrrias s suas...

- De modo nenhum, senhor - respondeu Danglars. - E se se
tratasse disso, seria imperdovel da minha parte, uma vez que
me comprometi sabendo todas essas coisas. No, no procure
mais. Sinto-me sinceramente envergonhado de o levar a fazer
esse exame de conscincia. Fiquemos por aqui, que  o melhor,
acredite. Aceitemos o meio termo do adiamento, que no  nem
um rompimento nem um compromisso. Nada nos apressa, meu Deus!
A minha filha tem dezassete anos e o seu filho vinte e um.
Enquanto esperamos, o tempo passar e compor os
acontecimentos. As coisas que parecem escuras na vspera so
por vezes clarssimas no dia seguinte e num dia desfazem-se as
mais cruis calnias:

- Calnias, disse o senhor?! - gritou Morcerf, tornando-se
lvido. - Caluniam-me? A mim?!

- Sr. Conde, deixemo-nos de explicaes, peo-lhe.

- Quer dizer, senhor, que deverei suportar tranquilamente essa
recusa?

- Penosa sobretudo para mim, senhor. Sim, mais penosa para mim
do que para si. porque considerava uma honra a nossa aliana,
e um casamento desfeito prejudica sempre mais a noiva do que o
noivo.

- Est bem, senhor, no falemos mais a tal respeito -
concordou Morcerf.

E, amarrotando as luvas com raiva, saiu do aposento.

Danglars notou que nem uma s vez Morcerf ousara perguntar se
era por causa dele, Morcerf; que Danglars retirava a sua
palavra.

 noite, teve uma longa conferncia com vrios amigos, e o
Sr. Cavalcanti, que se mantivera constantemente na sala das
senhoras, foi o ltimo a sair de casa do banqueiro.

No dia seguinte, ao acordar, Danglars pediu os jornais, que
lhe trouxeram imediatamente. Ps de lado trs ou quatro e
pegou no Impartial.

Era aquele em que Beauchamp ocupava o cargo de redactor
principal.

Quebrou rapidamente a cinta, abriu-o com uma precipitao
nervosa, passou desdenhosamente pelo premier Paris e,
chegado aos faits divers, deteve-se com o seu sorriso
maldoso numa notcia breve que comeava assim:
"Escrevem-nos de Janina... "

- Pronto - disse depois de ler --, aqui est um artigozinho
sobre o coronel Fernand, que, segundo todas as probabilidades,
me dispensar de dar explicaes ao Sr. Conde de Morcerf.

Na mesma altura, isto , cerca das nove horas da manh, Albert
de Morcerf; vestido de preto, metodicamente abotoado e com o
passo agitado e a palavra breve, apresentava-se na casa dos
Campos Elsios.

- O Sr. Conde saiu h pouco mais ou menos meia hora -
informou-o o porteiro.

- Levou Baptistin? - perguntou Morcerf.

- No, Sr. Visconde.

- Chame Baptistin, quero falar com ele.

O prprio porteiro foi chamar o criado de quarto, com o qual
regressou pouco depois.

- Meu amigo - disse Albert --, peo-lhe desculpa da minha
indiscrio, mas queria perguntar-lhe pessoalmente: o seu amo
saiu de facto?

- Saiu, sim, senhor - respondeu Baptistin.

- Mesmo para mim?

- Sei quanto o meu amo sente prazer em receber V. Ex.a, e de
modo algum o incluiria numa medida geral.

- Ainda bem, porque preciso de lhe falar de um caso grave.
Acha que se demorar?

- No, porque pediu o pequeno-almoo para as dez horas.

- Bom, vou dar uma volta pelos Campos Elsios e s dez estarei
aqui. Se o Sr. Conde regressar antes de mim, diga-lhe que lhe
peo para me esperar.

- No me esquecerei, senhor, pode estar certo.

Albert deixou  porta do conde o cabriol de praa em que
viera e foi passear a p.

Ao passar diante da Alameda das Vivas julgou reconhecer os
cavalos do conde estacionados  porta da carreira de tiro de
Gosset. Aproximou-se e, depois de reconhecer os cavalos,
reconheceu o cocheiro.

- O Sr. Conde est na carreira de tiro? - perguntou Morcerf.


- Est, sim, senhor - respondeu o cocheiro.

Com efeito, vrios tiros regulares tinham soado desde que
Morcerf se encontrava nas imediaes.

Entrou.

O servente encontrava-se no jardinzito.

- Desculpe, mas o Sr. Visconde poderia esperar um instante?

- Porqu, Philippe? - perguntou Albert, que, como frequentador
habitual, estranhava aquele obstculo, que no compreendia.

Porque a pessoa que se treina neste momento pratica sozinha e
nunca atira diante de ningum.

- Nem mesmo diante de si, Philippe?

- Como v, senhor, estou  porta do meu cubculo.

- E quem lhe carrega as pistolas?

- O criado.

- Um nbio?

- Um grego.

-  isso.

- Conhece esse senhor?

- Venho procur-lo,  meu amigo.

- Oh, ento  outra coisa! Vou preveni-lo.

E Philippe, impelido pela sua prpria curiosidade, entrou na
barraca de madeira. Um segundo depois, Monte-Cristo apareceu
no limiar.

- Desculpe persegui-lo at aqui, meu caro conde - disse Albert
--, mas comeo por lhe dizer que a culpa no  do seu pessoal
e que sou o nico indiscreto. Apresentei-me em sua casa;
disseram-me que tinha sado, mas que regressaria s dez horas
para tomar o pequeno-almoo. Resolvi vir passear,  espera das
dez, e ao passar por aqui vi os seus cavalos e a sua
carruagem.

- O que acaba de me dizer d-me a esperana de que venha
pedir-me o pequeno-almoo...

- No, obrigado. No se trata do pequeno-almoo, neste
momento. Talvez tomemos o pequeno-almoo mais tarde, mas em m
companhia, com a breca!

- Que diabo est para a a dizer?

- Meu caro, bato-me hoje.

- O senhor? E porqu?

- Porque sim!

- Est bem, mas por que motivo? As pessoas batem-se por mil e
uma coisas, como sabe.

- Por uma questo de honra.

- Ah, ento o caso  srio!

- To srio que lhe venho pedir que me faa um favor.

- Qual?

- O de ser minha testemunha.

- Ento o caso  mais do que srio,  grave. Mas no falemos
disso aqui e regressemos a minha casa. Ali, d-me gua.

O conde arregaou as mangas e passou ao vestibulozinho que
precede as linhas de tiro e onde os atiradores tm o hbito de
lavar as mos.

- Entre, Sr. Visconde, se quer ver uma coisa engraada - disse
Philippe em voz baixa.

Morcerf entrou. Em vez de alvos, encontravam-se coladas na
placa cartas de jogar.

De longe, Morcerf julgou tratar-se de um naipe completo; havia
desde o s at ao dez.

- Ah, ah!... - exclamou Albert. - Estava a jogar ao piquet?

- No - respondeu o conde --, estava a fazer um baralho de
cartas.

- Como?...

- Sim. As que v so ases e duques; as minhas balas  que
fizeram os ternos, as quinas, os setes, os oitos, os noves e
os dez.

Albert aproximou-se.

Com efeito, as balas tinham, em linhas perfeitamente exactas e
a distncias perfeitamente iguais, substitudo os sinais
ausentes e perfurado o carto nos stios onde deveriam ser
pintados. Ao dirigir-se para a placa, Morcerf apanhou ainda
duas ou trs andorinhas que tinham cometido a imprudncia de
passar ao alcance da pistola do conde e que este abatera.

- Diabo!... - exclamou Morcerf.

- Que quer, meu caro visconde - disse Monte-Cristo, limpando
as mos  toalha trazida por Ali --, tenho de ocupar os meus
momentos de ociosidade... Mas venha, estou  sua espera.

Subiram ambos para o cup de Monte-Cristo, que, poucos
instantes depois, os depositou  porta do n.o 30.

Monte-Cristo levou Morcerf para o seu gabinete e indicou-lhe
uma cadeira. Sentaram-se ambos.

- Agora, conversemos tranquilamente - disse o conde.

- Como v, estou perfeitamente calmo.

- Com quem se quer bater?

- Com Beauchamp.

- Um dos seus amigos!

-  sempre com amigos que nos batemos.

- Pelo menos deve haver uma razo.

- Tenho uma.

- Que lhe fez ele?

- Um jornal de ontem  tarde... Mas tome, leia - e Albert
estendeu a Monte-Cristo um jornal em que o conde leu o
seguinte:

"Escrevem-nos de Janina:

"Um facto at agora ignorado, ou pelo menos indito, chegou
ao nosso conhecimento: os castelos que defendiam a cidade
foram entregues aos Turcos por um oficial francs no qual o
vizir Ali-Tebelin depositava toda a sua confiana e que se
chamava Fernand."

- Que v nisto que o ofenda? - perguntou Monte-Cristo.

- Como, que vejo?!

- Sim. Que lhe interessa a si que os castelos de Janina tenham
sido entregues por um oficial chamado Fernand?

- Interessa-me porque o meu pai, o conde de Morcerf, se chama
Fernand de seu nome de baptismo.

- E o seu pai esteve ao servio de Ali-Pax?

- Bom, ele combatia pela independncia dos Gregos.  a que
reside a calnia.

- Ah, sim! Sejamos razoveis, meu caro visconde...

- No pretendo outra coisa.

-Diga-me c: quem diabo sabe em Frana que o oficial Fernand 
o mesmo homem que o conde de Morcerf? E quem se ocupa agora de
Janina, que, segundo creio, foi tomada em 1822 ou 1823?

-  precisamente ai que reside a perfdia: deixa-se o tempo
passar, e um belo dia recordam-se acontecimentos esquecidos
para armar um escndalo que pode manchar uma alta posio.
Pois bem, eu, herdeiro do nome do meu pai, no quero sequer
que sobre esse nome paire a sombra de uma dvida. Vou enviar a
Beauchamp, em cujo jornal foi publicada esta notcia, duas
testemunhas, para que a corrija.

- Beauchamp no corrigir nada.

- Ento, bater-nos-emos.

- No, no se batero porque ele lhe responder que havia no
Exrcito grego talvez cinquenta oficiais chamados Fernand.

- Bater-nos-emos apesar dessa resposta. Oh, quero que corrija
a notcia!... Meu pai, um soldado to nobre, com to ilustre
carreira...

- Ou ento escrever: "Somos levados a crer que tal Fernand
nada tem de comum com o Sr. Conde de Morcerf, cujo nome de
baptismo  tambm Fernand."

- Exijo uma retractao plena e completa; no me contentarei
de modo algum com isso!

- E vai mandar-lhe as suas testemunhas?

- Vou.

- Faz mal.

- Isso quer dizer que me recusa o favor que lhe vinha pedir?

- Conhece a minha teoria a respeito do duelo; fiz-lhe a minha
profisso de f em Roma, lembra-se?

- Contudo, meu caro conde, encontrei-o esta manh, ainda h
pouco, entregue a uma ocupao pouco de harmonia com essa
teoria.

- Porque, meu caro amigo, nunca devemos, como deve compreender
alhear-nos do meio em que vivemos. Quando vivemos com loucos,
devemos aprender a ser tambm insensatos. De um momento para o
outro, qualquer temperamento irascvel poder, sem mais motivo
do que querer implicar comigo como o senhor quer implicar com
Beauchamp, aproveitar a primeira ninharia para me mandar as
suas testemunhas ou insultar-me em pblico. Nesse caso, no
terei outro remdio seno matar o indivduo dotado desse
temperamento irascvel...

- Admite, portanto, que o senhor mesmo se bateria?

- Ora essa!

 -Sendo assim, porque quer que eu no me bata?

- No disse, de modo algum, que se no devia bater; digo
apenas que um duelo  coisa grave e em que  preciso pensar.

- E ele pensou antes de insultar o meu pai?

- Se no pensou e lho confessar, no dever querer-lhe mal por
isso.

- Meu caro conde, o senhor  demasiado indulgente!

- E o senhor demasiado rigoroso. Vejamos, supondo...
Escute bem isto: supondo... No se zangar com o que vou
dizer?

- Escuto-o.

- Supondo que o caso noticiado era verdadeiro.

- Um filho no deve admitir semelhante suposio sobre a honra
do seu pai.

- Meu Deus, estamos numa poca em que se admitem tantas
coisas!

- Esse  precisamente o vcio da poca.

- Tem porventura a pretenso de a corrigir?

- Tenho, naquilo que me diz respeito.

- Meu Deus, que rigorista me saiu, meu caro amigo!

- Sou assim.

-  inacessvel aos bons conselhos?

- No, quando vm de um amigo.

- Considera-me um deles?

- Considero.

- Ento, antes de enviar as suas testemunhas a Beauchamp
informe-se.

- Junto de quem?

- Ora essa! Junto de Hayde, por exemplo.

- Meter uma mulher em tudo isto... Que pode ela dizer?

- Declarar-lhe que o seu pai nada teve a ver com a derrota ou
a morte do dela, por exemplo, ou esclarec-lo a tal respeito,
se por acaso o seu pai tivesse tido a infelicidade...

- J lhe disse, meu caro conde, que no podia admitir
semelhante suposio.

- Recusa portanto este meio?

- Recuso.

- Absolutamente?

- Absolutamente.

- Ento, um ltimo conselho.

- Seja, mas o ltimo.

- No o quer?

- Pelo contrrio, peo-lho.

- No mande testemunhas a Beauchamp.

- Como?

- V procur-lo pessoalmente.

-  contra todos os hbitos.

- O seu caso est fora do que  corrente.

- E porque hei-de ir procur-lo pessoalmente, no me diz?

- Porque assim o assunto ficar entre o senhor e Beauchamp.

- Explique-se.

- Sem dvida. Se Beauchamp estiver disposto a retractar-se,
deve-se-lhe deixar o mrito da boa vontade: a retractao nem
por isso ser menos completa. Se, pelo contrrio, ele recusar,
ser ento altura de meter dois estranhos no vosso segredo.

- No sero dois estranhos, sero dois amigos!

- Os amigos de hoje sero os inimigos de amanh.

- Essa agora!

- Prova: Beauchamp.

- Assim.

- Assim, recomendo-lhe a prudncia.

- Assim, acha que devo ir procurar Beauchamp pessoalmente?

- Acho.

- Sozinho?

- Sozinho. Quando se quer obter qualquer coisa do amor-prprio
de um homem, deve-se salvaguardar o amor-prprio desse homem
at da aparncia do sofrimento.

- Creio que tem razo.

- Ora ainda bem!

- Irei sozinho.

- V. Mas faria ainda melhor se no fosse de todo.

- Impossvel.

- Faa portanto assim; sempre ser melhor do que o que ia
fazer.

- Mas nesse caso, vejamos... se, apesar de todas as minhas
precaues, de todos os seus conselhos, tiver um duelo,
servir-me- de testemunha?

- Meu caro visconde - respondeu Monte-Cristo com suprema
gravidade --, j teve oportunidade de ver que noutras
circunstncias estive inteiramente  sua disposio; mas o
favor que me pede agora sai fora do circulo daqueles que lhe
posso prestar.

- Porqu?

- Talvez o saiba um dia...

- Mas entretanto?

- Peo a sua indulgncia para o meu segredo.

- Est bem. Recorrerei a Franz e Chteau-Renaud.

- Sim, pea a Franz e a Chteau-Renaud.  uma excelente
ideia.

- Mas enfim, se me bater, dar-me- uma liozinha de espada ou
de pistola? - No,  tambm uma coisa impossvel.

- Sempre me saiu um homem deveras singular! Portanto, no se
quer meter em nada?

- Absolutamente em nada.

- Nesse caso, nada mais temos a dizer. Adeus, conde.

- Adeus, visconde.

Morcerf pegou no chapu e saiu.

Encontrou  porta o seu cabriol e, contendo o melhor possvel
a sua clera, fez-se conduzir a casa de Beauchamp.
Este estava no jornal.

Albert fez-se conduzir ao jornal.

Beauchamp encontrava-se num gabinete escuro e poeirento, como
so habitualmente os gabinetes dos jornais.

Anunciaram-lhe Albert de Morcerf. Fez repetir duas vezes o
anncio. Depois, ainda mal convencido, gritou:

- Entre!

Albert apareceu. Beauchamp soltou uma exclamao ao ver o
amigo transpor os montes de papis e pisar com p mal
exercitado os jornais de todos os formatos que juncavam. no o
parque, mas sim o lajedo avermelhado do gabinete.

- Por aqui, por aqui, meu caro Albert - disse, estendendo a
mo ao jovem. - Que diabo o traz por c? Perdeu-se, como o
Polegarzinho, ou vem muito simplesmente pedir-me almoo? Veja
se descobre uma cadeira. Olhe, ali, ao p daquele gernio,
que, sozinho aqui, me lembra que h no mundo folhas que no
so folhas de papel.

- Beauchamp,  do seu jornal que lhe venho falar - disse
Albert.

- Voc, Morcerf? Que deseja?

- Desejo uma rectificao.

- Voc, uma rectificao?... A propsito de qu. Albert?
Mas sente-se!

- Obrigado - respondeu Albert pela segunda vez e com um
ligeiro aceno de cabea.

- Explique-se.

- Uma rectificao a respeito de um facto que atinge a honra
de um membro da minha famlia.

- Que me diz.? - perguntou Beauchamp, surpreendido.
- Qual facto?  impossvel.

- O facto de que lhes deram notcia de Janina.
-De Janina?

- Sim, de Janina. Realmente, voc tem o ar de ignorar o que c
me trouxe...

- Pela minha honra. Baptiste! Um jornal de ontem! - gritou
Beauchamp.

-  intil, trago-lhe o meu.

Beauchamp leu entre dentes:

- "Escrevem-nos de Janina ", etc.

- Como deve compreender, o caso  grave -- disse Morcerf;
quando Beauchamp terminou.

- Este oficial  seu parente? - perguntou o jornalista.

-  - respondeu Albert, corando.

- Que quer que faa para lhe ser agradvel? -- inquiriu
Beauchamp delicadamente.

- Gostaria, meu caro Beauchamp, que corrigissem essa notcia.

Beauchamp olhou Albert com uma ateno que denotava, sem
dvida nenhuma, indulgncia.

- Vejamos - disse por fim --, isto  caso para nos
embrenharmos numa longa conversa. Porque uma retractao 
sempre uma coisa grave. Sente-se. Vou reler estas trs ou
quatro linhas.

Albert sentou-se e Beauchamp releu as linhas incriminadas pelo
amigo com mais ateno do que da primeira vez

- Como v - disse Albert com firmeza, com rudeza mesmo --,
insultaram no seu jornal algum da minha famlia e eu quero
uma retractao.

- O senhor... quer...

- Sim, quero!

- Permita-me que lhe diga que no est com meias medidas, meu
caro visconde...

- Nem quero estar - replicou o jovem, levantando-se. -
Pretendo a retractao de um facto que o seu jornal publicou
ontem e obt-la-ei. O senhor  suficientemente meu amigo -
continuou Albert, com os lbios apertados, vendo que, pelo seu
lado, Beauchamp comeava a levantar a cabea desdenhosa --, o
senhor  suficientemente meu amigo e, como tal, conhece-me o
suficiente, suponho, para compreender a minha tenacidade em
tais circunstncias.

- Se sou seu amigo, Morcerf, acabar por mo fazer esquecer com
palavras idnticas s de h pouco... Mas vejamos, no nos
zanguemos, ou pelo menos no nos zanguemos ainda... Voc est
inquieto, irritado, furioso... Vejamos, qual  esse parente
que se chama Fernand?

-  o meu pai, muito simplesmente - respondeu Albert. - O Sr.
Fernand Mondego, conde de Morcerf; um velho militar que viu
vinte campos de batalha e a quem querem cobrir as nobres
cicatrizes com a lama nojenta apanhada da valeta.

-  o seu pai? - repetiu Beauchamp. - Ento,  outra coisa.
Compreendo a sua indignao, meu caro Albert... Mas tornemos a
ler...

E releu a notcia, desta vez vincando bem cada palavra.

- Mas onde v voc que o Fernand do jornal  o seu pai? -
perguntou Beauchamp.

- Em parte alguma, bem sei. Mas outros v-lo-o.  por isso
que quero que a notcia seja desmentida.

Ao ouvir a palavra quero. Beauchamp ergueu os olhos para
Morcerf; baixou-os quase imediatamente e ficou um instante
pensativo.

- Desmentir essa notcia. no  verdade, Beauchamp? - repetiu
Morcerf; com uma clera crescente, embora sempre concentrada.

- Desmentirei - respondeu Beauchamp.

- At que enfim! - exclamou Albert.

- Mas quando me tiver assegurado de que  falsa.

- Como?!

- Sim, o caso vale a pena ser esclarecido e esclarec-lo-ei.

- Mas que v o senhor a esclarecer em tudo isto? - perguntou
Albert, fora de si. - Se no acredita que seja o meu pai,
diga-o imediatamente; se acredita que seja ele, diga-me em que
baseia essa opinio.

Beauchamp olhou Albert com o sorriso que lhe era peculiar e
que sabia tomar o cambiante de todas as paixes.

- Senhor - redarguiu --, j que prefere nos tratemos assim, se
foi para me pedir justificaes que veio,  melhor comear por
a e no me vir falar de amizade e doutras coisas ociosas como
as que tenho a pacincia de ouvir h meia hora. E este, a
partir de agora, o terreno que vamos pisar, garanto-lhe! Ora
no querem l ver!...

- Juro-lhe que se arrepender se no desmentir a infame
calnia!

- Um momento! Nada de ameaas, por favor, Sr. Albert Mondego,
visconde de Morcerf. No as tolero aos meus inimigos e com
mais forte razo aos meus amigos. Portanto, quer que desminta
a notcia sobre o coronel Fernand, notcia em que no tive,
pela minha honra, qualquer interferncia?

- Sim, senhor,  o que quero! - replicou Albert, que j no
sabia onde tinha a cabea.

- Sem o que nos bateremos? - continuou Beauchamp com a mesma
calma.

- Exacto - respondeu Albert, erguendo a voz.

- Pois ento, meu caro senhor, aqui tem a minha resposta -
disse Beauchamp. - Essa notcia no foi publicada por mim, nem
sequer a conhecia. Mas o senhor, com a sua diligncia junto de
mim, chamou-me a ateno para ela e j a no largo. E a
notcia subsistir at que seja desmentida ou confirmada por
quem de direito.

- Senhor - disse Albert, levantando-se --, vou portanto ter a
honra de lhe enviar as minhas testemunhas. Discutir com elas
o local e as armas.

- Perfeitamente, meu caro senhor.

- E esta tarde, se fizer favor, ou amanh, o mais tardar,
bater-nos-emos.

- No, isso no! Estarei no terreno na altura prpria, e na
minha opinio (tenho o direito de a ter, pois sou o
provocado), e na minha opinio, repito, essa altura ainda no
chegou. Sei que maneja muito bem a espada e que eu a manejo
sofrivelmente; sei que acerta trs vezes no alvo em seis
tiros, o mesmo que consigo, pouco mais ou menos, e sei que um
duelo entre ns ser um duelo srio, porque o senhor  valente
e eu... tambm o sou. No quero portanto arriscar-me a mat-lo
ou a ser eu prprio morto pelo senhor sem um motivo. Agora sou
eu que lhe vou fazer uma pergunta e ca-te-go-ri-ca-men-te:
exige essa retractao a ponto de me matar se a no fizer,
embora lhe tenha dito, e repita, embora lhe afirme sob a minha
palavra de honra que no conhecia a notcia, e embora lhe
declare finalmente que  impossvel a qualquer outro que no
possua, como o senhor, o dom de adivinhar de Jafeth descobrir
o Sr. Conde de Morcerf sob esse nome de Fernand?

- Exijo-a absolutamente.

- Muito bem, meu caro senhor, consinto em cortar o pescoo
consigo, mas quero trs semanas; daqui a trs semanas irei
procur-lo para lhe dizer: "Sim, a notcia  falsa e
desminto-a": ou: "Sim, a notcia  verdadeira", e tiro as
espadas da bainha ou as pistolas da caixa,  sua escolha.

- Trs semanas! - exclamou Albert. - Mas trs semanas so trs
sculos durante os quais estarei desonrado!

- Se o senhor continuasse a ser meu amigo, dir-lhe-ia:
"Pacincia, amigo." Mas como prefere ser meu inimigo,
digo-lhe: "Que me interessa isso a mim senhor?!"

- Est bem, seja daqui a trs semanas - concordou Morcerf. -
Mas no se esquea: daqui a trs semanas no haver mais
adiamentos, nem subterfgio que o possa dispensar...

- Sr. Albert de Morcerf - atalhou Beauchamp, levantando-se por
sua vez --, s o posso atirar pela janela daqui a trs
semanas, isto , dentro de vinte e quatro dias, portanto em 21
do ms de Setembro. At l, acredite, e  um conselho de
gentil-homem que lhe dou, poupemo-nos os ladridos de dois ces
presos  distncia.

E Beauchamp cumprimentou gravemente o jovem, virou-lhe as
costas e dirigiu-se para a tipografia.

Albert vingou-se numa pilha de jornais, que espalhou,
fustigando-os raivosamente com a badine. Em seguida
retirou-se, no sem se virar duas ou trs vezes para a porta
da tipografia.

Enquanto Albert fustigava a dianteira do seu cabriol, depois
de fustigar os inocentes papis enegrecidos que no tinham
culpa do seu desaire, viu, atravessando o bulevar, o capito
Morrel, que, de cabea erguida, olhos brilhantes e braos a
dar a dar, passava diante dos banhos chineses vindo das bandas
da Porta Saint-Martin e indo para os lados da Madalena.

- Ah, ali vai um homem feliz! - disse, suspirando.

E por acaso Albert no se enganava.


Captulo LXXIX


A limonada

Com efeito Morrel estava felicssimo.

O Sr. Noirtier acabava de o mandar chamar, e tinha tanta
pressa de saber o que lhe queria que no tomara nenhum
cabriol, fiara-se muito mais nas pernas do que nas de um
cavalo de praa. Partira portanto a correr da Rua Meslay e
dirigia-se para o Arrabalde de Saint-Honor.

Morrel caminhava a passo de ginstica  o pobre Barrois
seguia-o conforme podia. Morrel tinha trinta e um anos,
Barrois contava sessenta, Morrel estava brio de amor, Barrois
suava por todos os poros devido ao calor. Os dois homens,
assim separados por interesses e pela idade, pareciam as duas
linhas que formam um tringulo: afastadas pela base, juntam-se
no vrtice.

O vrtice era Noirtier, o qual mandara chamar Morrel, com a
recomendao de vir depressa, recomendao que Morrel seguia 
letra, com grande desespero de Barrois.

Quando chegaram. Morrel nem sequer estava ofegante: o amor d
asas; mas Barrois, que havia muito tempo se no apaixonava,
estava banhado em suor.

O velho criado fez entrar Morrel pela porta particular, fechou
a porta do gabinete e Em breve um "frutru" de vestido no
parqu anunciou a visita de Valentine.

Valentine estava encantadora no seu vestido de luto.

O sonho tornava-se to delicioso que Morrel quase se esqueceu
de que estava ali para conversar com Noirtier. Mas a cadeira
do velho no tardou a rodar no parque e ele entrou.

Noirtier acolheu com um olhar indulgente os agradecimentos que
Morrel lhe prodigalizava pela maravilhosa interveno que os
salvara, a Valentine e a ele, do desespero. Depois o olhar de
Morrel foi pousar, utilizando o novo privilgio que lhe era
concedido, na jovem, que, tmida e sentada longe dele,
esperava que a obrigassem a falar.

Noirtier olhou-a por sua vez.

- Tenho mesmo de dizer aquilo de que me encarregou? -
perguntou ela.

- Sim - respondeu Noirtier.

- Sr. Morrel - disse ento Valentine ao jovem, que a devorava
com a vista --, o meu av Noirtier tinha mil coisas a
dizer-lhe e disse-mas nos ltimos trs dias. Hoje mandou-o
chamar para eu lhas repetir. Repetir-lhas-ei, portanto, uma
vez que ele me escolheu para sua intrprete, sem alterar uma
palavra s suas intenes.

- Oh, no imagina com que impacincia a escuto! - respondeu o
rapaz. - Fale, menina, fale.

Valentine baixou os olhos; foi um pressgio que pareceu
favorvel a Morrel: Valentine s era fraca quando era feliz.

- O meu av quer deixar esta casa - prosseguiu a jovem. -
Barrois anda a procurar-lhe um apartamento conveniente.

- Mas a menina - atalhou Morrel --, a menina que  to querida
e necessria ao Sr. Noirtier?

- Eu - respondeu Valentine - no deixarei o meu av.  ponto
assente entre ns. O meu quarto ser junto do seu. Ou terei o
consentimento do Sr. de Villefort para ir morar com o avo
Noirtier ou no terei. No primeiro caso, sairei daqui em
qualquer momento a partir de agora; no segundo, esperarei pela
minha maioridade, que ser daqui a dezoito meses. Ento serei
livre, terei uma fortuna independente e...

- E?... - perguntou Morrel.

- E, com a autorizao do meu av, cumprirei a promessa que
lhe fiz, Sr. Morrel.

Valentine pronunciou as ltimas palavras to baixo que Morrel
as no teria ouvido sem o interesse que tinha em as devorar.

- Exprimi o seu pensamento, av? - acrescentou Valentine,
dirigindo-se a Noirtier.

- Sim - respondeu o velho.

- Uma vez em casa do meu av - prosseguiu Valentine --, o Sr.
Morrel poder ver-me na presena deste bom e digno protector.
Se os laos que os nossos coraes, talvez ignorantes ou
caprichosos, comearam a dar parecerem convenientes e
oferecerem garantias de felicidade futura  nossa experincia
(infelizmente, diz-se, os coraes estimulados pelos
obstculos estriam na segurana!... ), ento o Sr. Morrel
poder pedir-me a mim mesma e eu esper-lo-ei.

- Oh! - exclamou Morrel, tentado a ajoelhar diante do velho
como diante de Deus, diante de Valentine como diante de um
anjo. - Oh, que fiz eu de bem na minha vida para merecer tanta
felicidade?!

- At l - continuou a jovem, na sua voz pura e severa -
respeitaremos as convenincias e a prpria vontade das nossas
famlias, desde que essa vontade no queira separar-nos para
sempre. Numa palavra, e repito esta palavra porque ela diz
tudo: esperaremos.

- E os sacrifcios que essa palavra impe, senhor - disse
Morrel --, juro-lhe que os cumprirei, no com resignao, mas
sim com felicidade.

- Assim - continuou Valentine com um olhar muito doce ao
corao de Maximilien --, nada de imprudncias, meu amigo; no
comprometa aquela que, a partir de hoje, se considera
destinada a usar pura e dignamente o seu nome.
Morrel ps a mo no corao.

Entretanto, Noirtier olhava ambos com ternura. Barrois, que
ficara ao fundo como um homem a quem nada se oculta, sorria
limpando as grossas gotas de suor que lhe calam da calva.

- Oh, meu Deus, como est com calor o nosso bom Barrois! -
exclamou Valentine.

- Se soubesse o que corri, menina... - redarguiu Barrois. -
Mas o Sr. Morrel, devo fazer-lhe essa justia, corria ainda
mais do que eu.

Noirtier indicou com a vista uma bandeja em que estavam uma
garrafa de limonada e um copo. O que faltava na garrafa fora
bebido meia hora antes por Noirtier.

- Vamos, meu bom Barrois, bebe, pois bem vejo que no tiras os
olhos da garrafa - disse a jovem.

- De facto - confessou Barrois --, morro de sede e beberei de
boa vontade um copo de limonada  sua sade...

- Bebe ento e volta depressa - disse Valentine.

Barrois levou a bandeja e mal chegou ao corredor, viram-no,
atravs da porta que se esquecera de fechar, inclinar a cabea
para trs e despejar o copo que Valentine enchera.

Valentine e Morrel despediam-se na presena de Noirtier quando
ouviram a campainha tocar na escada de Villefort.

Era o sinal de uma visita.

Valentine olhou para o relgio.

-  meio-dia e hoje  sbado - disse. -  sem dvida o mdico.

Noirtier fez sinal de que, de facto, devia ser ele.

- Como vem c,  melhor que o Sr. Morrel saia, no  verdade,
av?

- Sim - respondeu o velho.

- Barrois! - chamou Valentine. - Barrois, vem c!

Ouviu-se a voz do velho criado responder.

- Vou j, menina.

- Barrois vai acompanh-lo at  porta - disse Valentine a
Morrel. - E agora lembre-se de uma coisa, senhor oficial:
que o meu av lhe recomenda que no arrisque nenhum passo
capaz de comprometer a nossa felicidade.

- Prometi esperar e esperarei - respondeu Morrel.

Neste momento, Barrois entrou.

- Quem tocou? - perguntou Valentine.

- O Sr. Dr. de Avrigny - respondeu Barrois, cambaleando.

- Que tens tu, Barrois? - perguntou Valentine.

O velho no respondeu. Olhava o amo com olhos esgazeados,
enquanto com a mo crispada procurava um apoio para permanecer
de p.

- Mas ele vai cair! - gritou Morrel.

Efectivamente, a tremura que se apoderara de Barrois aumentava
de momento a momento, e o seu rosto, alterado pelos movimentos
convulsivos dos msculos faciais, denotava um ataque nervoso
dos mais intensos.

Ao ver Barrois assim perturbado, Noirtier multiplicava os seus
olhares, nos quais transpareciam, inteligveis e palpitantes,
todas as emoes que agitam o corao do homem.

Barrois deu alguns passos para o amo.

- Meu Deus, meu Deus! Senhor, que tenho eu?... - disse. -
Sofro... no posso mais. Mil agulhas de fogo espicaam-me o
crnio... Oh, no me toquem, no me toquem!

Com efeito, os olhos tornavam-se-lhe salientes e desvairados e
a cabea pendia-lhe para trs, enquanto o resto do corpo se
retesava.

Apavorada, Valentine soltou um grito. Morrel tomou-a nos
braos como que para a defender de qualquer perigo
desconhecido

- Sr. de Avrigny! Sr. de Avrigny! - gritou Valentine em voz
sufocada. - Venha! Socorro!

Barrois girou sobre si mesmo, deu trs passos atrs, tropeou
e veio cair aos ps de Noirtier, no joelho do qual apoiou a
mo, gritando:

- Meu amo! Meu bom amo!

Neste momento, atrado pelos gritos, o Sr. de Villefort
apareceu no limiar do quarto.

Morrel largou Valentine meio desfalecida, recuou para
o canto do quarto e quase desapareceu atrs de um reposteiro.


Plido, como se tivesse visto uma serpente erguer-se diante de
si, no tirava os olhos do pobre agonizante.

Noirtier fervia de impacincia e terror. A sua alma corria em
socorro do pobre velho, mais um amigo do que um criado. Via-se
o combate terrvel da vida e da morte transparecer-lhe na
testa pela intumescncia das veias e pela contraco de alguns
msculos ainda vivos  roda dos olhos.

Barrois, com o rosto agitado, os olhos injectados de sangue e
a cabea inclinada para trs, jazia no cho batendo no parque
com as mos, enquanto, pelo contrrio, as suas pernas rgidas
pareciam que mais depressa se quebrariam do que dobrariam.

Uma leve espuma vinha-lhe dos lbios e arquejava
dolorosamente.

Estupefacto, Villefort ficou um instante de olhos postos
naquele quadro, que lhe atrara a ateno logo que entrara no
quarto.

No vira Morrel.

Depois de um instante de contemplao muda, durante o qual se
pde ver o seu rosto empalidecer e os seus cabelos
eriarem-se-lhe na cabea, gritou correndo para a porta:

- Doutor! Doutor! Venha! Venha!

- Senhora! Senhora! - gritava por seu turno Valentine,
chamando a madrasta e indo de encontro s paredes da escada. -
Venha! Venha depressa e traga o seu frasco de sais!

- Que aconteceu? - perguntou a voz metlica e contida da Sr.a
de Villefort.

- Oh, venha, venha!

- Mas onde est o doutor? - gritava Villefort. - Onde se meteu
ele?

A Sr.a de Villefort desceu lentamente; ouviu-se estalar o
soalho debaixo dos seus ps. Numa das mos segurava o leno
com o qual limpava o rosto e na outra um frasco de sais
ingleses.

O seu primeiro olhar quando chegou  porta foi para Noirtier,
cujo rosto, exceptuando a emoo naturalssima em semelhantes
circunstncias, denotava que a sua sade no sofrera
alterao. O seu segundo olhar foi para o moribundo.

Empalideceu e os seus olhos saltaram por assim dizer do criado
para o amo.

- Mas, em nome do cu, senhora, onde est o doutor? Ele entrou
nos seus aposentos. Trata-se de uma apoplexia, como v, e com
uma sangria salv-lo-emos.

- Ele comeu h pouco? - perguntou a Sr.a de Villefort,
esquivando-se  pergunta do marido.

- Senhora - respondeu Valentine --, no tomou o
pequeno-almoo, mas correu muito esta manh para ir fazer um
recado de que o av o encarregou. S no regresso tomou um copo
de limonada.

- Ah! - exclamou a Sr.a de Villefort. - E porque no de vinho?
A limonada faz muito mal.

- A limonada estava ali, ao alcance da sua mo, na garrafa do
av. O pobre Barrois tinha sede e bebeu o que encontrou.

A Sr.a de Villefort, estremeceu. Noirtier envolveu-a no seu
olhar profundo.

- Ele tem o pescoo to curto!... - observou a Sr.a de
Villefort.

- Senhora - insistiu o marido --, perguntei-lhe onde estava o
Sr. de Avrigny. Em nome do cu, responda!

- Est no quarto de douard, que se encontra um pouco
indisposto- respondeu a Sr.a de Villefort, na impossibilidade
de se esquivar mais tempo  resposta.

Villefort correu para a escada, a fim de ir buscar o mdico
pessoalmente.

- Toma - disse a jovem senhora, dando o frasco de sais a
Valentine. - Com certeza que o vo sangrar. Vou para o meu
quarto, porque no posso suportar ver sangue.

E seguiu o marido.

Morrel saiu do canto escuro onde se escondera e ningum o
vira, to grande era a preocupao.

- V-se embora depressa, Maximilien - disse-lhe Valentine --,
e espere que o chame. V.

Morrel consultou Noirtier por um gesto. Noirtier, que
conservara todo o seu sangue-frio, fez-lhe sinal que sim.

O rapaz apertou a mo de Valentine ao corao e saiu pelo
corredor oculto.

Ao mesmo tempo, Villefort e o mdico entravam pela porta
oposta.

Barrois comeava a voltar a si. A crise passara, as suas
palavras voltavam a ser lamentosas e levantava-se apoiado num
joelho.

Avrigny e Villefort deitaram Barrois num canap.

- Que manda, doutor? - perguntou Villefort.

- Tragam-me gua e ter. No o tem em casa?

- Tenho.

- Corram a buscar-me essncia de terebentina e um vomitrio.

- Vo! - ordenou Villefort.

- E agora saia toda a gente.

- Eu tambm? - perguntou timidamente Valentine.

- Sim, menina. Sobretudo a menina - respondeu rudemente o
mdico.

Valentine olhou o Sr. de Avrigny com estranheza, beijou o Sr.
Noirtier na fronte e saiu.

Atrs dela, o mdico fechou a porta com ar sombrio.

- Veja, veja, doutor, ele est a voltar a si. Foi apenas um
ataque sem importncia.

O Sr. de Avrigny sorriu, sem no entanto perder a sua expresso
carrancuda.

- Como se sente, Barrois? - perguntou o mdico.

- Um pouco melhor, senhor.

- Pode beber este copo de gua eterizada?

- Vou tentar, mas no me toquem.

- Porqu?

- Porque me parece que se me tocassem, nem que fosse s com a
ponta do dedo, o acesso se repetiria.

- Beba.

Barrois pegou no copo, aproximou-o dos lbios roxos e bebeu
cerca de metade do lquido.

- Onde lhe di? - perguntou o mdico.

- Por toda a parte. Sinto umas cibras insuportveis.

- Passam-lhe coisas pela vista?

- Passam.

- Sente zumbidos nos ouvidos?

- Horrveis.

- Quando lhe deu isso?

- H bocado.

- Rapidamente?

- Como um raio.

- No sentiu nada ontem? Nem anteontem?

- Nada.

- Sonolncia? Fadiga?

- No.

- Que comeu hoje?

- No comi nada. Bebi apenas um copo da limonada do senhor.

E Barrois fez com a cabea um sinal para designar Noirtier,
que, imvel na sua cadeira, contemplava aquela cena terrvel
sem perder um gesto, sem deixar escapar uma palavra.

- onde est essa limonada? - perguntou vivamente o mdico.

- Na garrafa, l em baixo.

- L em baixo, onde?

- Na cozinha.

- Quer que a v buscar, doutor? - perguntou Villefort.

- No, fique aqui e procure que o doente beba o resto desse
copo de gua.

- Mas a limonada...

- Eu mesmo a vou buscar.

Avrigny abriu a porta de um salto, correu para a escada de
servio e quase derrubou a Sr.a de Villefort, que tambm
descia  cozinha.

Ela deu um grito.

Avrigny nem sequer lhe prestou ateno. Levado por uma nica
ideia, saltou os trs ou quatro ltimos degraus, precipitou-se
na cozinha e viu a garrafa, trs quartos vazia, numa bandeja.

Caiu sobre ela como uma guia sobre a presa.

Subiu arquejante ao rs-do-cho e reentrou no quarto.

A Sr.a de Villefort subia lentamente a escada que levava aos
seus aposentos.

- Era esta a garrafa que estava aqui? - perguntou Avrigny.

- Era, sim, Sr. Doutor.

- Esta limonada  a mesma que bebeu?

- Creio que sim.

- Que gosto lhe achou?

- Um gosto amargo.

O mdico deitou algumas gotas de limonada no cncavo da mo,
aspirou-as com os lbios e, depois de bochechar como se faz
com o vinho quando se quer provar, cuspiu o lquido para a
chamin.

- E de facto a mesma - disse. - Tambm bebeu, Sr. Noirtier?

- Bebi - respondeu o velho.

- E encontrou-lhe o mesmo gosto amargo?

- Encontrei.

- Ah, Sr. Doutor! - gritou Barrois. - Isto est a voltar!
Meu Deus, Senhor, tende piedade de mim!

O mdico correu para o doente.

- O vomitrio, Villefort. Veja se ele vem.

Villefort correu para fora, gritando:

- O vomitrio! O vomitrio! J o foram buscar?

Ningum respondeu. Reinava na casa o terror mais profundo.

- Se tivesse maneira de lhe insuflar ar nos pulmes - disse
Avrigny olhando  sua volta --, talvez tivesse possibilidade
de evitar a asfixia. Mas no, nada, nada!

- Oh, senhor, vai deixar-me morrer assim sem socorro?! -
gritava Barrois.

- Oh, eu morro, meu Deus! Eu morro!

- Uma pena! Uma pena! - pediu o mdico.

Viu uma em cima da mesa.

Procurou introduzir a pena na boca do doente, que fazia, no
meio das suas convulses, esforos inteis para vomitar. Mas
os maxilares estavam de tal forma apertados que a pena no
pde passar.

Barrois passava por um ataque nervoso ainda mais intenso do
que o primeiro.

Escorregara do canap para o cho e retesava-se no parque.

O mdico deixou-o entregue ao novo acesso, para o qual no
dispunha de qualquer alvio, e aproximou-se de Noirtier.

- Como se sente? - perguntou-lhe precipitadamente e em voz
baixa. - Bem?

- Sim.

- Leve de estmago ou pesado? Leve?

- Sim.

- Como quando toma a plula que lhe mando dar todos os
domingos?

- Sim.

- Foi Barrois quem fez a sua limonada?

- Foi.

- Foi o senhor que o convidou a beb-la?

- No.

- Foi o Sr. de Villefort?

- No.

- A senhora?

- No.

- Ento foi Valentine?

- Foi.

Um suspiro de Barrois, um bocejo que lhe fez estalar os ossos
do maxilar, chamaram a ateno de Avrigny, que deixou o Sr.
Noirtier e correu para junto do doente.

- Barrois, pode falar? - perguntou-lhe o mdico.

Barrois balbuciou algumas palavras ininteligveis.

- Faa um esforo, meu amigo.

Barrois abriu os olhos injectados de sangue.

- Quem fez a limonada?

- Eu.

- Trouxe-a ao seu patro assim que a fez?

- No.

- Deixou-a nalgum lado, ento?

- Na copa. Chamavam-me.

- Quem a trouxe para aqui?

- Mademoiselle Valentine.

Avrigny bateu na testa.

- Oh, meu Deus, meu Deus! - murmurou.

- Doutor! Doutor! - gritou Barrois, que sentia vir terceiro
acesso.

- Mas nunca mais trazem esse vomitrio?! - gritou o mdico.

- Aqui est um copo preparado - disse Villefort entrando.

- Por quem?

- Pelo ajudante de farmacutico, que veio comigo.

- Beba.

- Impossvel, doutor,  demasiado tarde! Sinto a garganta
apertada sufoco! Ai o meu corao! Ai a minha cabea! Oh, que
inferno! Ainda terei de sofrer muito tempo assim?

- No, no, meu amigo - tranquilizou-o o mdico. - Em breve
deixar de sofrer.

- Ah, compreendo! - gritou o infeliz. - Meu Deus, tende
piedade de mim.

E, soltando um grito, caiu para trs como que fulminado.

Avrigny ps-lhe a mo no corao e aproximou-lhe um espelho
dos lbios.

- Ento? - perguntou Villefort.

- V dizer  cozinha que me tragam sem demora xarope de
violetas.

Villefort desceu imediatamente.

- No se assuste, Sr. Noirtier - disse Avrigny. - Vou levar o
doente para outro quarto a fim de o sangrar. Na verdade, este
tipo de ataques so um espectculo horrvel de ver.

E segurando Barrois por baixo dos braos, arrastou-o para um
quarto contguo. Mas quase imediatamente regressou ao de
Noirtier para se apoderar do resto da limonada.

Noirtier fechava o olho direito.

- Valentine, no ? Quer Valentine? Vou dizer que lha mandem.

Villefort subiu. Avrigny encontrou-o no corredor.

- Ento? - perguntou o magistrado.

- Venha - convidou-o Avrigny.

E levou-o para o quarto.

- Continua sem sentidos? - perguntou o procurador rgio.

- Est morto.

Villefort recuou trs passos e juntou as mos mais altas do
que a cabea, numa inequvoca prova de comiserao.

- Morreu to rapidamente... - disse, olhando o cadver.

- Sim, demasiado rapidamente, no  verdade? - confirmou
Avrigny. - Mas isso no o deve surpreender: o Sr. e a Sr.a de
Saint-Mran tambm morreram rapidamente. Oh, morre-se
depressa na sua casa, Sr. de Villefort!...

- Que diz?! - exclamou o magistrado, com horror e
consternao. - Volta outra vez a essa ideia terrvel?

- Sempre, senhor, sempre! - respondeu Avrigny solenemente. -
Porque ela no me deixa um instante. E para que fique bem
convencido de que desta vez no me engano, escute com ateno,
Sr. de Villefort.

Villefort, tremia convulsivamente.

- H um veneno que mata quase sem deixar vestgios. Conheo
bem esse veneno: estudei-o em todos os acidentes que ocasiona,
em todos os fenmenos que produz. Esse veneno reconheci-o h
pouco no pobre Barrois, como j o reconhecera na Sr.a de
Saint-Mran. H uma maneira de reconhecer a presena desse
veneno: restabelece a cor azul do papel-de-tornassol
avermelhado por um cido e tinge de verde o xarope de
violetas. No temos papel-de-tornassol, mas veja, trazem-me ai
o xarope de violetas que pedi.

Com efeito, ouviam-se passos no corredor. O mdico entreabriu
a porta, pegou das mos da criada de quarto um recipiente no
fundo do qual havia duas ou trs colheres de xarope e voltou a
fechar a porta.

- Veja - disse ao procurador rgio, cujo corao batia com
tanta fora que quase se podia ouvir --, temos nesta taa
xarope de violetas e nesta garrafa o resto da limonada de que
o Sr. Noirtier e Barrois beberam uma parte. Se a limonada for
pura e inofensiva, o xarope conservar a sua cor; se a
limonada estiver envenenada, o xarope tornar-se- verde.
Veja!

O mdico deitou lentamente algumas gotas de limonada da
garrafa na taa, no fundo da qual se formou imediatamente uma
nuvem. Essa nuvem tomou primeiro um tom azulado; depois, do
safira passou  opala, e do opala ao esmeralda.
Chegada a esta ltima cor, fixou-se nela, por assim dizer. A
experincia no deixava nenhuma dvida.

- O infeliz Barrois foi envenenado com falsa-angustura e
noz-de-santo-incio - declarou Avrigny. - Agora, jur-lo-ia
perante os homens e perante Deus.

Villefort no disse nada, mas ergueu os braos ao cu, abriu
muito os olhos e caiu fulminado numa poltrona.

Captulo LXXX


A acusao


O Sr. de Avrigny no tardou a chamar a si o magistrado, que
parecia um segundo cadver naquele quarto fnebre.

- Oh, a morte instalou-se em minha casa! - exclamou Villefort.

- Diga antes o crime - corrigiu o mdico.

- Sr. de Avrigny, no posso exprimir-lhe tudo o que se passa
em mim neste momento - confessou Villefort. -  terror,  dor,
 loucura.

- Sim - respondeu o Sr. de Avrigny, com uma calma
impressionante. - Mas creio ser tempo de agirmos, de opormos
um dique a esta torrente de mortalidade. Quanto a mim,
sinto-me incapaz de levar mais longe semelhantes segredos, sem
esperana de proporcionarem em breve a vingana que a
sociedade e as vtimas exigem.

Villefort lanou  sua volta um olhar sombrio.

- Na minha casa - murmurou. - Na minha casa!

- Ento, magistrado, seja homem - aconselhou Avrigny.
- Interprete a lei, honre-se atravs de uma imolao completa.

- Faz-me estremecer, doutor, uma imolao!

- Foi o que disse.

- Desconfia portanto de algum?

- No desconfio de ningum. A morte bate  sua porta, entra,
sai, no cega, mas sim inteligentemente, vai de quarto em
quarto... Bom, sigo os seus passos, reconheo a sua passagem,
e adopto a sabedoria dos antigos: tacteio. Porque a minha
amizade pela sua famlia e o meu respeito pelo senhor so duas
vendas aplicadas aos meus olhos. Pois bem...

- Oh, fale, fale, doutor! Terei coragem.

- Pois bem, senhor, tem em sua casa, no seio da sua casa,
talvez da sua famlia, um desses horrveis fenmenos que s se
nos deparam uma vez em cada sculo. Locusta e Agripina, que
viveram na mesma poca, so uma excepo que prova o furor da
Providncia em perder o Imprio Romano, conspurcado por tantos
crimes. Brunilde e Fredegonda so os resultados do trabalho
penoso de uma civilizao na sua gnese, na qual o Homem
aprendia a dominar o esprito, ainda que atravs do enviado
das trevas. Bom, todas essas mulheres tinham sido ou eram
ainda jovens e belas. Vira-se-lhes florir na fronte ou na sua
fronte floria ainda essa mesma flor de inocncia que se
encontra tambm na fronte da culpada que se encontra nesta
casa.

Villefort soltou um grito, juntou as mos e fitou o mdico com
ar suplicante.

Mas este prosseguiu sem piedade:

- Procure a quem o crime aproveita, diz um axioma de
jurisprudncia...

- Doutor! - gritou Villefort. - Infelizmente, doutor, quantas
vezes a justia dos homens se no tem enganado com essas
palavras funestas! No sei, mas parece-me que esse crime ...

- Ah, confessa portanto, finalmente, que existe crime? ...

- Sim, reconheo. Que quer, no tenho outro remdio... Mas
deixe-me continuar. Parece-me, repito, que esse crime cai
apenas sobre mim e no sobre as vtimas. Suspeito de qualquer
calamidade para mim debaixo de todos esses crimes estranhos...

- Oh, o Homem!... - murmurou Avrigny. - O mais egosta de
todos os animais, a mais pessoal de todas as criaturas, que
julga sempre que a Terra gira, que o Sol brilha e que a morte
ceifa apenas para ele, formiga que amaldioa Deus do cimo de
uma ervinha! E os que perderam a vida, no perderam nada? O
Sr. de Saint-Mran, a Sr.a de Saint-Mran, o Sr. Noirtier...

- Como, o Sr. Noirtier?

- Sim, sim! Julga porventura que era o pobre criado que se
pretendia envenenar? No, no. Como o polaco de Shakespeare,
morreu por outro. Era Noirtier quem devia beber a limonada;
foi Noirtier quem a bebeu, segundo a ordem lgica das coisas.
O outro s a bebeu por acidente. E embora tenha sido Barrois
quem morreu, era Noirtier quem devia morrer.

- Mas ento por que motivo no sucumbiu o meu pai?

- Disse-lho uma noite no jardim, depois da morte da Sr.a de
Saint-Mran: porque o seu corpo est habituado a absorver
esse mesmo veneno; porque a dose, insignificante para ele, era
mortal para qualquer outro; porque, finalmente, ningum sabe,
nem mesmo o assassino, que h um ano trato com brucina a
paralisia do Sr. Noirtier, embora o assassino no ignore, e
disso se tenha assegurado por experincia prpria, que a
brucina  um veneno violento.

- Meu Deus! Meu Deus! - murmurou Villefort, torcendo as mos.

- Siga os passos do criminoso: mata o Sr. de Saint-Mran.

- Oh, doutor!

- Jur-lo-ia. O que me disseram dos sintomas adapta-se
muitssimo bem ao que vi com os meus olhos.
Villefort deixou de resistir e gemeu.

- Mata o Sr. de Saint-Mran - repetiu o mdico -- e mata a
Sr.a de Saint-Mran: dupla herana a receber.

Villefort limpou o suor que lhe escorria da testa.

- Escute bem.

- Infelizmente, no perco uma palavra do que diz, uma s -
balbuciou Villefort.

-- O Sr. Noirtier - prosseguiu implacavelmente o Sr. de
Avrigny --, o Sr. Noirtier testara recentemente contra o
senhor, contra a sua famlia, a favor dos pobres, enfim. O Sr.
Noirtier  poupado porque se no espera nada dele. Mas assim
que destri o primeiro testamento, assim que faz o segundo,
com medo, sem dvida, de que faa um terceiro, atacam-no. O
testamento  de anteontem, se no me engano. Como v, no h
tempo perdido.

- Misericrdia, Sr. de Avrigny!

- Qual misericrdia, senhor! O mdico tem uma misso sagrada
na Terra e  para a desempenhar que remonta s origens da vida
e desce s trevas misteriosas da morte. Quando se comete um
crime e Deus, sem dvida horrorizado, desvia o olhar do
criminoso,  ao mdico que compete dizer: ei-lo!

- Piedade para a minha filha, senhor! - murmurou Villefort.

- Como v, foi o senhor mesmo que a citou; o senhor, seu pai!

- Piedade para Valentine! Escute,  impossvel. Preferiria
acusar-me a mim mesmo! Valentine, um corao de diamante, um
lrio inocente!

- Deixemo-nos de piedade, Sr. Procurador Rgio. O crime 
flagrante. Mademoiselle de Villefort acondicionou pessoalmente
os medicamentos enviados ao Sr. de Saint-Mran, e o Sr. de
Saint-Mran. morreu.

"Mademoiselle de Villefort preparou as ti sanas da Sr.a de
Saint-Mran , e a Sr.a de Saint-Mran morreu.

"Mademoiselle de Villefort tomou das mos de Barrois, a quem
mandaram fazer um recado, a garrafa de limonada que o velho
bebe habitualmente de manh, e o velho s escapou por milagre.

"Mademoiselle de Villefort  a culpada!  a envenenadora! Sr.
Procurador Rgio, denuncio-lhe Mademoiselle de Villefort,
cumpra o seu dever!

- Doutor, j no resisto, j no me defendo, acredito-o. Mas,
por piedade, poupe-me a vida, a minha honra!

- Sr. de Villefort - redarguiu o mdico, com crescente energia
--, h circunstncias em que transponho todos os limites da
estpida circunspeco humana. Se a sua filha tivesse cometido
apenas um crime e a visse projectar segundo, dir-lhe-ia:
"Previna-a, castigue-a, que passe o resto da vida em qualquer
convento, a chorar e a rezar." Se tivesse cometido segundo
crime, dir-lhe-ia: "Tome, Sr. de Villefort, aqui tem um veneno
sem antdoto conhecido, rpido como o pensamento, sbito como
o relmpago, mortal como o raio; d-lho,  encomende-lhe a
alma a Deus e salve a sua honra e os seus dias, porque  ao
senhor que ela quer mal. E vejo-a aproximar-se da sua
cabeceira com os seus sorrisos hipcritas e as suas meigas
exortaes! Ai de si, Sr. de Villefort, se no se apressar a
ferir primeiro!" Seria isto que lhe diria se ela s tivesse
matado duas pessoas. Mas ela assistiu a trs agonias,
contemplou trs moribundos, ajoelhou-se junto de trs
cadveres. Ao carrasco a envenenadora! Ao carrasco! Fala da
sua honra; faa o que lhe digo e esper-lo- a imortalidade!

Villefort caiu de joelhos.

- Oua - pediu --, no possuo a fora que o senhor tem, ou
antes, que no teria, se em vez da minha filha Valentine, se
tratasse da sua filha Madeleine.

O mdico empalideceu.

- Doutor, todo o homem, filho da mulher, nasceu para sofrer e
morrer. Doutor, sofrerei e esperarei a morte.

-- Acautele-se - disse o Sr. de Avrigny. - Ela ser lenta essa
morte; v-la- aproximar-se, depois de ferir o seu pai, a sua
mulher, talvez o seu filho.

Sufocado, Villefort apertou o brao do mdico.

- Oua-me! - gritou. - Tenha compaixo de mim, ajude-me!...
No, a minha filha no  culpada... Se me levarem perante um
tribunal, continuarei a dizer - "No, a minha filha no 
culpada... no existe crime em minha casa..." No quero,
ouviu? No quero que haja crime em minha casa. Porque quando o
crime entra em qualquer parte,  como a morte, no entra
sozinho. Oua, que lhe interessa que eu morra assassinado?...
 meu amigo? ...  um homem? Tem um orao?... No,  um
mdico! ... Pois bem, digo-lhe que a minha filha no ser
arrastada por mim para as mos do carrasco!... Ah, uma ideia
que me devora, que me leva, como um insensato, a arranhar o
peito com as unhas!... E se estivesse enganado, doutor? Se
fosse outra pessoa e no a minha filha? Se um dia eu lhe
aparecesse, plido como um fantasma, e lhe dissesse:
"Assassino! Mataste a minha
filha!... " Olhe, se isso acontecesse, sou cristo, Sr. de
Avrigny, mas mesmo assim matava-me.

- Est bem, esperarei - cedeu o mdico, aps um instante de
silncio.

Villefort olhou-o como se duvidasse ainda das suas palavras.

- Simplesmente - continuou o Sr. de Avrigny em voz lenta e
solene --, se alguma pessoa da sua casa adoecer, se o senhor
mesmo se sentir mal, no me chame porque no voltarei. Estou
disposto a compartilhar consigo esse segredo terrvel, mas no
quero que a vergonha e o remorso entrem em minha casa,
frutifiquem e cresam na minha conscincia, tal como o crime e
a infelicidade vo crescer e frutificar na sua casa.

- Abandona-me, portanto, doutor?

- Abandono porque no o posso acompanhar mais longe e s me
detenho ao p do cadafalso. Surgir qualquer outra revelao
que por termo a essa horrvel tragdia. Adeus.

- Doutor, suplico-lhe!

- Todos os horrores que conspurcam o meu pensamento tornam-me
a sua casa odiosa 'e fatal. Adeus, senhor.

- Uma palavra, s mais uma palavra, doutor! O senhor retira-se
deixando-me todo o horror da situao, horror que aumentou com
o que me revelou. Mas que se dir da morte instantnea,
sbita, daquele pobre velho servidor?

-  justo - disse o Sr. de Avrigny. - Acompanhe-me.

O mdico saiu adiante e o Sr. de Villefort seguiu-o. Os
criados, inquietos, estavam nos corredores e nas escadas por
onde devia passar o mdico.

- Senhor - disse Avrigny a Villefort, falando em voz alta, de
forma que toda a gente o ouvisse --, o pobre Barrois h anos
que levava urna vida demasiado sedentria. Ele, que tanto
gostava de, com o amo, percorrer a cavalo ou de carruagem os
quatro cantos da Europa, matou-se naquele servio montono 
volta de uma cadeira de rodas. O sangue engrossou-lhe. Estava
repleto, tinha o pescoo grosso e curto, foi atingido por uma
apoplexia fulminante e chamaram-me demasiado tarde. A
propsito - acrescentou baixinho
--, no se esquea de deitar a taa de violetas nas cinzas...

E o mdico, sem tocar na mo de Villefort e sem voltar atrs
um s instante no que dissera, saiu escoltado pelas lgrimas e
pelos lamentos de todo o pessoal da casa.

Naquela mesma tarde, todos os criados de Villefort, que se
tinham reunido na cozinha e haviam conversado demoradamente
entre si, vieram pedir  Sr.a de Villefort licena para se
irem embora. Nenhuma insistncia, nenhuma proposta de aumento
de salrios conseguiu ret-los. A todas as palavras
respondiam: "Queremos ir-nos embora porque a morte est nesta
casa."

Partiram, portanto, apesar de todos os pedidos que lhes
fizeram, declarando que tinham muita pena de deixar to bons
patres e sobretudo Mademoiselle Valentine, to boa, to
generosa e to meiga.

Ao ouvir estas palavras, Villefort olhou para Valentine.

Ela chorava.

Coisa estranha! Atravs da emoo que lhe fizeram experimentar
aquelas lgrimas, olhou tambm para a Sr.a de Villefort e
pareceu-lhe que um sorriso fugaz e sombrio lhe passara pelos
lbios delgados, como esses meteoros que vemos deslizar,
sinistros, entre duas nuvens, no fundo de um cu tempestuoso.


Captulo LXXXI

O quarto do padeiro reformado


Na noite do mesmo dia em que o conde de Morcerf sara de casa
de Danglars com uma humilhao e um furor justificados pela
frieza do banqueiro, o Sr. Andrea Cavalcanti, com o cabelo
frisado e brilhante, o bigode aguado e as luvas brancas a
desenharem-lhe as unhas, entrou quase de p no seu feton no
ptio do banqueiro da Chausse-d'Antin.

Ao cabo de dez minutos de conversao na sala, arranjara
maneira de conduzir Danglars para o vo de uma janela e a,
depois de um hbil prembulo, expusera os tormentos da sua
vida desde a partida do seu nobre pai. Desde essa partida
encontrara, dizia, na famlia do banqueiro, onde se tinham
dignado receb-lo como filho, todas as garantias de felicidade
que um homem deve sempre procurar antes dos caprichos da
paixo e, quanto  prpria paixo, tivera a sorte de a
encontrar nos belos olhos de Mademoiselle Danglars.

Danglars escutava com a mais profunda ateno. Havia j dois
ou trs dias que esperava aquela declarao, e quando ela por
fim chegou, os seus olhos dilataram-se tanto como se tinham
empequenecido e nublado ao ouvir Morcerf.

No entanto, no quis aceitar sem mais nem menos a proposta do
rapaz sem lhe apresentar algumas observaes de conscincia.

- Sr. Andrea, no ser um pouco novo para pensar em casamento?

- De modo nenhum, senhor - redarguiu Cavalcanti. - Pelo menos,
eu no acho. Em Itlia, os grandes senhores casam-se novos, em
geral;  um costume lgico. A vida  to incerta que se deve
agarrar a felicidade logo que ela passa ao nosso alcance.

- Agora, senhor - disse Danglars --, admitindo que as suas
propostas, que me honram, sejam do agrado da minha mulher e da
minha filha, com quem debateramos os interesses? Parece-me
tratar-se de uma negociao importante que s os pais sabem
tratar convenientemente a bem da felicidade dos filhos.

- Senhor, o meu pai  um homem ponderado, cheio de bom senso e
razo. Previu a circunstncia provvel de eu experimentar o
desejo de me instalar em Frana e deixou-me, portanto, ao
partir, todos os documentos que comprovam a minha identidade e
uma carta em que me garante, no caso de eu fazer uma escolha
que lhe seja agradvel, cento e cinquenta mil libras de
rendimento a partir do dia do meu casamento. Trata-se, tanto
quanto suponho, de um quarto dos rendimentos do meu pai.

- Mas eu sempre tive a inteno de dar  minha filha, quando
se casasse, quinhentos mil francos - observou Danglars. - De
resto,  a minha nica herdeira.

- Como v -- disse Andrea --, tudo se resolveria da melhor
maneira na hiptese de o meu pedido no ser rejeitado pela
Sr.a Baronesa Danglars e por Mademoiselle Eugnie. Teramos
cento e setenta e cinco mil libras de rendimento. Suponhamos
uma coisa: que eu conseguia que o marqus, em vez de me pagar
a renda, me desse o capital (no seria fcil, bem sei, mas
enfim,  possvel). O senhor far-nos-ia tornar produtivos
esses dois ou trs milhes, e dois ou trs milhes numas mos
hbeis podem sempre render dez por cento.

- Nunca dou mais do que quatro, e at do que trs e meio -
redarguiu o banqueiro.-Mas ao meu genro daria cinco e
dividiramos os lucros.

- ptimo, sogro! - exclamou Cavalcanti, deixando-se levar
pela sua natureza um tanto vulgar, que de vez em quando,
apesar dos seus esforos, fazia estalar o verniz de
aristocracia com que procurava cobrir-se.

Mas corrigiu-se imediatamente:

- Oh, perdo, senhor! Como v, s a esperana j quase me faz
perder a cabea; que seria se tosse a realidade?...

- Mas - observou Danglars, que pela sua parte no notava at
que ponto a conversa, de incio desinteressada, se tornara
rapidamente uma agncia de negcios - h sem dvida uma parte
da sua fortuna que o seu pai lhe no pode recusar?...

- Qual? - perguntou o rapaz.

- A que vem da sua me.

- Ah, certamente, a que vem da minha me, Leonora Corsinari!

- E a quanto pode ascender essa parte?

- Palavra de honra, senhor - disse Andrea --, garanto-lhe que
nunca me detive a pensar nisso, mas calculo que a uns dois
milhes, pelo menos.

Danglars experimentou a espcie de sufocao jubilosa que
sentem ou o avaro que encontra um tesouro perdido ou o homem
prestes a afogar-se que depara debaixo dos ps com a terra
firme em vez do vcuo que o ia engolir.

- Ento, senhor - insistiu Andrea, cumprimentando o banqueiro
com terno respeito --, poderei esperar?...

- Sr. Andrea - respondeu Danglars --, espere e creia que se da
sua parte nenhum obstculo detiver o andamento deste negcio,
ele est concludo. Mas - perguntou pensativo - como se
explica que o Sr. Conde de Monte-Cristo, seu patrono na
sociedade parisiense, no tenha vindo consigo fazer-nos esse
pedido?
Andrea corou imperceptivelmente.

- Venho de casa do conde, senhor - respondeu. - Trata-se
incontestavelmente de um homem encantador, mas de uma
originalidade inconcebvel. Aprovou com entusiasmo a minha
deciso; disse-me at que no acreditava que o meu pai
hesitasse um instante em dar-me o capital em vez da renda e
prometeu-me a sua influncia para me ajudar a obter isso dele;
mas declarou-me que pessoalmente nunca tomara nem tomaria a
responsabilidade de fazer um pedido de casamento. Mas, devo
prestar-lhe essa justia, dignou-se acrescentar que se alguma
vez deplorara essa repugnncia, nunca a deplorara tanto como
agora, a meu respeito, pois pensava que a unio projectada
seria feliz e adequada. De resto, embora nada queira fazer
oficialmente, disse-me que no ter dvida em tocar no assunto
quando o senhor lhe quiser falar dele.

- Ah, muito bem!

- Agora - disse Andrea, com o seu mais encantador sorriso --,
uma vez que j acabei de falar ao sogro, dirijo-me ao
banqueiro.

- Que deseja? - perguntou Danglars, tambm rindo.

- Depois de amanh tenho a receber no seu banco uns quatro mil
francos. Mas o conde compreendeu que o ms em que vamos entrar
talvez me traga um aumento de despesas que a minha pequena
mesada de rapaz no suportaria, e por isso aqui tem uma ordem
de pagamento de vinte mil francos que ele, no direi me deu,
mas sim me ofereceu. Est assinada pelo seu punho, como v.
Aceita-a?

- Traga-me ordens destas no valor de um milho, que eu
aceito-as todas - respondeu Danglars, metendo a ordem de
pagamento na algibeira. - Diga-me a que horas quer o dinheiro
amanh e o meu pagador passar por sua casa com um recibo de
vinte e quatro mil francos.

- s dez da manh, se no se importa. Quanto mais cedo,
melhor. Tenciono ir at ao campo, amanh...

- Seja, s dez horas. Continua no Hotel dos Prncipes?

- Continuo.

No dia seguinte, com uma exactido que honrava a pontualidade
do banqueiro, os vinte e quatro mil francos estavam em poder
do rapaz, que saiu efectivamente, deixando duzentos francos
para Caderousse.

A sada tinha, da parte de Andrea, como objectivo principal
evitar o seu perigoso amigo. Por isso, regressou  noite o
mais tarde possvel.

Mas assim que ps o p no pavimento do ptio, encontrou diante
de si o porteiro do hotel, que o esperava de bon na mo.

- Excelncia, veio o tal homem - informou.

- Qual homem? - perguntou negligentemente Andrea, como se o
tivesse esquecido, quando, pelo contrrio, se lembrava dele
muito bem.

- Aquele a quem V. Ex.a d aquela pensozinha.

- Ah, sim, o antigo criado do meu pai! - disse Andrea. - E
voc deu-lhe os duzentos trancos que lhe deixei para ele.

- Pois dei, Excelncia.

Andrea fazia-se tratar por Excelncia.

- Mas - continuou o porteiro - ele no os quis receber.

Andrea empalideceu. Mas como era de noite, ningum o viu
empalidecer.

- Como, no os quis receber! - admirou-se, com voz
ligeiramente trmula.

- No. Queria falar com V. Ex.a. Respondi-lhe que o senhor
tinha sado. Insistiu. Mas por fim pareceu deixar-se convencer
e deu-me esta carta, que j trazia fechada.

- Vejamos... - murmurou Andrea.

E leu  luz da lanterna do feton: "Sabes onde moro. Espero-te
amanh s nove horas da manh."

Andrea examinou o lacre para ver se a carta no fora violada e
se olhares indiscretos no tinham tomado conhecimento do seu
contedo. Mas ela estava dobrada de tal forma, com tal
abundncia de ngulos e losangos, que para a ler seria
necessrio quebrar o lacre. Ora o lacre estava perfeitamente
intacto.

- Muito bem - disse. - Pobre homem!  uma excelente criatura.

E deixou o porteiro edificado com estas palavras e sem saber
quem mais devia admirar, se o jovem amo ou o velho criado.

- Desatrela depressa e sobe ao meu quarto - ordenou Andrea ao
seu groom.

Em dois saltos, o jovem chegou ao quarto e queimou a carta de
Caderousse, de que fez desaparecer at as cinzas.

Terminava essa operao quando o criado entrou.

- s da mesma estatura que eu, Pierre - disse-lhe.

- Tenho essa honra, Excelncia - respondeu o criado.

- Deves ter uma libr nova que te trouxeram ontem, no tens?

- Tenho, sim, Excelncia.

- Tenho um encontro com uma costureirinha, a quem no quero
revelar nem o meu ttulo nem a minha condio.
Empresta-me a tua libr e os teus documentos, para que possa,
se for necessrio, dormir numa estalagem.

Pierre obedeceu.

Cinco minutos mais tarde, Andrea, completamente disfarado,
saa do hotel sem ser reconhecido, tomava um cabriol e
fazia-se conduzir  Estalagem do Cavalo Vermelho, em Picpus.

No dia seguinte, saiu da Estalagem do Cavalo Vermelho como
sara do Hotel dos Prncipes, isto , sem ser notado, desceu o
Arrabalde de Santo Antnio, meteu pelo bulevar at  Rua de
Mnilmontant, parou  porta da terceira casa  esquerda e, na
ausncia do porteiro, procurou quem lhe pudesse dar
informaes.

- Quem procuras, meu lindo menino? - perguntou-lhe a
vendedeira de fruta defronte.

- O Sr. Pailletin, por favor, tiazinha - respondeu Andrea.

- Um padeiro reformado? - perguntou a vendedeira.

- Exactamente.

- Ao fundo do ptio,  esquerda, no terceiro andar.
Andrea seguiu o caminho indicado, e no terceiro andar
encontrou uma "pata de lebre", que agitou com um sentimento de
mau humor, de cujo movimento precipitado a campainha se
ressentiu.

Passado um segundo, a cara de Caderousse apareceu no ralo
praticado na porta.

- Ah, s pontual! - observou, e correu os ferrolhos.

- No me chateies! - redarguiu Andrea, entrando.

E atirou adiante de si o barrete da libr, que, falhando a
cadeira, caiu no cho e deu a volta ao quarto rolando sobre a
sua circunferncia.

- Vamos, vamos, no te zangues, pequeno! - aconselhou
Caderousse. - Repara como pensei em ti. J viste o bom
pequeno-almoo que nos espera? S coisas de que gostas, meu
finrio!

De facto, Andrea notou no ar um cheiro a cozinha cujos aromas
grosseiros no deixavam de possuir certo encanto para o seu
estmago faminto: primeiro, a mistura de gordura fresca e alho
que marca a cozinha provenal de ordem inferior; depois, um
cheiro a peixe gratinado e sobretudo o perfume intenso da
noz-moscada e do cravinho. Todos estes cheiros provinham de
duas travessas fundas e cobertas, colocadas em cima de dois
fornilhos, e de uma caarola que rechinava no forno de um
fogo de ferro fundido.

Na diviso contgua, Andrea viu, alm de uma mesa bastante
limpa e adornada com dois talheres, duas garrafas de vinho
seladas, uma de verde e a outra de amarelo, uma boa quantidade
de aguardente numa outra garrafa e uma macednia de frutas
numa grande folha de couve colocada com arte num prato de
faiana.

- Que te parece, pequeno? - perguntou Caderousse. - Como isto
cheira bem! Mas no admira, como sabes, era um bom cozinheiro
l... naquele stio! Lembras-te como lambiam os dedos com os
meus cozinhados? E tu eras sempre o primeiro a saborear os
meus molhos, e olha que lhe no torcias o nariz!...

E Caderousse ps-se a descascar um suplemento de cebolas.

- Est bem, est - redarguiu Andrea, irritado. - Com a breca,
se foi para tomar o pequeno-almoo contigo que me incomodaste,
que o Diabo te leve!

- Meu filho, enquanto se come, conversa-se - redarguiu
sentenciosamente Caderousse. - E depois, grande ingrato, no
tens prazer em ver um bocadinho o teu amigo? Pois eu choro de
alegria.

Com efeito, Caderousse chorava realmente. S que seria difcil
dizer se era a alegria ou se eram as cebolas que agiam sobre a
glndula lacrimal do antigo estalajadeiro da Pont-du-Gard.

-  Cala-te, hipcrita. Meu amigo, tu?...

- Sim, sou teu amigo, diabos me levem!  uma fraqueza, bem
sei, mas  mais forte do que eu... - confessou Caderousse.

- O que no te impede de me teres feito c vir para qualquer
perfdia...

- Ento, ento!... - exclamou Caderousse, limpando uma grande
faca ao avental. - Se no fosse teu amigo, suportaria a vida
miservel que me proporcionas? Olha bem: vestes a libr do teu
criado, prova de que tens um criado; pois eu no tenho e sou
obrigado a descascar eu prprio os meus legumes. Desdenhas a
minha cozinha porque jantas  mesa redonda do Hotel dos
Prncipes ou no Caf de Paris. Pois eu tambm poderia ter um
criado; e tambm poderia ter um tlburi; e jantar onde me
apetecesse... E privo-me de tudo isso porqu? Para no
prejudicar o meu pequeno Benedetto... Vamos, confessa ao menos
que poderia, hem?

E um olhar perfeitamente elucidativo de Caderousse concluiu o
sentido da frase.

- Bom, admitamos que s meu amigo - concedeu Andrea. - Nesse
caso, porque exiges que venha tomar o pequeno-almoo contigo?

- Mas para te ver, meu querido!...

- Que adianta veres-me, se estabelecemos antecipadamente todas
as nossas condies?

- Meu caro amigo, existem porventura testamentos sem
codicilos? - observou Caderousse. - Mas vieste para tomar
primeiro o pequeno-almoo, no  verdade? Ento senta-te e
comecemos por estas sardinhas e esta manteiga fresca, que
coloquei em folhas de videira em tua inteno, minha peste...
Ah, sim, examinas o meu quarto, as minhas quatro cadeiras de
palhinha e as minhas imagens a trs francos o quadro!...
Demnio, que querias, se isto no  o Hotel dos Prncipes?...

- Pronto, agora ests descontente! J no s feliz, e no
entanto s querias ter o ar de um padeiro reformado...

Caderousse suspirou.

- Ento, que tens a dizer? - perguntou Andrea. - Viste o teu
sonho realizado.

- Tenho a dizer que  um sonho. Um padeiro reformado, meu
pobre Benedetto,  rico, tem rendimentos.

- E tu no tens os teus rendimentos?

- Eu?

- Sim, tu, uma vez que te dou duzentos francos.

Caderousse encolheu os ombros.

-  humilhante - declarou - receber assim dinheiro dado
contra vontade, dinheiro efmero, que me pode faltar de um dia
para o outro. Bem vs que sou obrigado a fazer economias para
o caso de a tua prosperidade no durar ... Sim, meu amigo, a
sorte  inconstante, como dizia o capelo ... do regimento.
Sei perfeitamente que a tua prosperidade  enorme, celerado...
Vais casar com a filha de Danglars.

- Como? De Danglars?!

-- Sim, de Danglars! Ou devo dizer o baro Danglars?  como se
dissesse o conde Benedetto... Danglars era um amigo, e se no
tivesse to m memria deveria convidar-me para a boda...
atendendo a que foi  minha... Sim, sim, sim,  minha! Nesse
tempo no era to orgulhoso; no passava de um
escriturariozinho em casa desse bom Sr. Morrel. Jantei mais de
uma vez com ele e com o conde de Morcerf... Como vs, tenho
excelentes conhecimentos e gostaria de os cultivar um
bocadinho. Poderamos reencontrar-nos nos mesmos sales...

- A tua inveja faz-te ver arcos-ris, Caderousse.

- Pois sim, Benedetto mio, mas eu sei o que digo. Talvez um
dia vista tambm o meu fato dos domingos e v dizer ao
porteiro de um desses palcios: "Abra, por favor!"
Entretanto, sentemo-nos e comamos.

Caderousse deu o exemplo e ps-se a comer com bom apetite e a
elogiar todas as iguarias que servia ao seu convidado.


Este pareceu tomar o seu partido: abriu habilmente as garrafas
e atacou a caldeirada e o bacalhau gratinado com alho e
azeite.

- Ento, compadre, parece que te reconcilias com o teu antigo
chefe de mesa, hem?... - observou Caderousse...

- Palavra que sim - respondeu Andrea, a quem, jovem e vigoroso
como era, o apetite levava de momento a palma a qualquer outra
coisa.

- E achas isso bom, tratante?

- To bom que no compreendo como um homem que cozinha e come
to boas coisas pode estar descontente com a vida.

-  que toda a minha felicidade  estragada por um nico
pensamento - confessou Caderousse.

- Qual?

- Vivo  custa de um amigo, eu que sempre ganhei honradamente
a minha vida.

- Oh, oh, isso no tem importncia! - redarguiu Andrea.
- o que tenho chega para dois, no te preocupes.

- No, sinceramente? Talvez no acredites, mas no fim dos
meses tenho remorsos.

- Excelente Caderousse!

- A tal ponto que ontem no quis receber os duzentos francos.

-Sim, querias falar comigo. Mas sentes mesmo remorsos?

- Autnticos remorsos. E depois tive uma ideia...

Andrea estremeceu. Estremecia sempre que Caderousse tinha
ideias.

-  indigno, deves concordar, estar sempre  espera do fim do
ms...

- Pois  - admitiu filosoficamente Andrea, decidido a ver at
onde queria chegar o companheiro --, mas no passamos todos a
vida a esperar? Eu, por exemplo, acaso fao outra coisa? E
tenho pacincia, no  verdade?

- Sim, porque em vez de esperares duzentos miserveis francos,
esperas cinco ou seis mil, ou talvez dez, seno mesmo doze
mil. Porque tu no te confessas. L onde sabes, tinhas sempre
umas reservazinhas, umas economias, que procuravas subtrair ao
pobre amigo Caderousse. Felizmente para ele, o amigo
Caderousse tinha bom faro...

- Pronto, l vais comear a divagar, a falar e tornar a falar
sempre do passado! - protestou Andrea. - Que adianta repisar
essas coisas, no me dirs?

- Ah,  que tu tens vinte e um anos e podes esquecer o
passado! Mas eu tenho cinquenta e sou obrigado a no o
esquecer. Mas no interessa, voltemos aos negcios.

- Pois sim.

- Queria dizer que no teu lugar...

- Sim?

- Pediria...

- Pedirias o qu?

- Pediria um semestre de adiantamento, a pretexto de me querer
tornar elegvel e desejar comprar uma quinta. Depois, quando
me apanhasse com o meu semestre, punha-me ao fresco.

- Ah, ah! - exclamou Andrea. - No est mal pensado, no,
senhor!

- Meu caro amigo, come da minha cozinha e segue os meus
conselhos - sentenciou Caderousse. - S ters a ganhar, fsica
e moralmente.

- Mas olha l, porque no segues tu mesmo o conselho que ds?
- inquiriu Andrea. - Porque no pedes um semestre adiantado,
ou at mesmo um ano, e no te retiras para Bruxelas? Em vez de
teres o ar de um padeiro reformado, terias o ar de um falido
no exerccio das suas funes. Seria um bom golpe.

- Mas como diabo queres tu que me retire com mil e duzentos
francos?

- Ah, Caderousse, como te tornaste exigente! H dois meses
morrias de fome...

-- Quanto mais se come, mais apetece comer - redarguiu
Caderousse, mostrando os dentes como um macaco que ri ou como
um tigre que brame. - Por isso - acrescentou, cortando com
esses mesmos dentes, to brancos e aguados, apesar da idade,
um enorme bocado de po --, tracei um plano.

Os planos de Caderousse assustavam ainda mais Andrea do que as
suas ideias. As ideias no passavam do germe, o plano era a
realizao.

- Vejamos esse plano. Deve ser bonito! - comentou Andrea.

- Porque no? O plano graas ao qual nos pirmos da choa de
quem foi? Meu, segundo me consta. e no foi assim to mau,
parece-me, visto estarmos aqui!

- No digo que no - concordou Andrea. - s vezes tens boas
ideias... Mas enfim, vejamos o teu plano.

- Podes - prosseguiu Caderousse --, sem desembolsar um soldo,
arranjar-me quinze mil francos?... No, quinze mil francos 
pouco: no quero tornar-me um homem honesto por menos de
trinta mil francos!

- No - respondeu secamente Andrea --, no posso.

- Parece-me que no me compreendeste - redarguiu fria e
calmamente Caderousse. - Disse-te sem desembolsares um
soldo...

- Com certeza no queres que roube para dar cabo de todo o meu
negcio, e do teu com o meu, e voltarmos ambos para a choa?

- Oh, a mim tanto me faz que me apanhem como no! -  exclamou
Caderousse. - Sou um bocado complicado, como sabes, e s vezes
sinto a falta dos camaradas. No sou como tu, sem corao, que
nunca mais querias tornar a v-los!

Desta vez, Andrea fez mais do que estremecer, empalideceu.

- Vamos, Caderousse, deixemo-nos de tolices!

- Ento, meu querido Benedetto, no te assustes... Mas
indica-me um meiozinho de ganhar os trinta mil francos sem te
meteres em nada. Deixar-me-s actuar, e pronto!

- Est bem, verei... procurarei... - respondeu Andrea.

- Mas entretanto aumentars a minha mesada para quinhentos
francos. Estou com a mania de meter uma criada!

- Pois sim, ters os teus quinhentos francos - concordou
Andrea. - Mas  muito para mim, meu pobre Caderousse. Tu
abusas...

- Ora, ora! - redarguiu Caderousse. - No te esqueas de que
metes a mo em cofres sem fundo...

Dir-se-ia que Andrea esperava que o companheiro proferisse
estas palavras, pois nos seus olhos brilhou um rpido claro,
que no entanto se extinguiu imediatamente.

-- L isso  verdade - admitiu Andrea - e o meu protector 
excelente para mim.

- Querido protector! - exclamou Caderousse. - Quanto te d ele
por ms?

- Cinco mil francos - respondeu Andrea.

- Tantas de mil quantas me ds de cem - observou Caderousse. -
Na verdade, no h como ser bastardo para ter sorte. Cinco mil
francos por ms... Que diabo se pode fazer com isso?

- Meu Deus, gastam-se num instante! Por isso, tal como tu,
tambm gostaria muito de ter um capital...

- Um capital sim compreendo. Toda a gente gostaria de ter um
capital.

- Eu hei-de ter um.

- E quem to dar? O teu prncipe?

- Sim, o meu prncipe. Infelizmente, terei de esperar

- De esperar o qu? - perguntou Caderousse.

- A sua morte.

- A morte do teu prncipe?

- Sim.

- Explica l isso.

- Sou contemplado no seu testamento.

- Deveras?

- Palavra de honra!

- Com quanto?

- Com quinhentos mil!

- S isso? Obrigado, mas  pouco...

-  como te digo.

- Vamos, no  possvel!

- Caderousse, s meu amigo?

- Claro! Para a vida e para a morte.

- Pois bem, vou dizer-te um segredo.

- Diz.

- Mas escuta...

- Oh, com a breca, serei mudo como um tmulo!

- Suspeito...

Andrea calou-se e olhou  sua volta.

- Suspeitas... No tenhas medo, com mil demnios! Estamos ss.

- Suspeito que encontrei o meu pai.

- O teu verdadeiro pai?

- Sim.

- No o pai Cavalcanti?

- No, porque esse foi-se embora; o verdadeiro, como tu dizes.

- E esse pai ?

- Quem havia de ser, Caderousse?  o conde de Monte-Cristo.

- Ora!

- Sim. No vs que assim tudo se explica? No me pode
reconhecer publicamente, ao que parece; mas fez-me reconhecer
pelo Sr. Cavalcanti, a quem deu cinquenta mil francos.

- Cinquenta mil francos para ser teu pai?! Eu aceitaria
desempenhar esse papel por metade do preo, por vinte mil, por
quinze mil! Como no te lembraste de mim, ingrato?

- Como querias que lembrasse se tudo foi feito enquanto
estvamos na choa?

-  verdade. E dizes que no seu testamento...

- Deixa-me quinhentas mil libras.

- Tens a certeza?

- Ele mostrou-mo. Mas no  tudo.

- H um codicilo, como eu dizia h bocado!

- Provavelmente.

- E nesse codicilo...

- Reconhece-me.

- Oh, que bom pai, que rico pai, que pai honestssimo! -
exclamou Caderousse, fazendo girar no ar um prato que apanhou
com as mos.

- V, diz agora que ainda tenho segredos para ti!

- No, e a tua confiana honra-te a meus olhos. E o teu
prncipe, o teu pai,  rico, riqussimo, no ?

- Julgo que sim. Nem sabe quanto tem.

- Ser possvel?

- Ora essa! Ento eu no sei. que sou recebido em sua casa a
toda a hora? Outro dia, um pagador bancrio levou-me cinquenta
mil francos numa pasta do tamanho da tua; ontem, foi um
banqueiro que lhe levou cem mil francos em ouro...
Caderousse estava atordoado. Parecia-lhe que as palavras do
jovem tinham o som do metal e que ouvia rolar cascatas de
luses.

- E tu frequentas essa casa? - perguntou ingenuamente.

- Vou l quando quero.

Caderousse ficou pensativo um instante. Era fcil ver que
remoa no esprito qualquer pensamento profundo.

Depois, de sbito, gritou:

-Como eu gostaria de ver tudo isso! Como tudo isso deve ser
belo!

- De facto,  - confirmou Andrea. -  magnfico!

- Ele no mora na Avenida dos Campos Elsios?

- Nmero trinta.

- Ah! - exclamou Caderousse. - Nmero trinta?

- Sim, uma bonita casa isolada entre ptio e jardim, -- no
conheces tu outra coisa.

-  possvel. Mas no  o exterior que me interessa,  o
interior. Belos mveis, hem? Que h l dentro?

- Nunca viste as Tulherias?

- No.

- Bom,  mais bonito.

- Diz-me uma coisa, Andrea: deve ser agradvel um tipo
baixar-se quando esse excelente Monte-Cristo deixa cair a
bolsa...

- Oh, meu Deus, no vale a pena esperar que isso acontea! -
redarguiu Andrea. - O dinheiro abunda naquela casa como a
fruta num pomar.

- Devias levar-me l um dia contigo...

- Achas isso possvel? E a que ttulo?

- Tens razo. Mas fizeste-me vir a gua  boca. 
absolutamente necessrio que eu veja isso; descobrirei um
meio.

- Nada de asneiras, Caderousse!

- Apresentar-me-ei como encerador.

- H tapetes por todo o lado.

- Que pena! Ento, tenho de me contentar com ver isso em
imaginao.

-  o melhor, acredita.

- Tenta ao menos descrever-me a casa.

- Como queres...

- Nada mais fcil.  grande?

- Nem demasiado grande nem demasiado pequena.

- Mas como est dividida?

- Demnio, precisaria de tinta e papel para fazer uma planta!

- Aqui os tens! - respondeu vivamente Caderousse.

E foi buscar a uma velha secretria uma folha de papel branco,
tinta e uma pena.

- Toma, traa-me tudo isso no papel, meu filho - pediu
Caderousse.

Andrea pegou na pena sorrindo imperceptivelmente e comeou.

- A casa, como j te disse,  entre ptio e jardim. Vs?
Assim...

E Andrea traou o jardim, o ptio e a casa.

- Muros altos?

- No. Oito ou dez ps, no mximo.

- Isso no  prudente - observou Caderousse.

- No ptio, vasos de laranjeiras, relvados e canteiros de
flores.

- E armadilhas?

- No.

- As cavalarias?

- Dos dois lados do porto, aqui onde vs.

E Andrea continuou a traar a planta.

- Vejamos o rs-do-cho - pediu Caderousse.

- No rs-do-cho, sala de jantar, duas salas, sala de bilhar,
escada no vestbulo e uma escadinha oculta.

- Janelas?

- Janelas magnficas, to belas, to largas que, palavra,
creio que um homem da tua estatura passaria por cada vidraa.

- Porque tm escadas, se j tm janelas dessas?

- Que queres: o luxo!

- Persianas?

- Sim, tm persianas, mas nunca se servem delas. O conde de
Monte-Cristo  um original que gosta de ver o cu mesmo
durante a noite!

- E os criados onde dormem?

- Oh, tm a sua residncia prpria! Imagina um bonito alpendre
 direita de quem entra, onde guardam as escadas de mo e
outros utenslios. Bom, por cima desse alpendre fica uma srie
de quartos ocupados pelos criados, com campainhas
correspondentes aos seus ocupantes.

- Oh, diabo! Campainhas!

- Que dizes?

- Nada. Digo que custa carssimo colocar campainhas... E para
que serve isso, no me dizes?

- Dantes, havia um co que passava a noite no ptio, as
levaram-no para a casa de Auteuil. Sabes, aquela aonde
foste...

- Sei.

- Eu ainda ontem lhe dizia: "E imprudente da sua parte, Sr.
Conde, porque quando vai para Auteuil e leva os criados, a
casa fica s." "E depois?", perguntou-me ele. "E depois, um
belo dia roubam-no!"

- Que te respondeu?

- Que me respondeu?

- Sim.

- Respondeu: "E depois, que diferena me faz que me roubem?"

- Andrea, deve ter alguma secretria mecnica.

- Que queres dizer?

- Sim, daquelas que apanham o ladro numa rede e tocam uma
msica. Disseram-me que havia coisas dessas na ltima
exposio.

-- Ele tem apenas uma secretria de mogno, que tenho visto
sempre com chave.

- E no o roubam?

- No, o pessoal que o serve -lhe todo dedicado.

- Nessa secretria deve haver... uma boa maquia!

- Talvez... E impossvel saber o que l h.

- E onde est?

- No primeiro andar.

- Fazes-me a planta do primeiro andar, pequeno, como me
fizeste a do rs-do-cho?

-  fcil.

E Andrea voltou a pegar na pena.

- No primeiro andar, como vs, h a antecmara, a sala... 
direita da sala a biblioteca e o gabinete de trabalho; 
esquerda da sala, um quarto de dormir e outro de vestir.  no
quarto de vestir que se encontra a famosa secretria.

- E h alguma janela no quarto de vestir?

- Duas: aqui e aqui.

E Andrea desenhou duas janelas na diviso que, na planta,
fazia esquina e figurava como um quadrado mais pequeno pegado
ao quadrado grande do quarto de dormir.

Caderousse ficou pensativo.

- Ele vai muitas vezes a Auteuil? - perguntou.

- Duas ou trs vezes por semana. Amanh, por exemplo, deve l
ir passar o dia e a noite.

- Tens a certeza?

- Convidou-me para l ir jantar.

- Ainda bem. Isso  que  vida! - exclamou Caderousse. - Casa
na cidade, casa no campo...

- Quando se  rico...

- E tu irs l jantar?

- Provavelmente.

- Quando jantas, dormes l?

- Se me apetece... Estou em casa do conde como se estivesse na
minha.

Caderousse olhou o rapaz como se quisesse arrancar-lhe a
verdade do fundo do corao. Mas Andrea tirou uma charuteira
do bolso, escolheu um havano, acendeu-o tranquilamente e
comeou a fumar sem afectao.

- Quando queres os quinhentos francos? - perguntou a
Caderousse.

- Agora, se os tens.

Andrea tirou vinte e cinco luses da algibeira.

- Amarelinhos? - disse Caderousse. - No, obrigado!

- No gostas deles?

- Pelo contrrio, aprecio-os muito; mas no os quero.

- Ganhars o cambio, imbecil: o ouro vale mais cinco soldos.

- Pois sim, mas depois o cambista mandar seguir o amigo
Caderousse, deitar-lhe-o a mo e ter de dizer quem so os
rendeiros que lhe pagaram a renda em ouro. Deixemo-nos de
tolices, pequeno: quero dinheiro corrente, moedas redondas com
a efgie de um monarca qualquer. Toda a gente pode ter uma
moeda de cinco trancos.

- Como deves compreender, no trago comigo quinhentos francos
em dinheiro mido. Teria de contratar um carregador.

- Est bem, deixa-os no hotel, ao teu porteiro.  um excelente
homem. Irei l busc-los.

- Hoje?

- No, amanh. Hoje no tenho tempo.

- Pois sim, seja. Amanh, quando partir para Auteuil,
deixar-lhos-ei.

- Posso contar com isso?

- Certamente.

-  que vou j ajustar a minha criada...

- Ajusta-a. Mas ponto final, hem ? No me perseguirs mais?

- Nunca mais.

Caderousse tornara-se to sombrio que Andrea teve de fingir
que no notara essa mudana. Redobrou portanto de alegria e
despreocupao.

- Ests muito bem disposto - observou Caderousse. - Dir-se-ia
que j recebeste a tua herana!

- Ainda no, infelizmente!... Mas no dia em que a receber...

- Que fars?

- Que farei? Lembrar-me-ei dos amigos, s te digo isto...

- Sim, e como tens boa memria, no te esquecers de
ningum...

- Que queres tu? Espero que no me esfoles...

- Eu? Que ideia! Eu que, pelo contrrio, te vou dar ainda um
conselho de amigo.

- Qual?

- Que deixes aqui o diamante que trazes no dedo. Mas ento tu
queres que nos prendam? E para nos perderes aos dois que fazes
semelhantes burrices?

- Porque dizes isso? - perguntou Andrea.

- Como vestes uma libr, disfaras-te de criado e conservas no
dedo um diamante de quatro a cinco mil francos?!

- Apre, tens olho para avaliaes! Porque no te fazes
leiloeiro?

- Percebo de diamantes. J os tive.

- Aconselho-te a no te gabares disso - recomendou-lhe Andrea,
que, sem se zangar, como receava Caderousse, por causa da nova
extorso, lhe entregou complacentemente o anel.

Caderousse examinou-o to de perto que foi evidente para
Andrea que examinava se as arestas do corte estavam bem vivas.

-  um diamante falso - disse Caderousse.

- Que  isso agora? - saltou Andrea. - Ests a brincar?...

- Oh, no te zangues! Podemos verificar...

E Caderousse chegou-se  janela e fez deslizar o diamante na
vidraa. Ouviu-se o vidro ranger.

- Confiteor! - declarou, metendo o diamante no dedo mnimo.
- Enganei-me. Mas esses gatunos dos joalheiros imitam to bem
as pedras que j ningum se atreve a roubar nas joalharias,
mais um ramo de indstria em crise.

- E agora, acabou-se? Tens mais alguma coisa a pedir-me?
Queres o meu casaco? Queres o meu barrete? No te acanhes,
aproveita enquanto me no vou embora...

- No quero mais nada. No fundo, s um bom companheiro. No te
demoro mais e procurarei curar-me da minha ambio.

- Mas toma cautela, no v, ao venderes o diamante,
acontecer-te o que receavas que te acontecesse com o ouro.

- No o venderei, podes ficar descansado.

"Pois no, pelo menos daqui at depois de amanh", pensou o
rapaz.

- Feliz tratante! - exclamou Caderousse. - Vais daqui
reencontrar os teus lacaios, os teus cavalos, a tua carruagem
e a tua noiva.

- Claro - respondeu Andrea.

- Olha l, espero que me ds um lindo presente de noivado no
dia em que casares com a filha do meu amigo Danglars.

-- J te disse que isso foi uma ideia que se te meteu na
cabea.

- Quanto de dote?

- Mas se te repito...

- Um milho?

Andrea encolheu os ombros.

- Assentemos num milho - disse Caderousse. - Nunca ters
tanto quanto te desejo.

- Obrigado - respondeu o rapaz.

- Oh,  de boa vontade! - acrescentou Caderousse, com o seu
riso grosseiro. - Espera que eu acompanho-te.

- No vale a pena.

- Claro que vale.

- Porqu?

- Oh, porque a porta tem um segredinho!... Foi uma medida de
precauo que achei conveniente tomar. Fechadura Huret 
Fichet, revista e corrigida por Gaspard Caderousse. Far-te-ei
uma idntica quando fores capitalista.

- Obrigado - repetiu Andrea. - Avisar-te-ei com oito dias de
antecedncia.

Separaram-se. Caderousse ficou no patamar at ver Andrea no
s descer os trs andares, mas tambm atravessar o ptio.
Ento, voltou a entrar precipitadamente em casa, fechou a
porta com cuidado e ps-se a estudar, como o faria um
arquitecto, a planta que Andrea lhe deixara.

- Querido Benedetto! - disse para consigo. - Creio que no se
importaria nada de herdar mais cedo o seu quinho e que aquele
que antecipasse o dia em que deve receber os seus quinhentos
mil francos no seria o seu pior amigo...


Captulo LXXXII

O assalto


No dia seguinte quele em que se verificou o dilogo que
acabamos de reproduzir, o conde de Monte-Cristo partiu de
facto para Auteuil, com Ali, vrios criados e cavalos que
queria experimentar. O que sobretudo determinara a partida, na
qual nem sequer pensava na vspera e em que Andrea no pensava
mais do que ele, fora a chegada de Bertuccio, que, regressado
da Normandia, trazia notcias da casa e da corveta. A casa
estava pronta, e a corveta, chegada havia oito dias e ancorada
numa enseadazinha onde se conservava com a sua tripulao de
seis homens, depois de cumprir todas as formalidades exigidas.
encontrava-se j em estado de voltar ao mar.

O conde louvou o zelo de Bertuccio e convidou-o a preparar-se
para uma rpida partida, pois a sua permanncia em Frana no
deveria ir alm de um ms.

- Agora - disse-lhe - posso necessitar de ir numa noite de
Paris a Trport. Quero oito mudas escalonadas na estrada que
me permitam percorrer cinquenta lguas em dez horas.

- V. Ex.a j manifestara esse desejo - respondeu Bertuccio --,
e os cavalos esto todos prontos. Comprei-os e coloquei-os eu
mesmo nos stios mais convenientes, isto , em aldeias onde
ningum pra habitualmente.

- Est bem - disse Monte Cristo. - Fico aqui um dia ou dois,
proceda em conformidade.

Quando Bertuccio ia a sair para tratar do necessrio 
instalao, Baptistin abriu a porta. Trazia uma carta numa
bandeja de prata dourada.

- Que quer daqui? - perguntou o conde ao v-lo todo coberto de
p. - Parece-me que no o mandei chamar...

Sem responder, Baptistin aproximou-se do conde e
apresentou-lhe a carta.

- Importante e urgente - disse.

O conde abriu a carta e leu:

"o Sr. de Monte-Cristo fica prevenido de que esta mesma
noite se introduzir um homem na sua casa dos Campos Elsios,
para roubar documentos que julga fechados na secretria do
quarto de vestir. Sabe-se que o Sr. Conde de Monte-Cristo 
suficientemente corajoso para no recorrer  interveno da
Polcia, interveno que poderia comprometer gravemente quem o
avisa. O Sr. Conde, quer por uma abertura que d do quarto de
dormir para o de vestir, quer emboscando-se neste ltimo,
poder fazer justia pessoalmente. Muitas pessoas e precaues
evidentes afastariam certamente o malfeitor e fariam perder ao
Sr. de Monte-Cristo a oportunidade de conhecer um inimigo que
o acaso permitiu descobrir  pessoa que d este servio ao
conde, aviso que talvez no tivesse ensejo de renovar se,
falhado este primeiro empreendimento, o malfeitor tentasse
outro."

A primeira ideia do conde foi crer numa artimanha de ladres,
cilada grosseira que lhe indicava um perigo medocre para o
expor a um perigo mais grave. Ia portanto mandar levar a carta
a um comissrio de polcia, apesar da recomendao e talvez
mesmo por causa da recomendao do amigo annimo, quando de
sbito lhe ocorreu que se poderia tratar, com efeito, de algum
inimigo  especial seu, que s ele pudesse reconhecer e de
quem, se assim fosse, s ele poderia tirar partido, como
fizera Fieschi com o mouro a quem quisera assassinar. J
conhecemos o conde; no necessitamos portanto de dizer que era
um esprito cheio de audcia e vigor que se obstinava contra o
impossvel com essa energia exclusiva dos homens superiores.
Pela vida que levava e pela deciso que tomara e que lhe
impunha no recuar diante de nada, o conde saboreara j
prazeres desconhecidos nas lutas que por vezes travara com a
natureza, que  Deus, e com o mundo, que pode muito bem passar
pelo Diabo.

- No querem roubar os meus documentos - murmurou
Monte-Cristo --, querem matar-me. No so ladres, so
assassinos. No quero que o Sr. Prefeito da Polcia meta o
nariz na minha vida. Sou suficientemente rico para arcar com
as despesas e no agravar com isto o oramento da sua
administrao.

O conde chamou Baptistin, que sara da sala depois de entregar
a carta.

- Vai voltar a Paris e trazer para aqui todos os criados que
l ficaram - ordenou. - Necessito de todo o pessoal em
Auteuil.

- Mas no ficar ningum na casa, Sr. Conde? - perguntou
Baptistin.

- Sim, ficar o porteiro.

- O Sr. Conde no se esquea de que do cubculo  casa ainda 
longe...

- E ento?

- Ento, poderiam roubar toda a casa sem que ele ouvisse o
mais pequeno rudo.

- Quem?

- Quem?... Os ladres!

-  muito simplrio, Sr. Baptistin. Se os ladres me
roubassem toda a casa nunca me ocasionariam a contrariedade
que me ocasionaria um servio mal feito.

Baptistin inclinou-se.

- Como lhe disse - prosseguiu o conde --, traga todos os seus
colegas, do primeiro ao ltimo. Mas que tudo fique no estado
habitual. Feche apenas as persianas do rs-do-cho; mais nada.

- E as do primeiro andar?

- Bem sabe que nunca se fecham. V.

O conde informou que jantaria sozinho nos seus aposentos e que
s queria ser servido por Ali.

Jantou com a sua tranquilidade e sobriedade habituais e depois
do jantar fez sinal a Ali para o acompanhar, saiu pela
portinha, alcanou o Bosque de Bolonha como se passeasse,
tomou sem afectao o caminho de Paris e ao cair da noite
encontrou-se diante da sua casa nos Campos Elsios.

Estava tudo s escuras; apenas ardia uma luz fraca no cubculo
do porteiro, distante da casa uns quarenta passos, como
dissera Baptistin.

Monte-Cristo encostou-se a uma rvore e, com aquele seu olhar
que se enganava to raramente, sondou a dupla alameda examinou
os transeuntes e percorreu com a vista as ruas vizinhas, a fim
de ver se havia algum emboscado. Ao cabo de dez minutos
convenceu-se de que ningum o espreitava.
Correu imediatamente com Ali para a portinha, entrou num pice
e, pela escada de servio, de que tinha a chave, entrou no seu
quarto de dormir sem abrir ou mexer num s reposteiro e sem
que o prprio porteiro pudesse suspeitar que na casa que
julgava vazia se encontrava o seu principal habitante.

Chegado ao quarto de dormir, o conde fez sinal a Ali para se
deter e em seguida entrou no gabinete de vestir, que examinou.
Estava tudo como de costume: a preciosa secretria no seu
lugar e com a chave na fechadura. Fechou-a com duas voltas,
guardou a chave, voltou  porta do quarto de dormir, retirou a
escpula dupla do fecho e entrou.

Entretanto, Ali colocava em cima de uma mesa as armas que o
conde lhe pedira, isto , uma carabina curta e um par de
pistolas duplas, cujos canos sobrepostos permitiam visar to
certeiramente como com pistolas de carreira de tiro. Assim
armado, o conde tinha a vida de cinco homens nas mos.
Eram cerca de nove e meia. O conde e Ali comeram  pressa um
bocado de po e beberam um copo de vinho de Espanha. Depois,
Monte-Cristo fez deslizar um dos painis mveis que lhe
permitiam ver de uma diviso para outra. Tinha ao seu alcance
as pistolas e a carabina, e Ali, de p, junto dele, empunhava
uma dessas machadinhas rabes que no mudaram de forma desde
as cruzadas.

Por uma das janelas do quarto de dormir, paralela  do
gabinete, o conde podia ver a rua.

Passaram-se assim duas horas. Reinava a escurido mais
profunda, mas no entanto, Ali, graas  sua natureza selvagem,
e o conde, graas sem dvida a uma qualidade adquirida,
distinguiam na noite at as mais fracas oscilaes das rvores
do ptio.

Havia muito tempo que a luz do cubculo do porteiro se
apagara.

Era de presumir que o ataque - se realmente havia um ataque
projectado - se efectuasse pela escada do rs-do-cho e no
por uma janela. No entender de Monte-Cristo, os malfeitores
queriam a sua vida e no o seu dinheiro. Seria portanto o seu
quarto de dormir que atacariam, e conseguiriam l chegar quer
atravs da escada oculta, quer atravs da janela do gabinete.

Colocou Ali diante da porta da escada e continuou a vigiar o
quarto de vestir.

Deram onze horas e trs quartos no relgio dos Invlidos. O
vento de oeste trazia nas suas lufadas hmidas a lgubre
vibrao das trs pancadas.

Quando o som da ltima pancada se extinguiu, o conde julgou
ouvir um rudo ligeiro do lado do gabinete. Esse primeiro
rudo, ou antes esse primeiro rangido, foi seguido de segundo
e depois de terceiro. Ao quarto, o conde sabia com que contar.
Uma mo firme e experiente ocupava-se de cortar os quatro
lados de uma vidraa com um diamante.

O conde sentiu bater mais rapidamente o corao. Por mais
habituados que os homens estejam ao perigo e por melhor
precavidos que se encontrem contra ele, compreendem sempre,
pelo frmito do seu corao e pelo arrepio da sua carne, a
enorme diferena que existe entre o sonho e a realidade, entre
o projecto e a execuo.

No entanto, Monte-Cristo fez apenas um sinal para prevenir
Ali. Este, compreendendo que o perigo vinha do lado do
gabinete, deu um passo para se aproximar do amo.

Monte-Cristo estava ansioso por saber com quais e com quantos
inimigos teria de se haver.

A janela que estavam a arrombar ficava defronte da abertura
por onde o conde via o gabinete. Os seus olhos fixaram-se
portanto nessa janela. Viu uma sombra desenhar-se, mais densa,
na escurido; depois uma das vidraas tomou-se completamente
opaca, como se lhe colassem da parte de fora uma folha de
papel; finalmente, a vidraa estalou e separou-se sem cair.
Pela abertura praticada passou um brao, que procurou o fecho.
Um segundo mais tarde a janela girou nos gonzos e entrou um
homem.

O indivduo vinha s.

- Ora a est um patife audacioso... - murmurou o conde.
Neste momento sentiu que Ali lhe tocava suavemente no ombro.
Virou-se. Ali mostrava-lhe a janela do quarto onde estavam e
que deitava para a rua.

Monte-Cristo deu trs passos para a janela; conhecia a
extraordinria delicadeza de sentidos do fiel servidor. Com
efeito, viu outro homem afastar-se de uma porta, subir para um
marco e parecer procurar ver o que se passava em casa do
conde.

- Bom, so dois - disse. - Um actua e o outro vigia.

Fez sinal a Ali para no perder de vista o homem da rua e
encarregou-se do do gabinete.

O cortador de vidros entrara e orientava-se, com os braos
estendidos na sua frente.

Por fim, pareceu ter descoberto o que lhe interessava. Havia
duas portas no gabinete; correu os ferrolhos de ambas.

Quando se aproximou da porta do quarto de dormir,
Monte-Cristo julgou que ele fosse entrar e preparou uma das
pistolas; mas ouviu simplesmente o rudo do ferrolho a
deslizar nos seus anis de cobre. Tratava-se de uma mera
precauo. O visitante nocturno, ignorando que o conde tomara
o cuidado de retirar as escpulas, podia dali em diante
julgar-se em segurana e agir com toda a tranquilidade.

Sozinho e com todos os movimentos livres, o homem tirou ento
de uma ampla algibeira qualquer coisa que o conde no
conseguiu distinguir, pousou essa qualquer coisa em cima da
mesinha de centro e depois foi direito  secretria, apalpou o
stio da fechadura e verificou que, contra a sua expectativa,
a chave no estava l.

Mas o cortador de vidros era homem precavido e previra tudo. O
conde no tardou a ouvir o toque de ferro contra ferro que
produz, quando o agitam, um molho de chaves toscas, dessas que
trazem os serralheiros quando os mandam chamar para abrir uma
porta e s quais os ladres chamam "rouxinis", sem dvida
devido ao prazer que sentem ao ouvir o seu "canto" nocturno
quando rangem na fechadura.

- Ah, ah! - murmurou Monte-Cristo, com um sorriso
decepcionado. -  apenas um ladro.

Mas o homem, no escuro, no podia escolher o instrumento
conveniente. Recorreu ento ao objecto que deixara em cima da
mesinha de centro. Fez funcionar um mecanismo e imediatamente
uma luz plida, mas suficientemente viva para que se pudesse
ver, envolveu no seu reflexo dourado as mos e a cara do
homem.

-- Olha, ... - disse de sbito Monte-Cristo, recuando com
expresso de surpresa.

Ali levantou o machado.

- No te mexas - disse-lhe Monte-Cristo em voz baixa - e
deixa l o machado; no precisamos de armas aqui.

Depois acrescentou algumas palavras baixando ainda mais a voz,
porque a exclamao, por mais fraca que fosse, que a surpresa
arrancara ao conde, bastara para fazer estremecer o homem, que
ficara na atitude do amolador antigo. Era uma ordem que o
conde acabava de dar, pois Ali afastou-se imediatamente em
bicos de ps e tirou da parede da alcova uma vestimenta preta
e um chapu triangular. Entretanto, Monte-Cristo despia
rapidamente a sobrecasaca, o colete e a camisa. Graas ao raio
de luz que se infiltrava pela fresta do painel, poder-se-ia
reconhecer no peito do conde uma dessas flexveis e finas
cotas de malha de ao doutros tempos, a ltima das quais, numa
Frana onde j se no temiam os punhais, fora talvez usada
pelo rei Lus XVI, que receava ser ferido no peito  navalha e
acabara por ser decapitado pela guilhotina.

Aquela tnica no tardou a desaparecer debaixo de uma comprida
sotaina, tal como os cabelos do conde debaixo de uma peruca
tonsurada. O chapu triangular, colocado por cima da peruca,
acabou de transformar o conde em abade.

Entretanto, o homem, como no ouvisse mais nada,
endireitara-se e, enquanto Monte-Cristo operava a sua
metamorfose, fora direito  secretria, cuja fechadura
comeava a ranger sob a aco do seu "rouxinol".

- Bom - murmurou o conde, que decerto confiava nalgum segredo
de serralharia que devia ser desconhecido do arrombador de
portas, por mais hbil que fosse --, bom, tens para uns
minutos...

E dirigiu-se para a janela.

O homem que vira subir para um marco descera e continuava a
passear na rua. Mas, coisa singular, em vez de se preocupar
com quem pudesse vir quer pela Avenida dos Campos Elsios,
quer pelo Arrabalde de Saint-Honor, s parecia preocupar-se
com o que se passava em casa do conde, e todos os seus
movimentos tinham por fim ver o que estaria a acontecer no
gabinete.

De sbito, Monte-Cristo bateu na testa e deixou errar pelos
lbios entreabertos um sorriso silencioso.

Depois, aproximou-se de Ali e disse-lhe:

- Fica aqui escondido no escuro, e seja qual for o barulho que
ouas, seja o que for que acontea, s entras e s te mostras
quando te chamar pelo teu nome.

Ali fez sinal com a cabea de que compreendera e obedeceria.
Ento, Monte-Cristo tirou de um armrio uma vela, acendeu-a,
e, no momento em que o ladro estava mais ocupado com a
fechadura, abriu suavemente a porta, tendo o cuidado de fazer
com que a luz que segurava na mo lhe batesse em cheio na
cara.

A porta girou to suavemente que o ladro no a ouviu. Mas,
com grande surpresa sua, viu o quarto iluminar-se de sbito.

Virou-se.

- Boas noites, caro Sr. Caderousse - disse Monte-Cristo. -
Que diabo veio fazer aqui a semelhante hora?

- O abade Busoni! - gritou Caderousse.

E ignorando como aquela estranha apario chegara at ele, uma
vez que fechara as portas, deixou cair o molho de chaves
falsas e ficou imvel e como que fulminado de espanto.

O conde foi-se colocar entre Caderousse e a janela, cortando
assim ao ladro aterrorizado o seu nico meio de retirada.

- O abade Busoni! - repetiu Caderousse, cravando no conde os
olhos esbugalhados.

- Sim, no h dvida que sou o abade Busoni, em pessoa -
confirmou Monte-Cristo --, e folgo muito por me ter
reconhecido, meu caro Sr. Caderousse. Isso prova que temos boa
memria, pois, se me no engano, h pelo menos dez anos que
nos no vamos.

Esta calma, esta ironia, esta fora, causaram no esprito de
Caderousse um terror indescritvel.

- O abade! O abade! - murmurou crispando os punhos e batendo
os dentes.

- Com que ento, queremos roubar o conde de Monte-Cristo... -
continuou o pretenso abade.

- Sr. Abade - murmurou Caderousse, procurando alcanar a
janela que o conde lhe interceptava implacavelmente.

- Sr. Abade, no sabia... peo-lhe que acredite... juro-lhe...

- Um vidro cortado - continuou o conde --, uma lanterna de
furta-fogo, um molho de "rouxinis" e uma secretria meio
arrombada so provas mais do que evidentes, no entanto...

Caderousse sentia a gravata estrangul-lo, procurava um canto
onde se esconder, um buraco por onde se sumir.

- Verifico que continua a ser o mesmo Sr. Assassino -
acrescentou o conde.

- Sr. Abade, uma vez que sabe tudo, deve saber que no fui eu,
foi a Carconte. Isso foi reconhecido no julgamento, e tanto
assim que s me condenaram s gals.

- E mal acabou de cumprir o seu tempo, encontro-o em vias de
voltar para l, no ?

- No, Sr. Abade, fui libertado por algum.

- Por algum que prestou um lindo servio  sociedade...

- Mas eu prometi... - comeou Caderousse.

- Prometeu, mas est em Paris sem autorizao, no  verdade?
- interrompeu-o Monte-Cristo.

- Infelizmente, estou - confessou Caderousse muito inquieto.

- M reincidncia... Isso lev-lo-, se me no engano,  Praa
de Grve. Tanto pior, tanto pior, diavolo!, como dizem os
hereges no meu pas.

- Sr. Abade, cedi a uma tentao...

- Todos os criminosos dizem isso.

- A necessidade...

- No me venha com essa! - redarguiu desdenhosamente Busoni. -
A necessidade pode levar a pedir esmola, a roubar um po 
porta de um padeiro, mas no a vi arrombar uma secretria numa
casa que se julga desabitada. E quando o joalheiro Joanns lhe
deu quarenta e cinco mil francos pelo diamante que lhe ofereci
e o senhor o matou para ficar com o diamante e o dinheiro,
tambm foi por necessidade?

- Perdo, Sr. Abade - suplicou Caderousse. - J me salvou uma
vez, salve-me segunda...

- Isto no me encoraja...

- Est sozinho, Sr. Abade? - perguntou Caderousse, juntando as
mos. - No me diga que tem a gendarmes prontos para me
prender...

- Estou sozinho - respondeu o abade - e terei mais uma vez
piedade do senhor e deix-lo-ei ir, com risco de novas
desgraas por culpa da minha fraqueza, se me contar toda a
verdade.

- Ah, Sr. Abade! - exclamou Caderousse, juntando as mos e
aproximando-se um passo de Monte-Cristo. - Posso bem dizer
que o senhor  o meu salvador!

- Diz que o libertaram das gals?

- Sim, senhor, palavra de Caderousse, Sr. Abade!

- Quem?

- Um ingls.

- Como se chamava?

- Lorde Wilmore.

- Conheo-o. Saberei portanto se mente.

- Sr. Abade, digo a pura verdade.

- Esse ingls protegia-o, portanto?

- No a mim, mas sim a um jovem corso que era meu companheiro
de grilheta.

- Como se chamava esse jovem corso?

- Benedetto.

- Isso  um nome  de baptismo.

- Ele no tinha outro, era um enjeitado.

- E esse rapaz evadiu-se consigo?

- Evadiu.

- Como?

- Ns trabalhvamos em Saint-Mandrier, perto de Toulon.
Conhece Saint-Mandrier?

- Conheo.

- Bom, enquanto o pessoal dormia, do meio-dia  uma hora...

- Forados a dormirem a sesta! E ainda h quem tenha pena
desses figures! - exclamou o abade.

- Demnio, no se pode estar sempre a trabalhar - protestou
Caderousse. - Um homem no  nenhum co...

- Felizmente para os ces - redarguiu Monte-Cristo.

- Portanto, enquanto os outros dormiam a sesta, afastmo-nos
um bocadinho, cortmos os ferros com uma lima fornecida pelo
ingls e fugimos a nado.

- Que foi feito desse Benedetto?

- No sei nada dele.

- Mas devia saber...

- No sei, na verdade. Separmo-nos em Hyres.

E para dar mais fora  sua afirmao, Caderousse avanou mais
um passo para o abade, que permaneceu imvel no seu lugar,
sempre calmo e interrogador.

- Mente! - disse o abade Busoni, em tom de irresistvel
autoridade.

- Sr. Abade!...

- Mente! Esse homem  ainda seu amigo e o senhor serve-se dele
talvez como cmplice...

- Oh, Sr. Abade!...

- Desde que deixou Toulon, como tem vivido? Responda.

- Como tenho podido.

- Mente! - repetiu pela terceira vez o abade, em tom ainda
mais imperioso.

Aterrado, Caderousse fitou o conde.

- O senhor tem vivido - prosseguiu este ltimo - do dinheiro
que ele lhe tem dado.

- Pronto,  verdade! - confessou Caderousse. - Benedetto
tornou-se filho de um grande senhor.

- Como pode ser filho de um grande senhor?

- Filho natural.

- E como se chama esse grande senhor?

- Conde de Monte-Cristo, o mesmo em casa de quem estamos.

- Benedetio, filho do conde? - murmurou Monte-Cristo,
atnito.

- Demnio, assim deve ser, uma vez que o conde lhe arranjou um
falso pai, lhe d quatro mil francos por ms e lhe deixa
quinhentos mil francos em testamento!

- Ah, ah! - exclamou o falso abade, que comeava a
compreender. - Que nome usa agora esse rapaz?

- Chama-se Andrea Cavalcanti.

- Ento  o jovem que o meu amigo conde de Monte-Cristo
recebe em sua casa e que vai casar com Mademoiselle Danglars?

- Exactamente.

- E o senhor permite isso, miservel? o senhor, que conhece a
sua vida e a sua ignomnia?

- Porque havia eu de impedir um camarada de vencer na vida? -
perguntou Caderousse.

- Tem razo. No  ao senhor que compete prevenir o Sr.
Danglars,  a mim.

- No faa isso, Sr. Abade!

- Porqu?

- Porque seria o nosso po que nos faria perder.

- E julga que para conservar o po a miserveis como vocs me
tornarei um encobridor das suas velhacarias, um cmplice dos
seus crimes?

- Sr. Abade! - exclamou Caderousse, aproximando-se mais.

- Direi tudo.

- A quem?

- Ao Sr. Danglars.

- Irra! - gritou Caderousse, tirando uma navalha aberta do
colete e atingindo o conde no meio do peito. - No dirs nada,
abade!

Mas, com grande espanto de Caderousse, a navalha, em vez de
penetrar no peito do conde, ressaltou embotada.

Ao mesmo tempo, o conde agarrou com a mo esquerda o pulso do
assassino e torceu-o com tal fora que a navalha caiu-lhe dos
dedos hirtos e Caderousse soltou um grito de dor.

Mas, sem que o grito o detivesse, o conde continuou a torcer o
pulso do bandido at ele, com o brao deslocado, cair primeiro
de joelhos e depois de cara contra o cho.

Ento, o conde ps-lhe o p na cabea e disse:

- No sei que me impede de te rachar o crnio, celerado!

- Piedade! Piedade! - gritou Caderousse.

O conde retirou o p.

- Levanta-te! - ordenou-lhe.

Caderousse levantou-se.

- Com a breca, sempre tem uma mo mais forte, Sr. Abade!... -
exclamou Caderousse, esfregando o brao pisado pela tenaz de
carne que lho apertara. - Sim, senhor, que mo!...

- Silncio! Deus deu-me fora suficiente para domar uma fera
como tu.  em nome de Deus que procedo. Lembra-te disto,
miservel: se te poupo neste momento  ainda para servir os
desgnios de Deus.

- Hui! - gemeu Caderousse, muito magoado.

- Pega nessa pena e nesse papel e escreve o que te vou ditar.

- No sei escrever, Sr. Abade...

- Mentes. Pega nessa pena e escreve!

Subjugado por aquele poder superior, Caderousse sentou-se e
escreveu:

"Senhor, o homem que recebe em sua casa e a quem destina a sua
filha  um antigo forado, evadido comigo das gals de Toulon.
Ele tinha o n.o 59 e eu o n.o 58. Chamava-se Benedetto, mas
ele prprio ignora o seu verdadeiro nome e nunca conheceu os
pais."

- Assina! - continuou o conde.

- Mas o senhor quer-me perder?

- Se te quisesse perder, imbecil, arrastar-te-ia at 
primeira esquadra de polcia. Alis,  hora em que o teu
bilhete chegar ao seu destino  provvel que j no tenhas
nada a temer. Assina, pois.

Caderousse assinou.

- O endereo: "Ao Sr. Baro Danglars, banqueiro, Rua da
Chausse-d'Antin."

Caderousse escreveu o endereo.

O abade pegou no bilhete.

- Agora que est tudo em ordem - disse --, vai-te embora.

- Por onde?

- Por onde vieste.

- Quer que eu saia por essa janela?

- Entraste bem por ela...

- Desconfio que trama qualquer coisa contra mim, Sr Abade...

- Imbecil! Que queres que trame?

- Porque no me abre a porta?

- Que necessidade h de acordar o porteiro?

- Sr. Abade, diga-me que no quer a minha morte.

- Quero o que Deus quiser.

- Mas jure-me que no me atacar enquanto eu descer.

- Sempre me saste um estpido e um cobarde!

- Que quer fazer de mim?

- Isso pergunto-te eu. Tentei fazer de ti um homem feliz e s
fiz um criminoso!

- Sr. Abade, tente uma ltima experincia - pediu Caderousse.

- Seja - concordou o conde.- Escuta, sabes que sou um homem de
palavra?

- Sei - respondeu Caderousse.

- Se regressares a casa so e salvo...

- No sendo o senhor, que mais tenho a temer?

- Se regressares a casa so e salvo, deixa Paris, deixa a
Frana, e onde quer que estejas, desde que te comportes
honestamente, far-te-ei chegar uma pequena penso. Porque se
regressares a casa so e salvo, bom...

- Bom?... - perguntou Caderousse, estremecendo.

- Bom, acreditarei que Deus te perdoou e perdoar-te-ei tambm.

- To certo como eu ser cristo, o senhor faz-me morrer de
medo! - balbuciou Caderousse, recuando.

- Vamos, sai! - ordenou o conde, apontando com o dedo a janela
a Caderousse.

Apesar de pouco tranquilizado pela promessa, Caderousse passou
a perna por cima do parapeito da janela e ps o p na escada
de mo.

A parou a tremer.

- Agora desce - disse o abade, cruzando os braos.

Caderousse convenceu-se de que no havia nada a temer daquele
lado e desceu.

Ento o conde aproximou-se com a vela, de forma que se pudesse
distinguir dos Campos Elsios aquele homem que descia de uma
janela iluminado por outro homem.

- Que est a fazer, Sr. Abade? - perguntou Caderousse. - Se
passasse uma patrulha...

Apagou a vela. Depois, continuou a descer; mas s quando
sentiu o solo do jardim debaixo dos ps ficou suficientemente
tranquilizado.

Monte-Cristo reentrou no seu quarto de dormir, e, deitando
uma rpida olhadela do jardim  rua, viu primeiro Caderousse,
que, depois de descer, dava uma volta no jardim e ia colocar a
escada de mo na extremidade do muro, a fim de sair por um
stio diferente daquele por onde entrara.

Depois, passando do jardim  rua, viu o homem que parecia
esperar correr paralelamente pela rua e colocar-se mesmo atrs
da esquina junto da qual Caderousse ia descer.

Caderousse subiu lentamente a escada e, chegado aos ltimos
degraus, passou a cabea por cima do espigo, a fim de se
assegurar de que a rua estava deserta.

No se via ningum nem se ouvia nenhum rudo.

Deu uma hora nos Invlidos.

Ento, Caderousse ps-se a cavalo no muro e, puxando a escada
para si, passou-a por cima do muro e em seguida desceu, ou
antes, deixou-se escorregar ao longo dos dois montantes,
manobra que executou com uma destreza que provava que estava
habituado quele exerccio.

Mas uma vez lanado no declive no pde parar. Em vo viu um
homem sair da sombra no momento em que estava a meio caminho;
em vo viu um brao erguer-se no momento em que chegava ao
cho: antes de poder pr-se em guarda, esse brao feriu-o to
furiosamente nas costas que largou a escada e gritou:

- Socorro!

Recebeu quase imediatamente segundo golpe no flanco e caiu
gritando.

- Assassino!

Por fim, como rolasse pelo cho, o seu adversrio agarrou-o
pelos cabelos e deu-lhe terceiro golpe no peito.

Desta vez, Caderousse ainda quis gritar, mas no pde soltar
mais do que um gemido e deixou correr, arquejando, os trs
regatos de sangue que lhe saam dos trs ferimentos.

Vendo que ele j no gritava, o assassino levantou-lhe a
cabea pelos cabelos. Caderousse tinha os olhos fechados e a
boca torcida. O assassino julgou-o morto, deixou cair a cabea
e desapareceu.

Ento, Caderousse, sentindo-o afastar-se, ergueu-se num
cotovelo e, numa voz moribunda, gritou num esforo supremo:

- Assassino! Morro! A mim, Sr. Abade, a mim!

Este lgubre apelo trespassou a escurido da noite. A porta da
escada oculta abriu-se, em seguida a portinha do jardim, e Ali
e o amo acorreram com luzes.



Captulo LXXXIII

A mo de Deus

Caderousse continuava a gritar em voz lamentosa:

- Sr. Abade, socorro! Socorro!

- Que aconteceu? - perguntou Monte-Cristo.

- A mim, socorro! - repeliu Caderousse. - Assassinaram-me!

- Estamos aqui! Coragem!

-  o fim. Chegaram demasiado tarde; chegaram para me ver
morrer. Que facadas! Tanto sangue!

E desmaiou.

Ali e o amo pegaram no ferido e transportaram-no para um
quarto. A, Monte-Cristo fez sinal a Ali para o despir e
examinou os trs terrvel; ferimentos com que fora atingido.

- Meu Deus - murmurou --, por vezes a Tua vingana faz-se
esperar, mas creio que ento desce do cu mais completa.

Ali olhou para o amo como se lhe perguntasse o que devia
fazer.

-Vai procurar o Sr. Procurador Rgio Villefort, que mora no
Arrabalde de Saint-Honor, e tr-lo aqui. De passagem, acorda
o porteiro e diz-lhe que v buscar um mdico.
Ali obedeceu e deixou o falso abade sozinho com Caderousse,
ainda desmaiado. Quando o desgraado abriu os olhos, o conde,
sentado a poucos passos dele, olhava-o com sombria expresso
de piedade e os seus lbios, que se agitavam, pareciam
murmurar uma prece.

- Um cirurgio, Sr. Abade, um cirurgio - pediu Caderousse.

- J foram buscar um - respondeu o abade.

- Sei que  intil, quanto a salvar-me a vida, mas talvez me
possa dar foras e quero ter tempo de fazer uma declarao.

- A respeito de qu?

- Do meu assassino.

- Conhece-o?

- Se o conheo. Sim, conheo-o,  Benedetto.

- O jovem corso?

- Ele mesmo.

- O seu companheiro?

-Sim. Depois de me dar a planta da casa do conde, esperando
sem dvida que eu o matasse e ele se tornasse assim seu
herdeiro, ou que me matasse o conde e ele se visse assim livre
de mim, esperou-me na rua e assassinou-me.

- Ao mesmo tempo que mandei buscar o mdico, mandei buscar
tambm o procurador rgio.

- Chegar demasiado tarde, chegar demasiado tarde - disse
Caderousse. - Sinto que me estou a esvair em sangue.

- Espere - pediu Monte-Cristo.

Saiu e voltou cinco minutos depois com um frasco.

Os olhos do moribundo, assustadores de fixidez, no tinham
durante a sua ausncia deixado a porta por onde adivinhava
instintivamente que lhe viria um socorro.

- Despache-se, Sr. Abade, despache-se! -- insistiu. - Sinto
que vou desmaiar outra vez.

Monte-Cristo aproximou-se e deitou nos lbios roxos do ferido
trs ou quatro gotas do licor que continha o frasco.
Caderousse soltou um suspiro.

- oh, foi a vida que me deu! Mais... mais...

- Duas gotas mais mat-lo-iam - respondeu o abade.

- Oh, ento que venha algum a quem possa denunciar o
miservel!

- Quer que escreva a sua declarao? Assin-la-?

- Sim... sim... - disse Caderousse, cujos olhos brilhavam 
ideia daquela vingana pstuma.

Monte-Cristo escreveu:

"Morro assassinado pelo corso Benedetto, meu companheiro de
grilheta em Toulon com o n.o 59."

- Despache-se! Despache-se! - insistiu Caderousse. - Desconfio
que j no conseguirei assinar.

Monte-Cristo apresentou a pena a Caderousse, que, reunindo
foras, assinou e voltou a cair na cama, dizendo:

- O senhor contar o resto, Sr. Abade. Dir que se faz passar
por Andrea Cavalcanti, que est hospedado no Hotel dos
Prncipes, que... Ah, ah, meu Deus, meu Deus! Agora  que
morro!

E Caderousse desmaiou pela segunda vez.

O abade f-lo respirar o contedo do frasco; o ferido reabriu
os olhos.

- O seu desejo de vingana no o abandonara durante o desmaio.

- Dir tudo isto, no  verdade, Sr. Abade?

- Sim, tudo isso e muitas outras coisas mais.

- Que dir?

- Direi que sem dvida lhe deu a planta desta casa na
esperana de que o conde o matasse. Direi que prevenira o
conde por meio de um bilhete. Direi que o conde estava
ausente, que fui eu que recebi o bilhete e resolvi esper-lo.


- E ele ser guilhotinado, no  verdade? - perguntou
Caderousse. - Ser guilhotinado, promete-me? Morro com essa
esperana, isso ajudar-me- a morrer.

- Direi continuou o conde - que ele chegou atrs de si e que o
espreitou durante todo o tempo; que quando o viu sair correu 
esquina do muro e escondeu-se.

- Quer dizer que o senhor viu tudo isso?

- Lembre-se das minhas palavras: "Se regressares a casa so e
salvo, acreditarei que Deus te perdoou e perdoar-te-ei
tambm."

- E no me avisou?! - gritou Caderousse, tentando levantar-se
num cotovelo. - Sabia que ia ser morto quando sasse daqui e
no me avisou!

- No, porque na mo de Benedetto via a justia de Deus e
julgaria cometer um sacrilgio opondo-me s intenes da
Providncia.

- A justia de Deus! No me fale disso, Sr. Abade. Se houvesse
uma justia de Deus, sabe melhor do que ningum que h pessoas
que seriam castigadas e no o so.

- Pacincia! - disse o abade num tom que fez estremecer o
moribundo. - Pacincia!

Caderousse olhou-o com espanto.

- E depois - prosseguiu o abade - Deus est cheio de
misericrdia para todos, e tambm para ti. E pai antes de ser
juiz.

- Ah! O senhor acredita portanto em Deus? - perguntou
Caderousse.

- Se tivesse a desgraa de no ter acreditado nele at agora,
acreditaria ao ver-te - respondeu Monte-Cristo.

Caderousse ergueu os punhos crispados ao cu.

- Escuta - disse o abade, estendendo a mo por cima do ferido
como se quisesse incutir-lhe a f --, aqui tens o que fez por
ti esse Deus que recusas reconhecer no teu ltimo momento:
dera-te a sade, a fora, um trabalho garantido, at amigos, a
vida, enfim, tal como se deve apresentar ao homem para ser
agradvel, com a tranquilidade da conscincia e a satisfao
dos desejos naturais. Em vez de explorares essas ddivas do
Senhor, to raramente concedidas por Ele na sua plenitude, eis
o que fizeste: entregaste-te  mandriice,  embriaguez, e na
embriaguez atraioaste um dos teus melhores amigos.

- Socorro! - gritou Caderousse. - No preciso de um padre, mas
sim de um mdico. Talvez no esteja ferido de morte, talvez
no morra ainda, talvez me possam salvar!

- Ests to ferido de morte que sem as trs gotas de licor que
te dei h pouco j terias morrido. Escuta, pois!

- Ah, que estranho padre me saiu, um padre que desespera os
moribundos em vez de os confortar!... - murmurou Caderousse.

- Escuta - continuou o abade. - Quando atraioaste o teu
amigo, Deus comeou, no por te ferir, mas sim por te avisar.
Caste na misria e tiveste fome; passaste a invejar a metade
de uma vida que poderias ter passado a adquirir, e j pensavas
no crime dando a ti mesmo a desculpa da necessidade quando
Deus fez para ti um milagre, pelas minhas mos, e te enviou ao
seio da tua misria uma fortuna notvel, embora fosses um
desgraado que nunca tivera nada. Mas essa fortuna inesperada,
sbita, inaudita, j no te bastou assim que a possuste;
quiseste duplic-la. Por que meio? Por meio de um crime.
Duplicaste-a e ento Deus tirou-ta e levou-te perante a
justia humana.

- No fui eu que quis matar o judeu, foi a Carconte -
redarguiu Caderousse.

- Foste - respondeu Monte-Cristo. - Por isso Deus, sempre,
no direi justo desta vez, porque a sua justia ter-te-ia dado
a morte, mas sempre misericordioso, permitiu que os teus
juizes fossem tocados pelas tuas palavras e te poupassem a
existncia.

- Ora, ora! Para me condenarem a trabalhos forados por toda a
vida! Que linda graa!

- Essa graa, miservel, consideraste-a como tal quando ta
concederam! O teu cobarde corao, que tremia diante da morte,
saltou de alegria ao anncio de uma desonra perptua, pois
disseste para contigo, como todos os forados: "Nas gals h
uma porta que no existe na sepultura." E tinhas razo, porque
a porta das gals abriu-se para ti inesperadamente. Um ingls
visita Toulon. Fizera voto de tirar dois homens da infmia. A
sua escolha recai em ti e no teu companheiro. Segunda fortuna
desce para ti do cu, recuperas ao mesmo tempo o dinheiro e a
tranquilidade, podes recomear a viver a vida de todos os
homens, tu que foras condenado a viver a dos forados. Ento,
miservel, ento atreves-te a tentar Deus pela terceira vez.
"No tenho o suficiente", dizes tu, quando tinhas mais do que
alguma vez tiveras, e cometes terceiro crime, sem razo, sem
desculpa. Deus cansou-se, Deus castigou-te.

Caderousse enfraquecia a olhos vistos.

- Quero beber... tenho sede... ardo! - balbuciou.

Monte-Cristo deu-lhe um copo de gua.

- Esse celerado do Benedetto - disse Caderousse, restituindo o
copo - escapar, apesar de tudo...

- Ningum escapar, sou eu que to digo, Caderousse...
Benedetto ser castigado!

- Ento tambm o senhor ser castigado - redarguiu Caderousse
--, porque no cumpriu o seu dever de padre...
Devia impedir Benedetto de me matar.

- Eu - disse o conde com um sorriso que gelou de terror o
moribundo --, eu impedir Benedetto de te matar quando acabavas
de quebrar a tua navalha contra a cota de malha que me cobria
o peito?... Sim, talvez se te tivesse encontrado humilde e
arrependido tivesse impedido Benedetto de te matar; mas
encontrei-te orgulhoso e sanguinrio e deixei cumprir-se a
vontade de Deus!

- No acredito em Deus! - bramiu Caderousse. - E tu tambm
no. Tu mentes... mentes!

- Cala-te, se no queres lanar fora do teu corpo as tuas
ltimas gotas de sangue... - aconselhou o abade. - Ah, no
acreditas em Deus, mas morres ferido por Deus!... Ah, no
acreditas em Deus e no entanto Deus s pede uma prece, uma
palavra, uma lgrima para perdoar!... Deus, que poderia
dirigir o punhal do assassino de maneira que expirasses
imediatamente... Deus concedeu-te um quarto de hora para te
arrependeres... Recolhe-te, pois, em ti mesmo, desgraado, e
arrepende-te!

- No, no me arrependo - teimou Caderousse. - No existe
Deus, no existe Providncia, s existe o acaso.

- Existe uma Providncia e existe um Deus - replicou
Monte-Cristo --, e a prova  que enquanto ests a deitado,
desesperado, renegando Deus, eu estou aqui de p diante de ti,
rico, feliz, so e salvo, de mos postas diante desse Deus em
que tentas no acreditar, mas em que mesmo assim acreditas no
fundo do corao.

- Mas ento quem  o senhor? - perguntou Caderousse, fixando
os seus olhos de moribundo no conde.

- Olha-me bem - disse Monte-Cristo, pegando aproximando-a da
cara.

- Bom,  o abade... o abade Busoni...

Monte-Cristo tirou a peruca que o desfigurava e deixou cair
os seus belos cabelos negros que emolduravam to
harmoniosamente o seu rosto plido.

- Oh! - exclamou Caderousse, aterrado. - Se no fossem esses
cabelos negros, diria que era o ingls, diria que era Lorde
Wilmore.

- No sou nem o abade Busoni nem Lorde Wilmore - disse
Monte-Cristo. - Olha melhor, olha para mais longe, olha para
as tuas primeiras recordaes.

Havia nestas palavras do conde uma vibrao magntica, que
pela derradeira vez reavivou os sentidos exaustos do
miservel.

- Oh, de facto parece-me que j o vi, que o conheci noutros
tempos!...

- Sim, Caderousse, sim, viste-me; sim, conheceste-me.

- Mas afinal quem  o senhor? E porqu, se j me vira e
conhecera, porque me deixa morrer?

- Porque nada te pode salvar, Caderousse; porque os teus
ferimentos so mortais. Se pudesses ser salvo, eu veria nisso
a ltima misericrdia do Senhor e teria mais uma vez, juro-te
pela sepultura do meu pai, tentado restituir-te  vida e ao
arrependimento.

- Pela sepultura do teu pai!... - exclamou Caderousse,
reanimado por uma suprema centelha e soerguendo-se para ver
mais de perto o homem que acabava de lhe fazer aquele
juramento sagrado para todos os homens. - Eh! Quem s tu?

O conde acompanhara at ali os progressos da agonia.
Compreendeu que aquele mpeto de vida era o ltimo.
Aproximou-se do moribundo e, envolvendo-o num olhar calmo e
triste, disse-lhe ao ouvido.

- Eu sou...

E os seus lbios, apenas entreabertos, deram passagem a um
nome pronunciado to baixo que o prprio conde parecia recear
ouvi-lo.

Caderousse, que se erguera nos joelhos, estendeu os braos,
fez um esforo para recuar e depois, juntando as mos e
levantando-as num esforo sul remo, disse:

- Oh, meu Deus, perdo por Te ter renegado! Existes e s bem o
pai dos homens no cu e o seu juiz na Terra. Meu Deus, Senhor,
ignorei-te durante tanto tempo! Meu Deus, Senhor, perdoa-me!
Meu Deus, Senhor, recebe-me!

E Caderousse fechou os olhos e caiu para trs, com um ltimo
grito e um ltimo suspiro.

O sangue parou imediatamente nos lbios das suas enormes
feridas.

Estava morto.

- um! - disse misteriosamente o conde, de olhos postos no
cadver j desfigurado por aquela morte horrvel.

Dez minutos depois chegaram o mdico e o procurador rgio,
trazidos um pelo porteiro e o outro por Ali, e foram recebidos
pelo abade Busoni, que rezava junto do morto.


Captulo LXXXIV

Beauchamp


Durante quinze dias no se falou doutra coisa em Paris do que
da tentativa de roubo to audaciosamente levada a cabo em casa
do conde. O moribundo assinara uma declarao que indicava
Benedetto como seu assassino. A Polcia foi convidada a lanar
todos os seus agentes na pista do homicida.

A navalha de Caderousse, a lanterna de furta-fogo, o molho de
chaves e as roupas, com excepo do colete, que se no
conseguiu encontrar, foram depositados no cartrio competente
e o corpo transitou para a morgue.

O conde respondia a toda a gente que a aventura se dera
durante a sua ausncia na sua casa de Auteuil, e que portanto
s sabia a tal respeito o que lhe dissera o abade Busoni, que
naquela noite, pelo maior dos acasos, lhe pedira para passar a
noite em sua casa a fim de proceder a investigaes nalguns
livros preciosos existentes na biblioteca.

S Bertuccio empalidecia todas as vezes que o nome de
Benedetto era pronunciado na sua presena. Mas no havia
nenhum motivo para que quem quer que fosse notasse a palidez
de Bertuccio.

Villefort, chamado a verificar o crime, reclamara o caso e
conduzia a instruo com o ardor apaixonado que punha em todas
as causas criminais em que era chamado a usar da palavra.

Mas tinham-se j passado trs semanas sem que as buscas mais
activas tivessem conduzido a qualquer resultado, e as pessoas
da alta sociedade comeavam a esquecer a tentativa de roubo em
casa do conde e o assassnio do ladro pelo seu cmplice, para
se ocuparem do prximo casamento de Mademoiselle Danglars com
o conde Andrea Cavalcanti.

O casamento estava quase declarado e o jovem era recebido em
casa do banqueiro a ttulo de noivo.

Escrevera-se ao Sr. Cavalcanti pai, que aprovara calorosamente
o casamento e que, manifestando o maior pesar por o seu
servio o impedir absolutamente de deixar Parma, onde se
encontrava, declarava consentir em dar o capital
correspondente ao rendimento de cento e cinquenta mil libras.

Estava assente que os trs milhes seriam colocados no banco
de Danglars, que os faria render. Algumas pessoas ainda tinham
tentado apresentar ao rapaz as suas dvidas a respeito da
solidez da posio do seu futuro sogro, que havia algum tempo
experimentava na Bolsa perdas reiteradas, mas o jovem, com um
desinteresse e uma confiana sublimes, repelira todos os
conselhos, acerca dos quais tivera a delicadeza de no dizer
uma nica palavra ao baro.

Por isso, o baro adorava o conde Andrea Cavalcanti.

O mesmo no acontecia com Mademoiselle Eugnie Danglars, No
seu dio instintivo ao casamento, acolhera Andrea como um meio
de afastar Morcerf, mas agora que Andrea se aproximava
demasiado, comeava a experimentar por ele visvel repulsa.

Talvez o baro a tivesse notado, mas como s podia atribuir
tal repulsa a um capricho, fingira nada perceber.

Entretanto, o prazo pedido por Beauchamp estava quase
esgotado. Alis, Morcerf pudera apreciar o valor do conselho
de Monte-Cristo quando este lhe dissera que deixasse cair as
coisas por si mesmas. De facto, ningum chamara a ateno para
a noticia sobre o general nem ningum relacionara o oficial
que entregara o castelo de Janina com o nobre conde que tinha
assento na Cmara dos Pares.

No entanto, Albert nem por isso se considerava menos
insultado, pois a inteno da ofensa existia certamente nas
poucas linhas que o tinham ferido. Alm disso, a forma como
Beauchamp terminara a conversa deixara uma recordao amarga
no seu corao. Acarinhava portanto no esprito a ideia do
duelo, cuja causa esperava, se Beauchamp se prestasse a isso,
ocultar mesmo s suas testemunhas. Pelo menos a causa real.

Quanto a Beauchamp, ningum mais o vira desde o dia da visita
que Albert lhe fizera; e a todos aqueles que o procuravam
respondiam que se ausentara numa viagem de alguns dias.

Aonde fora? Ningum sabia nada a tal respeito.

Uma manh, Albert foi acordado pelo seu criado de quarto, que
lhe anunciava Beauchamp.

Albert esfregou os olhos, ordenou que mandassem esperar
Beauchamp na salinha de fumo do rs-do-cho, vestiu-se
rapidamente e desceu.

Encontrou Beauchamp a passear de um lado para o outro.
Ao v-lo, Beauchamp parou.

- O passo que d, apresentando-se pessoalmente em minha casa e
sem esperar a visita que tencionava fazer-lhe hoje mesmo,
parece-me um bom augrio, senhor - disse Albert. - Vamos, diga
depressa, devo estender-lhe a mo e perguntar-lhe: "Beauchamp,
quer dar a mo  palmatria e conservar um amigo?" Ou
perguntar-lhe apenas: "Quais so as suas armas?"

- Albert - respondeu Beauchamp com uma tristeza que deixou o
jovem espantado --, sentemo-nos primeiro e conversemos.

- Parece-me, pelo contrrio, senhor, que antes de nos
sentarmos me deve responder.

- Albert - insistiu o jornalista --, h circunstncias em que
a dificuldade reside precisamente na resposta.

- Vou torn-la fcil, senhor, repetindo-lhe a pergunta: quer
retractar-se, sim ou no?

- Morcerf, ningum se limita a responder sim ou no s
perguntas que dizem respeito  honra,  posio social e 
vida de um homem como o Sr. Tenente-General Conde de Morcerf,
par de Frana.

- Que fazem ento as pessoas que se no limitam a responder
desse modo?

- Fazem o que eu fiz, Albert. Dizem: "O dinheiro, o tempo e a
fadiga no so nada quando se trata da reputao e dos
interesses de toda uma famlia. So necessrias mais do que
probabilidades, so necessrias certezas para aceitar um duelo
de morte com um amigo. Se cruzo a espada ou primo o gatilho de
uma pistola contra um homem a quem durante trs anos apertei a
mo, tenho de saber ao menos porque fao semelhante coisa, a
fim de entrar em campo com o corao tranquilo e de bem com a
minha conscincia, como convm a um homem que tem de confiar
ao seu brao a salvao da sua vida.

- Pois sim, pois sim - atalhou Morcerf com impacincia --, mas
que quer isso dizer?

- Quer dizer que venho de Janina.

- De Janina? O senhor?!

- Sim, eu.

- Impossvel.

- Meu caro Albert, aqui tem o meu passaporte. Veja os vistos:
Genebra, Milo, Veneza, Trieste, Delvino, Janina. Acredita na
polcia de uma repblica, de um reino e de um imprio?

Albert deitou os olhos ao passaporte e ergueu-os, atnito,
para Beauchamp.

- Esteve ento em Janina?... - murmurou.

- Albert, se voc fosse um estranho, um desconhecido, um
simples lorde como esse ingls que me veio pedir satisfaes
h trs ou quatro meses, e que matei para me ver livre dele,
decerto compreenderia que me no desse a semelhante trabalho.
Mas achei que lhe devia essa prova de considerao. Gastei
oito dias a ir e oito dias a voltar, mais quatro dias de
quarentena e quarenta e oito horas de permanncia. Isto d
precisamente as minhas trs semanas. Cheguei esta noite e aqui
estou.

- Meu Deus, meu Deus, quantos circuniquios, Beauchamp, e como
tarda a dizer-me o que espero de si!...

-  que na verdade, Albert...

- Dir-se-ia que hesita.

- Sim, hesito, tenho medo.

- Tem medo de confessar que o seu correspondente o enganou?
Oh, deixe-se de amor-prprio, Beauchamp! Confesse, Beauchamp,
a sua coragem no pode ser posta em dvida.

- Oh, no se trata disso! - murmurou o jornalista. - Pelo
contrrio...

Albert empalideceu horrivelmente. Tentou falar, mas as
palavras morreram-lhe nos lbios.

- Meu amigo - disse Beauchamp no tom mais afectuoso
--, creia que me sentiria feliz em apresentar-lhe as minhas
desculpas, e que lhas apresentaria de todo o corao; mas
infelizmente...

- Mas qu?

- A notcia tinha razo, meu amigo.

- Como, esse oficial francs...

- Sim.

- Esse Fernand?

- Sim.

- Esse traidor que entregou os castelos do homem ao servio de
quem estava...

- Perdoe-me dizer-lhe o que lhe digo, meu amigo: esse homem 
o seu pai!

Albert fez um gesto furioso para se atirar a Beauchamp, mas
este conteve-o muito mais com um olhar afectuoso do que com a
mo estendida.

- Veja, meu amigo - disse, tirando um papel da algibeira. -
Aqui tem a prova.

Albert abriu o papel. Era uma declarao de quatro habitantes
notveis de Janina, segundo a qual o coronel Fernand Mondego,
coronel instrutor ao servio do vizir Ali-Tebelin, entregara
o castelo de Janina em troca de duas mil bolsas.

As assinaturas estavam reconhecidas pelo cnsul.

Albert cambaleou e caiu esmagado numa poltrona.

Desta vez no havia qualquer dvida, o nome de famlia estava
ali com todas as letras.

Por isso, aps um momento de doloroso silncio, o corao
dilatou-se-lhe, as veias do pescoo engrossaram-lhe e uma
torrente de lgrimas brotou-lhe dos olhos.

Beauchamp, que observara com profunda compaixo a forma como
Albert cedia ao paroxismo da dor, aproximou-se dele.

- Albert - disse-lhe --, compreende-me agora, no  verdade?
Quis ver e julgar tudo por mim, esperando que a explicao
fosse favorvel ao seu pai e que lhe pudesse prestar toda a
justia. Mas, pelo contrrio, as informaes colhidas
confirmam que esse oficial instrutor, que esse Fernand Mondego
elevado por Ali-Pax ao cargo de general-governador, no 
outro seno o conde Fernand de Morcerf. Ento voltei,
recordando a honra que voc me concedera admitindo-me entre os
seus amigos, e corri para sua casa.

Albert, sempre estendido na sua poltrona, tapava os olhos com
as mos, como se quisesse impedir a luz de bater neles.

- Corri a sua casa - continuou Beauchamp - para lhe dizer:
"Albert, as culpas dos nossos pais, nestes tempos de aco e
reaco, no podem atingir os filhos. Albert, muito poucos
atravessaram as revolues no meio das quais nascemos sem que
alguma ndoa de lama ou de sangue no tenha conspurcado o seu
uniforme de soldado ou a sua toga de juiz. Albert, ningum no
mundo, agora que tenho todas as provas, agora que sou senhor
do seu segredo, me pode forar a um combate, que a sua
conscincia, estou certo disso, lhe censuraria como um crime.
Mas o que voc j no pode exigir de mim venho eu
oferecer-lhe. Quer que estas provas, estas revelaes, estas
declaraes que s eu possuo desapaream? Quer que este
segredo horrvel fique entre ns?
Confiado  minha palavra de honra, nunca sair da minha boca.
Diga, quer, Albert? Diga, quer que faamos isto, meu amigo?"

Albert lanou-se ao pescoo de Beauchamp.

- Ah, nobre corao! - exclamou.

- Tome - disse Beauchamp, apresentando os documentos a Albert.

Albert agarrou-os com mo convulsa, apertou-os, amarrotou-os,
chegou a pensar em rasg-los. Mas, receando que o mais pequeno
fragmento, levado pelo vento, pudesse um dia vir a bater-lhe
na fronte, aproximou-se da vela sempre acesa para os charutos
e queimou tudo at ao ltimo resto.

- Querido amigo, excelente amigo! - murmurava Albert enquanto
queimava os papis.

- Que tudo isto seja esquecido como um mau sonho - disse
Beauchamp --, desaparea como essas ltimas chamas que correm
pelo papel enegrecido, que tudo isto se desvanea como esse
ltimo fumo que se escapa dessas cinzas mudas.

- Sim, sim - concordou Albert --, e que s reste a eterna
amizade que voto ao meu salvador, amizade que os meus filhos
transmitiro aos seus, amizade que me recordar sempre que o
sangue das minhas veias, a vida do meu corpo e a honra do meu
nome lhos devo integralmente, porque se semelhante coisa fosse
conhecida... Oh, Beauchamp, declaro-lhe que daria um tiro na
cabea! Mas no, pobre me, porque isso seria o mesmo que
mat-la... Exilar-me-ia.

- Querido Albert! - exclamou Beauchamp.

Mas o jovem no tardou a sair desta alegria inopinada e por
assim dizer fictcia, e recaiu mais profundamente na sua
tristeza.

- Ento, que mais temos ainda, meu amigo? - perguntou
Beauchamp.

- Temos - respondeu Albert - que sinto algo partido no
corao. Oua, Beauchamp, ningum se separa assim num segundo
do respeito, da confiana e do orgulho que inspira a um filho
o nome sem mcula do pai. Oh, Beauchamp! Como vou agora
encarar o meu? Afastarei a testa quando ele aproximar os
lbios e a mo quando me estender a sua?... Veja, Beauchamp,
sou o mais infeliz dos homens. Ah, minha me, minha pobre me!
- exclamou Albert, olhando com os olhos rasos de lgrimas o
retrato da me. - Se soubesse isto, como sofreria!

- Vamos, coragem, amigo! - procurou anim-lo Beauchamp,
pegando-lhe nas mos.

- Mas donde veio a primeira notcia inserta no seu jornal? -
perguntou Albert. - H por detrs de tudo isto um dio
desconhecido, um inimigo invisvel.

- Nesse caso, mais uma razo para ter coragem, Albert. Nada de
vestgios de emoo no seu rosto. Traga essa dor em si como a
nuvem traz com ela a runa e a morte, segredo fatal que s se
desvenda no momento em que rebenta a tempestade. V, amigo,
reserve as suas foras para o momento em que o temporal
desabar...

- Julga ento que ainda no chegmos ao fim? - perguntou
Albert, espantado.

- No julgo nada, meu amigo. Mas, enfim, tudo  possvel. A
propsito...

- Que ? - perguntou Albert, vendo que Beauchamp hesitava.

- Sempre casa com Mademoiselle Danglars?

- A que propsito me pergunta isso neste momento, Beauchamp?

- Porque, no meu esprito, o rompimento ou a realizao desse
casamento relaciona-se com o assunto que nos ocupa neste
momento.

- Como?... - disse Albert, cuja testa se ruborizou. -
Parece-lhe que o Sr. Danglars...

- Pergunto-lhe apenas em que p est o seu casamento. Que
diabo, no veja nas minhas palavras aquilo que no querem
dizer nem lhos d mais alcance do que tm!

- No, o casamento foi desfeito - respondeu Albert.

- Muito bem - disse Beauchamp.

Depois, vendo que o rapaz ia recair na sua melancolia,
disse-lhe:

- Se quer um conselho, Albert, acho melhor sairmos. Uma volta
pelo bosque, de feton ou a cavalo, distra-lo-. Depois,
iremos tomar o pequeno-almoo a qualquer parte e cada um ir 
sua vida.

- Pois sim - concordou Albert. - Mas saiamos a p, parece-me
que um pouco de fadiga me far bem.

- Seja - disse Beauchamp.

E os dois amigos saram a p e seguiram pelo bulevar.
Chegados  Madalena, disse Beauchamp:

- J que estamos em caminho, vamos visitar o Sr. de
Monte-Cristo. Ele o distrair.  um homem admirvel a
desanuviar os espritos e nunca faz  perguntas. Ora, na
minha opinio, as pessoas que no fazem perguntas so os mais
hbeis animadores.

- Seja - disse Albert. - Vamos a sua casa. Gosto dele.


Captulo LXXXV

A viagem


Monte-Cristo soltou uma exclamao de alegria ao ver os dois
rapazes juntos.

- Ah, ah! - exclamou - Espero que esteja tudo terminado,
esclarecido e arranjado.

-  verdade - respondeu Beauchamp. - Boatos absurdos que
caram por si mesmos e que se agora se renovassem me teriam
como primeiro antagonista. Portanto, no falemos mais disso.

- Albert dir-lhe- - observou o conde - que foi esse o
conselho que lhe dei. Mas reparem - acrescentou - que estou a
acabar a manh mais execrvel que alguma vez passei, segundo
creio.

-- Que est a fazer? - perguntou Albert. - A pr em ordem os
seus papis, parece-me.

- Os meus papis, graas a Deus, no! Os meus papis esto
sempre numa ordem maravilhosa, atendendo a que no tenho
papis. Trata-se dos papis do Sr. Cavalcanti.

- Do Sr. Cavalcanti? - perguntou Beauchamp.

-  verdade, no sabe que se trata de um rapaz lanado pelo
conde? - interveio Morcerf.

- Isso no! - protestou Monte-Cristo. - Entendamo-nos bem: eu
no lano ningum, e o Sr. Cavalcanti menos do que qualquer
outro.

- E que vai casar com Mademoiselle Danglars em meu lugar, o
que - continuou Albert tentando sorrir e como se no tivesse
ouvido o protesto do conde --, como pode imaginar, meu caro
Beauchamp, me afecta cruelmente.

- Como, Cavalcanti vai casar com Mademoiselle Danglars? -
perguntou Beauchamp.

- Ora essa! Mas de que canto perdido do mundo vem o senhor? -
observou Monte-Cristo. - O senhor, um jornalista, o marido da
Fama! Em Paris no se fala doutra coisa.

- E foi o senhor, conde, que fez esse casamento? - perguntou
Beauchamp.

- Eu? Silncio, senhor novelista, no diga semelhantes coisas!
Eu, meu Deus, fazer um casamento! O senhor no me conhece.
Pelo contrrio, opus-me com todo o meu poder, recusei mesmo
fazer o pedido.

- Ah, compreendo! - exclamou Beauchamp. - Por causa do nosso
amigo Albert?

- Por minha causa? - interveio este. - Oh, no, palavra de
honra! O conde far-me- a justia de confirmar que sempre
desejei, pelo contrrio, romper esse projecto, que felizmente
se rompeu. O conde pretende que no  a ele que devo
agradecer; seja, erguerei, como os Antigos, um altar ao Deo
ignoto.

- Ouam - pediu Monte-Cristo --, fui to pouco metido e
achado nisso que tanto o sogro como o rapaz esto frios
comigo. S Mademoiselle Eugnie, que no me parece ter
profunda vocao para o casamento,  que, vendo at que ponto
estava pouco disposto a faz-la renunciar  sua querida
liberdade, me conservou a sua afeio.

- E diz que esse casamento est prestes a realizar-se?

- Meu Deus, sim, apesar de tudo o que tenho dito. No conheo
o rapaz; afirmam que  rico e de boa famlia, mas para mim
essas coisas no passam de simples diz-se. Repeti tudo isto
at  saciedade ao Sr. Danglars, mas ele est aterrado ao seu
lucano. Fui ao ponto de o informar de uma circunstncia que
para mim era muito grave: o rapaz foi trocado na ama, raptado
por ciganos ou perdido pelo seu preceptor, no sei bem. Mas o
que sei  que o pai o perdeu de vista h mais de dez anos. O
que fez durante esses dez anos de vida errante s Deus sabe.
Pois bem, nada disto foi tido em considerao. Encarregaram-me
de escrever ao major, de lhe pedir documentos. Ei-los. Vou
entreg-los, mas, como Pilatos, lavo da as minhas mos.

- E Mademoiselle de Armilly, que cara lhe mostrou por lhe
roubar a sua aluna? - perguntou Beauchamp.

- No fao ideia, mas parece que parte para Itlia. A Sr.a
Danglars talou-me dela e pediu-me cartas de apresentao para
os empresrios. Dei-lhe uma para o director do Teatro Valle,
que me deve alguns favores. Mas que tem, Albert? Acho-o
triste... Dar-se- o caso de, sem o suspeitar, estar
apaixonado por Mademoiselle Danglars, por exemplo?

- Que eu saiba, no - respondeu Albert, sorrindo tristemente.

Beauchamp ps-se a ver os quadros.

- Mas enfim - insistiu Monte-Cristo --, no est com o seu ar
habitual... Vejamos, que tem? Ande, diga.

- Di-me a cabea - respondeu Albert.

- Nesse caso, meu caro visconde - disse Monte-Cristo --,
posso indicar-lhe um remdio infalvel, remdio que me tem
dado excelente resultado todas as vezes que tenho
experimentado qualquer contrariedade.

- Qual? - perguntou o rapaz.

- Viajar.

- Sim?

- Sim. E olhe, como neste momento estou bastante contrariado,
vou viajar. Quer vir comigo?

- O senhor, contrariado, conde?... - duvidou Beauchamp. - Mas
porqu?

- Homessa! O senhor encara as coisas com muita despreocupao,
pelo que vejo... Gostaria de o ver com uma instruo judicial
em sua casa!

- Uma instruo! Qual instruo?

- A que o Sr. de Villefort est a fazer contra o meu amvel
assassino, uma espcie de bandido fugido das gals, ao que
parece.

- Ah,  verdade! - exclamou Beauchamp. - Li qualquer coisa nos
jornais. Quem era o tal Caderousse?

- Bom... parece que era um provenal. O Sr. de Villefort ouviu
falar dele quando esteve em Marselha e o Sr. Danglars
recorda-se de o ter visto. Resultado: o Sr. Procurador Rgio
tomou o caso tanto a peito que, ao que parece, despertou no
mais alto grau o interesse do prefeito da Polcia, e graas a
esse interesse, pelo  qual no posso estar mais reconhecido,
h quinze dias que me mandam c todos os bandidos que existem
em Paris e nos arredores, a pretexto de serem os assassinos do
Sr. Caderousse. Assim, se isto continua, dentro de trs meses
no haver um ladro nem um assassino, neste belo reino de
Frana, que no conhea a planta da minha casa na ponta da
unha. Estou pois resolvido a abandonar-lha por completo e ir
para to longe quanto a Terra mo permita. Venha comigo,
visconde, quer?

- Com muito prazer.

- Ento, est combinado?

- Est. Mas para onde vai?

- J lhe disse: para onde o ar  puro, o rudo entorpece e,
por mais orgulhoso que se seja, um homem se sente humilde e
insignificante. Aprecio essa humildade, eu, que dizem senhor
do universo, como Augusto.

- Mas para onde vai, finalmente?

- Para o mar, visconde, para o mar. Sou um marinheiro, fique
sabendo. Logo em criana fui embalado nos braos do velho
Oceano e no colo da bela Anfitrite. Brinquei com o manto verde
de um e a tnica cerlea da outra. Gosto do mar como se gosta
de uma amante, e quando estou muito tempo sem o ver sinto a
sua falta.

- Ento vamos, conde, vamos!

- Para o mar?

- Sim.

- Aceita?

- Aceito.

- Nesse caso, visconde, haver esta tarde um brisca de
viagem em que uma pessoa se pode deitar como na sua cama. Esse
brisca estar atrelado a quatro cavalos de posta. Sr.
Beauchamp, cabem l quatro facilmente. Quer vir connosco? Eu
levo-o!

- Obrigado, mas venho do mar.

- Como, o senhor vem do mar?!

- Sim, ou pouco mais ou menos. Acabo de fazer uma viagenzinha
s ilhas Borromeias.

- Que tem isso? Venha sempre - insistiu tambm Albert.

- No, meu caro Morcerf. Deve compreender que desde o momento
que recuso  porque  impossvel. Alis,  importante -
acrescentou, baixando a voz - que eu fique em Paris, quanto
mais no seja para vigiar a caixa do jornal.

- Voc  um bom e excelente amigo - disse Albert. - Sim, tem
razo, observe, vigie, Beauchamp, e procure descobrir o
inimigo a quem se deve essa revelao.

Albert e Beauchamp separaram-se. O seu ltimo aperto de mo
encerrava todos os sentimentos que os seus lbios no podiam
exprimir diante de um estranho.

- Excelente rapaz, esse Beauchamp! - exclamou Monte-Cristo,
depois de o jornalista sair. - No  verdade, Albert?

- Oh, sim, um homem de corao, garanto-lhe! Por isso o estimo
com toda a minha alma. Mas agora que estamos ss, embora isso
me seja quase indiferente aonde vamos?

-  Normandia, se est de acordo.

- Inteiramente. Mas ficamos apenas no campo, no  verdade?
Nada de sociedade, nada de vizinhos?

- O nosso nico convvio ser com cavalos para correr, ces
para caar e um barco para pescar, mais nada.

-  o que desejo. Vou prevenir a minha me e depois estou s
suas ordens.

- Mas permitir-lhe-o?... - perguntou Monte-Cristo.

- O qu?

- Ir  Normandia.

- A mim? Porventura no sou livre?

- De ir aonde quiser sozinho, sei bem que , uma vez que
encontrei a vaguear pela Itlia...

- E ento?

- Mas de vir com o homem que se chama conde de
Monte-Cristo...

- Tem fraca memria, conde.

- Que quer dizer?

- No lhe disse j toda a simpatia que a minha me tinha pelo
senhor?

- A mulher varia com frequncia, disse Francisco I; a mulher 
como as ondas, disse Shakespeare: um era um grande rei e o
outro um grande poeta, e ambos deviam conhecer a mulher.

- Sim, a mulher. Mas a minha me no  a mulher,  uma mulher.

- Permite a um pobre estrangeiro no compreender perfeitamente
todas as subtilezas da sua lngua?

- Quero dizer que a minha me  avara dos seus sentimentos,
mas quando os concede  para sempre.

- Deveras? - redarguiu, suspirando, Monte-Cristo. - E acha
que ela me deu a honra de me conceder qualquer sentimento que
no seja a mais completa indiferena?

- Oua, j lho disse uma vez e repito-lhe:  necessrio que o
senhor seja realmente um homem muito estranho e muito superior
para...

- Sim?...

- Sim. Porque a minha me deixou-se prender, no direi pela
curiosidade, mas sim pelo interesse que o senhor inspira.
Quando estamos ss, apenas conversamos a seu respeito.

- E ela disse-lhe que desconfiasse deste Manfredo?

- Pelo contrrio, disse-me: "Albert, creio o conde um nobre
carcter; procura fazer-te estimar por ele."

Monte-Cristo virou os olhos e suspirou.

- Deveras?

- Portanto, como deve compreender - continuou Albert --, em
vez de se opor  minha viagem, aprov-la- de todo o seu
corao, visto estar de acordo com as recomendaes que me faz
diariamente.

- V, ento disse Monte-Cristo. At logo. Esteja aqui s
cinco horas. Chegaremos ao nosso destino por volta da
meia-noite ou da uma hora.

- Como, a Trport?!...

- A Trport ou aos arredores.

- S precisamos de oito horas para percorrer quarenta e oito
lguas?

- E ainda  muito - respondeu Monte-Cristo.

- Decididamente, o senhor  o homem dos prodgios, e consegue
no s ultrapassar o comboio, o que no  muito difcil,
sobretudo em Frana, mas tambm o prprio telgrafo.

- Entretanto, visconde, como precisaremos sempre de sete ou
oito horas para chegar ao nosso destino, seja pontual.

- Fique tranquilo, daqui at l no tenho mais nada que fazer
seno preparar-me.

- s cinco horas, ento.

- s cinco horas.

Albert saiu. Depois de lhe fazer, sorrindo, um aceno com a
cabea, Monte-Cristo ficou um instante pensativo e como que
absorto em profunda meditao. Por fim, passou a mo pela
testa, como que para afastar o seu devaneio, aproximou-se da
campainha e tocou duas vezes.

Mal acabaram de soar os dois toques de campainha, entrou
Bertuccio.

- Mestre Bertuccio - disse-lhe Monte-Cristo --, no  amanh,
nem depois de amanh, como pensei primeiro, mas sim esta tarde
que parto para a Normandia. Daqui at s cinco horas tem tempo
mais do que suficiente para prevenir os cavalarios da
primeira muda. O Sr. de Morcerf acompanha-me. V!

Bertuccio obedeceu e um moo de cavalaria correu a Pontoise a
anunciar que a carruagem de posta passaria s seis horas
exactas. O cavalario de Pontoise mandou  muda seguinte um
prprio, dessa muda mandaram outro prprio  seguinte e assim
sucessivamente, de forma que, decorridas seis horas, todas as
mudas dispostas ao longo do caminho estavam prevenidas.

Antes de partir, o conde subiu aos aposentos de Hayde,
anunciou-lhe a sua partida, disse-lhe aonde ia e ps toda a
casa  sua disposio.

Albert foi pontual. A viagem, triste no comeo, em breve se
desanuviou graas ao efeito fsico da rapidez. Morcerf no
fazia ideia de que fosse possvel semelhante velocidade.

- Com efeito - disse Monte-Cristo --, com a vossa posta a
percorrer duas lguas por hora e com essa lei estpida que
probe um viajante de ultrapassar outro sem lhe pedir licena
e que permite que um viajante doente ou casmurro tenha o
direito de levar atrs de si os viajantes desinibidos e de boa
sade, no existe locomoo possvel. Eu evito esse
inconveniente viajando com o meu prprio postilho e com os
meus prprios cavalos, no  verdade, Ali?

E o conde, deitando a cabea fora da portinhola, soltava um
gritinho de incitamento, que dava asas aos cavalos. Estes j
no corriam, voavam. A carruagem rodava como um trovo no
pavimento da estrada real e toda a gente se virava para ver
passar aquele meteoro chamejante. Ali, repetindo o grito,
sorria mostrando os dentes brancos, apertando nas mos
robustas as rdeas cobertas de espuma e incitando os cavalos,
cujas belas crinas esvoaavam ao vento. Ali, o filho do
deserto, encontrava-se no seu elemento, e com o seu rosto
negro, os seus olhos ardentes e o seu albornoz cor de neve,
parecia, no meio da poeira que levantava, o gnio do simum e o
deus do furaco.

- A est uma volpia que no conhecia, a volpia da
velocidade - declarou Morcerf.

E as ltimas nuvens da sua fronte dissipavam-se, como se o ar
que fendia levasse essas nuvens consigo.

- Mas onde diabo arranja o senhor semelhantes cavalos? -
perguntou Albert. - Manda-os fazer de encomenda?

- Exactamente - respondeu o conde. - H seis anos, encontrei
na Hungria um garanho famoso pela sua velocidade. Comprei-o,
j no me lembro por quanto; foi Bertuccio quem o pagou. No
mesmo ano, ele teve trinta e dois filhos.  toda essa
progenitura do mesmo pai que vamos passar em revista. So
todos iguais: negros, sem uma nica malha, excepto uma estrela
na testa, porque por esse privilgio da coudelaria se
escolheram as guas, tal como para os paxs se escolhem as
favoritas.

-  admirvel! ... Mas diga-me, conde, que faz o senhor com
todos esses cavalos?

- O que v: viajo com eles.

- Mas decerto no viajar sempre...

- Quando me no forem mais necessrios, Bertuccio vend-los-
e pretende que ganhar trinta ou quarenta mil francos no
negcio.

- Mas no haver rei na Europa suficientemente rico para lhos
comprar.

- Ento, vend-los- a qualquer simples vizir do Oriente, que
esvaziar o seu tesouro para os pagar e o voltar a encher
vergustando as plantas dos ps dos seus sbditos.

- Conde, posso comunicar-lhe uma ideia que me ocorreu?

- Diga.

-  que, depois do senhor, Bertuccio deve ser o mais rico
particular da Europa.

- Engana-se, visconde. Tenho a certeza de que se virar do
avesso as algibeiras de Bertuccio no encontrar nelas nem um
chavo.

- Porqu? - perguntou o jovem. -  algum fenmeno o Sr.
Bertuccio? Ah. meu caro conde, no leve demasiado longe o
maravilhoso ou deixarei de o acreditar, previno-o!

- O maravilhoso nunca me acompanha, Albert; trata-se apenas de
uma questo de nmeros e de bom senso. Ora atente neste
dilema: um intendente rouba; mas rouba porqu?

- Demnio, porque isso lhe est na massa do sangue, parece-me!
- respondeu Albert. - Rouba por roubar.

- No, est enganado. Rouba porque tem uma mulher, filhos,
desejos ambiciosos para ele e para a sua famlia; rouba
sobretudo porque no tem a certeza de nunca deixar o patro e
porque quer garantir o futuro. Pois bem, o Sr. Bertuccio est
sozinho no mundo; serve-se da minha bolsa sem me dar
satisfaes e tem a certeza de que nunca me deixar.

- Porqu?

- Porque eu no encontraria um melhor do que ele.

- O senhor gira num circulo vicioso, o das probabilidades.

- Oh, no! O meu crculo  o das certezas. Para mim, o bom
servidor  aquele sobre o qual tenho direito de vida ou de
morte.

- E tem direito de vida ou de morte sobre Bertuccio? -
perguntou Albert.

- Tenho - respondeu friamente o conde.

H palavras que encerram um dilogo como uma porta de ferro. O
tenho do conde era uma dessas palavras.

O resto da viagem decorreu com a mesma rapidez; os trinta e
dois cavalos, divididos por oito mudas, percorreram as suas
quarenta e oito lguas em oito horas.

Chegaram a meio da noite  porta de um belo parque. O porteiro
estava de p e tinha o porto aberto. Fora prevenido pelo
cavalario da ltima muda.

Eram duas e meia da manh. Conduziram Morcerf ao seu quarto.
Encontrou um banho e uma ceia prontos. O criado que fizera a
viagem no banco de trs da carruagem estava s suas ordens;
Baptistin, que viajara no banco da frente, estava s do conde.

Albert tomou o seu banho, ceou e deitou-se. Durante toda a
noite foi embalado pelo barulho melanclico das vagas.
Quando se levantou foi direito  janela, abriu-a e
encontrou-se num terraozinho onde tinha diante de si o mar,
isto , a imensido, e atrs de si um bonito parque, que dava
para uma pequena floresta.

Numa enseada de certa grandeza balouava uma corvetazinha de
querena estreita e mastreao elegante, que arvorava na
carangueja um pavilho com as armas de Monte-Cristo, armas
que representavam uma montanha de ouro num mar azul, com uma
cruz de goles no chefe, o que tanto podia ser uma aluso ao
seu nome, que lembrava o Calvrio, do qual a paixo de Nosso
Senhor fez uma montanha mais preciosa do que o ouro, e  cruz
infame que o seu sangue divino santificou, como a qualquer
recordao pessoal de sofrimento e regenerao sepultada na
noite do passado misterioso daquele homem.  volta da goleta
encontravam-se vrios barquitos de pesca costeira pertencentes
aos pescadores das aldeias vizinhas e que pareciam humildes
sbditos  espera das ordens do seu rei.

Ali, como em todos os stios onde Monte-Cristo se detinha,
nem que fosse para passar apenas dois dias, a vida estava
organizada pelo termmetro do mais alto conforto e por isso se
tornava imediatamente fcil.

Albert encontrou na sua antecmara duas espingardas e lodos os
utenslios necessrios a um caador; uma diviso mais alia,
situada no rs-do-cho, estava reservada a todos os engenhosos
apetrechos que os Ingleses, grandes pescadores, porque so
pacientes e ociosos, ainda no conseguiram que fossem
adoptados pelos rotineiros pescadores franceses.

Passaram todo o dia entregues aos mais diversos exerccios,
nos quais, alis Monte-Cristo era excelente: mataram uma
dzia de faises no parque, pescaram outras tantas trutas nos
regatos, almoaram num quiosque sobre o mar e serviram-lhes o
ch na biblioteca.

Quase  noitinha do terceiro dia, Albert, quebrado de fadiga
por aquela vida intensa, que parecia ser uma brincadeira para
Monte-Cristo, dormia junto da janela enquanto o conde fazia
com o seu arquitecto a planta de uma estufa que queria
instalar em casa, quando o rudo de um cavalo nas pedras da
estrada fez o rapaz erguer a cabea. Olhou pela janela e, com
uma surpresa das mais desagradveis, viu no ptio o seu criado
de quarto, de que no quisera fazer-se acompanhar para
incomodar menos Monte-Cristo.

- Florentin aqui! - exclamou, saltando da poltrona. - Estar a
minha me doente?

E precipitou-se para a porta do quarto.

Monte-Cristo seguiu-o com os olhos e viu-o chegar junto do
criado, que, ainda esbaforido, tirou da algibeira um pacotinho
selado que continha um jornal e uma cana.

- De quem  esta carta? - perguntou vivamente Albert.

- Do Sr. Beauchamp - respondeu Florentin.

- Foi Beauchamp que te enviou, ento?

- Foi, sim, senhor. Chamou-me a sua casa, deu-me o dinheiro
necessrio para a viagem, arranjou-me um cavalo de posta e
obrigou-me a prometer que no pararia enquanto no encontrasse
o senhor. Fiz a viagem em quinze horas.

Albert abriu a carta a tremer. Logo que leu as primeiras
linhas, soltou um grito e pegou no jornal a tremer
visivelmente.

De sbito, os olhos nublaram-se-lhe, as pernas pareceram
faltar-lhe, e, prestes a cair, apoiou-se em Florentin, que
estendeu o brao para o amparar.

- Pobre rapaz! - murmurou Monte-Cristo, to baixo que ele
prprio no conseguiu ouvir as palavras de compaixo que
pronunciara. - Mas Ele disse que os pecados dos pais recairo
sobre os filhos at  terceira e quarta gerao...

Entretanto, Albert recuperara toras e continuara a ler. Por
fim, sacudiu os cabelos da testa coberta de suor, amarrotou a
carta e o jornal e perguntou:

- Florentin, o teu cavalo est em condies de voltar a Paris?

- Alm de ser um mau garrano de posta, est coxo.

- Oh, meu Deus! E como estava a casa quando a deixaste?

- Bastante calma. Mas quando voltei de casa do Sr. Beauchamp
encontrei a senhora a chorar. Ela mandara-me chamar para saber
quando o senhor voltaria. Ento disse-lhe que ia procur-lo da
parte do Sr. Beauchamp. O seu primeiro movimento foi estender
os braos, como que para me deter, mas, depois de um instante
de reflexo, disse-me: "Est bem, Florentin, ele que volte."

- Sim, minha me, sim - disse Albert --, volto, pode estar
tranquila, e ai do infame!... Mas antes de mais nada tenho de
partir.

Regressou  sala onde deixara Monte-Cristo.

J no era o mesmo homem; cinco minutos tinham bastado para
operar em Albert uma triste metamorfose. sara no seu estado
habitual e regressava com a voz alterada, o rosto sulcado por
rugas febris, os olhos brilhantes sob as plpebras arroxeadas
e o passo cambaleante como o de um brio.

- Conde, obrigado pela sua boa hospitalidade, que gostaria de
desfrutar mais tempo, mas tenho de regressar a Paris.

- Que aconteceu?

- Uma grande desgraa. Mas permita-me que parta; trata-se de
uma coisa muito mais preciosa do que a minha vida. Nada de
perguntas, conde, suplico-lhe; arranje-me antes um cavalo!

- As minhas cavalarias esto ao seu dispor, visconde -
respondeu Monte-Cristo. - Mas vai matar-se de fadiga fazendo
a viagem a cavalo. Tome uma calea, um cup, qualquer
carruagem.

- No, isso demoraria muito tempo. Alm disso, necessito dessa
fadiga que receia por mim; far-me- bem.

Albert deu alguns passos girando sobre si mesmo, e, homem
atingido por uma bala, e foi cair numa cadeira junto da porta.
Monte-Cristo no viu esta segunda fraqueza. Estava  janela e
gritava:

- Ali, um cavalo para o Sr. de Morcerf! Depressa! Ele tem de
partir com urgncia.

Estas palavras deram nova vida a Albert, que correu para fora
da sala. O conde seguiu-o.

- Obrigado! - murmurou o rapaz depois de montar. - Regressa o
mais depressa que puderes, Florentin. H alguma senha
combinada para que me dem os cavalos?

- Basta apenas entregar o que monta e selam-lhe imediatamente
outro.

Albert ia esporear a montada, mas deteve-se.

- Talvez ache a minha partida estranha, insensata - disse. -
No imagina como umas linhas escritas num jornal podem causar
o desespero de um homem... Pois bem - acrescentou,
atirando-lhe o jornal --, leia isto, mas s depois de eu
partir, para no me ver corar.

E enquanto o conde apanhava o jornal, cravou as esporas que
acabava de colocar nas botas no ventre do cavalo, o qual,
surpreendido que existisse um cavaleiro que julgasse
necessitar em relao a ele de semelhante estmulo, partiu
como um dardo de arbaleta.

O conde seguiu o jovem com os olhos, dominado por um
sentimento de infinita compaixo, e s quando ele desapareceu
por completo olhou para o jornal e leu o que se segue:

O oficial francs ao servio de Ali, pax de Janina, de que
falava h trs semanas o jornal Impartial, e que no s
entregou os castelos de Janina, mas ainda vendeu o seu
benfeitor aos Turcos, chamava-se com efeito nessa poca
Fernand, como disse o nosso respeitvel colega; mas depois
acrescentou ao seu nome de baptismo um ttulo de nobreza e o
nome de uma terra. Chama-se hoje conde de Morcerf e az parte
da Cmara dos Pares.


Assim, o terrvel segredo que Beauchamp ocultara com tanta
generosidade reaparecia como um fantasma armado, e outro
jornal, cruelmente informado, publicara dois dias depois da
partida de Albert para a Normandia as poucas linhas que quase
tinham enlouquecido o pobre rapaz.


Captulo LXXXVI

O julgamento


s oito horas da manh, Albert caiu como um raio em casa de
Beauchamp. Como o criado de quarto estava avisado, introduziu
Morcerf no quarto do amo, que acabava de se meter no banho.

- Ento? - perguntou-lhe Albert.

- Ento, meu pobre amigo, esperava-o - respondeu Beauchamp.

- Pois aqui me tem No lhe direi, Beauchamp, que o considero
to leal e correcto que nem me passa pela cabea que tenha
falado do caso a quem quer que seja. No, meu amigo. Alis, a
mensagem que me mandou  para mim uma garantia da sua amizade.
Assim, no percamos tempo com prembulos: tem alguma ideia
donde vem o golpe?

- Dir-lho-ei em duas palavras daqui a pouco.

- Est bem, mas primeiro, meu amigo, quero que me conte com
todos os pormenores a histria dessa abominvel traio.

E Beauchamp contou ao jovem, esmagado de vergonha e dor, os
factos que vamos repetir em toda a sua simplicidade.

Na manh da antevspera, outro jornal que no o Impartial
publicara o artigo que j conhecemos, e o que dava ainda mais
gravidade ao caso era o tacto de se tratar de um jornal bem
conhecido por pertencer ao Governo.
Beauchamp estava a tomar o pequeno-almoo quando a notcia lhe
saltara aos olhos. Mandara buscar imediatamente um cabriol e,
sem acabar de comer, correra ao jornal.
Embora professasse ideias polticas completamente opostas s
do director do jornal acusador, Beauchamp, como acontece
algumas vezes e diremos at que com frequncia, era seu amigo
ntimo.

Quando chegou, o director lia o seu prprio jornal e parecia
encantado com um artigo acerca do acar de beterraba, que
provavelmente era da sua lavra.

- Ainda bem que tem a o seu jornal, meu caro! - exclamou
Beauchamp mal entrou. - Assim no tenho necessidade de lhe
dizer o que me traz por c.

- Voc ser por acaso partidrio da cana-de-acar? -
perguntou o director do jornal ministerial.

- No - respondeu Beauchamp --, sou at absolutamente estranho
ao assunto. Venho por outra coisa.

- Qual?

- O artigo acerca do Morcerf.

- Deveras?  curioso!...

- To curioso que me parece que se arrisca a um processo por
difamao de resultado muito duvidoso.

- De modo nenhum. Recebemos com a notcia uma srie de provas
e estamos perfeitamente convencidos de que o Sr. de Morcerf
ficar quietinho. Alis,  um servio que se presta ao pas
denunciar os miserveis indignos das honras que lhes
concederam.

Beauchalnp ficou interdito.

- Mas quem os informou to bem? - perguntou. - Porque o meu
jornal, que levantou a lebre, viu-se obrigado a abster-se por
falta de provas, e no entanto temos mais interesse do que
vocs em denunciar o Sr. de Morcerf, que  par de Frana,
enquanto ns estamos na oposio.

- Oh, meu Deus,  muito simples! No corremos atrs do
escndalo; ele  que veio ao nosso encontro. Ontem chegou-nos
um homem de Janina, trazendo consigo o formidvel processo e,
como hesitssemos em nos lanar no caminho da acusao,
anunciou-nos que, se recusssemos, o artigo seria publicado
noutro jornal. Voc sabe, Beauchamp, o que  uma notcia
importante; no quisemos perder essa. Agora os dados esto
jogados; o caso  terrvel e repercutir-se- at aos confins
da Europa.

Beauchamp compreendeu que a nica coisa a fazer era dar-se por
vencido e saiu precipitadamente para enviar um mensageiro a
Morcerf.

Mas o que no pudera mandar dizer a Albert, pois o que vamos
contar aconteceu depois da partida do seu mensageiro, fora que
no mesmo dia se manifestara grande agitao na Cmara dos
Pares, agitao que se apoderara por completo dos grupos,
habitualmente to calmos, da alta assembleia. Todos tinham
chegado quase antes da hora e falavam do sinistro
acontecimento que iria  ocupar a ateno pblica e fix-la
num dos membros mais conhecidos da ilustre corporao.

Lia-se em voz baixa o artigo e trocavam-se comentrios e
recordaes, que precisavam ainda mais os factos. O conde de
Morcerf no era estimado pelos seus colegas. Como todos os
arrivistas, vira-se obrigado, para se manter na sua posio, a
observar um excesso de altivez. Os grandes aristocratas
riam-se dele; os talentos da repblica, as glrias puras,
desprezavam-no instintivamente. O conde encontrava-se na
situao desagradvel de bode expiatrio. Uma vez designado
pelo dedo do Senhor para o sacrifcio, todos se preparavam
para lhe cair em cima.

O nico que no sabia de nada era o conde de Morcerf. No
recebia o jornal onde vinha a notcia difamatria e passara a
manh a escrever cartas e a experimentar um cavalo.

Chegou portanto  hora habitual, de cabea erguida, olhar
altivo e atitude insolente, desceu da carruagem, percorreu os
corredores e entrou na sala sem notar as hesitaes dos
contnuos e os meios cumprimentos dos colegas.

Quando Morcerf entrou, a sesso estava j aberta havia mais de
meia hora.

Embora o conde, ignorando, como dissemos, tudo o que se
passara, em nada tivesse modificado o seu ar e a sua atitude,
tanto um como a outra pareceram a todos mais orgulhosos do que
de costume, e a sua presena naquela ocasio de tal modo
agressiva  assembleia, ciosa da sua honra, que lodos viram
nisso uma inconvenincia, vrios uma bravata e alguns um
insulto.

Era evidente que toda a Cmara ansiava por iniciar os debates.

Via-se o jornal acusador nas mos de toda a gente; mas como
sempre, todos hesitavam em chamar a si a responsabilidade do
ataque. Por fim, um dos respeitveis pares, inimigo declarado
do conde de Morcerf, subiu  tribuna com uma solenidade
anunciadora de que o momento esperado chegara.

Fez-se um silncio espantoso. S Morcerf ignorava a causa da
profunda ateno que se prestava daquela vez a um orador que
ningum costumava escutar to complacentemente.

O conde deixou passar tranquilamente o prembulo pelo qual o
orador declarava ir falar de uma coisa de tal modo grave, de
tal modo sagrada e de tal modo vital para a Cmara, que
reclamava toda a ateno dos seus colegas.

s primeiras citaes de Janina e do coronel Fernand, o conde
de Morcerf empalideceu to horrivelmente que um nico frmito
percorreu a assembleia, da qual todos os olhares convergiam
para o conde.

As feridas morais tm isso de especial: ocultam-se, mas no
fecham. Sempre dolorosas, sempre prontas a sangrar quando lhes
tocam, permanecem vivas e abertas no corao.

Terminada a leitura do artigo no meio do mesmo silncio,
perturbado ento por um frmito, que cessou imediatamente
quando o orador pareceu disposto a tomar de novo a palavra, o
acusador exps os seus escrpulos e procurou demonstrar quanto
a sua tarefa era difcil. Tratava-se da honra do Sr. de
Morcerf, era a honra de toda a Cmara que pretendia defender
provocando um debate que teria de se ocupar de questes
pessoais, sempre to melindrosas. Finalmente, concluiu pedindo
que fosse ordenado um inqurito bastante rpido para
confundir, antes que tivesse tempo de crescer, a calnia e
para recolocar o Sr. de  Morcerf, vingando-o, na posio que
a opinio pblica lhe concedera havia muito tempo.

Morcerf estava acabrunhado. To acabrunhado, to trmulo
perante aquela enorme e inesperada calamidade, que mal pde
balbuciar algumas palavras, e fitava os colegas com os olhos
esbugalhados. Aquela timidez, que alis tanto se podia dever 
surpresa do inocente como  vergonha do culpado valeu-lhe
algumas simpatias. Os homens verdadeiramente generosos esto
sempre prontos a ser compassivos quando a infelicidade do
inimigo excede os limites do seu dio.

O presidente ps o inqurito  votao. Votou-se por sentados
e levantados e decidiu-se levar o inqurito por diante.

Perguntaram ao conde quanto tempo precisava para preparar a
sua defesa.

A coragem voltara a Morcerf desde que se sentira ainda vivo
depois daquele horrvel golpe.

- Srs. Pares - respondeu --, no  com o tempo que se repele
um ataque como o que dirigem neste momento contra mim inimigos
desconhecidos e que permanecem na sombra da sua obscuridade,
sem dvida;  imediatamente,  por meio de um contra-ataque
sbito que devo responder ao relmpago que por instantes me
cegou, j que me no  dado, em vez de semelhante
justificao, derramar o meu sangue para provar aos meus
colegas que sou digno de me sentar a seu lado!

Estas palavras causaram uma impresso favorvel ao acusado.

- Peo portanto que o inqurito se efectue o mais depressa
possvel, e fornecerei  Cmara todas as provas necessrias 
eficcia dessa diligencia.

- Que dia fixa? - perguntou o presidente.

- Coloco-me a partir de hoje  disposio da Cmara -
respondeu o conde.

O presidente agitou a campainha.

- A Cmara concorda que o inqurito se realize hoje mesmo? -
perguntou.

- Sim! - foi a resposta unanime da assembleia.

Nomeou-se uma comisso de doze membros para examinar as provas
a fornecer por Morcerf. A primeira sesso da comisso foi
marcada para as oito da noite no edifcio da Cmara. Se tossem
necessrias diversas sesses, realizar-se-iam  mesma hora e
no mesmo local.

Tomada esta deciso, Morcerf pediu licena para se retirar.
Tinha de reunir as provas acumuladas havia muito tempo para
enfrentar aquela tempestade, prevista pelo seu cauteloso e
indomvel caracter.

Beauchamp contou ao jovem tudo o que acabamos de dizer pela
nossa parte. O seu relato apenas teve sobre o nosso a vantagem
da animao das coisas vivas sobre a frieza das coisas mortas.

Albert escutou-o, tremendo, ora de esperana, ora de clera, e
por vezes de vergonha. Porque, pela confidncia de Beauchamp,
sabia que o pai era culpado e perguntava a si prprio como,
uma vez que era culpado, conseguiria provar a sua inocncia.

Chegado a este ponto, Beauchamp calou-se.

- E depois? - perguntou Albert.

- E depois? - repetiu Beauchamp.

- Sim.

- Meu amigo, essa palavra coloca-me perante um horrvel
dilema. Quer, de facto, saber o que se passou depois?

-  absolutamente necessrio que o saiba, meu amigo, e prefiro
sab-lo pela sua boca do que pela de qualquer outro.

- Nesse caso - declarou Beauchamp --, apele para a sua
coragem, Albert; nunca ter tanta necessidade dela.

Albert passou a mo pela testa para se assegurar da sua
prpria energia, como um homem que, preparando-se para
defender a vida, experimenta a couraa e verga a lamina da
espada.

Sentiu-se forte, porque tomava a febre por energia.

- Continue! - pediu.

- Chegou a noite - prosseguiu Beauchamp. - Toda a gente em
Paris estava na expectativa do acontecimento.
Muitos pretendiam que o seu pai no teria mais do que aparecer
para deitar por terra a acusao; muitos tambm diziam que o
conde no se apresentaria, e havia quem afirmasse t-lo visto
partir para Bruxelas (alguns foram mesmo  Polcia perguntar
se era verdade, como se dizia, que o conde pedira o seu
passaporte).

"Confesso-lhe que fiz quanto pude - continuou Beauchamp -
para conseguir que um dos membros da comisso, um jovem par
meu amigo, me introduzisse numa espcie de tribuna. Veio
buscar-me s sete horas e, antes da chegada de quem quer que
fosse, recomendou-me a um contnuo que me fechou numa espcie
de camarote. Estava oculto por uma coluna e mergulhado na
escurido mais completa, mas esperanado em ver e ouvir de
ponta a ponta a terrvel cena que se ia desenrolar.

"s oito horas precisas no faltava ningum.

"O Sr. de Morcerf entrou ao soar a ltima badalada das oito.
Trazia na mo alguns papis e parecia calmo. Contrariamente ao
seu hbito, a sua atitude era simples e o seu traje esmerado e
severo. E, conforme o hbito dos antigos militares, trazia a
sobrecasaca abotoada de alto a baixo.

"A sua presena produziu o melhor efeito. A comisso estava
longe de ser malevolente e muitos dos seus membros vieram ao
encontro do conde e estenderam-lhe a mo.
Albert sentiu que o corao se lhe partia ao ouvir todos estes
pormenores, e no entanto no meio da sua dor insinuava-se um
sentimento de reconhecimento. Desejaria poder abraar os
homens que tinham dado ao pai aquela prova de estima num
momento to difcil para a sua honra.

- Nessa altura entrou um contnuo, que entregou uma carta ao
presidente.

" - Tem a palavra, Sr. de Morcerf - disse o presidente, ao
mesmo tempo que abria a carta.

"O conde comeou a sua apologia, e afirmo-lhe, Albert -
continuou Beauchamp --, que foi de uma eloquncia e de uma
habilidade extraordinrias. Apresentou documentos que provavam
que o vizir de Janina o honrara at  sua ltima hora com toda
a sua confiana, pois encarregara-o de uma negociao de vida
ou de morte com o prprio imperador. Mostrou o anel, smbolo
de comando, com que Ali-Pax lacrava habitualmente as suas
cartas e que ele lhe dera para que pudesse, no seu regresso, a
qualquer hora do dia ou da noite, ainda que o vizir se
encontrasse no seu harm, chegar at junto dele. Infelizmente,
disse, a sua negociao malograra-se, e quando regressara para
defender o seu benfeitor este j estava morto. Mas, disse o
conde, ao morrer, Ali-Pax, to grande era a sua confiana
nele, confiara-lhe a sua concubina favorita e a sua filha.

Albert estremeceu ao ouvir estas palavras, porque  medida que
Beauchamp falava, toda a narrativa de Hayde acudia ao
esprito do jovem, e recordava-se do que a bela grega dissera
acerca daquela mensagem e daquele anel e da forma como fora
vendida e submetida  escravatura.

-- E qual foi o efeito do discurso do conde? - perguntou
Albert com ansiedade.

- Confesso que me comoveu e que, ao mesmo tempo que a mim,
comoveu toda a comisso - respondeu Beauchamp.

"Entretanto, o presidente deitou negligentemente os olhos 
carta que lhe tinham entregado. Mas s primeiras linhas a sua
ateno despertou. Leu-a, releu-a e, cravando os olhos no Sr.
de Morcerf, perguntou:

".. Sr. Conde, acaba de nos dizer que o vizir de Janina lhe
confiara a mulher e a filha, no  verdade?

"-- , sim, senhor - respondeu Morcerf. - Mas nisso como em
tudo o mais, a pouca sorte perseguia-me. No meu regresso,
Vasiliki e sua filha Hayde tinham desaparecido.

"-- Conhecia-as!

"-- A minha intimidade com o pax e a suprema confiana que
ele depositava na minha fidelidade tinham-me permitido v-las
mais de vinte vezes.

"-- Tem alguma ideia do que lhos aconteceu?

"-- Tenho, senhor. Ouvi dizer que tinham sucumbido ao seu
desgosto e talvez  sua misria. Eu no era rico, a minha vida
corria grandes perigos e no pude procur-las, com grande
pesar meu.

"O presidente franziu imperceptivelmente o sobrolho.

"-- Senhores - disse --, ouviram e acompanharam o Sr. Conde de
Morcerf e as suas explicaes. Sr. Conde, pode fornecer-nos
algum testemunho em apoio do que acaba de nos relatar?

"-- Infelizmente, no, senhor - respondeu o conde. - Todos os
que rodeavam o vizir e que me conheceram na sua corte morreram
ou desapareceram. Apenas, pelo menos segundo creio, apenas
compatriotas meus sobreviveram quela horrvel guerra. S
tenho cartas de Ali-Tebelin, e essas j as exibi aqui. Quanto
ao anel, penhor da sua vontade, ei-lo. Finalmente, tenho a
prova mais convincente que posso fornecer, isto , depois de
um ataque annimo, a ausncia de qualquer testemunha contra a
minha palavra de homem honesto e a pureza de toda a minha vida
militar.

"Um murmrio de aprovao percorreu a assembleia. Naquele
momento, Albert, se no tivesse acontecido nenhum incidente, a
causa do seu pai estaria ganha.

"Faltava apenas a votao quando o presidente tomou a
palavra.

"-- Senhores - disse --, e o senhor, conde de Morcerf, presumo
que no se importaro de ouvir uma testemunha importantssima,
ao que ela afirma, e que acaba de se apresentar
espontaneamente. Essa testemunha, no duvidamos disso depois
de tudo o que nos disse o conde, provar a perfeita inocncia
do nosso colega. Eis a carta que acabo de receber a tal
respeito. Desejam que lhes seja lida ou decidem prosseguir sem
que nos detenhamos neste incidente?

"O Sr. de Morcerf empalideceu e crispou as mos nos papis
que segurava e que lhe rangeram nos dedos.

"A resposta da comisso foi pela leitura. Quanto ao conde,
estava pensativo e no tinha qualquer opinio a emitir.

"O presidente leu portanto a seguinte carta: "Sr. Presidente:
Posso fornecer  comisso de inqurito encarregada de examinar
a conduta no Epiro e na Macednia do Sr. Tenente-general
Conde de Morcerf as informaes mais positivas."

"O presidente fez uma curta pausa.

"O conde de Morcerf empalideceu. O presidente interrogou os
ouvintes com a vista.

"-- Continue! - gritaram de todos os lados.

"O presidente prosseguiu: "Encontrava-me presente aquando da
morte de Ali-Pax; assisti aos seus ltimos momentos; sei o
que foi feito de Vasiliki e Hayde; estou ao dispor da
comisso e reclamo mesmo a honra de me fazer ouvir.
Encontro-me no vestbulo da Cmara no momento em que lhe envio
esta carta."

"-- E quem  essa testemunha, ou antes esse inimigo? -
perguntou o conde numa voz em que era fcil notar profunda
alterao.

"-- Vamos sab-lo, senhor - respondeu o presidente. - A
comisso concorda em ouvir a testemunha?

"-- Sim, sim! - responderam ao mesmo tempo todas as vozes.

"Chamou-se um contnuo.

"-- Continuo - perguntou o presidente --, est algum  espera
no vestbulo?

"-- Est, sim, Sr. Presidente.

"-- Quem?

"-- Uma mulher acompanhada de um criado.

"Todos se entreolharam.

"-- Mande entrar essa mulher - ordenou o presidente.

"Passados cinco minutos, o contnuo reapareceu. Todos os
olhos estavam fixos na porta, e eu prprio - disse Beauchamp -
compartilhava a expectativa e a ansiedade gerais.

"Atrs do contnuo vinha uma mulher envolta num grande vu,
que a cobria por completo. No entanto, adivinhava-se, pelas
formas que o vu deixava transparecer e pelo perfume que ela
exalava, a presena de uma mulher nova e elegante, mas mais
nada.

"O presidente pediu  desconhecida que tirasse o vu e ento
todos viram que a mulher estava vestida  grega. Alm disso,
era de extraordinria beleza."

- Ah, era ela! - exclamou Morcerf.

- Ela, quem?

- Sim, Hayde.

- Quem lhe disse?

- Adivinho-o. Mas continue, Beauchamp, peo-lhe. Como v,
estou calmo e forte. E no entanto devemos estar a
aproximar-nos do fim.

- O Sr. de Morcerf - continuou Beauchamp - olhava a mulher com
uma surpresa laivada de terror. Para ele, era a vida ou a
morte que ia sair daquela boca encantadora; para todos os
outros, era uma aventura to estranha e cheia de curiosidade
que a salvao ou a perda do Sr. de Morcerf j s entrava no
acontecimento como elemento secundrio.

"O presidente ofereceu com um gesto de mo uma cadeira 
jovem, mas ela fez sinal com a cabea que ficaria de p.
Quanto ao conde, deixara-se cair na sua poltrona e era
evidente que as pernas se recusavam a sustent-lo.

"-- Minha senhora - disse o presidente --, escreveu  comisso
para lhe dar informaes acerca do caso de Janina, e adiantou
que fora testemunha ocular dos acontecimentos.

"-- Fui-o, com efeito - respondeu a desconhecida numa voz
cheia de encantadora tristeza e dessa sonoridade
caracterstica das vozes orientais.

"-- No entanto - prosseguiu o presidente --, permita-me que
lhe diga que devia ser muito nova ento.

"-- Tinha quatro anos. Mas como os acontecimentos se revestiam
para mim de suprema importncia, nem um pormenor saiu do meu
esprito, nem uma particularidade escapou da minha memria.

"-- Mas que importncia tinham para si esses acontecimentos e
quem  a senhora, para que essa grande catstrofe lhe tenha
causado to profunda impresso?

"-- Tratava-se da vida ou da morte do meu pai - respondeu a
jovem - e chamo-me Hayde, filha de Ali-Tebelin, pax de
Janina e de Vasiliki; sua esposa bem-amada.

"O rubor, ao mesmo tempo modesto e orgulhoso, que cobriu as
faces da jovem, o fogo do seu olhar e a majestade da sua
revelao produziram na assembleia um efeito inexprimvel.

"Quanto ao conde, no ficaria mais aniquilado se um raio lhe
tivesse aberto um abismo aos ps.

"-- Minha senhora - prosseguiu o presidente, depois de se
inclinar com respeito --, permita-me uma simples pergunta, que
no  uma dvida, e que ser a ltima: pode confirmar a
autenticidade do que disse?

"-- Posso, senhor - respondeu Hayde, tirando debaixo do vu
uma bolsinha de cetim perfumado. - Aqui est a minha certido
de nascimento, redigida por meu pai e assinada pelos seus
principais oficiais, bem como a minha certido de baptismo,
pois meu pai consentiu que fosse educada na religio da minha
me, certido que o grande primaz da Macednia e do Epiro
autenticou com o seu selo, e finalmente (e isto  o mais
importante, sem dvida) o registo da venda da minha pessoa e
da pessoa da minha me ao negociante armnio El-Kobbir pelo
oficial francs que, no seu infame negcio com a Porta,
reservara para si, como parte na pilhagem, a filha e a mulher
do seu benfeitor, que vendeu por mil bolsas, isto , por cerca
de quatrocentos mil francos.

"Uma palidez esverdeada invadiu as faces do conde de Morcerf
e os seus olhos injectaram-se de sangue ao ouvir aquelas
acusaes terrveis, que a assembleia acolheu com lgubre
silncio.

"Hayde, sempre calma, mas muito mais ameaadora na sua calma
do que outra o seria na sua clera, estendeu ao presidente o
registo da venda, redigido em lngua rabe.

"Como, se pensara que algumas das provas produzidas fossem
redigidas em rabe, romaico ou turco, o intrprete da Cmara
fora convocado. Chamaram-no. Um dos nobres pares a quem a
lngua rabe, que aprendera durante a sublime campanha do
Egipto, era familiar seguiu no velino a leitura que o tradutor
fez em voz alta: "Eu, El-Kobbir, negociante de escravos e
fornecedor do harm, de S. M., reconheo ter recebido para a
remeter ao sublime imperador, do senhor francs conde de
Monte-Cristo, uma esmeralda avaliada em duas mil bolsas, para
pagamento de uma jovem escrava crist de onze anos de idade,
chamada Hayde  e filha reconhecida do defunto Sr.
Ali-tebelin, pax de Janina, e de Vasiliki, sua favorita; a
qual me fora vendida h sete anos, com sua me, que morreu ao
chegar a Constantinopla, por um coronel francs ao servio do
vizir Ali-Tebelin, chamado Fernand Mondego. A supracitada
venda fora-me feita por conta de S. M., de quem tinha mandato,
mediante a quantia de mil bolsas. Feito em Constantinopla, com
autorizao de S.M., no ano de 1247 da hgira. Assinado,
EL-KOBBIR. Para lhe dar toda a f, todo o crdito e toda a
autenticidade, o presente documento ser autenticado com o
selo imperial, que o vendedor se obriga a que lhe seja
aposto."

"Depois da assinatura do negociante, via-se efectivamente o
selo do sublime imperador.

"Seguiu-se a tudo isto um silncio terrvel. O conde j s
tinha olhos, e esses olhos, presos, mal-grado seu, a Hayde,
pareciam de lume e de sangue.

"-- Minha senhora, poderemos interrogar o conde de
Monte-Cristo, que se encontra em Paris consigo, segundo
creio?
- perguntou o presidente.

"-- Senhor - respondeu Hayde --, o conde de Monte-Cristo,
meu outro pai, est na Normandia h trs dias.

"-- Mas ento, minha senhora, quem lhe aconselhou esta
diligncia, que a comisso lhe agradece e que, alis, 
perfeitamente natural em face do seu nascimento e dos seus
infortnios? - perguntou o presidente.

"-- Senhor - respondeu Hayde --, esta diligncia foi-me
aconselhada pelo meu respeito e pela minha dor. Apesar de
crist, sempre pensei (Deus me perdoe!) vingar o meu ilustre
pai. Ora, quando pus os ps em Frana, quando soube que o
traidor morava em Paris, os meus olhos e os meus ouvidos
ficaram constantemente abertos. Vivo retirada em casa do meu
nobre protector, mas vivo assim porque gosto da sombra e do
silncio, que me permitem entregar-me aos meus pensamentos e
ao meu recolhimento. Mas o Sr. Conde de Monte-Cristo
rodeia-me de cuidados paternais e nada do que constitui a vida
social me  estranho; apenas lhe aceito o rudo distante.
Assim, leio todos os jornais, tal como me enviam todos os
lbuns e recebo todas as melodias. E foi acompanhando, sem
nela interferir, a vida dos outros, que soube o que se passou
esta manh na Cmara dos Pares e o que se deveria passar esta
tarde... Ento, escrevi.

"-- Portanto - perguntou o presidente --, o Sr. Conde de
Monte-Cristo no tem nada a ver com a sua diligncia?

"-- Ignora-a completamente, senhor, e o meu nico receio  que
a desaprove quando o souber. No entanto, este foi um belo dia
para mim - continuou a jovem, erguendo ao cu um olhar ardente
como uma chama --, por ser aquele em que tive finalmente
ensejo de vingar o meu pai.

"Durante todo este tempo o conde no pronunciara uma s
palavra. Os seus colegas olhavam-no e sem dvida lamentavam
aquele xito destrudo pelo sopro perfumado de uma mulher. A
sua desventura inscrevia-se-lhe pouco a pouco em caracteres
sinistros no rosto.

"-- Sr. de Morcerf - perguntou o presidente --, reconhece esta
senhora como filha de Ali-Tebelin, paxa de Janina?

"-- No - respondeu Morcerf, fazendo um esforo para se
levantar. - Trata-se de uma trama urdida pelos meus inimigos.

"Hayde, que tinha os olhos fixos na porta, como se esperasse
algum, virou-se bruscamente e, encontrando o conde de p,
soltou um grito terrvel.

"-- No me reconheces - disse. - Pois eu reconheo-te,
felizmente! s Fernand Mondego, o oficial francs que entregou
as tropas do meu nobre pai. Foste tu que entregaste os
castelos de Janina! Foste tu que, enviado por ele a
Constantinopla para negociares directamente com o imperador a
vida ou a morte do teu benfeitor, trouxeste um falso firmo
que lhe concedia perdo completo! Foste tu que, com esse
firmo, obtiveste o anel do pax que te devia proporcionar a
obedincia de Selim, o guarda do fogo! Foste tu que
apunhalaste Selim! Foste tu que nos vendeste, a minha me e a
mim, ao negociante El-Kobbir! Assassino! Assassino!
Assassino! Ainda tens na testa o sangue do teu senhor! Vejam
todos!

"Estas palavras foram proferidas com tal acento de verdade
que todos os olhos se viraram para a testa do conde, e ele
prprio levou l a mo, como se sentisse, ainda tpido, o
sangue de Ali.

"-- Reconhece portanto concretamente o Sr. de Morcerf como
sendo o prprio oficial Fernand Mondego?

"-- Se reconheo! - gritou Hayde. -  minha me, tu
disseste-me: "Eras livre, tinhas um pai que amavas, estavas
destinada a ser quase uma rainha! Olha bem aquele homem, foi
ele que te fez escrava, foi ele que levou na ponta de um pique
a cabea do teu pai, foi ele que nos vendeu, foi ele que nos
entregou. Se esqueceres o seu rosto, reconhec-lo-s por
aquela mo, na qual caram uma a uma as moedas de ouro do
negociante El-Kobbir!" Sim, reconheo-o! Ele prprio que diga
agora se me no reconhece.

"Cada palavra caa como um cutelo sobre Morcerf e cortava uma
parcela da sua energia. Quando ouviu as ltimas, escondeu
vivamente no peito, mal-grado seu, a mo mutilada por um
ferimento e voltou a cair na sua poltrona, mergulhado num
sombrio desespero.

"Esta cena fizera turbilhonar os espritos da assembleia, tal
como vemos correr as folhas soltas do tronco das rvores
arrastadas pelo vento poderoso do norte.

"-- Sr. Conde de Morcerf - disse o presidente --, no se deixe
abater, responda. A justia do tribunal  suprema e igual para
todos, como a de Deus. Ela no o deixar esmagar pelos seus
inimigos sem lhe dar os meios de os combater.
Quer que se proceda a novos inquritos? Quer que mande dois
membros da Cmara a Janina? Fale!

"Morcerf no respondeu.

"Ento, todos os membros da comisso se entreolharam com uma
espcie de terror. Conheciam o temperamento enrgico e
violento do conde; s uma terrvel prostrao poderia anular a
defesa daquele homem; enfim, era mister pensar que quele
silncio, que se assemelhava ao sono, sucederia um despertar
que se assemelharia ao raio.

"-- Ento, que decide? -- insistiu o presidente.

"-- Nada! - respondeu o conde em voz abafada, levantando-se.

"-- Portanto, o que a filha de Ali-Tebelin declarou 
realmente a verdade? Ela  realmente a testemunha terrvel a
quem, como sempre acontece, o culpado no ousa responder NO?
O senhor praticou realmente todos os actos de que o acusam? -
perguntou o presidente.

"O conde lanou  sua volta um olhar cuja expresso
desesperada comoveria tigres, mas que no podia desarmar
juzes. Depois, levantou os olhos para a abbada e desviou-os
imediatamente, como se receasse que ela se abrisse e
fizesse resplandecer esse segundo tribunal chamado Cu, esse
outro juiz chamado Deus.

"Ento, num movimento brusco, arrancou os botes da
sobrecasaca fechada que o sufocava e saiu da sala como um
pobre louco. Por instantes os seus passos ecoaram lugubremente
debaixo da abbada sonora e pouco depois o rodar da carruagem
que o transportava a galope fez estremecer o prtico do
edifcio florentino.

"-- Senhores - perguntou o presidente quando o silncio se
restabeleceu --, o Sr. Conde de Morcerf  reconhecido culpado
de felonia traio e indignidade?

"-- ! - responderam em unssono os membros da comisso de
inqurito.

"Hayde assistiu at ao fim  sesso e ouviu pronunciar a
sentena do conde sem que um s msculo do seu rosto
exprimisse alegria ou compaixo.

"Ento, puxou o vu para a cara, cumprimentou majestosamente
os conselheiros e saiu com o passo com que Virglio via
caminhar as deusas."


Captulo LXXXVII

A provocao


- Ento - continuou Beauchamp - aproveitei o silncio e a
obscuridade da sala para sair sem ser visto. O contnuo que me
introduzira esperava-me  porta. Conduziu-me atravs dos
corredores at uma portinha que dava para a Rua de Vaugirard e
sa com a ahlia simultaneamente amargurada e deslumbrada
perdoe-me a expresso, Albert. Amargurada por sua causa, meu
amigo, deslumbrada pela nobreza daquela rapariga, que colocara
acima de tudo a vingana paterna. Sim, juro-lhe, Albert, seja
qual for a origem daquela revelao, estou convencido de que,
embora possa ser obra de um inimigo, esse inimigo foi apenas
um agente da Providncia.
Albert segurava a cabea entre as mos. Levantou o rosto rubro
de vergonha e banhado em lgrimas, agarrou num brao de
Beauchamp e disse-lhe:
-Amigo, a minha vida terminou. Resta-me, no dizer como voc,
que a Providncia me vibrou o golpe, mas sim descobrir qual o
homem que me persegue com a sua inimizade. Depois, quando o
encontrar, matarei esse homem, ou esse homem matar-me-. Conto
com a sua amizade para me ajudar. Beauchamp, se o desprezo
ainda a no matou no seu corao.
-O desprezo, meu amigo? Porque havia de ser atingido por essa
infelicidade? No! Graas a Deus j no estamos no tempo em
que um preconceito injusto tornava os filhos responsveis
pelos actos dos pais. Reveja toda a sua vida, Albert; data de
ontem,  certo, mas alguma vez a aurora de um belo dia foi
mais pura do que o seu oriente'' No, Albert, acredite. Voc 
jovem,  rico, deixe a Frana. Tudo se esquece depressa nesta
grande Babilnia, na existncia a~itada e nos gostos
inconstantes. Voltar dentro de trs ou quatro anos, depois de
casar com alguma princesa russa, e ningum j se lembrar do
que se passou ontem, e com mais forte razo do que se passou
h dezasseis anos.


744
ALEXANDRE DUMAS
-Obrigado, meu caro Beauchamp, obrigado pela excelente
inteno que lhe dita essas palavras, mas no pode ser assim.
Disse-lhe qual era o meu desejo, e agora, se for preciso,
trocarei a palavra desejo pela palavra vontade. Como deve
comprcender, interessado como sou no caso, no posso ver as
coisas do mesmo modo que voc. O que a si parece provir de uma
fonte celeste, parece-me a mim brotar de uma tonte menos pura.
A Providncia parece-me, contesso-lhe, muito estranha a tudo
isto, e ainda bem, porque assim, em vez do invisvel e do
impalpvel mensageiro das recompensas e dos castigos celestes,
encontrarei U111 ser palpvel e visvel no qual me vingarei.
Oh, sim, juro-lho, por tudo o que sofro h um ms! Agora
repito-lhe, Beauchamp, tenho de reentrar na vida humana e
material, e se  ainda meu amigo como diz, ajude-me a
encontrar a mo que desferiu o golpe.
-Seja!-respondeu Beauchamp.-Se quer absolutamente que desa 
terra, descerei; se quer ir em busca de um inimigo, irei
consigo. E encontr-lo-ei, porque a minha honra tem quase
tanto interesse como a sua em que o encontremos.
-Nesse caso, Beauchamp, comecemos agora mesmo, sem demora, as
nossas investigac,es. Cada minuto de espera  uma eternidade
para mim. O denuneiante ainda no foi punido e pode portanto
esperar no o ser. Mas, pela minha honra, se o espera,
engana-se!
-Escute o que lhe vou dizer, Morcert:
-Ah, Beauchamp, vejo que sabe alguma coisa!... Isso  o mesmo
que restituir-me a vida.
-No garanto que seja verdade, Albert, mas  pelo menos uma
luz na noite. Seguindo essa luz, talvez ela nos conduza ao
objectivo.
-Diga! Bem v que ardo de impacincia.
-Pois bem, vou-lhe contar o que lhe no quis dizer no regresso
de Janina.
-Fale.
-Eis o que se passou, Albert: muito naturalmente, procurei o
primeiro banqueiro da cidade para obter informaes. Mal me
referi ao caso, ainda antes do nome do seu pai ser
pronunciado, disse-me ele:
"-Ah, muito bem, adivinho o que o traz por c!...
"-Como assim? Porqu?
"-Porque apenas h quinze dias fui interrogado sobre o mesmo
assunto.
"-Por quem?
"-Por um banqueiro de Paris, meu correspondente.
"-Chamado?
"-Sr. Danglars."
-Ele!-exclamou Albert.-Com efeito,  ele que h muito tempo
persegue o meu pobre pai com o seu dio invejoso; ele, o homem
pretensamente popular, que no pode perdoar ao conde de
Morcerf ser par de Frana. E, veja, aquele rompimento de
casamento sem motivo declarado... Sim,  isso!
-Informe-se, Albert, mas no perca a cabea antecipadamente.
Informe-se, repito-lhe, e se for verdade...
-Oh, sim, se for verdade... pagar-me- tudo o que tenho
sofrido!-exclamou o jovem.
-Cautela, Morcerf, lembre-se de que  um homem j velho.

Captulo LXXXVII

A provocao


- Ento - continuou Beauchamp - aproveitei o silncio e a
obscuridade da sala para sair sem ser visto. O contnuo que me
introduzira esperava-me  porta. Conduziu-me atravs dos
corredores at uma portinha que dava para a Rua de Vaugirard e
sa com a alma simultaneamente amargurada e deslumbrada
perdoe-me a expresso, Albert. Amargurada por sua causa, meu
amigo, deslumbrada pela nobreza daquela rapariga, que colocara
acima de tudo a vingana paterna. Sim, juro-lhe, Albert, seja
qual for a origem daquela revelao, estou convencido de que,
embora possa ser obra de um inimigo, esse inimigo foi apenas
um agente da Providncia.

Albert segurava a cabea entre as mos. Levantou o rosto rubro
de vergonha e banhado em lgrimas, agarrou num brao de
Beauchamp e disse-lhe:

- Amigo, a minha vida terminou. Resta-me, no dizer como voc,
que a Providncia me vibrou o golpe, mas sim descobrir qual o
homem que me persegue com a sua inimizade. Depois, quando o
encontrar, matarei esse homem, ou esse homem matar-me-. Conto
com a sua amizade para me ajudar. Beauchamp, se o desprezo
ainda a no matou no seu corao.

- O desprezo, meu amigo? Porque havia de ser atingido por essa
infelicidade? No! Graas a Deus j no estamos no tempo em
que um preconceito injusto tornava os filhos responsveis
pelos actos dos pais. Reveja toda a sua vida, Albert; data de
ontem,  certo, mas alguma vez a aurora de um belo dia foi
mais pura do que o seu oriente? No, Albert, acredite. Voc 
jovem,  rico, deixe a Frana. Tudo se esquece depressa nesta
grande Babilnia, na existncia agitada e nos gostos
inconstantes. Voltar dentro de trs ou quatro anos, depois de
casar com alguma princesa russa, e ningum j se lembrar do
que se passou ontem, e com mais forte razo do que se passou
h dezasseis anos.

- Obrigado, meu caro Beauchamp, obrigado pela excelente
inteno que lhe dita essas palavras, mas no pode ser assim.
Disse-lhe qual era o meu desejo, e agora, se for preciso,
trocarei a palavra desejo pela palavra vontade. Como deve
compreender, interessado como sou no caso, no posso ver as
coisas do mesmo modo que voc. O que a si parece provir de uma
fonte celeste, parece-me a mim brotar de uma fonte menos pura.
A Providncia parece-me, confesso-lhe, muito estranha a tudo
isto, e ainda bem, porque assim, em vez do invisvel e do
impalpvel mensageiro das recompensas e dos castigos celestes,
encontrarei um ser palpvel e visvel no qual me vingarei. Oh,
sim, juro-lho, por tudo o que sofro h um ms! Agora
repito-lhe, Beauchamp, tenho de reentrar na vida humana e
material, e se  ainda meu amigo como diz, ajude-me a
encontrar a mo que desferiu o golpe.

- Seja! - respondeu Beauchamp. - Se quer absolutamente que
desa  terra, descerei; se quer ir em busca de um inimigo,
irei consigo. E encontr-lo-ei, porque a minha honra tem quase
tanto interesse como a sua em que o encontremos.

- Nesse caso, Beauchamp, comecemos agora mesmo, sem demora, as
nossas investigaes. Cada minuto de espera  uma eternidade
para mim. O denunciante ainda no foi punido e pode portanto
esperar no o ser. Mas, pela minha honra, se o espera,
engana-se!

- Escute o que lhe vou dizer, Morcerf.

- Ah, Beauchamp, vejo que sabe alguma coisa!... Isso  o mesmo
que restituir-me a vida.

- No garanto que seja verdade, Albert, mas  pelo menos uma
luz na noite. Seguindo essa luz, talvez ela nos conduza ao
objectivo.

- Diga! Bem v que ardo de impacincia.

- Pois bem, vou-lhe contar o que lhe no quis dizer no
regresso de Janina.

- Fale.

- Eis o que se passou, Albert: muito naturalmente, procurei o
primeiro banqueiro da cidade para obter informaes. Mal me
referi ao caso, ainda antes do nome do seu pai ser
pronunciado, disse-me ele:

"-- Ah, muito bem, adivinho o que o traz por c!...

"-- Como assim? Porqu?

"-- Porque apenas h quinze dias fui interrogado sobre o mesmo
assunto.

"-- Por quem?

"-- Por um banqueiro de Paris, meu correspondente.

"-- Chamado?

"-- Sr. Danglars."

- Ele! - exclamou Albert. - Com efeito,  ele que h muito
tempo persegue o meu pobre pai com o seu dio invejoso; ele, o
homem pretensamente popular, que no pode perdoar ao conde de
Morcerf ser par de Frana. E, veja, aquele rompimento de
casamento sem motivo declarado...
Sim,  isso!

- Informe-se, Albert, mas no perca a cabea antecipadamente.
Informe-se, repito-lhe, e se for verdade...

- Oh, sim, se for verdade... pagar-me- tudo o que tenho
sofrido! - exclamou o jovem.

- Cautela, Morcerf, lembre-se de que  um homem j
velho.

-  Olharei  sua idade tanto como ele olhou  honra da minha
famlia. Se queria mal ao meu pai, porque no o atacou cara a
cara? Oh, no, ele tem medo de se encontrar diante de um
homem!

- Albert, no o condeno, estou apenas a aconselh-lo: ande com
prudncia.

- Oh, no tenha medo! De resto, acompanhar-me-, Beauchamp. As
coisas solenes devem ser tratadas diante de testemunhas. Antes
do fim deste dia, se o Sr. Danglars for culpado, o Sr.
Danglars deixar de viver ou eu estarei morto. Por Deus,
Beauchamp, quero fazer um lindo funeral  minha honra!

- Sendo assim, quando se tomam semelhantes resolues, Albert,
 necessrio p-las imediatamente em prtica. Quer ir a casa
do Sr. Danglars? A caminho.

Mandaram chamar um cabriol de praa. Quando entraram no
palcio do banqueiro, viram o feton e o criado do Sr. Andrea
Cavalcanti  porta.

- Calha bem - declarou Albert com voz sombria. - Se o Sr.
Danglars no se quiser bater comigo, matar-lhe-ei o genro.
Decerto um Cavalcanti no recusar bater-se...

Anunciaram o jovem ao banqueiro, o qual, ao ouvir o nome de
Albert e sabendo o que se passara na vspera, recusou
receb-lo. Mas era demasiado tarde, pois o jovem seguira o
lacaio e, ao ouvir a ordem dada, forou a entrada, seguido de
Beauchamp, at ao gabinete do banqueiro.

- Que  isto?! - protestou este. - J no sou senhor de
receber em minha casa quem quero e de no receber quem no
quero? Parece-me que o esquece, estranhamente...

- No, senhor - redargui u Albert com frieza. - Mas h
circunstancias, e o senhor encontra-se numa delas, em que
devemos, a no ser que sejamos cobardes, e no tenho dvida em
oferecer-lhe esse refgio, estar em casa pelo menos para
certas pessoas.

- Mas que me quer o senhor?

- Quero - respondeu Morcerf, aproximando-se sem parecer
reparar em Cavalcanti, que estava encostado  chamin --,
quero propor-lhe um encontro num canto discreto, onde ningum
nos incomodar durante dez minutos... No lhe peo mais. Onde,
enfim, depois do encontro, desses dois homens um deles ficar
cado no cho...

Danglars empalideceu e Cavalcanti fez um movimento.
Ento, Albert virou-se para o rapaz e disse:

- Oh, meu Deus, tambm pode ir, se quiser, Sr. Conde! Tem o
direito de l estar, visto ser quase da famlia, e eu concedo
encontros destes a tantas pessoas quantas os quiserem aceitar.

Cavalcanti olhou com ar estupefacto para Danglars, o qual,
fazendo um esforo, se levantou e foi colocar entre os dois
jovens. O ataque de Albert a Andrea acabava de o colocar
noutro terreno e por isso esperava que a visita de Albert
tivesse causa diferente da que supusera de incio.

- Ento, senhor - disse a Albert --, se vem aqui provocar este
senhor porque o preferi a si, previno-o de que apresentarei
queixa ao procurador rgio.

- Engana-se, senhor - redarguiu Morcerf com um sorriso sombrio
--, no me refiro de modo nenhum a esse casamento e s me
dirijo ao Sr. Cavalcanti porque me pareceu que teve por
momentos a inteno de intervir na nossa discusso. Mas no
fundo, o senhor tem razo: de facto, hoje procuro questionar
 com toda a gente. Esteja porm tranquilo, Sr. Danglars,
porque a prioridade pertence-lhe.

- Senhor - respondeu Danglars, plido de clera e medo
--, previno-o de que quando tenho a pouca sorte de encontrar
no meu caminho um co raivoso, mato-o, e de que, longe de me
considerar culpado, penso ter prestado um servio  sociedade.
Ora, se o senhor est raivoso e disposto a morder-me,
previno-o de que o matarei sem piedade. Irra, tenho porventura
culpa de o seu pai estar desonrado?!

- Tem, miservel! - gritou Morcerf. - A culpa  sua!

Danglars deu um passo atrs.

- A culpa  minha?... - murmurou. -- O senhor esta louco! Que
sei eu dessa histria grega? Alguma vez viajei por esses
pases? Fui eu que aconselhei o seu pai a vender os castelos
de Janina, a trair...

- Silncio! - disse Albert em voz abalada. - No, no foi o
senhor quem directamente promoveu o escndalo e ocasionou a
desgraa, mas foi o senhor quem hipocritamente o provocou.

- Eu?!

- Sim, o senhor! Donde veio a revelao?

- Parece-me que o jornal j o disse: de Janina, com a breca!

- E quem escreveu para Janina?

- Para Janina?...

- Sim. Quem escreveu a pedir informaes acerca do meu pai?

- Parece-me que qualquer pessoa pode escrever para Janina...

- Mas s uma escreveu.

- S uma?

- Sim! E essa pessoa foi o senhor.

-- Escrevi, de facto. Parece-me que quando casamos uma filha
com um rapaz temos o direito de nos informar acerca da famlia
desse rapaz.  no s um direito, mas tambm um dever.

- O senhor escreveu sabendo perfeitamente a resposta que
receberia - replicou Albert.

- Eu? Juro-lhe - protestou Danglars, com uma convico e uma
segurana que provinham talvez menos do seu medo do que do
interesse que no fundo sentia pelo pobre rapaz --, juro-lhe
que nunca me teria passado pela cabea escrever para Janina.
Porventura conhecia a catstrofe de Ali-Pax?

- Ento algum o incitou a escrever?

- Claro.

- Incitaram-no?

- Sim.

- Quem?... Acabe... diga...

- Meu Deus, nada mais simples! Falava do passado do seu pai e
dizia que a origem da sua fortuna sempre fora obscura.
Perguntaram-me ento onde enriquecera o seu pai. Respondi: "Na
Grcia." Ento o meu interlocutor disse-me: "Pois bem, escreva
para Janina."

- E quem lhe deu esse conselho?
-Ora, ora, o conde de Monte-Cristo, seu amigo!

- O conde de Monte-Cristo disse-lhe que escrevesse para
Janina?

- Disse e eu escrevi. Quer ver a minha correspondncia? Posso
mostrar-lha.

Albert e Beauchamp entreolharam-se.

- Senhor - disse ento Beauchamp, que at ali estivera calado
--, parece-me que acusa o conde, que est ausente de Paris e
que se no pode justificar neste momento...

- Eu no acuso ningum, senhor-redarguiu Danglars conto como
as coisas se passaram e repetirei diante do Sr. Conde de
Monte-Cristo o que acabo de dizer diante dos senhores.

- E o conde sabe que resposta recebeu?

- Mostrei-lha.

- Sabia que o nome de baptismo do meu pai era Fernand e que o
seu nome de famlia era Mondego?

- Sabia, eu tinha-lho dito havia muito tempo. Quanto ao mais,
no fiz nesse caso seno o que qualquer outro faria, e at
talvez muito menos. Quando, no dia seguinte a receber a
resposta, impelido pelo Sr. Conde de Monte-Cristo, o seu pai
me veio pedir a minha filha oficialmente, recusei, como se faz
quando se quer acabar com as coisas de vez., recusei
redondamente,  verdade, mas sem explicaes, sem escndalo.
Com efeito, para que faria eu um escndalo? Em que medida a
honra ou a desonra do Sr. de Morcerf me interessava? No seria
por isso que a taxa de juro subiria ou desceria...

Albert sentiu o rubor subir-lhe  testa. No havia dvida:
Danglars defendia-se com baixeza, mas tambm com a segurana
de um homem que diz, se no toda a verdade, pelo menos parte
da verdade, no por conscincia,  certo, mas sim por terror.
Alis, que procurava Morcerf? No era a mais ou menos
culpabilidade de Danglars ou de Monte-Cristo, era um homem
que respondesse por uma ofensa ligeira ou grave, era um homem
que se batesse, e era evidente que Danglars no se bateria.

E depois, todas as coisas esquecidas ou despercebidas se
tornavam agora visveis a seus olhos ou presentes na sua
memria. Monte-Cristo sabia tudo pois tora ele que comprara a
filha de Ali-Pax. Ora, sabendo tudo, aconselhara Danglars a
escrever para Janina. Conhecida a resposta, acedera ao desejo
manifestado por Albert para ser apresentado a Hayde. Uma vez
diante dela, deixara a conversa derivar para a morte de Ali,
sem se opor  narrativa de Hayde, mas tendo sem dvida dado 
jovem, nalgumas palavras romaicas que pronunciara, instrues
que no tinham permitido a Morcerf reconhecer o pai. De resto,
no pedira ele a Morcerf que no proferisse o nome do pai
diante de Hayde? Por fim, levara Albert para a Normandia no
momento em que sabia que o grande escndalo ia rebentar. No
havia dvida a tal respeito: tudo aquilo fora calculado e sem
dvida nenhuma Monte-Cristo era conivente dos inimigos do
conde de Morcerf.

Albert levou Beauchamp para um canto e comunicou-lhe todas
estas dedues.

- Tem razo - concordou o jornalista. - O Sr. Danglars s tem
a ver com o sucedido no tocante  parte brutal e material;  a
Monte-Cristo que deve pedir uma explicao.

Albert virou-se.

- Senhor - disse a Danglars --, espero que compreenda por que
motivo me no despeo definitivamente; resta-me saber se as
suas acusaes so justas coisa de que me vou assegurar sem
demora junto do Sr. Conde de
Monte-Cristo.

E, depois de cumprimentar o banqueiro, saiu com Beauchamp, sem
parecer dar pela presena de Cavalcanti.

Danglars acompanhou-os  porta e a renovou a Albert a
afirmao de que nenhum motivo de dio pessoal o animava
contra o Sr. Conde de Morcerf.


Captulo L XXXVIII

O insulto


 porta do banqueiro, Beauchamp deteve Morcerf.

- Escute - disse-lhe --, h pouco sugeri-lhe em casa do Sr.
Danglars que era ao conde de Monte-Cristo que devia pedir uma
explicao.

-  verdade e vamos para sua casa.

- Um momento, Morcerf. Antes de irmos a casa do conde,
reflicta.

- Em que quer que reflicta?

- Na gravidade da diligncia.

-  mais grave do que vir a casa do Sr. Danglars?

- . O Sr. Danglars  um argentrio, e como no ignora, os
argentrios sabem muito bem o capital que arriscam e no se
batem facilmente. O outro, pelo contrrio,  um gentil-homem,
na aparncia, pelo menos; mas no receia encontrar um valente
debaixo da capa do gentil-homem?

- S receio uma coisa: encontrar um homem que se no bata.

- Oh, a esse respeito esteja tranquilo! - declarou Beauchamp.
- Esse bater-se-. Temo at uma coisa: que se bata demasiado
bem. Acautele-se!

- Amigo, isso  tudo o que peo - redarguiu Morcerf com um
belo sorriso. - Nada me pode tornar mais feliz do que ser
morto por meu pai; isso salvar-nos- a todos.

- Mas isso ser a morte de sua me!

- Pobre me, bem o sei! - suspirou Albert, passando a mo
pelos olhos. - Mas mais vale que morra por isso do que de
vergonha.

- Est realmente decidido, Albert?

- Estou.

-  Vamos ento! Mas acha que o encontraremos?

- Ele devia regressar algumas horas depois de mim e certamente
regressou.

Meteram-se na carruagem e mandaram seguir para a Avenida dos
Campos Elsios, n.o 30.
Beauchamp queria descer sozinho, mas Albert observou-lhe que
como o caso saia das regras habituais lhe permitia afastar-se
da etiqueta do duelo.

O jovem agia em tudo aquilo por uma causa to sagrada que
Beauchamp nada mais tinha a fazer do que submeter-se a todos
os seus desejos. Cedeu portanto a Morcerf e limitou-se a
acompanh-lo.

Albert transps apenas de um salto a distancia que ia do
cubculo do porteiro  escadaria. Foi Baptistin quem o
recebeu.

Efectivamente, o conde acabava de chegar, mas estava a tomar
banho e proibira que se recebesse quem quer que
fosse.

- Mas depois do banho? - perguntou Morcerf.

- O senhor jantar.

- E depois do jantar?

- O senhor dormir uma hora.

- E em seguida?

- Em seguida ir  pera.

- Tem a certeza? - perguntou Albert.

- Absoluta. O senhor pediu os seus cavalos para as oito horas
precisas.

- Muito bem, era tudo o que queria saber - declarou Albert.

Depois, virando-se para Beauchamp, disse-lhe:

- Se tem alguma coisa a fazer, Beauchamp, faa-a
imediatamente, e se tem algum encontro marcado para esta
noite, adie-o para amanh. Decerto compreende que conto
consigo para ir  pera. Se puder, traga-me o
Chteau-Renaud.

Beauchamp aproveitou a dispensa e deixou Albert, depois de lhe
prometer ir busc-lo s oito horas menos um quarto.

Regressado a casa, Albert preveniu Franz, Debray e Morrel de
que gostaria de os ver naquela noite na pera.

Depois foi visitar a me, que desde os acontecimentos da
vspera no recebia ningum e se conservava no seu quarto.
Encontrou a de cama, esmagada pela dor daquela humilhao
pblica.

A visita de Albert produziu em Mercds o efeito que era de
esperar: apertou a mo do filho e rompeu em soluos.

Contudo, as lgrimas aliviaram-na.

Albert permaneceu um instante de p e mudo junto da me.
Via-se pelo seu rosto plido e pelo sobrolho franzido que a
sua resoluo de vingana se arreigava cada vez mais no seu
corao.

- Minha me, conhece algum inimigo ao Sr. de Morcerf? -
perguntou Albert.

Mercds estremeceu. Notara que o jovem no dissera "ao meu
pai".

- Meu amigo - respondeu --, as pessoas na posio do conde tm
muitos inimigos que no conhecem. Alis, os inimigos que se
conhecem no so, como sabe, os mais perigosos.

- Sim, bem sei; por isso apelo para toda a sua perspiccia.
Minha me  uma mulher to superior que nada lhe escapa!

- Porque me diz isso?

- Porque a senhora notou, por exemplo, que na noite do baile
que demos o Sr. de Monte-Cristo no quis tomar nada em nossa
casa.

Mercds soergueu-se toda trmula num brao, a arder em febre.

- O Sr. de Monte-Cristo! - exclamou. - E que relao tem isso
com a pergunta que me faz?

- Como sabe, minha me, o Sr. de Monte-Cristo  quase um
homem do Oriente, e os Orientais, para conservarem toda a
liberdade de vingana, nunca comem nem bebem em casa dos seus
inimigos...

- Diz que o conde de Monte-Cristo  nosso inimigo, Albert? -
perguntou Mercds, tornando-se mais plida do que o lenol
que a cobria. - Quem lhe disse isso? Porqu?
Est louco, Albert. O Sr. de Monte-Cristo s tem tido
atenes para connosco. O Sr. de Monte-Cristo salvou-lhe a
vida, foi o senhor mesmo que no-lo apresentou. Oh, peo-lhe,
meu filho, se teve semelhante ideia,  afaste-a! E j agora
quero fazer-lhe uma recomendao, direi mais, quero fazer-lhe
um pedido: d-se bem com ele.

- Minha me - replicou o jovem, com um olhar sombrio
--, tem decerto as suas razes para me dizer que poupe esse
homem.

- Eu?! - exclamou Mercds, corando com a mesma rapidez com
que empalidecera e tornando-se quase imediatamente ainda mais
plida do que anteriormente.

- Sim, sem dvida, e essa razo - insistiu Albert -  que esse
homem nos pode fazer mal, no  verdade?

Mercds estremeceu e pousou no filho um olhar perscrutador.

- Diz-me coisas muito estranhas, Albert, e tem singulares
prevenes, parece-me... Que lhe fez o conde? Ainda h trs
dias estava com ele na Normandia, e tambm ainda h trs dias
eu o considerava, assim como o senhor, o seu melhor amigo.

Um sorriso irnico aflorou aos lbios de Albert. Mercds viu
esse sorriso, e com o seu duplo instinto de mulher e de me
adivinhou tudo. Mas prudente e forte, ocultou a sua
perturbao e os seus receios.

Albert deixou morrer a conversa; passado um instante, a
condessa reatou-a.

- Vinha perguntar-me como ia; respondo-lhe francamente, meu
amigo, que me no sinto bem. Devia instalar-se aqui, Albert, e
fazer-me companhia. Preciso de no estar s.

- Minha me, estaria s suas ordens, e bem sabe com que
prazer, se um assunto urgente e importante me no obrigasse a
deix-la durante toda a noite.

- Ah, muito bem! - respondeu Mercds com um suspiro. -  V,
Albert, no quero torn-lo de modo algum escravo da sua
piedade filial.

Albert simulou no compreender, cumprimentou a me e saiu.

Assim que o jovem fechou a porta, Mercds mandou chamar um
criado de confiana e ordenou-lhe que seguisse Albert para
toda a parte onde fosse naquela noite e que viesse inform-la
imediatamente do que visse.

Depois, tocou a chamar a criada de quarto e, por muito fraca
que estivesse, vestiu-se para estar pronta para qualquer
eventualidade.

A misso dada ao lacaio no era difcil de cumprir. Albert
regressou aos seus aposentos e vestiu-se com uma espcie de
esmero severo. Beauchamp chegou s oito horas menos dez
minutos; falara com Chteau-Renaud, o qual prometera
encontrar-se no seu lugar de orquestra antes de o pano subir.

Meteram-se ambos no cup de Albert, o qual, no tendo qualquer
motivo para ocultar aonde ia, disse em voz alta:

-  pera!

Na sua impacincia, chegou antes de o pano subir.
Chteau-Renaud encontrava-se no seu lugar. Prevenido de tudo
por Beauchamp, Albert no tinha nenhuma explicao a dar-lhe.
O comportamento dos filhos que procuram vingar o pai era to
simples que Chteau-Renaud nem sequer tentou dissuadi-lo e
limitou-se a renovar-lhe a certeza de que estava ao seu
dispor.

Debray ainda no chegara mas Albert sabia que raramente
faltava a um espectculo da pera. Albert vagueou pelo teatro
at ao subir do pano. Esperava encontrar Monte-Cristo, quer
no corredor, quer na escada. A campainha chamou-o ao seu lugar
e ele foi sentar-se nas cadeiras de orquestra, entre
Chteau-Renaud e Beauchamp.

Mas os seus olhos no largavam o camarote entre colunas, que
durante o primeiro acto pareceu obstinar-se em permanecer
fechado.

- Por fim, quando Albert consultava pela centsima vez o
relgio, no inicio do segundo acto, a porta do camarote
abriu-se e Monte-Cristo, vestido de preto, entrou e
encostou-se  balaustrada para olhar a sala. Morrel, que o
acompanhava, ps-se tambm a procurar com os olhos a irm e o
cunhado. Descobriu-os num camarote de segunda ordem e fez-lhes
sinal.

Ao dar uma vista de olhos circular pela sala, o conde
descobriu uma cara plida e olhos cintilantes que pareciam
querer atrair avidamente os seus. Reconheceu Albert, mas a
expresso que notou naquele rosto transtornado aconselhou-o
sem dvida a fazer de conta que o no vira. Sem esboar
portanto nenhum gesto que revelasse o seu pensamento,
sentou-se, tirou o binculo do estojo e apontou-o para outro
lado.

Mas, sem parecer ver Albert, o conde no o perdia de vista, e
quando o pano desceu, no fim do segundo acto, o seu golpe de
vista infalvel e seguro seguiu o jovem, que saia da plateia
acompanhado dos seus dois amigos.

Depois, a mesma cara reapareceu num camarote de primeira
ordem, defronte do seu. O conde sentia aproximar-se a
tempestade, e quando ouviu a chave girar na fechadura do seu
camarote, embora falasse nesse momento com Morrel com o seu
rosto mais risonho, o conde sabia a que se ater e estava
preparado para tudo.

A porta abriu-se.

S ento Monte-Cristo se virou e viu Albert, lvido e
trmulo, e atrs dele Beauchamp e Chteau-Renaud.

- Ora vejam, o meu cavaleiro sempre conseguiu c chegar! -
exclamou com a benevolente delicadeza que distinguia
habitualmente a sua saudao das vulgares cortesias da
sociedade. - Boas noites, Sr. de Morcerf.

E o rosto daquele homem, to singularmente senhor de si mesmo,
exprimia a mais perfeita cordialidade.

Morrel lembrou-se da carta que recebera do visconde e na qual,
sem outra explicao, este lhe pedia que fosse  pera, e
adivinhou que ia acontecer algo terrvel.

- No vimos aqui para trocar cumprimentos hipcritas ou manter
aparncias enganosas de amizade - redarguiu o jovem. - Vimos
pedir-lhe uma explicao, Sr. Conde.

A voz trmula do jovem passava-lhe a custo por entre os dentes
cerrados.

- Uma explicao na pera? - observou o conde, no tom to
calmo e num relance de olhos to penetrante, s
caractersticos do homem eternamente senhor de si mesmo. -
Apesar de pouco familiarizado com os hbitos parisienses,
nunca imaginei, senhor, que fosse aqui que as explicaes se
pedissem.

- No entanto, quando as pessoas se recusam a receber, quando
se no pode chegar at elas a pretexto de que esto no banho,
 mesa ou na cama, tem-se de as procurar onde  possvel
encontr-las - replicou Albert.

- No sou difcil de encontrar - declarou Monte-Cristo. -
Ainda ontem senhor, se me no falha a memria, o vi em minha
casa.

- Ontem, senhor - disse o jovem, cuja cabea parecia um vulco
--, estava em sua casa porque ignorava quem o senhor era!

Ao pronunciar estas palavras, Albert elevara a voz de maneira
que as pessoas sentadas nos camarotes contguos o ouvissem,
assim como as que passavam no  corredor. Por isso, as
pessoas dos camarotes viraram-se e as do corredor pararam
atrs de Beauchamp e Chteau-Renaud ao ouvirem a altercao.

- Donde diabo vem o senhor?-perguntou Monte-Cristo, sem a
menor emoo aparente. - No me parece estar em seu juzo
perfeito...

- Desde que compreenda as suas perfdeas, senhor, e que
consiga lev-lo a compreender que me quero vingar delas, 
quanto me basta para me no considerar de todo louco -
redarguiu Albert, furioso.

- Senhor, no o compreendo - replicou Monte-Cristo --, e
mesmo que o compreendesse, ainda assim o senhor estaria a
falar demasiado alto. Estou no meu camarote, senhor, e aqui s
eu tenho o direito de elevar a voz acima da dos outros. Saia,
senhor!

E Monte-Cristo indicou a porta a Albert, com um admirvel
gesto de autoridade.

- Ah, eu o obrigarei a sair da toca! - gritou Albert
amarrotando nas mos convulsas a luva, que o conde no perdia
de vista.

- Bem, bem! - exclamou fleumaticamente o conde. - J vejo que
o senhor me quer provocar. Mas um conselho, visconde, e
retenha-o bem  mau costume fazer barulho quando se provoca
algum. O barulho no  favorvel a toda a gente, Sr. de
Morcerf...

Este nome provocou um murmrio de surpresa, que passou como um
arrepio por entre aqueles que assistiam  cena.
Desde a vspera que o nome de Morcerf andava em todas as
bocas.

Melhor e primeiro que todos Albert compreendeu a aluso, e fez
um gesto para lanar a luva  cara do conde; mas Morrel
agarrou-lhe o pulso, enquanto Beauchamp e Chteau-Renaud,
receando que a cena excedesse os limites de uma provocao, o
seguravam por detrs.

Mas Monte-Cristo, sem se levantar, inclinando a cadeira,
limitou-se a estender a mo e a tirar dos dedos crispados do
jovem a luva hmida e amarrotada.

- Senhor - disse-lhe com um acento terrvel --, considero a
sua luva lanada e devolver-lha-ei enrolada numa bala. Agora
saia ou chamo os meus criados e mando p-lo l fora.

Aturdido, espantado, com os olhos injectados de sangue, Albert
deu dois passos atrs. Morrel aproveitou para fechar a porta.

Monte-Cristo voltou a pegar no binculo e ps-se a observar a
sala como se nada de extraordinrio se tivesse passado.

Aquele homem tinha um corao de bronze e um rosto de mrmore.
Morrel inclinou-se-lhe ao ouvido.

- Que lhe fez? - inquiriu.

- Eu? Nada, pelo menos pessoalmente - respondeu Monte-Cristo.

- Contudo, esta cena estranha deve ter uma causa...

- A aventura do conde de Morcerf exasperou o pobre rapaz.

- E o senhor teve alguma coisa a ver com isso?

- Foi por intermdio de Hayde que a Cmara teve conhecimento
da traio do pai.

- De facto, disseram-me, mas no quis acreditar, que a escrava
grega que tenho visto consigo neste mesmo camarote era filha
de Ali-Pax.

- No entanto,  verdade.

- Oh, meu Deus, compreendo tudo agora! - exclamou Morrel. -
Esta cena foi premeditada.

- Como?

- Sim. Albert escreveu-me a pedir-me que estivesse esta noite
na pera. Era para me tornar testemunha do insulto que lhe
queria fazer.

- Provavelmente - admitiu Monte-Cristo, com a sua
imperturbvel tranquilidade.

- Mas que far dele?

- De quem?

- De Albert!

- De Albert? - repetiu Monte-Cristo no mesmo tom. - Que farei
de Albert, Maximilien? To certo como o senhor estar aqui e eu
apertar-lhe a mo, mat-lo-ei amanh antes das dez horas da
manh. Aqui tem o que farei dele.

Morrel pegou por sua vez na mo de Monte-Cristo com as suas e
estremeceu ao sentir aquela mo fria e calma.

- Ah, conde, o pai ama-o tanto!... - murmurou.

- No me diga isso! - gritou Monte-Cristo, no primeiro
movimento de clera que deixava transparecer. - F-lo-ei
sofrer!

Morrel, estupefacto, deixou cair a mo de Monte-Cristo.

- Conde! Conde!

- Meu caro Maximilien - interrompeu-o o conde --, escute de
que forma adorvel Duprez canta esta frase: " Matilde, dolo
da minha alma!" Fui o primeiro a descobrir Duprez em Npoles e
o primeiro a aplaudi-lo. Bravo! Bravo!

Morrel compreendeu que no havia mais nada a dizer e calou-se.

O pano, que subira no fim da cena de Albert, desceu quase
imediatamente. Bateram  porta.

- Entre - disse Monte-Cristo, sem que a sua voz denota se a
menor emoo.

Apareceu Beauchamp.

- Senhor - disse a Monte-Cristo --, h pouco acompanhava,
como deve ter visto, o Sr. de Morcerf.

- O que significa - redarguiu Monte-Cristo, rindo - que
vinham provavelmente de jantar juntos. Ainda bem, Sr.
Beauchamp, que est mais sbrio do que ele.

- Senhor - disse Beauchamp --, Albert cometeu a
inconvenincia, reconheo, de se encolerizar; venho por minha
prpria conta apresentar-lhe desculpas. E agora que as
desculpas esto apresentadas (as minhas, como compreende, Sr.
Conde), quero dizer-lhe que o considero demasiado corts para
me recusar algumas explicaes acerca das suas relaes com a
gente de Janina. Depois, acrescentarei algumas palavras a
respeito dessa jovem grega.

Monte-Cristo fez com os lbios e com os olhos um sinalzinho a
recomendar silncio.

- Pronto, l esto todas as minhas esperanas destrudas! -
acrescentou rindo.

- Como assim? - perguntou Beauchamp.

- Sem dvida est mortinho por me arranjar fama de excntrico.
Em seu entender, sou um Lara, um Manfredo, um Lorde Ruthwen.
Depois, passado o  momento de me ver como um excntrico,
destri o seu tipo e tenta transformar-me num homem vulgar.
Quer-me comum, banal. Por fim, pede-me explicaes. Ento, Sr.
Beauchamp, s por piada!

- No entanto - redarguiu Beauchamp com altivez --, h ocasies
em que a probidade ordena...

- Sr. Beauchamp - interrompeu-o aquele homem estranho
--, quem d ordens ao Sr. de Monte-Cristo  o Sr. de
Monte-Cristo. Portanto, nem mais uma palavra a tal respeito,
por favor. Fao o que entendo, Sr. Beauchamp, e acredite que o
fao sempre muito bem feito.

- Senhor - respondeu o rapaz --, no se paga a pessoas
honestas nessa moeda; a honra exige garantias.

- Mas eu sou uma garantia viva - replicou Monte-Cristo,
impassvel, embora nos seus olhos brilhassem clares
ameaadores. - Temos ambos nas veias sangue que desejamos
verter;  essa a nossa garantia mtua. Leve esta resposta ao
visconde e diga-lhe que amanh, antes das dez horas, verei a
cor do dele.

- S me resta portanto - declarou Beauchamp - fixar as
condies do combate.

- Isso -me absolutamente indiferente, senhor - redarguiu o
conde. - Por to pouca coisa escusava de vir incomodar-me no
espectculo. Em Frana, as pessoas batem-se  espada ou 
pistola; nas colnias usa-se a carabina, e na Arbia, o
punhal. Diga ao seu cliente que, apesar de insultado, para ser
excntrico at ao fim, lhe deixo a escolha das armas e que
aceitarei tudo sem discusso, sem contestao. Tudo, ouviu
bem? Tudo, incluindo o combate  sorte, que  sempre estpido.
Mas comigo  diferente; tenho a certeza de ganhar.

- Tem a certeza de ganhar?... - repetiu Beauchamp, olhando o
conde com os olhos esbugalhados.

- Claro - respondeu Monte-Cristo, encolhendo ligeiramente os
ombros. - Sem isso no me bateria com o Sr. de Morcerf.
Mat-lo-ei; tem de ser e assim ser. Mande-me apenas um
bilhete a minha casa, esta noite, indicando a arma e a hora.
No gosto de me fazer esperar.

-  pistola, s oito horas da manh, no Bosque de Vincennes -
disse Beauchamp, desconcertado, sem saber se lidava com um
fanfarro insolente ou com um ser sobrenatural.

- Pronto, senhor - disse Monte-Cristo. - Agora que est tudo
tratado, deixe-me ouvir o espectculo, peo-lhe, e diga ao seu
amigo Albert que no volte c esta noite:
prejudicar-se-ia com todas as suas brutalidades de mau gosto.
Que v para casa e durma.

Beauchamp saiu de boca aberta.

- Agora, conto consigo, no  verdade? - perguntou
Monte-Cristo, virando-se para Morrel.

- Certamente - respondeu Morrel. - Pode dispor de mim, conde.
No entanto...

- O qu?

- Seria importante, conde, que eu conhecesse a verdadeira
causa...

- Quer dizer que recusa?

- No.

- A verdadeira causa, Morrel? - repetiu o conde. - Mesmo esse
rapaz caminha s cegas e no a conhece. A verdadeira causa s
eu e Deus a conhecemos.

Mas dou-lhe a minha palavra de honra, Morrel, que Deus, que a
conhece, ser por ns.

- Basta-me isso, conde - disse Morrel. - Quem  a sua segunda
testemunha?

- No conheo ningum em Paris a quem queira conceder essa
honra a no ser voc e o seu cunhado Emmanuel. Acha que
Emmanuel querer fazer-me esse favor?

- Respondo-lhe por ele como por mim, conde.

- Bom,  tudo o que preciso. Amanh s sete em minha casa,
est bem?

- L estaremos.

- E agora, silncio. O pano sobe; escutemos. Tenho o hbito de
no perder uma nota desta pera. No h msica mais adorvel
do que a do Guilherme Tell!

Captulo LXXXIX

A Noite

O Sr. de Monte-Cristo esperou, conforme era seu hbito, que
Duprez cantasse o seu famoso Segui-me! e s ento se
levantou e saiu.

 porta, Morrel deixou-o, renovando a promessa de estar em
casa dele, com Emmanuel, no dia seguinte de manh s sete
horas precisas. Em seguida o conde subiu para o seu cup,
sempre calmo e sorridente, e cinco minutos depois estava em
casa. Simplesmente, s quem no conhecesse o conde se deixaria
enganar pela expresso com que disse, ao entrar, a Ali:

- Ali, as minhas pistolas de coronha de marfim!

Ali trouxe a caixa ao amo e este ps-se a examinar as armas
com um cuidado naturalssimo num homem que ia confiar a vida a
um bocado de ferro e chumbo. Eram pistolas especiais que
Monte-Cristo mandara fazer para atirar ao alvo nos seus
aposentos. Uma cpsula bastava para expelir a bala e na
diviso ao lado ningum suspeitaria que o conde, como se diz
em termos de tiro, estava ocupado a conservar a mo.

Estava a procurar a melhor maneira de empunhar a arma e
apontar a uma chapinha metlica que lhe servia de alvo quando
a porta do gabinete se abriu e entrou Baptistin.

Mas antes mesmo de o criado abrir a boca, o conde viu  porta,
que ficara aberta, uma mulher velada, de p na penumbra da
diviso contgua, e que seguira Baptistin.

A mulher vira o conde de pistola na mo, via duas espadas em
cima de uma mesa, e no se conteve, entrou.

Baptistin consultou o amo com a vista. O conde fez-lhe um
sinal e Baptistin saiu e fechou a porta atrs de si.

- Quem  a senhora? - perguntou o conde  mulher velada.

A desconhecida olhou  sua volta, para se assegurar de
que estava efectivamente s, e depois inclinou-se, como se
fosse ajoelhar-se, juntou as mos e disse com acento de
desespero:

- Edmond, no mate o meu filho!

O conde recuou um passo, soltou um gritinho e deixou cair a
arma que empunhava.

- Que nome pronunciou, Sr.a de Morcerf? - perguntou.

- O seu! - gritou ela, deitando o vu para trs. - O seu, que
s eu talvez no tenha esquecido. Edmond, no  a Sr.a de
Morcerf que est aqui,  Mercds.

- Mercds morreu, minha senhora - replicou Monte-Cristo - e
no conheo mais ningum com esse nome.

- Mercds vive, senhor, e Mercds recorda-se, pois s ela o
reconheceu assim que o viu, e reconhec-lo-ia sem o ver, pela
sua voz, Edmond, apenas pela sua voz. E desde ento ela
segue-o passo a passo, vigia-o, teme-o e no precisou de
procurar a mo donde partiu o golpe que feriu o Sr. de
Morcerf.

- Fernand, querer dizer, minha senhora - corrigiu
Monte-Cristo com uma amarga ironia. - Uma vez que estamos em
mar de nos recordarmos dos nomes, recordemo-los todos.
Monte-Cristo pronunciou o nome de Fernand com tal expresso
de dio que Mercds sentiu um arrepio de terror percorrer-lhe
o corpo.

- Bem v, Edmond, que me no enganei e que tenho razo em
pedir-lhe: poupe o meu filho!

- E quem lhe disse, minha senhora, que quero mal ao seu filho?

- Ningum, meu Deus! Mas uma me  dotada de um sexto sentido
e adivinhei tudo. Segui-o esta noite  pera e, oculta numa
frisa, vi tudo o que se passou.

- Ento, se viu tudo, minha senhora, viu que o filho de
Fernand me insultou publicamente - disse Monte-Cristo com uma
cama terrvel.

- Oh, por piedade!

- Viu - continuou o conde - que me atiraria com a sua luva 
cara se um dos meus amigos, o Sr. Morrel, lhe no tivesse
agarrado o brao.

- Oua-me. O meu filho tambm o descobriu e atribui-lhe as
desventuras que atingem o pai.

- Minha senhora, est confundida - redarguiu Monte-Cristo. -
No se trata de desventuras, mas sim de um castigo. No sou eu
que firo o Sr. de Morcerf,  a Providncia que o pune.

- E por que motivo toma o senhor o lugar da Providncia? -
inquiriu Mercds. - Porque se lembra, quando Ela esquece? Que
lhe interessa, Edmond, Janina e o seu vizir? Que mal lhe tez
Fernand Mondego atraioando Ali-Tebelin?

- Minha senhora - respondeu Monte-Cristo --, tudo isso , de
facto, assunto entre o oficial francs e a filha de Vasiliki.
Isso no me diz respeito, tem razo, e se jurei vingar-me no
foi nem do oficial francs nem do conde de Morcerf: foi do
pescador Fernand, marido da catal Mercds.

- Ah, senhor, que terrvel vingana por uma falta que a
fatalidade me fez cometer! - gritou a condessa. - Porque a
culpada sou eu, Edmond, e se tem de se vingar de algum,  de
mim, que no tive coragem para suportar a sua ausncia e o meu
isolamento.

- Mas a que se devia a minha ausncia? A que se devia o seu
isolamento? - perguntou Monte-Cristo.

- A terem-no prendido, Edmond, a terem-no
encarcerado...

- E porque fui preso, porque fui encarcerado?

- Ignoro-o - respondeu Mercds.

- Sim, ignora-o, minha senhora, tenho pelo menos essa
esperana... Pois bem, vou elucid-la! Fui preso e encarcerado
porque debaixo do caramancho da Rserve, na vspera do dia em
que devia casar consigo, um homem chamado Danglars escreveu
esta carta, que o pescador Fernand se encarregou de pr
pessoalmente no correio.

E Monte-Cristo dirigiu-se para a sua secretria, abriu uma
gaveta e tirou um papel que perdera a cor primitiva e cuja
tinta se tornara cor de ferrugem, papel que ps diante dos
olhos de Mercds.

Era a carta de Danglars ao procurador rgio que no dia em que
pagara os duzentos mil francos ao Sr. de Boville o conde de
Monte-Cristo, disfarado de mandatrio da casa de Thomson 
French, subtrara do processo de Edmond Dants.
Mercds leu aterrada as seguintes linhas:

O Sr. Procurador Rgio  avisado por um amigo do trono e da
religio de que um tal Edmond Dants, imediato do navio
Pharaon, chegado esta manh de Esmirna depois de escalar
Npoles e Porto Ferraio, foi encarregado por Murat de entregar
uma carta ao usurpador e pelo usurpador de entregar outra
carta ao comit bonapartista de Paris.

Ter-se- a prova do seu crime prendendo-o, pois
encontrar-se- essa carta com ele ou em casa do pai, ou no seu
camarote a bordo do Pharaon.

- Oh, meu Deus! - exclamou Mercds, passando a mo pela testa
coberta de suor. - E esta carta...

- Comprei-a por duzentos mil francos, minha senhora -
respondeu Monte-Cristo. - Mas foi bom negcio, pois
permite-me hoje justificar-me aos olhos da senhora.

- E o resultado desta carta?

- Sabe-o muito bem, minha senhora: foi a minha priso. Mas o
que no sabe, minha senhora, foi o tempo que a minha priso
durou. O que a senhora no sabe  que fiquei catorze anos a um
quarto de lgua de si, numa cela do Castelo de If. O que a
senhora no sabe  que em cada dia desses catorze anos renovei
o voto de vingana que fizera no primeiro dia, embora ento
ignorasse que a senhora casara com Fernand, meu denunciante, e
que o meu pai morrera e morrera de fome!

- Santo Deus! - exclamou Mercds, cambaleando.

- Mas foi tudo isto que soube quando sa da priso, catorze
anos depois de l ter entrado, e foi isto que me levou a
jurar, por Mercds viva e pelo meu pai morto, vingar-me de
Fernand... e vingo-me!

- E tem a certeza de que o desventurado Fernand fez isso?

- Juro-lhe pela minha alma, senhora, que fez como acabo de lhe
dizer. De resto, isso no  muito mais odioso do que, sendo
francs de adopo, ter-se passado para os Ingleses; espanhol
de nascimento, ter combatido contra os Espanhis;
estipendirio de Ali, t-lo trado e assassinado. Perante
isto, que vale a carta que acaba de ler? No passa de uma
mistificao galante que deve perdoar, reconheo-o e
compreendo-o, a mulher que casou com esse homem,
mas que no perdoa o apaixonado que havia de casar com ela.
Pois bem, os Franceses no se vingaram do traidor, nem os
Espanhis o fuzilaram, e Ali, na sua sepultura, deixou a
traio impune. Mas eu, trado, assassinado, lanado tambm
numa sepultura, eu sa dessa sepultura pela graa de Deus e
devo a Deus poder-me vingar. Deus enviou-me para isso e aqui
estou.

A pobre mulher deixou cair a cabea entre as mos; as pernas
dobraram-se-lhe e caiu de joelhos.

- Perdoe, Edmond - suplicou. - Perdoe por mim, que ainda o
amo!

A dignidade da esposa conteve o impulso da amante e da me. A
sua fronte inclinou-se quase a tocar o tapete.

O conde correu para ela e levantou-a.

Ento, sentada numa poltrona, pde, atravs das lgrimas,
olhar o rosto msculo de Monte-Cristo, no qual a dor e o dio
imprimiam ainda um carcter ameaador.

- Que no esmague essa raa maldita! - murmurou ele. - Que
desobedea a Deus, que me escolheu para os punir!
Impossvel, minha senhora, impossvel!

- Edmond - suplicou a pobre me, tentando tudo. - Meu Deus, se
o trato por Edmond, porque me no trata por Mercds?

- Mercds - repetiu Monte-Cristo --, Mercds... Sim, tem
razo, ainda gosto de pronunciar esse nome e  a primeira vez
h muito tempo que ele soa to claramente ao sair-me dos
lbios. Oh, Mercds, pronunciei o seu nome com suspiros de
melancolia, com gemidos de dor, com o estertor do desespero!
Pronunciei-o gelado pelo frio, encolhido na palha da minha
cela. Pronunciei-o devorado pelo calor, robolando-me nas lajes
da minha priso. Mercds, tenho de me vingar, porque sofri
durante catorze anos e catorze anos chorei e amaldioei.
Agora, repito-lhe, Mercds, tenho de me vingar!

E o conde, receando ceder s splicas daquela que tanto amara,
chamava as suas recordaes em auxlio do seu dio.

- Vingue-se, Edmond, mas vingue-se nos culpados! - gritou a
pobre me. - Vingue-se nele, vingue-se em mim, mas no se
vingue no meu filho!

- Est escrito no Livro Sagrado - respondeu Monte-Cristo -
que "os pecados dos pais recairo sobre os filhos at 
terceira e quarta gerao". Se Deus ditou estas palavras ao
seu profeta, porque seria eu melhor do que Deus?

- Porque Deus possui o tempo e a eternidade, duas coisas que
escapam aos homens.

Monte-Cristo soltou um suspiro que parecia um rugido e puxou
os cabelos com ambas as mos.

- Edmond - continuou Mercds, com os braos estendidos para o
conde - Edmond, desde que o conheci que adorei o seu nome e
respeitei a sua memria. Edmond, meu amigo, no me obrigue a
embaciar essa imagem nobre e pura reflectida constantemente no
espelho do meu corao. Edmond, se soubesse todas as preces
que tenho dirigido a Deus por si enquanto o esperei vivo e
desde que o julguei morto... sim, morto, infelizmente! Julguei
o seu cadver sepultado no fundo de alguma torre sombria;
julguei o seu corpo precipitado no fundo de algum desses
abismos para onde os carcereiros deixam rolar os prisioneiros
mortos e chorei! Que podia fazer por si, Edmond, seno rezar e
chorar? Oua-me: durante dez anos tive todas as noites o mesmo
sonho. Disseram que tinha  fugido, que tomara o lugar de um
prisioneiro, que se metera na mortalha de um morto e que
tinham lanado o cadver vivo do alto do Castelo de If. E que
o grito que soltara ao esmagar-se nos rochedos fora a nica
coisa que revelara a substituio aos seus coveiros,
transformados em carrascos. Pois bem, Edmond, juro-lhe pela
cabea do filho por quem imploro que durante dez anos vi todas
as noites homens balanarem qualquer coisa informe e
desconhecida no alto de um rochedo, durante dez anos ouvi
todas as noites um grito terrvel que me acordou tiritante e
gelada. E tambm eu, Edmond, acredite-me, por mais criminosa
que fosse... oh, sim, tambm eu sofri muito!

- Sentiu morrer o seu pai na sua ausncia? - perguntou
Monte-Cristo metendo as mos nos cabelos. - Viu a mulher que
amava estender a mo ao rival, enquanto arquejava no fundo do
abismo?...

- No! - interrompeu-o Mercds. - Mas vi aquele que amava
prestes a tornar-se o assassino do meu filho!

Mercds proferiu estas palavras com uma dor to pungente, num
tom to desesperado, que um soluo dilacerou a garganta do
conde ao ouvi-la.

O leo estava domado, o vingador estava vencido.

- Que deseja? - perguntou. - Que o seu filho viva? Pois bem,
viver!

Mercds soltou um grito que fez brotar duas lgrimas dos
olhos de Monte-Cristo, mas essas duas lgrimas desapareceram
quase imediatamente, pois sem dvida Deus enviou algum anjo
para as recolher, visto serem muito mais preciosas aos olhos
do Senhor do que as mais ricas prolas de Guzarate e Ofir.

- Obrigada, obrigada, Edmond! - exclamou ela, pegando na mo
do conde e levando-a aos lbios. - Agora, sim, s bem como
sempre te sonhei, como sempre te amei! Oh, agora posso
diz-lo!

- Tanto melhor - redarguiu Monte-Cristo --, pois o pobre
Edmond no ter muito tempo para ser amado pela senhora. A
morte vai regressar ao tmulo, o fantasma vai desaparecer na
noite.

- Que diz, Edmond?

- Digo que, j que assim o ordena, Mercds, tenho de morrer.

- Morrer?... E quem  que disse isso? Quem fala em morrer?
Donde lhe vm essas ideias de morte?

- Decerto no supe que, ultrajado publicamente diante de toda
uma sala, na presena dos seus amigos e dos amigos do seu
filho, provocado por uma criana que se vangloriar do meu
perdo como de uma vitria... no supe, decerto, repito, que
eu tenha um instante o desejo de viver? O que mais amo depois
de si, Mercds,  a minha prpria pessoa, isto , a minha
dignidade, essa fora que me tornava superior aos outros
homens. Essa fora era a minha vida. Com uma palavra, a
senhora destruiu-a. Morro.

- Mas esse duelo no se realizar, Edmond, uma vez que
perdoa...

- Realizar-se-, minha senhora - replicou solenemente
Monte-Cristo. - Apenas, em vez de a terra beber o sangue do
seu filho, ser o mel que correr.

Mercds soltou um grande grito e correu para Monte-Cristo.
Mas deteve-se de sbito.

- Edmond - disse --, h um Deus acima de ns, uma vez que o
senhor vive, uma vez que o tornei a ver, e confio-me a Ele do
mais ntimo do meu corao. Enquanto aguardo o Seu auxlio,
confio na palavra que me deu. Disse que o meu filho viveria;
viver, no  verdade?

- Viver, sim, minha senhora - respondeu Monte-Cristo,
surpreendido que, sem outra exclamao, sem outra surpresa,
Mercds tivesse aceitado o sacrifcio herico que lhe fazia.
Mercds estendeu a mo ao conde.

- Edmond - disse, enquanto os olhos se lhe cobriam de lgrimas
e fitava aquele a quem dirigia a palavra --, como  belo da
sua parte, como  grande o que acaba de fazer, como  sublime
ter tido piedade de uma pobre mulher que se lhe apresentava
com todas as probabilidades contrrias s suas esperanas!
Infelizmente, os desgostos envelheceram-me mais do que a idade
e nem sequer posso recordar ao meu Edmond, por um sorriso, por
um olhar, a Mercds que noutros tempos ele passou tantas
horas a contemplar. Acredite, Edmond, que, como lhe disse,
tambm sofri muito. Repito-lhe que  deveras lgubre ver
passar a vida sem recordar uma nica alegria, sem conservar
uma nica esperana. Mas isso prova que nem tudo acaba na
Terra. No! Nem tudo acaba, sinto-o pelo que me resta ainda no
corao. oh, repito-lhe, Edmond,  belo,  grande,  sublime
perdoar como acaba de perdoar.

- Diz isso, Mercds, mas que diria se soubesse a extenso do
sacrifcio que lhe fao? Suponha que o Senhor Supremo, depois
de ter criado o mundo, depois de ter fertilizado o caos, se
tivesse detido num tero da criao para poupar a um anjo as
lgrimas que os nossos crimes deveriam fazer correr um dia dos
seus olhos imortais; suponha que depois de ter tudo preparado,
tudo moldado e tudo fecundado, no momento de admirar a sua
obra, Deus extinguisse o Sol e repelisse com o p o mundo,
mergulhando-o na noite eterna... ento faria uma ideia, ou
antes, no, no poderia fazer ainda uma ideia do que perco
perdendo a vida neste momento.

Mercds; fitou o conde com um ar em que transparecia ao mesmo
tempo a sua surpresa, a sua admirao e o seu reconhecimento.

Monte-Cristo apoiou a fronte nas mos escaldantes, como se a
sua fronte j no pudesse suportar sozinha o peso dos seus
pensamentos.

- Edmond - disse Mercds --, tenho apenas mais uma palavra a
dizer-lhe.

O conde sorriu amargamente.

- Edmond - continuou ela --, ter oportunidade de ver que se a
minha fronte est plida, os meus olhos sem brilho e a minha
beleza murcha; que se esta Mercds j s se parece com a
outra pelos traos do rosto... ainda assim, ver, continua a
ter o mesmo corao! Adeus, Edmond. J no tenho nada a pedir
ao cu... Tornei a v-lo to nobre e to grande como dantes.
Adeus, Edmond... adeus e obrigada!

Mas o conde no respondeu.

Mercds abriu a porta do gabinete e desapareceu antes de ele
sair do seu alheamento doloroso e profundo, onde a sua
vingana perdida o mergulhara.

Dava uma hora no relgio dos Invlidos quando a carruagem que
transportava a Sr.a de Morcerf, rodando no pavimento dos
Campos Elsios, fez levantar a cabea ao conde de
Monte-Cristo.

- Insensato! - exclamou para consigo. - No dia em que
resolvera vingar-me deixei que me arrancassem o corao!


Captulo XC

O duelo


Depois da partida de Mercds, tudo voltou a cair na sombra em
casa de Monte-Cristo.  volta dele e dentro dele, o seu
pensamento deteve-se: o seu espirito enrgico adormeceu, como
acontece com o corpo depois de uma grande fadiga.

- Pronto - dizia para consigo enquanto o candeeiro e as velas
se consumiam tristemente e os criados esperavam com
impacincia na antecmara. - Pronto, a est o edifcio to
lentamente preparado e erguido com tantas dificuldades e
preocupaes deitado abaixo de um s golpe, com uma s
palavra, com um s sopro! E esse eu que julgava valer alguma
coisa, esse eu de que estava to orgulhoso, esse eu que vira
to pequeno nas celas do Castelo de If e soubera tornar to
grande, ser amanh um pouco de p! No  a morte do corpo que
lamento: essa destraio do princpio vital no  o repouso
para que tudo tende, a que todo o desventurado aspira, essa
calma da matria pela qual ansiei tanto tempo e ao encontro da
qual ia pelo caminho doloroso da fome quando Faria apareceu na
minha cela? Que  a morte? Um degrau mais na calma e talvez
dois no silncio. No, no  a existncia que lamento,  a
runa dos meus projectos to lentamente elaborados e to
laboriosamente edificados. A Providncia, que julgara ser por
eles, era portanto contra eles. Deus no queria que se
realizassem!

"O fardo que carreguei, quase to pesado como um mundo e que
julgara poder transportar at ao fim, estava de acordo com o
um desejo e no com a minha fora; estava de acordo com a
minha vontade e no com o meu poder, e tive de o pousar a meio
da corrida. Oh, voltei a ser fatalista, eu, a quem catorze
anos de desespero e dez de esperana tinham tornado
providencial!

"E tudo isso, meu Deus, porque o meu corao, que julgava
morto, s estava adormecido; porque ele acordou, porque ele
bateu, porque cedi  dor desse pulsar arrancado do fundo do
meu peito pela voz de uma mulher.

"E no entanto - continuou o conde, abismando-se cada vez mais
nas previses do amanh terrvel que Mercds aceitara --, e
no entanto  impossvel que aquela mulher, que  um corao
to nobre, tenha consentido assim por egosmo, em me deixar
matar, eu, cheio de energia e de vida!  impossvel que leve a
tal ponto o amor ou, antes, o delrio maternal! H virtudes
cujo exagero seria um crime. No, ter imaginado alguma cena
pattica e ir lanar-se entre as espadas, o que ser ridculo
no terreno, embora fosse sublime aqui.

E o rubor do orgulho subia  fronte do conde.

- Ridculo - repetiu --, e o ridculo recair sobre mim... Eu,
ridculo! Vamos, prefiro morrer!

E  fora de exagerar assim antecipadamente as desventuras do
dia seguinte s quais se condenara prometendo a Mercds
deixar-lhe viver o filho, o conde acabou por dizer:

- Tolice, tolice, tolice! Que raio de generosidade, colocar-me
como um alvo inerte na mira da pistola desse rapaz! Ele nunca
acreditar que a minha morte  um suicdio, e no entanto isso
interessa  honra da minha memria... (No se trata de
vaidade, pois no, meu Deus? Trata-se, sim, de um justo
orgulho e mais  nada.) Interessa  honra da minha memria
que o mundo saiba que eu prprio consenti, por minha vontade,
de meu livre arbtrio, em deter o meu brao j erguido para
ferir, e que com esse brao, to poderosamente armado contra
os outros, me feri a mim mesmo. Isso  necessrio e f-lo-ei.

E pegando numa pena tirou um papel da estante secreta da sua
escrivaninha e escreveu no fundo desse papel, que no era
outra coisa seno o seu testamento, feito depois da sua
chegada a Paris, uma espcie de codicilo em que explicava a
sua morte s pessoas menos perspicazes.

- Fao isto, meu Deus - disse com os olhos erguidos ao cu --,
tanto para vossa honra como para minha. H dez anos que me
considero,  meu Deus, o enviado da vossa vingana, e no
quero que outros miserveis como o Morcerf, no quero que um
Danglars, um Villefort, e enfim que o prprio Morcerf imaginem
que o acaso os desembaraou do seu inimigo. Quero que saibam,
pelo contrrio, que a Providncia, que j decretara a sua
punio, foi corrigida unicamente pelo poder da minha vontade;
que o castigo evitado neste mundo os espera no outro e que s
trocaram o tempo pela eternidade.

Enquanto se debatia entre estas sombrias incertezas, sonhos
maus do homem despertado pela dor, o dia veio clarear os
vidros e iluminar sob as suas mos o desbotado papel azul em
que acabava de escrever a suprema justificao da Providncia.

Eram cinco horas da manh.

De sbito, um ligeiro rudo chegou-lhe aos ouvidos.
Monte-Cristo julgou ter ouvido qualquer coisa como um suspiro
abafado. Virou a cabea, olhou  sua volta e no viu ningum.
Apenas o rudo se repetiu com suficiente nitidez para que 
dvida sucedesse a certeza.

Ento o conde levantou-se, abriu suavemente a porta da sala e
viu numa poltrona, com os braos pendentes e o belo rosto
plido inclinado para trs, a jovem Hayde, que se colocara
atravessada na porta para que ele no pudesse sair sem a ver,
mas a quem o sono, to poderoso contra a juventude,
surpreendera depois da fadiga de to longa viglia.

O rudo que a porta fez ao abrir-se no despertou Hayde.
Monte-Cristo olhou-a com um olhar cheio de ternura e remorso.

- Ela lembrou-se que tinha um filho - disse - e eu esqueci-me
que tinha uma filha!

Depois, abanando tristemente a cabea:

- Pobre Hayde! Quis-me ver, quis-me falar, teve medo ou
adivinhou qualquer coisa... Oh, no posso partir sem lhe dizer
adeus, no posso morrer sem a confiar a algum!

E voltou devagarinho para o seu lugar e escreveu por baixo das
primeiras linhas:

Lego a Maximilien Morrel capito de sipaios e filho do meu
antigo patro Pierre Morrel armador em Marselha a quantia de
vinte milhes parte da qual dever oferecera sua irm Julie e
a seu cunhado Emmanuel se no achar este acrscimo de fortuna
prejudicial  sua felicidade. Estes vinte mihles esto
escondidos nu/ma grata de Monte-Cristo de que Bertuccio
conhece o segredo.

Se o seu corao estiver livre e ele quiser casar com
hayde filha de Ali pax de Janina que criei com o amor de um
pai e que tem por mim a ternura de uma filha, cumprir no
direi a minha ltima vontade mas o meu ltimo desejo.

O presente testamento institui j Hayde herdeira do
remanescente da minha fortuna que consiste em terras
arrendadas na Inglaterra na ustria e na Holanda e em
mobilirio nas minhas diversas casas e palcios e que estes
vinte milhes, bem como os diversos legados feitos aos meus
servidores, podero elevar ainda a sessenta milhes.


Acabava de escrever estas ltimas linhas quando um grito
soltado atrs dele lhe fez cair a pena da mo.

- Hayde! - exclamou. - Leu?...

Com efeito, a jovem acordada pela luz do dia que lhe ferira as
plpebras, levantara-se e aproximara-se do conde sem que os
seus passos leves, abafados pelo tapete, fossem ouvidos.

- Oh, meu senhor, porque escreve assim a estas horas? -
perguntou, juntando as mos. - Porque me lega toda a sua
fortuna, meu senhor? Vai-me deixar?

- Vou fazer uma viagem, querido anjo - respondeu Monte-Cristo
com uma expresso de melancolia e ternura infinitas --, e se
me acontecer alguma coisa...

O conde deteve-se.

- E ento?... - perguntou a jovem num tom autoritrio que o
conde lhe no conhecia e que o fez estremecer.

- E ento... se me acontecer alguma coisa -- repetiu o conde
--, quero que a minha filha seja feliz.

Hayde sorriu tristemente e abanou a cabea.

- Pensa em morrer, meu senhor? - inquiriu.

-  um pensamento salutar, minha filha, ditado pela prudncia.

- Pois bem, se morrer, legue a sua fortuna a outros, porque se
morrer... no precisarei de mais nada.

E pegando no papel, rasgou-o em quatro partes, que atirou para
o meio da sala. Depois, como se esta energia to pouco
habitual numa escrava lhe tivesse esgotado as foras, caiu,
no j adormecida desta vez, mas sim desmaiada no parque.

Monte-Cristo inclinou-se para ela e levantou-a nos braos; e
ao ver aquele belo rosto plido, aqueles belos olhos fechados
e aquele belo corpo inanimado e como que abandonado,
ocorreu-lhe pela primeira vez a ideia de que ela talvez o
amasse de forma diferente daquela como uma filha ama o pai.

- Infelizmente - murmurou com profundo desanimo --, tudo me 
negado... E ainda poderia ser feliz!

Depois, levou Hayde para os seus aposentos e entregou-a,
sempre desmaiada, aos cuidados das suas criadas. E regressando
ao seu gabinete, que desta vez fechou cuidadosamente, recopiou
o testamento destrudo.

Quando acabava, ouviu-se o rudo de um cabriol que entrava no
ptio. Monte-Cristo aproximou-se da janela e viu descer
Maximilien e Emmanuel.

- Bom - disse para consigo --, era tempo!

E lacrou o testamento em trs stios.

Um instante depois ouviu rudo de passos na sala e foi ele
prprio abrir a porta. Morrel apareceu no limiar.
Chegara mais cedo cerca de vinte minutos.

- Talvez tenha vindo demasiado cedo, Sr. Conde, mas
confesso-lhe francamente que no consegui dormir um minuto e
que o mesmo aconteceu a toda a gente l em casa.
Necessitava de o ver firme na sua corajosa deciso para eu
prprio ganhar coragem.

Monte-Cristo no pde ficar indiferente a esta prova de
afeio, e no foi a mo que estendeu ao jovem, mas sim os
dois braos que lhe abriu.

- Morrel - disse-lhe com voz emocionada --,  um belo dia para
mim este em que me sinto estimado por um homem como o senhor.
Bons dias, Sr. Emmanuel. Acompanham-me, portanto?...

- Meu Deus, duvidou disso?! - protestou o jovem capito.

- Mas se eu no tivesse razo...

- Escute: observei-o ontem durante a cena da provocao,
pensei na sua firmeza toda esta noite e disse para comigo que
a justia devia estar do seu lado ou ento j no havia que
fiar na expresso dos homens.

- Contudo, Morrel, Albert  seu amigo...

- Um simples conhecimento, conde.

- No o viu pela primeira vez no mesmo dia em que me viu a
mim?

- Vi, sim,  verdade. Mas que quer, e necessrio que mo lembre
para que eu o recorde.

- Obrigado, Morrel.

Em seguida tocou uma vez a campainha e disse a Ali, que
apareceu imediatamente:

- Toma, manda entregar isto ao meu notrio.  o meu
testamento, Morrel. Se eu morrer, tomar conhecimento dele.

- Como? Se eu morrer?... - estranhou Morrel.

- Devemos prever tudo, caro amigo. Mas que fez ontem depois de
me deixar?

- Fui ao Tortoni, onde, como esperava, encontrei Beauchamp e
Chteau-Renaud. Confesso-lhe que os procurava.

- Para qu, se estava tudo combinado?

- Escute, conde, o caso  grave, inevitvel...

- Duvida disso?

- No. A ofensa foi pblica e j todos falavam dela.

- E depois?...

- Depois... esperava conseguir a troca das armas, substituir a
pistola pela espada. A pistola  cega...

- E conseguiu-o? - perguntou vivamente Monte-Cristo, com um
imperceptvel claro de esperana.

- No, porque conhecem a sua fora  espada.

- Oh! Quem me atraioou?

- Os mestres-de-armas que venceu.

- Portanto, falhou?

- Recusaram terminantemente.

- Morrel, j alguma vez me viu atirar  pistola?

- Nunca.

- Bom, ainda temos tempo. Veja...

Monte-Cristo pegou nas pistolas que empunhava quando Mercds
entrara, colou um s de paus na placa metlica, e em quatro
tiros acertou sucessivamente nas quatro extremidades da
figura.

A cada tiro, Morrel empalidecia.

Examinou as balas com que Monte-Cristo executava semelhante
proeza e verificou que no eram maiores do que chumbo grosso.

- E de arrepiar! - exclamou. - Veja, Emmanuel.
Depois, virando-se para Monte-Cristo:

- Conde, em nome do cu no mate Albert! O pobre rapaz tem uma
me!

-  justo, e eu no a tenho - redarguiu Monte-Cristo.

Estas palavras foram proferidas num tom que fez estremecer
Morrel.

- O senhor  o ofendido, conde.

- Sem dvida. Que significa isso?

- Significa que ser o primeiro a atirar.

- Sou o primeiro a atirar?

- Oh, pelo menos obtive isso, ou antes, exigi-o! Fizemos-lhos
bastantes concesses para que no nos fizessem essa.

- E a quantos passos?

- A vinte.

Um sorriso assustador passou pelos lbios do conde.

- Morrel, no se esquea do que acaba de ver.

- Por isso - confessou o rapaz - conto apenas com a sua emoo
para salvar Albert.

- Eu, emocionado? - redarguiu Monte-Cristo.

- Ou com a sua generosidade, meu amigo. Certo da sua pontaria
como est, posso dizer-lhe uma coisa que seria ridcula se a
dissesse a outro.

- O qu?

- Parta-lhe um brao, fira-o, mas no o mate.

- Morrel, escute tambm isto: no necessito de ser encorajado
a poupar o Sr. de Morcerf. O Sr. de Morcerf, anuncio-lho
antecipadamente, ser to bem poupado que regressar
tranquilamente com os seus dois amigos, ao passo que eu...

- Ao passo que o senhor?...

- Oh, comigo acontecer o contrrio! Tero de me trazer...

- Porqu, diga! - gritou Morrel, fora de si.

-  como lhe digo, meu caro Morrel: - o Sr. de Morcerf
matar-me-.

Morrel olhou o conde como quem j no percebe nada.

- Que lhe aconteceu desde ontem  noite, conde?

- O que aconteceu a Bruto na vspera da batalha de Filipos: vi
um fantasma.

- E esse fantasma?...

- Esse fantasma, Morrel, disse-me que j vivera o suficiente.
Maximilien e Emmanuel entreolharam-se. Monte-Cristo puxou do
relgio. - Vamos. So sete e cinco e o encontro est marcada
para as oito horas exactas. Esperava-os uma carruagem
atrelada. Monte-Cristo subiu para ela com as suas duas
testemunhas.

Ao atravessarem o corredor, Monte-Cristo detivera-se a
escutar diante de uma porta, e Maximilien e Emmanuel, que por
discrio, tinham dado alguns passos em frente, julgaram ouvir
responder a um soluo com um suspiro.

Ao bater das oito chegaram ao local do duelo.

- C estamos - disse Morrel, deitando a cabea fora da
portinhola --, e somos os primeiros.

- Desculpe, senhor - interveio Baptistin, que acompanhara o
amo com um terror indizvel --, mas creio ver l adiante uma
carruagem debaixo das rvores.

- De facto - disse Emmanuel --, vejo dois rapazes que passeiam
e parecem esperar.

Monte-Cristo saltou agilmente da calea e deu a mo a
Emmanuel e Maximilien para os ajudar a descer.

Maximilien reteve a mo do conde nas suas.

- Aqui est uma mo como gosto de ver num homem cuja vida
assenta na bondade da sua causa...

Monte-Cristo puxou Morrel, no  parte, mas um passo ou dois
atrs do cunhado.

- Maximilien, tem o corao livre? - perguntou-lhe.

Morrel olhou Monte-Cristo com surpresa.

- No lhe peo uma confidncia, caro amigo, fao-lhe uma
simples pergunta. Responda sim ou no,  tudo o que desejo.

- Amo uma jovem, conde.

- E ama-a muito?

- Mais do que a vida.

- Bom, mais uma esperana que me foge... - declarou
Monte-Cristo.

Depois, com um suspiro:

- Pobre Hayde! - murmurou.

- Na verdade, conde, se o conhecesse pior, julg-lo-ia menos
corajoso do que ! - observou Morrel.

- Porque penso em algum que vou deixar e suspiro? Ento,
Morrel, acha prprio de um soldado conhecer to mal a coragem?
Julga que tenho pena de perder a vida? Que importncia tem
isso para mim, que passei vinte anos entre a vida e a morte?
Alis, esteja tranquilo, Morrel: esta fraqueza, se porventura
o e,  apenas manifestada diante de si. Sei que o mundo  um
salo donde  preciso sair delicada e respeitavelmente, isto
, depois de nos despedirmos e pagarmos as nossas dvidas de
jogo.

- Sempre tem cada uma! -- comentou Morrel. - A propsito,
trouxe as suas armas?

- Eu? Para qu? Espero que esses senhores tenham trazido as
deles.

- Vou-me informar - disse Morrel.

- Est bem, mas nada de negociaes, ouviu?

- Oh, esteja tranquilo!

Morrel dirigiu-se para Beauchamp e Chteau-Renaud.
Estes, ao verem aproximar-se Maximilien, deram alguns passos
ao seu encontro.

Os trs jovens cumprimentaram-se, se no com afabilidade, pelo
menos com cortesia.

- Perdo, meus senhores, mas no vejo o Sr. de Morcerf -
observou Morrel.

- Mandou-nos avisar esta manh de que se nos juntaria apenas
aqui - respondeu Chteau-Renaud.

- Ah!-exclamou Morrel.

Beauchamp puxou do relgio.

- Oito e cinco; o atraso no  grande, Sr. Morrel - disse.

- Oh, no foi com essa inteno que falei! - respondeu
Maxmilien.

- De resto - interveio Chteau-Renaud --, vem a uma
carruagem.

Com efeito, uma carruagem avanava a galope por uma das
avenidas que desembocavam no cruzamento onde se encontravam.

- Suponho, meus senhores - disse Morrel --, que vieram munidos
de pistolas. O Sr. Conde de Monte-Cristo declara renunciar ao
direito de se servir das suas.

- Previmos essa delicadeza da parte do conde, Sr. Morrel -
respondeu Beauchamp --, e trouxe armas que comprei h oito ou
dez dias julgando que me seriam necessrias num caso idntico.
Esto absolutamente novas e ningum se serviu ainda delas.
Quer v-las?

- Sr. Beauchamp - redarguiu Morrel, inclinando-se --, uma vez
que me garante que o Sr. de Morcerf no conhece essas armas,
no acha que a sua palavra me basta?

- Meus senhores - disse Chteau-Renaud --, no  Morcerf que
vem naquela carruagem, so, se no me engano,... Franz e
Debray.

Com efeito, os dois jovens anunciados aproximavam-se.

- Por aqui, meus senhores? - estranhou Chteau-Renaud,
trocando com cada um o seu aperto de mo. - Por que acaso...

- Estamos aqui - atalhou Debray - porque Albert nos mandou
pedir esta manha que vissemos.

Beauchamp e Chteau-Renaud entreolharam-se atnitos.

- Meus senhores, creio compreender - interveio Morrel.

- Sim?...

- Ontem  tarde recebi uma carta do Sr. de Morcerf pedindo-me
que fosse  pera.

- E eu tambm - disse Debray.

- E eu - secundou-o Franz.

- E ns tambm - disseram Chteau-Renaud e Beauchamp.

- Queria que estivessem presentes quando da provocao - disse
Morrel - e quer que assistam ao duelo.

- Sim, deve ser isso, Sr. Maximilien - admitiram os jovens. -
 muito provvel que tenha acertado.

- Mas o caso  que Albert no aparece - murmurou
Chteau-Renaud. - J est atrasado dez minutos.

- Ele a est! - anunciou Beauchamp. - E a cavalo... Vejam,
vem a galope seguido do criado.

- Que imprudncia vir a cavalo para se bater  pistola! -
exclamou Chateau-Renaud - E eu que lhe ensinei to bem a
lio!...

- Alm disso, veja - acrescentou Beauchamp - colarinho e
gravata, sobrecasaca aberta, colete branco... Porque no
desenhou tambm um alvo no estmago? Seria mais simples e
acabaria tudo mais depressa!

Entretanto, Albert chegara a dez passos do grupo formado pelos
cinco jovens. Deteve o cavalo, desmontou e atirou a rdea para
o brao do criado.

Aproximou-se.

Estava plido e tinha os olhos vermelhos e inchados. Via-se
que no dormira um segundo toda a noite.

Cobria-lhe a fisionomia um matiz de gravidade triste, que lhe
no era habitual.

- Obrigado, meus senhores, por se terem dignado aceitar o meu
convite - disse. - Creiam que lhos no posso estar mais
reconhecido por essa prova de amizade.

Quando Morcerf se aproximara, Morrel dera uma dezena de passos
atrs e encontrava-se afastado.

- Os meus agradecimentos so tambm extensivos a si, Sr.
Morrel - declarou Albert. - Aproxime-se, pois, que no est a
mais.

- Senhor - respondeu Maximilien --, talvez ignore que sou
testemunha do Sr. de Monte-Cristo...

- No tinha a certeza, mas j calculava. Tanto melhor, quantos
mais homens de honra houver aqui mais satisfeito me sentirei.

- Sr. Morrel - disse Chteau-Renaud --, pode anunciar ao Sr.
Conde de Monte-Cristo que o Sr. de Morcerf j chegou e que
estamos  sua disposio.

Morrel fez um gesto para se ir desempenhar da sua misso.
Ao mesmo tempo, Beauchamp tirava a caixa das pistolas da
carruagem.

- Esperem, meus senhores - atalhou Albert. - Tenho duas
palavras a dizer ao Sr Conde de Monte-Cristo.

- Em particular? - perguntou Morrel.

- No, senhor, diante de toda a gente.

As testemunhas de Albert entreolharam-se deveras
surpreendidas. Franz e Debray trocaram algumas palavras em
baixa e Morrel, satisfeito com aquele incidente inesperado,
foi ter com o conde, que passeava numa alameda lateral com
Emmanuel.

- Que me quer ele? - perguntou Monte-Cristo.

- Ignoro, mas pede para falar consigo.

- Oh, que no tente Deus com qualquer novo ultraje! - exclamou
Monte-Cristo.

- No creio que seja essa a sua inteno - tranquilizou-o
Morrel.

O conde aproximou-se acompanhado de Maximilien e Emmanuel. O
seu rosto calmo e cheio de serenidade contrastava
estranhamente com o rosto transtornado de Albert, que tambm
se aproximava seguido dos quatro jovens.

A trs passos um do outro, Albert e o conde pararam.

- Meus senhores, aproximem-se - disse Albert. - Desejo que nem
uma palavra do que vou ter a honra de dizer ao Sr. Conde de
Monte-Cristo se perca. Porque o que vou ter a honra de lhe
dizer dever ser repetido pelos senhores a quem entenderem,
por mais estranho que o meu discurso lhes parea.

- Estou  espera, senhor - atalhou o conde.

- Senhor - disse Albert, primeiro numa voz trmula, mas depois
cada vez mais firme. - Senhor, censurava-o por ter divulgado a
conduta do Sr. de Morcerf no Epiro; porque por mais culpado
que fosse o Sr. Conde de Morcerf; no me parecia que o senhor
tivesse o direito de o punir. Mas hoje, senhor, sei que esse
direito lhe pertence. No  de forma alguma a traio de
Fernand Mondego para com Ali-Pax que me leva a desculp-lo
to prontamente, Sr. de Monte-Cristo,  a traio do pescador
Fernand para consigo, so as desventuras inauditas que se
seguiram a essa traio. Por isso lhe digo, por isso o
proclamo em voz alta: sim,  senhor, tinha razo em vingar-se
do meu pai, e eu, seu filho, agradeo-lhe no ter feito pior!

Se tivesse cado um raio no meio dos espectadores desta cena
inesperada no os teria surpreendido mais do que a declarao
de Albert.

Quanto a Monte-Cristo, os seus olhos tinham-se lentamente
erguido para o cu com uma expresso de infinito
reconhecimento, e no conseguia manifestar suficientemente a
sua admirao pela forma como a natureza fogosa de Albert,
cuja coragem conhecera no meio dos bandidos romanos, se
submetera to de. pressa quela humilhao. Reconheceu nisso a
influncia de Mercds e compreendeu por que motivo aquele
nobre corao se no opusera ao sacrifcio que sabia
antecipadamente no se realizar.

- Agora, senhor - disse Albert --, se considera suficientes as
desculpas que acabo de lhe apresentar, d-me a sua mo, por
favor. Depois do mrito to raro da infalibilidade, que parece
ser o seu, o primeiro de todos os mritos, na minha opinio, 
saber reconhecer a nossa sem-razo. Mas este reconhecimento s
a mim diz respeito. Eu procedia bem segundo os homens, mas o
senhor procedia bem segundo Deus. S um anjo podia salvar um
de ns da morte, e esse anjo desceu do cu, se no para nos
tornar amigos, pois a fatalidade no o permite, pelo menos
para nos tornar dois homens que se estimam.

Com os olhos hmidos, o peito arquejante e a boca entreaberta,
Monte-Cristo estendeu a Albert uma mo, que este agarrou e
apertou com um sentimento que se assemelhava a misterioso
terror.

- Meus senhores - prosseguiu Albert --, o Sr. de Monte-Cristo
digna-se aceitar as minhas desculpas. Procedi precipitadamente
para com ele e a precipitao  m conselheira: procedi mal.
Agora, a minha falta est reparada. Espero que a sociedade me
no considere cobarde por ter feito o que a minha conscincia
me mandou fazer. Mas, em todo o caso, se algum se enganasse a
meu respeito - acrescentou o jovem, erguendo orgulhosamente a
cabea e como se dirigisse um desafio aos seus amigos e aos
seus inimigos - procuraria corrigir as opinies.

- Que se passou esta noite? - perguntou Beauchamp a
Chteau-Renaud. - Parece-me que estamos a fazer aqui uma
triste figura.

- Com efeito, o que Albert acaba de fazer ou  muito miservel
ou  muito belo - respondeu o baro.

- Mas que quer isto dizer? - perguntou Debray a Franz. - Como,
o conde de Monte-Cristo desonra o Sr. de Morcerf e teve razo
aos olhos do filho deste?! Pois se tivessem havido dez Janinas
na minha famlia, s me consideraria obrigado a uma coisa:
bater-me dez vezes.

Quanto a Monte-Cristo, com a cabea inclinada e os braos
pendentes, esmagado pelo peso de vinte e quatro anos de
recordaes, no pensava nem em Albert, nem em Beauchamp, nem
em Chteau-Renaud, nem em nenhuma das pessoas que se
encontravam ali. Pensava na corajosa mulher que lhe viera
pedir a vida do filho, a quem oferecera a sua e que acabava de
lha salvar por meio da confisso de um terrvel segredo de
famlia, capaz de matar para sempre em Albert o sentimento da
piedade filial.

- Sempre a Providncia! - murmurou. - Ah, s hoje tenho
realmente a certeza de ser um enviado de Deus!

Captulo XCI


A me e o filho

O conde de Monte-Cristo cumprimentou os cinco jovens com um
sorriso cheio de melancolia e dignidade e voltou a subir para
a sua carruagem com Maximilien e Emmanuel.

Albert, Beauchamp e Chteau-Renaud ficaram sozinhos no campo
de batalha.

O jovem dirigiu s suas duas testemunhas um olhar que, sem ser
tmido, parecia no entanto pedir-lhes a sua opinio acerca do
que acabava de se passar.

- Palavra, meu caro amigo, permita-me que o felicite! - foi
Beauchamp o primeiro a dizer, quer por ter mais sensibilidade,
quer por possuir menos capacidade de dissimulao. - A est
um desenlace deveras inesperado num caso to desagl advel.

Albert ficou calado e absorto nos seus pensamentos.
Chteau-Renaud limitou-se a bater na bota com a bengala
flexvel.

- No nos vamos embora? - perguntou, depois de um silncio
embaraoso.

-Quando quiser - respondeu Beauchamp. - Conceda-me apenas o
tempo de cumprimentar o Sr. de Morcerf. Deu hoje provas de uma
generosidade to cavalheiresca... to rara!

- Oh, com certeza!-concordou Chteau-Renaud.

-  magnfico um homem poder conservar sobre si mesmo um
domnio to grande! - continuou Beauchamp.

- Sem dvida. Quanto a mim, teria sido incapaz - declarou
Chteau-Renaud com uma frieza das mais significativas.

- Meus senhores - interrompeu-os Albert --, creio que no
compreenderam que entre o Sr. de Monte-Cristo e mim se passou
algo muito grave...

- Pois sim, pois sim - redarguiu imediatamente Beauchamp --,
mas nenhum dos nossos parolos seria capaz de compreender o
herosmo, e cedo ou tarde talvez se visse obrigado a
explicar-lho mais energicamente do que convm  sade do seu
corpo e  durao da sua vida. Quer que lhe d um conselho de
amigo? Parta para Npoles, para Haia ou para Sampetersburgo,
pases calmos, onde as pessoas so mais inteligentes sobre
pontos de honra do que os nossos desmiolados parisienses. Uma
vez l, treine-se bem  pistola e faa muitas quartas e teras
 espada. Entretanto, torne-se suficientemente esquecido para
poder voltar a Frana com toda a tranquilidade passados alguns
anos, ou suficientemente temvel nos exerccios acadmicos
para conquistar essa tranquilidade. No acha, Sr. de
Chteau-Renaud, que tenho razo?

-  exactamente a minha opinio - respondeu o gentil-homem. -
Nada atrai mais os duelos srios do que um duelo sem
resultado.

- Obrigado, meus senhores - respondeu Albert, com um sorriso
frio. - Seguirei o seu conselho, no porque mo deram, mas sim
porque j tencionava deixar a Frana. Agradeo-lhes igualmente
o favor que me prestaram servindo-me de testemunha. Tenho-o
profundamente gravado no corao, de tal modo que, depois das
palavras que acabo de ouvir, s me lembro dele.

Chteau-Renaud e Beauchamp entreolharam-se. Ambos tinham a
mesma impresso, e o tom em que Morcerf proferira o seu
agradecimento estava impregnado de tal resoluo que a
situao se tornaria muito embaraosa para todos se a conversa
continuasse.

- Adeus, Albert - despediu-se de sbito Beauchamp, estendendo
negligentemente a mo ao jovem, sem que este parecesse sair da
sua letargia.

Com efeito, no disse nada nem apertou a mo que lhe
ofereciam.

- Adeus - disse por seu turno Chteau-Renaud, conservando na
mo esquerda a sua bengalinha e cumprimentando com a direita.

Os lbios de Albert murmuraram apenas: "Adeus!" Mas o seu
olhar era mais explcito: encerrava todo um poema de cleras
contidas, de orgulhosos desdns e de generosas indignaes.

Depois das duas testemunhas subirem para a carruagem, ainda
conservou durante algum tempo a sua atitude imvel e
melanclica. Por fim, soltou o cavalo da arvorezinha  volta
da qual o criado atara as rdeas, saltou agilmente para a sela
e retomou a galope o caminho de Paris. Um quarto de hora mais
tarde entrava no palcio da Rua do Helder.

Ao descer do cavalo, pareceu-lhe ver, atrs da cortina do
quarto do conde, o rosto plido do pai. Albert virou a cabea,
com um suspiro, e entrou no seu pavilhozinho.

Uma vez l dentro, deitou um ltimo olhar a todas aquelas
riquezas que lhe tinham tornado a vida agradvel e feliz desde
a infncia; olhou mais uma vez aqueles quadros, cuias figuras
pareciam sorrir-lhe e cujas paisagens dir-se-iam animadas de
cores brilhantes.

Depois, tirou da sua armao de carvalho o retrato da me, que
enrolou, deixando vazia a moldura dourada que o rodeava.

Em seguida, ps em ordem as suas belas armas turcas, as suas
excelentes espingardas inglesas, as suas porcelanas japonesas,
as suas taas engastadas, os seus bronzes artsticos,
assinados por Feuchres ou Barye, passou em revista os
armrios e colocou as chaves em cada um deles, atirou para
dentro de uma gaveta da sua secretria, que deixou aberta,
todo o dinheiro mido que tinha consigo, juntou-lhe as muitas
jias de fantasia que enchiam as suas taas, os seus estojos e
as suas estantes, fez um inventrio exacto e minucioso de tudo
e colocou-o no stio mais visvel de uma mesa, depois de a
libertar dos livros e papis que a cobriam.

No incio deste trabalho o criado, apesar da ordem que Albert
lhe dera para o deixar s, entrara no quarto.

- Que queres? - perguntou-lhe Albert, em tom mais triste do
que irritado.

- Perdo, senhor - disse o criado de quarto. - De facto o
senhor proibiu-me de o incomodar, mas o Sr. Conde de Morcerf
mandou-me chamar...

- E ento? - perguntou Albert.

- No quis ir aos aposentos do Sr. Conde sem ordem do
senhor...

- Porqu?

- Porque o Sr. Conde sabe decerto que acompanhei o senhor ao
local do duelo.

-  provvel - admitiu Albert.

- E se me manda chamar  com certeza para me interrogar acerca
do que se passou no bosque. Que devo responder?

- A verdade.

- Ento direi que o duelo no se realizou?

- Dirs que apresentei desculpas ao Sr. Conde de
Monte-Cristo. Vai.

O criado inclinou-se e saiu.

Albert dedicara-se ento ao inventrio.

Quando conclua este trabalho, chamou-lhe a ateno o rudo de
cavalos no ptio e de rodas de uma carruagem que faziam
estremecer os vidros. Aproximou-se da janela e viu o pai
meter-se na sua calea e partir.

Mal o porto do palcio se voltou a fechar atrs do conde,
Albert dirigiu-se para os aposentos da me e, como no
houvesse ningum para o anunciar, penetrou at ao quarto de
cama de Mercds,  porta do qual parou com o corao
amargurado pelo que via e pelo que adivinhava.

Como se a mesma alma animasse aqueles dois corpos, Mercds
fazia nos seus aposentos o que Albert acabara de fazer nos
seus. Estava tudo em ordem as rendas, os adereos, as jias,
as roupas e o dinheiro alinhavam-se nas gavetas. nas quais a
condessa punha cuidadosamente as chaves.

Albert viu todos aqueles preparativos; compreendeu-os e
gritando "Minha me!" correu a lanar os braos ao pescoo de
Mercds.

O pintor que conseguisse captar a expresso daqueles dois
rostos faria sem dvida um belo quadro.

Com efeito, todo aquele ambiente de uma resoluo enrgica que
no atemorizara Albert pelo que lhe dizia respeito,
assustava-o pela me.

- Que est a fazer? - perguntou.

- E tu? - respondeu ela.

- Oh, minha me, no pode seguir o meu exemplo! - gritou
Albert, comovido a ponto de quase no poder falar. - No, a
senhora no pode ter resolvido o que resolvi, pois venho
comunicar-lhe que digo adeus  sua casa e... e a Si.

- Tambm eu, Albert - respondeu Mercds. - Tambm eu parto.
Contara, confesso, que o meu filho me acompanhasse...
Enganei-me?

- Minha me - declarou Albert com firmeza --, no posso
faz-la compartilhar o futuro que me destino. Daqui em diante
terei de viver sem nome e sem fortuna; terei, para comear a
aprendizagem dessa dura existncia, de pedir a um amigo o po
que comerei daqui at ao momento em que ganharei outro. Assim,
minha boa me, vou daqui a casa de Franz pedir lhe que me
empreste a pequena importncia que calculei ser-me necessria.

- Tu, meu pobre filho! - exclamou Mercds. - Tu conheceres a
misria, passares fome?! Oh. no digas isso ou quebras todas
as minhas resolues!

- Mas no as minhas, minha me - respondeu Albert. - Sou novo,
sou forte e creio que sou corajoso, e desde ontem aprendi o
que pode a vontade. Felizmente, minha me, ainda h pessoas
que depois de tanto sofrerem no s no morreram como ainda
ergueram nova fortuna sobre as runas de todas as promessas de
felicidade que o cu lhes fizera, sobre os restos de todas as
esperanas que Deus lhes dera! Aprendi isso, minha me, vi
tais homens. E sei que do fundo do abismo onde os lanaram os
seus inimigos se ergueram com tanto vigor e glria que
dominaram o seu antigo vencedor e o derrubaram por seu turno.
No, minha me, no; rompi a partir de hoje com o passado e
no aceito mais nada dele, nem mesmo o meu nome, porque
(compreende, minha me, no   verdade?) o seu filho no
pode usar o nome de um homem que deve corar diante dos outros
homens!

- Albert, meu filho - disse Mercds --, se tivesse um corao
mais forte seria esse o conselho que te daria. A tua
conscincia falou quando a minha voz se calava; escuta a tua
conscincia mas no desesperes, em nome da tua me! A vida
ainda  bela na tua idade, meu caro Albert, pois tens apenas
vinte e dois anos. E como a um corao to puro como o teu 
necessrio um nome sem mcula, toma o do meu pai, que se
chamava Herrera. Conheo-te, meu Albert; seja qual for a
carreira que sigas, tornars dentro de pouco tempo esse nome
ilustre. Ento, meu amigo, reaparecers na sociedade ainda
mais brilhante do que antes das tuas passadas desventuras; e
se assim no acontecer, apesar de todas as minhas previses,
deixa-me ao menos esta esperana, a mim que s terei um nico
pensamento, a mim que j no tenho futuro e para quem a
sepultura comea no limiar desta casa.

- Farei o que deseja, minha me - prometeu o jovem. - Sim,
partilho a sua esperana: a clera do cu no nos perseguir,
a si to pura e a mim to inocente. Mas uma vez que estamos
resolvidos, mos  obra. O Sr. de Morcerf saiu do palcio h
cerca de meia hora. Como v, a ocasio  favorvel para evitar
rumores e explicaes.

- Fico  tua espera, meu filho - declarou Mercds.

Albert correu imediatamente ao bulevar, donde trouxe o fiacre
que os deveria levar para fora do palcio. Recordava-se de
certa casinha mobilada, na Rua dos Sains-Pres, onde a me
encontraria alojamento modesto, mas decente. Foi buscar a
condessa.

No momento em que o fiacre parou diante da porta e Albert se
preparava para descer aproximou-se dele um homem, que lhe
entregou uma carta.

Albert reconheceu o intendente.

- Do conde - disse Bertuccio.

Albert pegou na carta, abriu-a e leu-a.

Depois de a ler procurou com os olhos Bertuccio, mas enquanto
o jovem lia a carta, Bertuccio desaparecera.

Ento Albert, com as lgrimas nos olhos e o peito cheio de
emoo, reentrou nos aposentos de Mercds e, sem pronunciar
uma palavra, estendeu-lhe a carta.

Mercds leu:

Albert:

Mostrando-lhe que adivinhei o projecto que se prepara para
pr em prtica, creio mostrar-lhe tambm que compreendo a sua
dificuldade. Est livre, deixa o palcio do conde e leva
consigo a sua me, livre como o senhor. Mas, pense nisto,
Albert: o senhor deve-lhe mais do que lhe pode pagar, pobre
nobre corao que . Guarde para si a luta, reclame para si o
sofrimento, mas poupe-a  misria inicial que acompanhar
inevitavelmente os seus primeiros esforos. Porque ela no
merece sequer a sombra da desgraa que hoje a atinge e a
Providncia no quer que o inocente pague pelo culpado.

Sei que vo ambos deixar a casa da Rua do Helder sem levar
nada Como o soube, no procure descobrir. Sei-o e  quanto
basta.

Oua, Albert:

H vinte e quatro anos regressava muito contente e orgulhoso
 minha ptria. Tinha uma noiva, Albert, uma santa rapariga
que adorava, e trazia  minha noiva cento e cinquenta luses
amealhados penosamente  custa de um trabalho sem descanso.
Esse dinheiro era para ela, destinava-lho, e sabendo como o
mar  prfido, enterrara o nosso tesouro no jardinzinho da
casa que o meu pai habitava em Marselha, nas Alamedas de
Meilhan.

A sua me, Albert, conhece bem essa pobre e querida casa.

Recentemente, ao regressar a Paris, passei por Marselha e
fui ver essa casa de dolorosas recordaes. E uma noite, de
enxada na mo, sondei o canto onde enterrara o meu tesouro. A
caixa de ferro estava ainda no mesmo lugar; ningum lhe
tocara; est no canto que uma bonita figueira, plantada por
meu pai no dia do meu nascimento, cobre com a sua sombra.

Pois bem, Albert, esse dinheiro que outrora se destinava a
ajudar na vida e a proporcionar tranquilidade  mulher que
adorava, encontrou hoje, por um acaso estranho e doloroso, o
mesmo emprego. Oh, compreenda bem o meu pensamento! Eu, que
podia oferecer milhes a essa pobre mulher, dou-lhe apenas o
naco de po escuro esquecido debaixo do meu pobre tecto desde
o dia em que me separei daquela que amava.

O senhor  um homem generoso, Albert; mas talvez esteja
ainda cego pelo orgulho ou pelo ressentimento. Se recusar, se
pedir a outro o que tenho o direito de lhe oferecer, direi que
 pouco generoso da sua parte recusar a vida da sua me
oferecida por um homem a quem o seu pai fez morrer o pai nos
horrores da fome e do desespero.


Terminada a leitura, Albert permaneceu, plido e imvel, 
espera do que decidisse a me.

Mercds ergueu ao cu um olhar de expresso inefvel.

- Aceito - disse. - Tem o direito de pagar o dote que levarei
para um convento!

E metendo a carta no seio, tomou o brao do filho e, com passo
mais firme do que talvez ela prpria esperasse, dirigiu-se
para a escada.


Captulo XCII

O suicdio


Entretanto, Monte-Cristo tambm regressara  cidade com
Emmanuel e Maximilien.

O regresso foi alegre. Emmanuel no escondia a satisfao que
lhe causava ver suceder a paz  guerra e confessava em voz
alta as suas preferncias filantrpicas. Morrel, a um canto da
carruagem, deixava a alegria do cunhado evaporar-se em
palavras e guardava para si uma alegria no menos sincera, mas
que brilhava apenas no seu olhar.

Na Barreira do Trono encontraram Bertuccio, que esperava,
imvel como uma sentinela no seu posto.

Monte-Cristo deitou a cabea fora da portinhola, trocou com
ele algumas palavras em voz baixa e o intendente desapareceu.

- Sr. Conde - pediu Emmanuel quando chegaram s imediaes da
Praa Royale --, peo-lhe que me deixe ficar  minha porta,
para que a minha mulher no tenha um s momento de inquietao
nem pelo senhor nem por mim.

-Se no fosse ridculo ir exibir o seu triunfo, convidaria o
Sr. Conde a entrar em nossa casa - disse Morrel. - Mas o Sr.
Conde tambm tem, em dvida, coraes trmulos a tranquilizar.
Chegmos, Emmanuel; -- cumprimentemos o nosso amigo e
deixemo-lo continuar o seu caminho.

- Um momento, no me prive assim de uma assentada dos meus
dois companheiros - pediu Monte-Cristo. - Entre o senhor,
Emmanuel, v ter com a sua encantadora esposa  qual o
encarrego de apresentar os meus cumprimentos, e acompanhe-me o
senhor aos Campos Elsios, Morrel.

- Perfeitamente - respondeu Maximilien --, tanto mais que
tenho que fazer no seu bairro, conde.

- Esperamos-te para o pequeno-almoo? - perguntou Emmanuel.

- No - respondeu o rapaz.

A portinhola fechou-se e a carruagem continuou o seu caminho.

- Como v, dei-lhe sorte - observou Morrel quando ficou
sozinho com o conde. - Ainda no tinha pensado nisso?

- Certamente - respondeu Monte-Cristo - e por isso gostaria
de o ter sempre junto de mim.

-  miraculoso! - continuou Morrel, respondendo ao seu
prprio pensamento.

- o qu? - perguntou Monte-Cristo.

- O que acaba de acontecer.

- Sim - concordou o conde com um sorriso. - Disse a palavra
exacta, Morrel:  miraculoso!

- Porque, enfim - prosseguiu Morrel --, Albert  corajoso.

- Muito corajoso - acrescentou Monte-Cristo. - Vi-o dormir
com o punhal suspenso sobre a sua cabea.

- E eu sei que se bateu duas vezes, e muito bem batido -
declarou Morrel. - Concilie isso com o seu comportamento desta
manh.

- Mais uma vez a sua influncia - insinuou Monte-Cristo
sorrindo.

- Ainda bem que Albert no  soldado - disse Morrel.

- Porqu?

- Desculpas no campo da honra!... - exclamou o jovem capito,
abanando a cabea.

- Ento, espero que no v cair nos preconceitos dos homens
vulgares, Morrel... - observou o conde com suavidade. - No
chegou  concluso de que, uma vez que Albert  corajoso, no
pode ser cobarde? Que devia ter algum motivo para proceder
como procedeu esta manh e que portanto a sua conduta foi mais
herica do que outra coisa?

-- Sem dvida, sem dvida - respondeu Morrel. - Mas  caso
para dizer como o espanhol: - foi menos corajoso hoje do que
ontem.

- Toma o pequeno-almoo comigo, no  verdade, Morrel? -
perguntou Monte-Cristo para mudar de assunto.

- No, deixo-o s dez horas.

- O seu encontro  ento para tomar o pequeno-almoo?...
Morrel sorriu e abanou a cabea.

- Mas, enfim, com certeza tem de tomar o pequeno-almoo em
algum lado...

- E se eu no tiver fome? - observou o rapaz.

- Oh, s conheo dois sentimentos que cortam assim o apetite:
a dor (e como, felizmente, o vejo contentssimo, no se trata
disso) e o amor! Ora, depois do que me disse a propsito do
seu corao, -me permitido supor...

- Palavra, conde, que no o desminto! - replicou alegremente
Morrel.

- E no me dizia nada, Maximilien? - notou o conde, num tom
to vivo que deixava transparecer o interesse que tinha em
conhecer o segredo.

- Mostrei-lhe esta manh que tinha um corao, no  verdade,
conde?

Como nica resposta, Monte-Cristo estendeu a mo ao jovem.

- Pois bem - continuou este --, desde que esse corao j no
est com o senhor no Bosque de Vincennes, ser noutro lado que
terei de o procurar...

- V - disse lentamente o conde --, v, querido amigo, mas,
por favor, se esbarrar com algum obstculo, lembre-se de que
tenho algum poder neste mundo, que tenho prazer em empregar
esse poder cm proveito das pessoas que estimo... e que o
estimo, Morrel.

- Lembrar-me-ei disso como os filhos egostas se lembram dos
pais quando precisam deles - declarou Morrel. - Quando
precisar do senhor, e talvez esse momento surja, recorrerei a
si, conde.

- Fico com a sua palavra. Adeus.

- At breve.

Tinham chegado  porta da casa dos Campos Elsios.
Monte-Cristo abriu a portinhola e Morrel saltou para a
calada.
Bertuccio, esperava na escadaria.

Morrel meteu pela Avenida de Marigny e Monte-Cristo
dirigiu-se vivamente ao encontro de Bertuccio.

- Ento? - perguntou.

- Ela vai deixar a casa - respondeu o intendente.

- E o filho?

- Florentin, seu criado de quarto, pensa que vai fazer o
mesmo.

- Venha.

Monte-Cristo levou Bertuccio para o seu gabinete, escreveu a
carta que vimos e entregou-a ao intendente.

- V depressa. A propsito, mande prevenir Hayde de que j
voltei.

- Aqui estou - anunciou-se a jovem, que descera ao ouvir o
rudo da carruagem e cujo rosto estava radiante de alegria por
ver o conde so e salvo.

Bertuccio saiu.

Hayde experimentou nos primeiros instantes daquele regresso
esperado por ela com tanta impacincia todos os transportes de
uma filha ao rever o pai querido e todos os delrios de uma
amante ao rever o amante adorado.

Claro que, por ser menos expansiva, a alegria de Monte-Cristo
no era mais pequena. Para os coraes que sofreram
longamente, a alegria  como o orvalho  para as terras
ressequidas pelo sol. Corao e terra absorvem essa chuva
benfazeja que cai sobre eles e nada aparece de fora. Havia
alguns dias que Monte-Cristo descobrira uma coisa em que h
muito tempo no ousava acreditar: que existiam duas Mercds
no mundo e que ainda poderia ser feliz.

O seu olhar ardente de felicidade mergulhava com avidez nos
olhos hmidos de Hayde quando de sbito a porta se abriu.
O conde franziu o sobrolho.

- O Sr. de Morcerf! - anunciou Baptistin, como se este nome
encerrasse a sua desculpa.

Com efeito, o rosto do conde desanuviou-se.

- Qual, o visconde ou o conde? - perguntou.

- O conde.

- Meu Deus! - exclamou Hayde. - Ento isto ainda no acabou?

- No sei se acabou, minha filha bem-amada - respondeu
Monte-Cristo, pegando nas mos da jovem --, mas o que sei 
que no tens nada a temer.

- Oh, mas  o miservel...

- Esse homem no pode nada contra mim, Hayde - tranquilizou-a
Monte-Cristo. - Quando o caso era com o filho  que havia
motivo para receios.

- Por isso nunca sabers o que sofri, meu senhor - declarou a
jovem.

Monte-Cristo sorriu.

- Pela sepultura do meu pai - disse Monte-Cristo, estendendo
a mo sobre a cabea da rapariga --, juro-te que se acontecer
alguma desgraa no ser a mim.

- Acredito-te, meu senhor, como se Deus me falasse - respondeu
Hayde, estendendo a fronte ao conde.

Monte-Cristo depositou naquela fronte to pura e to bela um
bei o, que fez bater simultaneamente dois coraes, um com
violncia e o outro surdamente.

- Oh, meu Deus, permiti que eu possa amar ainda!... - murmurou
o conde. -Mande entrar o Sr. Conde de Morcerf para a sala -
disse a Baptistin, enquanto conduzia a bela grega para uma
escada oculta.

Uma palavra de explicao acerca desta visita, talvez esperada
pelo conde de Monte-Cristo, mas inesperada, sem dvida, para
os nossos leitores.

Enquanto Mercds fazia, como dissemos, nos seus aposentos, a
espcie de inventrio que Albert fizera nos seus; enquanto ela
arrumava as suas jias, fechava as suas gavetas e reunia as
suas chaves a fim de deixar tudo numa ordem perfeita, no
notara que um rosto plido e sinistro aparecera atrs dos
vidros de uma porta que deixava entrar a luz no corredor. Da
no s se podia ver como tambm se podia ouvir. Quem assim
olhava, muito provavelmente sem ser visto nem ouvido, viu e
ouviu portanto tudo o que se passava nos aposentos da Sr.a de
Morcerf.

Da porta envidraada, o homem de rosto plido dirigiu-se para
o quarto de cama do conde de Morcerf e, chegado l, ergueu com
mo contrada a cortina de uma janela que dava para o ptio.
Permaneceu ai dez minutos, imvel, mudo, a escutar as
pulsaes do seu prprio corao. Para ele, dez minutos era
muito tempo.

Foi ento que Albert, regressando do local do duelo, viu o
pai, que espreitava o seu regresso atrs da cortina, e virou a
cabea.

O conde arregalou os olhos. Sabia que o insulto de Albert a
Monte-Cristo fora terrvel e que semelhante insulto provocava
em todos os pases do mundo  um duelo de morte. Ora, Albert
regressava so e salvo; portanto, o conde estava vingado.

Um claro de indizvel alegria iluminou aquele rosto lgubre,
como acontece com o ltimo raio de Sol antes de desaparecer
nas nuvens, que parecem menos a cama do que o tmulo do
astro-rei.

Mas, como j dissemos, esperou em vo que o jovem subisse aos
seus aposentos para lhe dar conta do seu triunfo. Que o filho,
antes do combate, no tivesse querido ver o pai, cuja honra ia
vingar, compreendia-se; mas uma vez a honra do pai vingada,
porque no vinha esse filho lanar-se-lhe nos braos?

Foi ento que o conde, no podendo ver Albert, mandara chamar
o seu criado. Sabemos que Albert o autorizou a nada ocultar ao
conde.

Dez minutos depois, viu-se aparecer na escadaria da entrada o
general de Morcerf, de sobrecasaca preta com gola militar,
calcas e luvas tambm pretas. Dera, ao que parece, ordens
anteriores, pois assim que ps o p no ltimo degrau da
escadaria, a sua carruagem, completamente atrelada, saiu da
cocheira e veio parar diante dele.

O seu criado de quarto veio ento depositar na carruagem um
capote militar, que envolvia duas espadas. Em seguida fechou a
portinhola e sentou-se ao lado do cocheiro.

O cocheiro inclinou-se diante da calea para pedir ordens.

- Aos Campos Elsios, a casa do conde de Monte-Cristo -
ordenou o general. - Depressa!

Os cavalos saltaram debaixo do chicote; cinco minutos depois
paravam diante da casa do conde.

O Sr. de Morcerf abriu pessoalmente a portinhola, com a
carruagem ainda a rodar, e saltou como um rapaz na alameda
lateral, tocou e desapareceu na porta escancarada com o seu
criado.

Um segundo mais tarde, Baptistin anunciava ao Sr. de
Monte-Cristo o conde de Morcerf, e Monte-Cristo,
fazendo sair Hayde, ordenou que mandassem entrar na sala o
conde de Morcerf.

O general media pela terceira vez a sala em todo o seu
comprimento quando, virando-se, viu Monte-Cristo de p no
limiar.

- Ah,  o Sr. de Morcerf! - disse tranquilamente
Monte-Cristo. - Julgava ter ouvido mal.

- Sim, sou eu - redarguiu o conde, com uma horrvel contraco
de lbios que o impedia de articular claramente.

- S me resta portanto saber agora - disse Monte-Cristo -  o
motivo que me proporciona o prazer de ver o Sr. Conde de
Morcerf to cedo.

- Teve esta manh um duelo com o meu filho, senhor? -
perguntou o general.

- Sabe disso? - respondeu o conde.

- E tambm sei que o meu filho tinha boas razes para desejar
bater-se com o senhor e fazer tudo o que pudesse para o matar.

- Com efeito, senhor, tinha muito boas razes para isso! Mas,
como v, apesar dessas razes, no me matou, e at nem se
bateu.

- E no entanto considerava-o a causa da desonra do pai, bem
como a causa da runa horrvel em que neste momento mergulha a
minha casa.

-  verdade, senhor - replicou Monte-Cristo, com a sua
terrvel calma. - Causa secundria, evidentemente, e no
principal.

- Decerto lhe apresentou alguma desculpa ou deu qualquer
explicao...

- No lhe dei nenhuma explicao e foi ele quem me apresentou
desculpas.

- A que atribui essa conduta?

-  convico, provavelmente, de que havia em tudo isto um
homem mais culpado do que eu.

- E quem era esse homem?

- O pai.

- Seja - admitiu o conde, empalidecendo. - Mas, como sabe, o
culpado no gosta de ser acusado de culpabilidade.

- Pois sei... Por isso esperava o que acontece neste momento.

- O senhor esperava que o meu filho fosse um cobarde?! -
gritou o conde.

- O Sr. Albert de Morcerf no  um cobarde - redarguiu
Monte-Cristo.

- Um homem que empunha uma espada, um homem que tem ao alcance
dessa espada um inimigo mortal, se esse homem no se bate, 
um cobarde!  pena ele no estar aqui para lho dizer!

- Senhor - respondeu friamente Monte-Cristo --, presumo que
me no veio procurar para me contar as suas pequenas
desavenas familiares. V dizer isso ao Sr. Albert e talvez
ele saiba responder-lhe.

- Oh, no, no, tem razo, no vim para isso! - replicou o
general com um sorriso, que se esfumou to depressa como
aparecera. - Vim para lhe dizer que tambm eu o considero meu
inimigo! Vim para lhe dizer que o odeio instintivamente, que
me parece que sempre o conheci e odiei! E, por ltimo, que,
uma vez que os jovens deste sculo j se no batem,
compete-nos a ns bater-nos... No  desta opinio, senhor?

- Perfeitamente. Por isso, quando lhe disse que previra que
aconteceria isto, era da honra da sua visita que queria falar.

- Tanto melhor... Os seus preparativos esto feitos, ento?

- Esto sempre, senhor.

- Sabe que nos bateremos at  morte de um dos dois? -
perguntou o general, com os dentes apertados pela raiva.

- At  morte de um dos dois - repetiu o conde de
Monte-Cristo, acenando ligeiramente com a cabea de cima a
baixo.

- Vamos ento; no necessitamos de testemunhas.

- Com efeito - disse Monte-Cristo --,  intil.
Conhecemo-nos to bem!...

- Pelo contrrio - redarguiu o conde --, no nos conhecemos de
parte alguma.

- Ora, ora! - exclamou Monte-Cristo com a mesma fleuma
exasperante. - Vejamos um pouco... O senhor no  o soldado
Fernand que desertou na vspera da batalha de Waterloo? No 
o tenente Fernand que serviu de guia e espio ao exrcito
francs em Espanha? No  o coronel Fernand que traiu, vendeu
e assassinou o seu benfeitor Ali? E todos estes reunidos no
constituem o tenente-general conde de Morcerf; par de Frana?

- Oh! - exclamou o general, atingido por estas palavras como
por um ferro em brasa. - Oh, miservel, que me lembras a minha
vergonha no momento em que talvez me vs matar!... No, no
disse que te era desconhecido; sei bem demnio, que penetraste
na noite do passado e leste, ignoro  luz de que archote,
cada pgina da minha vida! Mas talvez ainda haja mais honra em
mim, no meu oprbrio, do que em ti, debaixo das tuas
aparncias pomposas. No, no, conheces-me, bem sei, mas eu
no te conheo, aventureiro coberto de ouro e pedrarias! te
conheo, aventureiro coberto de oro e pedrarias!
Apresentaste-te em Paris como o conde de Monte-Cristo, na
Itlia, como Sim-nome real que te pergunto,  o teu verdadeiro
nome que quero saber, no meio das tuas centenas de nomes, a
fim de o pronunciar no campo da luta, no momento em que te
cravar a minha espada no corao.

O conde de Monte-Cristo empalideceu terrivelmente. Os seus
olhos fulvos incendiaram-se num fogo devorador. Deu um salto
ao gabinete contguo ao seu quarto de cama, e em menos de um
segundo, depois de arrancar a gravata, a sobrecasaca e o
colete, envergou uma blusa de marinheiro e colocou na cabea
um chapu de embarcadio, sob o qual se desenrolaram os seus
longos cabelos negros.

Voltou assim, terrvel, implacvel, caminhando de braos
cruzados ao encontro do general, que no compreendera a que se
devera o seu desaparecimento, que o esperava e que, sentindo
os dentes entrechocarem-se-lhe e as pernas vergarem-se-lhe
debaixo do corpo, recuou um passo e s se deteve quando
encontrou numa mesa um ponto de apoio para a sua mo crispada.

- Fernand! - gritou-lhe Monte-Cristo. - Dos meus cem nomes,
bastar-me-ia dizer-te um s para te fulminar. Mas tu adivinhas
esse nome, no  verdade? Ou antes, recorda-lo. Porque apesar
de todos os meus desgostos, de todas as minhas torturas,
mostro-te hoje uma cara que o prazer da vingana rejuvenesce,
uma cara que deves ter visto muitas vezes nos teus sonhos
depois do teu casamento... com Mercds, minha noiva!

Com a cabea inclinada para trs, as mos estendidas e o olhar
fixo, o general assistiu em silncio ao espectculo.

Depois, procurou o apoio da parede e deslizou lentamente at 
porta, pela qual saiu s arrecuas, deixando escapar apenas
este grito lgubre, lamentoso, dilacerante:

- Edmond Dants!

Em seguida, com suspiros que no tinham nada de humanos,
arrastou-se at ao peristilo da casa, atravessou o ptio como
um brio e caiu nos braos do seu criado de quarto, murmurando
apenas em voz ininteligvel:

- Para o palcio! Para o palcio!

Pelo caminho, o ar fresco e a vergonha que lhe causava a
ateno das pessoas puseram-no em estado de coordenar ideias.
Mas o trajecto foi curto e,  medida que se aproximava de
casa, o conde sentia renovaram-se todos os seus sofrimentos.

A poucos passos de casa, o conde mandou parar e apeou-se.
A porta do palcio estava escancarada. Um fiacre, cujo
cocheiro ficara muito surpreendido por ser chamado quela
magnfica manso, estava parado no meio do ptio. O conde
olhou o fiacre com terror, mas no ousou interrogar ningum e
correu para os seus aposentos.

Duas pessoas desceram a escada e s teve tempo de se esconder
num gabinete para as evitar.

Era Mercds, apoiada no brao do filho; ambos deixavam o
palcio.

Passaram a curta distncia do desventurado, que, oculto atrs
do reposteiro de damasco, foi mesmo assim aflorado pelo
vestido de seda de Mercds e sentiu no rosto o hlito tpido
destas palavras pronunciadas pelo filho:

- Coragem, minha me! Venha, venha, aqui j no  a nossa
casa.

As palavras extinguiram-se e os passos afastaram-se.

O general endireitou-se, suspenso pelas mos crispadas no
reposteiro de damasco. Comprimia o mais horrvel soluo jamais
sado do peito de um pai, abandonado simultaneamente pela
mulher e pelo filho.

No tardou a ouvir bater a portinhola de ferro do fiacre, em
seguida a voz do cocheiro, e depois o rodar da pesada
carruagem fez estremecer os vidros. Ento, correu ao seu
quarto de cama para ver mais uma vez tudo o que amara no
mundo. Mas o fiacre partiu sem que a cabea de Mercds ou de
Albert aparecesse  portinhola para lanar  casa solitria,
ao pai e ao marido abandonado o ltimo olhar, o adeus e o
pesar, isto , o perdo.

Por isso, no momento exacto em que as rodas do fiacre faziam
vibrar o pavimento da abbada soou um tiro e um fumo escuro
saiu por um dos vidros da janela do quarto de cama, quebrado
pela fora da exploso.


Captulo XCIII

Valentine


O leitor j adivinhou aonde  que Morrel tinha de ir e em casa
de quem era o seu encontro.

Sim, logo que deixou Monte-Cristo, Morrel dirigiu-se para
casa de Villefort, caminhando lentamente.

Dizemos lentamente porque Morrel dispunha de mais de meia hora
para percorrer quinhentos passos. Mas, apesar de ter tempo
mais do que suficiente, apressara-se a deixar Monte-Cristo,
pois tinha pressa de ficar s com os seus pensamentos.

Sabia bem qual era a sua hora, aquela em que Valentine
assistia ao pequeno-almoo de Noirtier e estava certa de no
ser perturbada no seu piedoso dever. Noirtier e Valentine
tinham-lhe concedido duas visitas por semana e ele vinha gozar
desse direito.

Quando chegou, Valentine j o esperava. Inquieta, quase
desorientada, pegou-lhe na mo e levou-o  presena do av.
Tal inquietao, levada, como dizemos, quase at 
desorientao, provinha do barulho que a aventura de Morcerf
produzira na sociedade. Sabia-se (na sociedade sabe-se tudo)
do escndalo da pera. Em casa de Villefort ningum duvidava
que um duelo fosse a consequncia forada desse escndalo. Com
o seu instinto de mulher, Valentine adivinhara que Morrel
seria testemunha de Monte-Cristo e, devido  coragem bem
conhecida do jovem e  profunda amizade que ela lhe conhecia
pelo conde, receava que ele se no limitasse ao papel passivo
que lhe competia.

Compreende-se, pois, com que avidez os pormenores da aventura
foram pedidos, dados e recebidos, e Morrel pde ler uma
alegria indizvel nos olhos da sua bem-amada quando ela soube
que o terrvel caso tivera um desfecho no menos feliz do que
inesperado.

- Agora - disse Valentine, fazendo sinal a Morrel para se
sentar ao lado do velho e sentando-se ela mesma no banco onde
repousavam os ps do av --, agora falemos um bocadinho das
nossas coisas. Como sabe, Maximilien, o avozinho teve por
momentos a ideia de deixar esta casa e alugar um apartamento
fora do palcio do Sr. de Villefort...

- Sim, claro - respondeu Maximilien. - Recordo-me desse
projecto e de o ter at aplaudido muito.

- Pois ento - disse Valentine - aplauda-o novamente,
Maximilien porque o avozinho voltou  sua ideia.

- Bravo! - exclamou Maximilien.

- E sabe que razo d o avozinho para deixar esta casa? -
perguntou Valentine.

Noirtier olhava a neta para lhe impor silncio com a vista,
mas Valentine no olhava para Noirtier; os seus olhos e o seu
sorriso eram para Morrel.

- Oh, seja qual for a razo que d o Sr. Noirtier, declaro-a
boa! - exclamou Morrel.

- ptimo - disse Valentine. - Ele pretende que o ar do
Arrabalde Saint-Honor no  bom para mim.

- De facto... - declarou Morrel. - Oua, Valentine: o Sr.
Noirtier talvez tenha razo; h quinze dias que noto que a sua
sade se altera.

- Sim, um bocadinho,  verdade - admitiu Valentine. - Por
isso, o avozinho constituiu-se meu mdico, e como o avozinho
sabe tudo, tenho a maior confiana nele.

- Mas, enfim,  verdade que se sente doente, Valentine? -
perguntou vivamente Morrel.

- Meu Deus, no se pode dizer que me sinta doente; experimento
apenas um mal-estar geral. Perdi o apetite e parece-me que o
meu estmago trava uma luta para se habituar a qualquer coisa.

Noirtier no perdia uma palavra de Valentine.

- E qual  o tratamento que segue contra essa doena
desconhecida?

- Oh, muito simples! - respondeu Valentine. - Tomo todas as
manhs uma colher da poo que do ao meu av. Digo uma
colher, mas a verdade  que comecei por uma e agora j vou em
quatro... O av pretende que  uma panaceia.

Valentine sorria, mas havia algo de triste e sofredor no seu
sorriso.

Maximilien, brio de amor, olhava-a em silncio. Estava linda,
mas a sua palidez adquirira um tom mais macilento, nos seus
olhos brilhava um fogo mais ardente do que de costume e as
suas mos, habitualmente de um branco de madreprola, pareciam
mos de cera que com o tempo adquirissem um tom amarelado.

De Valentine, o jovem olhou para Noirtier, que observava com
estranha e profunda ateno a neta, absorta no seu amor.
Tambm o velho, como Morrel, notava aqueles vestgios de um
sofrimento surdo, to pouco visveis, alis, que tinham
escapado aos olhos de todos, excepto aos do av e do
apaixonado.

- Mas essa poo, de que j vai em quatro colheres, creio ter
sido receitada ao Sr. Noirtier... - observou Morrel.

-  verdade - respondeu Valentine. - E  muito amarga... To
amarga que tudo o que bebo depois me parece ter o mesmo gosto.

Noirtier olhou a neta com ar interrogador.

- Sim, avozinho - confirmou Valentine --,  como lhe digo.
Ainda h bocado, antes de descer, bebi um copo de gua
aucarada. Pois tive de desistir a meio, de tal forma a gua
me pareceu amarga.

Noirtier empalideceu e fez sinal de que queria falar.

Valentine levantou-se para ir buscar o dicionrio.

Noirtier seguiu-a com a vista, visivelmente angustiado.

Com efeito, o sangue subia  cabea da jovem, coloria-lhe as
faces.

-  singular: um deslumbramento! -- exclamou Valentine, sem
perder nada da sua boa disposio. - Como  que o sol me bateu
nos olhos?...

E apoiou-se no parapeito da janela.

- No h sol - disse Morrel, ainda mais inquieto com a
expresso de Noirtier do que com a indisposio de Valentine.

Correu para ela.

A jovem sorriu.

- Sossegue, av - disse a Noirtier. - Tranquilize-se,
Maximilien. Isto no  nada e j passou. Mas ouam: no  o
barulho de uma carruagem que ouo no ptio?

Abriu a porta de Noirtier, correu  janela do corredor e
voltou precipitadamente.

- Sim - disse --,  a Sr.a Danglars e a filha que nos vm
visitar. Adeus, vou-me embora antes que me venham procurar
aqui; isto , at breve, fique com o avozinho, Maximilien,
pois prometo no me demorar.

Morrel seguiu-a com a vista, viu-a fechar a porta e ouviu-a
subir a escadinha que levava simultaneamente aos aposentos da
Sr.a de Villefort e aos dela prpria.

Logo que a jovem desapareceu, Noirtier fez sinal a Morrel para
ir buscar o dicionrio. Morrel obedeceu. Orientado por
Valentine, depressa se habituara a compreender o velho.

No entanto, por mais prtico que estivesse, como era preciso
passar em revista parte das vinte e quatro letras do alfabeto
e encontrar cada palavra no dicionrio, s ao cabo de dez
minutos o pensamento do velho foi traduzido por estas
palavras:

"Mande buscar o copo de gua e a garrafa que esto no quarto
de Valentine."

Morrel chamou imediatamente o criado que substitura Barrois
e, em nome de Noirtier, deu-lhe aquela ordem.

O criado regressou pouco depois.

A garrafa e o copo estavam completamente vazios.

Noirtier fez sinal de que queria falar.

- Por que motivo esto o copo e a garrafa vazios? -
perguntou. - Valentine disse que s bebeu metade do copo.

A traduo desta nova pergunta levou mais cinco minutos.

- No sei - respondeu o criado. - Mas a criada de quarto est
nos aposentos de Mademoiselle Valentine. Foi talvez ela quem
os despejou.

- Pergunte-lhe - disse Morrel, traduzindo desta vez o
pensamento de Noirtier pelo olhar.

O criado saiu e voltou quase imediatamente.

- Mademoiselle Valentine passou pelo seu quarto para ir ao da
Sr.a de Villefort - informou. - E ao passar, como tinha sede,
bebeu o que restava no copo. Quanto  garrafa, o Sr. douard
despejou-a para fazer um lago para os seus
canrios.

Noirtier ergueu os olhos ao cu como um jogador que arrisca
numa jogada tudo o que possui.

Em seguida, os olhos do velho fixaram-se na porta e no
deixaram mais essa direco.

Fora, com efeito, a Sr.a Danglars e a filha que Valentine
vira. Tinham-nas conduzido ao quarto da Sr.a de Villefort, que
dissera receb-las nos seus aposentos. Por isso, Valentine
passara pelo seu quarto, que ficava no mesmo andar do da
madrasta, apenas separados pelo de douard.

As duas mulheres entraram com essa espcie de rigidez oficial
que faz pressagiar uma comunicao.

Entre pessoas do mesmo nvel social, um pequeno cambiante 
imediatamente notado. A Sr.a de Villefort correspondeu quela
solenidade com igual solenidade.

Nesse momento entrou Valentine, e as reverncias recomearam.

- Cara amiga - disse a baronesa, enquanto as duas jovens davam
as mos --, venho com Eugnie anunciar-lhe em primeira mo o
prximo casamento da minha filha com o prncipe Cavalcanti.

Danglars mantivera o ttulo de prncipe. O banqueiro popular
achara que isso era melhor do que conde.

- Ento, permita que lhe d os meus sinceros parabns
respondeu a Sr.a de Villefort. - O Sr. Prncipe Cavalcanti
parece-me um rapaz cheio de raras qualidades.

- Bom - disse a baronesa, sorrindo --, falando como amigas,
devo dizer-lhe que o prncipe no nos parece ser ainda o que
ser. H nele um pouco dessa extravagncia que nos permite a
ns, Franceses, reconhecer ao primeiro olhar um gentil-homem
italiano ou alemo. No entanto, revela um excelente corao,
muita delicadeza de esprito, e quanto a vantagens, o Sr.
Danglars afirma que a sua fortuna  majestosa;  esta a sua
palavra.

- Alm disso - interveio Eugnie, folheando o lbum da Sr.a de
Villefort --, acrescente, minha senhora, que tem uma
inclinao muito especial por esse rapaz.

- Claro que escuso de lhe perguntar se partilha essa
inclinao... - insinuou a Sr.a de Villefort.

- Eu?!-respondeu Eugnie com a sua habitual altivez. - Oh, de
modo nenhum, minha senhora! A minha vocao era no me
acorrentar aos cuidados de um lar ou aos caprichos de um
homem, fosse qual fosse. A minha vocao era ser artista e
consequentemente livre de corao, de corpo e de pensamento.

Eugnie pronunciou estas palavras em tom to vibrante e firme
que o rubor subiu  cara de Valentine. A tmida rapariga no
podia compreender aquela natureza enrgica, que parecia no
possuir nenhum dos complexos da mulher.

- De resto - continuou Eugnie --, j que o meu destino 
casar, quer queira, quer no, devo agradecer  Providncia
ter-me ao menos proporcionado os desdns do Sr. Albert de
Morcerf, sem essa Providncia, seria hoje a mulher de um homem
desonrado.

-  de facto assim - confirmou a baronesa, com a estranha
ingenuidade que se encontra por vezes nas grandes damas e que
o convvio rotineiro lhes no consegue fazer perder por
completo. - Sem essa hesitao dos Morcerfs, a minha filha
casaria com o Sr. Albert. O general fazia muito empenho no
casamento e at veio pressionar o Sr. Danglars. Escapmos de
boa!

- Mas ento toda essa vergonha do pai recai sobre o filho? -
perguntou timidamente Valentine. - O Sr. Albert parece-me
completamente inocente de todas essas traies do general.

- Perdo, querida amiga - atalhou a implacvel Eugnie mas o
Sr. Albert reclamou e merece a sua parle nessas traies.
Parece que depois de ter provocado ontem o Sr. de
Monte-Cristo na pera lhe apresentou hoje desculpas no campo
da honra.

- Impossvel! - exclamou a Sr.a de Villefort.

- Ah, querida amiga - interveio a Sr.a Danglars com a mesma
ingenuidade que j lhe apontamos --,  absolutamente verdade!
Soube-o pelo Sr. Debray, que assistiu  explicao.

Valentine tambm conhecia a verdade, mas no se pronunciou.
Atrada por uma palavra s suas recordaes, encontrava-se em
pensamento no quarto de Noirtier, onde a esperava Maximilien.

Absorta nessa espcie de contemplao intima, Valentine havia
um instante que deixara de tomar parte na conversa; ser-lhe-ia
at impossvel repetir o que fora dito nos ltimos minutos,
quando de sbito a mo da Sr.a Danglars, apoiando-se no seu
brao, a tirou do seu devaneio.

- Que disse, minha senhora? - perguntou Valentine,
estremecendo ao contacto dos dedos da Sr.a Danglars como
estremeceria a um contacto elctrico.

- Disse, minha querida Valentine, que decerto no est bem...

- Eu? - redarguiu a jovem, passando a mo pela testa
escaldante.

- Sim. Veja-se naquele espelho. Corou e empalideceu
sucessivamente trs ou quatro vezes no espao de um minuto.

- De facto, ests muito plida! - exclamou Eugnie.

- Oh, no te preocupes, Eugnie! Ando assim h uns dias.
E por menos experiente que fosse, a jovem compreendeu que era
ocasio de sair. Alis, a Sr.a de Villefort veio em seu
auxlio.

- Retire-se, Valentine - disse. - Est realmente doente e
estas senhoras dignar-se-o desculp-la. Beba um copo de gua
pura e ficar melhor.

Valentine beijou Eugnie, cumprimentou a Sr.a Danglars, j
levantada para se retirar, e saiu.

- Esta pobre criana - disse a Sr.a de Villefort depois de
Valentine sair - preocupa-me seriamente e no me admiraria
nada se lhe acontecesse algum acidente grave.

Entretanto, Valentine, numa espcie de exaltao de que se no
dava conta, atravessara o quarto de douard sem responder a
no sei que travessura do garoto e, atravs do seu quarto,
chegara  escadinha. Descera todos os degraus, excepto os trs
ltimos, e ouvia j a voz de Morrel quando de sbito lhe
passou uma nuvem pelos olhos, o seu p hirto falhou o degrau,
as suas mos no tiveram fora para se agarrar ao corrimo e,
roando pela parede, rolou, mais do que desceu, do cimo dos
trs ltimos degraus.

Morrel abriu a porta de um salto e encontrou Valentine
estendida no patamar.

Rpido como o relmpago, levantou-a nos braos e sentou-a numa
poltrona. Valentine abriu os olhos.

- Oh, que grande desajeitada! - exclamou com febril
volubilidade. - J no sei o que fao... esqueci-me de que
havia mais trs degraus antes do patamar!

- Feriu-se, Valentine? - perguntou Morrel. - Oh, meu Deus, meu
Deus!

Valentine olhou  sua volta e viu o mais profundo terror
pintado nos olhos de Noirtier.

- Sossega, avozinho - disse, procurando sorrir. - No foi
nada, no foi nada... Foi apenas uma tontura.

- Mais uma vertigem! - exclamou Morrel, juntando as mos. -
Oh, tenha cuidado com isso, Valentine, suplico-lhe!

- Mas porqu, porqu, se lhe digo que tudo passou e no foi
nada? - redarguiu Valentine. - Agora deixem-me dar-lhes uma
novidade: Eugnie casa-se dentro de oito dias e daqui a trs
dias haver uma espcie de grande festim, um banquete de
noivado. Estamos todos convidados, o meu pai, a Sr.a de
Villefort e eu... Foi pelo menos o que deduzi.

- Quando ser a nossa vez de nos ocuparmos desses pormenores?
- suspirou Maximilien. - Oh, Valentine, j que tem tanto poder
sobre o nosso avozinho, procure que ele lhe responda: "Em
breve!"

- Quer dizer que conta comigo para estimular a lentido e
despertar a memria do avozinho? - perguntou Valentine.

- Claro! - exclamou Morrel. - Meu Deus, meu Deus, apresse-se.
Enquanto no for minha, Valentine, parecer-me- sempre que me
vai fugir.

- Oh! - exclamou Valentine num gesto convulsivo. - Oh, na
verdade, Maximilien,  demasiado tmido para um oficial, para
um soldado que, segundo dizem, nunca conheceu o medo... Ah,
ah, ah!

E rompeu num riso estridente e doloroso. Os braos
retesaram-se-lhe e contorceram-se, a cabea caiu-lhe para trs
na poltrona e ficou imvel.

O grito de terror que Deus acorrentava nos lbios de Noirtier
brotou-lhe do olhar.

Morrei compreendeu: era urgente pedir socorro.

O rapaz agarrou-se  campainha. A criada de quarto que estava
nos aposentos de Valentine e o criado que substitura Barrois
acorreram simultaneamente.

Valentine estava to plida, to fria e to inanimada que, sem
escutarem o que lhes diziam, se deixaram dominar pelo medo que
velava constantemente sobre aquela casa maldita e saram para
os corredores a gritar por socorro.

A Sr.a Danglars e Eugnie retiravam-se naquele preciso
instante, mas puderam ainda saber a causa de todo aquele
rebulio.

- Bem lhes tinha dito! - exclamou a Sr.a de Villefort. - Pobre
criana!


Captulo XCIV

A confisso


No mesmo instante ouviu-se a voz do Sr. de Villefort, que
gritava do seu gabinete:

- Que se passa?

Morrel consultou com o olhar Noirtier, que acabava de
recuperar todo o seu sangue-frio e num relance de olhos lhe
indicou o gabinete onde j uma vez, em circunstncias mais ou
menos semelhantes, o rapaz se escondera.

S teve tempo de pegar no chapu e correr para l, arquejante.
J se ouviam os passos do procurador rgio no corredor.

Villefort precipitou-se no quarto, correu para Valentine e
tomou-a nos braos.

- Um mdico! Um mdico!... O Sr. de Avrigny! - gritou
Villefort. - Ou antes, vou eu mesmo busc-lo.

E correu para fora da sala.

Pela outra porta corria Morrel.

Acabava de ser ferido no corao por uma horrvel lembrana: a
conversa entre Villefort e o mdico que ouvira na noite da
morte da Sr.a de Saint-Mran, e que lhe acudia agora 
memria. Aqueles sintomas, num grau menos assustador, eram
tambm os mesmos que haviam precedido a morte de Barrois.

Ao mesmo tempo, parecera-lhe sussurrar-lhe ao ouvido a voz de
Monte-Cristo quando lhe dissera, havia apenas duas horas: "Se
precisar de alguma coisa, Morrel, venha ter comigo. Eu posso
muito..."

Mais rpido do que o pensamento, correu portanto do Arrabalde
Saint-Honor para a Rua Matignon e da Rua Matignon para a
Avenida dos Campos Elsios.

Entretanto, o Sr. de Villefort chegava num cabriol de praa 
porta do Sr. de Avrigny. Tocou com tanta violncia que o
porteiro veio abrir com ar assustado. Villefort correu para a
escada sem foras para falar. Mas o porteiro conhecia-o e
deixou-o passar, gritando apenas:

- No gabinete, Sr. Procurador Rgio! No gabinete!

Villefort empurrava j, ou antes, metia a porta dentro.

- Ah,  o senhor!... - exclamou o mdico.

- Pois sou - respondeu Villefort fechando a porta atrs de si.
- Pois sou, doutor, sou eu que lhe venho perguntar agora se
estamos bem ss. Doutor, a minha casa  uma casa amaldioada!

- O qu, tem mais algum doente? - perguntou o mdico com
aparente frieza, mas com profunda emoo interior.

- Tenho, doutor! - gritou Villefort, agarrando com a mo
convulsa um punhado de cabelos. - Tenho!

O olhar de Avrigny significou: "Tinha-lho predito.."

Depois os seus lbios proferiram lentamente estas palavras:

- Quem vai morrer em sua casa e que nova vtima nos vai acusar
de fraqueza perante Deus?

Um soluo doloroso brotou do corao de Villefort.
Aproximou-se do mdico, agarrou-lhe o brao e respondeu:

- Valentine! Chegou a vez de Valentine!

- A sua filha?! - exclamou Avrigny, fulminado de dor e
surpresa.

- Como v, estava enganado - murmurou o magistrado. - Venha
v-la e pea-lhe perdo no seu leito de dor por ter
desconfiado dela.

- Todas as vezes que me chamou era demasiado tarde - observou
o Sr. de Avrigny. - Mas no importa, vamos. No entanto,
apressemo-nos, senhor, pois com os inimigos que atacam em sua
casa no h tempo a perder.

- Oh, desta vez, doutor, no me censurar mais a minha
fraqueza! Desta vez saberei quem  o assassino e
castig-lo-ei.

- Tentemos salvar a vitima antes de pensarmos em a vingar -
redarguiu Avrigny. - Venha.

E o cabriol que trouxera Villefort levou-o a galope,
acompanhado de Avrigny, no preciso instante em que pela sua
parte Morrel batia  porta de Monte-Cristo.

O conde estava no seu gabinete e lia, muito preocupado, um
bilhete que Bertuccio acabava de lhe enviar  pressa.

Ao ouvir anunciar Morrel, que o deixara havia apenas duas
horas, o conde levantou a cabea.

Tinham decerto acontecido muitas coisas naquelas duas horas,
pois o jovem que o deixara de sorriso nos lbios trazia o
rosto transtornado.

O conde levantou-se e foi ao encontro de Morrel.

- Que aconteceu, Maximilien? - perguntou-lhe. - Est plido e
tem a testa coberta de suor...

Morrel mais se deixou cair do que se sentou numa poltrona.

- Sim, vim depressa porque necessitava de lhe falar - disse
por mim.

- Esto todos bem na sua famlia? - perguntou o conde, num tom
de interesse afectuoso, cuja sinceridade no enganaria
ningum.

- Obrigado, conde, obrigado - respondeu o rapaz, visivelmente
embaraado para comear a conversa. - Sim, na minha famlia
esto todos bem.

- Tanto melhor. No entanto, tem alguma coisa a dizer-me? -
insistiu o conde, cada vez mais inquieto.

- Tenho - respondeu Morrel. - A verdade  que acabo de sair de
uma casa onde a morte acabava de entrar e s tive tempo de
correr para aqui.

- Vem portanto de casa do Sr. de Morcerf? - perguntou
Monte-Cristo.

- No - respondeu Morrel. - Morreu algum em casa do Sr. de
Morcerf?

- O general acaba de se suicidar - respondeu Monte-Cristo.

- Oh, que horrvel desgraa! - exclamou Maximilien.

- Mas no para a condessa nem para Albert - observou
Monte-Cristo. - Mais vale um pai e um marido mortos do que um
pai e um marido desonrados. Sangue lava a desonra.

- Pobre condessa! - disse Maximilien. -   ela quem mais
lamento. Uma mulher to nobre!

- Lamente tambm Albert, Maximilien, porque, acredite,  digno
filho da condessa. Mas voltemos ao que o traz por c. Correu
para aqui, disse-me. Terei a sorte de precisar de mim?

- Sim, preciso do senhor, isto , acreditei como um insensato
que me poderia ajudar numa circunstncia em que s Deus me
pode valer.

- Diga sempre - respondeu Monte-Cristo.

- Oh, no sei, na verdade, se me ser permitido revelar
semelhante segredo a ouvidos humanos! Mas a necessidade e a
fatalidade obrigam-me a isso, conde.

Morrel calou-se por momentos.

- Acredita que o estimo? - perguntou Monte-Cristo, pegando
afectuosamente na mo do rapaz.

- Oh, o senhor encoraja-me e depois qualquer coisa me diz aqui
- e Morrel ps a mo no corao - que no devo ter segredos
para o senhor.

- Tem razo, Morrel.  Deus que fala ao seu corao e  o seu
corao que lhe fala. Repita-me tudo o que lhe disse o seu
corao.

- Conde, permite-me que mande Baptistin pedir da sua parte
notcias de algum que o senhor conhece?

- Se me pus  sua disposio, com mais forte razo ponho os
meus criados. - Oh,  que no viverei enquanto no tiver a
certeza de que ela est melhor!

- Quer que chame Baptistin?

- No, eu prprio falo com ele.

Morrel saiu, chamou Baptistin e disse-lhe algumas palavras em
voz baixa. O criado de quarto saiu a correr.

- Ento, j o mandou? - perguntou Monte-Cristo ao ver entrar
Morrel.

- Sim e espero ficar um pouco mais tranquilo.

- Estou  espera de ouvir o que tem para me dizer - lembrou
Monte-Cristo, sorrindo.

- Tem razo, escute. Uma noite encontrava-me num jardim,
escondido por um renque de rvores, e ningum desconfiava da
minha presena ali. Duas pessoas passaram perto de mim.
Permita-me que cale provisoriamente os seus nomes.
Conversavam em voz baixa e no entanto eu tinha tanto interesse
em ouvir as suas palavras que no perdia uma s das que
diziam.

- O caso anuncia-se lugubremente, a julgar pela sua palidez e
pela sua emoo, Morrel.

- Oh, sim, muito lugubremente, meu amigo! Acabava de morrer
algum em casa do dono do jardim onde me encontrava. Uma das
duas pessoas cuja conversa escutava era o dono do jardim e a
outra o mdico. ora, o primeiro confiava ao segundo os seus
receios e os seus desgostos, porque era a segunda vez no
espao de um ms que a morte se abatia, rpida e imprevista,
sobre aquela casa, que dir-se-ia designada por algum anjo
exterminador  clera de Deus.

- Ah, ah! - exclamou Monte-Cristo, olhando fixamente o rapaz
e virando a sua poltrona num movimento imperceptvel, de forma
a ficar na sombra, enquanto a luz batia na cara de Maximilien.

- Sim - continuou este --, a morte entrara duas vezes naquela
casa no espao de um ms.

- E que respondia o mdico? - perguntou Monte-Cristo.

- Respondia... respondia que aquela morte no fora natural e
que era necessrio atribu-la...

- A qu?

- Ao veneno!

- Deveras? - disse Monte-Cristo, com a tossezinha ligeira que
nos momentos de grande emoo lhe servia para disfarar quer o
seu rubor, quer a sua palidez, quer ainda a prpria ateno
com que ouvia.

- Maximilicn, ouviu realmente dizer isso?

- Ouvi, meu caro conde, ouvi, e o mdico acrescentou que se o
caso se repetisse se julgaria obrigado a comunic-lo 
justia.

Monte-Cristo escutava ou parecia escutar com a maior calma.

- Pois bem - prosseguiu Maximilien --, a morte feriu terceira
vez e nem o dono da casa nem o mdico fizeram nada. Agora a
morte vai ferir talvez pela quarta vez. A que lhe parece que o
conhecimento deste segredo me obriga?

- Meu caro amigo - disse Monte-Cristo --, parece-me que acaba
de contar uma a ventura que ambos sabemos de cor. Conheo a
casa onde ouviu isso, ou pelo menos conheo uma idntica; uma
casa onde h um jardim, um chefe de famlia, um mdico... uma
casa onde se verificaram trs mortes estranhas e
inesperadas... Bom, olhe para mim, que no interceptei nenhuma
confidncia,  mas que no entanto sei tudo isso to bem como
o senhor; tenho porventura escrpulos de conscincia? No!
Isso no me diz respeito. Diz que um anjo exterminador parece
designar essa casa  clera do Senhor; pois bem, quem lhe
garante que a sua suposio no  uma realidade? No veja as
coisas que no querem ver aqueles que tm interesse em v-las.
Se for a justia e no a clera de Deus, no passeie por essa
casa, Maximilien, vire a cara e deixe passar a justia de
Deus.

Morrel estremeceu. Havia qualquer coisa ao mesmo tempo lgubre
e solene, para no dizer terrvel, no tom do conde.

- Alis - prosseguiu este numa voz to diferente que dir-se-ia
que estas ltimas palavras no saram da boca do mesmo homem.
- Alis, quem lhe garante que isso continuar?

- J continuou, conde! - exclamou Morrel. - Por isso corri
para sua casa.

- Bom, que quer que eu faa, Morrel? Quer por acaso que
previna o procurador rgio?

Monte-Cristo articulou estas ltimas palavras com tanta
clareza e em tom to vibrante que Morrel se levantou de sbito
e gritou:

- Conde! Conde, o senhor sabe de quem estou a falar, no
sabe?!

- Perfeitamente, meu bom amigo, e vou provar-lho pondo os
pontos nos ii, ou antes, dando os nomes aos homens. O senhor
passeou uma noite no jardim do Sr. de Villefort. De acordo com
o que me disse, presumo que foi na noite da morte da Sr.a de
Saint-Mran. Ouviu o Sr. de Villefort conversar com o Sr. de
Avrigny da morte do Sr. de Saint-Mran e da no menos
surpreendente da marquesa. O Sr. de Avrigny dizia que
acreditava num envenenamento e at em dois envenenamentos. E
ei-lo, meu caro Maximilien, homem honesto por excelncia,
ei-lo desde esse momento ocupado a tactear o seu corao, a
sondar a sua conscincia, para saber se deve revelar esse
segredo ou cal-lo. J no estamos na Idade Mdia, caro amigo,
e j no existe Santa Vehme nem juzes francos. Que diabo
pretende dessa gente? "Conscincia, que me queres?", como diz
Sterne. Vamos, meu caro, deixe-os dormir se dormem, deixe-os
empalidecer nas suas insnias, se tm insnias, e, pelo amor
de Deus, durma, visto no ter remorsos que o impeam de
dormir.

Uma dor horrvel transpareceu no rosto de Morrel, que pegou na
mo do conde e repetiu:

- Mas aquilo continua!

- E ento? - redarguiu o conde, surpreendido com aquela
insistncia que no compreendia e olhando Maximilien
atentamente. - Deixe continuar.  uma famlia de Atridas; Deus
condenou-os e cumpriro a sentena; desaparecero todos como
aqueles frades que as crianas fazem com cartas dobradas e que
caem um aps outro sob o sopro do seu criador, mesmo que sejam
duzentos. Foi o Sr. de Saint-Mran h trs meses; foi a Sr.a
de Saint-Mran h dois meses; foi Barrois no outro dia, e
hoje  o velho Noirtier ou a jovem Valentine.

- O senhor sabia?! - exclamou Morrel, num tal paroxismo de
terror que Monte-Cristo estremeceu, ele que ficaria
impassvel se o cu desabasse. - O senhor sabia e no dizia
nada!

- Que me interessava? - respondeu Monte-Cristo, encolhendo os
ombros. - Conheo porventura essa gente, para salvar um 
custa de perder outro? Palavra que entre o culpado e a vtima
no tenho preferncia.

- Mas eu, eu ! - gritou Morrel, mal podendo conter a sua dor.
- Eu amo-a!

- Ama quem? - perguntou Monte-Cristo, pondo-se em p de um
salto e agarrando as mos que Morrel erguia, torcendo-as, para
o cu.

- Amo perdidamente, amo como um insensato, amo como um homem
que daria todo o seu sangue para lhe poupar uma lgrima; amo
Valentine de Villefort, que esto a assassinar neste momento!
Oua bem: amo-a e pergunto a Deus e ao senhor como hei-de
salv-la!

Monte-Cristo soltou um grito selvagem, do qual s podero
fazer ideia aqueles que j ouviram o rugido do leo ferido.

- Desgraado! - exclamou torcendo as mos por sua vez. -
Desgraado! Amas Valentine, amas essa filha de uma raa
maldita?!

Nunca Morrel vira semelhante expresso; nunca olhar to
terrvel chamejara diante de si; nunca o gnio do terror, que
tantas vezes vira surgir nos campos de batalha ou nas noites
homicidas da Arglia, lanara  sua volta raios mais
sinistros.

Recuou apavorado.

Quanto a Monte-Cristo, depois desta exploso fechou um
momento os olhos, como que deslumbrado por relmpagos
interiores, e entretanto recolheu-se com tanta fora que se
viu acalmar pouco a pouco a agitao que lhe fazia ondular o
peito repleto de tempestades, como depois da passagem da nuvem
negra carregada de chuva o sol doura as vagas turbulentas e
espumosas.

Aquele silncio, aquele recolhimento, aquela luta duraram
cerca de vinte segundos.

Depois o conde ergueu a fronte plida.

- Veja - disse numa voz j quase normal --, veja, caro amigo,
como Deus sabe castigar com a sua indiferena os homens mais
fanfarres e mais frios perante os espectculos terrveis que
lhes proporciona. Eu que assistia, impassvel e curioso, ao
desenrolar dessa lgubre tragdia; eu que, como o anjo mau,
ria do mal que os homens praticam em segredo (e o segredo 
fcil de guardar aos ricos e aos poderosos), sinto-me por
minha vez mordido por essa serpente cujo movimento tortuoso
observava, e mordido no corao!

Morrel soltou um gemido abafado.

- Vamos, vamos, basta de queixumes - continuou o conde. - Seja
homem, seja forte, tenha esperana, porque eu estou aqui e
velo por si.

Morrel abanou tristemente a cabea.

- Disse-lhe que tivesse esperana! Compreendeu? -
impacientou-se Monte-Cristo. - Sabe muito bem que nunca
minto, que nunca me engano.  meio-dia, Maximilien; d graas
a Deus por ter vindo ao meio-dia em vez de vir  noite, em vez
de vir amanh de manh. Oua o que lhe vou dizer, Morrel: 
meio-dia; se Valentine no morreu at agora, no morrer.

- Oh, meu Deus, meu Deus! - exclamou Morrel. - Mas se a deixei
moribunda!

Monte-Cristo levou uma das mos  testa.

Que se passou naquela cabea to carregada de segredos
horrveis?

Que disse quele esprito simultaneamente implacvel e humano
o anjo da luz ou o anjo das trevas?

S Deus o sabia!

Monte-Cristo levantou a cabea mais uma vez, e desta vez
estava to calmo como uma criana ao acordar.

- Maximilien - disse --, volte tranquilamente para casa.
Recomendo-lhe que no d um passo, que no tente nenhuma
diligncia, que no consinta que lhe tolde o rosto a sombra de
uma preocupao. Dar-lhe-ei notcias. V.

- Meu Deus! Meu Deus! - exclamou Morrel. - O senhor assusta-me
conde, com esse sangue-frio. Pode alguma coisa contra a morte?
 mais do que um homem?  um anjo?  Deus?

E o jovem, que nenhum perigo fizera recuar um passo, recuava
diante de Monte-Cristo, dominado por indizvel terror.

Mas Monte-Cristo olhou-o com um sorriso ao mesmo tempo to
melanclico e meigo que Maximilien sentiu as lgrimas
virem-lhe aos olhos.

- Posso muito, meu amigo - respondeu o conde. - V, tenho
necessidade de estar s.

Morrel, subjugado pelo prodigioso ascendente que Monte-Cristo
exercia sobre tudo o que o rodeava, nem sequer tentou
subtrair-se-lhe. Apertou a mo ao conde e saiu.

Somente  porta se deteve para esperar Baptistin, que acabava
de ver aparecer  esquina da Rua Matignon e que regressava a
correr.

Entretanto, Villefort e Avrigny tinham-se apressado. Quando
chegaram, Valentine continuava desmaiada e o mdico observara
a doente com o cuidado que as circunstncias exigiam e com a
profundidade imposta pelo seu conhecimento do segredo da
doena.

Suspenso do olhar e dos lbios do mdico, Villefort aguardava
do resultado do exame. Noirtier, mais plido do que a jovem e
mais ansioso por uma soluo do que o prprio Villefort,
esperava igualmente e tudo nele era inteligncia e
sensibilidade.

Por fim, Avrigny disse lentamente:

- Ainda vive.

- Ainda! - exclamou Villefort. - Oh, doutor, que palavra
terrvel acaba de pronunciar!

- Sim - disse o mdico --, e repito a minha frase: ainda vive,
o que me surpreende muito.

- Mas salva-se? - perguntou o pai.

- Salva, visto ainda estar viva.

Neste momento, o olhar de Avrigny encontrou o de Noirtier, no
qual brilhava uma alegria to extraordinria e uma
inteligncia de tal modo rica e fecunda que o mdico ficou
impressionado.

Deixou a jovem voltar a cair na poltrona (Valentine tinha os
lbios to plidos que mal se distinguiam no rosto) e ficou
imvel a olhar para Noirtier, para quem qualquer gesto do
mdico se revestia de excepcional importncia.

- Senhor - disse ento Avrigny a Villefort --, chame a criada
de quarto de Mademoiselle Valentine, por favor.

Villefort largou a cabea da filha, que amparava, e correu ele
prprio a chamar a criada.

Assim que Villefort fechou a porta, Avrigny aproximou-se de
Noirtier.

- Tem alguma coisa a dizer-me? - perguntou.

O velho piscou expressivamente os olhos. Era, lembramos, o
nico sinal afirmativo que tinha  sua disposio.

- S a mim?

- Sim - respondeu Noirtier.

- Bom, ficarei consigo.

Neste momento, Villefort regressou seguido da criada de
quarto. Atrs desta vinha a Sr.a de Villefort.

- Mas que aconteceu a esta querida filha?! - exclamou. -
Quando me deixou queixava-se de estar indisposta, mas nunca
imaginei que o caso fosse to grave.

E a jovem senhora, com as lgrimas nos olhos e todas as
mostras de afeio de uma verdadeira me, aproximou-se de
Valentine e pegou-lhe na mo.

Avrigny continuou a fitar Noirtier. Viu os olhos do velho
dilatarem-se e arregalarem-se, as faces tornarem-se-lhe
lvidas e tremer; o suor perlou-lhe a testa.

- Ah! - exclamou involuntariamente o mdico, seguindo a
direco do olhar de Noirtier, isto , pousando os olhos na
Sr.a de Villefort, que repetia:

- Esta pobre criana estar melhor na cama. Venha, Fanny,
vamos deit-la.

O Sr. de Avrigny, que via nesta proposta um meio de ficar s
com Noirtier acenou com a cabea a significar que era
efectivamente o melhor que havia a fazer, mas proibiu que a
doente tomasse fosse o que fosse sem ele ordenar.

Levaram Valentine, que recuperara os sentidos, mas que se
encontrava incapaz de agir e quase de falar, de tal modo tinha
os membros quebrados pelo abalo que acabava de experimentar.
No entanto, ainda teve foras para se despedir com a vista do
av, a quem pareciam arrancar a alma levando-a.

Avrigny seguiu a doente, receitou e ordenou a Villefort que se
metesse num cabriol e fosse pessoalmente  farmcia mandar
preparar na sua presena as poes prescritas, as trouxesse
ele mesmo e o esperasse no quarto da filha.

Em seguida, depois de renovar a ordem de nada deixarem tomar a
Valentine, voltou a descer aos aposentos de Noirtier, fechou
cuidadosamente as portas e disse, depois de se assegurar que
ningum os escutava:

- Vejamos, sabe alguma coisa acerca da doena da sua neta?

- Sei - respondeu o velho.

- Oua, no temos tempo a perder. Vou interrog-lo e o senhor
vai-me responder.

Noirtier fez sinal de que estava pronto para isso.

- Previu o acidente que aconteceu hoje a Valentine?

- Previ.

Avrigny reflectiu um instante e acrescentou, aproximando-se de
Noirtier:

- Perdoe-me o que lhe vou dizer, mas nenhum indcio deve ser
esquecido na situao terrvel em que nos encontramos. Viu
morrer o pobre Barrois?

Noirtier ergueu os olhos ao cu.

- Sabe de que morreu? - perguntou Avrigny, pousando a mo no
ombro de Noirtier.

- Sei - respondeu o velho.

- Acha que a sua morte foi natural?

Qualquer coisa como um sorriso esboou-se nos lbios inertes
de Noirtier.

- Nesse caso, ocorreu-lhe a ideia de Barrois ter sido
envenenado?

- Sim.

- Parece-lhe que o veneno que o vitimou lhe era destinado?

- No.

- E agora acha que tenha sido a mesma mo que feriu Barrois,
embora querendo atingir outra pessoa a que feriu hoje
Valentine?

- Sim.

- Ela vai portanto sucumbir tambm? - perguntou Avrigny,
fixando o seu olhar profundo em Noirtier.

E esperou o efeito desta frase no velho.

- No - respondeu o invlido com um ar de triunfo capaz de
desorientar todas as conjecturas do mais hbil adivinho.

- Ento tem esperana? - perguntou Avrigny com surpresa.

- Tenho.

- Em qu?

o velho deu a entender com os olhos que no podia responder.

- Ah, sim,  verdade! - murmurou Avrigny.

Depois, dirigindo-se a Noirtier, perguntou:

- Tem esperana em que o assassino se canse?

- No.

- Ento que o veneno no produza efeito em Valentine?

- sim.

- Porque no lhe dou nenhuma novidade dizendo-lhe que tentaram
envenenar Valentine, no  verdade? - acrescentou Avrigny.

O velho fez sinal com os olhos de que no tinha qualquer
dvida a tal respeito.

- Ento como espera que Valentine se salve?

Noirtier manteve obstinadamente os olhos fixos no mesmo stio.
Avrigny seguiu-lhe a direco do olhar e viu que incidia numa
garrafa que continha a poo que lhe davam todas as manhs.

- Ah, ah! - exclamou Avrigny, assaltado por uma ideia sbita.
- Ter-se- o senhor lembrado...

Noirtier no o deixou terminar.

- Sim - respondeu.

--... de a imunizar contra o veneno?...

- Sim.

- Habituando-a pouco a pouco...

- Sim, sim, sim - respondeu Noirtier, encantado por ser
compreendido. - Com efeito, ouviu-me dizer que nas poes que
lhe dou entrava a brucina, no  verdade?

- .

- E habituando-a a esse veneno quis neutralizar os efeitos
doutro?

A mesma alegria triunfante de Noirtier.

- E conseguiu-o, sem dvida nenhuma! - exclamou Avrigny. - Sem
essa precauo, Valentine seria morta hoje, morta sem socorro
possvel, morta sem misericrdia. O abalo foi violento, mas
no passou disso, e pelo mel os desta vez Valentine no
morrer.

Uma alegria sobre-humana enchia os olhos do velho, erguidos ao
cu com uma expresso de infinito reconhecimento.

Neste momento, Villefort entrou.

- Pronto, doutor, aqui tem o que me pediu.

- Esta poo foi preparada na sua presena?

- Foi - respondeu o procurador rgio.

- E no saiu das suas mos?

- No.

Avrigny pegou na garrafa, deitou algumas gotas da beberagem
que ela continha na palma da mo e engoliu-as.

- Bem - disse --, subamos ao quarto de Valentine, onde darei
as minhas instrues a toda a gente, e o senhor velar
pessoalmente, Sr. de Villefort, para que ningum se afaste
delas.

No momento em que Avrigny entrava no quarto de Valentine
acompanhado de Villefort, um padre italiano, de aspecto severo
e palavras calmas e decididas, alugava para sua habitao a
casa contgua ao palcio habitado pelo Sr. de
Villefort.

Impossvel saber devido a que transaco os trs inquilinos
dessa casa se mudaram passadas duas horas; mas o boato que
correu geralmente no bairro foi de que a casa se no
encontrava muito solidamente assente nos seus alicerces e
ameaava runa, o que de modo algum impediu o novo inquilino
de l se instalar com o seu modesto mobilirio, nesse mesmo
dia por volta das cinco horas.

O arrendamento foi feito por trs, seis ou nove anos pelo novo
inquilino, o qual, conforme o hbito estabelecido pelos
proprietrios, pagou seis meses adiantados. O novo inquilino,
que, como dissemos, era italiano, chamava-se Signor giacomo
Busoni.

Foram imediatamente chamados operrios, e nessa mesma noite os
raros transeuntes retardatrios do cimo do arrabalde viram com
surpresa os carpinteiros e os pedreiros ocupados a consertar
de alto a baixo a casa vacilante.

Captulo XCV

O pai e a filha


Vimos, no capitulo anterior, a Sr.a Danglars ir anunciar
oficialmente  Sr.a de Villefort o prximo casamento de
Mademoiselle Eugnie Danglars com o Sr. Andrea Cavalcanti.

Esse anncio oficial. que indicava ou parecia indicar uma
resoluo tomada por todos os interessados nesse grande
acontecimento, fora no entanto precedido de uma cena de que
devemos dar conta aos nossos leitores.

Pedimo-lhes portanto que dem um passo atrs e se transportem
 prpria manh desse dia de grandes catstrofes, no belo
salo cheio de dourados que lhes demos a conhecer e que era o
orgulho do seu proprietrio, o Sr. Baro Danglars.

Com efeito, nesse salo, por volta das dez horas da manh,
passeava havia alguns minutos, muito pensativo e visivelmente
inquieto, o prprio baro, que olhava para todas as portas e
se detinha a cada rudo.

Quando a sua reserva de pacincia se esgotou, chamou o criado
de quarto.

- Etienne - disse-lhe --, veja por que motivo Mademoiselle
Eugnie me pediu que a esperasse no salo e informe-se porque
me faz esperar h tanto tempo.

Expelido este acesso de mau humor, o baro recuperou um pouco
a calma.

Efectivamente, Mademoiselle Danglars mandara pedir uma
audincia ao pai logo que acordara e designara o salo dourado
como o local dessa audincia. A singularidade de semelhante
diligncia, e sobretudo o seu carcter "oficial", no tinham
de modo algum surpreendido o banqueiro, que acedera
imediatamente ao pedido da filha e fora o primeiro a chegar ao
salo.

Etienne em breve regressou da sua embaixada.

- A criada de quarto da menina - disse - informou-me que a
menina estava a acabar de se arranjar e no tardaria a vir.

Danglars fez. um sinal de cabea indicativo de que estava
satisfeito. Perante a sociedade, e at perante a famlia,
Danglars afectava ser um bonacheiro e um pai fraco. Era um
aspecto do papel que se impusera na comdia popular que
desempenhava, era uma mscara que adoptara e que parecia
convir-lhe, tal como convinha aos perfis direitos das mscaras
das personagens do teatro antigo ter os lbios arrepanhados e
risonhos, enquanto o lado esquerdo tinha os lbios descados e
chorosos.

Apressamo-nos a dizer que na intimidade os lbios arrepanhados
e risonhos desciam ao nvel dos lbios descados e chorosos,
de modo que na maior parte do tempo o bonacheiro desaparecia
e entrava em cena o marido brutal e o pai dspota.

- Por que diabo essa louca que me quer falar, segundo diz, no
vai simplesmente ao meu gabinete? - murmurava Danglars. - E
por que me quer falar?

Moa pela vigsima vez este pensamento inquietante no crebro
quando a porta se abriu e Eugnie apareceu, de vestido do
cetim preto salpicado de flores mates da mesma cor, em cabelo
e enluvada como se fosse ocupar a sua poltrona no Teatro
Italiano.

- Ento, Eugnie, que temos? - perguntou o pai. - E porqu o
salo, com toda a sua solenidade, quando podias estar to bem
no meu gabinete particular?

- Tem toda a razo, senhor - respondeu Eugnie, fazendo sinal
ao pai de que se podia sentar --, e acaba de fazer duas
perguntas que resumem antecipadamente toda a conversa que
vamos ter. Vou portanto responder a ambas. E contra as leis do
hbito, primeiro  segunda, por ser a menos complexa. Escolhi
o salo, senhor, para local de encontro, a fim de evitar as
impresses desagradveis e as influncias do gabinete de um
banqueiro. Os livros de caixa, por mais dourados que sejam, as
gavetas fechadas como portas de fortalezas, os maos de notas
vindos ningum sabe donde e as quantidades de cartas vindas de
Inglaterra, da Holanda, da Espanha, da ndia, da China e do
Peru actuam em geral estranhamente sobre o esprito de um pai
e fazem-no esquecer que existe no mundo um interesse maior e
mais sagrado do que o da posio social e da opinio dos seus
clientes. Escolhi portanto o salo, onde v, sorridentes e
felizes nas suas magnficas molduras, o seu retrato, o meu, o
da minha me e todo o gnero de paisagens pastoris e buclicas
enternecedoras. Confio muito na influncia das impresses
exteriores. Talvez, sobretudo em relao ao senhor, seja um
erro; mas que quer, no seria artista se me no restassem
algumas iluses.

- Muito bem - respondeu o Sr. Danglars, que escutara a tirada
com imperturbvel sangue-frio, mas sem compreender uma
palavra, absorto como estava, como qualquer homem cheio de
ideias preconcebidas, a procurar o fio da sua prpria ideia
nas ideias da interlocutora.

- Est portanto o segundo ponto esclarecido, ou quase - disse
Eugnie, sem o menor constrangimento e com a desenvoltura
muito masculina que a caracterizava --, e o senhor parece-me
satisfeito com a explicao. Agora voltemos ao primeiro.
Perguntava-me por que solicitara esta audincia. Vou dizer-lho
em duas palavras. Ei-las, senhor: no quero casar com o Sr.
Conde Andrea Cavalcanti.

Danglars deu um pulo na poltrona e, no impulso, levantou ao
mesmo tempo os olhos e os braos ao cu.

- Meu Deus, sim, senhor - continuou Eugnie, sempre muito
calma. - Est surpreendido, bem vejo, porque desde que toda
essa combinaozinha est em marcha no manifestei a mais
pequena oposio, certa como estou sempre de, na altura
prpria, opor francamente s pessoas que em nada me
consultaram e s coisas que me desagradam uma vontade franca e
absoluta. No entanto, desta vez, essa tranquilidade, essa
passividade, como dizem os filsofos, tinha outra origem;
provinha de, como filha submissa e dedicada... - um sorriso
breve desenhou-se nos lbios carminados da jovem - tentar a
obedincia.

- E ento? - perguntou Danglars.

- E ento, senhor - prosseguiu Eugnie --, tentei at ao
limite das minhas foras, e agora que chegou o momento, apesar
de todos os esforos que empreguei sobre mim prpria, sinto-me
incapaz de obedecer.

- Mas enfim, Eugnie, a razo? - perguntou Danglars, que,
esprito primrio, parecia antes de mais nada esmagado pelo
peso daquela lgica implacvel, cuja fleuma denotava tanta
premeditao e fora de vontade. - Qual a razo dessa recusa?

- A razo? - replicou a jovem. - Oh, meu Deus, no  que o
homem seja mais feio, mais estpido ou mais desagradvel do
que outro, no. O Sr. Andrea Cavalcanti pode at passar, junto
daqueles que apreciam os homens pela cara e pela figura, por
ser um modelo muitssimo aceitvel. Tambm no  porque o meu
corao esteja menos inclinado para ele do que para qualquer
outro; isso seria uma razo de colegial que considero
absolutamente abaixo de mim. No amo absolutamente ningum,
senhor; sabe-o, no  verdade? No vejo, portanto, por que
motivo, sem disso ter absoluta necessidade, iria embaraar a
minha vida com um companheiro eterno. No disse o sbio
algures: "Nada de excessos!"? E noutro passo: "Trazei tudo
convosco"? At aprendi estes dois aforismos em latim e em
grego. Um , creio, de Fedro, e o outro, de Bias. Pois bem,
meu querido pai, no naufrgio da vida, porque a vida  um
naufrgio eterno das nossas esperanas, lano ao mar a minha
bagagem intil, muito simplesmente, e fico com a minha
vontade, disposta a viver absolutamente s e portanto
absolutamente livre.

- Desgraada! Desgraada! - murmurou Danglars, empalidecendo,
pois conhecia por longa experincia a solidez do obstculo com
que deparava to de repente.

- "Desgraada! Desgraada", diz o senhor? - prosseguiu
Eugnie. - Mas no, na realidade, e a exclamao parece-me
absolutamente teatral e afectada.

Pelo contrrio, feliz porque lhe pergunto: que me falta? A
sociedade acha-me bela, e isso  qualquer coisa que merece ser
acolhida favoravelmente Gosto dos bons acolhimentos: alegram
as caras e os que me rodeiam parecem-me tambm menos feios.
Sou dotada de algum esprito e de certa sensibilidade
relativa, que me permite extrair da existncia geral para o
fazer entrar na minha o que nela encontro de bom, como faz o
macaco quando parte a noz verde para lhe extrair o que contm.
Sou rica, porque o senhor possui uma das maiores fortunas de
Frana e porque sou sua filha nica e o senhor no  to
teimoso como o so os pais da Porta Saint-Martin e da Gaiet,
que deserdam as filhas por lhes no quererem dar netos. Alis,
a lei, previdente, tirou-lhe o direito de me deserdar, pelo
menos por completo, tal como lhe tirou o poder de me obrigar a
casar com o Sr. Fulano ou o Sr. Sicrano. Assim, bela,
espirituosa, possuidora de algum talento, como dizem nas
operas cmicas, e rica... Mas  uma felicidade, senhor! Por
que me chama desgraada?

Danglars, vendo a filha sorridente e orgulhosa at 
insolncia, no pde reprimir um gesto de brutalidade,
acompanhado de alguns berros, mas mais nada. Debaixo do olhar
interrogador da filha, diante daquele belo sobrolho negro,
franzido pela interrogao, virou-se com prudncia e
acalmou-se imediatamente, domado pela mo de ferro da
circunspeco.

- De facto, minha filha - respondeu com um sorriso --, s tudo
o que te gabas de ser, excepto uma nica coisa, minha filha.
No quero porm dizer-te qual demasiado bruscamente; prefiro
deixar-te adivinha-la...

Eugnie olhou Danglars, muito surpreendida por lhe contestarem
um dos flores da coroa de orgulho que acabava de colocar to
soberbamente na cabea.

- Minha filha - continuou o banqueiro --, explicaste-me
perfeitamente quais eram os sentimentos que presidiam s
resolues de uma jovem como tu quando decidia no se casar.
Agora  a altura de te dizer quais so os motivos de um pai
como eu quando decide que a filha se casar.

Eugnie inclinou-se, no como filha submissa que escuta, mas
sim como adversria prestes a discutir que espera.

- Minha filha - prosseguiu Danglars --, quando um pai pede 
filha que tome marido, tem sempre um motivo qualquer para
desejar o casamento. Uns so dominados pela mania a que te
referias h pouco, ou seja, a verem-se reviver nos netos. No
tenho essa fraqueza, comeo por te dizer, pois as alegrias da
famlia so-me quase indiferentes. Creio que posso confessar
isto a uma filha que sei ser bastante filsofa para
compreender esta indiferena e no a considerar um crime.

- Com certeza - declarou Eugnie. -- Falemos com franqueza,
senhor, prefiro isso.

- Oh, bem vs que, sem compartilhar, de modo geral, a tua
simpatia pela franqueza, me submeto a ela quando creio que as
circunstncias a tal me convidam! - redarguiu Danglars. -
Continuo, portanto. Propus-te um marido, no por ti, porque na
verdade no pensava por nada deste mundo em ti nesse momento
(gostas da franqueza, pois aqui a tens, suponho), mas sim
porque necessitava que pressionasses esse marido o mais
depressa possvel no sentido de participar em certas
combinaes comerciais que estou em vias de estabelecer neste
momento.

Eugnie fez um gesto.

- E como tenho a honra de te dizer, minha filha, e no me
deves querer mal por isso porque foste tu quem me obrigou a
falar.  com pesar, como deves compreender, que entro nestas
explicaes aritmticas com uma artista como tu, que receia
entrar no gabinete de um banqueiro porque pode deparar com
impresses ou sensaes desagradveis ou antipoticas.

"Mas fica sabendo, minha querida menina, que nesse gabinete
de banqueiro, em que, apesar de tudo, te dignaste entrar
anteontem para me pedir os mil francos que te dou todos os
meses para os teus alfinetes, se aprendem muitas coisas
proveitosas at s jovens que se no querem casar. Aprende-se,
por exemplo, e em ateno para com a tua susceptibilidade
nervosa explicar-to-ei neste salo, aprende-se, dizia, que o
crdito de um banqueiro  a sua vida fsica e moral, que o
crdito sustenta o homem tal como a respirao anima o corpo,
e a tal respeito o Sr. de Monte-Cristo fez-me um dia um
discurso que nunca mais esqueci. Aprende-se que  medida que o
crdito desaparece o corpo se transforma em cadver e que isso
deve acontecer dentro de muito pouco tempo ao banqueiro que se
honra de ser pai de uma filha to forte em lgica.

Mas Eugnie, em vez de se curvar, reagiu ao golpe.

- Arruinado! - exclamou.

- Encontraste a expresso exacta, minha filha, a boa expresso
- declarou Danglars, coando o peito com as unhas e
conservando nas feies rudes o sorriso de homem sem corao,
mas no sem esprito. - Arruinado!  isso.

- Ah! - exclamou Eugnie.

- Sim, arruinado! Pronto, ei-lo portanto revelado esse segredo
cheio de horror, como diz o poeta trgico.

"Agora, minha filha, ouve da minha boca como esta desgraa se
pode tornar mais pequena para ti; no digo para mim, mas sim
para ti.

- Oh, o senhor  mau fisionomista se imagina que  por mim que
deploro a catstrofe que me expe! - exclamou Eugnie.

"Eu arruinada! E que me importa? No me resta o meu talento?
No posso, como a Pasta, como a Malibran ou como a Grisi,
conseguir o que o senhor nunca me daria, fosse qual fosse a
sua fortuna, isto , cem ou cento e cinquenta mil libras de
rendimento, que deverei unicamente a mim, e que, em vez de me
chegarem s mos como chegam esses pobres doze mil francos que
o senhor me d com olhares impertinentes e palavras de censura
pela minha prodigalidade, me viro acompanhados de aclamaes,
de bravos e de flores? E quando no tivesse esse talento de
que o seu sorriso me prova que desconfia, no me restaria
ainda este profundo amor pela independncia que me ocupar
sempre o lugar de todos os tesouros e que domina em mim at o
instinto da conservao?

"No, no  por mim que fico triste, pois eu saberei sempre
tirar-me de apuros; os meus livros, os meus lpis, o meu
piano, so tudo coisas que no custam caro e que poderei
sempre proporcionar-me, nunca me faltaro. Pensa talvez que me
aflijo pela Sr.a Danglars?... Desiluda-se tambm. Ou eu me
engano muito ou a minha me tomou todas as precaues contra a
catstrofe que o ameaa e que passar sem a atingir.
Ela colocou-se ao abrigo dessa contingncia, creio, e no foi
velando por mim que descurou as suas preocupaes de fortuna.
Porque, graas a Deus, deixou-me toda a minha independncia a
pretexto de que eu amava a minha
liberdade.

"Oh, no, senhor, desde a infncia que vejo acontecerem
muitas coisas  minha volta! E sempre as compreendi to bem
que a infelicidade nunca me causou mais impresso do que devia
causar. Desde que me conheo que no sou amada por ningum
Claro que isso me levou muito naturalmente a no amar ningum.
Tanto melhor! Agora j tem a minha profisso de f.

- Ento - disse Danglars, plido de uma clera que se no
devia nada ao amor paterno ofendido --, ento a menina
persiste em querer consumar a minha runa?

- A sua runa! Eu consumar a sua runa! - exclamou Eugnie. -
Que quer dizer? No o compreendo.

- Tanto melhor, pois isso deixa-me um raio de esperana.
Escuta...

- Estou a escutar - respondeu Eugnie, olhando to fixamente o
pai que este teve de fazer um estoro para no baixar os olhos
diante do olhar poderoso da filha.

- O Sr. Cavalcanti casa contigo - continuou Danglars - e
casando contigo traz trs milhes de dote, que coloca no meu
banco.

- Ah, muito bem! - exclamou Eugnie com soberano desprezo e
alisando as luvas uma sobre a outra.

- Julgas que lhe ficarei com esses trs milhes? - perguntou
Danglars. - De modo nenhum Esses trs milhes destinam-se a
produzir pelo menos dez. Obtive com um banqueiro meu colega a
concesso de um caminho-de-ferro, a nica indstria que nos
nossos dias oferece as probabilidades fabulosas de xito
imediato que noutros tempos Law atribuiu, para levar  certa
os pobres Parisienses, esses eternos anjinhos da especulao,
a um Mississipi fantstico. Pelos meus clculos, deve-se
possuir um milionsimo de via frrea como dantes se possua
uma jeira de terra em pousio nas margens do Ohio. Trata-se de
um investimento hipotecrio, o que  um progresso, como vers,
pois teremos pelo menos dez, quinze, vinte, cem libras de
ferro em troca do nosso dinheiro. Pois bem, pela minha parte
tenho de depositar dentro de oito dias quatro milhes! Quatro
milhes, repito-te, que rendero dez ou doze.

- Mas durante a visita que lhe fiz anteontem, senhor, e de que
se dignou lembrar-se - redarguiu Eugnie --, vi-o receber em
depsito ( este o termo, no ?) cinco milhes e meio. At me
mostrou esse dinheiro em dois saques sobre o Tesouro, e se
admirou de que um papel de to grande valor me no
deslumbrasse como se fosse um relmpago.

- Pois sim, mas esses cinco milhes e meio no me pertencem,
so apenas uma prova da confiana que depositam em mim O meu
titulo de banqueiro popular valeu-me a confiana dos
hospitais, e os cinco milhes e meio so dos hospitais. Noutro
tempo, no hesitaria em servir-me deles, mas hoje so
conhecidos os grandes prejuzos; que tenho sofrido e, como te
disse, o crdito comea a fugir-me. De um momento para o
outro, a administrao pode reclamar o depsito e se o tivesse
empregado noutra coisa seria obrigado a abrir falncia
fraudulenta. No receio as falncias, acredita, mas as
falncias que enriquecem e no as que arruinam. Ora, se
casares com o Sr. Cavalcanti e eu receber os trs milhes do
dote, ou mesmo s que acreditem que os recebi ou vou receber,
o meu crdito restabelece-se e a minha fortuna, que h um ou
dois meses se engolfou em abismos abertos sob os meus passos
por uma fatalidade inconcebvel, consolida-se. Compreendes?

- Perfeitamente. Empenha-me por trs milhes, no ?

- Quanto mais alta a importncia, mais lisonjeira; d-te uma
ideia do teu valor.

- Obrigada. S mais uma palavra, senhor: promete-me que,
embora servindo-se  vontade do valor nominal do dote que deve
trazer o Sr. Cavalcanti, no tocar no dinheiro? No se trata
de um caso de egosmo, trata-se de um caso de delicadeza.
Desejo muito ajud-lo a recuperar a sua fortuna, mas no quero
ser sua cmplice na runa dos outros.

- Mas se te digo que com esses trs milhes... - comeou a
protestar Danglars.

- Acha que se pode tirar de apuros, senhor, sem necessitar de
mexer nesses trs milhes?

- Assim espero, mas sempre com a condio de o casamento
consolidar o meu crdito.

- Poder pagar ao Sr. Cavalcanti os quinhentos mil francos que
me d pelo meu contrato?

- Receb-los- assim que regressarmos do registo civil.

- ptimo!

- ptimo?... Que queres dizer?

- Quero dizer que, logo que assine, poderei dispor livremente
da minha pessoa?

- Absolutamente.

- Ento, ptimo. Como lhe dizia, senhor, estou pronta a casar
com o Sr. Cavalcanti.

- Mas quais so os teus projectos?

- Oh, isso  o meu segredo! Onde estaria a minha superioridade
sobre o senhor se, conhecendo o seu, lhe revelasse o meu?

Danglars mordeu os lbios.

- Portanto, ests pronta a fazer as poucas visitas oficiais
que so absolutamente indispensveis?

- Estou - respondeu Eugnie.

- E a assinar o contrato dentro de trs dias?

- Sim.

- Nesse caso,  a minha vez de te dizer: ptimo!

E Danglars pegou na mo da filha e apertou-a entre as suas.

Mas, coisa extraordinria, enquanto lhe apertava a mo, o pai
no se atreveu a dizer. "Obrigado, minha filha!", nem a filha
teve um sorriso para o pai.

- A conferncia terminou? - perguntou Eugnie, levantando-se.

Danglars fez sinal com a cabea de que no havia mais nada a
dizer.

Cinco minutos mais tarde, o piano soava debaixo dos dedos de
Mademoiselle de Armilly, e Mademoiselle Danglars cantava a
maldio de Brabantio.

No fim do trecho, Etienne entrou e anunciou a Eugnie que os
cavalos estavam atrelados e que a baronesa a esperava para
irem fazer visitas.

Vimos as duas mulheres passarem por casa de Villefort, donde
saram para continuarem as suas voltas.


Captulo XCVI

O contrato


Trs dias depois da cena que acabamos de contar, isto , por
volta das cinco horas da tarde do dia fixado para a assinatura
do contrato de Mademoiselle Eugnie Danglars com Andrea
Cavalcanti, que o banqueiro se obstinara em manter prncipe,
quando uma brisa fresca agitava todas as folhas do jardinzinho
situado diante da casa do conde de Monte-Cristo, no momento
,em que este se preparava para sair e enquanto os seus cavalos
esperavam batendo com as patas, seguros pela mo do cocheiro
sentado havia j um quarto de hora no seu lugar, o elegante
feton com o qual j diversas vezes nos cruzamos e sobretudo
durante a testa em Auteuil, transps rapidamente a porta de
entrada e projectou, mais do que depositou, nos degraus da
escadaria o Sr. Andrea Cavalcanti, to feliz e radiante como
se pela sua parte estivesse prestes a casar com uma princesa.

Informou-se da sade do conde com a familiaridade que lhe era
habitual e subiu agilmente ao primeiro andar, onde o encontrou
pessoalmente ao cimo da escada.

Ao ver o rapaz, o conde parou. Quanto a Andrea Cavalcanti,
estava lanado, e quando estava lanado nada o detinha.

- Eh, boas tardes, caro Sr. de Monte-Cristo! - disse ao
conde.

- Ah, o Sr. Andrea! - respondeu este na sua voz meio
zomboteira. - Como est?

- ptimo, como v. Venho conversar consigo acerca de inmeras
coisas. Mas primeiro diga-me: saa ou entrava?

- Saa, senhor.

- Ento, para no o demorar, subirei, se no se importar, para
a sua calea e Tom seguir-nos- no meu feton.

- No - respondeu com um imperceptvel sorriso de desprezo o
conde, que no desejava ser visto na companhia do rapaz. -
No, prefiro ouvi-lo, aqui, caro Sr. Andrea.
Conversa-se melhor numa sala, sem cocheiro que surpreenda as
nossas palavras no ar.

O conde entrou portanto numa salinha que fazia parte do
primeiro andar, sentou-se, cruzou as pernas e fez sinal ao
jovem para se sentar tambm.

Andrea tomou o seu ar mais risonho.

- Como sabe, caro conde - disse --, a cerimnia efectua-se
esta noite. s nove horas assina-se o contrato em casa do meu
sogro.

- Sim?... - disse Monte-Cristo.

- Como, no sabia? No foi prevenido da cerimnia pelo Sr.
Danglars?

- De facto - respondeu o conde --, recebi ontem uma carta
dele, mas no creio que indicasse a hora.

-  possvel. O meu sogro ter contado com a notoriedade
pblica.

- Pronto, ei-lo feliz, Sr. Cavalcanti - declarou
Monte-Cristo. - Vai contrair uma aliana das mais vantajosas
e alm disso Mademoiselle Danglars  bonita.

- Decerto - respondeu Cavalcanti, num tom cheio de modstia.


- Ela  sobretudo muito rica, segundo creio, pelo menos -
disse Monte-Cristo.

- Muito rica... Acha que sim? - inquiriu o rapaz.

- Sem dvida. Diz-se que o Sr. Danglars esconde pelo menos
metade da sua fortuna.

- E ele confessa possuir quinze ou vinte milhes - notou
Andrea, com um olhar cintilante de alegria.

- Sem contar-acrescentou Monte-Cristo - que est em vsperas
de entrar num gnero de especulao j um pouco gasto nos
Estados Unidos e na Inglaterra, mas absolutamente novo em
Frana.

- Sim, sim, sei a que se refere: o caminho-de-ferro cuja
adjudicao acaba de obter, no  verdade?

- Exactamente! Ganhar pelo menos,  a opinio geral, pelo
menos dez milhes nesse negcio.

- Dez milhes! Acha?  magnfico! - exclamou Cavalcanti,
inebriado com este rudo metlico de palavras douradas.

- Sem contar - prosseguiu Monte-Cristo - que toda essa
fortuna ir parar s suas mos, meu amigo, como  de justia,
visto Mademoiselle Danglars ser filha nica. Alis, a sua
fortuna, meu caro, pelo menos segundo me disse o seu pai, 
quase igual  da sua noiva. Mas ponhamos um pouco de parte os
negcios de dinheiro. Sabe, Sr. Andrea, que conduziu um tanto
lesta e habilmente todo esse negcio?...

- Menos mal, menos mal - confessou o rapaz. - Nasci para
diplomata.

- Pois nada impede que o metam na diplomacia! Como sabe, a
diplomacia no se aprende,  uma questo de instinto... O
corao est portanto preso?

- Na verdade, desconfio que sim - respondeu Andrea, no tom em
que vira, no Teatro Francs, Dorante ou Valre responder a
Alceste.

- Ama-a um bocadinho?

- Acho que sim, uma vez que me caso - respondeu Andrea, com um
sorriso de vencedor. - No entanto, no esqueamos um pormenor
importante.

- Qual?

- Que fui singularmente ajudado em tudo isto.

- Ora!...

- Certamente.

- Pelas circunstncias?

- No, pelo senhor.

- Por mim? No diga isso, prncipe - protestou Monte-Cristo,
sublinhando com afectao o ttulo. - Que podia eu fazer por
si? No bastavam o seu nome, a sua posio social e o seu
mrito?

- No - negou Andrea --, no. E por mais que diga, Sr. Conde,
insisto que a posio de um homem como o senhor fez mais do
que o meu nome, a minha posio social e o meu mrito.

- Engana-se completamente, senhor - disse Monte-Cristo,
sentindo a astcia prfida do rapaz e compreendendo o alcance
das suas palavras. - A minha proteco s lhe foi concedida
depois de tomar conhecimento da influncia e da fortuna do
senhor seu pai. E quem me proporcionou, a mim que nunca os
tinha visto, nem a si nem ao autor dos seus dias, o prazer de
os conhecer? Dois dos meus amigos, Lorde Wilmore e o abade
Busoni. Quem me encorajou, no a
servir-lhe de garantia, mas a patrocin-lo? O nome do seu pai,
to conhecido e respeitado na Itlia. Pessoalmente, no o
conhecia.

Esta calma e este perfeito -vontade fizeram compreender a
Andrea que se encontrava de momento seguro por uma mo mais
musculosa do que a sua e que dispunha de uma fora que no
poderia ser facilmente quebrada.

- Claro, claro! - apressou-se a concordar Andrea. - Mas 
ento verdade que o meu pai possui realmente uma enorme
fortuna, Sr. Conde?

- Parece que sim, senhor - respondeu Monte-Cristo.

- Sabe se o dote que me prometeu j chegou?

- J recebi a carta-aviso.

- Mas os trs milhes?

- os trs milhes esto a caminho, muito provavelmente.

- Isso quer dizer que os receberei de facto?

- ora essa! - exclamou o conde. - Parece-me que at agora lhe
no faltou o dinheiro, senhor!

Andrea ficou de tal modo surpreendido que se no pode impedir
de sonhar um momento.

- Visto isso - disse, saindo do seu alheamento --, s me
resta, senhor, fazer-lhe um pedido, que decerto compreender,
mesmo que lhe seja desagradvel.

- Fale - disse Monte-Cristo.

- Graas  minha fortuna, relacionei-me com muitas pessoas
distintas e tenho at, de momento, pelo menos, inmeros
amigos. Mas casando-me, como me caso, perante toda a sociedade
parisiense, devo ser apadrinhado por um nome ilustre, e 
falta da mo paterna dever ser uma mo poderosa a conduzir-me
ao altar. Ora o meu pai no vem a Paris, pois no?

- Est velho, coberto de feridas e sofre horrivelmente sempre
que viaja - respondeu Monte-Cristo.

- Compreendo. Por isso lhe venho fazer um pedido...

- A mim?

- Sim, ao senhor.

- E qual, meu Deus?

- Que o substitua.

- Ento, meu caro senhor, que  isso?... Depois das numerosas
relaes que tive a honra de ter consigo ainda me conhece to
mal que me faz semelhante pedido? Pea-me meio milho
emprestado e, embora tal emprstimo seja bastante raro,
dou-lhe a minha palavra de honra de que me ser menos
embaraoso. Como sabe, pelo menos creio j lho ter dito, na
sua participao, sobretudo moral, nas coisas deste mundo
nunca o conde de Monte-Cristo deixou de conservar os
escrpulos, direi mais, as supersties de um homem do
Oriente. Eu, que tenho um serralho no Cairo, outro em Esmirna
e outro em Constantinopla, presidir a um casamento? Nunca!

- Portanto, recusa?

- Redondamente. E fosse o senhor meu filho ou meu irmo,
recusaria da mesma maneira.

-- No me diga! - exclamou Andrea, decepcionado. - Mas ento
que fazer?

-- Como o senhor mesmo acaba de dizer, tem centenas de
amigos...

- De acordo, mas foi o senhor que me apresentou em casa do Sr.
Danglars.

- Alto! Reponhamos os factos em toda a sua verdade: fui eu que
contribu para que o senhor jantasse com ele em Auteuil, mas
foi o senhor que se apresentou pessoalmente. Diabo,  muito
diferente!

- Pois sim, mas o meu casamento... o senhor ajudou.

- Eu? Em coisssima nenhuma, peo-lhe que acredite.
Lembre-se do que lhe respondi quando veio solicitar-me que
fizesse o pedido: "Oh, nunca me meto em casamentos, meu caro
prncipe,  um princpio arreigado em mim!"

Andrea mordeu os lbios.

- Mas, enfim, ao menos assistir? - perguntou.

- Toda a sociedade parisiense estar presente?

- Com certeza!

- Nesse caso, l estarei, como toda a sociedade parisiense.

- Assinar o contrato?

- No vejo nisso nenhum inconveniente. Os meus escrpulos no
vo to longe.

- Enfim, uma vez que me no quer conceder mais, devo
contentar-me com o que me d. S mais uma palavra, conde.

- Por que no?

- Um conselho.

- Cautela, um conselho  pior do que um favor.

- Oh, este pode dar-mo sem se comprometer!

- Diga.

- O dote da minha mulher  de quinhentas mil libras.

- Foi a importncia que o Sr. Danglars me anunciou a mim
mesmo.

- Devo receb-lo ou deix-lo nas mos do notrio?

- Vejamos como geralmente se passam as coisas quando se quer
que se passem elegantemente: os dois notrios combinam
encontrar-se no dia seguinte ou dois dias depois do contrato;
no dia seguinte ou dois dias depois trocam os dotes, de que se
do mutuamente recibo; uma vez o casamento realizado, pem os
milhes  sua disposio, como cabea de casal.

-  que - disse Andrea, com certa inquietao mal dissimulada
- creio ter ouvido dizer ao meu sogro que tinha a inteno de
colocar os nossos fundos nesse famoso negcio ferrovirio de
que o senhor me falava h pouco.

- Mas isso, segundo toda a gente afirma - respondeu
Monte-Cristo --,  um meio de os seus capitais triplicarem
num ano. O Sr. Baro Danglars  bom pai e sabe contar.

- Nesse caso - disse Andrea - tudo vai bem, excepto a sua
recusa, que me causa um grande desgosto.

- Atribua-a apenas a escrpulos muito naturais em semelhantes
circunstncias.

- Perfeitamente. Seja como quer. At logo, s nove horas.

- At logo.

E, apesar de uma leve resistncia de Monte-Cristo, cujos
lbios empalideceram, mas que no entanto conservou o seu
sorriso de cerimnia, Andrea pegou na mo do conde, apertou-a,
saltou para o seu feton e desapareceu.

s quatro ou cinco horas que lhe restavam at s nove
gastou-as Andrea em voltas, em visitas destinadas a interessar
os amigos de que talara a aparecerem em casa do banqueiro com
todo o luxo das suas carruagens, deslumbrando-os
com promessas de aces que desde ento fizeram todas as
cabeas andar  roda e de que naquele momento Danglars tinha a
iniciativa.

Com eleito, s oito e meia o grande salo de Danglars, a
galeria contgua a esse salo e os trs outros sales do mesmo
andar estavam cheios de uma multido perfumada que atraia
muito pouco a simpatia, mas muito a irresistvel necessidade
de estar onde se sabe haver novidades.

Um acadmico diria que as festas de sociedade so coleces de
flores que atraem borboletas inconstantes, abelhas famintas e
zangos zumbidores.

Escusado ser dizer que os sales estavam resplandecentes de
velas, a luz jorrava das molduras douradas dispostas nas
paredes forradas de seda e todo o mau gosto do mobilirio, que
tinha apenas a seu favor a riqueza, resplandecia
estrepitosamente.

Mademoiselle Eugnie estava vestida com a mais elegante
simplicidade: vestido de seda branca e brocado da mesma cor,
uma rosa branca meio escondida nos seus cabelos de um negro de
azeviche, e pronto, era tudo quanto constitua a sua
toilette, que no enriquecia a mais pequena jia.

Poder-se-ia no entanto ler nos seus olhos uma segurana
perfeita, que desmentia o que aquela cndida toilette tinha
de vulgarmente virginal a seus prprios olhos.

A Sr.a Danglars, a trinta passos dela, conversava com Debray,
Beauchamp e Chteau-Renaud. Debray entrara naquela casa para
assistir  grande solenidade, mas como toda a gente e sem
nenhum privilgio especial.

O Sr. Danglars, rodeado de deputados e financeiros, explicava
uma teoria de novas contribuies que esperava pr em prtica
quando a fora das circunstncias obrigasse o governo a
cham-lo ao ministrio.

Andrea, segurando pelo brao um dos mais elegantes dandys da
pera, explicava-lhe com bastante impertinncia, atendendo a
que necessitava de ser insolente para parecer  vontade, os
seus projectos de vida futura e os progressos de luxo que
contava fazer com as suas setenta e cinco mil libras de
rendimento na fashion parisiense.

A multido geral percorria os sales como um fluxo e um
refluxo de turquesas, rubis, esmeraldas, opalas e diamantes.
Como sempre, notava-se serem as mulheres mais velhas as mais
arrebicadas e as mais feias as que se exibiam mais
obstinadamente.

Se havia algum belo lrio branco ou alguma rosa suave e
perfumada, era necessrio procur-lo e descobri-lo, escondido
em qualquer canto por uma me de turbante ou por uma tia com
plumas de ave-do-paraso.

A cada instante, no meio daquela balbrdia, daquele
burburinho, daqueles risos, a voz dos porteiros gritava um
nome conhecido nas Finanas, respeitado no Exrcito ou ilustre
nas Letras, enquanto um fraco movimento dos grupos acolhia
esse nome.

Mas por cada um que tinha o privilgio de agitar aquele oceano
de vagas humanas, quantos passavam acolhidos pela indiferena
ou pelo riso desdenhoso!

No momento em que o ponteiro do relgio macio, do relgio que
representava Endimio adormecido, marcava nove horas no
mostrador dourado, e em que a campainha, fiel reprodutora do
pensamento maquinal, soava nove vezes, soou tambm o nome do
conde de Monte-Cristo e, como que impelida, pela flama
elctrica, toda a assistncia se virou para a porta.

O conde estava vestido de prelo e com a sua simplicidade
habitual. o colete branco desenhava-lhe o peito amplo e nobre;
a sua gravata preta parecia de uma frescura singular, de tal
modo sobressaa na mscula palidez do rosto; como nica jia
trazia uma corrente no colete, to delicada que o delgado fio
de ouro mal se via no piqu branco.

Fez-se imediatamente um crculo  roda da porta.

Num s relance de olhos o conde viu a Sr.a Danglars numa
extremidade do salo, o Sr. Danglars na outra e Mademoiselle
Eugnie diante de si.

Aproximou-se primeiro da baronesa, que conversava com a Sr.a
de Villefort, que viera sozinha, pois Valentine continuava
doente; e sem se desviar, de tal modo o caminho se abria
diante dele, passou da baronesa a Eugnie, que cumprimentou em
termos to rpidos e reservados que a orgulhosa artista ficou
surpreendida.

Junto dela encontrava-se Mademaiselle, Louise de Armilly, que
agradeceu ao conde as cartas de recomendao que to
amavelmente lhe dera para a Itlia e das quais contava, disse,
servir-se frequentemente.

Quando deixou as senhoras, virou-se e encontrou-se perto de
Danglars, que se aproximara para o cumprimentar.

Cumpridos estes trs deveres sociais, Monte-Cristo deteve-se
e passeou  sua volta o olhar firme, dotado dessa expresso
caracterstica das pessoas de certo meio, e sobretudo de certa
capacidade, olhar que parecia dizer. "Fiz o que devia; agora
os outros que faam o que me devem."

Andrea, que se encontrava num salo contguo, sentiu a espcie
de frmito que Monte-Cristo imprimira  multido e correu a
cumprimentar o conde.

Encontrou-o completamente cercado; os convidados
disputavam-lhe as palavras, como acontece sempre com as
pessoas que falam pouco e nunca dizem uma palavra sem valor.

Os notrios entraram nesse momento e foram colocar os seus
papis garatujados em cima do veludo bordado a ouro que cobria
a mesa preparada para a assinatura, mesa de madeira dourada.

Um dos notrios sentou-se, o outro ficou de p.

Ia-se proceder  leitura do contrato que metade de Paris,
presente na solenidade, deveria assinar.

Cada um tomou o seu lugar, ou antes, as mulheres fizeram
crculo, enquanto os homens, mais indiferentes no tocante ao
estilo enrgico, como diz Boileau, comentavam a agitao
febril de Andrea, a ateno do Sr. Danglars, a impassibilidade
de Eugnie e a forma expedita e descontrada como a baronesa
tratava aquele importante assunto.

O contrato foi lido no meio de profundo silncio. Mas assim
que a leitura terminou, o rumor recomeou nos sales e a
dobrar do que fora anteriormente. Aquelas importncias
avultadas, aqueles milhes rolando no futuro dos dois jovens e
que vinham completar a exposio que se organizara, numa sala
exclusivamente dedicada a esse fim, da corbelha da noiva e dos
diamantes da jovem, tinham-se repercutido com todo o seu
prestgio na invejosa assistncia.

Os encantos de Mademoiselle Danalars eram por isso duplos aos
olhos dos jovens e de momento ofuscavam o brilho do Sol.

Quanto s mulheres, escusado ser dizer que, embora cobiando
aqueles milhes, no achavam precisar deles para serem belas.


Andrea, perseguido pelos amigos, cumprimentado, adulado,
comeando a acreditar na realidade do sonho em que vivia,
Andrea estava prestes a perder a cabea.

O notrio pegou solenemente na pena, ergueu-a acima da cabea
e disse:

- Meus senhores, vamos assinar o contrato.

O baro devia ser o primeiro a assinar, seguido do procurador
do Sr. Cavalcanti pai, da baronesa e dos futuros cnjuges,
como se diz no estilo abominvel usado no papel selado.

O baro pecou na pena e assinou, e depois o procurador.

A baronesa aproximou-se pelo brao da Sr.a de Villefort.

- Meu amigo - disse, pegando na pena --, no  desesperante?
Um incidente inesperado, no caso, de assassnio e roubo, de
que o Sr. Conde de Monte-Cristo esteve quase a ser vtima
priva-nos da presena do Sr. de Villefort.

- Oh, meu Deus! - exclamou Danglars no mesmo tom em que diria:
"Palavra que tudo isso me  absolutamente indiferente!"

- Meu Deus, receio muito ser a causa involuntria dessa
ausncia! - disse Monte-Cristo, aproximando-se.

- Como?... O senhor, conde? - admirou-se a Sr.a Danglars,
assinando. - Se  assim, acautele-se, porque nunca lhe
perdoarei.

Andrea arrebitava as orelhas.

- No entanto, se assim for, a culpa no ser minha, como vo
ter oportunidade de verificar - desculpou-se o conde.

Todos escutavam avidamente. Monte-Cristo, que to raramente
abria a boca, ia falar.

-- Decerto se lembram - comeou o conde no meio do mais
profundo silncio - que foi em minha casa que morreu o
desgraado que viera para me roubar e que ao sair foi morto,
ao que se julga, pelo cmplice?...

- Sim, lembramos - respondeu Danglars.

- Pois bem, para o socorrer, despiram-no e atiraram-lhe as
roupas para um canto, onde a justia as apanhou. Mas a
justia, quando tomou conta da sobrecasaca e das calas, para
as depositar no cartrio, esqueceu-se do colete.

Andrea empalideceu visivelmente e aproximou-se devagarinho da
porta. Via surgir uma nuvem no horizonte, nuvem que lhe
parecia trazer temporal.

- Bom, o malfadado colete foi encontrado hoje todo coberto de
sangue e furado no stio do corao.

As damas soltaram um grito e duas ou trs prepararam-se para
desmaiar.

- Trouxeram-mo. Ningum era capaz de adivinhar donde viera
semelhante trapo; s eu pensei que se tratava, provavelmente,
do colete da vtima. De sbito, o meu criado de quarto,
revistando com nojo e precauo a fnebre relquia, sentiu um
papel na algibeira e tirou-o. Era uma carta dirigida a quem? A
si, baro.

- A mim?! - exclamou Danglars.

- Oh, meu Deus, ao senhor, sim! Consegui ler o seu nome
atravs do sangue que manchava a carta - respondeu
Monte-Cristo no meio das exclamaes de surpresa geral.

- Mas por que motivo isso reteve o Sr. de Villefort? -
perguntou a Sr.a Danglars, olhando o marido com inquietao.

-  muito simples, minha senhora - respondeu Monte-Cristo. -
O colete e a carta eram o que se chama provas materiais. Carta
e colete foram por mim  enviados ao Sr. Procurador Rgio,
pois, como deve compreender, meu caro baro, a via legal  a
mais segura em matria criminal. Talvez se tratasse de alguma
maquinao contra o senhor...
Andrea olhou fixamente Monte-Cristo e desapareceu no segundo
salo.

-  possvel - disse Danglars. - Esse homem assassinado no
era um antigo forado?

- Sim, era um antigo forado chamado Caderousse - respondeu o
conde.

Danglars empalideceu ligeiramente. Andrea deixou o segundo
salo e alcanou a antecmara.

- Mas assinem, assinem! - exclamou Monte-Cristo. - Verifico
que a minha histria impressionou toda a gente e peo-lhes
humildemente perdo, Sr.a Baronesa e Mademoiselle Danglars.

A baronesa, que acabava de assinar, entregou a pena ao
notrio.

- O Sr. Prncipe Cavalcanti! - chamou o notrio. - Onde est o
Sr. Prncipe Cavalcanti?

- Andrea! Andrea! - repetiram vrias vozes de jovens que
tinham j chegado com o nobre italiano a esse grau de
intimidade que permite tratar as pessoas pelo nome de
baptismo.

- Chame o prncipe, previna-o de que  ele a assinar! - gritou
Danglars a um porteiro.

Mas ao mesmo tempo a multido dos assistentes refluiu,
aterrada, para o salo principal, como se algum monstro
pavoroso tivesse entrado ali, quaerens quem devoret.

Havia efectivamente motivo para recuarem, se assustarem e
gritarem.

Um oficial de gendarmaria colocava dois gendarmes  porta de
cada salo e avanava para Danglars, precedido de um
comissrio de polcia com a sua faixa  cintura.

A Sr.a Danglars soltou um grito e desmaiou.

Danglars, que se julgava ameaado (certas conscincias nunca
esto tranquilas), ofereceu aos olhos dos seus convidados um
rosto descomposto pelo terror.

- Que se passa, senhor? - perguntou Monte-Cristo, indo ao
encontro do comissrio.

- Qual dos senhores - perguntou o magistrado, sem responder ao
conde - se chama Andrea Cavalcanti?

Um grito de espanto partiu de todos os cantos do salo.

Procuraram, interrogaram.

- Mas quem  afinal esse Andrea Cavalcanti? - perguntou
Danglars quase alucinado.

- Um antigo forado evadido das gals de Toulon.

- E que crime cometeu?

-  acusado - respondeu o comissrio, na sua voz impassvel -
de ter assassinado um tal Caderousse, seu antigo companheiro
de grilheta, no momento em que saa de casa do conde de
Monte-Cristo.

Monte-Cristo olhou rapidamente  sua volta.

Andrea desaparecera.


Captulo XCVII

A estrada da Blgica


Pouco depois da cena de confuso produzida nos sales do Sr.
Danglars pelo aparecimento inesperado do oficial de
gendarmaria e pela revelao que se lhe seguira, o vasto
palcio esvaziara-se com uma rapidez idntica  que teria
provocado o anncio de um caso de peste ou clera-morbo
verificado entre os convidados. Em poucos minutos, por todas
as portas, por todas as escadas, por todas as sadas, toda a
gente se apressara a retirar-se, ou antes, a fugir. Porque se
estava perante uma dessas situaes em que nem sequer se deve
tentar dar as vulgares consolaes, que tornam, nas grandes
catstrofes, os melhores amigos to importunos.

S ficaram no palcio do banqueiro o prprio Danglars, fechado
no seu gabinete, a depor perante o oficial de gendarmaria, a
Sr.a Danglars, aterrada, no boudoir que j conhecemos, e
Eugnie, que, de olhar altivo e lbios desdenhosos, se
retirara para o seu quarto com a sua inseparvel companheira,
Mademoiselle Louise de Armilly.

Quanto aos numerosos criados, mais numerosos ainda naquela
noite do que de costume, porque se lhes juntaram, por causa da
festa, os sorveteiros, os cozinheiros e os chefes de mesa do
Caf de Paris, virando contra os patres a clera do que
chamavam a sua afronta, estavam reunidos em grupos na copa,
nas cozinhas e nos seus aposentos, pouqussimo preocupados com
o servio, que, alis, se encontrava muito naturalmente
interrompido.

No meio destas diferentes personagens, movidas por interesses
diversos, apenas duas merecem que nos ocupemos delas:
Mademoiselle Eugnie Danglars e Mademoiselle Louise de
Armilly.

A jovem noiva retirara-se, como j dissemos, com ar altivo e
lbios desdenhosos, qual rainha ultrajada, seguida da
companheira, mais plida e impressionada do que ela.

Quando chegaram ao seu quarto, Eugnie fechou a porta por
dentro, enquanto Louise caa numa cadeira.

- Oh, meu Deus, meu Deus, que coisa horrvel! - exclamou a
jovem msica. - Mas quem podia suspeitar? O Sr. Andrea
Cavalcanti... um assassino... um evadido das gals... um
forado!

Um sorriso irnico crispou os lbios de Eugnie.

- Na verdade, estava predestinada - disse. - Escapei ao
Morcerf para ir cair no Cavalcanti!

- Oh, no confundas um com o outro, Eugnie!

- Cala-te! Todos os homens so infames e sinto-me feliz por
poder fazer mais do que detest-los; agora desprezo-os.

- Que vamos fazer? - perguntou Louise.

- Que vamos fazer?

- Sim.

- Mas o que devamos ter feito h trs dias: partir...

- Assim, embora j te no cases, continuas a querer?...

- Escuta, Louise: horroriza-me esta vida de sociedade,
ordenada, compassada, pautada como o nosso papel de msica. O
que sempre desejei. ambicionei, quis, foi a vida de artista, a
vida livre, independente, onde cada um s depende de si, onde
s tem de dar contas a si prprio. Ficar para qu? Para daqui
a um ms tentarem voltar a casar-me? E com quem? Talvez com o
Sr. Dehray, como se chegou a aventar. No, Louise; no, a
aventura desta noite servir-me- de pretexto. No o procurei,
nem o pedi; Deus manda-me este e  bem-vindo.

- Como s forte e corajosa! - exclamou a loura e frgil
rapariga  sua morena companheira.

- Ainda no me conheces? Vamos, Louise, tratemos das nossas
coisas. A carruagem de posta...

- Comprmo-la sem dificuldade h trs dias.

- Mandaste lev-la para onde a devemos tomar?

- Mandei.

- O nosso passaporte?

- Ei-lo!

Eugnie desdobrou um papel e leu, com a sua arrogncia
habitual: "Sr. Lon de Armilly, de vinte anos, de profisso
artista, cabelos pretos, olhos pretos, que viaja com sua
irm..."

- ptimo! Por intermdio de quem arranjaste este passaporte?

- Quando fui pedir ao Sr. de Monte-Cristo cartas para os
directores dos teatros de Roma e Npoles, exprimi-lhe os meus
receios de viajar como mulher. Ele compreendeu-os
perfeitamente e ps-se  minha disposio para me arranjar um
passaporte de homem, e dois dias depois recebi este, ao qual
acrescentei pelo meu punho: "... que viaja com a sua irm".

- Pronto, agora trata-se apenas de fazer as malas! - exclamou
alegremente Eugnie. - Partimos na noite da assinatura do
contrato em vez de partirmos na noite do casamento;  a nica
alterao.

- Pensa bem, Eugnie...

- Oh, j pensei! Estou cansada de ouvir falar de prorrogaes,
de fins de ms, e alta, de baixa, de fundos espanhis, de
papel haitiano. Em vez disso, Louise, compreendes, o ar, a
liberdade, o canto dos passarinhos, as plancies da Lombardia,
os canais de Veneza, os palcios de Roma, a praia de Npoles.
Quanto temos?

A jovem Louise tirou de uma secretria entalhada uma
carteirinha com fechadura, abriu-a e contou vinte e trs notas
de mil.

- Vinte e trs mil francos - informou.

- E outro tanto, pelo menos, em prolas, diamantes e jias -
disse Eugnie. - Estamos ricas! Com quarenta e cinco mil
francos temos para viver como princesas durante dois anos, ou
razoavelmente durante quatro. Mas antes de seis meses, tu com
a tua msica e eu com a minha voz duplicaremos o nosso
capital. Vamos, encarrega-te do dinheiro que eu encarrego-me
do cofre das jias. Assim, se uma tiver a pouca sorte de
perder o seu tesouro, a outra ter o seu. Agora a mala.
Despachemo-nos, a mala!

- Espera - pediu Louise, indo escutar  porta da Sr.a
Danglars.

- Que receias?

- Que nos surpreendam.

- A porta est fechada.

- Que nos mandem abri-la.

- Pois que mandem; no a abriremos!

- s uma autntica amazona, Eugnie!

E as duas jovens comearam com prodigiosa actividade, a meter
numa mala todos os objectos de viagem de que julgavam
necessitar.

- Agora - disse Eugnie --, enquanto mudo de roupa, fecha a
mala.

Louise carregou com toda a fora das suas mozinhas brancas na
tampa da mala.

- No posso! - exclamou. - No tenho fora suficiente. Fecha-a
tu.

- Ah, tens razo! - redarguiu Eugnie, rindo. - J me esquecia
de que sou Hrcules e tu apenas a plida nfale.

E a jovem apoiou o joelho na mala e retesou os braos brancos
e musculosos at os dois compartimentos da mala se juntarem e
Mademoiselle de Armilly enfiar o cadeado.

Terminada esta operao, Eugnie abriu uma cmoda de que tinha
a chave e tirou uma manta de viagem de seda acolchoada.

- Toma - disse. - Como vs, pensei em tudo. Com esta manta no
ters frio.

- E tu?

- Oh, eu nunca tenho frio, bem sabes! De resto, vestida de
homem...

- Vais-te vestir aqui?

- Claro.

- E ters tempo?

- No tenhas medo, poltrona! Todo o pessoal est ocupado com o
grande escndalo. Alis, que tem de extraordinrio, quando se
pensa no desespero em que devo estar, que me tenha fechado?

- Nada,  verdade. Tranquilizas-me.

- Anda, vem ajudar-me.

E da mesma gaveta donde tirara a manta que acabava de dar a
Mademoiselle de Armilly e que esta j pusera pelos ombros,
tirou um fato de homem completo, desde as botinas at 
sobrecasaca, bem como uma proviso de roupa branca, onde no
havia nada de suprfluo, mas onde se encontrava o necessrio.

Ento, com um desembarao indicativo de que no era decerto a
primeira vez que, por brincadeira, vestia as roupas do outro
sexo, Eugnie calou as botinas, vestiu as calas, deu o lao
na gravata, abotoou at ao pescoo o colete alto e envergou
uma sobrecasaca que lhe desenhava a cintura fina e arqueada.

- Oh, ests muito bem! Sinceramente, ests muito bem! -
exclamou Louise, olhando-a com admirao. - Mas esses belos
cabelos negros, essas tranas magnficas que faziam suspirar
de inveja todas as mulheres, cabero num chapu de homem como
esse que vejo a?

- J vais ver - respondeu Eugnie.

E agarrando com a mo esquerda a trana grossa, na qual os
seus longos dedos mal conseguiam fechar-se, pegou com a mo
direita numa grande tesoura, e em breve o ao rangeu no meio
da rica e esplndida cabeleira, que caiu inteirinha aos ps da
rapariga, inclinada para trs para no deixar cabelos na
sobrecasaca.

Cortada a trana superior, Eugnie passou s das tmporas, que
cortou sucessivamente, sem manifestar o mais pequeno pesar.
Pelo contrrio, os seus  olhos brilharam mais cintilantes e
alegres ainda do que de costume debaixo das sobrancelhas
negras como o bano.

- Oh, o teu magnfico cabelo! - exclamou Lonise, com pesar.

- Ento no estou cem vezes melhor assim? - perguntou Eugnie,
alisando as madeixas esparsas do penteado, agora muito
masculino. - No me achas mais bonita assim?

- Oh, tu s bonita, s sempre bonita! - exclamou Louise. -
Agora para onde vamos?

- Para Bruxelas, se quiseres.  a fronteira mais prxima. De
Bruxelas seguiremos para Lige e Aix-la-Chapelle, subiremos o
reno at Estrasburgo, atravessaremos a Sua e entraremos em
Itlia pelo Saint-Gothard. Concordas?

- Decerto.

- Para que ests a olhar?

- Para ti. Na verdade, ests adorvel assim. Dir-se-ia que me
vais raptar...

- Meu Deus, e no deixa de haver certa razo nisso!

- Mas no era o que me tinhas prometido, Eugnie?...

E as duas jovens, que toda a gente julgaria lavadas em
lgrimas, uma por motivo prprio e a outra por dedicao 
amiga, desataram a rir enquanto faziam desaparecer os
vestgios mais visveis da desordem que naturalmente
acompanhara os preparativos da sua fuga.

Depois de apagarem as luzes, de olhos bem abertos, ouvido 
escuta c pescoo estendido, as duas fugitivas abriram a porta
de um quarto de vestir que dava para uma escada de servio que
descia at ao ptio. Eugnie caminhava  frente, segurando a
mala com um brao, enquanto pela asa oposta Mademoiselle de
Armilly mal a conseguia levantar com ambas as mos.

O ptio estava vazio. Dava meia-noite.

o porteiro ainda velava.

Eugnie aproximou-se muito devagarinho e viu o digno suo a
dormir ao fundo do cubculo, estiraado na sua poltrona.

Voltou para junto de Louise, tornou a pegar na mula que por
instantes pousara no cho, e ambas, seguindo a sombra
projectada pela parede, alcanaram a abbada.

Eugnie escondeu Louise no canto da porta, de maneira que, se
por acaso o porteiro acordasse, s visse uma pessoa.

Depois, expondo-se pessoalmente  luz do candeeiro que
iluminava o ptio, gritou na sua mais deliciosa voz de
contralto, batendo no vidro:

- A porta!

O porteiro levantou-se, como previra Eugnie, e deu at alguns
passos para identificar a pessoa que saa. Mas vendo um rapaz
que batia impacientemente nas calas com o pingalim, abriu
imediatamente.

Acto contnuo, Louise esgueirou-se como uma cobra pela porta
entreaberta e saltou agilmente para fora. Eugnie,
aparentemente calma, embora, segundo todas as probabilidades,
o seu corao desse mais pulsaes do que no seu estado
habitual, saiu por sua vez.

Um moo de fretes que passava naquele momento prontificou-se a
carregar com a mala depois de as duas jovens lhe indicarem que
iam para a Rua da Vitria, nmero 36.
Seguiram o homem, cuja presena tranquilizava Louise; quanto a
Eugnie, era forte como uma Judite ou uma
Dalila.

Chegaram ao nmero indicado. Eugnie ordenou ao moo de fretes
que pusesse a mala no cho, deu-lhe algumas moedas e, depois
de bater no postigo, mandou-o embora.

O postigo a que batia Eugnie era o de uma roupeira prevenida
antecipadamente. No estava ainda deitada e abriu.

- Menina, diga ao porteiro que tire a calea da cocheira e que
v buscar os cavalos  estao de posta - ordenou Eugnie. -
Aqui esto cinco francos pelo trabalho.

- Na verdade, admiro-te e quase diria que te respeito -
confessou Louise.

A roupeira olhava, atnita. Mas como estava combinado que
receberia vinte luses, no fez qualquer observao.

Passado um quarto de hora, o porteiro voltava com o postilho
e os cavalos, que num abrir e fechar de olhos foram atrelados
 carruagem, na qual o porteiro prendeu a mala com uma corda e
um torniquete.

- Aqui est o passaporte - disse o postilho. - Que estrada
tomamos, meu jovem burgus?

- A estrada de Fontainebleau - respondeu Eugnie, numa voz
quase masculina.

- Que ests a dizer? - perguntou Louise, surpreendida.

-  para despistar - respondeu Eugnie. - A mulher a quem
demos vinte luses pode atraioar-nos por quarenta. No bulevar
tomaremos outra direco.

E a jovem saltou para a brisca, transformada em excelente sege
de viagem, sem quase tocar no estribo.

- Tens sempre razo, Eugnie - disse a professora de canto,
instalando-se junto da amiga.

Um quarto de hora mais tarde, o postilho, posto no caminho
correcto, transpunha, fazendo estalar o chicote, o porto da
Barreira Saint-Martin.

- Ah! - exclamou Louise, respirando. - At que enfim samos de
Paris!

- Sim, minha querida, e o rapto est realmente consumado -
respondeu Eugnie.

- Sim, mas sem violncia - observou Louise.

- Farei valer isso como circunstncia atenuante - declarou
Eugnie.

Estas palavras perderam-se no meio do barulho que fazia a
carruagem rodando no calcetamento da Villette.

O Sr. Danglars j no tinha filha.


Captulo XCVIII

A estalagem do sino e da garrafa


E agora deixemos Mademoiselle Danglars e a amiga rodar pela
estrada de Bruxelas e voltemos ao pobre Andrea Cavalcanti, to
malfadadamente detido no caminho da fortuna.

Apesar da sua idade ainda pouco avanada, o Sr. Andrea
Cavalcanti era um rapaz muito hbil e inteligente.

Por isso, vimo-lo, aos primeiros rumores que penetraram no
salo, aproximar-se gradualmente da porta, atravessar uma ou
duas salas e por fim desaparecer.

Uma das circunstncias que nos esquecemos de mencionar, e que,
no entanto, no deve ser omitida,  que numa das duas salas
atravessadas por Cavalcanti se encontrava exposta a corbelha
da noiva, constituda por diamantes, xailes de caxemira,
rendas de Valenciennes, vus de Inglaterra... por tudo o que
compe, enfim, esse acervo de objectos tentadores cujo nome
basta para fazer pular de alegria o corao das jovens e que
se chama enxoval.

Ora, ao passar por essa sala, Andrea - o que prova que era no
s rapaz muito inteligente e hbil, mas tambm previdente -
apoderou-se do mais rico de todos os adereos expostos.

Munido desse vitico, Andrea sentira-se metade mais leve para
saltar pela janela e esgueirar-se por entre as mos dos
gendarmes.

Alto e esbelto como um lutador antigo, musculoso como um
espartano, Andrea empreendera uma corrida de um quarto de
hora, sem saber para onde ia, apenas com o fito de se afastar
do local onde estivera quase a ser preso.

Partido da Rua do Mont-Blanc, encontrara-se, com esse
instinto das barreiras que os ladres possuem, tal como a
lebre o da toca, ao fundo da Rua Lafayette.

A, sufocado, arquejante, parou.

Estava absolutamente s e tinha  esquerda a tapada de
Saint-Lazare, um vasto deserto, e  direita, Paris em toda a
sua profundidade.

- Estarei perdido? - perguntou a si mesmo. - No, se puder
desenvolver uma soma de actividade superior  dos meus
inimigos. A minha salvao no passa, portanto, muito
simplesmente de uma questo de mirimetros.

Neste momento viu, vindo do alto do Arrabalde Poissonoire, um
cabriol de praa cujo cocheiro, abatido e fumando o seu
cachimbo, parecia querer regressar s extremidades do
Arrabalde Saint-Denis, onde sem dvida estacionava
habitualmente.

- Eh, amigo! - chamou-o Benedetto.

- Que deseja o nosso burgus? - perguntou o cocheiro.

- O seu cavalo est cansado?

- Cansado? Pois bem!... No fez nada todo o santo dia.
Quatro pssimas corridas e vinte soldos de gorjeta; sete
francos ao todo e tenho de entregar dez ao patro!

- Quer juntar a esses sete francos estes vinte?

- Com prazer, burgus! Vinte francos no  coisa que se
despreze. Que  preciso fazer para isso?

- Uma coisa muito fcil se o seu cavalo no estiver cansado.

- Garanto-lhe que voar como o vento; basta dizer para que
lado deve voar...

- Para o lado de Louvres.

- Ah, ah, conheo! Terra do ratafia, no ?...

- Exactamente. Trata-se apenas de apanhar um dos meus amigos
com quem devo caar amanh na Chapelle-en-Serval. Devia
esperar-me aqui com o seu cabriol at s onze e meia e 
meia-noite. Deve-se ter cansado de esperar e partiu sozinho.

-  provvel.

- Bom, quer tentar apanh-lo?

- No pretendo outra coisa.

- Mas se o no apanharmos daqui ao Bourget, receber vinte
francos, e se o no apanharmos daqui a Louvres, trinta.

- E se o apanharmos?

- Quarenta! - respondeu Andrea, que tivera um momento de
hesitao, mas reflectira que no arriscava nada em prometer.

- Vamos a isso! - disse o cocheiro. - Suba e a caminho.
Prrrum!...

Andrea subiu para o cabriol, que, numa corrida rpida,
atravessou o Arrabalde Saint-Denis, seguiu ao longo do
Arrabalde Saint-Martin, atravessou a barreira e meteu pela
interminvel Villette.

Embora estivessem bem livres de apanhar o quimrico amigo, de
vez em quando Cavalcanti perguntava aos transeuntes
retardatrios ou nas tabernas ainda abertas se tinham visto
passar um cabriol verde puxado por um cavalo baio escuro; e
como na estrada dos Pases Baixos circulam muitos cabriols.
nove dcimos dos quais verdes, as informaes choviam a cada
passo.

Acabavam sempre de o ver passar; no levava mais de
quinhentos, duzentos ou cem passos de avano; por fim,
ultrapassavam-no e no era ele.

Uma vez o cabriol foi por seu turno ultrapassado por uma
calea puxada rapidamente a galope por dois cavalos de posta.

- Ah, se tivesse aquela calea, aqueles dois bons cavalos e
sobretudo o passaporte que foi preciso para os alugar!... -
suspirou Cavalcanti.

Aquela calea era a que levava Mademoiselle Danglars e
Mademoiselle de Armilly.

- Depressa! Depressa! - gritou Andrea. - No deve faltar muito
para o apanharmos.

E o pobre cavalo retomou o trote furioso em que viera desde a
barreira e chegou todo fumegante a Louvres.

- Decididamente - disse Andrea --, no conseguirei apanhar o
meu amigo e acabarei por matar o cavalo. Portanto,  melhor
ficar por aqui. Tome os seus trinta francos; vou dormir no
Cavalo Vermelho e seguirei na primeira carruagem em que tiver
lugar. Boas noites, meu amigo.

E Andrea, depois de meter seis moedas de cinco francos na mo
do cocheiro, saltou lestamente para a estrada.

O cocheiro, guardou alegremente o dinheiro e retomou a passo o
caminho de Paris. Entretanto, Andrea fingiu dirigir-se para a
Estalagem do Cavalo Vermelho; mas depois de parar um instante
 porta a ouvir o cabriol afastar-se at desaparecer no
horizonte, retomou a sua corrida e, num passo de ginstica
muito firme, percorreu mais duas lguas.

Depois, descansou. Devia estar muito perto da
Chapelle-en-Serval, aonde dissera que ia.

No fora a fadiga que obrigara Andrea Cavalcanti a parar; fora
a necessidade de tomar uma deciso, de estabelecer um plano.

Meter-se na diligncia era impossvel; optar pela posta era
igualmente impossvel. Para viajar de qualquer das maneiras
era indispensvel um passaporte.

Permanecer no departamento do Oise, ou seja, num dos
departamentos mais descampados e vigiados de Frana, era
tambm impossvel, sobretudo tratando-se de um homem to
experiente como Andrea em matria criminal.

Sentado no parapeito do fosso, Andrea deixou cair a cabea
entre as mos e reflectiu.

Dez minutos depois levantou a cabea; a sua resoluo estava
tomada.

Cobriu de p todo um lado do sobretudo que tivera tempo de
tirar do cabide na antecmara e vestir por cima do traje de
cerimnia. dirigiu-se para a Chapelle-en-Serval e foi bater
ousadamente  porta da nica estalagem da terra.

O estalajadeiro veio abrir.

- Meu amigo - disse Andrea --, ia de Montrelontaine para
Senlis quando o meu cavalo, que  um animal difcil, saltou
bruscamente de lado e atirou comigo a dez passos de
distncia. ora eu tenho de chegar esta noite a Compigne, sob
pena de causar as mais graves preocupaes  minha
famlia; tem um cavalo que me alugue?

Bom ou mau, um estalajadeiro tem sempre um cavalo.

O estalajadeiro da Chapelle-en-Serval chamou o moo de
estrebaria, ordenou-lhe que selasse o Branco e acordou o
filho, um garoto de sete anos, para que acompanhasse o cliente
montado na garupa e trouxesse o quadrpede de volta.

Andrea deu vinte francos ao estalajadeiro e, ao tir-los da
algibeira, deixou cair um carto de visita.

Esse carto de visita era de um dos seus amigos do Caf de
Paris; assim, o estalajadeiro, quando Andrea partiu e apanhou
o carto que cara da algibeira do rapaz, ficou convencido de
que alugara o cavalo ao Sr. Conde de Mauicon, Rua de
Saint-Dominique, 25, nome e endereo que figuravam no carto.

O Branco no ia depressa, mas ia num passo igual e
constante. Em trs horas e meia, Andrea percorreu as nove
lguas que o separavam de Compigne, e davam quatro horas no
relgio da cmara municipal quando chegou  praa onde param
as diligncias.

Existe em Compigne uma excelente estalagem, de que se
recordam mesmo aqueles que s l ficaram uma vez.

Andrea, que l se hospedara numa das suas excurses aos
arredores de Paris, lembrava-se da Estalagem do Sino e da
Garrafa. Orientou-se, viu  luz de um candeeiro a tabuleta
indicadora e depois de mandar embora o garoto, a quem deu todo
o dinheiro mido que trazia consigo, foi bater  porta da
estalagem, pensando com muito bom-senso que tinha diante de si
trs ou quatro horas e que o melhor era precaver-se, mediante
um bom sono e uma boa ceia, contra as fadigas futuras.

Foi um criado quem veio abrir.

- Meu amigo - disse Andrea --, venho de Saint-Jean-au-Bois,
onde jantei, e contava apanhar a carruagem que passa 
meia-noite; mas perdi-me como um estpido e h quatro horas
que percorro a floresta. D-me pois um desses bonitos quartos
que deitam para o ptio e mande levar-me l um frango frio e
uma garrafa de vinho de Bordus.

O criado no teve nenhuma suspeita: Andrea falava com a mais
perfeita tranquilidade, de charuto na boca e com as mos nas
algibeiras do sobretudo. O seu traje era elegante, estava bem
barbeado e as suas botas apresentavam-se impecveis; tinha,
quando muito, o ar de um habitante da terra retardatrio.

Enquanto o criado lhe preparava o quarto, a estalajadeira
levantou-se. Andrea acolheu-a com o seu mais encantador
sorriso e perguntou-lhe se no poderia ficar no nmero 3, onde
j pernoitara na sua ltima passagem por
Compigne.

Infelizmente, o nmero 3 estava ocupado por um rapaz que
viajava com a irm.

Andrea pareceu contrariado e s se conformou quando a
estalajadeira lhe garantiu que o nmero 7, que lhe estavam a
preparar, tinha absolutamente a mesma disposio que o nmero
3. Assim, esperou, aquecendo os ps e conversando acerca das
ltimas corridas de Chantilly, que lhe viessem anunciar que o
quarto estava pronto.

No fora sem motivo que Andrea talara dos bonitos quartos que
davam para o ptio. De facto, o ptio da Estalagem do Sino,
com a sua tripla fileira de galerias que lhe davam o ar de uma
sala de espectculos, com os seus jasmins e as suas clematites
que subiam ao longo das suas colunatas, leves como uma
decorao natural, era uma das mais encantadoras entradas de
estalagem existentes no mundo.

O frango estava ptimo, o vinho era velho e o lume crepitava
alegremente. Andrea surpreendeu-se a cear com tanto apetite
como se nada tivesse acontecido.

Depois deitou-se e adormeceu quase imediatamente, num desses
sonos implacveis que o homem encontra sempre aos vinte anos,
mesmo quando tem remorsos.

Ora somos forados a confessar que Andrea poderia ter
remorsos, mas no os tinha.

Eis qual era o plano de Andrea, plano que lhe dera a maior
parte da sua tranquilidade: ao amanhecer, levantar-se-ia e
sairia da estalagem depois de pagar escrupulosamente a conta;
dirigir-se-ia para a floresta e compraria, a pretexto de se
dedicar a estudos de pintura, a hospitalidade de um campons;
arranjaria um traje de lenhador e um machado, ou seja,
despiria as galas de "leo" para envergar as vestes de
operrio. Depois, com as mos terrosas, o cabelo escurecido
por um pente de chumbo e o rosto bronzeado com um preparado de
que os seus antigos camaradas lhe tinham dado a receita,
alcanaria, de floresta em floresta, a fronteira mais prxima,
caminhando de noite, dormindo de dia nos bosques ou nas
pedreiras e s se aproximando de lugares habitados para
comprar de vez em quando um po.

Uma vez atravessada a fronteira, Andrea venderia os diamantes
por uma importncia a que juntaria uma dezena de notas que
trazia sempre consigo para qualquer eventualidade e
encontrar-se-ia ainda de posse de umas cinquenta mil libras, o
que no parecia  sua filosofia um comeo de vida demasiado
rigoroso.

De resto, contava muito com o interesse que os Danglars teriam
em extinguir o falatrio acerca da sua desventura.
Eis por que, alm da fadiga, Andrea adormeceu to depressa e
dormiu to bem.

No entanto, para acordar mais cedo, Andrea no fechara as
persianas; limitara-se apenas a correr o fecho da porta e a
deixar aberta, em cima da mesa-de-cabeceira, uma navalha
aguadssima, cuja excelente tmpera conhecia e de que nunca
se separava.

Por volta das sete da manh, Andrea foi acordado por um raio
de sol que lhe veio, tpido e brilhante, brincar na cara.

Em qualquer crebro bem organizado a ideia dominante - e
existe sempre uma --, a ideia dominante, dizamos,  a que,
depois de ser a ltima a adormecer,  tambm a primeira que
ilumina o despertar do pensamento.

Ainda Andrea no abrira por completo os olhos e j o seu
pensamento dominante se lhe impunha e segredava que dormira de
mais.

Saltou da cama e correu  janela.

Um gendarme atravessava o ptio.

Um gendarme  um dos indivduos mais impressionantes que
existem no mundo, mesmo aos olhos de um homem que no tem nada
a temer; mas para uma conscincia assustada e que tem algum
motivo para o estar, o amarelo, o azul e o branco de que se
compe o seu uniforme adquirem aspectos assustadores.

"Porqu um gendarme ?", pensou Andrea.

De sbito, respondeu a si mesmo com a lgica que o leitor j
lhe deve ter notado: "Um gendarme no tem nada de
extraordinrio numa estalagem. Em todo o caso,
vistamo-nos..."

E o jovem vestiu-se com uma rapidez que no conseguira
fazer-lhe perder o seu criado de quarto durante os poucos
meses de vida social que levara em Paris.

- Bom - disse Andrea enquanto se vestia esperarei que se v
embora e quando se for embora, escapar-me-ei.

E ditas estas palavras, Andrea, j calado e engravatado,
aproximou-se devagarinho da janela e soergueu pela segunda vez
a cortina de musselina.

No s o primeiro gendarme se no fora embora, como ainda
surgiu aos olhos do jovem segundo uniforme azul, amarelo e
branco, ao fundo da escada, a nica pela qual poderia descer,
enquanto um terceiro, a cavalo e de mosqueto em punho, se
conservava de sentinela diante da grande porta da rua, a nica
pela qual poderia sair.

O terceiro gendarme era deveras significativo, e isto porque
atrs dele se estendia um semicrculo de curiosos que
bloqueavam hermeticamente te a porta da estalagem.

"Procuram-me!", foi o primeiro pensamento de Andrea. "Diabo!"

A palidez invadiu a fronte do rapaz; olhou  sua volta com
ansiedade.

O seu quarto, como todos os daquele andar, s tinha sada para
a galeria exterior, aberta a todos os olhares.

"Estou perdido!", foi o seu segundo pensamento.

Com efeito, para um homem na situao de Andrea a priso
significava: julgamento, sentena e morte, a morte sem
misericrdia e sem demora.

Por instantes comprimiu convulsivamente a cabea entre as
mos.

Durante esses instantes, quase enlouqueceu de medo.

Mas daquele mundo de pensamentos que se lhe entrechocavam na
cabea no tardou a brotar um pensamento de esperana. Nos
lbios descorados desenhou-se-lhe um sorriso plido, que lhe
iluminou as faces contradas.

Olhou  sua volta. Os objectos que procurava encontravam-se
reunidos em cima do mrmore de uma secretria: eram uma pena,
tinta e papel.

Molhou a pena na tinta e escreveu com mo que se esforou por
tornar firme as seguintes linhas, na primeira folha do
caderno:

No tenho dinheiro para pagar, mas no sou um homem
desonesto. Deixo em penhor este alfinete, que vale dez vezes a
despesa que fiz.

Espero me desculpem Ter fugido ao amanhecer, tive vergonha!


Tirou o alfinete da gravata e p-lo em cima do papel.
Feito isto, em vez de deixar o fecho corrido, abriu-o,
entreabriu mesmo a porta, como se tivesse sado do quarto e se
houvesse esquecido de o fechar, c metendo-se na chamin como
homem habituado quele gnero de ginstica, puxou para si a
antepara de papel que representava Aquiles com Deidamia,
apagou com os prprios ps os vestgios dos seus passos nas
cinzas e comeou a escalar o tubo curvo que lhe oferecia a
nica via de salvao em que ainda podia ter alguma esperana.

Naquele preciso momento, o primeiro gendarme que Andrea vira
subia a escada, precedido pelo comissrio de polcia, e
apoiado pelo segundo gendarme, que guardava o fundo da escada,
o qual contava por seu turno com o apoio do que se encontrava
 porta.

Eis a que circunstncia Andrea devia a visita que com tanta
dificuldade se dispunha a receber.

Ao amanhecer, os telgrafos tinham funcionado em todas as
direces, e cada posto, prevenido quase imediatamente,
avisara as autoridades e lanara a fora pblica em busca do
assassino de Caderousse.

Compigne, residncia real: Compigne, cidade de caa;
Compigne, cidade de guarnio, estava abundantemente
fornecida de autoridades, gendarmes e comissrios de polcia.
As buscas tinham portanto comeado logo aps a recepo da
ordem telegrfica, e como a Estalagem do Sino e da Garrafa era
o principal estabelecimento hoteleiro da cidade, comeara-se
muito naturalmente por ele.

Alis, segundo o relatrio das sentinelas que tinham estado
durante a noite de guarda  cmara municipal (a cmara
municipal ficava contgua  Estalagem do sino), segundo o
relatrio das sentinelas, dizamos, verificara-se durante a
noite a chegada de vrios viajantes  estalagem.

A sentinela que fora rendida s seis da manh recordava-se at
de, no momento em que ocupara o seu posto, isto , s quatro
horas e poucos minutos, ter visto um jovem montado num cavalo
branco e com um camponiozito na garupa, jovem que desmontara
na praa, mandara embora o campnio e o cavalo e fora bater 
porta da Estalagem do Sino, que se abrira diante dele e se
fechara nas suas costas.

Fora sobre esse jovem to singularmente retardatrio que
tinham recado as suspeitas.

Ora, o jovem era precisamente Andrea.

E era baseados nestes dados que o comissrio de polcia e o
gendarme, um cabo, se encaminhavam para a porta de Andrea, que
estava entreaberta.

- Oh, oh, mau sinal uma porta aberta! - exclamou o cabo, velha
raposa batida nas manhas da profisso. - Preferia v-la
fechada a sete chaves!

Com efeito, o bilhete e o alfinete deixados por Andrea em cima
da secretria confirmaram ou, antes, apoiaram a triste
realidade: Andrea fugira.

Dizemos apoiaram porque o cabo no era homem que se
contentasse com uma nica prova.

Olhou  sua volta, espreitou debaixo da cama, correu os
cortinados, abriu os armrios e por fim deteve-se diante da
chamin.

Graas s precaues de Andrea, nenhum vestgio da sua
passagem ficara nas cinzas.

Contudo, era uma sada, e nas circunstncias em que se
encontravam, todas as sadas deviam ser objecto de rigorosa
investigao.

O cabo mandou portanto trazer um molho de lenha e palha e
encheu a chamin como se fosse um morteiro. Em seguida largou
fogo a tudo.

O lume fez estalar as paredes de tijolo e uma densa coluna de
fumo subiu pela chamin e foi expelida para o cu como o jacto
negro de um vulco. Ningum viu, porm, cair o fugitivo, como
se esperava.

 que Andrea, desde a sua primeira juventude em luta com a
sociedade, valia bem um gendarme, ainda que esse gendarme
fosse um respeitvel cabo: previra portanto o incndio,
alcanara o telhado e escondera-se atrs da chamin.

Por momentos teve alguma esperana de se encontrar salvo, pois
ouviu o cabo chamar os dois gendarmes e gritar-lhes:

- No est c!

Mas, estendendo cautelosamente o pescoo, viu que os dois
gendarmes, em vez de se retirarem, como seria natural, 
primeira chamada, viu, dizamos, que, pelo contrrio, os dois
gendarmes redobravam de ateno.

Olhou por seu turno em redor: a cmara municipal, edifcio
colossal do sculo XVI, erguia-se diante de si como uma
muralha sombria;  direita, pelas janelas do monumento,
podiam-se observar lodos os cantos e recantos do telhado da
estalagem, tal como do alto de uma montanha se v o vale.

Andrea adivinhou que de um momento para o outro veria aparecer
a cabea do cabo de gendarmes em qualquer daquelas janelas.

Descoberto, estaria perdido; uma perseguio nos telhados no
lhe apresentava nenhuma probabilidade de xito.

Resolveu portanto voltar a descer, no pelo mesmo caminho por
onde viera, mas sim por um caminho anlogo.

Procurou com a vista uma chamin donde no sasse qualquer
fumo, alcanou-a rastejando pelo telhado e desapareceu no
orifcio sem ser visto por ningum

No mesmo instante abriu-se uma janelinha da cmara municipal c
deu passagem  cabea do cabo de gendarmes.

Por momentos essa cabea ficou imvel como um dos relevos de
pedra que decoravam o edifcio, depois, com um longo suspiro
de decepo, a cabea desapareceu.

O cabo, calmo e digno como a lei que representava, passou sem
responder s mil e uma perguntas da multido aglomerada na
praa e voltou a entrar na estalagem.

- Ento? - perguntaram por sua vez os dois gendarmes.

- Ento, meus rapazes, parece que de facto o bandido se
distanciou de ns esta manh ao nascer do dia - respondeu o
cabo. - Mas vamos mandar pessoal para as estradas de
Villers-Cotterets e Noyon e revistar a floresta, onde sem
dvida nenhuma o apanharemos.

O respeitvel funcionrio acabava de proferir estas palavras
com a intonao caracterstica dos cabos de gendarmes, quando
um longo grito de terror, acompanhado do toque repetido de uma
campainha, soou no ptio da estalagem.

- Ol! Que  aquilo? - gritou o cabo.

- Ora a est um viajante que parece cheio de pressa
- comentou o estalajadeiro. - Em que nmero esto a tocar?

- No nmero 3.

- Corre, rapaz!

Neste momento, os gritos e os toques de campainha aumentaram.

O criado desatou a correr.

- No - disse o cabo, detendo o rapaz. - Quem toca parece
pedir mais alguma coisa do que o criado e ns vamos mandar-lhe
um gendarme. Quem est hospedado no nmero 3?

- O jovem que chegou esta noite com a irm numa sege de posta
e pediu um quarto com duas camas.

A campainha tocou terceira vez com uma insistncia cheia de
angstia.

- Vamos, Sr. Comissrio! - gritou o cabo. - Siga-me o mais de
perto possvel.

- Um momento! - interveio o estalajadeiro. - Para o quarto
nmero 3 h duas escadas: uma exterior e outra interior.

- Bom, irei pela interior - respondeu o cabo. - As carabinas
esto carregadas?

- Esto, sim, cabo.

- Ento, vigiem vocs o exterior e se ele tentar fugir,
atirem-lhe.  um grande criminoso, segundo disse o telgrafo.

O cabo, seguido do comissrio, desapareceu imediatamente na
escada interior, acompanhado pelo sussurro que as suas
revelaes acerca de Andrea acabava de provocar na multido.

Eis o que acontecera:

Andrea descera perfeitamente dois teros da chamin, mas,
chegado a, o p falhara-lhe e, apesar de se apoiar nas mos,
descera com mais velocidade e sobretudo com mais barulho do
que desejaria. Isso no teria importncia se o quarto
estivesse vazio; mas, por infelicidade sua, estava ocupado.

Duas mulheres que dormiam na mesma cama tinham sido acordadas
pelo barulho.

Os seus olhos estavam cravados no ponte donde viera o barulho
e tinham visto aparecer um homem pela abertura da chamin.

Fora uma das mulheres, a loura, que soltara o grito terrvel
que ecoara por toda a casa, enquanto a outra, que era morena,
se agarrava ao cordo da campainha e dava o alarme, tocando
com todas as suas foras.

Como se v, Andrea estava em mar de azar.

- Por piedade! - gritou, plido, desorientado, sem ver as
pessoas a quem se dirigia. - Por piedade, no chamem,
salvem-me! No lhes quero lazer mal.

- Andrea, o assassino! - gritou uma das raparigas.

- Eugnie! Mademoiselle Danglars! - murmurou Cavalcanti,
passando do terror ao espanto.

- Socorro! Socorro! - gritou Mademoiselle de Armilly, tirando
a campainha das mos inertes de Eugnie e tocando ainda com
mais fora do que a companheira.

- Salvem-me, perseguem-me! - suplicou Andrea juntando as mos.
- Por piedade, por compaixo, no me entreguem!

-  demasiado tarde, ouo subir - respondeu Eugnie.

- Ento escondam-me em qualquer parte e digam que se
assustaram sem motivo. Desviaro as suspeitas e salvar-me-o a
vida.

As duas mulheres, agarradas uma  outra envoltas na roupa da
cama, ficaram mudas quela voz suplicante. Todas as
apreenses, todas as repugnncias se entrechocavam no seu
esprito!

- Est bem, seja! - acedeu Eugnie. -Volte pelo caminho por
onde veio, desgraado. Parta e no diremos nada.

- C est ele! C est ele! - gritou uma voz no patamar. - C
est ele, estou a v-lo!

Com efeito, o cabo colara um olho  fechadura e vira Andrea de
p e suplicante.

Uma violenta coronhada fez saltar a fechadura e mais duas
fizeram saltar o ferrolho. A porta, quebrada, caiu para
dentro.

Andrea correu para a outra porta, a que deitava para a galeria
do ptio, abriu-a e preparou-se para saltar.

Mas os dois gendarmes estavam l com as suas carabinas e
levaram-nas  cara.

Andrea parou bruscamente. De p, plido, com o corpo um pouco
inclinado para trs, segurava a navalha, agora intil, na mo
crispada.

- Fuja! - gritou Mademoiselle de Armilly, no corao da qual
entrava a piedade  medida que o terror saa. - Fuja!

- Ou mate-se! - acrescentou Eugnie no tom e na atitude de uma
daquelas vestais que no circo ordenavam com o polegar, ao
gladiador vitorioso, que acabasse com o seu adversrio
vencido.

Andrea estremeceu e fitou a jovem com um sorriso de desprezo,
demonstrativo de que a sua corrupo no compreendia aquela
sublime ferocidade da honra.

- Matar-me! - exclamou, largando a navalha. - Para qu?

- Mas voc mesmo disse que o condenaro  morte e o executaro
como o ltimo dos criminosos! - gritou Mademoiselle Danglars.

- Ora!... - replicou Cavalcanti, cruzando os braos. - Tenho
amigos...

O cabo avanou para ele de sabre em punho.

- Pronto, pronto, meu caro, meta l isso na bainha! - disse
Cavalcanti. - No vale a pena tanto espalhafato, uma vez que
me rendo...

E estendeu as mos para as algemas.

As duas jovens assistiam com terror quela horrvel
metamorfose que se operava diante dos seus olhos: a de um
homem de sociedade que se despojava do seu invlucro e voltava
 sua condio de forado.

Andrea virou-se para elas e perguntou com um sorriso de
impudncia:

- Tem algum recado para o senhor seu pai, Mademoiselle
Eugnie? Porque, segundo todas as probabilidades, regresso a
Paris...

Eugnie escondeu a cara nas mos.

- Oh, no tem de que se envergonhar nem lhe quero mal por se
ter metido numa carruagem e corrido atrs de mim!... -
exclamou Andrea. - No era quase seu marido?

E depois desta graola, Andrea saiu deixando as duas fugitivas
entregues s amarguras da vergonha e aos comentrios dos
curiosos.

Uma hora mais tarde, envergando ambas a sua indumentria
feminina, subiam para a sua calea de viagem.

Tinham fechado a porta da estalagem para as subtrair aos
primeiros olhares, mas mesmo assim, quando a porta se abriu,
tiveram de passar entre alas de curiosos de olhos chamejantes
e lbios murmurantes.

Eugnie desceu os estores; mas se j no via, continuava a
ouvir os risos escarninhos.

- Oh, porque no ser o mundo um deserto?! - exclamou,
lanando-se nos braos de Mademoiselle de Armilly, com os
olhos cintilantes da raiva que fazia desejar a Nero que o
mundo romano tivesse apenas uma cabea para a cortar de um s
golpe.

No dia seguinte hospedavam-se no Hotel da Flandres, em
Bruxelas.

Andrea entrara na vspera na Conciergerie.

Captulo XCIX

A lei


J vimos com que tranquilidade Mademoiselle Danglars e
Mademoiselle de Armilly tinham conseguido disfarar-se e
fugir.  que todos estavam demasiado ocupados com os seus
problemas pessoais para se ocuparem dos delas.

Deixaremos o banqueiro, com a testa coberta de suor, alinhar
perante o fantasma da falncia as enormes colunas do seu
passivo e seguiremos a baronesa, que, depois de ficar um
instante esmagada pela violncia do golpe que acabava de a
atingir, fora procurar o seu conselheiro habitual, Lucien
Debray.

Com efeito, a baronesa contava com o casamento da filha para
se libertar finalmente de uma tutela que, com uma rapariga do
temperamento de Eugnie, no deixava de ser muitssimo
difcil. Porque, naquelas espcies de contratos tcitos que
mantinham o vnculo hierrquico da famlia, a me s era na
realidade senhora da filha com a condio de ser continuamente
para ela um exemplo de sensatez e um tipo
de perfeio.

Ora, a Sr.a Danglars temia a perspiccia de Eugnie e os
conselhos de Mademoiselle de Armilly. J surpreendera certos
olhares desdenhosos lanados pela filha a Debray - olhares que
pareciam significar que a filha conhecia todo o mistrio das
suas relaes amorosas e pecunirias com o secretrio ntimo
--, e uma interpretao mais sagaz e aprofundada desses
olhares teria demonstrado  baronesa que Eugnie detestava
Debray no por ser na casa paterna um pomo de discrdia e de
escndalo, mas sim porque o classificava muito simplesmente na
categoria dos bpedes que Digenes pretendia j no considerar
homens e que Plato designava pela perfrase de animais de
duas patas e sem penas.

Do seu ponto de vista - e infelizmente neste mundo cada um tem
o seu ponto de vista que o impede de ver o ponto de vista dos
outros --, a Sr.a Danglars lamentava portanto infinitamente
que o casamento de Eugnie tivesse falhado, no por se tratar
de um casamento conveniente e capaz de fazer a felicidade da
filha, mas sim por ser um casamento que lhe restitua a
liberdade.

Correu, portanto, como dissemos, a casa de Debray, que, depois
de ter, como toda a gente em Paris, assistido  festa do
contrato e ao escndalo que se seguira,  se apressara a
retirar-se para o seu clube, onde, com alguns amigos,
conversava acerca do acontecimento que era quela hora tema
obrigatrio de conversa de trs quartos de uma cidade
eminentemente mexeriqueira, a que chamam a capital do mundo.

No momento em que a Sr.a Danglars, de vestido preto e de vu,
subia a escada que conduzia ao apartamento de Debray, apesar
da certeza que lhe dera o porteiro de que o jovem se no
encontrava em casa, Debray procurava repelir as insinuaes de
um amigo que tentava provar-lhe que depois do escndalo
terrvel que acabava de se verificar era seu dever de amigo da
casa casar com Mademoiselle Eugnie Danglars e os seus dois
milhes.

Debray defendia-se como um homem que no deseja outra coisa
seno ser vencido; porque tal ideia lhe acudira por si mesma
com frequncia ao esprito. Depois, como conhecia Eugnie e o
seu temperamento independente e altivo, retomava de vez em
quando uma atitude completamente defensiva, dizendo que tal
unio era impossvel, embora intimamente se deixasse lisonjear
pela sua eventualidade e cedesse a um mau pensamento, que, no
dizer de todos os moralistas, preocupa incessantemente o homem
mais probo e puro e vela no fundo da sua alma como Satans
vela atrs da cruz. O ch, o jogo e a conversa, interessante
como se v, uma vez que se discutiam to graves interesses,
duraram at  uma hora da manh.

Entretanto, a Sr.a Danglars, recebida pelo criado de quarto de
Lucien, esperava, velada e palpitante, na salinha verde, entre
dois aafates de flores que ela prpria mandara de manh e que
Debray, deve-se diz-lo, dispusera, arranjara e cortara
pessoalmente com um cuidado que fez perdoar a sua ausncia 
pobre mulher.

s onze horas e quarenta minutos a Sr.a Danglars, farta de
esperar inutilmente, voltou a meter-se num fiacre e regressou
a casa.

As mulheres de certa classe tm isso em comum com as
costureirinhas galantes: no recolhem habitualmente depois da
meia-noite. A baronesa entrou no palcio com tanta precauo
como Eugnie tomara para sair e subiu ligeiramente, com o
corao apertado, a escada que levava aos seus aposentos,
contguos, como se sabe, aos de Eugnie.

Temia tanto provocar qualquer comentrio e acreditava to
firmemente - pobre mulher respeitvel, pelo menos nesse ponto
- na inocncia da filha e na sua fidelidade ao lar paterno!...

Chegada aos seus aposentos, escutou  porta de Eugnie e
depois, no ouvindo nenhum rudo, tentou entrar; mas os fechos
estavam corridos.

A Sr.a Danglars julgou que Eugnie, cansada das terrveis
emoes da noite, se metera na cama e dormia.

No entanto, chamou a criada de quarto e interrogou-a.

- Mademoiselle Eugnie - respondeu a criada - regressou aos
seus aposentos com Mademoiselle de Armilly, tomaram ch juntas
e depois mandaram-me embora dizendo que no precisavam mais de
mim.

Desde ento a criada de quarto estivera na copa e, como toda a
gente, julgava as duas raparigas nos aposentos de Eugnie.

A Sr.a Danglars deitou-se sem a sombra de uma suspeita; mas,
tranquila a respeito das pessoas, o seu esprito deteve-se nos
acontecimentos.

 medida que as ideias se lhe esclareciam na cabea, as
propores da cena do contrato aumentavam: j se no tratava
de um escndalo, mas sim de uma indecncia, nem de uma
vergonha, mas sim de uma ignomnia.

Mal-grado seu, a baronesa lembrou-se ento de que no tivera
compaixo da pobre Mercds, ferida recentemente, no marido e
no filho, por uma desgraa tambm grande.

- Eugnie - disse para consigo - est perdida e ns tambm. O
caso, tal como vai ser comentado, cobre-nos de oprbrio,
porque numa sociedade como a nossa certos ridculos so chagas
vivas, sangrentas, incurveis. Ainda bem que Deus dotou
Eugnie daquele temperamento estranho que tantas vezes me tem
assustado!

E o seu olhar reconhecido ergueu-se ao cu, cuja misteriosa
providncia dispe tudo antecipadamente, conforme os
acontecimentos se devem suceder, e de um defeito, de um vcio
mesmo, faz s vezes uma virtude.

Depois o seu pensamento transps o espao, como fazem, abrindo
as asas, as aves dos abismos, e deteve-se em Cavalcanti.

- O tal Andrea era um miservel, um ladro, um assassino; e no
entanto possua maneiras que indicavam uma semieducao, seno
uma educao completa. Ainda por cima, apresentou-se na
sociedade aparentando possuir grande fortuna e com o apoio de
nomes respeitveis...

Como ver claro naquele ddalo? A quem se dirigir para sair
daquela cruel situao?

Debray, para quem correra ao primeiro impulso da mulher que
procura auxlio no homem que ama e que por vezes a perde,
Debray s poderia dar-lhe um conselho. Era a algum mais
poderoso que devia recorrer.

A baronesa pensou ento no Sr. de Villefort.

Fora o Sr. de Villefort que decidira prender Cavalcanti; fora
o Sr. de Villefort que, sem compaixo, levara a desventura ao
seio da sua famlia como se fosse uma famlia estranha.

Mas no; pensando melhor, o procurador rgio no era um homem
sem compaixo, era um magistrado escravo do seu dever, um
amigo leal e firme que brutalmente, mas com mo segura,
escalpelizara a corrupo. No era um carrasco, era um
cirurgio, e um cirurgio que quisera isolar aos olhos do
mundo a honra dos Danglars da ignomnia daquele rapaz perdido
que tinham apresentado  sociedade como seu futuro genro.

Uma vez que o Sr. de Villefort, amigo da famlia Danglars,
procedia assim, j no havia motivo para supor que o
procurador rgio soubera de alguma coisa antecipadamente e se
prestara a qualquer manejo de Andrea.

Pensando bem, o comportamento de Villefort apresentava-se
ainda  baronesa sob um aspecto mutuamente vantajoso.
Mas a inflexibilidade do procurador rgio deveria ficar por
a.
No dia seguinte procur-lo-ia e conseguiria, seno que
faltasse aos seus deveres de magistrado, pelo menos que lhe
concedesse toda a latitude da indulgncia.

A baronesa invocaria o passado, rejuvenesceria as suas
recordaes e suplicaria em nome de um tempo culpado, mas
feliz. O Sr. de Villefort abafaria o caso ou pelo menos
deixaria (e para o conseguir s tinha de desviar os olhos para
outro lado), ou pelo menos deixaria fugir Cavalcanti e s
procederia judicialmente contra esse simulacro de crime
chamado contumcia.

S ento adormeceu mais tranquila.

No dia seguinte, s nove horas, levantou-se e, sem tocar a
chamar a criada de quarto, sem dar sinal de existncia a quem
quer que fosse, arranjou-se e, vestida com a mesma
simplicidade da vspera, desceu a escada, saiu do palcio, foi
a p at  Rua da Provena, meteu-se num fiacre e fez-se
conduzir a casa do Sr. de Villefort.

Havia um ms que aquela casa maldita apresentava o aspecto
lgubre de um lazareto onde a peste se tivesse declarado.
Parte dos aposentos estavam fechados interior e exteriormente.
As persianas corridas s se abriam um instante para renovar o
ar. Nessas ocasies, via-se ento aparecer  janela a cara
assustada de um lacaio. Depois a janela fechava-se como a laje
de um tmulo cai sobre um sepulcro e os vizinhos cochichavam:
"Iremos ver hoje sair novamente um caixo da casa do Sr.
Procurador Rgio?"

A Sr.a Danglars sentiu um arrepio perante o aspecto daquela
casa desolada. Apeou-se do fiacre e, com os joelhos pouco
firmes, aproximou-se da porta fechada e tocou.

S ao terceiro toque de campainha, cujo som lgubre parecia
participar da tristeza geral, apareceu um porteiro que
entreabriu a porta apenas o indispensvel para deixar passar
as suas palavras.

Viu uma mulher, uma mulher da alta, uma mulher elegantemente
vestida, e no entanto a porta continuou a permanecer quase
fechada.

- Abra! - ordenou a baronesa.

- Antes de mais nada, quem  a senhora? - perguntou o
porteiro.

- Quem sou?... Mas voc conhece-me muito bem?

- J no conhecemos ningum, minha senhora.

- Mas voc enlouqueceu, meu amigo! - exclamou a baronesa.

- Da parte de quem vem?

- Oh, isto  de mais!

- Minha senhora, so ordens, desculpe. O seu nome?

- Sr.a Baronesa Danglars. Voc j me viu mais de vinte vezes.

-  possvel, minha senhora. Agora, que deseja?

- Oh, que impertinente! Hei-de queixar-me ao Sr. de Villefort
da impertinncia dos seus criados.

- Minha senhora, no se trata de impertinncia, mas sim de
precauo. Ningum entra aqui sem licena do Sr. de Avrigny ou
sem ter falado com o Sr. Procurador Rgio.

- Mas  precisamente com o Sr. Procurador Rgio que desejo
falar.

- Assunto urgente?

- Pode bem calcular que sim, visto ainda no ter tomado a
subir para a minha carruagem. Mas acabemos com isto: aqui tem
o meu carto, leve-o ao seu amo.

- A senhora espera que eu volte?

- Espero. V.

O porteiro fechou a porta e deixou a Sr.a Danglars na rua.

Verdade seja que a baronesa no esperou muito tempo. Pouco
depois a porta voltou a abrir-se numa largura suficiente para
dar passagem  baronesa. Ela entrou e a porta fechou-se
novamente.

Chegada ao ptio, o porteiro, sem perder um instante a porta
de vista, puxou de um apito de algibeira e apitou.

O criado de quarto do Sr. de Villefort apareceu na escadaria.

- Minha senhora, tenha a bondade de desculpar esse pobre homem
- disse, vindo ao encontro da baronesa --, mas as suas ordens
so rigorosas e o Sr. de Villefort encarregou-me de dizer 
senhora que ele no podia fazer o contrrio do que fez.

No ptio estava um fornecedor que fora introduzido com as
mesmas precaues e cujas mercadorias examinavam.

A baronesa subiu a escadaria. Sentia-se profundamente
impressionada com aquela tristeza, que aumentava por assim
dizer o crculo da sua, e, sempre guiada pelo criado de
quarto, introduziram-na, sem que o seu guia a perdesse de
vista, no gabinete do magistrado.

Por mais preocupada que a Sr.a Danglars estivesse com o motivo
que ali a levava, a recepo que lhe dispensara toda a
criadagem parecera-lhe to indigna que comeou por se queixar.

Mas Villefort levantou a cabea, que o sofrimento vergara, e
olhou-a com um sorriso to triste que as queixas morreram-lhe
nos lbios.

- Desculpe aos meus criados um terror de que os no posso
culpar. Suspeitos, tornaram-se suspeitosos.

A Sr.a Danglars ouvira j falar muitas vezes, na sociedade, do
terror a que se referia o magistrado, mas nunca suporia, se
no visse com os seus prprios olhos, que semelhante
sentimento pudesse chegar quele ponto.

- O senhor tambm tem motivos para se sentir desventurado?

- Tenho, sim, minha senhora - respondeu o magistrado.

- Lamenta-me ento?

- Sinceramente, minha senhora.

- E compreende o que me traz c?

- Vem falar-me do que lhe aconteceu, no  verdade?

- Venho, sim, senhor; uma desgraa horrvel.

- Quer dizer, uma contrariedade...

- Uma contrariedade?! - exclamou a baronesa.

- Ai de mim, minha senhora - respondeu o procurador rgio com
a sua calma imperturbvel --, habituei-me a s chamar desgraa
s coisas irreparveis!

- Acha ento que as pessoas esquecero?...

- Tudo esquece, minha senhora - respondeu Villefort, - O
casamento da sua filha far-se- amanh, se no se fizer hoje,
ou daqui a oito dias, se no se fizer amanh. E quanto a
lamentar o futuro de Mademoiselle Eugnie, no creio que seja
essa a sua ideia.

A Sr.a Danglars fitou Villefort, estupefacta por lhe ver
aquela tranquilidade quase zombeteira.

- Terei vindo procurar um amigo? - perguntou num tom cheio de
dolorosa dignidade.

- Bem sabe que sim, minha senhora - respondeu Villefort, cujas
faces se cobriram de um leve rubor ao fazer esta afirmao.

Com efeito, tal afirmao referia-se a outros acontecimentos e
no queles que ocupavam naquele momento a baronesa e ele
prprio.

- Nesse caso, seja mais afectuoso, meu caro Villefort -
redarguiu a baronesa. - Fale-me como amigo e no como
magistrado, e quando me sinto profundamente infeliz no me
diga que devo estar alegre.



Villefort inclinou-se.

- Quando ouo falar de desventuras, minha senhora, no posso
deixar de me lembrar que adquiri h trs meses o hbito de
pensar nas minhas, e ento, mal-grado meu, realiza-se no meu
esprito essa egosta operao do paralelo.  por isso que,
comparadas com as minhas desventuras, as suas me parecem
contrariedades. E  por isso tambm que, comparada com a minha
funesta situao, a sua me parece invejvel. Mas se isso a
contraria, deixemo-lo. Dizia, minha senhora?...

- Venho pedir-lhe que me diga, meu amigo, em que p se
encontra o caso desse impostor - respondeu a baronesa.

- Impostor! - repetiu Villefort. - Decididamente, minha
senhora,  pecha sua atenuar certas coisas e exagerar outras.
Impostor o Sr. Andrea Cavalcanti, ou antes o Sr. Benedetto!
Engana-se, minha senhora, o Sr. Benedetto  realmente um
assassino.

- Senhor, no nego a justeza da sua rectificao; mas quanto
mais severamente se encarniar contra esse desgraado, tanto
mais prejudicar a nossa famlia. Vamos, esquea-o por um
momento; em vez de o perseguir, deixe-o fugir...

- Chegou demasiado tarde, minha senhora; as ordens j foram
dadas.

- Nesse caso, se o apanharem... Acha que o apanham?

- Tenho essa esperana.

- Se o apanharem... oua, sempre ouvi dizer que as prises
esto a transbordar... Pois se o apanharem, deixe-o na priso.

O procurador rgio fez um gesto negativo.

- Pelo menos at a minha filha se casar - acrescentou a
baronesa.

- Impossvel, minha senhora. A justia tem as suas
formalidades.

- Mesmo para mim? - observou a baronesa, meio sorridente, meio
sria.

- Para todos - respondeu Villefort. - E para mim mesmo como
para os outros.

- Ah! - exclamou a baronesa, sem acrescentar em palavras o que
o seu pensamento acabava de deixar transparecer nesta
exclamao.

Villefort fitou-a com o olhar com que sondava os pensamentos.

- Sim, sei o que quer dizer - prosseguiu. - Refere-se a esses
boatos terrveis espalhados na sociedade de que todas estas
mortes que h trs meses me vestem de luto e de que a morte 
qual, como que por milagre, acaba de escapar Valentine no so
naturais.

- No pensava de modo algum nisso - replicou vivamente a Sr.a
Danglars.

- Pensava, sim, minha senhora, e era justo, pois no podia
deixar de pensar e dizer para consigo, baixinho: "Tu, que
persegues o crime, responde: "Porque se verificam  tua volta
crimes que ficam impunes?""

A baronesa empalideceu.

- Dizia isto para consigo, no  verdade, minha senhora?

- Sim... confesso.

-- Vou responder-lhe.

Villefort aproximou a sua poltrona da cadeira da Sr.a
Danglars, apoiou as mos na secretria e disse, numa intonao
mais abafada do que de costume:

- H crimes que permanecem impunes porque se no sabe quem so
os criminosos e se receia atingir uma cabea inocente em vez
de uma cabea  culpada. Mas quando esses criminosos forem
descobertos - e Villefort, estendeu a mo para um crucifixo
colocado defronte da secretria --, quando esses criminosos
forem descobertos - repetiu --, pelo Deus vivo, minha senhora,
sejam quem forem, morrero! Agora, depois do juramento que
acabo de fazer e que cumprirei, minha senhora, ainda ousa
pedir-me compaixo para esse miservel?

- Tem a certeza de que  to culpado como dizem? - inquiriu a
Sr.a Danglars.

- Tenho aqui o seu processo. Escute: Benedetto, condenado
inicialmente a cinco anos de gals por falsificao, aos
dezasseis anos. (O rapaz prometia, como v...) Depois evadido
e em seguida assassino.

- E quem  esse desgraado?

- Oh, isso sabe-se! Um vagabundo, um corso.

- Ningum intercedeu por ele?

- Ningum. No se sabe quem so os seus pais.

- Mas esse homem que veio de Luca?

- Outro patife como ele; seu cmplice, talvez.

A baronesa juntou as mos.

- Villefort... - disse com a sua mais meiga e acariciadora
intonao.

- Por Deus, minha senhora-respondeu o procurador rgio com uma
firmeza no isenta de secura --, por Deus, nunca me pea que
tenha compaixo de um culpado!

"Quem sou eu? A lei. Ora a lei tem porventura olhos para ver
a sua tristeza? Ouvidos para escutar a sua meiga voz? Memria
para aplicar a si prpria os seus delicados pensamentos? No,
minha senhora, a lei ordena, e quando a lei ordena, fere.

"Dir-me- que sou um ser vivo e no um cdigo; um homem e no
um volume. Olhe para mim, minha senhora, olhe  minha volta:
os homens trataram-me como irmo? Amaram-me? Pouparam-me?
Consideraram-me? Algum pediu compaixo para o Sr. de
Villefort e houve porventura quem concedesse a esse algum
perdo para o Sr. de Villefort? No, no, no! Feriram-no,
feriram-no sempre!

"Persiste, mulher, como sereia que , em me falar com esse
olhar encantador e expressivo que me recorda que devo corar.
Sim, sem dvida, corar do que sabe e talvez, talvez de mais
outra coisa.

"Mas enfim, desde que eu prprio falhei, e talvez mais
profundamente do que os outros, desde esse tempo tenho
sacudido as roupas dos outros em busca da lcera, e
encontrei-a, e direi mais: encontrei-a com prazer, com
alegria, esse sinal da fraqueza ou da perversidade humana.

"Porque cada homem que reconhecia culpado, e cada culpado que
feria, parecia-me uma prova viva, uma nova prova de que eu no
era uma hedionda excepo.
Infelizmente - sim, infelizmente, infelizmente! - toda a gente
 m, minha senhora; provemo-lo e firamos o mau!

Villefort pronunciou estas ltimas palavras com raiva febril,
que dava  sua linguagem uma eloquncia feroz.

- Mas - prosseguiu a Sr.a Danglars, procurando tentar um
ltimo esforo - o senhor no diz que esse rapaz  um
vagabundo, um rfo abandonado por todos?

- Tanto pior, tanto pior, ou antes, tanto melhor. A
Providncia f-lo assim para ningum ter de chorar por ele.

- Isso  encarniar-se contra um fraco, senhor.

- Um fraco que assassina!

- A sua desonra recairia sobre a minha casa.

- No tenho eu a morte na minha!

- Oh, senhor, da sua parte no h piedade para os outros! -
exclamou a baronesa. - Pois bem, sou eu quem lho diz, tambm
no haver piedade para si!

- Seja! - redarguiu Villefort, erguendo, num gesto de ameaa,
o brao do cu.

- Adie ao menos a causa desse desventurado, se ele for preso,
para o prximo perodo judicial. Isso dar-nos- seis meses
para que o caso se j esquecido.

- No - recusou Villefort. - Ainda tenho cinco dias; a
instruo est concluda, e cinco dias  mais tempo do que
necessito. Alis, no compreende, minha senhora, que tambm
necessito de esquecer? Quando trabalho, e trabalho dia e
noite, quando trabalho h momentos em que me esqueo, e quando
me esqueo sou feliz como so os mortos. Mas mesmo .Assim isso
 ainda prefervel a sofrer.

- Ele fugiu, senhor. Deixe-o fugir. A inrcia  uma clemncia
fcil.

- Mas se j lhe disse que era demasiado tarde! O telgrafo
funcionou ao romper do dia, e a esta hora...

- Senhor - disse o criado de quarto, entrando --, um drago
traz este ofcio do ministro do Interior.

Villefort pegou na carta e abriu-a vivamente. A Sr.a Danglars
estremeceu de terror e Villefort de alegria.

- Preso! - exclamou Villefort. - Prenderam-no em compigne.
Acabou-se.

A Sr.a Danglars levantou-se, fria e plida.

- Adeus, senhor.

- Adeus, minha senhora - respondeu o procurador rgio, quase
alegre, acompanhando-a at  porta.

Depois, regressando  secretria, disse, batendo na carta com
as costas da mo direita:

- Pronto, tinha uma falsificao, trs roubos e dois
incndios. S me faltava um assassnio. Ei-lo! A sesso ser
bela.


Captulo C


A apario


Como dissera o procurador rgio  Sr.a Danglars, Valentine
ainda no estava restabelecida.

Quebrada pela fadiga, conservava-se de cama e foi no seu
quarto e da boca da Sr.a de Villefort que tomou conhecimento
dos acontecimentos que acabamos de contar, isto , da fuga de
Eugnie e da priso de Andrea Cavalcanti, ou antes de
Benedetto, assim como da acusao de assassnio formulada
contra ele.

Mas Valentine estava to fraca que tais acontecimentos no
produziram nela o efeito que talvez tivessem produzido se se
encontrasse no seu estado de sade habitual.

Efectivamente, tudo se resumiu a algumas ideias vagas, a
algumas formas imprecisas, ainda por cima misturadas com
ideias estranhas e fantasmas fugazes que se lhe formavam no
crebro doente ou lhe passavam diante dos olhos, e em breve
at tudo isso se desvaneceu para s lhe deixar dedicar todas
as suas energias s sensaes pessoais.

Durante o dia, Valentine mantinha ainda conscincia da
realidade graas  presena de Noirtier, que se fazia conduzir
aos aposentos da neta e l permanecia, vigiando Valentine com
o seu olhar paternal. Depois, quando regressava do Palcio da
Justia, era Villefort quem, por sua vez, passava uma hora ou
duas com o pai e a filha.

s seis horas, Villefort retirava-se para o seu gabinete; s
oito chegava o Sr. de Avrigny, que trazia pessoalmente a poo
nocturna preparada para a jovem; depois, levavam Noirtier.

Uma enfermeira escolhida pelo mdico substitua toda a gente e
s se retirava quando, por volta das dez ou onze horas,
Valentine adormecia.

Quando descia, entregava pessoalmente as chaves do quarto de
Valentine ao Sr. de Villefort, de forma que dali em diante s
se podia entrar no quarto da doente atravessando os aposentos
da Sr.a de Villefort e o quarto do pequeno douard.

Morrel vinha todas as manhs aos aposentos de Noirtier saber
notcias de Valentine. Mas, coisa extraordinria, parecia de
dia para dia menos inquieto.

Em primeiro lugar, apesar de dominada por uma violenta
exaltao nervosa, Valentine estava cada vez melhor, depois,
no lhe dissera Monte-Cristo, quando correra de cabea
perdida para casa do conde, que se Valentine no morresse
dentro de duas horas, estaria salva?

Ora, Valentine ainda estava viva e j se tinham passado quatro
dias.

A exaltao nervosa a que nos referimos perseguia Valentine
at no sono ou, antes, no estado de sonolncia que se sucedia
 viglia. Era ento que, no silncio da noite e na
semi-obscuridade que deixava reinar a lamparina pousada na
chamin, via passar as sombras que povoam o quarto dos doentes
 que estimulam a febre com as suas asas frementes.
Ento parecia-lhe ver aparecer ora a madrasta que a ameaava,
ora Morrel que lhe estendia os braos, ora seres quase
estranhos  sua vida habitual, como o conde de Monte-Cristo.
Nesses momentos de delrio at os mveis lhe pareciam
mover-se. E isso prolongava-se assim at s duas ou trs horas
da manh, momento em que um sono de chumbo se apoderava da
jovem e a conduzia at ao dia.

Na noite que se seguiu  manh em que Valentine soube da fuga
de Eugnie e da priso de Benedetto, e em que, depois de se
terem confundido um instante com as sensaes da sua prpria
existncia, esses acontecimentos lhe comeavam a sair pouco a
pouco da ideia; depois da sucessiva retirada de Villefort, de
Avrigny e de Noirtier; quando soavam onze horas em
Saint-Philippe du Roule e a enfermeira, aps colocar ao
alcance da mo da doente a beberagem preparada pelo mdico e
fechar a porta do quarto, escutava palpitante, na copa para
onde se dirigira, os comentrios dos criados, e guardava na
memria as histrias lgubres  que havia trs meses
alimentavam os seres da criadagem do procurador rgio -
verificou-se uma cena inesperada naquele quarto to
cuidadosamente fechado.

Havia j cerca de dez minutos que a enfermeira se retirara.

Valentine, presa havia uma hora da febre que a assaltava todas
as noites. deixava a cabea, insubmissa  sua vontade,
continuar o trabalho activo, montono e implacvel do crebro,
que se esgota a reproduzir incessantemente os mesmos
pensamentos ou a conceber as mesmas imagens.

Da mecha da lamparina partiam milhares e milhares de
irradiaes, todas impregnadas de significados estranhos,
quando de sbito,  sua chama trmula, Valentine julgou ver a
sua estante, colocada ao lado da chamin, numa cavidade da
parede, abrir-se lentamente sem que os gonzos em que parecia
girar produzissem o mais pequeno rudo.

Noutra altura, Valentine leria pegado na campainha e puxado o
cordo de seda a pedir socorro; mas j nada a surpreendia, na
situao em que se encontrava. Tinha conscincia de que todas
as vises que a rodeavam eram fruto do seu delrio e esta
convico arreigara-se-lhe depois de verificar que, de manh,
nunca restava qualquer vestgio dos fantasmas da noite, que
desapareciam ao amanhecer.

Atrs da porta apareceu uma figura humana.

Devido  febre, Valentine estava demasiado familiarizada com
semelhantes aparies para se assustar; arregalou apenas os
olhos, esperando reconhecer Morrel.

A figura continuou a aproximar-se da cama e depois parou e
pareceu escutar com profunda ateno.

Nesse momento, um reflexo da lamparina iluminou o rosto do
visitante nocturno.

- No  ele!... - murmurou a jovem.

E esperou, convencida de que sonhava, que aquele homem, como
acontece nos sonhos, desaparecesse ou se transformasse em
qualquer outra pessoa.

Entretanto, apalpou o pulso e, sentindo-o bater violentamente,
lembrou-se de que o melhor meio de fazer desaparecer aquelas
vises importunas era beber: a frescura da bebida, preparada
de resto para acalmar as agitaes de que Valentine se
queixara ao mdico, contribua, fazendo baixar a febre, para
renovar as sensaes do crebro. Depois de beber, sofria menos
durante algum tempo.

Valentine estende pois a mo, a fim de pegar no copo do pires
de cristal onde se encontrava. Mas no momento em que estendia
fora da cama o brao trmulo, a apario deu novamente, com
mais rapidez do que nunca, dois passos para a cama e chegou
to perto da jovem que esta ouviu-lhe a respirao e julgou
sentir-lhe a presso da mo.

Desta vez a iluso, ou antes a realidade, ultrapassava tudo o
que Valentine experimentara at ali; comeou a considerar-se
bem acordada e viva; teve conscincia de se encontrar de posse
de toda a sua razo e estremeceu.

A presso que Valentine sentira destinava-se a deter-lhe o
brao.

Valentine retirou-o lentamente para si.

Ento a figura, da qual no conseguia despregar os olhos, e
que, de resto, parecia mais protectora do que ameaadora, essa
figura pegou no copo,  aproximou-se da lamparina e observou
a beberagem, como se quisesse apreciar-lhe a transparncia e a
limpidez.

Mas esta primeira prova no bastou.

O homem, ou antes o fantasma - porque andava to suavemente
que o tapete abafava o rudo dos seus passos --, tirou do copo
uma colher da beberagem e engoliu-a. Valentine observava o que
se passava diante dos seus olhos com profundo espanto.

Estava convencidssima de que tudo aquilo no tardaria a
desaparecer para dar lugar a outro quadro; mas o homem, em vez
de se sumir como uma sombra, voltou a aproximar-se, estendeu o
copo a Valentine e disse-lhe numa voz cheia de emoo:

- Agora, beba!...

Valentine estremeceu.

Era a primeira vez que uma das suas vises lhe falava naquele
timbre vibrante.

Abriu a boca para gritar.

O homem ps-lhe um dedo no lbios.

- O Sr. Conde de Monte-Cristo!... - murmurou ela.
Pelo terror que transpareceu dos olhos da jovem, pela tremura
das suas mos e pelo gesto rpido que esboou para se esconder
debaixo dos lenis, podia-se reconhecer a ltima luta da
dvida contra a convico, de facto, a presena de
Monte-Cristo no seu quarto a semelhante hora e a sua entrada
misteriosa, fantstica, inexplicvel, por uma parede, pareciam
coisas impossveis  razo abalada de Valentine.

- No chame, no se assuste - disse o conde --, nem tenha
sequer no fundo do corao a rstia de uma desconfiana ou a
sombra de uma inquietao. O homem que v diante de si (porque
desta vez tem razo, Valentine, e no se trata de uma iluso),
o homem que v diante de si  o mais terno pai e o mais
respeitoso amigo que possa imaginar.

Valentine no soube que responder. Tinha tanto medo daquela
voz que lhe revelava a presena real daquele que falava que
temia associar-lhe a sua. Mas o seu olhar aterrado queria
dizer. "Se as suas intenes so puras, porque est aqui?"

Com a sua maravilhosa sagacidade, o conde compreendeu tudo o
que se passava no corao da jovem.

- Oua-me - disse --, ou antes, olhe-me: v os meus olhos
avermelhados e a minha cara ainda mais plida do que de
costume?  porque h quatro noites que no durmo um s
instante; h quatro noites que velo por si, a protejo, a
conservo ao nosso amigo Maximilien.

Uma onda de sangue subiu rapidamente s faces da doente;
porque o nome que o conde acabava de pronunciar punha termo ao
resto de desconfiana que ele lhe inspirara.

- Maximilien!... - repetiu Valentine, de tal forma lhe era
agradvel pronunciar esse nome. - Maximilien!... Quer dizer
que ele lhe contou tudo?

- Tudo, Disse-me que a sua vida era a dele e prometi-lhe que a
Valentine viveria.

- O senhor prometeu-lhe que eu viveria?

- Prometi.

- De facto, senhor, acaba de falar de vigilncia e proteco.
Isso quer dizer que  mdico?

- Quer, e o melhor que o Cu lhe poderia enviar neste momento,
acredite.

- Diz que tem velado por mim? - perguntou Valentine, inquieta.
- Onde? Nunca o vi...

O conde estendeu a mo na direco da estante.

- Tenho estado escondido atrs daquela porta - respondeu --,
porta que d para a casa contgua, que aluguei.

Num assomo de orgulho pudico, Valentine desviou os olhos e
disse com soberano desprezo:

- O que fez, senhor,  de uma demncia sem exemplo e essa
proteco que me concedeu assemelha-se muito a um insulto.

- Valentine, durante a minha longa viglia apenas vi as
pessoas que a visitavam, os alimentos que lhe preparavam, as
bebidas que lhe serviam. Depois, quando essas bebidas me
pareciam perigosas, entrava como entrei agora, despejava-lhe o
copo e substitua o veneno por uma beberagem benfica que, em
vez da morte que lhe preparavam, fazia circular a vida nas
suas veias.

- O veneno! A morte! - exclamou Valentine, julgando-se de novo
sob o imprio de alguma febril alucinao. - Que quer dizer
com isso, senhor?

- Caluda, minha filha! - recomendou Monte-Cristo, levando o
dedo aos lbios. - Disse o veneno; sim, disse a morte, e
repito, a morte. Mas beba primeiro isto - e o conde tirou da
algibeira um frasco que continha um licor vermelho de que
deitou algumas gotas no copo. - Depois de beber, no tome mais
nada esta noite.

Valentine estendeu a mo; mas assim que tocou no copo,
retirou-a com terror.

Monte-Cristo pegou no copo, bebeu metade do lquido e
apresentou-o a Valentine, que bebeu, sorrindo, o resto do
licor que continha.

- Sim, reconheo o gosto das minhas beberagens nocturnas, da
gua que restitua um pouco de frescura ao meu peito e um pouco
de calma ao meu crebro. Obrigada, senhor, obrigada.

- Aqui tem como viveu quatro noites, Valentine - disse o
conde. - Mas eu, como vivi? Oh, que horas cruis me fez
passar! Oh, que horrveis torturas me infligiu quando via
deitar-lhe no copo o veneno mortal, quando temia que tivesse
tempo de o beber antes de eu ter tempo de o despejar na
chamin!

- Diz - prosseguiu Valentine no cmulo do terror - que sofreu
mil torturas ao ver deitar no meu copo o veneno mortal? Mas se
viu deitarem-me o veneno no copo, tambm viu a pessoa que o
deitava?

- Tambm.

Valentine sentou-se na cama e, aconchegando ao peito, mais
plida do que a neve, a cambraia bordada, ainda hmida do suor
frio do delrio, ao qual comeava a juntar-se o suor ainda
mais gelado do terror, repetiu.

- Viu-a?

- Vi - respondeu pela segunda vez o conde.

- O que me diz  horrvel, senhor! O que pretende fazer-me
crer  algo infernal! O qu, na casa do meu pai, no meu
quarto, no meu leito de dor continuam a assassinar-me?! Oh,
retire-se, senhor! Isso  tentar a minha conscincia,
blasfemar da bondade divina,  impossvel, no pode ser!

-  porventura a primeira pessoa que essa mo fere, Valentine?
No viu cair  sua volta o Sr. de Saint-Mran, a Sr.a de
Saint-Mran, e Barrois? No teria visto cair o Sr. Noirtier,
se o tratamento que segue h cerca de trs anos o no
protegesse, combatendo o veneno atravs da habituao ao
veneno?

- Oh, meu Deus, ser por isso que h perto de um ms o
avozinho exige que compartilhe todas as suas bebidas?! -
exclamou Valentine.

- E essas bebidas tm um gosto amargo como o da casca de
laranja meio seca, no  verdade? - perguntou Monte-Cristo.

- Tm, sim, meu Deus, tm!

- Isso explica-me tudo - declarou Monte-Cristo. - Ele tambm
sabe que se envenena aqui e talvez saiba quem envenena. Assim,
preservou a neta bem amada contra a substncia mortal, e a
substncia mortal perdeu grande parte da sua eficcia devido a
esse princpio de habituao! A est porque s encontra ainda
viva, o que eu no compreendia, depois de ser envenenada h
quatro dias com um veneno que habitualmente no perdoa.

- Mas quem  o assassino?

- Uma pergunta: nunca viu entrar ningum, de noite, no seu
quarto?

- Vi. Muitas vezes julguei ver passar como que umas sombras...
essas sombras aproximarem-se, afastarem-se e desapareceram;
mas tomava-as por vises da minha febre e ainda h pouco,
quando o senhor mesmo entrou... Bom, julguei durante muito
tempo que delirava ou sonhava.

- Portanto, no conhece a pessoa que lhe quer tirar a vida?

- No - respondeu Valentine. - Porque havia algum de me
desejar a morte?

- Vai conhec-la, ento - respondeu Monte-Cristo, apurando o
ouvido.

- Como assim? - perguntou Valentine, olhando com terror  sua
volta.

- Porque esta noite a Valentine j no tem febre nem delira;
porque esta noite est bem acordada, porque acaba de dar
meia-noite, a hora dos assassinos.

- Meu Deus, meu Deus!... - murmurou Valentine, enxugando com a
mo o suor que lhe perlava a testa.

Com efeito, soava lenta e tristemente a meia-noite e dir-se-ia
que cada pancada do martelo de bronze batia no corao da
jovem.

- Valentine - continuou o conde --, chame todas as suas foras
em seu socorro, comprima o corao no peito, contenha a voz na
garganta, finja dormir... e ver, ver!

Valentine pegou na mo do conde.

- Parece-me ouvir um rudo - disse. - Retire-se!

- Adeus, ou antes at breve - respondeu o conde.

Depois, com um sorriso to triste e to paternal que o corao
da jovem se sentiu cheio de reconhecimento, alcanou em bicos
de ps a porta da estante.

Mas, virando-se antes de a fechar atrs de si, recomendou:

- Nem um gesto, nem uma palavra.  necessrio que a julguem a
dormir, pois de contrrio talvez a matassem antes de eu ter
tempo de acorrer.

E depois desta pavorosa recomendao, o conde desapareceu
atrs da porta, que se fechou silenciosamente.


Captulo CI

Locusta


Valentine ficou sozinha. Mais dois relgios, atrasados em
relao ao de Saint-Philippe du Roule, deram ainda a
meia-noite a distncias diferentes.

Depois, exceptuando o rudo de algumas carruagens distantes,
tudo recaiu no silncio.

Ento, toda a ateno de Valentine se concentrou no relgio do
quarto, cujo pndulo mareava os segundos.

Ps-se a contar esses segundos e notou que eram duas vezes
mais lentos do que as pulsaes do seu corao. E no entanto
ainda duvidava. A inofensiva Valentine no podia conceber que
algum desejasse a sua morte. Porqu? Com que fim ? Que mal
fizera que lhe tivesse suscitado um inimigo ?

No havia receio de que adormecesse.

Uma nica ideia, uma ideia terrvel, ocupava o seu espirito
tenso: a de que existia uma pessoa no mundo que tentara
assassin-la e que o ia tentar novamente.

Desta vez essa pessoa, cansada de ver a ineficcia do veneno,
ia, como lhe dissera Monte-Cristo, recorrer ao ferro! Se o
conde no tivesse tempo de lhe acudir... Se tivesse chegado o
seu ltimo momento... Se nunca mais tornasse a ver Morrel...
Perante semelhantes pensamentos, que a cobriam ao mesmo tempo
de uma palidez lvida e de um suor gelado, Valentine estava
prestes a pegar no cordo da campainha e a pedir socorro.

Mas parecia-lhe ver cintilar, atravs da porta da estante, o
olhar do conde, esse olhar que pesava na sua memria e que,
quando pensava nele, a dominava tal vergonha que perguntava a
si mesma se alguma vez o reconhecimento conseguiria apagar o
penoso efeito da indiscreta amizade do conde.

Vinte minutos, vinte eternidades, passaram-se assim, e depois
mais dez. Por fim o relgio rangeu com um segundo de
antecedncia e acabou por martelar uma vez o timbre sonoro.
Nesse preciso momento um rudo de unhas quase imperceptvel na
madeira da estante avisou Valentine de que o conde velava e
lhe recomendava que estivesse atenta.
Com efeito, do lado oposto, isto , para as bandas do quarto
de douard, pareceu a Valentine ouvir ranger o parqu.
Apurou o ouvido e conteve a respirao at quase sufocar. O
puxador da porta rangeu e esta girou nos gonzos.

Valentine, que estava soerguida num cotovelo, s teve tempo de
se deixar cair na cama e de esconder os olhos debaixo do
brao.

Depois, trmula, agitada, com o corao apertado por indizvel
terror, esperou.

Algum se aproximou da cama e aflorou os cortinados.
Valentine reuniu todas as suas foras e deixou ouvir e
murmrio regular da respirao que anuncia um sono tranquilo.

- Valentine! - chamou baixinho uma voz.

A jovem estremeceu at ao fundo do corao, mas no respondeu.


- Valentine! - repetiu a mesma vez.

Igual silncio: Valentine prometera no acordar.

Depois tudo permaneceu imvel.

Valentine ouviu apenas o rudo quase imperceptvel de um
lquido a cair no copo que acabara de despejar.

Ento atreveu-se, a coberto do brao estendido, a entreabrir
as plpebras.

Viu uma mulher de penteador branco que deitava no copo um
licor preparado antecipadamente num frasco.

Durante esse curto instante, Valentine conteve talvez a
respirao ou fez sem dvida algum movimento porque a mulher
deteve-se e inclinou-se sobre a cama para ver melhor se ela
dormia realmente: era a Sr.a de Villefort.

Ao reconhecer a madrasta, Valentine foi atacada por calafrios
intensos, que imprimiram movimento  cama.

A Sr.a de Villefort afastou-se imediatamente ao longo da
parede e a, escondida atrs dos cortinados da cama, muda,
atenta, espiou o mais pequeno movimento de Valentine.

Esta recordou-se das terrveis palavras de Monte-Cristo;
parecera-lhe ver brilhar na mo que segurava o frasco uma
espcie de punhal comprido e aguado. Ento, apelando para
toda a fora da sua vontade em seu auxlio, esforou-se por
fechar os olhos. Mas tal funo do mais sensvel dos nossos
sentidos, tal funo, habitualmente to simples, tornava-se
naquele momento quase impossvel de executar, de tal modo a
vida curiosidade se esforava por repelir as plpebras e
atrair a verdade.

Entretanto, tranquilizada pelo silncio em que recomeara a
ouvir-se o rudo compassado da respirao de Valentine, sinal
de que esta dormia, a Sr.a de Villefort estendeu de novo o
brao e, permanecendo meio escondida pelos cortinados
apanhados  cabeceira da cama, acabou de deitar no copo de
Valentine o contedo do frasco.

Depois retirou-se, sem que o mais pequeno rudo advertisse
Valentine de que se fora embora.

Esta vira apenas desaparecer o brao, mais nada; o brao
fresco e torneado de uma mulher de vinte e cinco anos, jovem e
bela que derramava a morte.

 impossvel exprimir o que Valentine experimentou durante o
minuto e meio que a Sr.a de Villefort permanecera no seu
quarto.

O rudo de unhas na estante arrancou a jovem ao estado de
torpor em que mergulhara e que se assemelhava  perda dos
sentidos.

Levantou a cabea com esforo.

A porta, sempre silenciosa, girou segunda vez nos gonzos e o
conde de Monte-Cristo reapareceu.

- Ento, ainda duvida? - perguntou o conde.

- Oh, meu Deus! - murmurou a jovem.

- Viu?

- Infelizmente!

- Reconheceu a pessoa?

Valentine soltou um gemido.

- Reconheci, mas no posso acreditar - respondeu.

- Pretere ento morrer e fazer morrer Maximilien!...

- Meu Deus, meu Deus! - repeliu a jovem, quase desvairada. -
Mas no poderei deixar ssta casa, salvar-me?...

- Valentine, a mo que a persegue alcan-la- em qualquer
lado. A poder de ouro comprar os seus criados e a morte
surgir-lhe- disfarada sob todos os aspectos: na gua que
beber na fonte, no fruto que colher na rvore.

- Mas no me disse que a precauo do avozinho me imunizara
contra o veneno?

- Contra um veneno e mesmo assim no empregado em dose forte.
Mudar de veneno ou aumentar a dose.

Pegou no copo e molhou os lbios.

- E isso j foi feito! J no  com brucina que a envenenam, 
com um simples narctico. Reconheo o gosto do lcool em que o
dissolveram. Se tivesse bebido o que a Sr.a de Villefort acaba
de deitar neste copo, Valentine, estaria perdida.

- Mas, meu Deus, por que motivo me persegue assim? - gritou a
jovem.

- Como,  assim to meiga, to boa, to pouco crente no mal
que ainda no compreendeu, Valentine?

- No, e nunca lhe fiz mal - respondeu a jovem.

- Mas a Valentine  rica! Tem duzentas mil libras de
rendimento e impede que essas duzentas mil libras de
rendimento sejam do filho dela!

- Como assim? A minha fortuna no lhe pertence, herdei-a da
minha famlia.

- Claro, e foi por isso que o Sr. e a Sr.a de Saint-Mran
morreram: para que a Valentine herdasse deles. E a est por
que motivo, no dia em que a fez sua herdeira, o Sr. Noirtier
foi tambm condenado, e por que motivo a Valentine devia
morrer por seu turno: para que o seu pai herdasse de si e o
seu irmo, tornado filho nico, herdasse do seu pai.

- douard! Pobre criana,  por ele que se cometem todos
esses crimes?

- Compreende, finalmente!

- Mas, meu Deus, contanto que tudo isso no caia sobre ele!

-  um anjo, Valentine.

- Mas o meu av, renunciaram a mat-lo?

- Reflectiram que uma vez a Valentine morta a fortuna, a no
ser que tivesse havido deserdao, reverteria naturalmente
para o seu irmo e concluam que o crime, alm de intil, era
duplamente perigoso.

- E foi no espirito de uma mulher que semelhante combinao se
forjou? Oh, meu Deus, meu Deus!

- Lembre-se de Persia, do caramancho da estalagem da posta,
do homem da capa escura que a sua madrasta interrogava acerca
da aquatofana. Desde essa poca que todo este projecto
infernal amadurecia no seu crebro.

- Oh, senhor, se  assim, bem vejo que estou condenada a
morrer! - exclamou a meiga rapariga, lavada em lgrimas.

- No, Valentine, no, porque previ todas as conspiraes.
No, porque a nossa inimiga est vencida, uma vez que foi
descoberta. No, viver, Valentine, viver para amar e ser
amada, viver para ser feliz e tornar feliz um nobre corao.
Mas para viver, Valentine, tem de ter confiana em mim.

- Ordene, senhor. Que devo fazer?

- Deve tomar cegamente o que lhe darei.

- Oh, Deus  testemunha de que se estivesse sozinha preferiria
morrer! - exclamou Valentine.

- No dir nada a ningum, nem mesmo ao seu pai.

- O meu pai no tem nada a ver com esta horrvel conspirao,
no  verdade, senhor? - perguntou Valentine, juntando as
mos.

- No, e no entanto o seu pai, homem habituado s acusaes
criminais, o seu pai deve desconfiar de que todas estas mortes
que desabam sobre a sua casa no so de modo algum naturais.
Era ao seu pai que competia velar por si, era ele que devia
estar a esta hora no lugar que ocupo; era ele que devia j ter
despejado este copo; era ele que devia ter-se erguido contra o
assassino. Fantasma contra fantasma... - murmurou  guisa de
concluso.

- Senhor - disse Valentine --, farei tudo para viver porque
existem dois seres no mundo que me amam a tal ponto que
morreriam se eu morresse: o meu av e Maximilien.

- Velarei por eles como tenho velado por si.

- Sendo assim, senhor, disponha de mim -- disse Valentine, que
acrescentou em voz baixa: - Oh, meu Deus, meu Deus, que me ir
acontecer?!

- Seja o que for que lhe acontea, Valentine, no se assuste.
Mesmo que sofra e que perca a vista, o ouvido e o tacto, nada
receie. Se acordar sem saber onde est, no tenha medo, ainda
que ao acordar se encontre em qualquer jazigo ou encerrada num
caixo. Recupere rapidamente a sua presena de esprito e diga
para consigo: "Neste momento um amigo, um pai, um homem que
quer a minha felicidade e a de Maximilien, esse homem vela por
mim."

- Valha-me Deus, que terrvel extremidade!

- Valentine, prefere denunciar a sua madrasta?

- Preferiria morrer cem vezes! Oh, sim, morrer!

- No, no morrer, e seja o que for que lhe acontea,
promete-me no se queixar, no perder a esperana?

- Pensarei em Maximilien.

- A Valentine  a minha filha bem-amada. S eu a posso salvar
e salv-la-ei.

No cmulo do terror, Valentine juntou as mos, porque sentia
que chegara o momento de pedir coragem a Deus, e ergueu-se
para rezar, murmurando palavras sem nexo e esquecendo que os
seus ombros brancos no tinham mais nada a cobri-los alm da
sua comprida cabeleira e que se via pulsar o seu corao sob a
renda fina da camisa de dormir.

O conde pousou suavemente a mo no brao da jovem, puxou-lhe
at ao pescoo a colcha de veludo e disse com um sorriso
paternal:

- Minha filha, confie na minha dedicao como confia na
bondade de Deus e no amor de Maximilien.

Valentine pousou nele um olhar cheio de reconhecimento e
permaneceu dcil como uma criana debaixo da colcha que a
cobria.

Ento o conde tirou da algibeira do colete a caixinha de
esmeralda onde guardava as suas drageias, abriu a tampa de
ouro e deitou a mo direita de Valentine uma pastilhazinha
redonda, do tamanho de uma ervilha.

Valentine pegou-lhe com a outra mo e olhou o conde
atentamente. Havia nas feies daquele intrpido protector um
reflexo da majestade e do poder divinos. Era evidente que
Valentine o interrogava com a vista.

- Sim - respondeu ele.

Valentine levou a pastilha  boca e engoliu-a.

- E agora, at breve, minha filha - disse o conde. - Vou
tentar dormir, porque est salva.

- V - disse Valentine. - Sei a o que for que me acontea,
prometo-lhe no ter medo.

Monte-Cristo conservou durante muito tempo os olhos fitos na
jovem, que adormeceu pouco a pouco, vencida pela fora do
narctico que o conde acabava de lhe dar.

Ento, este pegou no copo, despejou trs quartas partes do seu
contedo na chamin, para que se pudesse crer que Valentine
bebera o que faltava, e voltou a p-lo em cima da
mesa-de-cabeceira. Em seguida dirigiu-se para a porta da
estante e desapareceu, depois de lanar um derradeiro olhar a
Valentine, que adormecia com a confiana e a candura de um
anjo deitado aos ps do Senhor.


Captulo CII

Valentine


A lamparina continuava a arder na chamin de Valentine,
consumindo as ltimas gotas de azeite que ainda boiavam na
gua. J um crculo mais avermelhado coloria o alabastro do
globo e j a chama mais viva deixava escapar as derradeiras
crepitaes, que nas coisas inanimadas parecem as ltimas
convulses da agonia, que tantas vezes comparamos com as das
pobres criaturas humanas. Uma claridade plida e sinistra
acabava de tingir de um tom de opala os cortinados brancos e
os lenis da cama da jovem.

No se ouvia qualquer barulho na rua e o silncio interior
causava calafrios.

A porta do quarto de douard abriu-se ento, e uma cabea que
j vimos apareceu no espelho oposto  porta: era a Sr.a de
Villefort, que voltava para ver o efeito da beberagem.

Parou no limiar, escutou a crepitao da lamparina, nico
rudo perceptvel naquele quarto, que se diria deserto, e em
seguida dirigiu-se devagarinho para a mesa-de-cabeceira a fim
de ver se o copo de Valentine estava vazio.

Continha ainda um quarto do lquido, como dissemos.

A Sr.a de Villefort pegou-lhe e foi despej-lo nas cinzas, que
revolveu para facilitar a absoro do licor. Depois, lavou
cuidadosamente o cristal, enxugou-o com o seu prprio leno e
recolocou-o na mesa-de-cabeceira.

Quem quer que pudesse olhar para dentro do quarto poderia
verificar ento que a Sr.a de Villefort hesitava em olhar para
Valentine e em se aproximar da cama.

Aquela claridade lgubre, aquele silncio, a terrvel poesia
da noite, conjugavam-se sem dvida com a horrvel poesia da
sua conscincia: a envenenadora tinha medo da sua obra.

Por fim, encheu-se de coragem, afastou o cortinado,
encostou-se  cabeceira da cama e olhou Valentine.

A jovem j no respirava, os seus dentes semidescerrados no
deixavam escapar nenhum tomo de respirao denunciador de
vida: os seus lbios esbranquiados tinham deixado de tremer;
os seus olhos, cobertos de um tom roxo que parecia ter-se
infiltrado atravs da pele, formavam uma salincia mais clara
no stio onde o globo esticava a plpebra, e as suas longas
pestanas pretas destacavam-se numa pele j baa como a cera.

A Sr.a de Villefort contemplou aquele rosto de expresso to
eloquente na sua imobilidade. Afoitou-se ento a levantar a
colcha e a colocar a mo no corao da jovem.

Estava parado e gelado.

O que lhe pulsava debaixo da mo era a artria dos dedos.
Retirou a mo com um arrepio.

O brao de Valentine pendia fora da cama. Aquele brao, desde
o ombro at ao sangradouro, parecia modulado pelo brao de uma
das Graas de Germain Pilon: mas o antebrao estava
ligeiramente deformado por uma crispao, e o punho, de uma
forma to pura, apoiava-se no mogno, um pouco rgido e com os
dedos afastados.

A raiz das unhas apresentava-se azulada.

Para a Sr.a de Villefort no havia dvida: tudo acabara, a
obra terrvel, a ltima de que se encarregara, estava enfim
consumada.

A envenenadora j no tinha nada a fazer naquele quarto.
Recuou portanto com tais precaues que era visvel recear o
rudo dos seus ps no tapete, mas mesmo recuando conservava
ainda o cortinado da cama levantado, presa ao espectculo da
morte, que contm em si uma atraco irresistvel enquanto a
morte no  decomposio, mas apenas imobilidade, enquanto
permanece mistrio e no inspira ainda repugnncia.

Os minutos passavam. A Sr.a de Villefort, no podia largar o
cortinado, que mantinha suspenso como uma mortalha por cima da
cabea de Valentine. Pagou o seu tributo ao devaneio; o
devaneio do crime deve ser o remorso.

Naquele momento, as crepitaes da lamparina aumentaram.

Ao ouvir tal rudo, a Sr.a de Villefort estremeceu e deixou
cair o cortinado.

No mesmo instante a lamparina apagou-se e o quarto mergulhou
numa obscuridade assustadora.

No meio dessa obscuridade, o relgio deu quatro e meia.

Apavorada com todas estas sucessivas comoes, a envenenadora
alcanou a porta s apalpadelas e regressou ao seu quarto com
o suor da angstia na testa.

A obscuridade durou ainda mais duas horas.

Depois, pouco a pouco, uma claridade triste invadiu o quarto
atravs das persianas. Em seguida, tambm pouco a pouco, a
claridade aumentou e deu cor e forma aos objectos e aos
corpos.

Foi neste momento que a tosse da enfermeira soou na escada e a
mulher entrou no quarto de Valentine com uma chvena na mo.

Para um pai, para um apaixonado, o primeiro olhar seria
decisivo: Valentine estava morta; para aquela mercenria,
Valentine estava apenas a dormir.

- Bom - disse, aproximando-se da mesa-de-cabeceira --, bebeu
uma parte da poo, pois o copo est dois teros vazio.

Em seguida dirigiu-se para a chamin, acendeu o lume,
instalou-se na sua poltrona e, embora tivesse acabado de se
levantar, aproveitou o sono de Valentine para dormir mais uns
instantes.

O relgio acordou-a ao dar oito horas.

Ento, surpreendida com o sono obstinado em que permanecia a
jovem, e assustada com aquele brao pendente  fora da cama que
a dorminhoca ainda no metera debaixo da roupa, avanou para a
cama e s ento reparou naqueles lbios frios e naquele peito
gelado.

Quis meter o brao na cama, junto do corpo; mas o brao s lhe
respondeu com a rigidez medonha que no podia enganar uma
enfermeira.

A mulher soltou um grito horrvel.

Depois, correu para a porta a gritar:

- Socorro! Socorro!

- Quem  que pede socorro? - perguntou do fundo da escada a
voz do Sr. de Avrigny.

Era a hora a que o mdico tinha o hbito de vir.

- Quem est a pedir socorro? - gritou a voz de Villefort, o
qual saiu precipitadamente do seu gabinete. - No ouviu gritar
por socorro, doutor?

- Ouvi, ouvi. Subamos - respondeu Avrigny. - Subamos depressa
ao quarto de Valentine.

Mas antes de o mdico e o pai entrarem, os criados, que se
encontravam no mesmo andar, nos quartos e nos corredores,
anteciparam-se-lhes e, vendo Valentine plida e imvel na
cama, levantaram as mos ao cu e cambalearam como se
sentissem vertigens.

- Chamem a Sr.a de Villefort! Acordem a Sr.a de Villefort! -
gritou o procurador rgio da porta do quarto, no qual parecia
no se atrever a entrar.

Mas os criados, em vez de obedecerem, olhavam para o Sr. de
Avrigny, que entrara, correra para Valentine e a erguia nos
braos.

- Mais esta!...-murmurou, deixando-a cair. - Oh, meu Deus, meu
Deus, quando vos cansareis?!

Villefort entrou no quarto.

- Que diz o senhor, meu Deus? - gritou, erguendo as mos ao
cu. - Doutor!... Doutor!...

- Digo que Valentine morreu! - respondeu Avriany, numa voz
solene e terrvel na sua solenidade.

O Sr. de Villefort caiu de joelhos como se as pernas se lhe
tivessem partido e escondeu o rosto no leito de Valentine.

Ao ouvirem as palavras do mdico e os gritos do pai, os
criados, aterrados, fugiram soltando imprecaes abafadas.
Ouviram-se nas escadas e nos corredores os seus passos
precipitados, depois grande movimento nos ptios e em seguida
mais nada; o rudo extinguiu-se. Do primeiro ao ltimo, tinham
abandonado a casa maldita.

Neste momento, a Sr.a de Villefort, com um brao meio metido
na manga do roupo, levantou a tapearia. Por um instante
permaneceu no limiar, com ar de quem interroga os presentes e
procurando chamar em seu auxlio algumas lgrimas rebeldes.

De sbito deu um passo, ou antes um salto em frente, com os
braos estendidos para a mesa.

Acabava de ver Avrigny inclinar-se curiosamente sobre o mvel
e pegar no copo que estava certa de ter despejado durante a
noite.

O copo encontrava-se um tero cheio, precisamente como estava
quando ela despejara o seu contedo nas cinzas.

O fantasma de Valentine erguido diante da envenenadora
produziria menos efeito sobre ela.

De tacto, era sem dvida aquela a cor da beberagem que deitara
no copo de Valentine e que Valentine bebera, era sem dvida
aquele o veneno, que no podia enganar os olhos do Sr. de
Avrigny e que o Sr. de Avrigny observava atentamente; fora sem
dvida um milagre, o que Deus fizera decerto para que ficasse,
apesar das precaues do assassino, um vestgio, uma prova,
uma denncia do crime.

Entretanto, enquanto a Sr.a de Villefort ficava imvel como a
esttua do Terror e Villefort, com a cara escondida nos
lenis do leito morturio, no via nada do que se passava 
sua volta, Avrigny aproximava-se da janela para melhor poder
examinar o contedo do copo e provar uma gota tirada com a
ponta do dedo.

- Ah, agora j no se trata de brucina!... - murmurou. Vejamos
o que ...

Correu para umdos armrios do quarto de Valentine - armrio
transformado em farmcia --, tirou da sua caixinha de prata um
frasco de cido ntrico e deixou cair algumas gotas na opala
do licor, que se transformou imediatamente num meio copo de
sangue vermelho

- Ah!... - exclamou Avrigny, com o horror do juiz a quem se
revela a verdade, de mistura com a alegria do sbio que
descobre a soluo de um problema.

A Sr.a de Villefort girou um instante sobre si mesma; os seus
olhos chamejaram e depois tornaram-se mortios; procurou,
cambaleante, a porta com a mo e desapareceu.

Pouco depois, ouviu-se o rudo distante de um corpo que cala
no parqu.

Mas ningum lhe prestou ateno. A enfermeira estava ocupada a
olhar a anlise qumica e Villefort continuava aniquilado.

Apenas o Sr. de Avrigny seguira com a vista a Sr.a de
Villefort e notara a sua sada precipitada.

Levantou a tapearia do quarto de Valentine e, atravs do
quarto de douard, pde observar os aposentos da Sr.a de
Villefort, que viu cada, imvel, no parqu.

- V socorrer a Sr.a de Villefort, - disse  enfermeira. - A
Sr.a de Villefort sente-se mal.

- E Mademoiselle Valentine? - balbuciou a mulher.

- Mademoiselle Valentine j no necessita de socorro;
Mademoiselle Valentine est morta.

- Morta! Morta! - suspirou Villefort no paroxismo de uma dor
tanto mais dilacerante quanto mais nova, desconhecida e
inaudita para aquele corao de bronze.

- Morta, diz o senhor?! - gritou terceira voz. - Quem disse
que Valentine estava morta?

Os dois homens viraram-se e viram  porta Morrel, de p,
plido, transtornado, terrvel.

Eis o que acontecera:

 sua hora habitual, e pela portinha que levava aos aposentos
de Noirtier Morrel apresentara-se em casa dos Villeforts.

Contra o costume, encontrou a porta aberta, pelo que no teve
de tocar, e entrou.

Esperou um instante no vestbulo, depois de chamar um criado
qualquer que o introduzisse junto do velho Noirtier.

Mas ningum respondeu; como sabemos, os criados tinham
abandonado a casa.

Morrel no tinha naquele dia nenhum motivo especial para se
sentir inquieto. Possua a promessa de Monte-Cristo de que
Valentine viveria e at ali essa promessa tora fielmente
cumprida. Todas as noites o conde lhe dera boas noticias, que
o prprio Noirtier confirmava no dia seguinte.

No entanto, aquele abandono pareceu-lhe singular. Chamou
segunda vez, terceira, mas o silncio persistiu.

Ento decidiu subir.

A porta de Noirtier estava aberta, tal como as outras portas.

A primeira coisa que viu foi o velho na sua poltrona, no stio
habitual. os seus olhos dilatados pareciam exprimir um terror
ntimo, confirmado ainda pela palidez estranha que lhe cobria
o rosto.

- Como est, senhor? - perguntou o rapaz, no sem um certo
aperto no corao.

- Bem! - respondeu o velho com o seu piscar de olhos. - Bem!
...

Mas a inquietao pareceu aumentar na sua fisionomia.

- Est preocupado - continuou Morrel. - Precisa de qualquer
coisa. Quer que chame um criado?

- Sim - respondeu Noirtier.

Morrel puxou o cordo da campainha; mas mesmo que o puxasse
at se partir, ningum viria, nem veio.

Virou-se para Noirtier, a palidez e a angstia iam crescendo
no rosto do velho.

- Meu Deus! Meu Deus! - exclamou Morrel. - Porque ser que
ningum aparece? Haver algum doente c em casa?

Os olhos de Noirtier pareceram prestes a saltar-lhe das
rbitas.

- Mas que tem o senhor? - continuou Morrel. - Assusta-me...
Valentine? Valentine?...

- Sim! Sim! - acenou Noirtier.

Maximilien abriu a boca para falar, mas a sua lngua no
conseguiu articular nenhum som. Cambaleou e agarrou-se 
parede.

Depois estendeu a mo para a porta.

- Sim, sim, sim! - continuou o velho.

Maximilien correu para a escadinha, que subiu em dois saltos,
enquanto Noirtier parecia gritar-lhe com a vista: "Mais
depressa! Mais depressa!"

Um minuto bastou ao rapaz para atravessar vrias salas,
solitrias como o resto da casa, e chegar ao quarto de
Valentine.

No necessitou de empurrar a porta, pois estava escancarada.

Um soluo foi o primeiro rudo que ouviu. Viu como que atravs
de uma nuvem uma figura negra ajoelhada e com a cara
mergulhada num monte contuso de lenis brancos. O medo, um
medo horrvel, pregava-o ao cho.

Foi ento que ouviu uma voz dizer que Valentine estava morta e
segunda voz responder como um eco.

- Morta! Morta!


Captulo CIII

Maximilien


Villefort levantou-se quase envergonhado de ter sido
surpreendido no meio da sua dor.

A terrvel funo que exercia havia vinte e cinco anos acabara
por fazer dele mais e menos do que um homem.

O seu olhar, por momentos alucinado, fixou-se em Morrel.

- Quem  o senhor, que se esquece que se no entra assim numa
casa habitada pela morte? - perguntou. - Saia, senhor! Saia!

Mas Morrel continuou imvel, sem poder desviar os olhos do
espectculo horrvel daquela cama em desordem e da plida
figura nela deitada.

- Saia, ouviu?! - gritou Villefort, enquanto Avrigny se
adiantava por seu turno para fazer sair Morrel.

Este olhou com ar enlouquecido o cadver, os dois homens e
todo o quarto, pareceu hesitar um instante e abriu a boca.
Depois, no encontrando que dizer, apesar do imenso enxame de
ideias fatais que lhe invadiam o crebro, arrepiou caminho,
metendo as mos pelos cabelos, de tal forma que Villefort e
Avrigny, distrados por momentos das suas preocupaes,
trocaram, depois de o seguir com a vista, um olhar que queria
dizer; " louco!"

Mas ainda no tinham passado cinco minutos ouviram-se gemer os
degraus da escada debaixo de um peso considervel e viu-se
Morrel carregar com fora sobre-humana nos braos a poltrona
de Noirtier e chegar com o velho ao primeiro andar da casa.

Chegado ao cimo da escada, Morrel pousou a poltrona no cho e
empurrou-a rapidamente at ao quarto de Valentine.

Toda esta manobra foi executada com fora decuplicada pela
exaltao frentica do rapaz.

Mas o que mais impressionava era a figura de Noirtier ao
dirigir-se para a cama de Valentine empurrado por Morrel; sim,
a figura de Noirtier, em que a inteligncia desenvolvia todos
os seus recursos e cujos olhos congregavam todo o seu poder
para suprir as restantes faculdades.

Por isso, aquele rosto plido, de olhar incendiado, foi para
Villefort uma temerosa apario.

Todas as vezes que se encontrara com o pai passara-se sempre
algo terrvel.

- Veja o que fizeram! - gritou Morrel, com uma das mos ainda
apoiada nas costas da poltrona que acabava de empurrar at 
cama e com a outra estendida para Valentine. - Veja, meu pai,
veja!

Villefort recuou um passo e olhou com espanto aquele
rapaz que lhe era quase desconhecido e que chamava pai a
Noirtier.

Naquele momento toda a alma do velho pareceu reflectir-se-lhe
nos olhos, que se injectaram de sangue; depois, as veias do
pescoo incharam-lhe e uma cor arroxeada como a que invade a
pele dos epilpticos cobriu-lhe o pescoo, as faces e as
tmporas. quela exploso interior de todo um ser s faltava
um grito.

Esse grito saiu por assim dizer de todos os poros, no seu
mutismo, pungente no seu silncio.

Avrigny precipitou-se para o velho e f-lo respirar um forte
revulsivo.

- Senhor - gritou ento Morrel, pegando na mo inerte do
paraltico --, no me pergunte quem sou e que direito tenho de
estar aqui! Meu Deus, vs que o sabeis. dizei-lho, dizei-lho!

E a voz do rapaz extinguiu-se em soluos.

Quanto ao velho, a respirao arquejante sacudia-lhe o peito.
Dir-se-ia domin-lo uma dessas agitaes que precedem a
agonia.

Por fim, as lgrimas brotaram dos olhos de Noirtier, mais
feliz do que o jovem, que soluava sem chorar. Como no podia
inclinar a cabea, fechou os olhos.

- Dizei-lhe - continuou Morrel em voz estrangulada --,
dizei-lhe que era seu noivo; dizei-lhe que ela era a minha
nobre amiga, o meu nico amor na Terra; dizei-lhe... dizei-lhe
que este cadver me pertence!

E o jovem, dando o terrvel espectculo de uma grande fora
que se quebra, caiu pesadamente de joelhos diante daquela
cama, que os seus dedos crispados apertaram com violncia.

Aquela dor era to pungente que Avrigny se virou para ocultar
a sua emoo e Villefort, sem pedir mais explicaes, atrado
pelo magnetismo que nos impele para aqueles que amaram os que
choramos, estendeu a mo ao jovem.
Mas Morrel no via nada. Pegara na mo, gelada de Valentine, e
como no conseguia chorar, mordia os lenis rugindo.

Durante algum tempo s se ouviu no quarto a luta dos
soluos, das imprecaes e das preces. E no entanto um rudo
dominava todos eles: a respirao rouca e dilacerante, que
parecia, a cada tomada de ar, quebrar um dos rgos vitais do
peito de Noirtier.

Por fim, Villefort, o mais senhor de si de todos, depois de
ter por assim dizer cedido durante algum tempo o seu lugar a
Maximilien, tomou a palavra.

- Senhor, diz que amava Valentine, que era seu noivo.
Ignorava esse amor, assim como ignorava esse compromisso. E no
entanto, eu, seu pai, perdoo-lhe, pois vejo que a sua dor 
grande, real, verdadeira. Alis, em minha casa a dor 
demasiado grande para que sobre no meu corao lugar para a
clera. Mas, como v, o anjo em que depositava as suas
esperanas deixou a Terra; j s pode ser alvo da adorao dos
homens, ela que a esta hora adora o Senhor. Faa pois as suas
despedidas, senhor, ao pobre despojo que ela esqueceu entre
ns, pegue-lhe pela ltima vez na mo que esperava e separe-se
dela para sempre. Agora, Valentine s precisa do padre que a
deve abenoar.

- Engana-se, senhor! - gritou Morrel, levantando-se num
joelho, com o corao traspassado por uma dor mais aguda do
que todas as que experimentara at ali. - Engana-se:
Valentine, morta como est, precisa no apenas de um padre,
mas tambm de um vingador. Sr. de Villefort, mande buscar o
padre; eu serei o vingador.

- Que quer dizer, senhor? - murmurou Villefort, tremendo
perante esta nova inspirao do delrio de Morrel.

- Quero dizer - continuou Morrel - que h dois homens em si,
senhor. O pai j chorou o bastante; agora  a vez de o
procurador rgio assumir as suas funes.

Os olhos de Noirtier cintilaram e Avrigny aproximou-se.

- Senhor - continuou o rapaz, recolhendo com os olhos todos os
sentimentos que se revelavam no rosto dos presentes --, sei o
que digo e o senhor sabe to bem como eu o que vou dizer:
Valentine morreu assassinada!

Villefort baixou a cabea; Avrigny deu mais um passo; Noirtier
disse "sim" com os olhos.

- Ora, senhor - continuou Morrel --, no tempo em que vivemos,
uma pessoa, mesmo que no fosse jovem, bela e adorvel como
era Valentine, no desaparece violentamente do mundo sem que
se peam contas do seu desaparecimento.
Vamos, Sr. Procurador Rgio - acrescentou Morrel com crescente
veemncia --, nada de piedade! Denuncio-lhe o crime, procure o
assassino!

E o seu olhar implacvel interrogava Villefort, que, por sua
vez, apelava com o olhar ora para Noirtier, ora para Avrigny.

Mas em vez de encontrar auxlio no pai ou no mdico, Villefort
s encontrou neles um olhar to inflexvel como o de Morrel.

- Sim -- pestanejou o velho.

- Sem dvida! - disse Avrigny.

- Senhor - replicou Villefort, procurando lutar contra aquela
tripla vontade e contra a sua prpria emoo --, senhor, est
enganado, no se cometem crimes em minha casa. A fatalidade
persegue-me, Deus pe-me  prova.  horrvel pensar semelhante
coisa, mas no se assassina ningum!

Os olhos de Noirtier chamejaram e Avrigny abriu a boca para
falar.

Morrel estendeu o brao pedindo silncio.

- E eu digo-lhe que se mata aqui! - replicou Morrel em voz
baixa, mas que nada perdeu da sua vibrao terrvel. -
Digo-lhe que esta  a quarta vtima em quatro meses. Digo-lhe
que j uma vez, h quatro dias, tentaram envenenar Valentine,
e que s o no conseguiram devido s precaues tomadas pelo
Sr. Noirtier! Digo-lhe que duplicaram a dose ou mudaram de
veneno, e que desta vez triunfaram! Digo-lhe que o senhor sabe
tudo isto to bem como eu, pois aquele senhor preveniu-o como
mdico e como amigo.

- O senhor delira! - protestou Villefort, debatendo-se em vo
no crculo onde se sentia preso.

- Deliro?! - gritou Morrel. - Pois bem, recorro ao testemunho
do prprio Sr. de Avrigny. Pergunte-lhe, senhor, se ainda se
lembra das palavras que pronunciou no seu jardim, no jardim
deste palcio, na prpria noite da morte da Sr.a de
Saint-Mran, quando ambos, o senhor e ele, julgando-se ss,
conversavam acerca dessa morte trgica, na qual essa
fatalidade de que fala e Deus, que acusa injustamente, s
podem ser acusados de uma coisa: terem criado o assassino de
Valentine!

Villefort e Avrigny entreolharam-se.

- Sim, sim, recordem-se - prosseguiu Morrel. - Porque essas
palavras, que julgaram confiadas ao silncio e  solido,
caram nos meus ouvidos. Claro que nessa noite, ao ver a
culpada complacncia do Sr. de Villefort para com os
seus, eu devia ter contado tudo s autoridades. Se o tivesse
feito, no seria cmplice, como sou neste momento, da tua
morte, Valentine, minha querida Valentine! Mas o cmplice
transformar-se- em vingador. Esta quarta morte  flagrante e
visvel aos olhos de todos, e se o teu pai te abandonar,
Valentine, serei eu, serei eu, Juro-te, que perseguirei o
assassino.

E desta vez, como se a natureza tivesse enfim piedade daquela
vigorosa constituio prestes a ser destruda pela sua prpria
fora, as ltimas palavras de Morrel morreram-lhe na garganta,
o peito desentranhou-se-lhe em soluos, as lgrimas, durante
tanto, tempo rebeldes, brotaram-lhe dos olhos, dobrou-se sobre
si mesmo e caiu de joelhos, chorando, junto do leito de
Valentine.

Foi ento a vez de Avrigny.

- Tambm eu - disse com voz forte --, tambm eu me junto ao
Sr. Morrel para pedir justia contra o crime; porque o meu
corao revolta-se  ideia de que a minha cobarde complacncia
encorajou o assassino!

- Oh, meu Deus, meu Deus! - murmurou Villefort, aniquilado.

Morrel ergueu a cabea e leu qualquer coisa nos olhos do
velho, nos quais brilhava uma chama sobrenatural.

- Esperem, esperem. O Sr. Noirtier quer falar.

- Sim - confirmou Noirtier, com uma expresso tanto mais
terrvel quanto  certo todas as faculdades do pobre velho
impotente se encontrarem concentradas no seu olhar.

- Sabe quem  o assassino? - perguntou Morrel.

- Sei - respondeu Noirtier.

- E vai ajudar-nos a descobri-lo? - perguntou o jovem,
alvoroado. - Ouamos! Sr. de Avrigny, ouamos!

Noirtier dirigiu ao pobre Morrel um sorriso melanclico, um
daqueles ternos sorrisos dos olhos que tantas vezes tinham
tornado Valentine feliz, e fitou-o intensamente. Depois, tendo
cravado por assim dizer os olhos do seu interlocutor aos dele,
virou os seus para a porta.

- Quer que eu saia, senhor? - perguntou dolorosamente Morrel.

- Quero - respondeu Noirtier.

- Ento, ento, senhor, tenha compaixo de mim!

Mas os olhos do velho permaneceram implacavelmente virados
para a porta.

- Poderei ao menos voltar? - perguntou Morrel.

- Sim.
- Devo sair sozinho?

- No.

- Quem devo levar comigo? O Sr. Procurador Rgio?

- No.

- O doutor?

- Sim.

- Quer ficar s com o Sr. de Villefort?

- Sim.

- E ele conseguir compreend-lo?

- Sim.

- Oh, esteja tranquilo, compreendo muitssimo bem o meu pai! -
exclamou Villefort, quase alegre por a conversa se ir realizar
 porta fechada.

Mas ao mesmo tempo que proferia estas palavras com a expresso
de alegria que assinalmos, os dentes do procurador rgio
entrechocavam-se com violncia.

Avrigny pegou no brao de Morrel e levou o jovem para a
diviso contgua.

Reinou ento em toda a casa um silncio mais profundo do que o
da morte.

Finalmente, passado um quarto de hora, ouviram-se passos
incertos e Villefort apareceu no limiar da sala onde se
encontravam Avrigny e Morrel, um absorto e o outro impaciente.

- Venham - disse.

E conduziu-os junto da poltrona de Noirtier.

Morrel olhou ento atentamente para Villefort.

O procurador rgio estava lvido; grandes manchas cor de
ferrugem cobriam-lhe a testa; nos dedos, uma pena torcida de
mil maneiras desfazia-se aos poucos.

- Meus senhores - disse em voz estrangulada a Avrigny e Morrel
--, peo-lhes a sua palavra de honra de que este horrvel
segredo ficar sepultado cntre ns.

Os dois homens fizeram um movimento.

- Suplico-lhes!...-continuou Villefort.

- Mas... o culpado?... O envenenador?... O assassino?... -
perguntou Morrel.

- Esteja tranquilo, senhor, que justia ser feita - respondeu
Villefort. - O meu pai revelou-me o nome do culpado; o meu pai
tem sede de vingana como o senhor e no entanto o meu pai
suplica-lhes, como eu, que guardem o segredo do crime. No 
verdade, meu pai?

-  - respondeu resolutamente Noirtier.

Morrel deixou escapar um gesto de horror e incredulidade.

- Oh, se o meu pai, o homem inflexvel que conhece, lhe faz
este pedido,  porque sabe que Valentine ser terrivelmente
vingada! - exclamou Villefort, segurando Maximilien por um
brao. - No  verdade, meu pai?

O velho fez sinal que sim.

Villefort continuou:

- Ele conhece-me e foi a ele que dei a minha palavra.
Tranquilizem-se, portanto, meus senhores. Trs dias, peo-lhes
trs dias, menos do que lhes pediria a justia, e dentro de
trs dias a vingana que tirarei do assassino da minha filha
far tremer at ao fundo do corao os homens mais
empedernidos. No  verdade, meu pai?

E, ao dizer estas palavras, rangia os dentes e abanava a mo
insensvel do velho.

- Tudo o que foi prometido ser cumprido, Sr. Noirtier? -
perguntou Morrel, enquanto Avrigny interrogava com o olhar.

- Sim - respondeu Noirtier, com uma expresso de sinistra
alegria.

- Jurem portanto, meus senhores - disse Villefort, juntando as
mos de Avrigny e Morrel --, jurem que tero compaixo da
honra da minha casa e que me deixaro o cuidado de a vingar...

Avrigny virou-se e murmurou um "sim" muito fraco, mas Morrel
arrancou a sua mo das do magistrado, precipitou-se para a
cama, colou os lbios aos lbios gelados de Valentine e fugiu
com o longo gemido de uma alma que se engolfa no desespero.

Dissemos que todos os criados tinham desaparecido.

O Sr. de Villefort viu-se portanto obrigado a pedir a Avrigny
que se encarregasse das formalidades, to numerosas e
delicadas, que envolvem a morte nas nossas grandes cidades, e
sobretudo a morte em circunstancias to suspeitas.

Quanto a Noirtier, era qualquer coisa terrvel ver aquela dor
horrvel, aquele desespero sem gestos, aquelas lgrimas sem
voz.

Villefort regressou ao seu gabinete e Avrigny foi buscar o
mdico municipal, a quem competiam as funes de inspector dos
bitos, mas que o vulgo designava com menos respeito e mais
propriedade por "mdico dos mortos".

Noirtier no se quis separar da neta.

Ao cabo de meia hora, o Sr. de Avrigny regressou com o colega.
Tinham-se fechado as portas da rua e como o  porteiro
desaparecera com os outros criados, foi o prprio Villefort,
que lhas abriu.

Mas deteve-se no patamar; j no tinha coragem de entrar na
cmara morturia.

Os dois mdicos entraram portanto sozinhos no quarto de
Valentine.

Noirtier estava junto da cama, plido como a morta, imvel e
mudo como ela.

O mdico dos mortos aproximou-se com a indiferena do homem
que passa metade da vida com cadveres, levantou o lenol que
cobria a jovem e entreabriu-lhe apenas os lbios.

- Oh, a pobre pequena est bem morta! -- exclamou Avrigny,
suspirando. -  verdade - respondeu laconicamente o mdico,
deixando cair o lenol que cobria a cara de Valentine.

Noirtier emitiu um arquejo abafado.

Avrigny virou-se; os olhos do velho cintilavam. O bom doutor
adivinhou que Noirtier exigia que lhe deixassem ver a neta.
Aproximou-o da cama, e enquanto o mdico dos mortos mergulhava
em gua cloretada os dedos que tinham tocado nos lbios da
defunta, descobriu o rosto plido e calmo que parecia de um
anjo adormecido.

Uma lgrima que apareceu ao canto do olho de Noirtier foi o
agradecimento que recebeu o bom doutor.

O mdico dos mortos passou a sua certido na ponta de uma
mesa, no prprio quarto de Valentine, e, cumprida essa
formalidade suprema, saiu acompanhado pelo doutor.

Villefort, ouviu-os descer e apareceu  porta do seu gabinete.

Agradeceu em poucas palavras ao mdico, e, virando-se para
Avrigny, disse:

- E agora o padre.

- Tem algum eclesistico que deseje encarregar mais
especialmente de rezar por Valentine? - perguntou Avrigny.

- No, v buscar o mais prximo - respondeu Villefort.

- O mais prximo - disse o mdico -  um bom abade italiano
que reside h pouco tempo na casa contgua a esta.
Quer que o previna quando passar?

- Avrigny, peo-lhe o favor de acompanhar este senhor -  disse
Villefort. - Aqui tem a chave para que possa entrar e sair 
vontade. Traga o padre e encarregue-se de o instalar no quarto
da minha pobre filha.

- Deseja falar-lhe, meu amigo?

- Desejo estar s. Desculpa-me, no  verdade? Um padre deve
compreender todas as dores, mesmo a dor paterna.

E o Sr. de Villefort, depois de dar uma chave-mestra a
Avrigny, cumprimentou pela ltima vez o outro mdico e entrou
no seu gabinete, onde se ps a trabalhar.

Para certas pessoas, o trabalho  remdio para todas as dores.

No momento em que os mdicos chegavam  rua, viram um homem de
sotaina parado no limiar da porta vizinha.

- C est o padre de quem lhe falei - disse o mdico dos
mortos a Avrigny.

Este dirigiu-se ao eclesistico.

- Senhor, estaria disposto a prestar um grande favor a um
pobre pai que acaba de perder a filha, ao Sr. Procurador Rgio
Villefort?

- Ah, senhor, bem sei que a morte lhe entrou em casa! --
respondeu o padre com acentuada pronncia italiana.

- Ento no preciso de lhe dizer que espcie de favor ele ousa
esperar do senhor.

- Ia-me oferecer, senhor - disse o padre. -  nossa misso ir
ao encontro dos nossos deveres.

- Trata-se de uma jovem.

- Sim, bem sei; soube-o pelos criados que vi fugirem de casa.
Sei que sc chamava Valentine e j rezei por ela.

- Obrigado, obrigado, senhor - disse Avrigny. - E uma vez que
j comeou a exercer o seu santo ministrio, digne-se
continu-lo. Venha sentar-se junto da morta e toda uma famlia
mergulhada em luto lhe ficar muito reconhecida.

- Vou j, senhor - respondeu o abade e ouso dizer que nunca
quaisquer oraes sero mais ardentes do que as minhas.

Avrigny pegou na mo do abade e, sem ver Villefort, encerrado
no seu gabinete, conduziu-o ao quarto de
Valentine, de quem os cangalheiros se apoderariam apenas na
noite seguinte.

Quando entrou no quarto, o olhar de Noirtier cruzou-se com o
do abade, e sem dvida julgou ler nele algo especial, pois
nunca mais o deixou.

Avrigny recomendou ao padre no s a morta, mas tambm o vivo,
e o padre prometeu a Avrigny dispensar as suas oraes a
Valentine e os seus cuidados a Noirtier.

O abade comprometeu-se a isso solenemente, e, sem dvida para
no ser incomodado nas suas preces e Noirtier perturbado na
sua dor, assim que o Sr. de Avrigny deixou o quarto foi no s
correr os fechos da porta por onde o mdico acabava de sair,
mas tambm os da que levava aos aposentos da Sr.a de
Villefort.

Captulo CIV


A assinatura de Danglars

O dia seguinte nasceu triste e nevoento.

Os cangalheiros tinham-se desempenhado durante a noite do seu
fnebre ofcio e amortalhado o corpo depositado em cima da
cama na mortalha que  envolve lugubremente os defuntos, mas
lhes empresta, seja o que for que se diga acerca da igualdade
perante a morte, a ltima prova do luxo que apreciaram durante
a vida.

A mortalha era nem mais nem menos do que uma pea de magnfica
cambraia que a jovem comprara quinze dias antes

 noite, homens chamados para o efeito tinham transportado
Noirtier do quarto de Valentine para o seu, e, contra toda a
expectativa, o velho no levantara nenhuma dificuldade em ser
afastado do corpo da neta.

o abade Busoni velara at de manh e ao amanhecer retirara-se
para sua casa sem chamar ningum

Avrigny voltara cerca das oito da manh. Encontrara Villefort,
que se dirigia para os aposentos de Noirtier e acompanhara-o
para saber como o velho passara a noite.

Encontraram-no na grande poltrona que lhe servia de leito,
dormindo um sono tranquilo e quase sorridente.

Ambos se detiveram, atnitos, no limiar.

- Veja - disse Avrigny a Villefort, que olhava o pai
adormecido. - Veja, a natureza sabe acalmar as mais vivas
dores. Sem dvida, ningum dir que o Sr. Noirtier no amava a
neta; no entanto, dorme.

- Tem razo - respondeu Villefort, surpreendido. - Dorme, o
que  muito estranho, pois a mais pequena contrariedade
deixava-o acordado noites inteiras.

- A dor abateu-o - replicou Avrigny.

E ambos voltaram pensativos para o gabinete do procurador
rgio.

- Veja, eu no dormi-disse Villefort, mostrando a Avrigny a
cama intacta. -A dor no me abateu, embora no me deite h
duas noites. Mas, em compensao, veja a minha secretria: o
que escrevi, meu Deus! Durante essas duas noites e esses dois
dias, estudei este processo e redigi a acusao contra o
assassino Benedetto!... Oh, o trabalho, o trabalho,  a minha
paixo, a minha alegria, a minha raiva, s ele  capaz de
vencer todas as minhas dores!

E apertou convulsivamente a mo de Avrigny.

- Precisa de mim? - perguntou o mdico.

- No - respondeu Villefort. - Volte apenas s onze horas,
peo-lhe;  ao meio-dia que se realiza... o funeral... Meu
Deus! Minha pobre filha, minha pobre filha!

E o procurador rgio, voltando a ser homem, ergueu os olhos ao
cu e suspirou.

-Estar portanto no salo de recepo?

- No, tenho um primo que se encarregar dessa triste honra.
Eu trabalharei, doutor, quando trabalho tudo desaparece.

De facto, ainda o mdico no chegara  porta e j o procurador
rgio se entregara ao trabalho.

Avrigny encontrou na escadaria o tal parente de que lhe falara
Villefort, personagem to insignificante nesta histria como
na famlia, um desses seres destinados desde o nascimento a
desempenharem papis insignificantes na vida.

Era pontual, vestia de preto, trazia um fumo no brao e
comparecia em casa do primo com uma cara estudada, que
esperava conservar enquanto fosse preciso e deixar em seguida.


s onze horas as carruagens fnebres rodaram no empedrado do
ptio e a Rua do Arrabalde Saint-Honor encheu-se dos
murmrios da multido, igualmente vida das alegrias e do luto
dos ricos, e que corre para um funeral pomposo com a mesma
pressa que para o casamento de uma duquesa.

Pouco a pouco o salo morturio encheu-se e viu-se chegar
primeiro uma parte dos nossos antigos conhecidos - isto ,
Debray, Chteau-Renaud e Beauchamp - e depois todas as
notabilidades da magistratura, das letras e do Exrcito, pois
o Sr. de Villefort ocupava, menos pela sua posio social do
que pelo seu mrito pessoal, um dos primeiros lugares da
sociedade parisiense.

o primo conservava-se  porta e mandava entrar toda a gente.
Para os indiferentes era um grande alvio, deve-se diz-lo,
ver ali uma figura desconhecida, que no exigia aos presentes
uma fisionomia mentirosa ou lgrimas fingidas, como fariam um
pai, um irmo ou um noivo.
Aqueles que se conheciam chamavam-se com o olhar e reuniam-se
em grupos.

Um desses grupos era constitudo por Debray, Chteau-Renaud e
Beauchamp.

- Pobre pequena! - exclamou Debray, pagando, como todos afinal
o pagavam a seu pesar, tributo ao doloroso
acontecimento.-Pobre pequena. to rica, to bela!...
Passar-lhe-ia pela cabea, Chteau-Renaud, quando nos vimos
pela ltima vez, h quanto tempo?... Trs semanas ou um ms,
no mximo na assinatura daquele contrato que acabou por no
ser assinado, que uma coisa assim pudesse acontecer?

- Palavra que no - respondeu Chteau-Renaud.

- Conhecia-la?

- Falei uma ou duas vezes com ela no baile da Sr.a de Morcerf.
Pareceu-me encantadora, embora dotada de um
esprito um pouco melanclico. Onde est a madrasta? Sabe que
 feito dela?

- Foi passar o dia com a mulher do digno cavalheiro que nos
recebe.

- Quem ?

- Quem  quem?

- O cavalheiro que nos recebe. Um deputado?

- No - respondeu Beauchamp. - Estou condenado a ver os nossos
respeitveis representantes todos os dias e a sua cara -me
desconhecida.

- Referiu esta morte no seu jornal?

- O artigo no  meu, mas falaram-me dele. Duvido at que seja
agradvel ao Sr. de Villefort. Creio que diz que se se
tivessem verificado quatro mortes sucessivas noutro lado em
vez de na casa do Sr. Procurador Rgio, o Sr. Procurador Rgio
ficaria decerto mais impressionado.

- No entanto, o Dr. de Avrigny, que  o mdico da minha me,
diz que est muito acabrunhado - declarou Chteau-Renaud.

- Que procura, Debray?

- Procuro o Sr. Conde de Monte-Cristo - respondeu o jovem.

- Encontrei-o no bulevar ao dirigir-me para aqui. Ia a casa do
seu banqueiro; parece que est de abalada - informou
Beauchamp.

- A casa do seu banqueiro?... Mas o seu banqueiro no  o
Danglars? - perguntou Chteau-Renaud a Debray.

- Creio que sim - respondeu o secretrio particular com uma
leve perturbao. - Mas o Sr. de Monte-Cristo no  o nico
que c falta. Tambm no veio o Morrel.

- O Morrel conhecia-os? - perguntou Chteau-Renaud.

- Creio que fora apresentado apenas  Sr.a de Villefort.

- No interessa, devia ter vindo - disse Debray. - De que
falar esta noite? Este funeral  a notcia do dia... Mas
caluda que vem a o Sr. Ministro da Justia e dos Cultos, que
se vai julgar obrigado a fazer o seu pequeno speech ao primo
lacrimoso

E os trs rapazes aproximaram-se da porta para ouvir o pequeno
speech do Sr. Ministro da Justia e dos Cultos.

Beauchamp dissera a verdade: quando se dirigia para casa de
Villefort encontrara Monte-Cristo, que, pela sua parte, se
dirigia para o palcio de Danglars, na rua da
Chausse-d'Antin.

O baqueiro vira da sua janela a carruagem do conde entrar no
ptio e viera ao seu encontro com uma expresso triste, mas
afvel.

- Ento, conde - disse, estendendo a mo a Monte-Cristo --,
vem apresentar-me as suas condolncias? Na verdade, a
infelicidade persegue a minha casa, e de tal modo que quando o
vi chegar perguntava a mim mesmo se no desejara a desgraa
dos pobres Morcerfs, o que justificaria o provrbio: "Quem,
mal quer, mal lhe acontece." Pois dou-lhe a minha palavra de
honra de que no desejei mal ao Morcerf. Era talvez um bocado
orgulhoso para um homem que viera do nada como eu e que como
eu devia tudo a si mesmo, mas cada um tem os seus defeitos.
Acautele-se, conde! Olhe que as pessoas da nossa gerao!...
Mas, desculpe, o senhor no  da nossa gerao,  ainda um
rapaz... As pessoas da nossa gerao no so felizes este ano.
Prova-o o nosso puritano procurador rgio, prova-o Villefort,
que acaba de perder tambm a filha. Portanto, recapitulando:
Villefort, como dizamos, perde toda a famlia de uma forma
estranha; Morcerf, desonrado, suicida-se; eu sou coberto de
ridculo por esse celerado do Benedetto, e ainda por cima...

- Ainda por cima, o qu? - perguntou Monte-Cristo.

- Ento ainda no sabe?

- A que nova desgraa se refere?

- A minha filha...

- Mademoiselle Danglars?

- Eugnie deixou-nos.

- Oh, meu Deus, que diz o senhor?!

- A verdade, meu caro conde. Meu Deus, como o senhor  feliz
por no ter mulher nem filhos!

- Acha?

- Ah, meu Deus!

- E diz que Mademoiselle Danglars...

- No pde suportar a afronta que nos fez esse miservel e
pediu-me licena para ir viajar.

- E partiu?

- A noite passada.

- Com a Sr.a Danglars?

- No, com uma parenta... Mas nem por isso a perdemos menos, a
querida Eugnie, pois duvido que, com o caracter que lhe
conheo, consinta alguma vez em regressar a
Frana!

- Enfim, meu caro baro - disse Monte-Cristo --, desgostos de
famlia, desgostos que seriam pungentes para um pobre diabo
cuja filha fosse toda a sua fortuna, mas suportveis para um
milionrio. Por mais que os filsofos preguem o contrrio, os
homens prticos desmenti-los-o sempre a tal respeito: o
dinheiro consola de muitas coisas. E o senhor consolar-se-
mais depressa do que qualquer outro, se admitir a virtude
desse blsamo soberano, porque o senhor  o rei da finana, o
ponto de interseco de todos os poderes!

Danglars olhou de soslaio para o conde, a fim de ver se
zombava ou falava a srio.

- Sim, se de facto a fortuna consola, eu devo estar consolado:
sou rico...

- To rico, meu caro baro, que a sua fortuna se assemelha s
Pirmides: quisessem demoli-las, e no ousariam; ousassem, e
no o conseguiriam...

Danglars sorriu da confiante bonomia do conde.

- Isso recorda-me - disse - que quando o senhor entrou estava
a passar cinco ordenzinhas. J tinha assinado duas; d-me
licena que passe as outras trs?

- Com certeza, meu caro baro, com certeza.

Seguiu-se um instante de silncio durante o qual se ouviu
ranger a pena do banqueiro, enquanto Monte-Cristo observava
as molduras douradas do tecto.

- Ordens sobre Espanha, sobre o Haiti ou sobre Npoles? -
perguntou Monte-Cristo.

- No. - respondeu Danglars, rindo presunosamente - Ordens ao
portador, sobre o Banco de Frana. Veja, Sr. Conde -
acrescentou. - o senhor, que  o imperador da finana, tal
como eu sou o rei, j viu muitos bocados de papel deste
tamanho valerem cada um deles um milho?

Monte-Cristo tomou na mo, como que para os pesar, os cinco
bocados de papel que Danglars lhe estendia orgulhosamente e
leu:

Praza ao Sr. Governador do Banco mandar pagar  minha ordem
e sobre os fundos depositados por mim a quantia de um milho,
valor em conta. - Baro Danglars

- Um, dois, trs, quatro, cinco - contou Monte-Cristo. -
Cinco milhes! Apre, que desembarao, Sr. Creso!

- Aqui tem como trato dos negcios - declarou Danglars

-  maravilhoso, sobretudo se, como, no duvido, essa
importncia for paga em numerrio.

- S-lo- - redarguiu Danglars.

-  bom ter semelhante crdito. Na verdade, s em Frana se
vem coisas assim: cinco pedaos de papel valem cinco milhes.
Apetece ver para crer.

- Duvida?

- No.

- Diz isso num tom... Olhe, tenha esse prazer: leve o meu
tesoureiro ao banco e v-lo- sair com ordens sobre o Tesouro
da mesma importncia.

- No - disse Monte-Cristo, dobrando as cinco ordens. -
Assim, no O caso  deveras curioso e farei eu prprio a
experincia. O meu crdito sobre o senhor era de seis milhes;
levantei novecentos mil francos, deve-me cinco milhes e cem
mil francos. Fico com os seus cinco pedaos de papel, que para
 considerar vlidos me basta estarem assinados por si, e
aqui tem um recibo total de seis milhes, que regulariza a
nossa conta. Passei-o antecipadamente porque devo
confessar-lhe que tenho muita necessidade de dinheiro hoje.

E com uma das mos Monte-Cristo meteu as cinco ordens na
algibeira, enquanto com a outra estendia o recibo ao
banqueiro.

Um raio que tivesse cado aos ps de Danglars no o teria
aterrado mais.

- O qu... o qu? - balbuciou. - O Sr. Conde leva esse
dinheiro? Mas, perdo, perdo,  dinheiro que devo aos
Hospcios, um depsito, e prometi pag-lo esta manh...

- Bom, isso  diferente - disse Monte-Cristo. - No considero
obrigatrio receber precisamente nestas cinco ordens; pague-me
noutros valores. Peguei nestes apenas por curiosidade, a fim
de poder dizer a toda a gente que, sem qualquer aviso, sem me
pedir cinco minutos de espera, a casa Danglars pagara-me cinco
milhes em numerrio! Seria notvel! Mas aqui tem os seus
valores: repito-lhe, d-me outros.

E estendia os cinco documentos a Danglars, que, lvido,
estendeu primeiro a mo para os vares do cubculo do cofre,
tal como um abutre estende as garras para defender a carne que
lhe querem tirar.

De sbito reconsiderou, fez um esforo violento e conteve-se.

Depois sorriu, suavizaram-se-lhe pouco a pouco os traos do
rosto transtornado.

- De facto, o seu recibo  de dinheiro - observou.

- Evidentemente, meu Deus! E se o senhor estivesse em Roma, a
casa Thomson  French, perante um recibo meu, no poria mais
dificuldade em pagar-lhe do que o senhor mesmo ps.

- Perdo, Sr. Conde, perdo.

- Posso portanto guardar este dinheiro?

- Pode - respondeu Danglars, limpando o suor que lhe perlava a
raiz dos cabelos. - Guarde-o, guarde-o.

Monte-Cristo meteu as cinco ordens de pagamento na algibeira
com essa intraduzvel expresso fisionmica que quer dizer
"Demnio, veja l, se se arrependeu, ainda est a tempo!..."

- No, no - disse Danglars. - Decididamente, guarde as minhas
assinaturas. Mas, como sabe, ningum  mais formalista do que
um financeiro. Destinava esse dinheiro aos hospcios e
julgaria roub-los se lhes no desse precisamente esse, como
se um escudo no valesse outro. Desculpe!

E desatou a rir ruidosamente, mas de nervoso.

- Desculpo e embolso - respondeu graciosamente Monte-Cristo.

E guardou as ordens na carteira.

- Mas no h mais uma verba de cem mil francos? - observou
Danglars.

- Uma bagatela! - redarguiu Monte-Cristo. - O gio deve
ascender mais ou menos a essa importncia. Guarde-a e
ficaremos quites.

- Conde, o senhor fala a srio? - perguntou Danglars.

- Nunca brinco com os banqueiros - replicou Monte-Cristo com
uma seriedade que raiava a impertinncia.

E encaminhou-se para a porta precisamente no momento em que o
criado anunciava:

- O Sr. de Boville, recebedor-geral dos Hospcios.

- Demnio, parece que cheguei a tempo de beneficiar das suas
assinaturas! - exclamou Monte-Cristo - Disputam-lhas.

Danglars empalideceu segunda vez e apressou-se a despedir-se
do conde.

Monte-Cristo trocou um cumprimento cerimonioso com o Sr. de
Boville, que se encontrava de p na sala de espera e que,
depois dele sair, foi imediatamente introduzido no gabinete do
Sr. Danglars.

No rosto grave do conde brilhou um sorriso efmero perante o
aspecto da pasta que o Sr. Recebedor dos Hospcios trazia na
mo.

Encontrou  porta a sua carruagem e fez-se conduzir
imediatamente ao banco.

Entretanto, Danglars dominava o seu nervosismo e vinha ao
encontro do recebedor-geral.

Escusado ser dizer que o sorriso e a cortesia lhe estavam
estereotipados nos lbios.

- Bons dias, meu caro credor, pois apostaria que  ao credor
que devo esta visita.

- Adivinhou, Sr. Baro - respondeu o Sr. de Boville. - Os
Hospcios apresentam-se-lhe na minha pessoa. As vivas e os
rfos vm pelas minhas mos pedir-lhe uma esmola de cinco
milhes.

- E ainda dizem que os rfos so dignos de lstima! -
exclamou Danglars, prolongando o gracejo. - Pobres crianas!

- Pois aqui estou em seu nome - insistiu o Sr. de Boville. -
Decerto recebeu a minha carta de ontem?

- Recebi.

- Aqui est o meu recibo.

- Meu caro Sr. de Boville - disse Danglars --, as suas vivas
e os seus rfos tero, se o senhor concordar, a bondade de
esperar vinte e quatro horas, pois o Sr. de Monte-Cristo, que
viu sair daqui... Viu-o, no  verdade?

- Vi, e depois?

- Depois... o Sr. de Monte-Cristo levou-me os seus cinco
milhes!

- Como assim?...

- o conde tinha um crdito ilimitado sobre mim, crdito
aberto pela casa Thomson  French, de Roma, e veio pedir-me
cinco milhes de uma assentada. Dei-lhe uma ordem de pagamento
sobre o Banco de Frana, onde esto depositados os meus
fundos, e como o senhor deve compreender, receio que,
retirando das mos do Sr. Governador dez milhes no mesmo dia,
isso lhe parea muito estranho. Em dois dias - acrescentou
Danglars, sorrindo - o caso  diferente.

- Homessa! - exclamou o Sr. de Boville no tom da mais completa
incredulidade. - O senhor entregou cinco milhes a esse
cavalheiro que saiu h bocadinho e que ao sair me cumprimentou
como se o conhecesse?...

- Talvez ele o conhea sem que o senhor o conhea. O Sr. de
Monte-Cristo conhece toda a gente.

- Cinco milhes!

- Aqui est o seu recibo. Faca como S. Tom: veja e apalpe
O Sr. de Boville pegou no papel que Danglars lhe apresentava e
leu:

Recebi do Sr. Baro a quantia de cinco milhes e cem mil
francos que lhe sero reembolsados quando quiser pela casa
thomson  French de Roma.

-  verdade! - exclamou o recebedor-geral.

- Conhece a casa Thomson  French?

- Conheo - respondeu o Sr. de Boville. - Fiz uma vez um
negcio de duzentos mil francos com ela, mas depois disso
nunca mais ouvi falar a seu respeito.

--  uma das melhores casas da Europa - declarou Danglars,
atirando negligentemente para cima da secretria o recibo que
acabava de recuperar das mos do Sr. de Boville.

- E ele tinha assim, sem mais nem menos, um crdito de cinco
milhes sobre o senhor? Caramba, deve ser algum nababo, esse
conde de Monte-Cristo!

- L o que , no sei; mas tinha trs crditos ilimitados: um
sobre mim, um sobre Rothschild e um sobre Laffitte. E como v
- acrescentou negligentemente Danglars - deu-me a preferncia,
deixando-me cem mil francos para o gio.

O Sr. de Boville deu todos os indcios da maior admirao.

- Tenho de o ir visitar e de obter qualquer legado pio para
ns - declarou. - Oh,  como se j o tivesse! S as suas
esmolas ascendem a mais de vinte mil francos por ms.

- Excelente! Alis, citar-lhe-ei o exemplo da Sr.a de Morcerf
do filho.

- Que exemplo?

- Doaram toda a sua fortuna aos Hospcios.

- Que fortuna?

- A sua fortuna, a do general de Morcerf; do defunto

- E a que propsito?

- A propsito de no quererem bens to miseravelmente
adquiridos.

- De que vivem ento?

- A me retirou-se para a provncia e o filho alistou-se.

- Ora vejam que escrpulos! - exclamou Danglars.

- Mandei registar ontem a escritura de doao.

- Quanto possuam?

- Oh, pouca coisa! Entre um milho e duzentos mil e um milho
e trezentos mil francos. Mas voltemos aos nossos milhes...

- Pois sim - respondeu Danglars com a maior naturalidade deste
mundo. - Tem portanto urgncia desse dinheiro?

- Claro que tenho; a verificao das nossas caixas  feita
amanh.

- Amanh? Porque no disse logo isso? Mas  um sculo, amanh!
A que horas  a verificao?

- s duas horas.

- Mande buscar o dinheiro ao meio-dia - sugeriu Danglars, com
um sorriso.

O Sr. de Boville no dizia sim, nem no; acenava
afirmativamente com a cabea e agitava a pasta.

- Oh, tenho uma ideia! - exclamou Danglars. - Faa melhor...

- Que quer que eu faa?

- O recibo do Sr. de Monte-Cristo vale dinheiro; apresente-o
a Rothschild ou a Laffitte; aceit-lo-o imediatamente.

- Apesar de ser reembolsvel em Roma?

- Claro. Isso custar-lhe- apenas um desconto de cinco a seis
mil francos.

O recebedor recuou de um salto

- Oh, assim no! Prefiro esperar para amanh O senhor tem cada
sugesto!

- Por um momento julguei... desculpe - disse Danglars com a
maior impudncia --, julguei que tivesse um deficezinho a
cobrir...

- Oh! - exclamou o recebedor.

- J tem acontecido, e nesse caso faz-se um sacrifcio...

- Valha-me Deus, no! - redarguiu o Sr. de Boville.

- Ento, amanh, no  verdade, meu caro recebedor?

- Sim, amanh. Mas sem falta.

- ora essa! Est a brincar comigo? Mande buscar o dinheiro ao
meio-dia e o banco estar prevenido.

- Virei eu prprio.

- Melhor ainda, pois isso proporcionar-me- o prazer de o ver.

Apertaram a mo.

- A propsito - disse o Sr de Boville --, no vai ao funeral
da pobre Mademoiselle de Villefort, que encontrei no bulevar?

- No - respondeu o banqueiro. - Sinto-me ainda um pouco
ridculo depois do caso de Benedetto e no quero dar nas
vistas.

- Ora, ora, deixe-se disso! Que culpa tem o senhor do que
aconteceu?

- Oua, meu caro recebedor: quando se tem um nome sem mcula
como o meu, -se susceptvel.

- Toda a gente o lamenta, garanto-lhe, e sobretudo toda a
gente lamenta a menina sua filha.

- Pobre Eugnie! - exclamou Danglars com um profundo suspiro.
- Sabe que resolveu professar?

- No...

- Pois infelizmente  verdade. No dia seguinte ao que
aconteceu, decidiu partir com uma religiosa sua amiga. Foi
procurar um convento bastante severo em Itlia ou em Espanha.

- Oh, isso  terrvel!

E o Sr. de Boville retirou-se depois desta exclamao,
apresentando ao pai mil cumprimentos de condolncias.

Mas ainda mal tinha transposto a porta quando Danglars
exclamou, com um gesto enrgico que s compreendero aqueles
que viram representar Roberto Macrio por Frdrick.

E fechando o recibo de Monte-Cristo numa carteirinha,
acrescentou:

- Vem ao meio-dia, que ao meio-dia j estarei longe...

Em seguida fechou-se  chave, despejou todas as gavetas do
cofre, reuniu uns cinquenta mil francos em notas, queimou
diversos papis, ps outros em evidncia e escreveu uma carta,
que lacrou e endereou " Sr.a Baronesa Danglars".

- Esta noite coloc-la-ei pessoalmente no seu toucador -
murmurou.

Depois tirou um passaporte de uma gaveta e disse:

- Bom, ainda  vlido por dois meses...


Captulo CV

O Cemitrio do Pre-lachaise


O Sr. de Boville encontrara de facto o cortejo fnebre que
conduzia Valentine  sua ltima morada.

o tempo estava sombrio e enevoado, um vento ainda morno, mas
j mortal para as folhas amarelecidas, arrancava-as dos ramos,
que ficavam pouco a pouco nus, e fazia-as turbilhonar sobre a
multido imensa que enchia os bulevares.

O Sr. de Villefort, parisiense d gema, considerava o Cemitrio
do Pre-Lachaise o nico digno de receber os restos mortais
de uma famlia parisiense. os outros pareciam-lhe cemitrios
de aldeia, palcios arrebicados da morte. S no Pre-Lachaise
um defunto de bons famlias podia ficar bem instalado.

Como j vimos, comprara l a concesso perptua em que erguera
o jazigo, to rapidamente ocupado por todos os membros da sua
primeira famlia.

Lia-se na fronteira do mausoleu: famlias saint-mran e
villefort. E isto porque tal fora a ltima vontade da pobre
Rene, me de Valentine.

Era portanto para o Pre-Lachaise que se dirigia o pomposo
cortejo sado do Arrabalde Saint-Honor. Atravessou Paris de
ponta a ponta, meteu pelo Arrabalde do Templo e depois pelos
bulevares exteriores at ao cemitrio. Mais de cinquenta
carruagens particulares seguiam vinte carros fnebres, e atrs
dessas cinquenta carruagens ainda iam mais de quinhentas
pessoas a p.

Eram quase todas jovens, que a morte de Valentine fulminara
como um raio e que, apesar da atmosfera glacial do sculo e do
prosasmo da poca, sofriam a influncia potica daquela bela,
casta e adorvel rapariga morta na flor da vida.

 sada de Paris todos viram chegar uma rpida equipagem de
quatro cavalos, que se detiveram de sbito retesando os
jarretes nervosos como molas de ao: era o Sr. de
Monte-Cristo.

O conde apeou-se da sua calea e juntou-se  multido que
seguia a p o carro funerrio.

Chteau-Renaud viu-o, desceu imediatamente do seu cup e
juntou-se-lhe. Beauchamp deixou tambm o cabriol de praa em
que vinha.

O conde olhava atentamente por todos os interstcios que
deixava a multido; era evidente que procurava algum Por fim,
no se conteve mais e perguntou:

-- Onde est Morrel? Algum dos senhores sabe onde ele est?

- J perguntamos isso mesmo a ns prprios na sala morturia -
respondeu Chteau-Renaud --, precisamente porque nenhum de
ns o viu.

O conde calou-se, mas continuou a olhar  sua volta.

Chegaram por fim ao cemitrio.

O olhar penetrante de Monte-Cristo examinou num relance todos
os renques de teixos e pinheiros e em breve perdeu toda a
inquietao: uma sombra deslizara pelas escuras alamedas
arborizadas e Monte-Cristo acabava, sem dvida, de reconhecer
quem procurava.

Toda a gente sabe como decorre um funeral naquela magnifica
necrpole: grupos de preto espalhados pelas brancas alamedas,
o silncio do cu e da terra perturbado pelo estalar de algum
ramo quebrado, de alguma sebe derrubada  volta de uma
sepultura; depois, o canto melanclico dos padres, ao qual se
junta,  aqui e ali, um soluo escapado de um macio de
flores sob o qual se v alguma mulher, absorta e de mos
postas.

A sombra que Monte-Cristo notara atravessou rapidamente o
quincncio disposto atrs do tmulo de Helosa e Abelardo,
veio colocar-se, com os moos de cangalheiro,  frente dos
cavalos que puxavam a carreta e do mesmo passo chegou ao local
escolhido para a sepultura.

Toda a gente olhava para qualquer coisa.

Monte-Cristo s olhava para aquela sombra em que mal tinham
reparado aqueles que a rodeavam.

O conde saiu por duas vezes do seu lugar para ver se as mos
daquele homem no procurariam alguma arma oculta no vesturio.


Quando o cortejo parou, verificou-se que a sombra era nem mais
nem menos do que Morrel, que, com a sua sobrecasaca preta
abotoada at acima, a testa lvida, as faces encovadas e o
chapu amarrotado pelas mos convulsas, se encostara a uma
rvore situada num cabeo que dominava o jazigo, de forma a
no perder nenhum dos pormenores da cerimnia fnebre que se
ia realizar.

Tudo se passou como de costume. Alguns homens, como sempre os
menos impressionados, pronunciaram discursos.
Uns lamentavam aquela morte prematura; outros dissertavam
sobre a dor do pai, e alguns, bastante engenhosos, descobriram
que por mais de uma vez a jovem solicitara ao Sr de Villefort
compaixo para os culpados sobre a cabea dos quais ele tinha
suspenso o gldio da justia. Enfim, esgotaram-se as metforas
floridas e os perodos dolorosos, interpretando de todas as
maneiras as estrofes de Malherbe a Duprier

Monte-Cristo no escutava nem via nada, ou antes, s via
Morrel, cuja calma e imobilidade constituam um espectculo
assustador para o cor Ic. a nica pessoa que podia ler o que
se passava no fundo do corao do jovem oficial.

- Ali est Morrel - disse de sbito Beauchamp a Debray. - Onde
diabo se ter metido?

E fizeram-no notar a Chteau-Renaud.

- Como est plido - observou este, estremecendo.

- Deve ter frio - replicou Debray.

- No - disse lentamente Chteau-Renaud. - Creio que est
impressionado. Maximilien  um homem muito impressionvel.

- Mas se mal conhecia Mademoiselle de Villefort! - estranhou
Debray. - Foi voc mesmo quem o disse...

-  verdade. No entanto, lembro-me de que nesse baile em casa
da Sr.a de Morcerf danou trs vezes com ela. O senhor sabe,
conde, aquele baile em que o senhor causou tanta impresso...

- No, no sei - respondeu Monte-Cristo, sem sequer saber a
qu nem a quem respondia, ocupado como estava a vigiar Morrel,
cujas faces se animavam como acontece queles que comprimem ou
retm a respirao.

- Acabaram os discursos. Adeus, meus senhores - disse
bruscamente o conde.

E deu o sinal de partida, desaparecendo sem que se soubesse
por onde se esgueirara.

Terminada a cerimnia fnebre, os presentes retomaram o
caminho de Paris.

Chteau-Renaud ainda procurou um instante Morrel com a vista;
mas enquanto seguira com o olhar o conde, que se afastava,
Morrel deixara o seu  lugar e Chteau-Renaud, depois de o
procurar em vo, seguira Debray e Beauchamp.

Monte-Cristo correu para um renque de rvores e, oculto atrs
de um grande tmulo, seguia os mais pequenos movimentos de
Morrel, que pouco a pouco se aproximara do jazigo abandonado
pelos curiosos e depois pelos coveiros.

Morrel olhou  sua volta lenta e vagamente. Mas no momento em
que o seu olhar abarcava a poro de crculo oposta  sua,
Monte-Cristo aproximou-se mais de uma dezena de passos sem
ser visto.

O rapaz ajoelhou.

De pescoo estendido, olhos fixos e dilatados e as pernas
dobradas como para se lanar ao primeiro sinal, o conde
continuava a aproximar-se de Morrel.

Morrel inclinou a fronte at  pedra, agarrou o gradeamento
com ambas as mos e murmurou:

- oh, Valentine!...

Estas duas palavras repercutiam-se profundamente no corao do
conde, que deu mais um passo, bateu no ombro de Morrel e
disse:

- Procurava-o, caro amigo...

Se esperava uma exploso, censuras, recriminaes,
Monte-Cristo enganava-se.

Morrei virou-se para o seu lado e disse com ar calmo:

- Como v, rezava.

O olhar perscrutador do conde percorreu o rapaz dos ps 
cabea.

Depois deste exame pareceu mais tranquilo.

- Quer que o leve a Paris? - perguntou.

- No, obrigado.

- Mas, enfim, deseja alguma coisa?

- Deixe-me rezar.

O conde afastou-se sem fazer uma nica objeco, mas para
ocupar novo posto de observao donde no perdia um nico
gesto de Morrel, que por fim se levantou, limpou os joelhos
deixados brancos pela pedra e tomou o caminho de Paris sem
virar uma nica vez a cabea.

Desceu lentamente a Rua da Roquette.

O conde mandou embora a sua carruagem, estacionada no
Pre-Lachaise, e seguiu-o a cem passos. Maximilien atravessou
o canal e entrou na Rua Meslay pelos bulevares.

Cinco minutos depois de a porta ser fechada por Morrel,
abriu-se para Monte-Cristo.

Julie estava  entrada do jardim a observar com a mais
profunda ateno mestre Penelon, que, levando a sua profisso
de jardineiro a srio, enxertava de estaca
roseiras-de-bengala.

- Olha o Sr. Conde de Monte-Cristo! - exclamou com a alegria
que habitualmente manifestavam todos os membros da famlia
quando Monte-Cristo visitava a Rua Meslay.

- Maximilien acaba de entrar, no  verdade, minha senhora? -
perguntou o conde.

- Sim, creio que o vi passar - confirmou a jovem senhora. -
Mas, por favor, chame Emmanuel.

- Perdo, minha senhora, mas preciso de subir imediatamente
aos aposentos de Maximilien - respondeu Monte-Cristo -Tenho
de lhe dizer uma coisa da mais alta importncia.

- Ento v - disse ela, acompanhando-o com o seu sorriso
encantador at o conde desaparecer na escada.

Monte-Cristo depressa transps os dois andares que separavam
o rs-do-cho dos aposentos de Maximilien.
Chegado ao patamar, escutou: no se ouvia nenhum rudo

Como na maioria das casas antigas habitadas por um nico
locatrio, as divises que deitavam para o patamar eram
fechadas apenas por uma porta envidraada.

Simplesmente, naquela porta envidraada no havia nenhuma
chave. Maximilien fechara-se por dentro e era impossvel ver
para l da porta, pois um cortinado de seda vermelha cobria os
vidros.

A ansiedade do conde manifestava-se por um vivo rubor, sintoma
de emoo pouco habitual naquele homem impassvel.

- Que fazer?... - murmurou.

Reflectiu um instante.

- Tocar? - prosseguiu. - Oh, no! Muitas vezes o toque de uma
campainha, isto , de uma visita, acelera a resoluo daqueles
que se encontram na situao em que Maximilien se deve
encontrar neste momento, e ento ao toque da campainha
responde outro rudo...

Monte-Cristo estremeceu dos ps  cabea e, como em si a
deciso tinha a rapidez do relmpago, deu uma cotovelada num
dos vidros da porta, que voou em estilhas. Depois, levantou o
cortinado e viu Morrel, que, diante da sua escrivaninha, com
uma pena na mo, acabava de saltar na cadeira, surpreendido
pelo barulho do vidro ao quebrar-se.

- No  nada - disse o conde. - Mil perdes, meu caro amigo!
Escorreguei e bati com o cotovelo no vidro. J agora, uma vez
que se partiu, aproveito para entrar. No se incomode, no se
incomode!

E, metendo o brao pelo vidro quebrado, abriu a porta.

Morrel levantou-se imediatamente, contrariado, e veio ao
encontro de Monte-Cristo, menos para o receber do que para
lhe barrar a passagem.

- A culpa  dos seus criados - observou Monte-Cristo,
esfregando o cotovelo. - Os seus soalhos brilham como
espelhos...

- Feriu-se, senhor? - perguntou friamente Morrel.

- No sei. Mas que fazia o senhor aqui? Escrevia?

- Eu?

- Tem os dedos sujos de tinta...

-  verdade, escrevia - respondeu Morrel. - Acontece-me, s
vezes, por mais militar que seja.

Monte-Cristo deu alguns passos na sala. Maximilien viu-se
abrigado a deix-lo passar; mas seguiu-o.

- Escrevia? - repetiu Monte-Cristo, com um olhar que se
impunha pela sua fixidez.

- J tive a honra de lhe dizer que sim - respondeu Morrel.

O conde deitou um olhar  sua volta.

- Com as suas pistolas ao p do tinteiro! - exclamou,
indicando a Morrel as armas pousadas em cima da escrivaninha.

- Vou viajar - respondeu Maximilien.

- Meu amigo!... - disse Monte-Cristo, numa voz de uma doura
infinita.

- Senhor!

- Meu amigo, meu caro Maximilien, nada de solues extremas,
suplico-lhe!

- Eu, resolues extremas? - redarguiu Morrel, encolhendo os
ombros. - E em qu, peo-lhe que me diga, uma viagem  uma
resoluo extrema?

- Maximilien - disse Monte-Cristo --, tiremos cada um pela
sua parte a mscara que usamos. Maximilien, com a sua calma
forada no me engana mais do que eu o engano com a minha
frvola solicitude. Compreende perfeitamente, no  verdade,
que para fazer o que fiz, para partir vidros e violar a
intimidade do quarto de um amigo, compreende, repito, que para
lazer tudo isto era necessrio que tivesse uma preocupao
real, ou antes uma convico terrvel. Morrel, o senhor
quer-se matar!

- onde arranjou essas ideias, Sr. Conde! - perguntou Morrel,
estremecendo.

- Repito-lhe que se quer matar! - continuou o conde no mesmo
tom de voz. - E aqui est a prova.

E aproximando-se da escrivaninha, levantou a folha de papel
branco que o jovem colocara sobre uma carta comeada e pegou
na carta.

Morrel correu para ele para lha arrancar das mos.

Mas Monte-Cristo, que previra esse gesto, impediu-o agarrando
Maximilien pelo pulso e detendo-o como uma corrente de ao
detm uma mola no meio da sua evoluo.

- Bem v que se queria matar, Morrel! Est aqui escrito! -
exclamou o conde.

- E depois? - perguntou Morrel, passando sem transio de uma
aparncia calma a uma expresso violenta. - E depois? Se assim
fosse, se decidisse virar contra mim o cano de uma dessas
pistolas, quem mo impediria? Quem teria coragem de mo impedir?
Quando disser. "Todas as minhas esperanas esto arruinadas, o
meu corao desfeito, a minha vida morta, j s existe luto e
nojo  minha volta, a terra transformou-se em cinza, toda a
voz humana me dilacera"; quando disser: " um acto de piedade
deixar-me morrer, porque se no me deixar morrer perderei a
razo, enlouquecerei"; vamos, senhor, quando disser isto,
quando vir que o digo com as angstias e as lgrimas do meu
corao, ainda me responder: "No tem razo"? Ainda me
impedir de no ser mais infeliz? Diga, senhor, diga: ter
essa coragem?

- Sim, Morrel - respondeu Monte-Cristo numa voz cuja calma
contrastava estranhamente com a exaltao do rapaz. - Sim,
terei.

- O senhor?! - gritou Morrel com crescente expresso de clera
e censura. - O senhor, que me iludiu com uma esperana
absurda; o senhor, que me deteve, embalou e adormeceu com vs
promessas, quando eu poderia, por meio de qualquer denncia,
de qualquer resoluo extrema, salv-la ou pelo menos v-la
morrer nos meus braos; o senhor, que finge possuir todos os
recursos da inteligncia, todos os poderes da matria; o
senhor, que desempenha, ou antes simula desempenhar o papel da
Providncia e que no teve sequer o poder de dar  um
contraveneno a uma rapariga envenenada! Na verdade, senhor,
inspirar-me-ia compaixo se me no inspirasse horror!

- Morrel...

- Disse-me que tirasse a mscara; pois bem, faa-se a sua
vontade, tiro-a Sim, quando me seguiu no cemitrio ainda lhe
respondi porque o meu corao  bom, e quando entrou deixei-o
vir at aqui. Mas, uma vez que o senhor abusa; uma vez que me
vem desafiar at neste quarto para onde me retirara como se
fosse a minha sepultura; uma vez que me traz uma nova. tortura
(a mim, que julgava t-las experimentado todas) conde de
Monte-Cristo, meu pretenso benfeitor; conde de Monte-Cristo,
o salvador universal, fique satisfeito, veja morrer o seu
amigo!

E Morrel, rindo como um louco, correu pela segunda vez para as
pistolas.

Plido como um espectro, mas com os olhos despedindo
relmpagos, Monte-Cristo estendeu a mo sobre as armas e
gritou ao insensato:

- E eu repito-lhe que se no matar!

- Veja se mo impede! - replicou Morrel, num novo impulso, que,
como o primeiro, se quebrou contra o brao de ao do conde.

- Sim, impedir-lho-ei!

- Mas quem  afinal o senhor para se arrogar esse direito
tirnico sobre criaturas livres e pensantes?! - gritou
Maximilien.

- Quem sou? - repetiu Monte-Cristo - Oua, sou o nico homem
no mundo que tenho o direito de lhe dizer: "Morrel, no quero
que o filho do teu pai morra hoje!"

E Monte-Cristo, majestoso, transfigurado, sublime, avanou de
braos cruzados para o jovem palpitante, que, dominado,
mal-grado seu, pela quase divindade daquele homem, recuou um
passo.

- Porque fala do meu pai? - balbuciou. - Porque confundir a
memria do meu pai com o que me acontece hoje?

- Porque eu sou aquele que j salvou a vida ao teu pai num dia
em que se queria matar como te queres matar hoje; porque sou o
homem que mandei a bolsa  tua jovem irm e o Pharaon ao
velho Morrel; porque sou Edmond Dants, o homem que te fez
saltar, em criana, nos joelhos!

Morrel deu mais um passo atrs, cambaleando, sufocado,
arquejante, esmagado Depois as foras abandonaram-no e, com um
grande grito, caiu de joelhos aos ps de Monte-Cristo.

De repente, naquela natureza admirvel operou-se uma
reviravolta regeneradora sbita e completa. Levantou-se,
saltou para fora do quarto e precipitou-se para a escada,
gritando a plenos pulmes:

- Julie! Julie! Emmanuel! Emmanuel!

Monte-Cristo quis segui-lo, mas Maximilien mais depressa se
deixaria matar do que largaria o fecho da porta que fechara na
cara do conde.

Aos gritos de Maximilien, Julie, Emmanuel, Penelon e alguns
criados acorreram assustados

Morrel pegou-lhes nas mos, abriu a porta e gritou numa voz
estrangulada pelos soluos:

- De joelhos! De joelhos!  o benfeitor,  o salvador do nosso
pai, .

Ia a dizer: " Edmond Dants!", mas o conde deteve-o
agarrando-lhe no brao.

Julie lanou-se sobre a mo do conde; Emmanuel beijou-o como
um deus tutelar; Morrel caiu pela segunda vez de joelhos e
bateu com a testa no cho.

Ento o homem de bronze sentiu o corao dilatar-se-lhe no
peito, um jacto de chama devoradora brotou-lhe da garganta e
dos olhos, inclinou a cabea e chorou!

Durante alguns instantes ouviu-se no quarto um concerto de
lgrimas e suspiros sublimes, que decerto pareceu harmonioso
aos anjos mais queridos do Senhor.

Mal se recomps da profunda emoo que acabava de
experimentar, Julie correu para fora do quarto, desceu um
andar, correu  sala com alegria infantil e retirou o globo de
cristal que protegia a bolsa dada pelo desconhecido das
Alamedas de Meilhan.

Entretanto, Emmanuel dizia ao conde, em voz entrecortada:

- Oh, senhor conde, como  que, vendo-nos falar tantas vezes
do nosso benfeitor desconhecido, como  que vendo-nos rodear
uma recordao de tanto reconhecimento e adorao, como  que
esperou at hoje para se dar a conhecer?! Foi uma crueldade
para connosco e quase me atrevo a dizer, Sr. Conde, tambm
para consigo.

- Oua, meu amigo - respondeu o conde -- , posso trat-lo
assim porque, sem o saber, o senhor  meu amigo h onze anos:
a descoberta deste segredo foi provocada por um grande
acontecimento que deve ignorar. Deus  testemunha de que
desejaria guard-lo toda a vida no fundo da minha alma, mas o
seu irmo Maximilien arrancou-lho por meio de violncias de
que, estou certo, j se arrependeu.

Depois, vendo que Maximilien se atirara de lado para cima de
uma poltrona, embora permanecendo de joelhos, acrescentou
baixinho, apertando significativamente a mo de Emmanuel:

- Vele por ele...

- Porqu? - perguntou o rapaz, atnito.

- No lhe posso dizer, mas vele por ele.

Emmanuel percorreu o quarto com um olhar circular e viu as
pistolas de Morrel.

Os seus olhos cravaram-se assustados nas armas, que indicou a
Monte-Cristo, levantando lentamente o dedo  sua altura.

Monte-Cristo inclinou a cabea.

Emmanuel fez um movimento na direco das pistolas.

- Deixe-as - disse Monte-Cristo.

Depois aproximou-se de Morrel e estendeu-lhe a mo, os
acontecimentos tumultuosos que pouco antes tinham agitado o
corao do jovem haviam cedido o lugar a um entorpecimento
profundo.

Julie voltou a subir, segurava na mo a bolsa de seda e duas
lgrimas brilhantes e felizes corriam-lhe pelas faces como
duas gotas de orvalho matinal.

- Aqui est a relquia - disse. - No julgue que me  menos
querida desde que o salvador nos foi revelado.

- Minha filha - respondeu Monte-Cristo, corando --,
permita-me que recupere essa bolsa. Desde que conhecem a minha
cara, s quero ser recordado pela afeio que lhes peo me
concedam.

- Oh, no no, suplico-lhe! - redarguiu Julie apertando a
bolsa ao corao. - Porque um dia poder deixar-nos; porque
infelizmente um dia deixar-nos-, no  verdade ?

- Acertou em cheio, minha senhora - respondeu Monte-Cristo,
sorrindo. - Dentro de oito dias deixarei este pas onde tantas
pessoas que mereciam a vingana do cu viviam felizes,
enquanto o meu pai morria de fome e dor.

Ao anunciar a sua prxima partida, Monte-Cristo tinha os
olhos fixos em Morrel e notou que as palavras "deixarei este
pas" no tinham tirado Morrel da sua letargia. Compreendeu
que devia travar uma derradeira luta com a dor do amigo e,
pegando nas mos de Julie e Emmanuel, que reuniu e apertou nas
suas, disse-lhes com a suave autoridade de um pai:

- Meus bons amigos, deixem-me s, peo-lhes, com Maximilien.

Era um meio de Juile levar dali a relquia preciosa de que
Monte-Cristo se esquecia de voltar a falar.

Puxou vivamente o marido, dizendo:

- Deixemo-los.

O conde ficou com Morrel, que continuava imvel como uma
esttua.

- Ento, voltas a ser finalmente um homem, Maximilien? -
perguntou o conde, tocando-lhe no ombro com um dedo.

- Volto, porque recomeo a sofrer.

O conde franziu a testa; parecia entregue a uma sombria
hesitao.

- Maximilien! Maximilien! As ideias em que te absorves so
indignas de um cristo.

- Oh, tranquilize-se, meu amigo - respondeu Morrel erguendo a
cabea e mostrando ao conde um sorriso cheio de inefvel
tristeza --, j no serei eu que procurarei a morte.

- Portanto, nada de armas, nada de desespero - disse
Monte-Cristo.

- No, porque tenho melhor para tratar da minha dor do que o
cano de uma pistola ou a ponta de uma navalha.

- Pobre louco!... Tem o qu?

- Tenho a minha dor. Ela prpria me matar.

- Amigo - atalhou Monte-Cristo com uma melancolia igual 
dele --, escuta-me. Um dia, num momento de desespero igual ao
teu, porque implicava uma resoluo idntica, quis-me matar
como tu; outro dia, teu pai, igualmente desesperado, quis-se
matar tambm Se algum dissesse ao teu pai, no momento em que
dirigia o cano da pistola para a testa; se me dissessem a mim,
no momento em que afastava da minha cama o po do prisioneiro,
em que no tocava havia trs dias; se nos dissessem a ambos,
enfim, nesse momento supremo: "Vive! Um dia vir em que sers
feliz e abenoars a vida"; fosse donde fosse que viesse essa
voz, acolh-la-amos com o sorriso da dvida ou com a angstia
da incredulidade, e no entanto quantas vezes, ao beijar-te, o
teu pai no ter abenoado a vida, quantas vezes at....

- Ah, mas o senhor s perdera a liberdade e o meu pai s
perdera a fortuna! - exclamou Morrel, interrompendo o conde. -
Eu perdi Valentine!

- Olha para mim, Morrel - pediu Monte-Cristo com a solenidade
que em certas ocasies o tomava to grande e persuasivo. -
Olha para mim: no tenho lgrimas nos olhos, nem febre nas
veias, nem pulsaes fnebres no corao; contudo, vejo-te
sofrer, Maximilien, a ti que amo como amaria um filho! Pois
bem, isto no te diz, Morrel, que a dor  como a vida e que h
sempre qualquer coisa desconhecida para l dela? Ora se te
peo, se te ordeno que vivas, Morrel,  na convico de que um
dia me agradecers ter-te conservado a vida.

- Meu Deus! - exclamou o rapaz. - Meu Deus, que quer dizer com
isso, conde? Cautela! Talvez o senhor nunca tenha amado...

- Criana! - respondeu o conde.

- De amor percebo eu - prosseguiu Morrel. - Como sabe, sou
soldado desde que sou homem; cheguei aos vinte e nove anos sem
amar, pois nenhum dos sentimentos que experimentei at ento
merecia o nome de amor. Aos vinte e nove anos conheci
Valentine e durante cerca de dois anos amei-a, durante cerca
de dois anos pude avaliar as virtudes da filha e da mulher
inscritas pela prpria mo do Senhor naquele corao aberto
para mim como um livro.

"Conde, havia para mim, com Valentine, uma felicidade
infinita, imensa, desconhecida, uma felicidade demasiado
grande, demasiado completa, demasiado divina para este mundo;
uma vez que este mundo no ma deu, conde, devo dizer-lhe que
sem Valentine no existe para mim na Terra mais do que
desespero e desolao.

- Disse-te que tivesses esperana, Morrel - insistiu o conde.

- Acautele-se ento, insisto tambm - redarguiu Morrel.
- Porque o senhor tenta persuadir-me, e se me persuadir
far-me- perder a razo, porque me far crer que posso tornar
a ver Valentine.

o conde sorriu.

- Meu amigo, meu pai! - gritou Morrel, exaltado. -
Acautele-se, repito-lhe pela terceira vez, porque o ascendente
que tem sobre mim assusta-me; tome cautela com o sentido das
suas palavras, pois, como v, os meus olhos reanimam-se e o
meu corao reacende-se e renasce; acautele-se, porque me
faria acreditar em coisas sobrenaturais... Obedeceria se me
mandasse levantar a lousa do sepulcro da filha de Jairo;
caminharia sobre as guas como o apstolo se o senhor me
fizesse sinal com a mo para caminhar sobre as guas...
Acautele-se, porque obedecerei.

- Tenha esperana, meu amigo - repetiu o conde.

- Ah! - exclamou Morrel, voltando a cair de toda a altura da
sua exaltao no abismo da sua tristeza. - Ah, o senhor brinca
comigo! Procede como essas boas mes, ou antes como essas mes
egostas que acalmam com palavras melfluas a dor dos filhos
porque os seus gritos as incomodam. No, meu amigo, no tinha
razo em dizer-lhe que se acautelasse; no, no tema nada:
sepultarei a minha dor com tanto cuidado no mais intimo do meu
peito, torn-la-ei to profunda, to secreta, que o senhor nem
sequer ter de se incomodar a lament-la. Adeus, meu amigo,
adeus!

- Pelo contrrio - redarguiu o conde --, a partir deste
momento, Maximilien, vivers junto de mim e comigo, no me
deixars mais, e dentro de oito dias a Frana ficar para trs
de ns.

- E continua a dizer-me que tenha esperana?

- Digo-te que tenhas esperana porque conheo um meio de te
curar.

- Conde, o senhor entristece-me ainda mais, se  possvel. O
senhor no v mais do que uma dor vulgar no desgosto que me
feriu e julga confortar-me com um meio tambm vulgar, a
viagem.

E Morrel abanou a cabea com desdenhosa incredulidade.

- Que queres que te diga? - perguntou Monte-Cristo. - Tenho
f nas minhas promessas, deixa-me experimentar.

- Conde, o senhor prolonga apenas a minha agonia, mais nada.

- Quer dizer, s to fraco corao que no tens coragem de dar
ao teu amigo alguns dias para a experincia que ele tenta!
Vejamos, sabes porventura de que  capaz o conde de
Monte-Cristo? Sabes que governa muitas foras terrestres?
Sabes que possui suficiente f em Deus para obter milagres
Daquele que disse que com a f o homem podia mover montanhas?
Pois bem, esse milagre em que tenho esperana espera-o ou
ento...

- ou ento... - repetiu Morrel.

- ou ento acautela-te, Morrel, chamar-te-ei ingrato.

- Tenha piedade de mim, conde.

- Tenho tanta piedade de ti, Maximilien, ouves, tanta piedade
que, se no te curar dentro de um ms, dia por dia, hora por
hora... fixa bem as minhas palavras, Morrel, te colocarei eu
prprio diante dessas pistolas carregadas e de
uma taa do mais seguro veneno italiano, de um veneno mais
seguro e mais rpido, acredita, do que aquele que matou
Valentine.

- Promete-me?

- Prometo, porque sou um homem; porque tambm, como te disse,
quis morrer, e at muitas vezes, depois de a desventura ter
deixado de me perseguir, sonhei com as delcias do sono
eterno.

- Oh,  verdade que me promete isso, conde?! - gritou
Maximilien, inebriado.

- No to prometo, juro-to - redarguiu Monte-Cristo,
estendendo a mo.

- Dentro de um ms, pela sua honra, se no estiver confortado,
deixar-me- a liberdade de dispor da minha vida, e seja o que
for que faa no me chamar ingrato?

- Dentro de um ms, dia por dia, Maximilien; dentro de um ms,
hora por hora, e a data  sagrada, Maximilien. No sei se
pensaste nisto, mas estamos hoje a 5 de Setembro. Faz hoje dez
anos que salvei o teu pai, que queria morrer.
Morrel pegou nas mos do conde e beijou-as. O conde no se
ops, como se achasse que essa adorao lhe era devida.

- Dentro de um ms - continuou Monte-Cristo - ters na mesa
diante da qual estaremos sentados um e outro boas armas e uma
morte suave; mas, em contrapartida, prometes-me esperar at l
e viver?

- Oh, tambm eu lho juro! - exclamou Morrel.

Monte-Cristo atraiu o jovem ao corao e abraou-o durante
muito tempo.

- E agora - disse-lhe --, a partir de hoje vais viver comigo.
Ocupars os aposentos de Hayde e assim ao menos a minha filha
ser substituda pelo meu filho.

- Hayde! - exclamou Morrel. - Que aconteceu a Hayde?

- Partiu esta noite.

- Para o deixar?

- Para me esperar... Prepara-te, pois, para ires ter comigo 
Rua dos Campos Elsios e faz-me sair daqui sem que me
vejam.

Maximilien, baixou a cabea e obedeceu, como uma criana ou
como um apstolo.


Captulo CVI


A partilha

No prdio da Rua Saint-Germain-des-Prs que Albert de
Morcerf escolhera para a me e para si, o primeiro andar,
constitudo por um apartamentozinho completo, estava alugado a
uma personagem muito misteriosa.

Essa personagem era um homem a quem nem mesmo o porteiro
jamais vira a cara, quer quando entrava, quer quando saa.
Porque no Inverno metia o queixo numa dessas gravatas
encarnadas como as dos cocheiros das casas ricas que esperam
os patres  sada dos espectculos e no Vero assoava-se
sempre precisamente no momento em que poderia ser visto ao
passar diante do cubculo. Escusado ser dizer que,
contrariamente a todos os usos e costumes, esse habitante do
prdio no era espiado por ningum e que o boato que corria de
que o seu incgnito ocultava um indivduo muito altamente
colocado e de brao comprido bastava para que se
respeitassem as suas misteriosas aparies.

As suas visitas eram habitualmente fixas, embora por vezes
fossem antecipadas ou adiadas; mas quase sempre, de Inverno ou
de Vero, era por volta das quatro horas que tomava posse do
seu apartamento, no qual nunca passava a noite.

s trs e meia, no Inverno, o lume era aceso pela criada
discreta que cuidava do apartamentozinho; s trs e meia, no
Vero, as janelas eram abertas pela mesma criada.

s quatro horas, como dissemos, chegava a misteriosa
personagem.

Vinte minutos depois dele, parava uma carruagem diante do
prdio; uma mulher vestida de preto ou de azul-escuro, mas
sempre envolta num grande vu, apeava-se, passava como uma
sombra diante do cubculo e subia a escada sem que se ouvisse
estalar um s degrau debaixo dos seus ps ligeiros.

Nunca acontecera perguntarem-lhe aonde ia.

A sua cara, tal como a do desconhecido, era portanto
absolutamente estranha aos dois guardas da porta, porteiros
modelo, talvez os nicos, na imensa confraria dos porteiros da
capital, capazes de semelhante discrio.

Escusado ser dizer que a mulher no ia alm do primeiro
andar. A, arranhava numa porta de forma especial, a porta
abria-se, voltava a fechar-se hermeticamente e pronto.

Para sarem do prdio, a mesma manobra que para entrarem.

A desconhecida saa primeiro, sempre velada, e metia-se na sua
carruagem, que ora desaparecia por uma extremidade da rua, ora
por outra. Depois, passados vinte minutos, saa por sua vez o
desconhecido, enterrado na sua gravata ou oculto pelo seu
leno, e desaparecia igualmente.

No dia seguinte quele em que o conde de Monte-Cristo
visitara Danglars, dia do funeral de Valentine, o locatrio
misterioso entrou por volta das dez horas da manh, em vez de
entrar, como de costume, cerca das quatro horas da tarde.

Quase imediatamente, e sem guardar o intervalo habitual,
chegou uma carruagem de praa e a dama velada subiu
rapidamente a escada.

A porta abriu-se e fechou-se.

Mas ainda antes de a porta se fechar, a dama exclamou:

- Lucien, meu amigo!...

De modo que o porteiro, que ouviu sem querer tal exclamao,
soube ento pela primeira vez que o seu locatrio se chamava
Lucien. Mas como era um porteiro modelo, prometeu a si mesmo
nada dizer nem sequer  mulher.

- Afinal, que aconteceu, querida amiga? - perguntou aquele de
quem, na sua perturbao ou precipitao, a dama velada
revelara o nome. - Vamos, diga!

- Meu amigo, posso contar consigo?

- Certamente, sabe-o muito bem. Mas que aconteceu? O seu
bilhete desta manh deixou-me numa perplexidade terrvel.
Nunca vi tanta precipitao e desordem nos seus escritos.
Vamos, tranquilize-me ou assuste-me por completo!

- Lucien, uma grande novidade! - disse a dama, pousando em
Lucien um olhar interrogador. - O Sr. Danglars partiu esta
noite.

- Partiu?... O Sr. Danglars partiu? Para onde?

- Ignoro.

- Ignora? ... Quer dizer que partiu para no mais voltar?

- Sem dvida! s dez horas da noite os seus cavalos
conduziram-no  Barreira de Charenton. A, encontrou uma
berlinda de posta completamente atrelada, meteu-se nela com o
seu criado de quarto e disse ao seu cocheiro que ia a
Fontainebleau.

- E a senhora, que diz a isso?

- Espere, meu amigo. Ele deixou-me uma carta...

- Uma carta?...

- Sim. Leia.

E a baronesa tirou da bolsa uma carta aberta, que apresentou a
Debray.

Antes de a ler, Debray hesitou um instante, como se procurasse
adivinhar o que ela continha, ou antes como, fosse o que fosse
que ela contivesse, estivesse decidido a tomar antecipadamente
um partido.

Passados alguns segundos, decerto j com as suas ideias bem
definidas, leu.

Eis o que continha a carta que lanara to grande perturbao
no espirito da Sr.a Danglars:

- "Minha senhora e fidelssima esposa."

Sem querer, Debray deteve-se e olhou a baronesa, que corou
quase at  raiz dos cabelos.

- Leia - insistiu ela.

Debray continuou:

Quando receber esta carta j no ter marido! Oh, no perca
a cabea!... J no ter marido, como j no ter filha, isto
, estarei numa das trinta ou quarenta estradas que levam fora
de Frana.

devo-lhe explicaes, e como a senhora  mulher para as
compreender perfeitamente, dar-lhas-ei.

Escute, pois:

Esta manh tive de fazer um pagamento de cinco milhes; fi-lo.
Seguiu-se quase imediatamente outro da mesma importncia;
adiei-o para amanh. hoje parto para evitar esse amanh, que
me seria muito desagradvel suportar.

compreende o que quero dizer, no  verdade, minha senhora e
preciosssima, esposa?

repito:

compreende, porque conhece to bem como eu os meus negcios;
conhece-os at melhor do que eu, atendendo a que se fosse
preciso dizer o que foi feito de ima metade da minha fortuna,
ainda h pouco bastante considervel, eu seria incapaz disso
minha senhora, pelo contrrio, estou certo de que o diria
perfeitamente.

porque as mulheres possuem instintos de uma certeza infalvel
e so capazes de explicar por meio de uma lgebra que
inventaram o prprio maravilhoso. eu, que s conhecia as
minhas contas, fiquei sem saber nada no dia que as minhas
contas me enganaram.

alguma vez estranhou a rapidez da minha queda, minha senhora?

ficou um pouco encandeada com a incandescente fuso dos meus
lingotes?

eu, confesso-o, s vi fogo; esperemos que a senhora tenha
encontrado um pouco de ouro nas cinzas.

 com esta consoladora esperana que me afasto, minha senhora
e prudentssima esposa, sem que a minha conscincia me censure
nem um bocadinho por a abandonar. restam-lhe amigos, as
cinzas a que me referi e, para cmulo da felicidade, a
liberdade que me apresso a conceder-lhe.

no entanto,  minha senhora,  altura de colocar nesta carta
uma palavra de explicao ntima.

enquanto tive a esperana de que a senhora trabalhasse para o
bem-estar da nossa casa, para a fortuna da nossa filha, fechei
filosoficamente os olhos; mas como a senhora transformou a
casa numa vasta runa, no quero servir de alicerce  fortuna
de outrem.

recebi-a rica, mas pouco honrada.

desculpe-me falar-lhe com esta franqueza, mas como
provavelmente s para ns dois, no vejo por que motivo
disfararia as minhas palavras.

aumentei a nossa fortuna, que durante mais de quinze anos foi
crescente, at ao momento em que catstrofes desconhecidas e
ainda incompreensveis para mim  a atacaram e derrubaram sem
que, posso diz-lo, a culpa fosse de algum modo minha.

pela minha parte a senhora trabalhou para aumentar a sua, o
que conseguiu, estou moralmente convencido disso.

deixo-a portanto como a recebi: rica, mas pouco honrada.

adeus.

tambm eu vou a partir de hoje trabalhar por minha conta.

Creia em todo o meu reconhecimento pelo exemplo que me deu e
que vou seguir.

seu marido muito dedicado.

Baro Danglars.

A baronesa no tirara os olhos de Debray durante esta longa e
penosa leitura. E, apesar do domnio bem conhecido que ele
possua sobre si mesmo, viu o rapaz mudar de cor uma ou duas
vezes.

Quando acabou, Debray dobrou lentamente o papel e recaiu na
sua atitude pensativa.

- Ento? - perguntou a Sr.a Danglars, com uma ansiedade fcil
de compreender.

- Ento o qu, minha senhora? - perguntou maquinalmente
Debray.

- Que ideia lhe inspira essa carta?

- Uma muito simples, minha senhora: inspira-me a ideia de que
o Sr. Danglars partiu com suspeitas.

- Sem dvida. Mas  tudo o que tem para me dizer?

- No compreendo - disse Debray, com uma frieza glacial.

- Partiu! Partiu definitivamente! Partiu para no mais voltar!

- No acredite nisso, baronesa - redarguiu Debray.

- No, digo-lhe eu, no voltar. Conheo-o,  um homem
inquebrantvel cm todas as resolues que so de seu
interesse. Se me julgasse til para alguma coisa, ter-me-ia
levado. Se me deixa em Paris  porque a nossa separao pode
ser til aos seus projectos.  portanto irrevogvel e estou
livre para sempre - acrescentou a Sr.a Danglars com a mesma
expresso de splica.

Mas Debray, em vez de responder, deixou-a na ansiosa
interrogao do olhar e do pensamento.

- Ento o senhor no me responde? - perguntou ela por fim.

- S tenho uma pergunta a fazer-lhe: quais so os seus planos?

- Ia perguntar-lhe o mesmo --, respondeu a baronesa, com o
corao palpitante. - Que devo fazer?

- Ah!... - exclamou Debray. -  portanto um conselho que me
pede?

- Sim,  um conselho que lhe peo - respondeu a baronesa, com
o corao apertado.

- Ento se  um conselho que me pede - respondeu friamente o
rapaz --, aconselho-a a ir viajar.

- Viajar!... - murmurou a Sr.a Danglars.

- Certamente. Como disse o Sr. Danglars,  rica e
absolutamente livre. Uma ausncia de Paris ser indispensvel,
pelo menos segundo creio, depois do duplo escndalo da
anulao do casamento de Mademoiselle Eugnie e do
desaparecimento do Sr. Danglars. A nica coisa que interessa
agora  que toda a gente a saiba abandonada e a julgue pobre;
porque ningum perdoaria  mulher do falido a sua opulncia e
o estado da sua casa. Para o primeiro caso, basta que fique
apenas quinze dias em Paris e que repita a toda a gente que
foi abandonada. Diga-o s suas melhores amigas, que elas se
encarregaro de espalhar na sociedade como tal abandono se
deu. Depois, deixar o seu palcio, e nele as suas jias,
renunciar a qualquer indemnizao, e toda a gente elogiar o
seu desinteresse e lhe cantar louvores. Ento, sab-la-o
abandonada e  consider-la-o pobre. porque s eu conheo a
sua situao financeira e estou pronto a prestar-lhe contas
como leal associado.

A baronesa empalideceu, aterrada,  medida que escutava este
discurso com tanto, mais espanto e desespero quanto maior era
a calma e a indiferena com que Debray o pronunciava.

- Abandonada! - repetiu ela. - oh, e bem abandonada!... Sim,
tem razo, senhor, e ningum duvidar do meu abandono.

Foram estas as nicas palavras que aquela mulher, to
orgulhosa e violentamente apaixonada, conseguiu responder a
Debray.

- Mas rica, muito rica mesmo - prosseguiu Debray, tirando da
carteira e espalhando-os em cima da mesa alguns papis que
continha.

A Sr.a Danglars esperou que ele acabasse, muito ocupada a
conter as pulsaes do corao e a reter as lgrimas que
sentia perlarem-lhe as extremidades das plpebras. Mas por fim
o sentimento da dignidade levou a melhor na baronesa, e se no
conseguiu conter o corao, conseguiu pelo menos no chorar.

- Minha senhora - disse Debray --, h cerca de seis meses que
nos associmos. A senhora entrou com uma quota de cem mil
francos. A nossa sociedade foi constituda em Abril deste ano.
Em Maio inicimos as nossas operaes. E ainda em Maio
ganhmos quatrocentos e cinquenta mil francos. Em Junho, o
lucro ascendeu a novecentos mil. Em Julho, adicionmos-lhe um
milho e setecentos mil francos; foi, como sabe, o ms dos
ttulos de Espanha. Em Agosto, perdemos no comeo do ms
trezentos mil francos; mas em 15 desse mesmo ms tnhamo-los
recuperado e no fim do ms tnhamo-nos desforrado, pois as
nossas contas, apuradas desde o dia da nossa associao at
ontem, em que as fechei, do-nos um activo de dois milhes e
quatrocentos mil francos, isto , um milho e duzentos mil
francos para cada um.
Agora - continuou Debray, compulsando a sua agenda com o
mtodo e a tranquilidade de um cambista - temos oitenta mil
francos de juros compostos daquela importncia que se encontra
em meu poder...

- Mas - interrompeu-o a baronesa - que significam esses juros,
se o senhor nunca aplicou esse dinheiro?

- Peo-lhe perdo, minha senhora - respondeu friamente Debray
--, mas tinha procurao sua para o aplicar e utilizei a sua
procurao. Tem portanto a haver quarenta mil francos de
juros, mais os cem mil francos da quota inicial, isto , um
milho trezentos e quarenta mil francos  sua parte. Ora,
minha senhora - continuou Debray --, tomei a precauo de
mobilizar anteontem o seu dinheiro; no h muito tempo, como
v, e dir-se-ia que j esperava ser chamado urgentemente a
prestar-lhe contas. O dinheiro est aqui, metade em notas e
metade em ttulos ao portador. Digo aqui e  verdade, porque
como no considerava a minha casa suficientemente segura, no
achava os notrios bastante discretos e as propriedades falam
ainda mais alto do que os notrios, e como, finalmente, a
senhora no tem o direito de comprar nada nem de possuir seja
o que for fora da comunho de bens conjugal, guardei todo esse
dinheiro, hoje a sua nica fortuna, num cofre cravado no fundo
deste armrio, em que, para maior segurana, me encarreguei
pessoalmente do trabalho de pedreiro.

"Agora - continuou Debray, abrindo primeiro o armrio e
depois o cofre --, agora, minha senhora, aqui tem oitocentas
notas de mil francos cada uma, que  como v, parecem um
grosso lbum encadernado em ferro... Juntei-lhes um cupo de
juro de vinte e cinco mil francos e para saldo de contas, que,
segundo creio, ascende a qualquer coisa como cento e dez mil
francos, aqui tem uma ordem de pagamento  vista sobre o meu
banqueiro, e como o meu banqueiro no  o Sr. Danglars, pode
estar tranquila que a ordem ser paga.

A Sr.a Danglars pegou maquinalmente na ordem  vista, no cupo
e nas notas.

Aquela enorme fortuna parecia muito insignificante espalhada
ali em cima de uma mesa.

Com os olhos secos, mas o peito cheio de soluos, a Sr.a
Danglars reuniu-a, guardou o estojo de ao na bolsa, meteu o
cupo e a ordem de pagamento  vista na carteira, e de p,
plida e muda, esperou uma palavra meiga que a consolasse de
ser to rica.

Mas esperou em vo.

- Agora, minha senhora - disse Debray --, tem uma existncia
magnfica, qualquer coisa como sessenta mil libras de
rendimento, o que  enorme para uma mulher que no poder ter
casa seno daqui a um ano, pelo menos.  um privilgio para
todos os caprichos que lhe passarem pela cabea, sem contar
que se achar a sua parte insuficiente, em ateno ao passado
que lhe escapa poder recorrer  minha. Estou disposto a
oferecer-lhe, a ttulo de emprstimo, bem entendido, tudo o
que possuo, isto , um milho e sessenta mil francos.

- Obrigada, senhor, obrigada - respondeu a baronesa. - Como
sabe, acaba de me entregar muito mais do que precisa uma pobre
mulher que no conta, seno daqui a muito tempo, pelo menos,
reaparecer na sociedade.

Debray mostrou-se momentaneamente surpreendido , mas
recomps-se e fez um gesto que se poderia traduzir como a
forma mais delicada de exprimir esta ideia: "Como queira!"

At ali, a Sr.a Danglars talvez esperasse ainda alguma coisa;
mas quando viu o gesto indiferente que acabava de escapar a
Debray e o olhar oblquo com que esse gesto fora acompanhado,
assim como a reverncia profunda e o silncio significativo
que se seguiram, ergueu a cabea, abriu a porta e, sem clera,
sem nervosismo, mas tambm sem hesitao, dirigiu-se para a
escada, desdenhando at honrar com um derradeiro cumprimento
quele que a deixava partir daquele modo.

- Ora, ora! - exclamou Debray depois dela sair. - Apesar de
poder fazer belos projectos, ficar no seu palcio, ler
romances e jogar o seu lansquen, visto no poder jogar na
bolsa.

Em seguida pegou na agenda e riscou cuidadosamente as
importncias que acabava de pagar.

- Resta-me um milho e sessenta mil francos... Que pouca sorte
Mademoiselle de Villefort ter morrido! Era a mulher que me
convinha sob todos os aspectos para casar com ela.

E, fleumaticamente, conforme era seu hbito, esperou que a
Sr.a Danglars tivesse sado h vinte minutos para se decidir a
sair por sua vez.

Durante esses vinte minutos, Debray fez contas, com o relgio
pousado a seu lado.

Essa personagem diablica que qualquer imaginao aventurosa
criaria com mais ou menos felicidade se Le Sage lhe no
tivesse adquirido a prioridade na sua obra-prima; esse Asmodeu
que levantava os telhados das casas para as ver
por dentro, teria gozado um singular espectculo se erguesse,
no momento em que Debray fazia as suas contas. o telhado do
prediozito da Rua Saint-Germain-des-Prs.

Por cima do quarto em que Debray acabava de dividir com a Sr.a
Danglars dois milhes e meio ficava outro tambm habitado por
pessoas nossas conhecidas, as quais desempenharam papel muito
importante nos acontecimentos que contmos at aqui e que por
isso reencontramos com algum interesse.

Nesse quarto residiam Mercds e Albert.

Mercds mudara muito havia alguns dias. No porque, mesmo no
tempo da sua maior riqueza, alguma vez tivesse exibido o
fausto orgulhoso que corta visivelmente com todas as condies
e faz com que se deixe de reconhecer imediatamente a mulher
quando nos surge mais simplesmente vestida; nem porque tivesse
cado nesse estado de depresso em que somos obrigados a
envergar a libr da misria. No, Mercds estava mudada
porque os seus olhos j no brilhavam, porque a sua boca j
no sorria, porque finalmente um perptuo enleio lhe detinha
nos lbios a palavra pronta que denotava outrora um esprito
sempre atento.

No fora a pobreza que secara o esprito de Mercds, nem era
a falta de coragem que lhe tornava pesada a pobreza.

Mercds, apeada do ambiente em que vivia, isolada na nova
esfera que escolhera, como essas pessoas que saem de uma sala
esplendidamente iluminada para entrarem de sbito nas trevas;
Mercds parecia uma rainha que passara do seu palcio para
uma cabana e que, reduzida ao estritamente indispensvel, no
se reconhecia nem na loua de barro que era obrigada a pr
pessoalmente na mesa, nem no catre por que trocara o seu
leito.

Efectivamente, a bela catal, como a nobre condessa, j no
tinha nem o seu olhar orgulhoso, nem o seu sorriso encantador,
porque quando pousava os olhos no que a rodeava s via
objectos pobres. Era um quarto forrado com um desses papeis em
que predominam os tons cinzentos, que os senhorios econmicos
escolhem de preferncia por serem os que menos se sujam; no
havia tapetes no cho e os mveis davam nas vistas e foravam
os olhos a deterem-se na pobreza de um falso luxo. Enfim, tudo
coisas que quebravam com os seus tons garridos a harmonia to
necessria a olhos habituados a um conjunto elegante.

A Sr.a de Morcerf vivia ali desde que deixara o seu palcio. A
cabea andava-lhe  roda perante aquele silncio eterno, como
anda  roda ao viajante chegado  beira de um abismo. Notando
que Albert a observava constantemente s escondidas, para
descobrir o seu estado de esprito, obrigara-se a um montono
sorriso dos lbios, que, na ausncia desse fogo to suave do
sorriso dos olhos, produz o efeito de uma simples reverberao
de luz, isto , de uma claridade sem calor.

Pela sua parte, Albert andava preocupado e sentia-se pouco 
vontade, constrangido, com um resto de luxo que o impedia de
assumir a sua condio actual. Queria sair sem luvas e achava
as mos demasiado brancas, queria percorrer a cidade a p e
achava as botas demasiado brilhantes.

No entanto, estas duas criaturas to nobres e inteligentes,
ligadas indissoluvelmente pelos laos do amor maternal e
filial, tinham conseguido compreender-se sem falar de nada e
economizar todos os rodeios usados entre amigos para
estabelecer a verdade material de que depende a vida.

Albert pudera finalmente dizer  me sem a fazer empalidecer:

- Minha me, j no temos dinheiro.

Mercds nunca conhecera verdadeiramente a misria; muitas
vezes, na sua juventude, ela prpria falara de pobreza, mas
isso no era a mesma coisa: pobreza e necessidade so
sinnimos entre os quais h Um mundo de intervalo.

Entre os Catales, Mercds tinha necessidade de muitas
coisas, mas nunca lhe faltavam outras. Enquanto as redes
estavam boas, pescava-se o peixe; vendido o peixe, tinha-se
fio para consertar as redes.

E depois, privada de afectos, tendo apenas um amor que em nada
interferia nos pormenores materiais da situao, cada um
pensava em si, s em si e em mais ningum.

Do pouco que tinha, Mercds fazia o seu quinho to
generosamente quanto possvel; agora, tinha de fazer dois
quinhes... a partir do nada.

O Inverno aproximava-se. Naquele quarto nu e j frio, Mercds
no tinha aquecimento, ela a quem outrora um calorfero com
inmeras ramificaes aquecia a casa desde as antecmaras at
ao boudoir. No tinha nem uma pobre florinha, ela cujos
aposentos eram uma estufa quente mantida a peso de ouro!

Mas tinha o seu filho...

A exaltao de um dever talvez exagerado sustentara-os at ali
nas esferas superiores.

A exaltao  quase entusiasmo, e o entusiasmo torna as
pessoas insensveis s coisas terrenas.

Mas o entusiasmo esfriara e tora necessrio descer pouco a
pouco do pas dos sonhos ao mundo das realidades.

Era necessrio talar do positivo, depois de ter esgotado todo
o ideal.

- Minha me - dizia Albert, no preciso momento em que a Sr.a
Danglars descia a escada --, deitemos contas a todas as nossas
riquezas, por favor. Preciso de um total para traar os meus
planos.

- Total, nada - respondeu Mercds com um sorriso doloroso.

- Na realidade, minha me, total, trs mil francos,  primeira
vista, e tenho a pretenso de, com esses trs mil francos,
proporcionar a ambos uma rica vida.

- Criana! - suspirou Mercds.

- Por Deus, minha pobre me, infelizmente gastei-lhe dinheiro
suficiente para lhe conhecer o valor!  enorme, acredite. Trs
mil francos... Com esta importncia conseguirei um futuro
miraculoso de eterna segurana.

- Falas assim, meu amigo - continuou a pobre me --, mas
primeiro  preciso saber se aceitamos esses trs mil francos.

- Parece-me que isso est assente - redarguiu Albert em tom
firme. - Aceitamo-los, tanto mais que no os temos, pois
esto, como sabe, enterrados no jardim dessa casita das
Alamedas de Meilhan, em Marselha. Com duzentos francos, iremos
ambos a Marselha.

- Com duzentos francos! - exclamou Mercds. - E onde esto
eles, Albert?

- Oh, quanto a isso no se preocupe! Informei-me nas
diligencias e nos vapores e fiz os meus clculos.
Reservmos-lhe lugar para Chalon na diligncia; como v, minha
me, trato-a como um a rainha... So trinta e cinco francos.

Albert pegou numa pena e escreveu:


Diligncia -- 35 francos

De Chalon a Lio, de vapor -- 6 francos

De Lio a Avinho, tambm de vapor -- 16 francos
De Avinho a Marselha -- 7 francos

Despesas de viagem -- 50 francos

Total -- 114 francos

- Ponhamos cento e vinte - acrescentou Albert, sorrindo. -
Como v, sou generoso, no  verdade, minha me?

- Mas tu, meu pobre filho?

- Eu? No viu que me reservo oitenta francos? Um rapaz, minha
me, no necessita de muitas comodidades. De resto, sei o que
 viajar.

- Com a tua sege de posta e o teu criado de quarto.

- De todas as maneiras, minha me.

- Pois bem, seja - concordou Mercds. - Mas onde esto esses
duzentos francos?

- Esses duzentos francos esto aqui, e ainda mais duzentos...
Olhe vendi o meu relgio por cem francos e os berloques por
trezentos. Que sorte! Berloques que valiam trs vezes o
relgio. Sempre a eterna histria do suprfluo! Estamos
portanto ricos, pois em vez de cento e catorze francos para a
sua viagem ter duzentos e cinquenta.

- Mas no devemos qualquer coisa aqui?

- Trinta francos, mas pago-os dos meus cento e cinquenta
francos. Isso est resolvido. Alis, bem vistas as coisas, no
preciso de mais do que oitenta francos para a viagem. Como v,
estou a nadar em dinheiro. Mas isto no  tudo. Que me diz a
isto, minha me?

E Albert tirou de uma agendazinha de fecho de ouro, resto das
suas antigas fantasias ou talvez mesmo terna recordao de
alguma das mulheres misteriosas e veladas que batiam 
portinha, uma nota de mil francos.

- Que  isso? - perguntou Mercds.

- Mil francos, minha me. Oh, esteja descansada que so
perfeitamente honestos!

- Mas onde os arranjaste?

- Escute, me, e no se impressione demasiado.

E Albert levantou-se, beijou a me em ambas as faces e ficou
parado a olh-la.

- No imagina, me, como a acho bonita! - declarou o rapaz com
profundo sentimento de amor filial. - Na verdade,  no s a
mais bonita, mas tambm a mais nobre mulher que jamais vi!

- Querido filho - murmurou Mercds, procurando em vo reter
uma lgrima que lhe brilhava ao canto da plpebra.

- Realmente, s lhe faltava ser infeliz para transformar o meu
amor em adorao.

- No serei infeliz enquanto tiver o meu filho - declarou
Mercds.

- Muito bem! - disse Albert.-Mas a  que comea a questo.
Sabe o que est combinado?

- Combinmos alguma coisa? - perguntou Mercds.

- Combinmos. Combinmos que a senhora ficaria a morar em
Marselha e que eu partiria para frica, onde, em vez do nome
a que renunciei, honraria o nome que adoptei.

Mercds suspirou.

- Pois bem, minha me: desde ontem que estou alistado nos
sipaios - acrescentou o rapaz, baixando os olhos com certa
vergonha, pois nem ele prprio sabia tudo o que o seu
rebaixamento tinha de sublime. - Ou antes, julguei que o meu
corpo me pertencia inteiramente e que o podia vender.
Desde ontem que substituo algum. Vendi-me, como dizem, e -
acrescentou tentando sorrir - mais caro do que estava
convencido que valia, ou seja por dois mil francos.

- Portanto, estes mil francos?... - disse, tremendo, Mercds.

- So metade da importncia, minha me. A outra vir daqui a
um ano.

Mercds ergueu os olhos ao cu com uma expresso que ningum
saberia exprimir e as duas lgrimas que lhe brilhavam ao canto
dos olhos transbordaram sob a sua emoo ntima e correram-lhe
silenciosamente ao longo das faces.

- O preo do teu sangue! - murmurou.

- Sim, se for morto - redarguiu, rindo, Morcerf. - Mas
garanto-lhe, boa me, que, pelo contrrio, tenho a inteno de
defender ferozmente a pele. Nunca senti tanta vontade de viver
como agora.

- Meu Deus! Meu Deus! - exclamou Mercds.

- Alis, por que motivo havia de ser morto, minha me?
Porventura Lamoricire, esse outro Ney do Meio-Dia, foi
morto? E Changarnier, foi morto? E Bedeau, foi morto? E
Morrel, que ns conhecemos, foi morto? Pense pois na sua
alegria, minha me, quando me vir regressar com o meu uniforme
bordado! Declaro-lhe que nesse aspecto conto ser imponente e
que escolhi aquele regimento por vaidade.

Mercds suspirou e tentou sorrir. Aquela santa me
compreendia que no lhe ficava bem deixar que o filho
suportasse todo o peso do sacrifcio.

- Portanto - prosseguiu Albert --, a me j tem mais de quatro
mil francos garantidos. Ora, com quatro mil francos viver bem
dois anos...

- Achas? - disse Mercds.

Estas palavras escaparam  condessa, e com uma dor to
verdadeira que o seu autntico sentido no passou despercebido
a Albert. Este sentiu o corao confranger-se-lhe e disse,
pegando na mo da me, que apertou ternamente nas suas:

- Sim, viver!

- Viverei! - exclamou Mercds. - Mas tu no partirs, no 
verdade, meu filho?

- Minha me, partirei - respondeu Albert em voz calma e firme.
- Ama-me demasiado para me querer junto de si ocioso e intil.
De resto, j assinei.

- Proceders como for da tua vontade; eu procederei conforme
for da vontade de Deus.

- No de acordo com a minha vontade, minha me, mas sim de
acordo com a razo e a necessidade. Somos duas pessoas
desesperadas, no  verdade? Que  a vida para si, hoje? Nada.
Que  a vida para mim? Oh, muito pouco sem a senhora, minha
me, acredite! Porque sem a senhora juro-lhe que esta vida
teria cessado no dia em que duvidei do meu pai e reneguei o
seu nome! Enfim, viverei se me prometer ter ainda esperana;
se me deixar o cuidado da sua felicidade
futura, duplicar a minha energia. Procurarei o governador da
Arglia, que  um corao leal e sobretudo essencialmente
soldado, e contar-lhe-ei a minha lgubre histria.
Pedir-lhe-ei que olhe de vez em quando para mim, e se me der a
sua palavra de que o far e apreciar o meu comportamento,
dentro de seis meses serei oficial ou estarei morto. Se for
oficial, o seu futuro estar assegurado, minha me, porque
terei dinheiro para si e para mim, e alm disso um novo nome
de que ambos nos orgulharemos, pois esse ser o seu verdadeiro
nome. Se morrer... Bom, se morrer, ento, minha me, morra
tambm, se quiser, e as nossas desventuras acabaro devido ao
seu prprio excesso.

- Est bem - respondeu Mercds, fitando-o com o seu nobre e
eloquente olhar. - Tens razo, meu filho: provemos a certas
pessoas que nos observam e esperam os nossos actos para nos
julgar, provemo-lhes que somos pelo menos dignos de lstima.

- Mas nada de ideias fnebres, querida me! - exclamou o
jovem.-Juro-lhe que somos, ou pelo menos que podemos ser
felizes. A senhora  ao mesmo tempo uma mulher cheia de
inteligncia e resignao; eu adquiri gostos simples e
modestos, creio. Uma vez ao servio, estarei rico; uma vez na
casa do Sr. Dants, a senhora estar tranquila. Tentemos!
Peo-lhe, minha me, tentemos.

- Pois sim, tentemos, meu filho, porque tu deves viver, porque
deves ser feliz - respondeu Mercds.

- Nesse caso, minha me, uma vez que as nossas divises esto
feitas, podemos partir hoje mesmo - acrescentou o rapaz,
simulando uma grande descontraco. - Vamos, como j lhe
disse, marquei-lhe lugar.

- E o teu, meu filho?

- Eu devo ficar ainda dois ou trs dias, minha me.  um
princpio de separao e temos de nos ir habituando a isso...
Preciso de algumas recomendaes, de algumas informaes
acerca de frica, e irei ter consigo a Marselha.

- Pois sim, partamos! - exclamou Mercds, envolvendo-se no
nico xaile que trouxera e que por acaso era de caxemira preta
de alto preo. - Partamos!

Albert guardou  pressa os seus papis, tocou para pagar os
trinta francos que devia, ofereceu o brao  me e desceram a
escada.

Algum descia adiante deles; esse algum, ao ouvir o ruge-ruge
de um vestido de seda virou-se.

- Debray! - murmurou Albert.

- Morcerf! - exclamou o secretrio do ministro, parando no
degrau em que se encontrava.

A curiosidade levou a melhor em Debray sobre o seu desejo de
conservar o incgnito. De resto, j fora reconhecido.

Alm disso, tinha a sua piada encontrar naquele prdio
ignorado o rapaz cuja triste aventura acabava de causar to
grande escndalo em Paris.

- Morcerf? - repetiu Debray.

Depois, notando na semi-obscuridade o aspecto ainda jovem e o
vu negro da Sr.a de Morcerf, acrescentou com um sorriso:

- Oh, perdo! Deixo-o, Albert...

Albert compreendeu o pensamento de Debray.

- Minha me - disse, virando-se para Mercds --,  o Sr.
Debray, secretrio do ministro do Interior, um antigo amigo
meu.

- Como antigo?... - balbuciou Debray. - Que quer dizer?

- Digo isto, Sr. Debray - respondeu Albert --, porque hoje j
no tenho amigos nem devo voltar a t-los. Agradeo-lhe muito
ter-se dignado reconhecer-me, senhor.

Debray subiu dois degraus e veio dar um enrgico aperto de mo
ao seu interlocutor.

- Creia, meu caro Albert - disse com a emoo de que era
susceptvel --, creia que senti profundamente a desventura que
o atingiu e que estou ao seu dispor para tudo.

- Obrigado, senhor - respondeu Albert, sorrindo --, mas,
apesar da nossa desventura, ficmos suficientemente ricos para
no necessitarmos de recorrer a ningum. Deixamos Paris e,
depois de paga a nossa viagem, restam-nos cinco mil francos.

O rubor subiu  testa de Debray, que tinha um milho na
carteira; e por pouco potico que fosse o seu esprito exacto,
no pde deixar de reflectir que no mesmo prdio tinham estado
pouco antes duas mulheres, das quais uma, justamente
desonrada, se considerava pobre com um milho e quinhentos mil
francos debaixo das pregas da sua capa, e outra, injustamente
atingida, mas sublime na sua desgraa, se considerava rica com
alguns francos.

Este paralelo deitou por terra os seus propsitos de cortesia;
a filosofia do exemplo esmagou-o. Balbuciou algumas palavras
de mera delicadeza e desceu rapidamente.

Naquele dia, os amanuenses do ministrio seus subordinados
tiveram de lhe aturar resignadamente o mau humor.

Mas  tardinha tornava-se comprador de um belssimo prdio
situado no Bulevar da Madalena, que rendia cinquenta mil
libras.

No dia seguinte,  hora em que Debray assinava a escritura, ou
seja, por volta das cinco da tarde, a Sr.a de Morcerf, depois
de beijar ternamente o filho e de ser ternamente beijada por
ele, subia para a diligncia, cuja porta se fechava atrs de
si.

No ptio da empresa de transportes Laffitte encontrava-se um
homem escondido atrs de uma das janelas arqueadas das
sobrelojas. Esse homem viu Mercds subir para a carruagem;
viu partir a diligncia; viu Albert afastar-se.

Ento passou a mo pela testa, cheio de dvidas, e murmurou:

- Ai de mim, como hei-de restituir queles dois inocentes a
felicidade que lhes roubei? Deus me ajudar.


Captulo CVII

O covil dos lees


Uma das seces da Force, aquela que encerra os presos mais
comprometidos e perigosos, chama-se o Ptio de S. Bernardo.

Na sua linguagem pitoresca, os presos deram-lhe o nome de
Covil dos Lees, provavelmente porque os reclusos tm dentes
que mordem muitas vezes as grades e no raro os guardas.

 uma priso dentro da priso; as paredes tm o dobro da
espessura das outras. Todos os dias um carcereiro verifica
cuidadosamente as grades macias, e reconhece-se pela estatura
herclea e pelo olhar frio e penetrante dos guardas que foram
escolhidos para reinar sobre o seu povo pelo terror e pela
rapidez dos reflexos.

O ptio da seco est rodeado de muros altssimos sobre os
quais desliza obliquamente o sol quando se decide a penetrar
naquele abismo de fealdades morais e fsicas. E ali, no
pavimento empedrado, que desde a alvorada vagueiam,
pensativos, assustados, plidos, como sombras, os homens que a
justia mantm curvados sob o cutelo que afia.

Vem-nos encostar-se e agachar-se ao longo do muro que absorve
e retm mais calor, e ficarem para ali, conversando dois a
dois, ou, na maioria dos casos, isolados, com o olhar
constantemente atrado para a porta, que se abre a fim de
chamarem algum dos habitantes do lgubre recinto ou lanarem
no abismo mais escria expelida pelo cadinho da sociedade.

O Ptio de S. Bernardo tem o seu parlatrio particular.
Trata-se de um quadriltero grande, dividido em duas partes
por outros tantos gradeamentos colocados paralelamente a trs
ps um do outro, de forma que o viajante no possa apertar a
mo ao preso ou passar-lhe qualquer coisa. O parlatrio 
sombrio, hmido e sob todos os aspectos horrvel, sobretudo se
pensarmos nas espantosas confidncias que tm passado por
aquelas grades e enferrujado o ferro dos vares.

Mesmo assim, por mais horrvel que seja, o local  o paraso
onde vm retemperar-se numa companhia desejada, apreciada, os
homens que tm os dias contados. E to raro sair-se do Covil
dos Lees para qualquer outro lado que no seja a Barreira de
Saint-Jacques, as gals ou a priso celular!

No ptio que acabamos de descrever, e onde imperava uma
humidade fria, passeava de mos nas algibeiras um rapaz
observado com muita curiosidade pelos habitantes do Covil.

Passaria por um homem elegante, graas ao corte da sua
indumentria, se essa indumentria no estivesse em farrapos,
embora tal estado se no devesse ao uso. Na verdade, o tecido,
fino e sedoso nos stios intactos, recuperava facilmente o
lustro debaixo da mo acariciadora do preso, que procurava
transform-lo num fato novo.

Aplicava o mesmo cuidado a fechar uma camisa de cambraia que
mudara consideravelmente de cor desde a sua entrada na priso,
e passava pelas botas de verniz a ponta de um leno com
iniciais bordadas e encimadas por uma coroa herldica.

Certos hspedes do Covil dos Lees observavam com notrio
interesse os requintes de toilette do preso.

- Olha, l est o prncipe a pr-se bonito - comentou um dos
ladres.

- J  muito bonito naturalmente - disse outro --, e se
tivesse s que fosse um pente e brilhantina eclipsaria todos
os cavalheiros de luvas brancas.

- A casaca devia ser novinha em folha e as botas ainda reluzem
lindamente. Para ns  lisonjeiro ter camaradas to tirados
das canelas. Os bandidos dos gendarmes so bem reles...
Invejosos! Rasgarem uma fatiota daquelas!

- Parece que  um dos guias - disse outro. - J fez de tudo,
e em grande... Apesar de to novo, at j esteve nas gals!
Que tipo!

E o alvo desta admirao horrvel parecia saborear os elogios,
ou o murmrio dos elogios, pois no ouvia as palavras.

Terminada a toilette, aproximou-se do guich da cantina, ao
qual se encontrava encostado um guarda, a quem disse:

- Por favor, senhor, empreste-me vinte francos. Pagar-lhos-ei
em breve. Comigo ningum corre riscos...
Lembre-se de que tenho parentes que possuem mais milhes do
que o senhor soldos... Ento, vinte francos, por favor. para
alugar um quarto particular e comprar um roupo. Custa-me
horrivelmente andar sempre de casaca e botas. E que casaca,
senhor, para um prncipe Cavalcanti!...

O guarda virou-lhe as costas e encolheu os ombros. Nem sequer
riu do palavreado, que teria desenrugado todas as testas;
porque j ouvira muitos outros, ou antes, sempre ouvira a
mesma coisa.

- Est bem, o senhor  um homem sem entranhas e far-lhe-ei
perder o seu lugar - ameaou Andrea.

Esta sada fez virar o guarda, que desta vez soltou uma
ruidosa gargalhada.

Ento os outros presos aproximaram-se e formaram crculo.

- Garanto-lhe - continuou Andrea - que com essa miservel
importncia poderei comprar uma casaca e alugar um quarto, a
fim de receber decentemente a visita ilustre que espero, mais
dia, menos dia.

- Tem razo! Tem razo! - gritaram os presos. - Demnio, v-se
bem que  um homem de classe.

- Ento emprestem-lhe os vinte francos - redarguiu o guarda.
apoiando-se no seu outro ombro colossal. - No acham que devem
isso a um camarada?

- Eu no sou camarada desta gente - replicou orgulhosamente o
jovem. -  No me insulte, no tem esse direito.

Os ladres entreolharam-se no meio de murmrios abafados, e
uma tempestade, levantada pela provocao do guarda, mais
ainda do que pelas palavras de Andrea, comeou a bramir sobre
o preso aristocrata.

O guarda, certo de fazer o quos ego quando as vagas se
tornassem demasiado alterosas, deixou-as crescer pouco a pouco
para dar uma lio ao importuno solicitador e divertir-se um
bocado durante o longo dia de guarda.

Os ladres comearam a aproximar-se de Andrea; uns gritavam:

- O chinelo! O chinelo!

Cruel operao que consiste em moer de pancada, no com um
chinelo, mas sim com um sapato ferrado, um companheiro cado
em desgraa.

Outros propunham a "enguia", gnero de divertimento que
consiste em encher de areia, seixos ou soldos, quando os h,
um leno torcido, que os carrascos descarregam como um chicote
nas costas e na cabea do paciente.

- Chicoteemos o lindo cavalheiro! - gritaram alguns. - O
senhor honesto!...

Mas Andrea virou-se para eles, piscou o olho, inflou a face
com a lngua e fez ouvir esse estalido de lbios que equivale
a mil sinais de inteligncia entre os bandidos impedidos de
falar.

Era um sinal manico que lhe ensinara Caderousse.

Os outros reconheceram um dos seus.

Os lenos desceram imediatamente; o sapato ferrado regressou
ao p do principal carrasco. Ouviram-se algumas vozes
proclamar que aquele senhor  tinha razo, que aquele senhor
podia ser honesto  sua maneira, e que os presos queriam dar o
exemplo da liberdade de conscincia.

O temporal amainou. O guarda ficou de tal modo estupefacto que
agarrou imediatamente Andrea pelas mos e ps-se a revist-lo,
atribuindo a alguma manifestao mais significativa do que a
fascinao a mudana sbita dos habitantes do Covil dos Lees.

Andrea deixou-se revistar, embora protestando.

De sbito, soou uma voz ao guich.

- Benedetto! - gritou um inspector.

O guarda largou a presa.

- Quem me chama? - perguntou Andrea.

- Ao parlatrio! - respondeu a voz.

- V como me vm visitar? Ah, meu caro senhor, vai ver se se
pode tratar um Cavalcanti como um homem vulgar!

E Andrea, deslizando pelo ptio como uma sombra negra, correu
para a porta do guich, que se encontrava entreaberta,
deixando embasbacados os companheiros e o prprio guarda.

Chamavam-no efectivamente ao parlatrio, o que no deveria
causar menos admirao do que ao prprio Andrea; porque o
astucioso rapaz, desde a sua entrada na Force, em vez de
utilizar, como a maioria dos companheiros, a faculdade de
escrever para pedir auxlio, guardara o mais estico silncio.

- Sou - dizia ele - evidentemente protegido por algum
poderoso; tudo mo prova. Aquela fortuna sbita, a facilidade
com que aplanei todos os obstculos, uma famlia improvisada,
um nome ilustre tornado meu, o ouro chovendo sobre mim, as
alianas mais magnficas prometidas  minha ambio... Um
infeliz esquecimento da minha sorte, uma ausncia do meu
protector perdeu-me, sim, mas no por completo nem para
sempre! A mo retirou-se por um momento, mas deve estender-se
para mim e agarrar-me de novo quando me julgar prestes a cair
no abismo.

"Porque arriscaria um passo imprudente? Talvez me alienasse o
protector! Tem duas maneiras de me tirar de apuros: a evaso
misteriosa, paga a peso de ouro, e forar a mo aos juzes
para obter uma absolvio. Esperemos para falar, para agir,
que me seja provado que me abandonaram por completo, e
ento...

Andrea traara um plano que se podia considerar hbil; o
miservel era intrpido no ataque e duro na defesa. Suportara
a misria, da priso comum, as privaes de todo o gnero, no
entanto, pouco a pouco, o natural, ou antes o hbito, voltara
 superfcie. Andrea sofria por andar nu, sujo e faminto, a
espera prolongava-se.

Foi nesse momento de desanimo que a voz do inspector o chamou
ao parlatrio.

Andrea sentiu o corao pular-lhe de alegria. Era demasiado
cedo para se tratar da visita do juiz de instruo e demasiado
tarde para ser uma chamada do director da priso ou do mdico.
Era portanto a visita esperada.

Atravs do gradeamento do parlatrio, onde foi introduzido,
viu, com os olhos dilatados por uma curiosidade vida, o rosto
sombrio e inteligente do Sr. Bertuccio, que olhava tambm, mas
com uma espcie de surpresa dolorosa, as grades, as portas
aferrolhadas e a sombra que se agitava atrs dos vares
entrecruzados.

- Ah! - exclamou Andrea, impressionado.

- Bons dias, Benedetto - disse Bertuccio na sua voz cava e
sonora.

- O senhor! O senhor! - exclamou o rapaz, olhando com terror 
sua volta.

- No me reconheces, pobre criana? - perguntou Bertuccio.

- Silncio! Mas silncio mesmo! - ordenou Andrea, que conhecia
a finura de ouvido das paredes. - Meu Deus, meu Deus, no fale
to alto!

- Gostarias de conversar comigo a ss, no  verdade?  -
perguntou Bertuccio.

- Oh, sim! - respondeu Andrea.

- Est bem.

E Bertuccio procurou qualquer coisa na algibeira e fez sinal a
um guarda que se encontrava atrs do vidro do guich.

- Leia - disse.

- Que  isso? - perguntou Andrea.

- Ordem para te conduzirem a um quarto, te instalarem e
deixarem-me comunicar contigo.

- oh! - exclamou Andrea, pulando de alegria.

E, concentrando-se imediatamente em si mesmo, disse para
consigo: "novamente o protector desconhecido! No me
esqueceram! Procuram o segredo, uma vez que querem conversar
comigo num quarto isolado. Tenho-os na mo... Bertuccio foi
enviado pelo protector."

O guarda conferenciou um momento com um superior, depois abriu
as duas portas gradeadas e conduziu Andrea a um quarto do
primeiro andar, com vista para o ptio. O rapaz no cabia em
si de contente.

Tratava-se de um quarto caiado, como  habitual nas prises.
Tinha um ar alegre, que pareceu radioso ao preso: um fogo de
aquecimento, uma cama, uma cadeira e uma mesa constituam o
mobilirio sumptuoso.

Bertuccio sentou-se na cadeira. Andrea atirou-se para cima da
cama. o guarda retirou-se.

- Vejamos, que tens para me dizer? - perguntou o intendente.

- E o senhor? - perguntou por seu turno Andrea.

- Fala primeiro...

- Oh, no! O senhor  que deve ter muito para me dizer, uma
vez que me veio procurar.

- Est bem, seja! Continuaste a carreira dos teus crimes:
roubaste, assassinaste...

- Bom, se foi para me dizer isso que me fez passar para um
quarto particular, escusava de se incomodar. Sei tudo isso.
Mas h outras coisas que no sei. Falemos dessas, se no se
importa. Quem o mandou c?

- Oh, oh, vai muito depressa, Sr. Benedetto!...

- E ao fim, no  verdade? Sobretudo, poupemos as palavras
inteis. Quem o mandou c?

- Ningum.

- Como soube que estava preso?

- H muito tempo que te reconheci no elegante insolente que
frequentava to graciosamente a cavalo os Campos Elsios.

- Os Campos Elsios!... Ah, ah, comeamos a pr os trunfos na
mesa, como se diz ao jogo!... Os Campos Elsios... Muito bem,
falemos um pouco do meu pai, quer?

- E que sou eu?

- O senhor, meu caro,  o meu pai adoptivo... Mas calculo que
no foi o senhor que disps a meu favor de uma centena de
milhar de francos que devorei em quatro ou cinco meses; nem o
senhor que me arranjou um pai italiano e fidalgo; nem o senhor
que me fez entrar na sociedade e me convidou para certo jantar
que julgo saborear ainda. em Auteuil, com a melhor companhia
de Paris e certo procurador rgio de que fiz muito mal no
cultivar a amizade, que me seria agora to til neste momento;
nem o senhor, enfim, quem me caucionou por um ou dois milhes
quando me aconteceu o acidente fatal que levou  descoberta da
marosca... Vamos, tale, respeitvel corso, fale...

- Que queres que te diga?

- Eu ajudo-o. H pouco referiu-se aos Campos Elsios, meu
digno pai adoptivo.

- E depois?

- E depois ... nos Campos Elsios reside um cavalheiro muito,
muito rico...

- Em casa de quem roubaste e assassinaste, no  verdade?

- Creio que sim.

- O Sr. Conde de Monte-Cristo?

- Foi o senhor que lhe citou o nome, como diz o Sr. Racine...
Bom, devo lanar-me nos seus braos, apert-lo muito ao peito
e gritar: "meu pai! Meu pai!", como diz o Sr. Pixrcourt?

-- Deixemo-nos de gracejos - replicou gravemente Bertuccio - e
que semelhante nome no seja pronunciado aqui como te
atreveste a pronunci-lo.

- Ora, ora! - exclamou Andrea, um pouco aturdido com a
solenidade de Bertuccio. - Por que no?

- Porque a pessoa que usa esse nome est demasiado nas boas
graas do cu para ser o pai de um miservel como tu.

- Oh, l vm as grandes palavras!...

- E de grandes efeitos, se no te acautelares!

- Ameaas!... No as temo. Direi...

- Julgas que ests a lidar com pigmeus da tua espcie? -
perguntou Bertuccio num tom to calmo e com um olhar to firme
que Andrea ficou perturbado at ao fundo das entranhas. -
Julgas que ests a lidar com os teus habituais companheiros
das gals ou com os papalvos da sociedade?... Benedetto, ests
em poder de uma mo terrvel, mo que se quer abrir em teu
proveito; aproveita a oportunidade. No brinques com o raio
que ela largou por um instante, mas em que pode voltar a pegar
se tentares prejudicar-lhe a liberdade de movimentos.

- O meu pai... quero saber quem  o meu pai - insistiu o
teimoso. - Morrerei por isso, se for preciso, mas sab-lo-ei.
Que me interessa a mim o escndalo, o bem... a reputao... a
fama... como diz Beauchamp, o jornalista? Mas vocs, gente da
alta, tm sempre alguma coisa a perder com o escndalo, apesar
dos seus milhes e dos seus ttulos nobilirquicos...
Portanto, quem  o meu pai?

- Vim c para to dizer.

- Sim?! - exclamou Benedetto com os olhos cintilantes de
alegria.

Neste momento a porta abriu-se e o carcereiro dirigiu-se a
Bertuccio:

- Perdo, senhor, mas o juiz de instruo espera o preso.

-  o encerramento do meu interrogatrio - disse Andrea ao
digno intendente. - Ao diabo o importuno!

- Voltarei amanh - disse Bertuccio.

- Pois sim - respondeu Andrea. - Sr. Gendarme, estou  sua
disposio... Ah, querido senhor, deixe uma dezena de escudos
na secretaria para que me forneam aqui o que precisar!

- Assim farei - respondeu Bertuccio.

Andrea estendeu-lhe a mo. Bertuccio conservou a sua na
algibeira e limitou-se a fazer soar algumas moedas de prata.

- Era o que queria dizer - declarou Andrea, esboando um
sorriso, que mais parecia uma careta, mas completamente
subjugado pela estranha tranquilidade de Bertuccio.

"Ter-me-ei enganado?", pensou ao subir para a carruagem
oblonga e gradeada a que os presos chamavam a Ramona.
"Veremos... "

- Ento, at amanh! - gritou, virando-se para Bertuccio.

- At amanh! - respondeu o intendente.


captulo CVIII

O juiz


Lembramos que o abade Busoni ficara sozinho com Noirtier no
quarto morturio e que o velho e o padre se tinham constitudo
guardas do corpo da jovem.

Talvez as exortaes crists do abade, talvez a sua suave
caridade ou talvez a sua palavra persuasiva tivessem
restitudo a coragem ao velho; porque a partir do momento em
que pudera conferenciar com o padre, em vez do desespero que
se apoderara dele inicialmente, tudo em Noirtier denotara uma
grande resignao e uma calma deveras surpreendente para todos
aqueles que se recordavam da profunda afeio que dedicava a
Valentine.

O Sr. de Villefort no tornara a ver o velho desde a manh do
falecimento. Toda a casa fora renovada: Villefort contratara
novo criado de quarto para si e outro criado para Noirtier; ao
servio da Sr.a de Villefort tinham entrado duas novas
criadas; todos, incluindo o porteiro e o cocheiro, ofereciam
de novo caras que se tinham interposto por assim dizer entre
os diversos patres da casa maldita e interceptado as relaes
j bastante frias que existiam entre eles. De resto, os
tribunais abriam dentro de trs dias e Villefort, encerrado no
seu gabinete, prosseguia com febril actividade a elaborao do
processo contra o assassino de Caderousse. Este caso, como
todos aqueles com que o conde de Monte-Cristo se encontrava
relacionado, dera muito que falar na alta sociedade
parisiense. As provas no eram convincentes, pois baseavam-se
nalgumas palavras escritas por um forado moribundo, antigo
companheiro de gals do acusado, ao qual poderia querer
incriminar por dio ou por vingana. Somente a convico do
magistrado se encontrava formada: o procurador rgio acabara
por adquirir essa temvel convico e para ele Benedetto era
culpado e, custasse o  que custasse, havia de tirar dessa
vitria difcil uma dessas satisfaes de amor-prprio que s
por si revelavam um pouco de que fibra era feito o seu corao
insensvel

o processo ia pois sendo instrudo graas ao trabalho
incessante de Villefort, que queria abrir com ele o prximo
perodo judicial. Isso obrigara-o a isolar-se mais do que
nunca, para no ter de responder  quantidade prodigiosa de
pedidos que lhe dirigiam para obter bilhetes de audincia.

E depois passara to pouco tempo desde que a pobre Valentine
fora sepultada. a dor da famlia era ainda to recente que
ningum se admirava de ver o pai to severamente absorto no
seu dever, isto , na nica distraco que podia encontrar
para o seu desgosto.

Apenas uma vez, no dia seguinte quele em que Benedetto
recebera a visita de Bertuccio, na qual este lhe deveria
indicar o nome do pai, apenas uma vez, no dia seguinte a esse,
que era um domingo, uma nica vez, insistimos, Villefort vira
o pai.
Fora num momento em que o magistrado, cansadssimo, descera ao
jardim do palcio, e sombrio, curvado a um pensamento
implacvel, qual Tarqunio abatendo com a sua chibata as
papoilas mais altas, abatia com a bengala as longas hastes das
malvas-rosas que se erguiam ao longo das alamedas como os
espectros dessas flores to brilhantes na estao que acabava
de terminar.

J por mais de uma vez chegara ao fundo do jardim, ou seja, ao
famoso porto que dava para o recinto abandonado, voltando
sempre pela mesma alameda e retomando o passeio com o mesmo
passo e a mesma atitude, quando olhara maquinalmente para
casa, na qual ouvia brincar ruidosamente o filho vindo do
colgio para passar o domingo e a segunda-feira junto da me.

Nesse momento viu a uma das janelas abertas o Sr. Noirtier,
que fizera rodar at ali a sua poltrona a fim de fruir os
ltimos raios de um Sol ainda quente que vinham saudar as
flores moribundas dos volveis e as folhas avermelhadas das
vinhas-virgens que atapetavam a varanda.

O olhar do velho cravara-se, por assim dizer, num ponto que
Villefort s distinguia imperfeitamente. Mas esse olhar de
Noirtier era to rancoroso, to feroz, to ardente de
impacincia, que o procurador rgio, habituado a captar todas
as impresses daquele rosto, que conhecia to bem, se afastou
da linha que percorria para ver quem era a pessoa que o velho
observava assim.

Viu ento, debaixo de um macio de tlias com os ramos j
quase desguarnecidos, a Sr.a de Villefort, que, sentada com um
livro na mo, interrompia de vez em quando a leitura para
sorrir ao filho ou devolver-lhe a bola de borracha que ele
atirava obstinadamente da sala para o jardim.

Villefort empalideceu, pois sabia o que queria o velho.
Noirtier no tirava os olhos do mesmo alvo, mas, de sbito, o
seu olhar desviou-se da mulher para o marido, e o prprio
Villefort teve de suportar o ataque daqueles olhos fulminantes
que, ao mudarem de alvo, mudaram tambm de linguagem, sem no
entanto perderem nada da sua expresso ameaadora.

A Sr.a de Villefort, alheia a todas aquelas paixes, cujos
fogos cruzados lhe passavam por cima da cabea, segurava
naquele momento a bola do filho, ao qual fazia sinal para a
vir buscar com um beijo. Mas douard fez-se rogar longamente.
O mais provvel era que a carcia maternal lhe no parecesse
recompensa suficiente para o incmodo que ia ter. Por fim
decidiu-se, saltou da janela para o meio de um canteiro de
heliolrpios e rainhas-margaridas e correu
para a Sr.a de Villefort com a testa coberta de suor. A Sr.a
de Villefort limpou-lha, pousou os lbios naquele marfim
hmido e mandou o garoto embora com a bola numa das mo e um
punhado de bombons na outra.

Levado por invencvel atraco, tal como o passarinho 
atrado pela serpente, Villefort aproximou-se de casa. 
medida que se aproximava, o olhar de Noirtier baixava-se para
o seguir, e o fogo das suas pupilas parecia adquirir tal grau
de incandescncia que Villefort se sentia devorado por ele at
ao fundo do corao. Com efeito, lia-se naquele olhar uma
cruel censura, ao mesmo tempo que uma terrvel ameaa. Ento,
as plpebras e os olhos de Noirtier ergueram-se ao cu, como
se recordasse ao filho um juramento esquecido.

- Est bem, senhor - replicou Villefort de baixo, do ptio
--, est bem! Tenha pacincia durante mais um dia. o que disse
est dito.

Noirtier pareceu acalmar-se com estas palavras e os seus olhos
viraram-se com indiferena para outro lado.

Villefort desabotoou violentamente a sobrecasaca que o
sufocava, passou a mo lvida pela testa e regressou ao seu
gabinete.

A noite passou-se fria e tranquila; toda a gente se deitou e
dormiu como de costume naquela casa. Apenas, tambm como de
costume, Villefort no se deitou ao mesmo tempo que os outros
e trabalhou at s cinco da manh, a rever os ltimos
interrogatrios feitos na vspera pelos magistrados
instrutores, a compulsar os depoimentos das testemunhas e a
burilar o seu libelo acusatrio, um dos mais enrgicos e
habilmente concebidos que at ento redigira.

Era no dia seguinte, segunda-feira, que se devia realizar a
primeira audincia. Villefort viu despontar esse dia bao e
sinistro e a sua claridade acinzentada fez brilhar no papel as
linhas traadas a tinta vermelha. O magistrado adormecera um
instante, enquanto o candeeiro dava os ltimos suspiros.
As crepitaes da torcida acordaram-no, com os dedos hmidos e
avermelhados como se os tivesse mergulhado em sangue.

Abriu a janela. Uma grande faixa alaranjada atravessava ao
longe o cu e cortava em dois os lamos esguios que se
perfilavam a negro no horizonte. No campo de luzerna, do outro
lado do porto dos castanheiros, uma cotovia subia no cu,
emitindo o seu canto claro e matinal.

O ar hmido do amanhecer inundou a cabea de Villefort e
refrescou-lhe a memria.

- Ser hoje - disse com esforo. - Hoje, o homem que vai
empunhar o gldio da justia deve ferir onde quer que se
encontrem os culpados.

O seu olhar dirigiu-se ento, mal-grado seu, para a janela de
Noirtier, que se projectava em angulo recto, para a janela
onde vira o velho na vspera.

O cortinado estava corrido.

E no entanto a imagem do pai estava-lhe de tal modo presente
que se dirigiu  janela fechada como se estivesse aberta e
visse ainda o velho ameaador.

- Sim - murmurou --, sim, pode estar tranquilo!

A cabea descaiu-lhe para o peito e com ela assim inclinada
deu alguns passos no gabinete. Por fim; atirou-se vestido para
cima de um canap, menos para dormir do que para descontrair
os membros insensibilizados pela fadiga e pelo frio, que lhe
penetrara at  medula dos ossos.

Pouco a pouco toda a gente se levantou. Do seu gabinete,
Villefort ouviu o sucessivos rudos que constituam por assim
dizer a vida da casa: as portas  macias em movimento, o loque
da campainha da Sr.a de Villefort a chamar a sua criada de
quarto, os primeiros grilos do garoto, que se levantava alegre
como nos levantamos habitualmente na sua idade.

Villefort tocou por seu turno. o seu novo criado de quarto
entrou e entregou-lhe os jornais.

Juntamente com os jornais trouxe uma chvena de chocolate.

- Que me traz a? - perguntou Villefort.

- Uma chvena de chocolate.

- No a pedi. Quem tomou essa deciso por mim?

- A senhora. Disse-me que o senhor falaria decerto muito hoje,
nesse caso de assassnio, e que necessitava de recuperar
foras.

E o criado ps em cima da mesa colocada junto do canap -
mesa, como todas as outras, carregada de papis - a chvena de
prata dourada

Depois, saiu.

Villefort olhou um instante a chvena, com ar sombrio, e
depois, de sbito, pegou-lhe com um gesto nervoso e bebeu de
um s trago a beberagem que continha. Dir-se-ia esperar que a
beberagem fosse mortal e que procurava a morte para o libertar
de um dever que lhe ordenava coisa muito mais difcil do que
morrer. Depois levantou-se e passeou no gabinete com uma
espcie de sorriso, que seria terrvel de ver se algum o
visse.

O chocolate era inofensivo e o Sr. de Villefort no
experimentou nada.

Chegada a hora do pequeno-almoo, o Sr. de Villefort no
apareceu  mesa. O criado de quarto voltou a entrar-lhe no
gabinete.

- A senhora manda prevenir o senhor de que acabam de dar onze
horas e a audincia est marcada para o meio-dia.

- E depois? - perguntou Villefort.

- A senhora arranjou-se, est pronta, e pergunta se pode
acompanhar o senhor.

- Aonde?

- Ao Palcio da Justia.

- Para qu?

- A senhora diz que gostaria muito de assistir  audincia.

- Ah, ela disse isso?! - exclamou Villefort num tom quase
assustador.

O criado recuou um passo e sugeriu:

- Se o senhor deseja ir s, eu vou dizer  senhora.

Villefort ficou um instante calado, cravava as unhas na cara,
em que sobressaa a barba, de um negro de bano.

- Diga  senhora - respondeu por fim - que desejo falar-lhe e
que lhe peo que me espere nos seus aposentos.

- Sim, senhor.

- Depois volte para me barbear e vestir.

- Imediatamente.

O criado de quarto saiu e, de facto, voltou pouco depois para
barbear Villefort e vesti-lo solenemente de preto.

Quando terminou informou:

-- A senhora disse que esperaria o senhor assim que o senhor
acabasse de se vestir.

- Vou j.

E Villefort, com os processos debaixo do brao e o chapu na
mo, dirigiu-se para os aposentos da mulher.

A porta parou um instante e enxugou com o leno o suor que lhe
brotava da fronte lvida.

Depois empurrou a porta.

A Sr.a de Villefort estava sentada numa otomana a folhear com
impacincia jornais e brochuras que o jovem douard se
entretinha a rasgar ainda antes de a me ter tempo de acabar
de os ler. Encontrava-se completamente vestida para sair. O
chapu esperava-a pousado numa poltrona. J calara as luvas.

- At que enfim, senhor! - exclamou, na sua voz natural e
calma. - Meu Deus, como est plido, senhor! Trabalhou toda a
noite? Porque no foi tomar o pequeno-almoo connosco? Ento,
leva-me consigo ou vou sozinha com douard?

A Sr.a de Villefort multiplicou, como se v, as perguntas para
obter uma resposta; mas a todas as suas perguntas o Sr. de
Villefort ficou frio e mudo como uma esttua.

- douard - disse Villefort, cravando no garoto um olhar
imperioso --, v brincar para a sala, meu amigo, pois preciso
de falar com a sua me.

Ao ver esta atitude fria, este tom resoluto, estes
preparativos preliminares estranhos, a Sr.a de Villefort
estremeceu.

douard levantara a cabea e olhara para a me. Depois, vendo
que ela no confirmava a ordem do Sr. de Villefort,
dedicara-se a cortar a cabea aos seus soldados de chumbo.

- douard! - gritou o Sr. de Villefort to asperamente que o
garoto deu um salto no tapete. - No me ouviu? Saia!

O pequeno, muito pouco habituado a ser tratado assim,
levantou-se e empalideceu. Seria no entanto difcil de dizer
se de clera ou de medo.

O pai foi ao seu encontro, agarrou-o por um brao e beijou-o
na testa.

- V, meu filho, v!...

douard saiu.

O Sr. de Villefort, dirigiu-se para a porta e fechou-a atrs
do filho. Em seguida correu o fecho.

- Meu Deus! - exclamou a jovem senhora, olhando o marido at
ao fundo da alma e esboando um sorriso que a impassibilidade
de Villefort lhe gelou nos lbios. - Que se passa?

- Minha senhora, onde guarda o veneno de que se serve
habitualmente? - perguntou sem rodeios o magistrado, colocado
entre a mulher e a porta.

A Sr.a de Villefort experimentou o que deve experimentar a
cotovia quando v o milhafre apertar por cima da sua cabea os
seus crculos mortais.

Um som rouco, quebrado, que no era nem um grito nem um
suspiro, escapou-se do peito da Sr.a de Villefort, que
empalideceu at  lividez.

- Senhor, no... no compreendo...

E como se tinha levantado num paroxismo de terror, num segundo
paroxismo, mais forte sem dvida do que o primeiro, deixou-se
cair novamente no sof.

- Perguntei-lhe - continuou Villefort em voz perfeitamente
calma - em que stio escondia o veneno com que matou o meu
sogro, Sr. de Saint-Mran, a minha sogra, Barrois e a minha
filha, Valentine.

- Meu Deus, que diz o senhor?! -- gritou a Sr.a de Villefort,
juntando as mos.

- No lhe cabe interrogar-me, mas sim responder.

- Ao marido ou ao juiz? - balbuciou a Sr.a de Villefort.

- Ao juiz, minha senhora! Ao juiz!

Era um espectculo medonho ver a palidez da mulher, a angstia
do seu olhar, a tremura de todo o seu corpo.

- Senhor!... - murmurou. - Ah, senhor!... - foi tudo quanto
disse.

- No me respondeu, senhora! -  gritou o terrvel inquiridor.

Depois, acrescentou, com um sorriso ainda mais assustador do
que a sua clera:

-  verdade, pois nem se atreve a neg-lo!

A mulher esboou um gesto. Villefort prosseguiu, estendendo a
mo para ela como se a fosse prender em nome da justia:

- Nem poderia neg-lo! A senhora cometeu esses vrios crimes
com impudente habilidade, mas que s poderia enganar as
pessoas dispostas, devido  sua afeio, a
deixarem-se cegar a seu respeito. Desde a morte da Sr.a de
Saint-Mran que sabia existir um envenenador em minha casa; o
Sr. de Avrigny avisara-me. Depois da morte de Barrois - Deus
me perdoe! - as minhas suspeitas incidiram sobre algum, sobre
um anjo! As minhas suspeitas, que, mesmo quando no existe
crime, esto constantemente despertas no fundo do meu corao.
Mas depois da morte de Valentine deixei de ler dvidas, minha
senhora, e no fui s eu que deixei de as ter, o mesmo
aconteceu com outras pessoas. Assim o seu crime, agora
conhecido por duas pessoas e suspeitado por diversas, vai
tornar-se pblico; e como lhe dizia h pouco, minha senhora,
j no  um marido que lhe fala,  um juiz!

A jovem senhora escondeu o rosto nas mos.

- Oh, senhor, suplico-lhe que no acredite nas aparncias!...
- balbuciou.

- Ser cobarde? - perguntou Villefort em tom de desprezo. -
Com efeito, sempre notei que os envenenadores eram cobardes.
Ser cobarde, a senhora que teve a horrvel coragem de ver
expirar diante de si dois velhos e uma jovem, assassinados por
si?

- Senhor! Senhor!

- Ser cobarde - continuou Villefort, com crescente exaltao
--, a senhora que contou um a um os minutos de quatro agonias,
que imaginou os seus planos infernais e preparou as suas
beberagens infames com uma habilidade e uma preciso to
miraculosas? A senhora, que to bem calculou tudo, ter-se-
esquecido de calcular uma nica coisa, isto , aonde podia
lev-la a revelao dos seus crimes? Oh,  impossvel, e
decerto guardou algum veneno mais suave, mais subtil e mais
mortfero do que os outros para escapar ao castigo que lhe era
devido!... Espero que ao menos tenha feito isso.

A Sr.a de Villefort torceu as mos e caiu de joelhos.

- Bem sei... bem sei que confessa - prosseguiu o marido. -
Mas a confisso feita a juzes, a confisso feita no ltimo
momento, a confisso feita quando j se no pode negar, essa
confisso no diminui em nada o castigo que eles infligem ao
culpado.

- O castigo! -- gritou a Sr.a de Villefort. - O castigo!  a
segunda vez que o senhor pronuncia essa palavra...

- Sem dvida. Seria por ser quatro vezes culpada que julgara
escapar-lhe? Seria por ser a mulher daquele que reclama o
castigo que se convenceu de que o castigo a no atingiria?
No, minha senhora, no! Seja ela quem for, o cadafalso espera
a envenenadora, sobretudo se, como lhe dizia h pouco, a
envenenadora no teve o cuidado de conservar para si algumas
gotas do seu veneno mais seguro.

A Sr.a de Villefort soltou um grito selvagem e um terror
medonho e incontvel invadiu-lhe as feies descompostas.

- Oh, no receie o cadafalso, minha senhora! - disse o
magistrado. - No a quero desonrar, porque isso seria
desonrar-me a mim mesmo. No, pelo contrrio, se me ouviu bem,
deve ter compreendido que no pode morrer no cadafalso.

- No, no compreendi. Que queria dizer? - balbuciou a pobre
mulher, completamente aterrada.

- Queria e quero dizer que a mulher do primeiro magistrado da
capital no conspurcar com a sua infmia um nome sem mcula,
nem desonrar ao mesmo tempo o marido e o filho.

- No! Oh, no!

- Pois bem, minha senhora, ser uma boa aco da sua parte,
uma boa aco que lhe agradeo.

- Agradece-me?... E o qu?

- O que acaba de dizer.

- Que disse eu? Estou de cabea perdida; j no compreendo
nada. Meu Deus! Meu Deus!

E levantou-se, com o cabelo em desalinho e os lbios
espumantes.

- Respondeu  pergunta que lhe fiz quando entrei aqui.
Lembra-se que lhe perguntei onde estava o veneno de que se
servia habitualmente, minha senhora?

A Sr.a de Villefort ergueu os braos ao cu e apertou
convulsivamente as mos uma na outra.

- No! No! - vociferou. - No, o senhor no pode querer isso!

- O que no quero, senhora,  que morra num cadafalso,
entende? - redarguiu Villefort.

- Oh, senhor, perdo!

- O que quero  que seja feita justia. Estou no mundo para
castigar, senhora - acrescentou ele com um olhar chamejante. -
A qualquer outra mulher, ainda que fosse uma rainha,
mand-la-ia ao carrasco; mas consigo serei misericordioso. A
si digo-lhe: "no  verdade, minha senhora, que guardou
algumas gotas do seu veneno mais suave, mais rpido e mais
seguro?"

- Oh, perdoe, senhor, deixe-me viver!

- Cobarde! - gritou Villefort.

- Lembre-se de que sou sua mulher!

- O que ,  uma envenenadora!

- Em nome do cu!...

- No!

- Em nome do amor que teve por mim!...

- No, no!

- Em nome do nosso filho! Ah, pelo nosso filho, deixe-me
viver!

- No, no e no, j disse! Um dia, se a deixasse viver,
talvez o matasse tambm, como aos outros.

- Eu matar o meu filho?! - gritou aquela me selvagem correndo
para Villefort. - Eu, matar o meu douard?!... Ah, ah!

E um riso horrvel, um riso de demnio, um riso de louca
concluiu a frase e terminou num estertor cruel.

A Sr.a de Villefort cara aos ps do marido.

Villefort aproximou-se dela.

- Tome bem nota disto, senhora: se no meu regresso no estiver
feita justia, denunci-la-ei por minha prpria boca e
prend-la-ei por minhas prprias mos.

Ela escutava palpitante, abatida, esmagada; s o olhar vivia
nela e alimentava um fogo terrvel.

- Ouviu o que disse - prosseguiu Villefort. - Vou ao tribunal
pedir a pena de morte para um assassino... Se no regresso a
encontrar viva, dormir esta noite na Conciergerie.

A Sr.a de Villefort soltou um suspiro; os nervos
distenderam-se-lhe e caiu desamparada no tapete.

O procurador rgio pareceu esforar um gesto de piedade,
olhou-a com menos severidade e inclinou-se ligeiramente diante
dela.

- Adeus, minha senhora, adeus! - disse devagar.

Este adeus caiu como o cutelo mortal sobre a Sr.a de
Villefort, que perdeu os sentidos.

O procurador rgio saiu e fechou a porta  chave.


Captulo CIX

No tribunal


O caso Benedetto, como se dizia ento no Palcio da Justia e
na sociedade, produzira enorme sensao. Frequentador assduo
do Caf de Paris, do Bulevar de ganda e do Bosque de Bolonha,
o falso Cavalcanti fizera inmeros conhecimentos enquanto
estivera em Paris e durante os dois ou trs meses que durara o
seu esplendor. Os jornais tinham contado as diversas fases da
existncia do ru, tanto na sua vida elegante como na sua vida
de forado, e dai resultara a mais viva curiosidade, sobretudo
por parte daqueles que tinham conhecido pessoalmente o
prncipe Andrea Cavalcanti. Por isso, estavam decididos a
arriscar tudo para irem ver no banco dos rus o Sr. Benedetto,
o assassino do seu camarada de grilheta.

Para muita gente, Benedetto era, seno uma vitima, pelo menos
alvo de um erro da justia. Houvera quem visse o Sr.
Cavalcanti pai em Paris e esperasse v-lo aparecer de novo
para defender o seu ilustre rebento. Muitas pessoas que nunca
tinham ouvido falar da famosa polaca com a qual se apresentara
em casa do conde de Monte-Cristo tinham ficado impressionadas
com o ar digno, com a fidalguia e com a experincia da
sociedade que mostrara o velho patrcio, o qual,  deve-se
diz-lo, parecia um perfeito cavalheiro quando no abria a
boca nem se entregava a exerccios de aritmtica.

Quanto ao prprio ru, muita gente se lembrava de o ter visto
to amvel, to belo e to prdigo que preferia acreditar em
qualquer maquinao da parte de um inimigo, espcie que abunda
neste mundo, onde as grandes fortunas elevam os meios de fazer
o mal e o bem  altura do maravilhoso e o poder  altura do
inaudito.

Todos acorreram portanto  audincia, uns para saborear o
espectculo, outros para o comentar. Desde as sete da manh
que havia bicha ao porto, e uma hora antes da abertura da
audincia a sala j estava cheia de privilegiados.

Antes da entrada dos juzes, e mesmo muitas vezes depois, uma
sala de audincia assemelha-se muito, nos dias de julgamento
de causas importantes, a um salo onde numerosas pessoas se
reconhecem e cumprimentam quando esto suficientemente perto
umas das outras para no perderem os seus lugares, e se fazem
sinais quando esto separadas por excessivo nmero de
populares, advogados e gendarmes.

Estava um magnfico dia de Outono, daqueles que nos compensam
por vezes de um Vero ausente ou curto. As nuvens que o Sr. de
Villefort vira de manh encobrir o Sol nascente tinham-se
dissipado como que por magia e deixavam brilhar em toda a sua
pureza um dos ltimos e mais suaves dias de Setembro.

Beauchamp, um dos reis da imprensa, e que, por consequncia,
tinha o seu trono em toda a parte, olhava para a direita e
para a esquerda. Viu Chteau-Renaud e Debray, que acabavam de
conquistar as boas graas de um polcia e o tinham convencido
a pr-se atrs deles em vez de  frente, como era seu direito.
O digno agente farejara o secretrio do ministro e o
milionrio; mostrou-se portanto cheio de atenes para com os
seus nobres vizinhos e at lhes permitiu irem cumprimentar
Beauchamp, prometendo guardar-lhes os lugares.

- Ento, vamos ver o nosso amigo? - perguntou Beauchamp.

- Sim,  verdade, meu Deus! - respondeu Debray. - O digno
prncipe!... Que o diabo leve os prncipes italianos!

- Um homem que tivera Dante como genealogista e remontava a A
Divina Comdia!

- Na nobreza de corda - observou fleumaticamente
Chteau-Renaud.

- Ser condenado, claro? - perguntou Debray a Beauchamp.

- Oh, meu caro,  a si, parece-me, que se deve perguntar isso!
- respondeu o jornalista. - Conhece melhor do que ns o
ambiente do ministrio... Viu o juiz-presidente na ltima
festa do seu ministro?

- Vi.

- Que lhe disse ele?

- Uma coisa que o vai admirar.

- Nesse caso, diga depressa, meu caro amigo, pois h muito
tempo que me no dizem nada desse gnero.

- Bom, disse-me que Benedetto, considerado um fnix de
subtileza, um gigante de astcia, no passa de um vigarista
muito subalterno e simplrio, e absolutamente indigno das
experincias que se faro depois da sua morte com os seus
rgos frenolgicos.

- Ora, ora! - exclamou Beauchamp. - No entanto, desempenhava
muito aceitavelmente o papel de prncipe.

- Para si, Beauchamp, que detesta os pobres prncipes e que
fica encantado quando os apanha em falta; mas para mim, que
farejo instintivamente um gentil-homem e "levanto" uma famlia
aristocrtica, seja ela qual for, como um perdigueiro levanta
a caa.

- Portanto, nunca acreditou no seu principado?

- No seu principado, sim; que ele fosse prncipe, no.

- Bem achado! Garanto-lhe no entanto que para qualquer outra
pessoa podia passar perfeitamente por prncipe... Vi-o em casa
dos ministros.

- Sim, claro - interveio Chteau-Renaud. - Mas atendendo ao
que os ministros percebem de prncipes...

- H muita verdade no que acaba de dizer, Chteau-Renaud -
declarou Beauchamp, desatando a rir. - A frase  curta, mas
agradvel. Peo-lhe licena para a utilizar nos meus artigos.

- Utilize-a, meu caro Sr. Beauchamp, utilize-a - respondeu
Chteau-Renaud. - Dou-lhe a minha frase pelo que ela
vale.

- Mas se eu falei com o juiz - Presidente, voc deve ter
falado com o procurador rgio, no? - perguntou Debray a
Beauchamp.

- Impossvel. H oito dias que o Sr. de Villefort se fecha em
casa, o que  muito natural, atendendo  srie estranha de
desgostos familiares, coroada com a morte misteriosa da
filha...

- A morte misteriosa da filha?... Que quer dizer com isso,
Beauchamp?

- Pois sim, arme em ignorante a pretexto de que o caso se
passou com a nobreza de toga - redarguiu Beauchamp, aplicando
o monculo no olho e obrigando-o a segurar-se sozinho.

- Meu caro senhor - disse Chteau-Renaud --, permita-me que
lhe diga que para usar monculo no possui a prtica de
Debray. Debray, d umas lies ao Sr. Beauchamp.

- Vejam, creio que no me engano... - disse este ltimo.

- Em qu?

-  ela.

- Ela, quem?

- Diziam que partira...

- Mademoiselle Eugnie? - perguntou Chteau-Renaud. - J ter
regressado?

- No, mas sim a me.

- A Sr.a Danglars?

- Impossvel! - exclamou Chteau-Renaud. - Dez dias depois da
fuga da filha e trs dias depois da falncia do marido!

Debray corou ligeiramente e seguiu a direco do olhar de
Beauchamp.

- Ento, ento!... - protestou. -  uma mulher velada, uma
dama desconhecida, alguma princesa estrangeira, talvez a me
do prncipe Cavalcanti... Mas voc dizia, ou antes ia dizer
coisas muito interessantes, parece-me, Beauchamp.

- Eu?

- Sim. Falava da morte misteriosa de Valentine.

- Ah, sim,  verdade! Mas por que motivo no veio a Sr.a de
Villefort?

- Pobre mulher! - disse Debray. - Est sem dvida ocupada a
destilar gua de melissa para os hospitais e a compor
cosmticos para ela e para as  amigas. Como sabem, gasta nessa
brincadeira dois ou trs mil escudos por ano, segundo dizem.
Mas de facto voc tem razo: por que no ter vindo a Sr.a de
Villefort? V-la-ia com muito prazer.  uma mulher de quem
gosto muito.

- Pois eu detesto-a - disse Chteau-Renaud.

- Porqu?

- No sei. Por que se ama? Por que se detesta? Detesto-a por
antipatia.

- Ou por instinto, como sempre.

- Talvez... Mas voltemos ao que dizia, Beauchamp.

- Bom - prosseguiu o interpelado --, no tm curiosidade de
saber, meus senhores, por que motivo se morre to
abundantemente em casa de Villefort?

- Abundantemente  bonito - comentou Chteau-Renaud.

- Meu caro, a palavra encontra-se em Saint-Simon.

- Mas a coisa passa-se em casa do Sr. de Villefort. Voltemos
portanto a ela.

- Confesso - disse Debray - que h trs meses no perco de
vista essa casa, desde que o luto entrou nela, e ainda
anteontem, a propsito de Valentine, a senhora me dizia...

- Qual senhora? - perguntou Chteau-Renaud.

- A mulher do ministro, apre!

- Ah, perdo! - desculpou-se Chteau-Renaud. - No frequento a
casa dos ministros, deixo isso aos prncipes.

- O senhor no e apenas belo, baro,  tambm resplandecente.
Tenha piedade de ns ou ainda acaba por nos queimar, qual
outro Jpiter.

- No direi mais nada - declarou Chteau-Renaud. - Mas que
diabo tenham compaixo de mim, no me dem a deixa.

- Ento, procuremos chegar ao fim do nosso dilogo, Beauchamp.
Dizia-lhe que a senhora me pedia anteontem informaes a tal
respeito. Informe-me e eu inform-la-ei...

- Bom, meus senhores, se se morre to abundantemente (mantenho
a palavra) em casa de Villefort  porque h um assassino l em
casa!

Os dois jovens estremeceram, pois j por mais de uma vez lhes
ocorrera a mesma ideia.

- E quem  o assassino? - perguntaram

- O pequeno douard.

Uma gargalhada dos dois rapazes no perturbou absolutamente
nada o orador, que continuou:

- Sim, meus senhores, o pequeno douard, criana fenomenal,
que mata j como gente grande.

- Est a brincar...

- De modo nenhum. Admiti ontem um criado sado de casa do Sr.
de Villefort. Ouam isto...

- Estamos a ouvir.

- E que vou despedir amanh, porque o indivduo come como uma
frieira para se recompor do jejum de terror que se impunha em
casa do anterior patro. Mas dizia eu... Ah, sim! Parece que o
querido menino deitou a mo a um frasco de qualquer droga, que
utiliza de vez em quando contra aqueles que lhe desagradam.
Primeiro foi o avozinho e a avozinha de Saint-Mran. que lhe
desagradaram, e ele deitou-lhes trs gotas do seu elixir: trs
gotas bastam; depois foi o simptico Barrois, velho criado do
avozinho Noirtier, que de vez em
quando tratava com rispidez o amvel magano. Vai dai, o
amvel magano deitou-lhe trs gotas do seu elixir. O mesmo
aconteceu  pobre Valentine, que no o tratava com maus modos,
mas de quem ele tinha cimes: deitou-lhe tambm trs gotas do
seu elixir, e tanto para ela como para os outros tudo acabou.

- Mas que diabo de histria  essa? - insurgiu-se
Chteau-Renaud.

- Sim, uma histria do outro mundo, no  verdade? - observou
Beauchamp.

- Isso  absurdo - declarou Debray.

- Pronto, l esto vocs a procurar j meios dilatrios! Que
diabo, perguntem ao meu criado, ou antes quele que amanh j
no ser meu criado: era o que se dizia l em casa.

- Mas esse elixir, onde est? Qual ?

- Com a breca, o garoto esconde-o!

- E onde o arranjou?

- No laboratrio da senhora sua me.

- A me tem portanto venenos no seu laboratrio?

- Sei l! Vocs fazem-me perguntas de procurador rgio. Eu
repito o que me disseram e mais nada. Cito-lhes o meu autor: 
tudo quanto posso fazer. O pobre-diabo j no comia de susto!

-  incrvel!

- Mas no, meu caro, no tem nada de incrvel! No viram, o
ano passado, aquele garoto da Rua de Richelieu que se
entretinha a matar os irmos e as irms espetando-lhes um
alfinete no ouvido enquanto dormiam? A gerao que nos segue 
muito precoce, meu caro.

- Meu amigo, aposto que no acredita numa nica palavra do que
acaba de nos contar... - disse Chteau-Renaud. - Mas no vejo
o conde de Monte-Cristo... Como  que no est c?

- Est muito chocado - informou Debray. - Alis, no querer
aparecer diante de toda a sociedade depois de ser enganado
pelos Cavalcanti, que, ao que parece, se lhe apresentaram com
falsas cartas de recomendao. Resultado: ficou com uma
hipoteca de uma centena de milhar de francos sobre o
principado...

- A propsito, Sr. de Chteau-Renaud, como est Morrel? -
perguntou Beauchamp.

- Procurei-o por trs vezes em sua casa e no o encontrei -
respondeu o gentil-homem. - Mas a irm no me pareceu nada
preocupada e at me disse com um ar muito descontrado que
tambm o no via h dois ou trs dias, mas que estava certa de
que se encontrava bem.

- Ah, j descobri! O conde de Monte-Cristo no pode estar na
sala - disse Beauchamp.

- Porqu?

- Porque  actor no drama.

- Tambm assassinou algum? - perguntou Debray.

- Claro que no. Pelo contrrio, foi a ele que quiseram
assassinar. Bem sabe que foi ao sair de casa dele que o bom
Sr. Caderousse foi assassinado pelo seu amiguinho Benedetto.
Tambm sabe que foi em casa dele que encontraram o famoso
colete em que estava a carta que estragou a assinatura do
contrato. Est a ver o colete? Est ali, todo ensanguentado,
em cima da secretria, como prova de acusao.

- Muito bem!

- Caluda, meus senhores! Vem a o tribunal. Vamos para os
nossos lugares!

De facto, ouviu-se um grande barulho no pretrio; o polcia
chamou os seus dois protegidos com um "pst!" enrgico e o
oficial de diligncias apareceu  entrada da sala de
deliberaes e gritou com a voz esganiada que os oficiais de
diligncias j tinham no tempo de Beaumarchais:

- O tribunal, meus senhores!


Captulo CX

O libelo acusatrio


Os juzes sentaram-se no meio do mais profundo silncio; os
jurados ocuparam os seus lugares: o Sr. de Villefort, alvo da
ateno, e diremos quase da admirao geral, sentou-se de
cabea coberta na sua poltrona e passeou um olhar tranquilo 
sua volta.

Todos olhavam com admirao aquela figura grave e severa,
sobre cuja impassibilidade os sofrimentos paternais pareciam
no ter qualquer influncia, e tambm observavam com uma
espcie de terror aquele homem estranho s emoes da
humanidade.

- Gendarmes, tragam o ru! - ordenou o presidente.

Aps estas palavras, a ateno do pblico redobrou e todos os
olhares se fixaram na porta por onde Benedetto devia entrar.

Em breve essa porta se abriu e o ru apareceu.

A impresso que causou foi a mesma em toda a gente e ningum
se enganou com a expresso da sua fisionomia.

O seu rosto no apresentava sinais dessa emoo profunda que
faz refluir o sangue ao corao e descora a testa e as faces.
As suas mos, graciosamente pousadas, uma em cima do chapu e
a outra na abertura do colete de piqu branco, no eram
agitadas por nenhuma tremura; os seus olhos estavam calmos e
at brilhantes. Assim que entrou na sala, o olhar do rapaz
comeou a percorrer todas as filas dos juzes e da
assistncia, e demorou-se mais longamente no presidente e
sobretudo no procurador rgio.

Ao p de Andrea sentou-se o seu advogado, advogado oficioso
porque Andrea no quisera ocupar-se de tais pormenores, aos
quais parecera no ligar nenhuma importncia, um homem novo,
de cabelo louro-deslavado e cara avermelhada por uma emoo
cem vezes mais notria do que a do ru.

O presidente pediu a leitura do libelo acusatrio, redigido,
como sabemos, pela pena to hbil como implacvel de
Villefort.

Durante a leitura, que foi longa e que para qualquer outro
seria acabrunhante, a ateno pblica no cessou de incidir
sobre Andrea, que lhe suportou o peso com a grandeza de alma
de um espartano.

Talvez Villefort nunca tivesse sido to conciso nem to
eloquente. O crime era apresentado sob as cores mais vivas; os
antecedentes do ru, a sua transfigurao, a filiao dos seus
actos desde uma idade bastante tenra, eram  deduzidos com o
talento que a prtica da vida e o conhecimento do corao
humano podiam fornecer a um esprito to elevado como o do
procurador rgio.

S com aquele prembulo, Benedetto estava para sempre perdido
no conceito da opinio pblica, que esperava v-lo punido mais
materialmente pela lei.

Andrea no prestou a mais pequena ateno s acusaes que
sucessivamente se erguiam e desabavam sobre ele. O Sr. de
Villefort, que o observava com frequncia e que sem dvida
continuava nele os estudos psicolgicos que tantas vezes
tivera ensejo de fazer nos acusados, o Sr. de Villefort no
conseguiu uma s vez obrig-lo a baixar os olhos, fosse qual
fosse a fixidez e a profundidade do seu olhar.

Por fim a leitura terminou.

- Levante-se o ru! Como se chama? - perguntou o presidente.

Andrea levantou-se.

- Perdoe-me, Sr. Presidente - disse numa voz cujo timbre
vibrava perfeitamente puro --, mas vejo que vai adoptar uma
ordem de perguntas em que o no posso seguir. Pretendo
justificar mais tarde ser uma excepo aos rus vulgares.
Peo-lhe portanto se digne permitir-me responder seguindo uma
ordem diferente ou no responderei a nenhuma pergunta.

O presidente, surpreendido, olhou para os jurados, que olharam
para o procurador rgio.

Uma grande surpresa manifestou-se em toda a assembleia, mas
Andrea no pareceu nada impressionado com isso.

- A sua idade?-continuou o presidente.-Responde a esta
pergunta?

- A essa pergunta, como s outras, responderei, Sr.
Presidente, mas na sua vez.

- A sua idade? - repetiu o magistrado.

- Tenho vinte e um anos, ou antes l-los-ei apenas daqui a uns
dias, pois nasci na noite de 27 para 28 de Setembro de 1817.

O Sr. de Villefort, que estava a tomar um apontamento,
levantou a cabea ao ouvir esta data.

- Onde nasceu? - continuou o presidente.

- Em Auteuil, perto de Paris - respondeu Benedetto.

O Sr. de Villefort levantou segunda vez a cabea, olhou para
Benedetto como se olhasse para a cabea de Medusa e
enlivideceu.

Quanto a Benedetto, passou graciosamente pelos lbios a ponta
bordada de um leno de cambraia fina.

- A sua profisso? - perguntou o presidente.

- Primeiro fui falsrio - respondeu Andrea com a maior
tranquilidade do mundo --, em seguida fui ladro e muito
recentemente tornei-me assassino.

Um murmrio, ou antes uma tempestade de indignao e surpresa
ergueu-se em todos os pontos da sala. Os prprios juzes se
entreolharam estupefactos e os jurados manifestaram a maior
repugnncia por aquele cinismo, to pouco esperado num homem
elegante.

O Sr. de Villefort ps a mo na testa, que de plida se
tornara vermelha e fervilhante. De sbito levantou-se e olhou
 sua volta como um homem alucinado. Faltava-lhe o ar.

- Procura alguma coisa, Sr. Procurador Rgio? -- perguntou
Benedetto com o seu mais obsequioso sorriso.

O Sr. de Villefort no respondeu e recomps-se, ou antes
voltou a deixar-se cair na sua poltrona.

- Ser agora que estar disposto a dizer o seu nome? -
perguntou o presidente ao ru. - A afectao brutal com que
enumerou os seus vrios crimes, que qualificou de confisso, e
a espcie de ponto de honra que lhe atribui, coisa por que, em
nome da moral e do respeito devido  humanidade, o tribunal o
deve repreender severamente, so talvez o motivo que o levaram
a no dizer imediatamente o seu nome; quis salientar esse nome
com os ttulos que o precedem.

-  incrvel, Sr. Presidente - redarguiu Benedetto, no tom de
vez mais gracioso e com as maneiras mais delicadas --, como
leu no fundo do meu pensamento. Foi com efeito com esse fim
que lhe pedi que invertesse a ordem das perguntas.

O espanto atingira o cmulo, j no havia nas palavras do ru
nem bravata, nem cinismo. Impressionado, o auditrio
pressentia qualquer raio fulminante no fundo daquela nuvem
sombria.

- Pois bem, o seu nome? - perguntou o presidente.

- No lhe posso dizer o meu nome porque o no sei; mas sei o
do meu pai e esse posso dizer-lho.

Um deslumbramento doloroso cegou Villefort; viram-se cair-lhe
das faces gotas de suor cidas e rpidas em cima dos papis
que revolvia com mo convulsa e desorientada.

- Diga ento o nome do seu pai - prosseguiu o presidente.

Nem uma aragem. nem um sopro, perturbavam o silncio da imensa
assembleia; toda a gente esperava.

- O meu pai  procurador rgio - respondeu tranquilamente
Andrea.

- Procurador rgio?! - exclamou com estupefaco o presidente,
sem notar a transformao que se operava na cara de Villefort.
- Procurador rgio?!

- Sim, e uma vez que deseja saber o seu nome, vou dizer-lho:
chama-se Villefort!

A exploso to longamente contida pelo respeito que em
audincia se dispensa  justia brotou como um trovo do fundo
de todos os peitos; o prprio tribunal no pensou em reprimir
aquele movimento da multido. As interjeies e as injrias
dirigidas a Benedetto, que permanecia impassvel, os gestos
enrgicos, a agitao dos gendarmes e o riso escarninho da
parte lodosa que em todas as assembleias sobe  superfcie nos
momentos de perturbao e escndalo, tudo isso durou cinco
minutos antes que os magistrados e os oficiais de diligncias
conseguissem restabelecer o silncio.

No meio de todo aquele barulho ouvia-se a voz do presidente,
que gritava:

- O ru zomba da justia e ousa dar aos seus concidados o
espectculo de uma corrupo que, numa poca que no entanto
no deixa nada a desejar a tal respeito, ainda no teve igual!

Dez pessoas afadigavam-se junto do Sr. Procurador Rgio,
semi-esmagado na sua poltrona, e enchiam-no de palavras de
conforto e encorajamento e de protestos de zelo e simpatia.

A calma restabelecera-se na sala, exceptuando num ponto onde
um grupo bastante numeroso se agitava e cochichava.

Dizia-se que uma mulher acabava de desmaiar; tinham-na feito
respirar sais e voltara a si.

Durante o tumulto, Andrea virara-se sorridente para o pblico.
Por fim, colocara uma das mos na balaustrada de carvalho do
seu lugar, numa atitude deveras graciosa, e dissera:

- Meus senhores, Deus no permitiria que me atrevesse a
insultar o tribunal e a armar na presena do respeitvel
pblico um escndalo intil. Perguntaram me que idade tinha e
eu disse-o; perguntaram-me onde nasci e eu respondi;
perguntaram-me o meu nome e eu no o posso dizer, porque os
meus pais abandonaram-me. Mas posso, sem dizer o meu nome,
porque o no sei, dizer o do meu pai. Ora, repito, o meu pai 
o Sr. de Villefort e estou pronto a prov-lo.

Havia no tom do jovem uma certeza, uma convico, uma energia,
que reduziram o tumulto ao silncio. Os olhares dirigiram-se
por um momento para o procurador rgio, que conservava no seu
lugar a imobilidade de um homem que o raio acabasse de
transformar em cadver.

- Meus senhores - continuou Andrea, impondo silncio com o
gesto e com a voz --, devo-lhes a prova e a explicao das
minhas palavras.

- Mas - gritou o presidente, irritado - o ru declarou na
instruo chamar-se Benedetto, disse ser rfo e deu a Crsega
como sua ptria!

- Disse na instruo o que me conveio dizer na instruo, pois
no queria que diminussem ou impedissem, o que no
deixaria de acontecer, a repercusso solene que pretendia dar
s minhas palavras. Agora repito-lhes que nasci em Auteuil na
noite de 27 para 28 de Setembro de 1817 e que sou filho do Sr.
Procurador Rgio Villefort. Querem pormenores? Vou dar-mos.

"Nasci no primeiro andar da casa nmero 28 da Rua da Fontaine,
num quarto forrado de damasco vermelho. O meu pai tomou-me nos
braos dizendo  minha me que eu estava morto, enrolou-me
numa toalha marcada com um H e um N e levou-me para o jardim,
onde me enterrou vivo.

Um arrepio percorreu todos os presentes quando viram que a
segurana do ru crescia a par do pnico do Sr. de Villefort.

- Mas como sabe o ru todos esses pormenores? - perguntou o
presidente.

- Vou dizer-lho, Sr. Presidente. No jardim onde o meu pai
acabava de me enterrar introduzira-se naquela mesma noite um
homem que o odiava mortalmente e que o perseguia havia muito
tempo para se vingar nele  maneira corsa. O homem eslava
escondido num macio, viu o meu pai enterrar qualquer coisa e
apunhalou-o no meio dessa operao.
Depois, julgando que o que fora enterrado fosse algum tesouro,
abriu a cova e encontrou-me ainda vivo. Esse homem levou-me
para o Albergue das Crianas Abandonadas, onde me inscreveram
sob o nmero 57. Trs meses depois a irm do meu salvador veio
de Rogliano a Paris procurar-me, reclamou-me como seu filho e
levou-me. Aqui est como, apesar de nascido em Auteuil, fui
criado na Crsega.

Houve um instante de silncio, mas de um silncio to profundo
que, sem a ansiedade que pareciam respirar mil peitos,
julgar-se-ia a sala vazia.

- Continue - disse a voz do presidente.

- Claro - prosseguiu Benedetto - que poderia ter sido feliz em
casa dessa boa gente, que me adorava. Mas a minha natural
perversidade levou a melhor  sobre todas as virtudes que a
minha me adoptiva tentou incutir-me. Cresci no mal e cheguei
ao crime. Por fim, num dia em que amaldioava Deus por me ter
feito to mau e ter-me dado destino to horrvel, o meu pai
adoptivo disse-me: "No blasfemes, desgraado, pois Deus
deu-te a vida sem clera! O crime vem do teu pai e no de ti;
do teu pai que te votou ao Inferno, se morresses, e  misria,
se um milagre te restitusse  vida!" Desde ento deixei de
blasfemar contra Deus a amaldioei o meu pai. Por isso proferi
aqui as palavras que me censurou, Sr. Presidente; por isso
causei o escndalo que ainda faz tremer esta assembleia. Se se
trata de mais um crime, punam-me por ele; mas se esto
convencidos, se consegui convenc-los de que desde o dia do
meu nascimento o meu destino era fatal, doloroso, amargo,
lamentvel, compadeam ,e de mim!

- Mas a sua me? - perguntou o presidente.

- A minha me julgava-me morto; a minha me no  de modo
algum culpada. No procurei saber o nome da minha me; no a
conheo.

Neste momento soou um grito agudo, que terminou num soluo, no
meio do grupo que rodeava, como j dissemos, uma mulher.

Essa mulher teve um violento ataque de nervos e foi levada do
pretrio. Enquanto a levavam, o vu espesso que lhe cobria o
rosto afastou-se e reconheceu-se a Sr.a Danglars.

Apesar do acabrunhamento, dos seus sentidos embotados e do
zumbido que lhe vibrava aos ouvidos; apesar da espcie de
loucura que lhe perturbava o crebro, Villefort reconheceu-a e
levantou-se.

- As provas! As provas! - exigiu o presidente. - Lembre-se o
ru de que essa teia de horrores precisa de ser comprovada por
provas esmagadoras.

- As provas? - redarguiu Benedetto, rindo. - Quer provas?...

- Quero.

- Ento olhe para o Sr. de Villefort e depois diga-me se ainda
quer que lhe d provas.

Todos se voltaram para o procurador rgio, que, sob o peso de
mil olhares cravados em si, avanou para o recinto do
tribunal, cambaleante, com o cabelo em desordem e o rosto
congestionado devido  presso das unhas.

A assistncia em peso soltou um longo murmrio de espanto.

- Pedem-me provas, meu pai - disse Benedetto. - Quer que lhas
d?

- No, no - balbuciou o Sr. de Villefort em voz estrangulada.
- No,  intil.

- Como, intil?! - exclamou o presidente. - Que quer dizer?

- Quero dizer - redarguiu o procurador rgio - que me debato
em vo sob a presso mortal que me esmaga, senhores; estou,
reconheo-o, na mo do Deus vingador.
Nada de provas; no so necessrias. Tudo o que este rapaz
acaba de dizer  verdade!

Um silncio sombrio e pesado como o que precede as catstrofes
da natureza envolveu no seu manto de chumbo todos os
presentes, cujos cabelos se lhes punham em p na cabea.

- O qu, Sr. de Villefort - gritou o presidente --, no estar
a ser vtima de uma alucinao?! Tem a certeza de que se
encontra na plenitude das suas faculdades? Concebe-se que uma
acusao to estranha, to imprevista, to terrvel, lhe tenha
perturbado o esprito... Vamos, domine-se!

O procurador rgio abanou a cabea. Os seus dentes
entrechocavam-se com violncia, como os de um homem devorado
pela febre, e no entanto estava de uma palidez mortal.

- Estou no gozo de todas as minhas faculdades, senhor -
respondeu. - S o corpo sofre, o que se compreende.
Reconheo-me culpado de tudo o que este rapaz acaba de dizer
contra mim e coloco-me desde j ao dispor, em minha casa, do
Sr. Procurador Rgio meu sucessor.

E depois de pronunciar estas palavras em voz surda e quase
abafada, o Sr. de Villefort dirigiu-se vacilante para a porta,
que o oficial de diligncia de servio lhe abriu num gesto
maquinal.

Toda a assistncia ficou muda e consternada com revelao e a
confisso que davam um desenlace to terrvel s vrias
peripcias que havia quinze dias agitavam a alta sociedade
parisiense.

- Que me venham dizer agora que o drama no existe na vida
real! - exclamou Beauchamp.

- Palavra de honra que preferiria acabar como o Sr. de Morcerf
- disse Chteau-Renaud. - Um tiro de pistola parece uma
ninharia comparado com semelhante catstrofe.

- Mas mata - observou Beauchamp.

- E eu que me passou pela cabea casar com a filha! - declarou
Debray. - Fez muito bem em morrer, meu Deus. Pobre criana!

- A audincia est levantada, meus senhores - disse o
presidente --, e o julgamento adiado para a prxima sesso. O
processo deve ser instrudo de novo e confiado a outro
magistrado.

Quanto a Andrea, sempre muito tranquilo e ainda mais
interessante, saiu da sala escoltado pelos gendarmes, que
involuntariamente o tratavam com deferncia.

- Ento, que me diz a isto, meu bom homem? - perguntou Debray
ao polcia, metendo-lhe um lus na mo.

- Deve haver circunstncias atenuantes - respondeu o guarda.


Captulo CIX

Expiao


O Sr. de Villefort vira abrirem-se diante de si as fileiras da
multido, por mais compacta que esta fosse. As grandes dores
so de tal respeitveis que no h exemplo, mesmo nos tempos
mais calamitosos, de a primeira reaco de uma multido no
ter sido de simpatia perante uma grande catstrofe. Muitas
pessoas odiadas tm sido assassinadas no meio de motins;
raramente um desventurado, ainda que criminoso, foi insultado
pelos homens que assistiam  sua condenao  morte.

Villefort atravessou portanto as alas de espectadores, guardas
e funcionrios do Palcio da Justia, e retirou-se,
reconhecido culpado por via da sua prpria confisso, mas
protegido pela sua dor.

H situaes de que os homens tm instintivamente conscincia,
mas que no podem comentar com a inteligncia; o maior poeta,
neste caso,  aquele que solta o grito mais veemente e
natural. A multido toma esse grito como se fosse um relato
completo, e tem razo em contentar-se com ele, e mais razo
ainda em o achar sublime quando  verdadeiro.

De resto, seria difcil dizer em que estado de alheamento se
encontrava Villefort ao sair do Palcio da Justia, descrever
a febre que lhe fazia pulsar cada artria, lhe retesava cada
fibra, lhe intumescia, a ponto de quase a rebentar, cada veia
e lhe dissecava cada ponto do corpo mortal em milhes de
sofrimentos.

Villefort arrastou-se ao longo dos corredores guiado apenas
pelo hbito. Arrancou dos ombros a toga magistral, no por ver
convenincia em tir-la, mas sim porque lhe pesava como um
fardo esmagador, porque era uma tnica de Nesso, frtil em
torturas.

Chegou cambaleante ao Ptio Dauphine, viu a sua carruagem,
acordou o cocheiro ao abrir pessoalmente a portinhola,
deixou-se cair nas almofadas e indicou com o dedo a direco
do Arrabalde dc Saint-Honor. O cocheiro partiu.

Todo o peso do seu xito em runas acabava de lhe desabar em
cima da cabea; esse peso esmagava-o, e ignorava com que
consequncias. No as calculara; sentia-as, mas no
interpretava o seu cdigo como o  rio assassino que comenta
um artigo conhecido.

Tinha Deus no fundo do corao.

- Deus! - murmurava sem saber sequer o que dizia. -  Deus!
Deus!

S via Deus atrs da derrocada que acabava de se verificar.

A carruagem rodava velozmente. Sacudido nas almofadas,
Villefort sentiu qualquer coisa mago-lo.

Levou a mo ao objecto: era um leque esquecido pela Sr.a de
Villefort entre o assento e o encosto da carruagem O leque
lembrou-lhe uma coisa, e essa lembrana foi como que um
relmpago no meio da noite.

Villefort lembrou-se da mulher...

- Oh! - gritou, como se um ferro em brasa lhe atravessasse o
corao.

Com efeito, havia uma hora que s tinha diante dos olhos um
aspecto da sua misria, mas eis que de repente se lhe
apresentava outra ao esprito, e uma outra no menos terrvel.

Armara em juiz inexorvel com a mulher e condenara-a  morte;
e ela, cheia de terror, consumida pelos remorsos, mergulhada
na infmia que ele lhe fizera sentir com a eloquncia da sua
impecvel virtude; ela, pobre mulher fraca e indefesa contra
um poder absoluto e supremo, preparava-se talvez naquele
momento para morrer!

Decorrera uma hora desde a sua condenao. Sem dvida, naquele
momento a mulher repassava na memria todos os seus crimes,
pedia perdo a Deus, escrevia uma carta a implorar de joelhos
o perdo do seu virtuoso marido, perdo que comprava com a sua
morte...

Villefort soltou um novo grito de dor e de raiva.

- Oh, aquela mulher s se tornou criminosa porque casou
comigo! - exclamou, agitando-se no cetim da carruagem. -
Resumo crime e ela apanhou o crime como se apanha o tifo, como
se apanha a clera, como se apanha a peste!... E eu
castiguei-a!... Ousei dizer-lhe: "Arrepende-te e morre..." Eu!
Oh, no, no! Ela viver... seguir-me-... Vamos fugir, deixar
a Frana, seguir em frente at  onde a Terra nos possa levar.
Falei-lhe de cadafalso!... Grande Deus, como ousei pronunciar
tal palavra? Mas o cadafalso tambm me espera a mim!...
Fugiremos... Sim, confessar-me-ei a ela! Sim, dir-lhe-ei todos
os dias, humilhando-me, que tambm cometi um crime... Oh, a
aliana do tigre com a serpente! Oh, digna mulher de um marido
como eu!...  necessrio que ela viva, que a minha infmia
empalidea a sua!

E Villefort partiu, em vez de descer o vidro da frente do
cup.

- Depressa, mais depressa! - gritou numa voz que fez saltar o
cocheiro no assento.

Levados pelo medo, os cavalos voaram at casa.

- Sim, sim - repetia Villefort  medida que se aproximava de
casa --,  necessrio que essa mulher viva, que se arrependa,
que crie o meu filho, o meu pobre filho, o nico, juntamente
com o indestrutvel velho, que sobreviveu  destruio da
famlia! Ela ama-o; foi por ele que fez tudo.
Nunca se deve desesperar do corao de uma me que ama o
filho. Arrepender-se-, ningum saber que  culpada. Os
crimes cometidos em minha casa e de que a sociedade j murmura
depressa sero esquecidos com o tempo. E se algum inimigo se
lembrar deles... bom, inclu-lo-ei na minha lista de crimes.
Um, dois ou trs crimes mais que importa! A minha mulher
salvar-se- e fugir com o ouro, e sobretudo com o filho, para
longe do abismo em que me parece que o mundo vai cair comigo.
Viver e ser ainda feliz, pois  todo o seu
amor  para o filho e o filho no a deixar. Praticarei uma
boa aco e isso conforta o corao.

E o procurador rgio respirou mais livremente do que respirava
havia muito tempo.

A carruagem parou no ptio do palcio.

Villefort saltou do estribo para a escadaria; viu os criados
surpreendidos por o verem regressar to cedo. No leu mais
nada nas suas fisionomias. Ningum lhe dirigiu a palavra;
pararam apenas diante dele, como de costume, para o deixarem
passar, e mais nada.

Passou diante do quarto de Noirtier e distinguiu atravs da
porta entreaberta como que duas sombras, mas no quis saber
quem era a pessoa que estava com o pai; era para outro lado
que as suas preocupaes o puxavam.

- Vamos - disse, subindo a escadinha que conduzia ao patamar
onde ficavam os aposentos da mulher e o quarto vazio de
Valentine. - Nada mudou aqui...

Antes de mais nada fechou a porta do patamar.

- No quero que ningum nos incomode - disse. - Quero falar 
vontade, acusar-me diante dela, dizer-lhe tudo...

Aproximou-se da porta e deitou a mo  maaneta de cristal; a
porta cedeu.

- No est fechada! Bem... muito bem - murmurou.

E entrou na salinha onde  noite armavam uma cama para
douard, pois, apesar de interno, douard vinha ficar a casa
todas as noites, a me nunca quisera separar-se dele.

Abarcou num relance de olhos toda a salinha.

- Ningum - disse. - Est no quarto, sem dvida...

E correu para a porta. Mas ali o fecho estava corrido. Parou a
tremer.

- Hlose! - gritou.

Pareceu-lhe ouvir arrastar um mvel.

- Hlose! - repetiu.

- Quem ? - perguntou a voz da mulher.

Pareceu-lhe que a voz era mais fraca do que de costume.

- Abra! Abra! - gritou Villefort. - Sou eu!

Mas, apesar desta ordem, apesar do tom angustioso com que era
dada, no abriram.

Villefort arrombou a porta com um pontap.

A Sr.a de Villefort estava de p  entrada da sala que dava
para o seu boudoir, plida, com as feies contradas e com
uma fixidez assustadora nos olhos.

- Hlose! Hlose! - gritou o marido. - Que tem? Fale!
A jovem senhora estendeu-lhe a mo hirta e lvida.

- Est feito, senhor - disse num arquejo que pareceu
dilacerar-lhe a garganta. - Que mais quer?

E caiu redonda no tapete.

Villefort correu para ela e pegou-lhe na mo. A mo apertava
convulsivamente um frasco de cristal com rolha de ouro.

A Sr.a de Villefort estava morta.

brio de horror, Villefort recuou at  entrada da sala e
olhou o cadver.

- Meu filho! - gritou de sbito. - Onde est o meu filho?
douard! douard!

E precipitou-se para fora dos aposentos da mulher, gritando:

- douard! douard!

Pronunciava este nome com tal acento de angstia que os
criados acorreram.

- O meu filho! Onde est o meu filho? - perguntou Villefort. -
Afastem-no de casa; que no veja...

- O Sr. douard no est c em baixo, senhor - respondeu o
criado de quarto.

- Deve estar a brincar no jardim Vo ver! Vo ver!

-- No, senhor. A senhora chamou o filho h cerca de meia
hora; o Sr. douard entrou nos aposentos da senhora e no
voltou a descer.

Um suor gelado inundou a testa de Villefort, que escorregou no
pavimento, e as ideias comearam a girar-lhe na cabea como as
engrenagens desordenadas de um relgio partido.

- Nos aposentos da senhora! - murmurou. - Nos aposentos da
senhora!...

E voltou lentamente para trs, limpando a testa com uma das
mos apoiando-se com a outra nas paredes.

Quando entrou na sala teve de tornar a ver o corpo da pobre
mulher.

Para chamar douard teria de acordar os ecos daquela sala
transformada em tmulo; falar era violar o silncio da tumba.

Villefort sentiu a lngua paralisada na boca.

- douard, douard... - balbuciou.

O garoto no respondeu. Onde estaria o pequeno, que, no dizer
dos criados, entrara nos aposentos da me e no sara?

Villefort deu um passo em frente.

O cadver da Sr.a de Villefort estava cado atravessado na
porta do boudoir em que inevitavelmente se devia encontrar
douard. Aquele cadver parecia velar no limiar com os olhos
fixos e abertos e uma horrvel e misteriosa ironia nos lbios.


Atrs do cadver, o reposteiro levantado deixava ver parte do
boudoir, um piano vertical e a ponta de um sof de cetim azul.

Villefort deu trs ou quatro passos em frente e viu o filho
deitado no canap.

O garoto dormia, sem dvida.

O desgraado teve um mpeto de alegria indizvel: um raio de
pura luz descia ao inferno em que se debatia.

Era apenas necessrio passar por cima do cadver, entrar no
boudoir, tomar o pequeno nos braos e fugir com ele para
longe, para muito longe.

Villefort j no era o homem que, devido a uma requintada
corrupo, conserva o tipo de homem civilizado; era um tigre
ferido de morte que ficou com os dentes quebrados no ltimo
ferimento.

J no tinha medo dos preconceitos, mas tinha-o dos fantasmas.
Tomou impulso e saltou por cima do cadver como se se tratasse
de transpor um braseiro devorador.

Tomou o filho nos braos, apertou-o, sacudiu-o, chamou-o; o
pequeno no respondeu. Colou os lbios vidos s faces de
douard, mas elas estavam lvidas e geladas. Apalpou-lhe os
membros hirtos. Ps-lhe a mo no corao, mas este j no
batia.

O garoto estava morto.

Um papel dobrado em quatro caiu do peito de douard.

Fulminado, Villefort deixou-se cair de joelhos; o pequeno
escapou-lhe dos braos inertes e rolou para o lado da me.

Villefort apanhou o papel, reconheceu a letra da mulher e
percorreu-o avidamente.

Eis o que dizia:

Como sabe, era boa me, pois foi pelo meu filho que me tornei
criminosa. Uma boa me no parte sem o filho!

Villefort no podia acreditar nos seus olhos; Villefort no
podia acreditar na sua razo. Arrastou-se para o corpo de
douard, que examinou mais uma vez com a ateno minuciosa com
que a leoa olha o seu leozinho morto.

Depois escapou-lhe do peito um grito dilacerante.

- Deus! - murmurou. - Sempre Deus!...

Aquelas duas vtimas apavoravam-no e sentia apoderar-se de si
o horror daquela solido povoada por dois cadveres.

Pouco antes amparava-o a raiva, essa imensa faculdade dos
homens fortes, e o desespero, essa virtude suprema da agonia,
que impelia os Tits a escalar o cu e Ajax a mostrar o punho
aos deuses.

Villefort curvou a cabea sob o peso da dor, levantou-se,
sacudiu os cabelos hmidos de suor e eriados de terror, e
ele, que nunca tivera piedade de ningum, foi procurar o velho
pai para ter, na sua fraqueza, algum com quem desabafar a sua
desgraa, algum junto de quem chorar.

Desceu a escada que conhecemos e entrou nos aposentos de
Noirtier.

Quando Villefort entrou, Noirtier parecia escutar com ateno
e to afectuosamente quanto lho permitia a sua imobilidade o
abade Busoni, sempre to calmo e frio como de costume.

Ao ver o abade, Villefort levou a mo  testa. O passado
acudiu-lhe  memria, como uma dessas vagas cujo furor levanta
mais espuma do que as outras.

Recordou-se da visita que fizera ao abade dois dias depois do
jantar de Auteuil e da visita que lhe fizera o prprio abade
no dia da morte de Valentine.

- O senhor aqui? - observou. - Ento s aparece para escoltar
a morte?...

Busoni levantou-se. Ao ver a alterao do rosto do magistrado,
o brilho feroz dos seus olhos, compreendeu ou julgou
compreender que a cena do tribunal se verificara; ignorava o
resto.

- Estive uma vez aqui para rezar perante o corpo da sua filha
- respondeu Busoni.

- E hoje, que veio c fazer?

- Vim dizer-lhe que j me pagou suficientemente a sua dvida e
que a partir deste momento vou rezar a Deus para que se d por
satisfeito, tal como eu me dou.

- Meu Deus! - exclamou Villefort, recuando com o pnico nos
olhos. - Essa voz... no  a do abade Busoni!

- Pois no.

O abade arrancou a sua falsa tonsura, sacudiu a cabea, e os
seus longos cabelos negros, deixando de estar comprimidos,
caram-lhe sobre os ombros e emolduraram-lhe o rosto msculo.

-  a cara do Sr. de Monte-Cristo! - gritou Villefort, com os
olhos esgazeados.

- Ainda no  essa, Sr. Procurador Rgio; procure melhor e
mais longe.

- Essa voz... essa voz!... Onde a ouvi pela primeira vez?

- Ouviu-a pela primeira vez em Marselha, h vinte e trs anos,
no dia do seu casamento com Mademoiselle de Saint-Mran.
Procure nos seus arquivos.

- No  Busoni... No  Monte-Cristo... Meu Deus,  o inimigo
oculto, implacvel, mortal! Fiz qualquer coisa contra si em
Marselha... Oh, como sou infeliz!

- Sim, tem razo,  isso - redarguiu o conde, cruzando os
braos no peito amplo. - Procure, procure!

- Mas que lhe fiz eu?! - gritou Villefort, cujo esprito
pairava j no limite em que se confundem a razo e a demncia,
nessa neblina que j no  sonho, mas ainda no  despertar. -
Que lhe fiz eu? Diga! Fale!

- Condenou-me a uma morte lenta e medonha, matou o meu pai e
roubou-me o amor com a liberdade e a fortuna com o amor!

- Quem  o senhor? Quem  o senhor? Meu Deus!...

- Sou o fantasma do desventurado que o senhor sepultou nas
masmorras do castelo de If. Esse fantasma, que conseguiu sair
por fim da sua tumba, recebeu de Deus a mscara do conde de
Monte-Cristo, e por Deus foi coberto de diamantes e ouro para
que o senhor s hoje o reconhecesse.

- Ah, j te reconheo, j te reconheo! - exclamou o
procurador rgio. - Tu s...

- Edmond Dants!

- Tu s Edmond Dants! - gritou o procurador rgio, agarrando
o conde pelo pulso. - Ento, vem!

E arrastou-o pela escada, na qual Monte-Cristo o seguiu,
atnito, ignorando aonde o procurador rgio o levava e
pressentindo alguma nova catstrofe.

- V! V, Edmond Dants! - disse, mostrando ao conde o cadver
da mulher e o corpo do filho. - V! Achas que ests bem
vingado?

Monte-Cristo empalideceu perante o horrvel espectculo.
Compreendeu que acabava de ultrapassar os direitos da
vingana; compreendeu que j no podia dizer: "Deus  por mim
e est comigo."

Lanou-se com um sentimento de angstia inexprimvel sobre o
corpo do garoto, abriu-lhe os olhos, apalpou-lhe o pulso e
correu com ele para o quarto de Valentine, que fechou 
chave...

- O meu filho! - gritou Villefort. - Leva o cadver do meu
filho! Oh, maldio, maldio, que a morte caia sobre ti!

Quis correr atrs de Monte-Cristo; mas como num sonho, sentiu
os ps criarem razes, os olhos dilatarem-se-lhe a ponto de
quase lhe saltarem das rbitas, e os seus dedos recurvados no
peito cravaram-se gradualmente na carne at o sangue lhe
avermelhar as unhas. Por fim, as veias das tmporas
encheram-se-lhe de espritos irrequietos, que lhe levantaram a
abbada muito estreita do crnio e lhe mergulharam o crebro
num dilvio de fogo.

Aquela imobilidade durou vrios minutos, at se concluir a
horrvel subverso da razo.

Ento, soltou um grande grito, seguido de uma longa
gargalhada, e precipitou-se para a escada.

Um quarto de hora depois o quarto de Valentine voltou a
abrir-se e o conde de Monte-Cristo reapareceu.

Plido, com os olhos tristes e o peito opresso, todas as
feies daquele rosto habitualmente to calmo e to nobre
estavam transtornadas pela dor.

Trazia nos braos o garoto, ao qual nenhum socorro pudera
restituir a vida.

Ps um joelho no cho e depositou-o religiosamente ao p da
me, com a cabea pousada no peito dela.

Depois levantou-se, saiu e perguntou a um criado que encontrou
na escada:

- Onde est o Sr. de Villefort?

Sem responder, o criado apontou para o lado do jardim.
Monte-Cristo desceu a escadaria, encaminhou-se para o stio
indicado e viu, no meio dos criados que formavam crculo 
volta dele, Villefort, de enxada na mo a revolver a terra com
uma espcie de raiva.

- Ainda no  aqui - dizia. - Ainda no  aqui...

E cavava mais longe.

Monte-Cristo aproximou-se dele e disse-lhe baixinho, em tom
quase humilde:

- Perdeu um filho, mas...

Villefort interrompeu-o; no ouvira nem compreendera.

- Oh, hei-de encontr-lo! - gritou. - Escusa de dizer que no
est aqui, pois hei-de encontr-lo nem que tenha de procur-lo
at ao dia do Juzo Final.

Monte-Cristo recuou aterrado.

- Enlouqueceu! - exclamou.

E como se receasse que as paredes da casa maldita se abatessem
sobre si, correu para a rua, duvidando pela primeira vez que
tivesse o direito de fazer o que fizera.

- Oh, basta, basta! - gritou. - Salvemos o ltimo.

Ao chegar a casa, Monte-Cristo encontrou Morrel, que vagueava
pelo palcio dos Campos Elsios, silencioso como um fantasma
que esperasse o momento fixado por Deus para regressar ao seu
tmulo.

- Prepare-se, Maximilien - disse-lhe com um sorriso. -
Samos de Paris amanh.

- J no tem mais nada a fazer aqui? - perguntou Morrel.

- No - respondeu Monte-Cristo --, e Deus queira que no tenha
feito de mais.



Captulo CXII

A partida


Os acontecimentos que acabavam de se verificar preocupavam
toda a gente em Paris. Emmanuel e a mulher contavam-nos, com
uma surpresa muito natural, na sua salinha da Rua Meslay, e
relacionavam umas com as outras as trs catstrofes, to
sbitas como inesperadas, de Morcerf; Danglars e Villefort.

Maximilien, que os viera visitar, escutava-os, ou antes
assistia  conversa mergulhado na sua insensibilidade
habitual.

- Na verdade - dizia Julie --, no parece, Emmanuel, que todos
esses ricaos, ontem to felizes, esqueceram, no clculo em
que basearam a sua fortuna, a sua folicidade e a sua
considerao, a parte do gnio mau, e que este, como as fadas
ms dos contos de Perrault, que se esqueceram de convidar para
um casamento ou um baptismo, apareceu de repente para se
vingar desse fatal esquecimento?

- Que desastres! - dizia Emmanuel, pensando em Morcerf e
Danglars.

- Que sofrimentos! - dizia Julie, recordando-se de Valentine,
que, no seu instinto feminino, no queria citar diante do
irmo.

- Se foi Deus quem os feriu - acrescentava Emmanuel --, foi
porque Deus, que  a suprema bondade, no encontrou nada no
passado dessa gente que merecesse atenuao da pena. Foi
porque essa gente era maldita.

- No estars a ser muito temerrio no teu julgamento,
Emmanuel? - perguntou Julie. - Quando o meu pai, de pistola em
punho, estava prestes a estoirar os miolos, se algum tivesse
dito como tu dizes agora: "Este homem mereceu a sua pena",
esse algum no estaria enganado?

- Sem dvida, mas Deus no permitiu que o nosso pai
sucumbisse, tal como no permitiu que Abrao sacrificasse o
filho. Ao patriarca, como a ns, enviou um anjo que cortou a
meio do caminho as asas da morte.

Ainda mal acabara de pronunciar estas palavras tocou a sineta.
Era o sinal dado pelo porteiro para anunciar a chegada de uma
visita.

Quase no mesmo instante a porta da sala abriu-se e o conde de
Monte-Cristo apareceu no limiar.

Os dois jovens soltaram um grito de alegria.

Maximilien levantou a cabea e voltou a baix-la.

- Maximilien - disse o conde, sem parecer notar as diferentes
impresses que a sua presena produzia --, venho busc-lo.

- Buscar-me? - repetiu Morrel, como se sasse de um sonho.

- Sim - respondeu Monte-Cristo. - No estava combinado que o
levaria comigo e no o preveni que estivesse pronto?

- Pois aqui estou - respondeu Maximilien. - Vim apenas
despedir-me.

- E aonde vai, Sr. Conde? - perguntou Julie.

- Primeiro, a Marselha, minha senhora.

- A Marselha? - repetiram em coro os dois jovens.

- Sim, e levo-lhe o seu irmo.

- Veja se no-lo restitui curado, Sr. Conde... - pediu Julie.
Morrel virou-se para ocultar o seu rubor.

- Notou ento que ele no estava bem? - inquiriu o Conde.

- Notei - respondeu a jovem senhora --, e receio que ele se
aborrea connosco.

- Eu o distrairei - prometeu o conde.

- Estou pronto, senhor - disse Maximilien. - Adeus, meus bons
amigos! Adeus Emmanuel! Adeus, Julie!

- Como adeus?! - exclamou Julie. - Partes assim de repente,
sem teres nada preparado, sem passaporte?

- Os adiamentos duplicam o desgosto das separaes - observou
Monte-Cristo --, e Maximilien, estou certo disso, deve ter
tomado todas as providncias, como lhe recomendei.

- Tenho o meu passaporte e as minhas malas esto feitas -
informou Morrel com a mesma tranquilidade alheada.

- ptimo! - exclamou Monte-Cristo, sorrindo. - Nem outra coisa
era de esperar de um bom soldado.

- E o senhor deixa-nos assim, de um momento para o outro? -
perguntou Julie. - No nos concede um dia, nem uma hora?

- A minha carruagem est  porta, minha senhora. Preciso de
estar em Roma dentro de cinco dias.

- Mas Maximilien no vai a Roma? - perguntou Emmanuel.

- Vou aonde o conde me quiser levar - respondeu Morrel, com um
sorriso triste. - Perteno-lhe ainda por um ms.

- Oh, meu Deus, como ele diz aquilo, Sr. Conde!

- Maximilien acompanha-me; portanto, esteja tranquila a
respeito do seu irmo - respondeu o conde com a sua persuasiva
afabilidade.

- Adeus, minha irm! - repetiu Morrel. - Adeus, Emmanuel!

- Aflige-me o seu alheamento - confessou Julie. - Oh,
Maximilien, Maximilien, escondes-nos qualquer coisa!

- Ento, ento!... - interveio Monte-Cristo. Prometo-lhes que
o vero regressar alegre, risonho e feliz.

Maximilien deitou a Monte-Cristo um olhar quase desdenhoso,
quase irritado.

- Partamos! - disse o conde.

- Antes de partir, Sr. Conde - atalhou Julie --, permita-me
que lhe diga tudo o que no outro dia...

- Minha senhora - interrompeu-a o conde, pegando-lhe nas mos
--, tudo o que me dissesse nunca valeria o que leio nos seus
olhos, nem o que o seu corao sente, nem o que o meu
experimenta. Como os benfeitores de romance, devia ter partido
sem a tornar a ver; mas tal virtude era superior s minhas
foras, pois sou um homem fraco e vaidoso e o olhar hmido,
feliz e terno dos meus semelhantes me faz bem. Agora parto e
levo o egosmo ao ponto de lhes dizer: no me esqueam, meus
amigos, porque provavelmente no me tornaro a ver.

- No o tornaremos a ver?! - exclamou Emmanuel, enquanto duas
grossas lgrimas rolavam pelas faces de Julie. - No o
tornaremos a ver! Mas nesse caso no  um homem,  um deus que
nos deixa, e esse deus vai subir ao cu depois de aparecer na
Terra para nela praticar o bem!

- No diga isso - pediu vivamente Monte-Cristo. - Nunca digam
isso, meus amigos Os deuses nunca fazem mal, os deuses param
onde querem parar. O acaso no  mais forte do que eles, so
eles que, pelo contrrio, governam o acaso. No, eu sou um
homem, Emmanuel, e a sua admirao  to injusta quanto as
suas palavras so sacrlegas.

E beijando a mo de Julie, que se lhe precipitou nos braos,
estendeu a outra mo a Emmanuel. Depois, arrancando-se daquela
casa, doce ninho que albergava a felicidade, fez sinal a
Maximilien para o seguir; um Maximilien passivo, insensvel e
consternado, como ficara depois da morte de Valentine.

- Restitua a alegria ao meu irmo! - disse Julie ao ouvido de
Monte-Cristo.

Monte-Cristo apertou-lhe a mo como lha apertara onze anos
antes na escada que conduzia ao gabinete de Morrel.

- Continua a confiar em Simbad, o Marinheiro? - perguntou-lhe
sorrindo.

- Oh, sim!

- Ento durma na paz e na confiana do Senhor.

Como dissemos, a sege de posta esperava-os. Quatro cavalos
vigorosos agitavam as crinas e batiam na calada com
impacincia.

Ali esperava ao fundo da escadaria, com o rosto brilhante de
suor. Parecia chegar de uma longa corrida.

- Ento, foste a casa do velho? - perguntou-lhe o conde em
rabe.

Ali fez sinal que sim.

- E desdobraste-lhe a carta diante dos olhos, como te ordenei?

- Sim - respondeu tambm, respeitosamente, o escravo.

- E que disse ele, ou antes: que fez?

Ali colocou-se debaixo da luz, de forma que o amo o pudesse
ver, e, imitando com a sua inteligncia to dedicada a
fisionomia do velho, fechou os olhos como fazia Noirtier
quando queria dizer "sim".

- Bem, aceita - disse Monte-Cristo. - Partamos!

Ainda mal proferira esta palavra e j a carruagem rodava e os
cavalos arrancavam da calada uma chuva de falhas.
Maximilien acomodou-se no seu canto sem dizer palavra.

Passou meia hora. A calea deteve-se de sbito; o conde
acabava de puxar o cordo de seda que correspondia ao dedo de
Ali.

O nbio desceu e abriu a portinhola.

A noite cintilava de estrelas. Estavam no cimo da encosta de
Villejuif, no planalto donde se v Paris, como um mar sombrio,
agitar os seus milhes de  luzes, que parecem ondas
fosforescentes. Ondas, efectivamente, ondas mais ruidosas,
mais apaixonadas, mais volveis, mais furiosas e mais vidas
do que as do oceano irritado; ondas que no conhecem a calma,
como as do vasto mar, ondas que se entrechocam constantemente,
sempre espumando, sempre engolindo!...

O conde ficou s, e a um sinal de mo seu a carruagem avanou
um pouco.

Ento observou durante muito tempo, com os braos cruzados,
aquele cadinho onde se fundiam, torciam e modelavam todas as
ideias que brotam do abismo fervilhante para irem agitar o
mundo. Depois de observar bem com o seu olhar poderoso aquela
Babilnia que tanto fazia sonhar os poetas religiosos como os
sarcsticos materialistas, murmurou, inclinando a cabea e
juntando as mos, como se fosse rezar:

- Grande cidade. H menos de seis meses que transpus as suas
portas. Creio que foi o esprito de Deus que me trouxe at c
e que me permite retirar triunfante. Confiei a esse Deus, o
nico capaz de ler no meu corao, o segredo da minha presena
dentro das tuas muralhas; s ele sabe que me retiro sem dio e
sem orgulho, mas no sem pesar; s ele sabe que no utilizei
em meu proveito nem em benefcio de causas vs o poder que me
confiou.  grande cidade, foi no teu seio palpitante que
encontrei o que procurava! Mineiro paciente, revolvi-te as
entranhas para fazer sair o mal. Agora, a minha obra est
concluda e a minha misso terminada; agora j me no podes
oferecer nem alegrias nem dores.
Adeus, Paris! Adeus!

O seu olhar passeou ainda sobre a vasta plancie, como o de um
gnio nocturno. Em seguida passou a mo pela testa, voltou a
subir para a carruagem, que se fechou atrs dele e desapareceu
em breve do outro lado da encosta num turbilho de p e rudo.

Percorreram duas lguas sem pronunciar uma s palavra.
Morrel sonhava, Monte-Cristo via-o sonhar.

- Morrel, est arrependido de me ter seguido?

- No, Sr. Conde. Mas deixar Paris...

- Se soubesse que a felicidade o esperava em Paris, Morrel,
t-lo-ia deixado l.

-  em Paris que Valentine repousa, e deixar Paris  perd-la
segunda vez.

- Maximilien - disse o conde --, os amigos que perdemos no
repousam na Terra, esto sepultados no nosso corao, e foi
Deus que assim o quis para que estivssemos sempre
acompanhados. Eu tenho dois amigos que me acompanham sempre
assim um  aquele que me deu a vida, o outro o que me deu a
inteligncia. O esprito de ambos vive em mim. Consulto-os
quando tenho dvidas, e se tenho feito algum bem  aos seus
conselhos que o devo. Consulte a voz do seu corao, Morrel, e
pergunte-lhe se deve continuar a mostrar-me to m cara.

- Meu amigo - respondeu Maximilien --, a voz do meu corao 
muito triste e s me promete desventuras.

-  prprio dos espritos enfraquecidos ver todas as coisas
atravs de um crepe.  a alma que abre a si prpria os seus
horizontes; como a sua alma est sombria,  ela que lhe mostra
um cu tempestuoso.

-  provvel que isso seja verdade - admitiu Maximilien.
E voltou a cair no seu devaneio.

A viagem decorreu com a maravilhosa rapidez que era um dos
poderes do  conde. As cidades passavam como sombras ao longo
da estrada; as rvores, sacudidas pelos primeiros ventos do
Outono, pareciam vir ao encontro deles como gigantes
desgrenhados, e desapareciam rapidamente assim que as
alcanavam. No dia seguinte de manh chegaram a Chalon, onde
os esperava o barco a vapor do conde. Sem perda de um
instante, a carruagem foi transportada para bordo; os dois
viajantes j tinham embarcado.

O barco, talhado para corrida, dir-se-ia uma piroga ndia. As
suas duas rodas pareciam duas asas com as quais rasava a gua
como uma ave de arribao. O prprio Morrel experimentava essa
espcie de embriaguez da velocidade, e s vezes o vento que
lhe agitava os cabelos parecia prestes a afastar por um
momento as nuvens que lhe cobriam a testa.

Quanto ao conde,  medida que se afastava de Paris parecia
envolv-lo como que uma aurola uma serenidade quase
sobre-humana. Dir-se-ia um exilado que regressasse  ptria.

Em breve Marselha, branca, tpida, viva; Marselha, a irm mais
nova de Tiro e Cartago, s quais sucedeu no domnio do
Mediterrneo, Marselha, sempre mais nova  medida que
envelhece, em breve lhos surgiu diante dos olhos. No faltavam
para ambos aspectos frteis em recordaes, como a Torre
Redonda, o Forte de S. Nicolau, a Cmara Municipal de Puget e
o porto de cais de tijolo onde um e outro tinham brincado na
infncia.

Por isso, de comum acordo, detiveram-se na Cannebire.

Partia um navio para Argel. Os tardos e os passageiros
empilhados na coberta, a chusma dos parentes e dos amigos que
se despediam, gritavam e choravam, espectculo sempre
comovente mesmo para aqueles que assistem todos os dias a esse
espectculo, todo aquele movimento no conseguiu distrair
Maximilien de uma ideia que o assaltara no momento em que
pusera p nas grandes lajes do cais.

- Veja - disse, pegando no brao de Monte-Cristo foi aqui que
meu pai parou quando o Pharaon entrou no porto; foi aqui que o
excelente homem que o senhor salvara da morte e da desonra se
lanou nos meus braos. Sinto ainda a impresso das suas
lgrimas na minha cara, e ele no chorava sozinho, muita gente
tambm chorava ao ver-nos.

Monte-Cristo sorriu.

- Eu estava ali - disse, mostrando a Morrel a esquina de uma
rua.

Quando dizia isto, ouviu-se na direco indicada pelo conde um
gemido doloroso e viu-se uma mulher fazer sinal a um
passageiro do navio prestes a partir.

A mulher estava velada. Monte-Cristo seguiu-a com a vista com
uma emoo que Morrel teria facilmente notado se, ao contrrio
do conde, no tivesse os olhos fixos no navio.

- Oh, meu Deus, no estou enganado! - exclamou Morrel. -
Aquele rapaz que acena com o chapu... aquele rapaz fardado 
Albert de Morcerf!

- Pois  - respondeu Monte-Cristo. - J o tinha reconhecido.

- Como assim? O senhor eslava a olhar para o lado oposto!

O conde sorriu como fazia quando no queria responder.

E os seus olhos voltaram  mulher velada, que desapareceu 
esquina da rua.

S ento ele se virou e disse a Maximilien:

- Meu caro amigo, no tem nada que fazer nesta terra?

- Tenho de ir chorar sobre a sepultura do meu pai - respondeu
surdamente Morrel.

- Ento v e espere-me no cemitrio. Irei l ter consigo.

- Deixa-me?

- Deixo... Tambm tenho uma piedosa visita a fazer.

Morrel deixou cair a mo na que lhe estendia o conde; depois,
com um aceno de cabea cuja melancolia seria impossvel
exprimir, deixou o conde e dirigiu-se para o leste da cidade.

Monte-Cristo deixou Maximilien afastar-se e permaneceu no
mesmo stio at ele desaparecer. Depois dirigiu-se para as
Alamedas de Meilhan, em busca da casita que nos comeos desta
histria se tornou familiar aos nossos leitores.

A casa erguia-se ainda  sombra da grande alameda de tlias
que servia de passeio aos malsemeses ociosos, coberta de
grandes macios de vinha que cruzavam sobre a pedra
amarelecida pelo sol ardente do Meio-Dia os seus ramos
enegrecidos e retalhados pela idade. Dois degraus de pedra,
gastos pelos ps, conduziam  porta de entrada, porta feita de
trs pranchas que nunca, apesar das suas reparaes anuais,
tinham conhecido o betume e a pintura e esperavam que a
humidade voltasse para as unir.

Aquela casa, encantadora a despeito da sua vetustez, e alegre
a despeito da sua aparente misria, era a mesma em que
habitara outrora o pai de Dants. Simplesmente, o velho
habitava a mansarda e o conde pusera toda a casa  disposio
de Mercds.

Foi l que entrou a mulher do longo vu que Monte-Cristo vira
afastar-se do navio que ia partir. A mulher fechava a porta no
preciso momento em que ele aparecia  esquina de uma rua, de
forma que o conde a viu desaparecer quase no mesmo instante cm
que a avistou.

Para ele, os degraus gastos eram velhos conhecidos; sabia
melhor do que ningum abrir a velha porta, de que um prego de
cabea larga levantava o loquete interior.

Por isso entrou sem bater nem prevenir, como um amigo, como um
hspede.

Ao fundo de um carreiro pavimentado a tijolo abria-se, rico de
calor, de sol e de luz, um jardinzinho, o mesmo onde no stio
indicado Mercds encontrara a importncia cujo depsito a
delicadeza do conde conservara durante vinte e quatro anos. Do
limiar da porta da rua viam-se as primeiras rvores do jardim.

Chegado  entrada, Monte-Cristo ouviu um suspiro que parecia
um soluo. Esse suspiro guiou-lhe o olhar e permitiu-lhe
descobrir Mercds, sentada, inclinada e chorando, debaixo de
um caramancho de jasmim-da-virgnia, de folhagem espessa e
grandes flores cor de prpura.

Levantara o vu e, sozinha perante o cu, com o rosto oculto
nas mos, dava livre curso aos suspiros e aos soluos tanto
tempo reprimidos pela presena do filho.

Monte-Cristo deu alguns passos em frente; a areia rangeu-lhe
debaixo dos ps.

Mercds levantou a cabea e soltou um grito de terror ao ver
um homem diante de si.

- Minha senhora - disse o conde --, j no est na minha mo
dar-lhe a felicidade, mas ofereo-lhe a consolao. Quer
dignar-se aceit-la como vinda de um amigo?

-Sou, de facto, muito infeliz - respondeu Mercds. - Estou
sozinha no mundo... S tinha o meu filho e ele deixou-me.

- E fez bem, minha senhora - replicou o conde. -  um nobre
corao. Compreendeu que todo o homem deve um tributo 
ptria: uns os seus talentos, outros a sua indstria, estes as
suas viglias, aqueles o seu sangue. Se ficasse com a senhora,
desperdiaria a seu lado uma existncia intil e
habituar-se-ia a v-la sofrer. Tornar-se-ia rancoroso na sua
impotncia. Assim, tornar-se- grande e forte lutando contra a
sua adversidade, que transformar em fortuna. Deixe-o
reconstruir o futuro de ambos, minha senhora. Ouso
garantir-lhe que est em mos seguras.

- Oh - disse a pobre mulher, abanando tristemente a cabea --,
a fortuna a que se refere, e que do fundo da minha alma peo a
Deus que lhe conceda, j no a gozarei! Quebraram-se tantas
coisas em mim e  minha volta que me sinto perto da sepultura.
Fez bem, Sr. Conde, em aproximar-me do stio onde fui to
feliz:  onde fomos felizes que devemos morrer.

- Infelizmente, todas as suas palavras, minha senhora, caem
amargas e escaldantes no meu corao, tanto mais amargas e
escaldantes quanto  certo ter motivos para me odiar. Fui eu
que causei todas as suas desventuras. Porque me lamenta em vez
de me acusar? Tornar-me-ia muito mais infeliz...

- Odi-lo, acus-lo, a si, Edmond?... Odiar, acusar o homem
que salvou a vida do meu filho, porque era sua inteno fatal
e cruel, no  verdade, matar ao Sr. de Morcerf o filho de que
tanto se orgulhava? Oh, olhe para mim e veja se existe em mim
a sombra de uma censura!

O conde levantou os olhos e pousou-os em Mercds, que,
semilevantada, estendia as mos para ele.

- Sim, olhe para mim - continuou ela com profunda melancolia.
- Hoje pode-se suportar o brilho dos meus olhos; j l vai o
tempo em que vinha sorrir a Edmond Dants, que me esperava l
em cima,  janela da mansarda que habitava com o seu velho
pai... Desde ento, muitos dias dolorosos passaram que cavaram
como que um abismo entre mim e esse tempo. Acus-lo, Edmond;
odi-lo, meu amigo! No,  a mim que acuso e odeio! Oh, como
fui miservel! -  exclamou, juntando as mos e erguendo os
olhos ao cu. - Fui punida... Possua a religio, a inocncia
e o amor, essas trs felicidades que fazem os anjos, e,
miservel como sou, duvidei de Deus!

Monte-Cristo deu um passo para ela e estendeu-lhe
silenciosamente a mo.

- No - disse ela, retirando suavemente a sua --, no, meu
amigo, no me toque. Poupou-me, e no entanto, de todos aqueles
que o feriram, eu era a mais culpada. Todos os outros agiram
por dio, por cupidez, por egosmo; eu agi por cobardia. Eles
desejavam, eu tive medo. No, no me aperte a mo. Edmond,
pensa em qualquer palavra afectuosa, adivinho-o; no a diga...
Guarde-a para outra, pois j no sou digna de a ouvir. Veja...
- disse, descobrindo por completo o rosto - veja, a desgraa
encheu-me de cabelos grisalhos, os meus olhos verteram tantas
lgrimas que esto cercados de veias roxas, e a testa
cobriu-se-me de rugas. O senhor, pelo contrrio, Edmond,
continua jovem, sempre belo, sempre orgulhoso. Porque teve f,
porque teve coragem, porque confiou em Deus e Deus amparou-o.
Eu fui cobarde, reneguei, Deus abandonou-me e veja o  Mercds
desatou a chorar; o corao da mulher no resistia ao choque
das recordaes.

Monte-Cristo pegou-lhe na mo e beijou-lha respeitosamente;
mas ela prpria sentiu que aquele beijo carecia de ardor, era
como o que o conde depositaria na mo de mrmore da esttua de
uma santa.

- Existem vidas predestinadas cuia primeira falta destri todo
o futuro - continuou ela. - Julgava-o morto e por isso eu
devia ter morrido. Porque, que adiantou ter trazido
eternamente o seu luto no corao? Apenas transformar uma
mulher de trinta e nove anos numa mulher de cinquenta, mais
nada. Que adiantou que, tendo sido a nica pessoa a
reconhec-lo, me tenha limitado a salvar o meu filho? No
deveria salvar tambm o homem, por mais culpado que fosse, que
aceitara como marido? No entanto, deixei-o morrer. Que digo,
meu Deus? Contribui para a sua morte com a minha cobarde
insensibilidade, com o meu desprezo, no me lembrando, no
querendo lembrar-me, de que fora por mim que se tomara perjuro
e traidor! Que adiantou, finalmente, que tivesse acompanhado o
meu filho at aqui, se aqui o abandonei, se aqui o deixei
partir sozinho, se aqui o entreguei  terra devoradora de
frica? Oh, tenho sido cobarde, garanto-lhe! Reneguei o meu
amor e, como os renegados, trago a desgraa a tudo o que me
rodeia!

- No, Mercds - disse Monte-Cristo --, no. No persista
nessa m opinio de si mesma. No, a senhora  uma nobre e
santa mulher, que me desarmara com a sua dor. Mas atrs de
mim, invisvel, desconhecido, irritado, havia Deus, do qual eu
era apenas o mandatrio, e que no quis deter o raio que eu
lanara. Oh, esse Deus aos ps do qual me prosterno todos os
dias h dez anos sabe que lhe sacrificaria a vida, Mercds, e
com a vida os projectos que lhe estavam relacionados. Mas,
digo-o com orgulho, Mercds, Deus necessitava de mim e eu
vivi. Examine o passado, examine o presente, procure adivinhar
o futuro, e veja se no sou um instrumento do Senhor. A
primeira parte da minha vida foi constituda pelas mais
horrveis desventuras, pelos mais cruis sofrimentos, pelo
abandono de todos aqueles que me amavam, pela perseguio
daqueles que me no conheciam.
Depois, de repente, aps o cativeiro, o isolamento e a
misria, o ar, a liberdade e uma fortuna to deslumbrante, to
prodigiosa, to desmedida que, a menos que fosse cego, teria
de admitir que Deus ma enviava com grandes desgnios. Desde
ento, essa fortuna pareceu-me ser um sacerdcio; desde ento,
nem mais um pensamento dedicado a essa vida de que a senhora,
pobre mulher, saboreou algumas vezes a doura; nem uma hora de
calma, nem uma. Senti-me impelido como a nuvem de fogo que
passa no cu para ir queimar as cidades malditas. Como esses
capites aventureiros que embarcam para uma viagem perigosa,
que planeiam uma expedio arriscada, preparei os vveres,
carreguei as armas, amontoei os meios de ataque e defesa
habituando o meu corpo aos exerccios mais violentos, a minha
alma aos choques mais rudes, e ensinando o meu brao a matar,
os meus olhos a ver sofrer e a minha boca a sorrir aos
aspectos mais terrveis. De bom, de confiante, de generoso que
era, tornei-me vingativo, dissimulado, mau; ou antes
impassvel como a surda e cega fatalidade. Ento lancei-me no
caminho que abrira, transpus o espao, consegui os meus fins.
Ai daqueles que se cruzassem no meu caminho!

- Basta! - exclamou Mercds. - Basta, Edmond! Acredite,
aquela que foi a nica capaz de o reconhecer foi tambm a
nica capaz de o compreender.  Ora, Edmond, aquela que soube
reconhec-lo, aquela que foi capaz de o compreender, se a
tivesse encontrado no seu caminho e a tivesse quebrado como
vidro, nem por isso deixaria de o admirar, Edmond! Assim como
existe um abismo entre mim e o passado, tambm existe um
abismo entre o senhor e os outros homens, e a minha mais
dolorosa tortura, confesso-lhe,  estabelecer comparaes.
Porque no h nada no mundo que se lhe compare, nada que se
parea consigo. E agora, Edmond, diga-me adeus e separemo-nos.

- Antes de a deixar, que deseja, Mercds? - perguntou
Monte-Cristo.

- S desejo uma coisa, Edmond: que o meu filho seja feliz.

- Suplique-o ao Senhor, o nico que tem a vida dos homens na
mo, que afaste a morte dele. Do resto encarrego-me eu.

- Obrigada, Edmond.

- Mas a senhora, Mercds?

-- Eu no preciso de nada, vivo entre duas sepulturas: uma, a
de Edmond Dants, que morreu h muito tempo; amava-o! Esta
palavra j no assoma aos meus lbios murchos, mas o meu
corao ainda se recorda dela e por nada deste mundo desejaria
perder essa lembrana do corao. A outra  a de um homem que
Edmond Dants matou; aprovo a morte, mas devo rezar pelo
morto.

- O seu filho ser feliz, minha senhora - repetiu o conde.

- Ento, serei tambm feliz quanto o possa ser.

- Mas... enfim .. que far?

Mercds sorriu tristemente

- Se lhe dissesse que viveria nesta terra como a Mercds
doutrora, isto , trabalhando, o senhor no acreditaria. J s
sei rezar, mas no tenho necessidade de trabalhar; o pequeno
tesouro que o senhor enterrou encontrava-se no stio indicado.
As pessoas querero saber quem sou, perguntaro o que fao,
ignoraro como vivo. Que importa! Trata-se de assunto entre
Deus, o senhor e eu.

- Mercds - disse o conde --, no a censuro, mas exagerou o
sacrifcio renunciando a toda a fortuna acumulada pelo Sr. de
Morcerf e metade da qual pertencia por direito  sua economia
e  sua orientao?

- Adivinho o que me vai propor, mas no posso aceitar. Edmond,
o meu filho proibir-mo-ia.

- Sendo assim, tomarei o cuidado de nada fazer pela senhora
que no tenha a aprovao do Sr. Albert de Morcerf.
Averiguarei as suas intenes e submeter-me-ei a elas. Mas se
aceitar o que pretendo fazer, imit-lo- sem repugnncia?

- Bem sabe, Edmond, que j no sou uma criatura pensante; de
determinao s tenho a de nunca mais cair noutra. Deus
sacudiu-me de tal modo nas suas tempestades que perdi a
vontade disso. Estou nas suas mos como um pardal nas garras
da guia. Ele no quer que morra, uma vez que vivo. Se me
enviar ajuda, ser de sua vontade e aceit-la-ei.

- Cautela, senhora, no  assim que se adora Deus! - observou
Monte-Cristo. - Deus quer que compreendamos e discutamos o seu
poder: foi para isso que nos deu o livre arbtrio.

- No me diga isso, desgraado! - exclamou Mercds. - Se
acreditasse que Deus me dera o livre arbtrio, que me restaria
para me salvar do desespero?

Monte-Cristo empalideceu ligeiramente e baixou a cabea,
esmagado pela veemncia daquela dor.

- No quer dizer-me at  vista? - perguntou, estendendo-lhe a
mo.

- Quero - respondeu Mercds, mas apontando para o cu
solenemente. - Como v, ainda tenho esperana...

E depois de tocar na mo do conde com mo trmula, Mercds
correu para a escada e desapareceu.

Monte-Cristo saiu ento lentamente da casa e tomou o caminho
do porto.

Mas Mercds no o viu afastar-se, embora estivesse  janela
do quartinho do pai de Dants. Os seus olhos procuravam ao
longe o navio que levava o filho para o mar alto.

Verdade sei a que a sua voz, como que a seu pesar, murmurava
baixinho:

- Edmond, Edmond, Edmond!


Captulo

O passado


O conde saiu com a alma magoada daquela casa onde deixava
Mercds para nunca mais a ver, segundo todas as
probabilidades.

Desde a morte do pequeno douard operara-se em Monte-Cristo
uma grande transformao. Chegado ao cimo da sua vingana pela
encosta lenta e tortuosa que seguira, vira do outro lado da
montanha o abismo da dvida.

Mas havia mais: a conversa que acabava de ter com Mercds
despertara tantas recordaes no seu corao que elas prprias
precisavam de ser com batidas.

Um homem da tmpera do conde no podia entregar-se durante
muito tempo a uma melancolia capaz de alimentar os espritos
vulgares dando-lhes uma originalidade aparente, mas que mata
as almas superiores. O conde disse para consigo que para quase
ter chegado a censurar-se a si mesmo era porque algum erro se
insinuara nos seus clculos.

- Analiso mal o passado - disse. - No posso ter-me enganado
assim... Seria possvel que me propusesse atingir um objectivo
insensato? Terei seguido caminho errado durante dez anos? No
bastaria uma hora para provar ao arquitecto que a obra em que
depositara todas as suas esperanas era uma obra impossvel ou
pelo menos sacrlega?

"No me posso habituar a semelhante ideia; enlouqueceria. O
que falta aos meus raciocnios actuais  a apreciao exacta
do passado, porque revejo o passado da outra extremidade do
horizonte. Com efeito,  medida que avanamos o passado
esbate-se, tal como a paisagem que atravessamos se esfuma 
medida que nos afastamos. Acontece-me o que acontece s
pessoas que se ferem em sonhos: vem e sentem o ferimento, mas
no se lembram de o ter recebido...

"Vamos, homem renovado; vamos, rico extravagante; vamos,
dorminhoco acordado; vamos, visionrio todo-poderoso, vamos,
milionrio invencvel: retoma por instantes a perspectiva
funesta da vida miservel e faminta; volta a passar pelos
caminhos para onde a fatalidade te empurrou ou a desventura te
conduziu e o desespero te recebeu. Demasiados diamantes, ouro
e sorte brilham hoje no espelho em que Monte-Cristo v Dants.
Esconde esses diamantes, cobre de lama esse ouro, apaga esse
brilho; rico, volta a ser pobre; livre, volta a ser
prisioneiro; ressuscitado, volta a ser cadver.

Enquanto dizia isto a si mesmo, Monte-Cristo seguia pela Rua
da Caisserie, a mesma pela qual vinte e quatro anos antes fora
conduzido por uma guarda silenciosa e nocturna. Aquelas casas,
de aspecto risonho e animado, estavam naquela noite sombrias,
mudas e fechadas.

- Mas so as mesmas - murmurou Monte-Cristo. - S que ento
era de noite e hoje  de dia;  o sol que ilumina tudo isto e
torna tudo isto alegre.

Desceu ao cais pela Rua de Saint-Laurent e encaminhou-se para
a Consigne, o ponto do porto onde fora embarcado. Um barco de
passeio passava com a sua cobertura de lona. Monte-Cristo
chamou o patro, que navegou imediatamente para ele, com a
pressa que pem nesse exerccio os barqueiros que farejam uma
boa gorjeta.

O tempo estava magnfico e a viagem foi uma festa. No
horizonte o Sol descia, vermelho e chamejante, nas vagas, que
se incendiavam  sua aproximao. O mar, liso como um espelho,
franzia-se por vezes devido aos saltos dos peixes, que,
perseguidos por algum inimigo oculto, saltavam para fora de
gua a fim de procurarem a salvao noutro elemento.
Finalmente, no horizonte viam-se passar, brancas e graciosas
como gaivotas de arribao, as barcas de pescadores que se
dirigiam para Martigues ou os navios mercantes carregados que
seguiam para a Crsega ou para a Espanha.

Apesar daquele lindo cu, daquelas barcas de contornos
graciosos e da luz dourada que inundava a paisagem, o conde,
envolto na sua capa, recordava um a um todos os pormenores da
terrvel viagem aquela luz nica e isolada que ardia nos
Catales, a vista do castelo de If que lhe revelou para onde o
levavam, a luta com os gendarmes quando quis lanar-se ao mar,
o seu desespero quando se sentiu vencido e a sensao fria do
cano da carabina encostado  tmpora, como um anel de gelo.

E pouco a pouco, como as nascentes secas no Vero que quando
se acastelam as nuvens de Outono se humedecem lentamente e
comeam a correr gota a gota, o conde de Monte-Cristo sentiu
igualmente nascer-lhe no peito o velho fel extravasado que
outrora inundara o corao de Edmond Dants.

A partir da acabou-se para ele o cu bonito, as barcas
graciosas, o sol quente; o cu velou-se de crepes fnebres e o
aparecimento do negro gigante chamado castelo de If f-lo
estremecer como se lhe tivesse surgido de sbito o fantasma de
um inimigo mortal.

Chegaram.

Instintivamente, o conde recuou at  extremidade do barco.
O patro teve de lhe dizer com a sua voz mais diferente:

- Chegmos, senhor.

Monte-Cristo lembrou-se de que naquele mesmo local, naquele
mesmo rochedo, fora violentamente arrastado pelos seus guardas
e que o tinham obrigado a subir a rampa picando-lhe os rins
com a ponta das baionetas.

O caminho parecera ento muito longo a Dants; Monte-Cristo
achou-o muito curto. Cada remada fizera brotar, juntamente com
a poalha hmida do mar, um milho de pensamentos e
recordaes.

Desde a revoluo de Julho que no havia prisioneiros no
Castelo de li; apenas um posto destinado a impedir o
contrabando se encontrava instalado na casa da guarda. Um
porteiro recebia os curiosos  porta para lhos mostrar aquele
monumento de terror transformado em monumento de curiosidade.

E no entanto, embora conhecesse pormenorizadamente o que ia
ver, quando entrou debaixo da abbada, quando desceu a escada
negra, quando o conduziram s celas que pedira para ver, uma
palidez fria invadiu-lhe a testa, cujo suor gelado lhe refluiu
at ao corao.

O conde perguntou se ainda havia algum antigo carcereiro do
tempo da Restaurao; todos tinham sido reformados ou se
dedicavam a outras profisses.

O porteiro que o acompanhava estava ali desde 1830 apenas.

Levaram-no a sua prpria cela.

Reviu a luz baa filtrar-se atravs do estreito respiradouro;
reviu o lugar onde estava a cama, retirada depois, e atrs da
cama, embora tapada, mas ainda visvel devido s pedras mais
novas, a abertura praticada pelo abade Faria.

Monte-Cristo sentiu as pernas fraquejarem-me; pegou num banco
de madeira e sentou-se.

- Contaram-se algumas histrias acerca deste castelo alm da
relacionada com a priso de Mirabeau? - perguntou o conde. -
Existe alguma tradio relacionada com estas celas lgubres,
onde custa a crer que homens alguma vez tenham encerrado um
homem vivo?

- Existe, sim, senhor - respondeu o porteiro -, e a respeito
desta mesma cela o carcereiro Antoine transmitiu-me uma.

Monte-Cristo estremeceu.

O carcereiro Antoine era o seu carcereiro. Quase lhe esquecera
o nome e a cara, mas assim que o seu nome foi pronunciado
reviu-o tal qual era, com a cara rodeada de barba, o seu
casaco escuro e o seu molho de chaves, cujo tilintar lhe
parecia ainda ouvir.

O conde virou-se e julgou v-lo na sombra do corredor, tornada
mais densa pelo contraste com a luz do archote que ardia nas
mos do porteiro.

- O senhor quer que lha conte? - perguntou o porteiro.

- Pois sim, conte - respondeu Monte-Cristo.

E ps a mo no peito para comprimir as violentas pulsaes do
corao, assustado por ir ouvir contar a sua prpria histria.

- Conte - repetiu.

- Esta cela - prosseguiu o porteiro - era ocupada por um
prisioneiro, h muito tempo, um homem perigosssimo, ao que
parece, e tanto mais perigoso quanto lhe no faltava engenho.
Nessa altura, havia outro homem no castelo, mas esse no era
mau, era um pobre padre louco.

- Ah, sim, louco!... - repetiu Monte-Cristo. - E qual era a
sua loucura?

- Oferecia milhes se lhe restitussem a liberdade.

Monte-Cristo ergueu os olhos ao cu, mas no viu o cu: havia
um vu de pedra entre ele e o firmamento. Pensou que houvera
um vu no menos espesso entre os olhos daqueles a quem o
abade Faria oferecia tesouros e os tesouros que lhes oferecia.

- Os prisioneiros podiam ver-se? - perguntou Monte-Cristo.

- Oh, no, senhor, era expressamente proibido! Mas eles
eludiram a proibio abrindo uma galeria que ia de uma cela 
outra.

- E qual dos dois abriu a galeria?

-- O mais novo, com certeza - respondeu o porteiro. - O rapaz
era engenhoso e forte, ao passo que o pobre abade era velho e
fraco. Alm disso, tinha o esprito demasiado vacilante para
seguir uma ideia.

- Cegos!... - murmurou Monte-Cristo.

- Seja como for - continuou o porteiro --, o mais novo abriu a
galeria. Com qu? Ningum sabe. Mas abriu-a, e a prova  que
ainda se vem sinais dela. Repare, no os v?

E aproximou o archote da parede.

- Sim, realmente... - respondeu o conde, com a voz embargada
pela emoo.

- Da resultou que os dois prisioneiros comunicaram um com o
outro. Quanto tempo durou a comunicao? Ningum sabe. Ora, um
dia o prisioneiro velho adoeceu e morreu.
Adivinha o que fez o novo? - perguntou o porteiro,
interrompendo-se.

- Diga.

- Apoderou-se do defunto, que deitou na sua prpria cama com a
cara virada para a parede, voltou  cela vazia, tapou o buraco
e meteu-se no saco do morto. J viu semelhante ideia?

Monte-Cristo fechou os olhos e sentiu-se passar de novo por
todas as impresses que experimentara quando aquela tela
grosseira, ainda impregnada do frio do cadver, lhe tocara na
cara.

O porteiro continuou:

- Veja o senhor qual era o seu plano: julgava que enterravam
os mortos no Castelo de If, e como estava convencido de que
no gastavam dinheiro com caixes para os presos, contava
levantar a terra com os ombros. Mas infelizmente havia no
castelo um costume que prejudicava o seu plano: no enterravam
os mortos; limitavam-se a prender-lhes um pelouro aos ps e a
lan-los ao mar. Foi o que se fez e o nosso homem foi lanado
 gua do alto da galeria. No dia seguinte encontraram o
verdadeiro morto na sua cama e adivinharam tudo, porque os
coveiros disseram ento o que se no tinham atrevido a dizer
at ali, isto , que no momento em que o corpo fora lanado no
vcuo tinham ouvido um grito terrvel, abafado imediatamente
pela gua, na qual desaparecera.

O conde respirou penosamente. O suor corria-lhe pela testa e a
angstia apertava-lhe o corao.

- No - murmurou --, no! A dvida que experimentei era um
princpio de esquecimento. Mas aqui o corao sangra de novo e
volta a sentir-se faminto de vingana. E o prisioneiro, nunca
mais ouviram falar dele? - perguntou.

- Nunca por nunca ser. Compreende, das duas uma: ou caiu de
chapa de cinquenta ps de altura e morreu imediatamente...

- Disse que lhe tinham prendido um pelouro aos ps; portanto,
deve ter cado de p.

- Ou caiu de p - prosseguiu o porteiro e ento o peso do
pelou o arrastou-o para o fundo, onde ficou, pobre homem!

- Lamenta-o?

- Claro que sim, embora morresse no seu elemento.

- Que quer dizer?

- Que corria o boato de que o desgraado fora, no seu tempo,
um oficial de marinha preso por bonapartista.

-  verdade - murmurou o conde para consigo. - Deus f-la
flutuar  superfcie das vagas e das paixes, e assim o pobre
marinheiro vive na rnemria de alguns narradores.
Conta-se a sua terrvel histria ao canto da lareira e
estremece-se no momento em que ele fende o espao para
mergulhar no mar profundo.

- Nunca souberam o seu nome? -- perguntou o conde em voz alta.

- Ah. sim. claro!... - respondeu o guarda. - Como? Era s
conhecido pelo nmero 34.

- Villefort, Villefort... - murmurou o conde. - O que no
ters pensado quando o meu fantasma importunava as tuas
insnias...

- O senhor quer continuar a visita? - perguntou o porteiro.

- Sim, sobretudo se me quiser mostrar a cela do pobre abade.

- Ah! A do nmero 27?

- Sim, a do nmero 27 - repetiu Monte-Cristo.

E pareceu-lhe ouvir ainda a voz do abade Faria quando lhe
perguntara o seu nome e ele lhe gritara o nmero atravs da
parede.

- Venha.

- Espere, deixe-me dar uma ltima vista de olhos  cela.

-- Calha bem - disse o guia --, porque me esqueci da chave da
outra.

- V busc-la.

- Deixo-lhe o archote.

- No, leve-o.

 -Mas fica sem luz...

- Vejo de noite.

- Olha,  como ele!...

- Ele quem?

- O nmero 34. Dizem que estava to habituado s trevas que
era capaz de ver um alfinete no canto mais escuro da cela.

- Mas precisou de dez anos para o conseguir - murmurou
Monte-Cristo.

O guia afastou-se com o archote.

O conde dissera a verdade: bastaram-lhe apenas uns segundos na
escurido para distinguir tudo como em pleno dia.

Ento olhou a toda a volta de si e reconheceu realmente a sua
cela.

- Sim, c est a pedra em que me sentava! E aqui a marca dos
meus ombros escavada na muralha! E aqui uns restos do sangue
que me correu da testa no dia em que quis partir a cabea
contra a parede! Oh, estes nmeros!... Lembro-me deles...
Fi-los num dia em que calculava a idade do meu pai, para saber
se o encontraria vivo, e a idade de Mercds, para saber se a
encontraria livre ... Tive um momento de esperana depois de
fazer estes clculos ... No contava com a fome nem com a
infidelidade!

E um riso amargo saiu da boca do conde. Acabava de ver, como
num sonho, o pai a ser conduzido  sepultura... E Mercds
dirigindo-se para o altar!

No outro lano da muralha deu com os olhos numa inscrio.
Ainda se destacava, a branco, na parede esverdeada: "meu deus,
conserva-me a memria!"

- Oh, sim, era esta a minha nica prece nos ltimos tempos! -
exclamou. - J no pedia a liberdade, pedia a memria, receava
enlouquecer e esquecer. Meu Deus, conservaste-me a memria e
lembrei-me. Obrigado, obrigado, meu Deus!

Neste momento a luz do archote reflectiu-se nas paredes; era o
guia que descia.

Monte-Cristo foi ao seu encontro.

- Siga-me - disse o homem.

E sem necessitar de vir  superfcie, f-lo seguir por um
corredor subterrneo que o conduziu a outra entrada.
Tambm ali Monte-Cristo foi assaltado por um mundo de
pensamentos.

A primeira coisa que lhe saltou  vista foi o meridiano
traado na muralha, com o auxlio do qual o abade Faria
contava as horas; depois os restos da cama em que o pobre
prisioneiro morrera.

Ao ver isto, em vez das angstias que o conde experimentara na
sua cela, um sentimento suave e terno, um sentimento de
reconhecimento, encheu-lhe o corao e duas lgrimas
rolaram-lhe dos olhos.

- Era aqui que estava o abade louco - informou o guia. - Era
por ali que o rapaz vinha ter com ele - e mostrou a
Monte-Cristo a entrada da galeria, que daquele lado ficara
aberta. - Pela cor da pedra - continuou - um sbio descobriu
que devia haver mais ou menos dez anos que os dois
prisioneiros comunicavam um com o outro. Pobres homens, muito
se devem ter aborrecido durante esses dez anos!

Dants tirou alguns luses da algibeira e estendeu a mo para
o homem que pela segunda vez o lamentava sem o conhecer.

O porteiro aceitou-os, julgando receber algumas moedas de
pouco valor mas  luz do archote verificou que o visitante lhe
dera muito dinheiro.

- Senhor - disse-lhe --, deve-se ter enganado...

- Como assim?

- Deu-me moedas de ouro.

- Bem sei.

- Sabe?!

- sim.

- Era sua inteno dar-me este ouro?

- Era.

- E posso guard-lo com a conscincia tranquila?

- Pode.

O porteiro olhou atnito para Monte-Cristo.

- E honestidade - acrescentou o conde, como Hamlet.

- Senhor - tornou o porteiro, que no ousava acreditar na sua
sorte --, senhor, no compreendo a sua generosidade...

-  fcil de compreender, meu amigo - redarguiu o conde. - Fui
marinheiro e a sua histria comoveu-me mais do que qualquer
outra.

- Ento, senhor - disse o guia --, j que  to generoso,
merece que lhe oferea qualquer coisa.

- Que tem para me oferecer, meu amigo? Conchas, objectos de
palha? Obrigado.

- No, senhor; no, senhor! Qualquer coisa que se refere 
histria que lhe contei h bocado.

- Deveras?! - exclamou o conde, entusiasmado. - O qu?
- Oua, vou contar-lhe o que aconteceu - disse o
porteiro. - Pensei c para comigo: "Encontra-se sempre
qualquer coisa numa cela onde um prisioneiro permaneceu quinze
anos..." E pus-me a sondar as paredes.

- Ah! - exclamou Monte-Cristo. Lembrando-se do duplo
esconderijo do abade. - Com efeito.

-  fora de procurar - continuou o porteiro --, descobri que
a parede soava a oco  cabeceira da cama e na lareira da
chamin.

- Claro, claro - disse Monte-Cristo.

- Levantei as pedras e encontrei...

- Uma escada de corda? Ferramentas? - antecipou-se o conde.

- Como sabe? - perguntou o porteiro, surpreendido.

- No sei, mas calculo - respondeu o conde. - Habitualmente 
esse gnero de coisas que se encontra nos esconderijos dos
prisioneiros.

- Exacto, senhor, uma escada de corda e ferramentas -
confirmou o guia.

- E ainda as tem? - perguntou Monte-Cristo.

- No, senhor. Vendi esses objectos, que eram muito curiosos,
a visitantes. Mas resta-me outra coisa...

- O qu? - perguntou o conde com impacincia.

- Resta-me uma espcie de livro escrito em tiras de pano.

- Oh, ainda tem esse livro?! - exclamou Monte-Cristo.

- No sei se  um livro - respondeu o porteiro. -- Mas ainda o
tenho, como lhe disse.

- V busc-lo, meu amigo, v - pediu o conde. - E se for o que
presumo, no se arrepender...

- Vou num p e venho noutro, senhor.

E o guia saiu.

Ento, Monte-Cristo foi ajoelhar-se piedosamente diante dos
restos daquela cama de que a morte fizera para ele um altar.

-  meu segundo pai - disse --, tu que me deste a liberdade, a
cincia e a riqueza; tu que, a exemplo das criaturas de
essncia superior  nossa, conhecias a cincia do bem e do
mal, se no fundo da sepultura resta alguma coisa de ns que
estremea ao ouvir a voz daqueles que ficaram na Terra; se na
transfigurao que sofre o cadver alguma coisa animada paira
nos lugares onde muito amamos e sofremos, nobre corao,
esprito supremo, alma profunda, por uma palavra, por um
sinal, por uma revelao qualquer, conjuro-te, em nome do amor
paternal que me concedias e do respeito filial que te
dedicava, a tirar-me este resto de dvida que, a no se
transformar em convico, se transformar em remorso.

O conde baixou a cabea e juntou as mos.

- Veja, senhor! - disse uma voz atrs dele.

Monte-Cristo estremeceu e virou-se.

O porteiro estendia-lhe as tiras de pano em que o abade Faria
registara todos os tesouros da sua cincia. Aquele manuscrito
era a grande obra do abade Faria acerca da realeza em Itlia.

O conde pegou-lhe sofregamente e os seus olhos pousaram em
primeiro lugar na epgrafe. Leu: "Arrancars os dentes do
drago e calcars aos ps os lees, disse o Senhor."

- Ah, c est a resposta! - exclamou. - Obrigado, meu
pai, obrigado!

Depois disse, tirando da algibeira uma carteirinha que
continha dez notas de mil francos cada uma:

- Tome, aceite esta carteira.

- D-ma?

- Dou, mas com a condio de s ver o que tem dentro depois de
me ir embora.

E apertando ao peito a relquia que acabava de recuperar e que
tinha para ele o valor do mais rico tesouro, saiu do
subterrneo e meteu-se na barca.

- Para Marselha! - ordenou.

E enquanto se afastava, disse com os olhos cravados na sombria
priso:

- Ai daqueles que me mandaram encerrar naquela priso e
daqueles que esqueceram que l estive encerrado!

Quando voltou a passar diante dos Catales, o conde virou-se,
envolveu a cabea na capa e murmurou um nome feminino.

A vitria era completa; o conde vencera duas vezes a dvida.

O nome que pronunciara com uma expresso de ternura que era
quase de amor fora o nome de Hayde.

Assim que ps p em terra, Monte-Cristo dirigiu-se para o
cemitrio, onde sabia encontrar Morrel.

Tambm ele, dez anos antes, procurara piedosamente uma
sepultura naquele cemitrio, e procurara-a em vo. Ele, que
regressava a Frana com milhes, no conseguira encontrar a
sepultura do pai morto de fome.

Morrel bem mandara l colocar uma cruz., mas a cruz cara e o
coveiro queimara-a, como fazem todos os coveiros a toda a
madeira velha que encontram cada nos cemitrios.

O digno negociante fora mais feliz: morto nos braos dos
filhos, fora, levado por eles, dormir o sono eterno junto da
mulher, que o precedera dois anos na eternidade.

Duas grandes lajes de mrmore com os seus nomes encontravam-se
colocadas uma ao lado da outra num pequeno recinto fechado por
uma balaustrada de ferro e sombreado por quatro ciprestes.

Maximilien estava encostado a uma das rvores e olhava sem ver
para as duas sepulturas.

A sua dor era profunda, quase desvairada.

- Maximilien, no  para ai que deve olhar,  para ali -
disse-lhe o conde, indicando-lhe o cu.

- Os mortos esto em toda a parte -- redarguiu Morrel. - No
foi o que me disse quando me trouxe de Paris?

- Maximilien - disse o conde --, pediu-me durante a viagem que
lhe permitisse ficar uns dias em Marselha. Continua a ser essa
a sua vontade?

- J no tenho vontade, conde, mas parece-me que esperarei
menos penosamente aqui do que noutro stio.

- Tanto melhor, Maximilien, porque o vou deixar, mas levo
comigo a sua palavra, no  verdade?

- Oh, esquec-la-ei, conde, esquec-la-ei! - respondeu Morrel.

- No, no a esquecera porque acima de tudo  um homem
honrado, Morrel; porque jurou e porque vai jurar
novamente.


- Conde, tenha compaixo de mim! Sou to infeliz, conde!

- Conheci um homem mais infeliz do que o senhor, Morrel.

- Impossvel.

- Claro! - exclamou Monte-Cristo, --  um dos orgulhos da
nossa pobre humanidade cada homem julgar-se mais infeliz do
que outro infeliz que chora e geme a seu lado.

- Quem pode ser mais infeliz do que o homem que perdeu o nico
bem que amava e desejava no mundo?

- Oua, Morrel - disse Monte-Cristo --, e fixe um instante o
esprito no que lhe vou dizer. Conheci um homem que, tal como
o senhor, depositara todas as suas esperanas de felicidade
numa mulher. Esse homem era novo e tinha um velho pai que
amava e uma noiva que adorava. Ia casar com ela quando de
sbito um desses caprichos do destino que fariam duvidar da
bondade de Deus se Deus se no revelasse mais tarde mostrando
que tudo  para ele um meio de conduzir  sua unidade
infinita, quando de sbito um capricho do destino lhe roubou a
liberdade, a amada e o futuro com que sonhava e que julgava
pertencer-lhe, pois, cego como estava, s podia ler no
presente, e o lanou no fundo de uma masmorra.

- Pois sim, mas sai-se de uma masmorra ao fim de oito dias, de
um ms, de um ano... - observou Morrel.

- Ele ficou l catorze anos, Morrel - disse o conde, pousando
a mo no ombro do rapaz..

Maximilien estremeceu.

- Catorze anos!... - murmurou.

- Catorze anos - repetiu o conde. - Tambm ele, durante esses
catorze anos, teve muitos momentos de desespero.
Tambm ele, como o senhor, Morrel, julgando-se o mais infeliz
dos homens, se quis matar.

- E depois? - perguntou Morrel.

- E depois? No momento supremo Deus revelou-se-lhe por um meio
humano. Porque Deus j no faz milagres. Talvez  primeira
vista (os olhos velados de lgrimas precisam de tempo para se
abrir por completo) no tenha compreendido a misericrdia
infinita do Senhor, mas enfim, encheu-se de pacincia e
esperou. Um dia saiu miraculosamente da tumba, transfigurado,
rico, poderoso, quase um deus. O seu primeiro pensamento foi
para o pai, mas o pai morrera!

- A mim tambm me morreu o meu pai - observou Morrel.

- Sim, mas o seu pai morreu-lhe nos braos, amado, feliz,
respeitado, rico, vergado ao peso dos anos, ao passo que o pai
dele morrera pobre, desesperado, duvidando de Deus; e quando
dez anos depois da sua morte o filho lhe procurou a sepultura,
a sua prpria sepultura desaparecera e ningum lhe pde dizer:
" aqui que repousa no Senhor o corao que tanto te amou."

- Oh! - exclamou Morrel.

- Ele era portanto mais infeliz filho do que o senhor, Morrel,
pois nem sequer sabia onde fora sepultado o pai.

- Mas - disse Morrel - restava-lhe a mulher que amara, ao
menos.

- Engana-se, Morrel. Essa mulher...

- Tambm morrera? - atalhou Maximilien.

- Pior do que isso: fora infiel, casara com um dos
perseguidores do noivo. Bem v, Morrel, que esse homem era
mais infeliz, como apaixonado, do que o senhor...

- E Deus mandou consolao a esse homem? - perguntou Morrel.

- Mandou-lhe pelo menos calma.

- E esse homem ainda poder ser feliz um dia?

- Tem essa esperana, Maximilien.

O jovem deixou cair a cabea para o peito.

- Tem a minha promessa - disse, aps um instante de silncio e
estendendo a mo a Monte-Cristo. - Mas lembre-se...

- Em 5 de Outubro, Morrel, espero-o na ilha de Monte-Cristo.
Em 4, um iate esper-lo- no porto de Bstia; um iate chamado
Eurus. Apresente-se ao patro, que o levar junto de mim. Est
combinado, no  verdade, Maximilien?

- Est combinado e farei o que est combinado. Mas lembre-se
que em 5 de Outubro...

- Criana, que ainda no sabe o que  a promessa de um
homem... J lhe disse vinte vezes que nesse dia, se quiser
morrer, at o ajudarei, Morrel. Adeus.

- Deixa-me?

- Deixo. Tenho que fazer em Itlia. Deixo-o sozinho, sozinho
em luta com a desventura, sozinho com essa guia de asas
poderosas que o Senhor envia aos seus eleitos para os
transportar a seus ps. A histria de Ganimedes no  uma
fbula, Maximilien,  uma alegoria.

- Quando parte?

- Imediatamente. O navio a vapor espera-me e daqui a uma hora
j estarei longe de si. Acompanha-me at ao porto, Morrel?

- Estou s suas ordens, conde.

- Abrace-me.

Morrel acompanhou o conde at ao porto. O fumo j saa como um
penacho imenso da chamin negra que o lanava ao cu. Pouco
depois o navio partiu, e uma hora mais tarde, como dissera
Monte-Cristo, o mesmo penacho de fumo esbranquiado raiava,
quase invisvel, o horizonte oriental, escurecido pelas
primeiras neblinas da noite.


Captulo CXIV

Peppino


No preciso instante em que o navio a vapor do conde
desaparecia para l do cabo Morgiou, um homem em viagem pela
estrada de Florena a Roma acabava de deixar para trs a
cidadezinha de Aquapendente. A sua velocidade era a suficiente
para percorrer boa distncia sem no entanto se tornar
suspeito.

Envergando uma redingote, ou antes um sobretudo que a viagem
pusera em muito mau estado, mas que ainda deixava ver,
brilhante e fresca, uma fita da Legio de Honra, repetida na
sobrecasaca, o homem, no s por esse duplo sinal, mas tambm
pela pronncia com que falava ao postilho, devia ser francs.
Mais uma prova de que nascera no pais da lngua universal: no
sabia outras palavras italianas a no ser essas palavras de
msica que podem, como o godman de Fgaro, substituir todas as
subtilezas de determinada lngua.

- Alegro! - dizia ao postilho em cada subida.

- Moderato! - gritava em cada descida.

E Deus bem sabe se h subidas e descidas na estrada de
Florena a Roma por Aquapendente!...

De resto, aquelas duas palavras faziam rir muito a boa gente a
quem eram dirigidas.

Perante a cidade eterna, isto ,  chegada a Storta, ponto
donde se v Roma, o viajante no experimentou esse sentimento
de curiosidade entusistica que leva todos os estrangeiros a
levantarem-se do seu lugar para tentarem ver a famosa cpula
de S. Pedro, que se descobre muito antes de distinguir outra
coisa. No, tirou apenas uma carteira da algibeira, e da
carteira um papel dobrado em quatro, que desdobrou e dobrou
com uma ateno respeitosa, e limitou-se a dizer:

- Bom, ainda o tenho...

A carruagem transps a Porta del Popolo, virou  esquerda e
deteve-se no Hotel de Espanha.

Mestre Pastrini, nosso velho conhecido, recebeu o viajante no
limiar da porta e de chapu na mo.

O viajante apeou-se, encomendou um bom jantar e informou-se do
endereo da casa Thomson  French, que lhe foi indicado
imediatamente, visto essa casa ser uma das mais conhecidas de
Roma.

Estava situada na Via dei Banchi, perto de S. Pedro.

Em Roma, como em toda a parte, a chegada de uma sege de posta
 um acontecimento. Dez jovens descendentes de Mrio e dos
gracos, descalos e de cotovelos rotos, mas de mo na anca e
com o brao pitorescamente curvado por cima da cabea,
observavam o viajante, a sege de posta e os cavalos. A esses
garotos da cidade por excelncia tinham-se juntado uns
cinquenta basbaques dos Estados de Sua Santidade, daqueles que
fazem rodas e cospem para o Tibre do alto da Ponte de Santo
Angelo quando o Tibre leva gua.
Ora, como os garotos e os basbaques de Roma, mais felizes do
que os de Paris, compreendem todas as lnguas, e sobretudo a
lngua francesa, perceberam o viajante pedir um quarto, pedir
de jantar e pedir, finalmente, o endereo da casa Thomson 
French.

Dai resultou que quando o recm-chegado saiu do hotel com o
cicerone da praxe, um homem separou-se do grupo de curiosos e,
sem ser notado pelo viajante e sem parecer ser notado pelo
guia, caminhou a curta distncia do estrangeiro, seguindo-o
com tanta percia que talvez causasse inveja a um agente da
polcia parisiense.

O francs tinha tanta pressa de visitar a casa Thomson 
French que nem sequer esperara que os cavalos fossem
substitudos; a carruagem deveria apanh-lo no caminho ou
esper-lo  porta dos banqueiros.

Chegaram antes de a carruagem os apanhar.

O francs entrou e deixou na antecmara o guia, que
imediatamente meteu conversa com dois ou trs desses
industriais sem indstria, ou antes de mil indstrias, que se
encontram em Roma  porta dos banqueiros, das igrejas, das
runas, dos museus e dos teatros.

Ao mesmo tempo que o francs entrou tambm o homem que se
separara do grupo de curiosos. O francs bateu no guich dos
escritrios e entrou na primeira sala; a sua sombra fez outro
tanto.

- Os Srs. Thomson  French? - perguntou o estrangeiro.

Uma espcie de lacaio levantou-se a um sinal de um empregado
de confiana, guarda solene do primeiro escritrio.

- Quem devo anunciar? - perguntou o lacaio, preparando-se para
caminhar  frente do estrangeiro.

- O Sr. Baro Danglars - respondeu o viajante.

- Acompanhe-me - disse o lacaio.

Abriu-se uma porta e o lacaio e o baro desapareceram por ela.
O homem que entrara atrs de Danglars sentou-se num banco de
espera.

O empregado continuou a escrever durante cerca de cinco
minutos; durante esses cinco minutos, o homem sentado guardou
o mais profundo silncio e a mais completa imobilidade.

Depois a pena do empregado deixou de ranger no papel; o homem
levantou a cabea, olhou atentamente  sua volta e disse, aps
se assegurar de que estavam ss:

- Ah, ah!... Por c, Peppino?

-  verdade - respondeu laconicamente este ltimo.

- Farejaste alguma coisa que valha a pena nesse gordo?

- No tive grande mrito nisso: fomos avisados.

- Sabes portanto o que vem c fazer? Curioso...

- Por Deus, vem receber! Apenas falta saber quanto.

- Sab-lo-s daqui a pouco, amigo.

- Muito bem; mas que no acontea como no outro dia, em que me
deste uma informao falsa.

- Queres fazer o favor de me dizer de que ests a falar? Ser
daquele ingls que levantou h dias trs mil escudos?

- No. Esse tinha efectivamente os trs mil escudos e ns
encontrmos-lhos. Refiro-me ao prncipe russo.

- E ento?

- Ento? Falaste-nos em trinta mil libras e ns s lhe
encontramos vinte e duas.

-  porque procuraram mal.

- Foi Luigi Vampa em pessoa quem o revistou.

- Nesse caso,  porque pagara as suas dvidas...

- Um russo?

- Ou gastou o dinheiro.

-  possvel, no fim de contas.

-  certo. Mas deixa-me ir ao meu observatrio antes de o
francs concluir a transaco sem eu saber a importncia
exacta.

Peppino acenou afirmativamente, tirou um rosrio da algibeira
e ps-se a resmonear uma prece enquanto o empregado saa pela
mesma porta que dera passagem ao lacaio e ao baro.

Passados cerca de dez minutos, o empregado voltou radiante.

- Ento? - perguntou Peppino, ao amigo.

- Alerta, alerta! - disse o empregado. - A importncia 
choruda...

- Cinco a seis milhes, no  verdade?

- Sim. Sabes a importncia?

- Sobre um recibo de Sua Excelncia o conde de Monte-Cristo.

- Conheces o conde?

- Crdito sobre Roma, Veneza e Viena.

- Exacto! - exclamou o empregado. - Como  que ests to bem
informado?

- J te disse que fomos prevenidos antecipadamente.

- Ento porque vieste ter comigo?

- Para ter a certeza de que  de facto o homem que
espervamos.

- No h dvida que  ele... Cinco milhes. Uma bonita maquia,
no  verdade, Peppino?

- .

- Nunca possuiremos tanto.

- Pelo menos teremos algumas migalhas - respondeu
filosoficamente Peppino.

- Caluda! Vem a o nosso bem.

O empregado voltou a pegar na pena e Peppino no seu rosrio.
Um escrevia e o outro rezava quando a porta se abriu.

Danglars apareceu radiante, acompanhado do banqueiro, que o
levou at  porta.

Peppino saiu atrs de Danglars.

De acordo com o combinado, a carruagem que devia ir buscar
Danglars esperava-o j diante da casa Thomson  French. O
cicerone segurava a portinhola aberta. O cicerone  um
indivduo muito prestvel e que se pode utilizar no que se
quiser.

Danglars saltou para a carruagem com a agilidade de um rapaz
de vinte anos. O cicerone fechou a portinhola e subiu para
junto do cocheiro.

Peppino subiu para o acento da retaguarda.

- Sua Excelncia quer ver S. Pedro? - perguntou o cicerone.

- Para qu?... - respondeu o baro.

- Demnio, para ver!

- No vim a Roma para ver - disse Danglars em voz alta, e
depois acrescentou baixinho e com o seu sorriso cpido: -  Vim
para receber.

E tocou na carteira, em que acabava de guardar uma carta.

- Ento, Sua Excelncia vai...?

- Para o hotel.

- Casa Pastrini - disse o cicerone ao cocheiro.

E a carruagem partiu rpida, como uma carruagem particular.

Dez minutos mais tarde o baro entrava nos seus aposentos e
Peppino instalava-se no banco existente na fachada do hotel,
depois de dizer algumas palavras ao ouvido de um dos
descendentes de Mrio e dos Gracos a que nos referimos no
princpio deste captulo, o qual descendente tomou o caminho
do Capitlio a toda a velocidade das suas pernas.

Danglars estava cansado, satisfeito e ensonado. Deitou-se,
meteu a carteira debaixo da almofada e adormeceu.

Peppino tinha tempo de sobra. Jogou  morra com uns facchini,
perdeu trs escudos e para se consolar bebeu uma garrafa de
vinho de Orvieto.

No dia seguinte, Danglars acordou tarde, apesar de se ter
deitado cedo. Mas havia cinco ou seis noites que dormia muito
mal, quando dormia.

Tomou um abundante pequeno-almoo, e pouco interessado, como
dissera, em ver as belezas da cidade eterna, pediu os seus
cavalos de posta para o meio-dia.

Mas Danglars no contara com as formalidades da polcia nem
com a preguia do homem da posta.

Os cavalos s chegaram s duas horas e o cicerone s voltou
com o passaporte visado s trs horas.

Os descendentes dos Gracos e de Mrio tambm no faltaram ao
bota-fora.

O baro atravessou triunfalmente os grupos, que lhe chamavam
Excelncia para apanharem um bajocco.

Como Danglars, homem popularssimo, como sabemos, se
contentara at ali que o tratassem por baro e ainda no fora
tratado por Excelncia, este titulo lisonjeou-o e por isso
distribuiu uma dzia de pauls a toda aquela canalha, mais que
disposta, por outros doze pauls, a trat-lo por Alteza.

- Por que estrada? - perguntou o postilho em italiano.

- Estrada de Ancona - respondeu o baro.

Mestre Pastrini traduziu a pergunta e a resposta e a carruagem
partiu a galope.

Danglars queria, efectivamente, chegar a Veneza, receber a
parte da sua fortuna e, depois de Veneza, alcanar Viena, onde
realizaria o resto.

A sua inteno era fixar-se nesta ltima cidade, que lhe
tinham garantido ser uma cidade de prazeres.

Mal percorreu trs lguas na campina de Roma comeou a
anoitecer. Danglars no esperara partir to tarde, pois de
contrrio teria ficado. Assim, perguntou ao postilho quanto
faltava para chegaram  prxima cidade.

- Non capisco - respondeu o postilho.

Danglars fez um gesto com a cabea que queria dizer: "Muito
bem! "

A carruagem continuou o seu caminho.

"Na primeira posta mand-lo-ei parar", disse Danglars para
consigo.

Danglars experimentava ainda um resto do bem-estar que sentira
na vspera e lhe proporcionara to boa noite. Estava
estiraado molemente numa boa calea inglesa de molas duplas,
sentia-se levado pelo galope de dois bons cavalos e a
distncia entre cada muda era de sete lguas e ele sabia-o.
Que fazer quando se  banqueiro e se teve a sorte de falir?

Danglars pensou dez minutos na mulher que deixara em Paris,
outros dez minutos na filha correndo o mundo com Mademoiselle
de Armilly, concedeu mais dez minutos aos seus credores e 
forma como empregaria o seu dinheiro, e depois, no tendo mais
nada em que pensar, fechou os olhos e adormeceu.

No entanto, de vez em quando, sacudido por um solavanco mais
forte do que os outros, Danglars abria por um momento os
olhos. Mas continuava a sentir-se, transportado com a mesma
velocidade atravs da campina romana, toda salpicada de
aquedutos em runas, que pareciam gigantes de granito
petrificados no meio da sua corrida. Alm disso, a noite
estava fria, escura e chuvosa, e era muito mais agradvel para
um homem meio adormecido permanecer no fundo da sua sege de
olhos fechados do que deitar a cabea fora da portinhola para
perguntar onde estavam a um postilho que s sabia responder.
"non capisco."

Danglars continuou portanto a dormir, dizendo para consigo que
teria sempre tempo de acordar na muda.

A carruagem parou. Danglars pensou que chegara finalmente ao
ponto to desejado.

Abriu os olhos, olhou atravs do vidro e esperou encontrar-se
no meio de qualquer cidade ou pelo menos de qualquer aldeia.
Mas no viu nada, excepto uma espcie de casebre isolado, e
trs ou quatro homens que iam e vinham como fantasmas.

Danglars esperou um instante que o postilho que acabara de
chegar lhe viesse pedir o dinheiro da posta. Tencionava
aproveitar a oportunidade para pedir algumas informaes ao
seu novo condutor. Mas os cavalos foram desatrelados e
substitudos sem que ningum viesse pedir dinheiro ao
viajante. Danglars, surpreendido, abriu a portinhola; mas uma
mo vigorosa empurrou-o imediatamente para dentro e a sege
ps-se em andamento.

O baro, estupefacto, acordou por completo.

- Eh! - gritou ao postilho. - Eh, mio caro!

Era ainda o italiano de romana, que Danglars fixara quando a
filha cantava duos com o prncipe Cavalcanti.

Mas o mio caro no respondeu.

Danglars limitou-se ento a abrir o vidro.

- Eh, amigo! Aonde vamos? - perguntou, metendo a cabea pela
abertura.

- Dentro la testa! - gritou uma voz grave e imperiosa,
acompanhada de um gesto de ameaa.

Danglars compreendeu que dentro la testa queria dizer "cabea
para dentro". Fazia, como vemos, rpidos progressos no
italiano.

Obedeceu, no sem inquietao, e como a inquietao aumentava
de minuto a minuto, passados alguns instantes o seu esprito,
em vez do vcuo que assinalmos no momento da partida e que o
levara a adormecer, o seu esprito, dizamos, encontrou-se
cheio de inmeros pensamentos, uns mais prprios do que outros
para manterem desperto o interesse de um viajante, e sobretudo
de um viajante na situao de Danglars.

Os seus olhos adquiriram nas trevas o grau de acuidade que
transmitem no primeiro momento as emoes fortes e que se
embota mais tarde por excesso de utilizao. Antes de se ter
medo, v-se bem; enquanto se tem medo, v-se a dobrar, e
depois de se ter medo v-se nublado.

Danglars viu um homem envolto numa capa que galopava 
portinhola da direita.

- Algum gendarme - murmurou. - Terei sido assinalado pelos
telgrafos franceses s autoridades pontifcias?

Resolveu sair de semelhante ansiedade.

- Para onde me levam? - perguntou.

- Dentro la testa! - repetiu a mesma voz no mesmo tom de
ameaa.

Danglars virou-se para a portinhola da esquerda.

Outro homem a cavalo galopava  portinhola da esquerda.

"Decididamente", pensou Danglars com a testa coberta de suor,
"decididamente, fui apanhado..."

E recostou-se no fundo da calea, desta vez no para dormir,
mas sim para pensar.

Pouco depois a Lua surgiu no cu.

Do fundo da calea olhou para os campos; tornou a ver ento os
grandes aquedutos, fantasmas de pedra que notara ao passar;
simplesmente, em vez de os ter  direita, tinha-os agora 
esquerda.

Compreendeu que tinham obrigado a carruagem a dar meia volta e
que o levavam novamente para Roma.

- Que pouca sorte - murmurou --, devem ter obtido a
extradio!

A carruagem continuava a correr com espantosa velocidade.
Passou uma hora terrvel, pois em cada novo ponto de
referncia que via  sua passagem o fugitivo reconhecia, sem
sombra de dvida, que o reconduziam ao ponto de partida. Por
fim distinguiu uma massa sombria contra a qual lhe pareceu que
a carruagem ia chocar. Mas a carruagem virou e contornou essa
massa sombria, que no passava da cintura de muralhas que
rodeia Roma.

- Oh, oh! - murmurou Danglars. - No entramos na cidade, o que
prova que no estou nas mos da justia. Meu Deus, ser
que...?

Os cabelos eriaram-se lhe.

Recordou-se das interessantes histrias de bandidos romanos,
to pouco acreditadas em Paris, que Albert de Morcerf contara
 Sr.a Danglars e a Euenie quando o jovem visconde ainda
aspirava a ser genro de uma e marido da outra.

- So talvez ladres! - murmurou.

De repente, a carruagem rodou sobre qualquer coisa mais dura
do que o cho de um caminho arenoso. Danglars arriscou um
olhar aos dois lados da estrada. Distinguiu monumentos de
forma estranha e o seu pensamento, preocupado com a histria
de Morcerf, que lhe surgia agora em todos os seus pormenores,
o seu pensamento disse-lhe que devia estar na Via pia.

 esquerda da carruagem, numa espcie de vale, via-se uma
escavao circular.

Era o Circo de Caracala.

A uma ordem do homem que galopava  portinhola da direita, a
carruagem parou.

Ao mesmo tempo, a portinhola da esquerda abriu-se.

- Scendi! - ordenou uma vez.

Danglars desceu imediatamente. Ainda no falava italiano, mas
j o entendia.

Mais morto do que vivo, o baro olhou  sua volta.

Rodeavam-no quatro homens, sem contar com o postilho.

- Di qu - disse um dos quatro homens, descendo um carreirinho
que levava  Via pia, no meio das desigualdades do terreno da
campina romana.

Danglars seguiu o seu guia, sem discusso, e no teve
necessidade de se virar para saber que o seguiam mais trs
homens.

Pareceu-lhe no entanto que esses homens se detinham como
sentinelas a distncias pouco mais ou menos iguais.

Aps cerca de dez minutos de caminho, durante os quais
Danglars no trocou uma nica palavra com o seu guia,
encontrou-se entre um cabeo e uma moita de ervas altas.
Trs homens de p e calados formavam um tringulo de que ele
era o centro.

Quis falar, mas a lngua embaraou-se-lhe.

- Avanti - disse a mesma voz de tom breve e imperioso.

Desta vez, Danglars compreendeu duplamente: compreendeu pela
palavra e pelo gesto, pois o homem que vinha atrs empurrou-o
to rudemente para diante que ele foi de encontro ao guia.

O guia era o nosso amigo Peppino, que se meteu atravs das
ervas altas por uma sinuosidade que s os fures-bravos e os
lagartos seriam capazes de reconhecer como um caminho aberto.

Peppino deteve-se diante de uma rocha encimada por uma moita
espessa. Essa rocha, entreaberta como uma plpebra, deu
passagem ao rapaz, que desapareceu nela como desaparecem nos
seus alapes os diabos das nossas mgicas.

A voz e o gesto do que seguia Danglars "convidaram" o
banqueiro a fazer o mesmo. No havia que duvidar: o falido
francs estava a contas com os bandidos romanos.

Danglars decidiu-se como um homem colocado entre dois perigos
terrveis e a quem o medo d coragem. Apesar de a sua barriga
o no ajudar muito a entrar nas grutas da campina de Roma, l
se introduziu atrs de Peppino e, deixando-se escorregar de
olhos fechados, conseguiu cair em p.

Logo que tocou no solo abriu os olhos.

O caminho era amplo, mas escuro. Peppino, pouco preocupado em
esconder-se, agora que estava em "casa", petiscou lume e
acendeu um archote.

Mais dois homens desceram atrs de Danglars, formando a
retaguarda, os quais, empurrando o banqueiro quando por acaso
parava, o fizeram chegar por uma rampa suave ao meio de uma
encruzilhada de aspecto sinistro.

Com efeito, as paredes, escavadas em forma de tmulos
sobrepostos, pareciam no meio das pedras brancas, rbitas
negras e profundas como as das caveiras.

Uma sentinela bateu com a mo esquerda no fuste da carabina.

- Quem vem l? - perguntou a sentinela.

- Amigo, amigo! - respondeu Peppino. - Onde est o capito?

- Ali - respondeu a sentinela, indicando por cima do ombro uma
espcie de grande sala aberta na rocha e cuja luz se reflectia
no corredor atravs de grandes aberturas arqueadas.

- Boa presa, capito; boa presa - disse Peppino em italiano.

E agarrando Danglars pela gola da redingote, conduziu-o para
uma abertura semelhante a uma porta e pela qual se penetrava
na sala em que o capito parecia alojar-se.

-  esse o homem? - perguntou o capito, que lia muito
atentamente a Vida de Alexandre, de Plutarco.

- O prprio, capito; o prprio.

- Muito bem. Mostra-mo.

Cumprindo esta ordem, alis bastante impertinente, Peppino
aproximou to bruscamente o archote da cara de Danglars que
este recuou sobressaltado, para no ficar com as sobrancelhas
queimadas.

O seu rosto transtornado apresentava todos os indcios de um
plido e abjecto terror.

- Esse homem est cansado - disse o capito. - Conduzam-no 
sua cama.

- Oh! - murmurou Danglars. - A cama  provavelmente um dos
tmulos escavados na parede e o sono a morte que um dos
punhais que vejo cintilar na sombra me vai dar.

Com efeito, nas profundezas escuras da imensa sala
soerguiam-se nas suas camas de ervas secas ou de peles de lobo
os companheiros do homem que Albert de Morcerf encontrara a
ler os Comentrios de Csar e que Danglars encontrava a ler a
Vida de Alexandre.

O banqueiro soltou um gemido abafado e seguiu o seu guia. No
tentou suplicar nem gritar. J no tinha nem coragem, nem
vontade, nem fora, nem sensibilidade; iria para onde o
arrastassem.

Tropeou num degrau e, compreendendo que havia uma escada na
sua frente, baixou-se instintivamente para no partir a cabea
e encontrou-se numa cela talhada em plena rocha.

A cela estava limpa, apesar de vazia, e seca, apesar de
situada debaixo da terra a uma profundidade incomensurvel.

Uma cama de ervas secas cobertas de peles de cabra
encontrava-se, no erguida, mas estendida, num canto da cela.
Ao v-la, Danglars julgou ver o smbolo radioso da sua
salvao.

- Deus seja louvado,  uma verdadeira cama! - murmurou.
Era a segunda vez numa hora que invocava o nome de Deus, coisa
que lhe no acontecia havia dez anos.

- Ecco - disse o guia.

E empurrou Danglars para dentro da cela e fechou a porta.

Rangeu um ferrolho, Danglars estava prisioneiro.

De resto, mesmo que no houvesse ferrolho seria necessrio ser
S. Pedro e ter por guia um anjo do cu para passar atravs da
guarnio que ocupava as Catacumbas de S. Sebastio e acampava
 volta do seu chefe, no qual os nossos leitores j certamente
reconheceram o famoso Luigi Vampa.

Danglars tambm reconhecera o bandido, em cuja existncia no
quisera acreditar quando Morcerf tentara descrev-lo em
Frana. No s o reconhecera, como tambm reconhecera a cela
em que Morcerf estivera encerrado e que, segundo todas as
probabilidades, era o alojamento dos estranhos.

Estas recordaes, nas quais, de resto, Danglars se comprazia
com certa satisfao, restituam-lhe a tranquilidade. Uma vez
que o no tinham matado imediatamente, era porque os bandidos
no tencionavam mesmo mat-lo.

Tinham-no capturado para o roubar, e como s trazia consigo
alguns luses, exigir-lhe-iam com certeza algum resgate.

Recordou-se de que Morcerf fora taxado em qualquer coisa como
quatro mil escudos; como se atribua um aspecto muito mais
importante do que Morcerf; fixou pessoalmente no seu esprito
que o seu resgate seria de oito mil escudos.

Oito mil escudos correspondiam a quarenta mil libras.

Ficava-lhe ainda qualquer coisa como cinco milhes e cinquenta
mil francos.

Com isso, um homem safava-se em qualquer parte.

Portanto, quase certo de se tirar de apuros, atendendo a que
no havia exemplo de alguma vez se ter taxado um homem em
cinco milhes e cinquenta mil libras, Danglars deitou-se na
sua cama, onde, depois de se virar duas ou trs vezes,
adormeceu com a tranquilidade do heri cuja histria Luigi
Vampa estudava.

captulo CXV


A ementa de Luigi Vampa

Todo o sono que no seja aquele que Danglars temia tem o seu
despertar. Danglars acordou.


Para um parisiense habituado aos cortinados de seda, s
paredes aveludadas e ao perfume que deita a lenha a arder
esbranquiada na chamin e que cai das abbadas de cotim, o
acordar numa gruta de pedra gredosa deve ser como que um sonho
de mau agoiro.

Ao tocar nas suas cortinas de pele de bode, Danglars devia
julgar que dormira com samoiedos ou lapes.

Mas em semelhante circunstncia, um segundo bastou para
transformar a dvida mais firme em certeza.

- Sim, sim - murmurou --, estou nas mos dos bandidos de que
nos falou Albert de Morcerf.

O seu primeiro movimento foi respirar, a fim de se assegurar
de que no estava ferido. Era um meio que descobrira no D.
Quixote, o nico livro, no que tivesse lido, mas de que
retivera alguma coisa.

- No, no me mataram nem feriram, mas talvez me tenham
roubado...

E levou vivamente as mos s algibeiras. Estavam intactas: os
cem luses que reservara para a viagem de Roma a Veneza
encontravam-se na algibeira das calas e a carteira que
continha a carta de crdito de cinco milhes e cinquenta mil
francos estava na algibeira da redingote.

- Singulares bandidos, que me deixam a bolsa e a carteira!
Como dizia ontem quando me deitei, vo exigir-me resgate.
Olha, tambm tenho o relgio!... Vejamos que horas so.

O relgio de Danglars, obra-prima de Brguet, a que dera
cuidadosamente corda na vspera, antes de iniciar a viagem,
deu cinco e meia da manh. Sem ele, Danglars teria ficado
completamente s aranhas a respeito das horas, pois a luz no
penetrava na sua cela.

Deveria provocar uma explicao por parte dos bandidos?

Deveria esperar pacientemente que lha dessem? A ltima
alternativa era a mais prudente. Danglars esperou.

Esperou at ao meio-dia.

Entretanto, uma sentinela guardara-lhe a porta. s oito da
manh a sentinela fora rendida.

Danglars sentira ento vontade de ver quem o guardava.

Notara que raios de luz, no do dia, mas sim de lanterna,
se filtravam atravs das tbuas da porta mal juntas.
Aproximou-se de uma dessas aberturas no preciso momento em que
o bandido bebia algumas goladas de aguardente, a qual, devido
ao odre de pele que a continha, exalava um cheiro que repugnou
muito a Danglars.

- Puf! - exclamou, recuando at ao fundo da cela.

Ao meio-dia o homem da aguardente foi substitudo por outra
sentinela. Danglars teve curiosidade de ver o seu novo guarda
e aproximou-se mais uma vez das juntas.

Aquele era um bandido atltico, um Golias de grandes olhos,
lbios grossos e nariz achatado. A cabeleira ruiva pendia-lhe
sobre os ombros em madeixas encaracoladas como cobras.

- Oh, oh, este parece mais um papo do que uma criatura
humana! - disse Danglars. - Em todo o caso, sou velho e
bastante duro; branco gordo no presta para comer.

Como se v, Danglars tinha ainda suficiente presena de
esprito para gracejar.

No mesmo instante, como que para lhe provar que no era um
papo, o guarda sentou-se diante da porta da cela, tirou da
sacola po escuro, cebolas e queijo e comeou incontinente, a
devor-los.

- Diabos me levem - disse Danglars, deitando atravs das
fendas da porta uma olhadela ao almoo do bandido --, diabos
me levem se compreendo como se podem comer semelhantes
porcarias.

E foi sentar-se nas peles de bode, que lhe recordavam o cheiro
da aguardente da primeira sentinela.

Mas, por mais esquisito que Danglars fosse, os segredos da
natureza so incompreensveis e h muita eloquncia em certos
convites materiais dirigidos pelas mais grosseiras substncias
aos estmagos em jejum.

Danglars sentiu de sbito que o seu no tinha fundo naquele
momento e achou o homem menos feio, o po menos negro e o
queijo mais fresco.

Finalmente, as cebolas cruas, horrvel alimentao do
selvagem, recordaram-lhe certos molhos Robert e certas carnes
de cebolada que o seu cozinheiro preparava de forma superior
quando Danglars lhe dizia: "Sr. Deniseau, faa-me para hoje um
bom pratinho canalha."

Levantou-se e foi bater  porta.

O bandido ergueu a cabea.

Danglars viu que tora ouvido e insistiu.

- Che cosa? - perguntou o bandido.

- Oua, oua, amigo - disse Danglars, tamborilando com os
dedos na porta --, parece-me que j  tempo de pensarem em
dar-me tambm de comer!

Mas, fosse por no ter compreendido, tosse por no ter ordens
a respeito da alimentao de Danglars, o gigante voltou ao seu
almoo.

Danglars sentiu o seu orgulho ferido e, no querendo mais
conversa com o bruto, deitou-se nas suas peles de bode e no
disse mais nada.

Passaram quatro horas e o gigante foi substitudo por outro
bandido. Danglars, que experimentava horrveis espasmos de
estmago, levantou-se devagarinho, aplicou mais uma vez o olho
s fendas da porta e reconheceu a cara inteligente do seu
guia.

Era com efeito Peppino que se preparava para levar a guarda o
mais agradavelmente possvel sentando-se diante da porta e
pousando entre os joelhos um tacho de barro contendo, quentes
e cheirosos, gro e toucinho de fricass.

Junto do tacho, Peppino pousou ainda um lindo cesto de uvas de
Veletri e uma garrafa de vinho de Orvieto.

Decididamente, Peppino era um gastrnomo.

Ao ver aqueles preparativos gastronmicos, Danglars sentiu
crescer-lhe gua na boca.

- Ah, ah! - exclamou o prisioneiro. - Vejamos se este  mais
tratvel do que o outro...

E batou delicadamente na porta.

- L vamos - respondeu o bandido, que, devido  frequncia da
casa de mestre Pastrini, acabara por aprender o francs,
incluindo os seus idiotismos.

De facto, foi abrir.

Danglars reconheceu-o como aquele que lhe gritara furioso:
"Cabea para dentro!" Mas no era altura para recriminaes.
Mostrou, pelo contrrio, a sua cara mais agradvel e perguntou
com um sorriso gracioso:

- Perdo, senhor, mas tencionaro no me dar tambm de jantar?

- Como, V. Ex.a estar por acaso com fome?  - estranhou
Peppino.

- Essa do "por acaso" est boa - murmurou Danglars. - H
precisamente vinte e quatro horas que no como...

Depois, erguendo a voz, acrescentou:

- Mas claro, senhor, que tenho fome, e at muita fome!

- E V. Ex.a quer comer?

- Imediatamente, se for possvel.

- Nada mais fcil - respondeu Peppino. - Aqui arranja-se tudo
o que se queira, pagando, bem entendido, como acontece entre
todos os cristos honestos.

- Claro! - exclamou Danglars. - Embora, na verdade, as pessoas
que nos prendem e conservam prisioneiros devessem ao menos
alimentar-nos.

- Ah, Excelncia, no  costume! - redarguiu Peppino.

- Parece-me uma razo muito pouco convincente - volveu-lhe
Danglars, que contava amaciar o seu guarda com a sua
amabilidade --, mas conformo-me com ela. Ento, quando me do
de comer?

- Imediatamente, Excelncia. Que deseja?

E Peppino pousou o tacho no cho, de tal forma que o fumo
subiu directamente s narinas de Danglars.

- Vamos, pea!

- Tm cozinhas aqui? - perguntou o banqueiro.

- Se temos cozinhas?! Temos cozinhas completas!

- E cozinheiros?

- Excelentes!

- Ento, tragam-me um frango, peixe, caa... qualquer coisa,
contanto que eu coma.

- Como V. Ex. queira. Um frango, est bem?

- Sim, um frango.

Peppino levantou-se e gritou a plenos pulmes:

- Um frango para Sua Excelncia!

A voz de Peppino ainda vibrava nas abbadas e j aparecia um
rapaz, belo, esbelto, e seminu como os peixeiros antigos.
Trazia um frango numa travessa de prata, frango que se
segurava sozinho na cabea.

- Parece que estamos no Caf de Paris - murmurou Danglars.

- Pronto, Excelncia - disse Peppino, tirando o frango das
mos do jovem bandido e colocando-o em cima de uma mesa
carunchosa, que, com um banco e a cama de peles de bode,
constitua todo o mobilirio da cela.

Danglars pediu um garfo e uma faca.

- Aqui tem, Excelncia - disse Peppino, oferecendo-lhe uma
faquita de ponta romba e um garfo de buxo.

Danglars pegou na faca com unia das mos e no garfo com a
outra e comeou a trinchar a ave.

- Perdo, Excelncia - disse Peppino, pousando a mo no ombro
do banqueiro --, mas aqui paga-se antes de comer. As pessoas
podem no ficar satisfeitas no fim...

- Ah, ah, j no  como em Paris, sem contar que provavelmente
vo-me esfolar! - exclamou Danglars. - Mas faamos as coisas 
grande... Sempre ouvi dizer que a vida  barata na Itlia; um
frango deve valer doze soldos em Roma... Aqui tem -
acrescentou, atirando um lus a Peppino.

Peppino apanhou o lus e Danglars; aproximou a faca do frango.

- Um momento, Excelncia - disse Peppino, endireitando-se. -
Um momento. V. Ex.a ainda me fica a dever qualquer coisa...

- No dizia eu que me esfolariam? - comentou Danglars para
consigo.

Depois, resolvido a ver at onde ia a extorso, perguntou:

- Vejamos, quanto lhe fico a dever por esta ave esqueltica?

- V. Ex.a deu um lus por conta.

- Um lus por conta de um frango?

- Sem dvida, por conta.

- Bom, bom, no me venha com essa!...

- V. Ex.a fica-me ainda a dever apenas quatro mil novocentos e
noventa e nove luses.

Danglars esbugalhou os olhos ao ouvir to gigantesca pilhria.

- Muito engraado, no h dvida... - murmurou.

E quis continuar a trinchar o frango. Mas Peppino deteve-lhe a
mo direita com a mo esquerda e estendeu a outra mo.

- Vamos - disse.

- O qu, no estava a brincar?! - perguntou Danglars.

- Ns nunca brincamos, Excelncia - respondeu Peppino, srio
como um quacre.

- Como, cem mil francos este frango?!

- Excelncia,  incrvel o trabalho que d criar galinceos
nestas malditas grutas.

- Est bem, est bem! - atalhou Danglars. - Acho isso muito
cmico, muito divertido, na verdade, mas, como tenho fome,
deixe-me comer. Olhe, tome l mais um lus para si, meu amigo.

- Ento agora s fica a dever quatro mil novecentos e noventa
e oito luses - disse Peppino, conservando o mesmo
sangue-frio. - Com pacincia, l chegaremos...

- Oh, quanto a isso - redarguiu Danglars, revoltado com aquela
perseverana em o desfrutar --, quanto a isso nunca! V para o
diabo! No sabe com quem est a tratar...

Peppino fez um sinal, o rapaz estendeu as mos e retirou
rapidamente o frango. Danglars atirou-se para cima da sua cama
de peles de bode, Peppino, voltou a fechar a porta e continuou
a comer o seu gro com toucinho.

Danglars no podia ver o que fazia Peppino, mas o bater dos
dentes do bandido no devia deixar ao prisioneiro qualquer
dvida acerca do exerccio a que se dedicava.

Era evidente que comia; embora comesse ruidosamente e como um
homem mal educado.

- Alarve! - gritou Danglars.

Peppino fez de conta que no ouvira, e sem sequer virar a
cabea continuou a comer com propositada lentido.

Danglars tinha a sensao de ter o estmago furado como o
tonel das Danaides e desconfiava que nunca o conseguiria
encher.

No entanto, armou-se de pacincia durante mais meia hora; mas
 justo dizer que essa meia hora lhe pareceu um sculo.

Levantou-se e dirigiu-se de novo para a porta.

- Vejamos, senhor, no abusem mais tempo da minha pacincia e
digam-me imediatamente o que querem de mim

- Mas, Excelncia, diga antes o que quer de ns... D-nos as
suas ordens e cumpri-las-emos.

- Ento abra primeiro.

Peppino abriu.

- Quero... - comeou Danglars. -- Irra, quero comer!

- Tem fome?

- Bem sabe que tenho.

- Que deseja comer V. Ex.a?

- Um naco de po seco, visto os frangos serem demasiado caros
nestes malditos subterrneos.

- Po? Seja - concordou Peppino. - Ol, po! - gritou.

O rapaz trouxe um pozinho.

- Pronto! - disse Peppino.

- Quanto? - perguntou Danglars.

- Quatro mil novecentos e noventa e oito luses. H dois
luses pagos adiantados.

- Como, um po cem mil francos?...

- Cem mil francos - repetiu Peppino.

- Mas tambm me pediu cem mil francos por um frango!

- Ns no servimos  lista, mas sim a preo fixo. Quer se coma
pouco, quer se coma muito, quer se peam dez pratos, quer se
pea s um, paga-se sempre o mesmo.

- Outra brincadeira! Meu caro amigo, declaro-lhe que tudo isto
 absurdo, estpido! Diga-me de uma vez que querem que morra
de fome e acabaremos mais depressa.

- Mas no, Excelncia! V. Ex.a  que se quer suicidar... Pague
e comer.

- Pagar com qu, grande animal? - redarguiu Danglars,
exasperado. - Julgas que algum traz cem mil francos na
algibeira?

- O senhor traz cinco milhes e cinquenta mil francos na sua,
Excelncia... - observou Peppino. - Isso d para cinquenta
frangos a cem mil francos e para meio frango a cinquenta
mil...

Danglars estremeceu; a venda caiu-lhe dos olhos: continuavam a
brincar com ele, mas finalmente compreendia a brincadeira.

E at de justia que se diga que j a no achava to chata
como pouco antes.

- Vejamos, vejamos... Se lhes der os cem mil francos ficarei
quite e poderei comer  minha vontade?

- Sem dvida - respondeu Peppino.

- Mas como hei-de d-los? - perguntou Danglars, respirando
mais livremente.

- Nada mais fcil. O senhor tem um crdito aberto na casa
Thomson  French, Via dei Banchi, Roma. D-nos uma ordem de
pagamento de quatro mil  novecentos e noventa e oito luses
sobre esses senhores e o nosso banqueiro cobr-la-.
Danglars quis ao menos atribuir-se o mrito da boa vontade;
pegou na pena e no papel que lhe apresentava Peppino, escreveu
a ordem e assinou-a.

- Pronto, aqui tem a sua ordem ao portador.

- E o senhor aqui tem o seu frango.

Danglars trinchou a ave suspirando; parecia-lhe muito magra
para to elevada quantia.

Quanto a Peppino, leu atentamente o papel, guardou-o na
algibeira e continuou a comer o gro.


Captulo CXVI

O PERDO


No dia seguinte, Danglars voltou a ter fome, o ar daquela
caverna abria o apetite. Naquele dia, porm, o prisioneiro
julgou que no teria de fazer qualquer despesa, pois, como um
homem econmico, escondera metade do frango e um naco de po
num canto da cela.

Mas, mesmo sem comer, teve sede, coisa com que no contara.

Lutou contra a sede at sentir a lngua ressequida
pegar-se-lhe ao cu-da-boca.

Ento, no podendo resistir mais ao fogo que o devorava,
chamou.

A sentinela abriu a porta; era uma cara nova.

Pensou que era prefervel tratar com um antigo conhecido e
chamou Peppino.

- Aqui me tem, Excelncia - disse o bandido, apresentando-se
com uma rapidez que pareceu de bom augrio a Danglars. - Que
deseja?

- Beber - respondeu o prisioneiro.

- Excelncia, como sabe, o vinho  carssimo nos arredores de
Roma... - observou Peppino.

- Ento d-me gua - pediu Danglars, procurando aparar a
estocada.

- Oh, Excelncia, a gua ainda  mais rara do que o vinho! Tem
estado uma tal seca!...

- Pronto, vamos recomear, ao que parece... - disse Danglars
para consigo.

E embora sorrindo para ter o ar de gracejar, o desgraado
sentia o suor humedecer-lhe as tmporas.

- Ento, meu amigo - disse Danglars, vendo que Peppino
permanecia impassvel --, s lhe peo um copo de vinho; ser
capaz de mo recusar?

- J lhe disse, Excelncia - respondeu gravemente Peppino --,
que no vendamos a retalho.

- Nesse caso, d-me uma garrafa.

- De qual?

- Do menos caro.

- So todos do mesmo preo.

- E qual  o preo?

- Vinte e cinco mil francos a garrafa.

- Ser melhor dizerem que me querem arrancar a pele e acabarem
depressa com isto do que devorarem-me assim, pedao a pedao!
- protestou Danglars  com uma amargura que s Harpago seria
capaz de notar no diapaso da voz
humana.

-  possvel - admitiu Peppino - que seja esse o projecto do
chefe.

- Quem  o chefe?

- Aquele  presena de quem o conduziram anteontem.

- E onde est ele?

- Aqui.

- Gostaria de lhe falar.

-  fcil.

Pouco depois, Luigi Vampa estava diante de Danglars.

- Chamou-me? - perguntou ao prisioneiro.

- O senhor  que  o chefe das pessoas que me trouxeram para
aqui?

- Sou, sim, Excelncia.

- Que resgate deseja de mim? Fale.

- Apenas os cinco milhes que traz consigo.

Danglars sentiu um espasmo horrvcl apertar-lhe o corao.

- S tenho isso no mundo, senhor, e  o resto de uma enorme
fortuna. Se mo tirar, tira-me a vida.

- Estamos proibidos de derramar o seu sangue, Excelncia.

- Proibidos por quem?

- Por aquele a quem obedecemos.

- Obedecem portanto a algum?

- Sim, a um chefe.

- Julgava que o chefe fosse o senhor.

- Eu sou o chefe destes homens; mas h outro homem que  meu
chefe.

- E esse chefe obedece a algum?

- Obedece.

- A quem?

- A Deus.

Danglars ficou um momento pensativo.

- No o compreendo - confessou.

-  possvel.

- E foi esse chefe que lhos mandou tratarem-me assim?

- Foi.

- Com que fim?

- No sei.

- Mas a minha bolsa esgotar-se-...

-  provvel.

- Vejamos, quer um milho? - perguntou Danglars.

- No.

- Dois milhes?

- No.

- Trs milhes? Quatro? Vejamos, quatro? Dou-lhos com a
condio de me deixar ir embora.

- Porque nos oferece quatro milhes pelo que vale cinco? -
perguntou Vampa. - Isso  usura, Sr. Banqueiro, ou eu  no
percebo nada dessas coisas.

- Fiquem com tudo! Fiquem com tudo, j disse! - gritou
Danglars. - E matem-me!

- Ento, ento, acalme-se, Excelncia. Assim activa a
circulao do sangue e arranja um apetite que  capaz de comer
um milho por dia... Seja mais poupado, com a breca!

- E quando no tiver dinheiro para lhes pagar? - gritou
Danglars, exasperado.

- Passar fome...

- Passarei fome? - repetiu Danglars, empalidecendo.

-  provvel - respondeu fleumaticamente Vampa.

- Mas o senhor disse que no me queriam matar...

- E no queremos.

- Mas querem deixar-me morrer de fome?

- No  a mesma coisa.

- Miserveis! - gritou Danglars. - Pois eu frustrarei os seus
clculos infames! Morrer por morrer, prefiro morrer j.
Faam-me sofrer, torturem-me, matem-me, mas no tero mais a
minha assinatura!

- Como quiser, Excelncia - redarguiu Vampa.

E saiu da cela.

Danglars atirou-se, rugindo, para cima das peles de bode.
Quem eram aqueles. homens? Quem era o chefe invisvel?
Que projectos tinham a seu respeito? E quando toda a gente se
podia resgatar, por que motivo s ele no podia?

Oh, sim, a morte, uma morte rpida e violenta, era um bom meio
de enganar os seus inimigos encarniados que pareciam
submet-lo a uma vingana incompreensvel!

Pois sim, mas morrer!...

Talvez pela primeira vez, na sua longa carreira, Danglars
pensasse na morte simultaneamente com o desejo e o receio de
morrer. Mas chegara para ele o momento de deter a vista no
espectro implacvel que existe em toda a criatura, que a cada
pulsao do corao diz a si mesma: "Morrers!"

Danglars assemelhava-se quelas feras que a caa anima, que
depois desespera, e que,  fora de desespero, conseguem por
vezes salvar-se.

Danglars pensou numa evaso.

Mas as paredes eram a prpria rocha; mas na nica sada fora
da cela um homem lia, e atrs desse homem viam-se passar e
repassar sombras armadas de espingarda.

A sua resoluo de no voltar a assinar durou dois dias,
passados os quais pediu alimentos e ofereceu um milho.

Serviram-lhe um jantar magnfico e levaram-lhe o milho.

Desde ento, a vida do pobre prisioneiro foi uma divagao
perptua. Sofrera tanto que j no queria expor-se a sofrer e
suportava todas as exigncias. Passados doze dias, numa tarde
em que almoara como nos seus belos dias de
fortuna, fez as suas contas e verificou que passara tantas
ordens de pagamento ao portador que j s lhe restavam
cinquenta mil francos.

Ento, operou-se nele uma reaco estranha: o homem que abrira
mo de cinco milhes tentou salvar os cinquenta mil francos
que lhe restavam. Em vez de dar esses cinquenta mil francos,
resolveu voltar a uma vida de privaes e teve momentos de
esperana que raiavam a loucura. Ele, que havia tanto tempo
esquecera Deus recordou-o para dizer para consigo que s vezes
Deus fazia milagres: que a caverna podia esmoronar-se; que os
carabineiros pontifcios podiam descobrir aquele esconderijo
maldito e vir em seu socorro; que ento ainda lhe restariam
cinquenta mil trancos para impedir um homem de morrer de fome.
E pediu a Deus que lhe conservasse os cinquenta mil francos, e
enquanto suplicava chorou.

Passaram-se assim trs dias, durante os quais o nome de Deus
esteve constantemente, seno no seu corao, pelo menos nos
seus lbios. De vez em quando tinha momentos de delrio em que
julgava ver, atravs das janelas, num pobre quarto, um velho
agonizar num catre.

Esse velho tambm morria de fome.

Ao quarto dia j no era um homem, era um cadver vivo.
Apanhara do cho as ltimas migalhas das suas antigas
refeies e comeara a devorar a esteira que cobria o cho.

Ento suplicou a Peppino, como se suplica ao anjo-da-guarda,
que lhe desse qualquer coisa de comer, e ofereceu-lhe mil
francos por um naco de po.

Peppino no respondeu.

Ao quinto dia arrastou-se at  entrada da cela.

- Mas voc no  um cristo? - perguntou, erguendo-se nos
joelhos. - Quer assassinar um homem que  um irmo perante
Deus? Oh, os meus amigos doutros tempos, os meus amigos
doutros tempos!... - murmurou.

E caiu de bruos no cho.

Depois levantou-se com uma espcie de desespero e gritou:

- O chefe! O chefe!

- Aqui estou - disse Vampa, aparecendo de repente. - Que mais
deseja?

- Tome o meu ltimo ouro - balbuciou Danglars estendendo-lhe a
carteira - e deixe-me viver aqui, nesta caverna; j no peo a
liberdade, s peo que me deixem viver.

- Sofre muito? - perguntou Vampa.

- Oh, sim, sofro, e cruelmente!

- Pois h homens que ainda sofreram mais do que o senhor.

- No acredito.

- Pois pode acreditar. Aqueles que morreram de fome.

Danglars pensou no velho que, durante as suas horas de
alucinao, via atravs das janelas do seu pobre quarto gemer
no seu leito.

Bateu com a testa no cho e gemeu.

- Sim,  verdade, h quem tenha sofrido ainda mais do que eu,
mas esses ao menos eram mrtires.

- Est pelo menos arrependido? - perguntou uma voz sombria e
solene, que fez eriar os cabelos na cabea de Danglars.

O seu olhar enfraquecido procurou distinguir os objectos e viu
atrs do bandido um homem envolto numa capa e oculto na sombra
de uma coluna de pedra.

- Arrependido de qu? - balbuciou Danglars.

- Do mal que fez - disse a mesma voz.

- Oh, sim, estou arrependido, estou arrependido! - gritou
Danglars.

E bateu no peito com o punho emagrecido.

- Ento perdoo-lhe - disse o homem, tirando a capa e dando um
passo para se colocar debaixo da luz.

- O conde de Monte-Cristo! - exclamou Danglars, mais plido de
terror do que estava um momento antes de fome e misria.

- Engana-se, no sou o conde de Monte-Cristo.

- Quem  ento?

- Sou aquele que o senhor vendeu, entregou, desonrou; sou
aquele cuja noiva o senhor infamou; sou aquele que o senhor
calcou para se erguer at  fortuna; sou aquele cujo pai o
senhor fez morrer de fome, que condenou a morrer de fome, e
que no entanto lhe perdoa porque necessita de ser tambm
perdoado, sou Edmond Dants!

Danglars soltou apenas um grito e caiu prosternado.

- Levante-se - disse o conde. - Tem a vida salva. A mesma
sorte no tiveram os seus dois outros cmplices: um
enlouqueceu e o outro morreu! Guarde os cinquenta mil francos
que lhe restam e que lhe ofereo; quanto aos seus cinco
milhes roubados aos hospcios, j foram restitudos por mo
desconhecida. E agora coma e beba; esta noite  meu hspede.
Vampa, quando este homem estiver refeito, ser livre.

Danglars permaneceu prosternado enquanto o conde se afastava.
Quando levantou a cabea s viu uma espcie de sombra
desaparecer no corredor, diante da qual se inclinavam os
bandidos.

Como o conde ordenara, Danglars foi servido por Vampa, que lhe
mandou trazer o melhor vinho e os mais belos frutos da Itlia,
e que, depois de o meter na sua sege de posta, o abandonou na
estrada encostado a uma rvore.

Ali ficou at amanhecer, ignorando onde estava.

Quando nasceu o dia, verificou que se encontrava junto de um
ribeiro. Tinha sede e arrastou-se at l.

Quando se baixou para beber, descobriu que o cabelo lhe
embranquecera.


Captulo CXVII

O 5 de Outubro


Eram cerca de seis horas da tarde. Uma claridade cor de opala,
na qual um belo sol de Outono infiltrava os seus raios
dourados, descia do cu sobre o mar azulado.

O calor do dia extinguira-se gradualmente e comeava-se a
sentir essa ligeira brisa que parece a respirao da natureza
ao acordar depois da sesta ardente do meio-dia, aragem
deliciosa que refresca as costas do Mediterrneo e leva de
margem em margem o perfume das rvores de mistura com o cheiro
acre do mar.

Naquele imenso lago que se estende de Gibraltar aos Dardanelos
e de Tunes  a Veneza, um iate ligeiro, de linhas puras e
elegantes, navegava entre as primeiras neblinas da noite. O
seu movimento lembrava o do cisne que abre as asas ao vento e
parece deslizar  superfcie da gua. Avanava, ao mesmo tempo
rpido e gracioso, deixando atrs de si uma esteira
fosforescente.

Pouco a pouco o Sol, cujos ltimos raios saudmos, desapareceu
no horizonte ocidental; mas, como que para dar razo aos
sonhos brilhantes da mitologia, os seus clares indiscretos,
reaparecendo na crista de cada vaga, pareciam revelar que o
deus do fogo acabava de se esconder no seio de Anfitrite, que
em vo procurava ocultar o amante nas pregas do seu manto
azulado.

O iate avanava rapidamente, embora na aparncia houvesse
apenas vento suficiente para agitar a cabeleira anelada de uma
jovem.

De p,  proa, um homem alto, de rosto bronzeado e olhar fixo,
via aproximar-se a terra sob a forma de uma massa sombria
disposta em cone, que saa do meio das vagas como um enorme
chapu catalo.

-  ali Monte-Cristo? - perguntou, numa voz grave e impregnada
de profunda tristeza, o viajante s ordens de quem o pequeno
iate parecia encontrar-se momentaneamente.

- , sim, Excelncia - respondeu o patro. - Estamos a chegar.

- Estamos a chegar! - murmurou o viajante, com indefinvel
acento de melancolia.

Depois acrescentou em voz baixa:

- Sim, ser ali o porto...

E voltou a absorver-se nos seus pensamentos, traduzidos num
sorriso mais triste do que as lgrimas.

Passados alguns minutos distinguiu-se em terra um claro que
se extinguiu imediatamente e chegou at ao iate o estampido de
uma arma de fogo.

- Excelncia - disse o patro --,  o sinal de terra. Quer
responder pessoalmente?

- Que sinal? - perguntou o interpelado.

O patro estendeu a mo para a ilha, nos flancos da qual
subia, isolado e esbranquiado, um grande floco de fumo, que
se ia desfazendo e espalhando.

- Ah, sim, quero! - respondeu como se sasse de um sonho.

O patro estendeu-lhe uma carabina carregada. O passageiro
pegou-lhe, levantou-se lentamente e fez fogo para o ar.

Dez minutos depois colhiam as velas e ancoravam a quinhentos
passos de um portinho.

O escaler estava j no mar, com quatro remadores e o piloto.
O passageiro desceu e, em vez de se sentar  popa, guarnecida
para ele de um tapete azul, conservou-se de p com os braos
cruzados.

Os remadores esperavam, com os remos semilevantados, como aves
com as asas a secar.

- Vamos - disse o viajante.

Os oito remos mergulharam no mar simultaneamente e sem
fazerem brotar uma gota de gua. Depois o escaler, cedendo ao
impulso, deslizou rapidamente.

Chegaram num instante a uma enseadazinha formada por um
recorte natural; o escaler tocou num fundo de areia fina.

- Excelncia - disse o piloto --, suba para os ombros de dois
dos nossos homens, que o levaro para terra.

O jovem respondeu ao convite com um gesto de completa
indiferena, ps as pernas fora do escaler e deixou-se
escorregar para a gua, que lhe subiu at  cintura.

- Ah, Excelncia - murmurou o piloto --, no devia ter feito
isso! Assim, o patro ralha connosco...

O jovem continuou a avanar para a margem, seguindo dois
marinheiros, que escolhiam o melhor fundo.

Ao cabo de uns trinta passos chegaram a terra. O jovem sacudiu
os ps num terreno seco ao mesmo tempo que procurava com os
olhos,  sua volta, o caminho que provavelmente lhe iam
indicar, pois entretanto anoitecera por completo.

No momento em que virava a cabea pousou-lhe uma mo no ombro
e uma voz l-lo estremecer.

- Boas noites, Maximilien - disse essa voz. - Foi pontual;
obrigado.

- E o senhor tambm, conde! - exclamou o jovem, com expresso
que parecia de alegria e apertando com ambas as mos a mo de
Monte-Cristo.

- Sim, como v, to pontual como voc. Mas est encharcado,
meu caro amigo! Tem de mudar de roupa, como diria Calipso a
Telmaco. Venha, h por aqui aposentos preparados para si em
que esquecer fadigas e frio.

Monte-Cristo viu Morrel virar-se e esperou.

Com efeito, o jovem via com surpresa que nem uma palavra tora
pronunciada por aqueles que o tinham trazido, que lhes no
pagara e que no entanto se tinham ido embora. Ouviam-se j,
at, os remos do escaler, que regressava ao iatezinho.

- Procura os seus marinheiros, no ? - perguntou o conde.

- Sem dvida. No lhes dei nada e no entanto foram-se embora.

- No se preocupe com isso, Maximilien - redarguiu, rindo,
Monte-Cristo. - Tenho um contrato com a marinha nos termos do
qual o acesso  minha ilha est isento de qualquer direito de
transporte e viagem. Tenho uma avena, como dizem nos pases
civilizados.

Morrel olhou o conde com espanto.

- Conde, o senhor j no  o mesmo que era em Paris.

- Como assim?

-  verdade. Aqui, o senhor ri.

A fronte de Monte-Cristo nublou-se de sbito.

- Fez bem em me chamar a ateno para isso, Maximilien. Tornar
a v-lo foi uma felicidade Para mim e esqueci-me de que toda a
felicidade  passageira.

- Oh, no, no, conde! - exclamou Morrel, pegando de novo nas
mos do amigo. - Pelo contrrio, ria, seja feliz, e prove-me
com a sua despreocupao que a vida s  m para aqueles que
sofrem. O senhor  caridoso,  bom,  grande, meu amigo, e 
para me dar coragem que simula essa alegria.

- Engana-se, Morrel; de facto, sentia-me feliz.

- Ento, foi porque se esqueceu de mim Tanto melhor!

- Como assim?

- Claro! Como dizia o gladiador ao entrar no circo,
dirigindo-se ao sublime imperador, tambm eu lhe digo, meu
amigo: "Aquele que vai morrer sada-te."

- No est conformado? - perguntou Monte-Cristo, com um olhar
estranho.

- Oh! - exclamou Morrel com um olhar cheio de amargura. -
Acreditou realmente que isso fosse possvel?

- Oua - disse o conde. - Compreende bem as minhas palavras,
no  verdade, Maximilien? No me considera um homem vulgar,
uma cegarrega que emite sons vagos e vazios de sentido. Quando
lhe pergunto se est conformado, falo-lhe como um homem para
quem o corao humano j no tem segredos. Pois bem, Morrel,
desamos ambos ao fundo do seu corao e sondemo-lo. Sente
ainda essa impacincia ardente e dolorosa que faz saltar o
corpo como salta o leo picado pelo mosquito? Continua a
experimentar essa sede devoradora que s se extingue na
sepultura? Domina-o essa fantasia da saudade que lana o vivo
fora da vida em busca da morte? Ou trata-se apenas de
prostrao, de coragem esgotada, de contrariedade que sufoca o
raio de esperana que procura brilhar? Ou da perda da memria
que leva  impotncia das lgrimas? Oh, meu caro amigo, se 
isso, se j no pode chorar, se julga morto o seu corao
embotado, se j s tem confiana em Deus, olhares apenas para
o cu, ento, amigo, ponhamos de parte as palavras, demasiado
inexpressivas para o sentido que lhes d a nossa alma!
Maximilien, voc est conformado, j no se lamenta.

- Conde - respondeu Morrel, na sua voz suave e firme ao mesmo
tempo. - Conde, oua-me como se ouve um homem que fala de dedo
estendido para a terra e olhos erguidos para o cu: vim ter
consigo para morrer nos braos de um amigo. Claro que existem
pessoas que amo: amo a minha irm Julie, amo o seu marido,
Emmanuel; mas necessito que se me abram braos fortes e que me
sorriam nos meus derradeiros instantes. A minha irm desataria
a chorar e desmaiaria; v-la-ia sofrer e j sofri bastante.
Emmanuel arrancar-me-ia a arma das mos e encheria a casa com
os seus gritos. O senhor, conde, de quem tenho a palavra, o
senhor, que  mais do que um homem, o senhor, a quem chamaria
um deus se no fosse mortal, o senhor conduzir-me- suave e
ternamente at s portas da morte, no  verdade?

- Meu amigo - disse o conde --, ainda me resta uma dvida:
teria to pouca coragem que fosse capaz de recorrer ao orgulho
para exibir a sua dor?

- No, veja, sou sincero - respondeu Morrel, estendendo a mo
ao conde --, e o meu pulso no bate nem mais depressa nem mais
devagar do que de costume. No, sinto-me no fim do caminho;
no, no irei mais longe. Disse-me que esperasse e tivesse
esperana; sabe o que fez, pobre sbio que ? Esperei um ms,
isto , sofri um ms! Tive esperana (o homem  uma pobre e
miservel criatura), mas esperana em qu? No sei, em algo
desconhecido, absurdo, insensato! Num milagre... mas em qual?
S Deus o pode dizer, ele que juntou  nossa razo essa
loucura chamada esperana. Sim, esperei; sim, tive esperana,
conde, e desde que falamos, h um quarto de hora, o senhor,
sem o saber, torturou-me, dilacerou-me cem vezes o corao,
porque cada uma das suas palavras provou-me que j no existe
esperana para mim.  conde, como repousarei doce e
voluptuosamente na morte!

Morrel pronunciou as ltimas palavras com uma exploso de
energia que fez estremecer o conde.

- Meu amigo - continuou Morrel, vendo que o conde se calava
--, indicou-me o dia 5 de Outubro como termo do prazo que me
pediu... Meu amigo,  hoje o dia 5 de
Outubro...

Morrel puxou do relgio.

- So nove horas, ainda tenho trs horas de vida.

- Seja - respondeu Monte-Cristo. - Venha.

Morrel seguiu maquinalmente o conde. Estavam j na gruta mas
Maximilien ainda no dera por isso.

Encontrou tapetes debaixo dos ps; uma porta abriu-se,
sentiu-se envolto em perfumes e uma luz viva feriu-lhe os
olhos.

Morrel parou, hesitou em avanar; desconfiava das delcias
excitantes que o rodeavam.

Monte-Cristo puxou-o suavemente.

- No ser melhor empregarmos as trs horas que nos restam
como os antigos romanos, que, condenados por Nero, seu
imperador e seu herdeiro, se sentavam  mesa coroados de
flores e aspiravam a morte com o perfume dos heliotrpios e
das rosas?

Morrel sorriu.

- Como queira - disse. - A morte  sempre a morte, isto , o
esquecimento; isto , o repouso; isto , a ausncia da vida e
por conseguinte da dor.

Sentou-se e Monte-Cristo sentou-se diante dele.

Encontravam-se na maravilhosa sala de jantar que j
descrevemos e em que esttuas de mrmore traziam  cabea
cestas cheias de flores e de frutos.

Morrel olhara tudo vagamente e era provvel que no tivesse
visto nada.

- Conversemos como homens - disse, olhando fixamente o conde.

- Fale - respondeu Monte-Cristo.

- Conde - prosseguiu Morrel --, o senhor rene em si todos os
conhecimentos humanos e d-me a impresso de provir de um
mundo mais avanado e adiantado do que o nosso.

- H um pouco de verdade nisso, Morrel - respondeu o conde,
com o sorriso melanclico que lhe ficava to bem - Provenho de
um planeta chamado dor.

- Acredito em tudo o que o senhor me diz sem procurar
aprofundar-lhe o sentido, conde; e a prova  que o senhor me
disse que vivesse e eu tenho vivido; que me disse que tivesse
esperana e eu quase tenho tido esperana. Ousarei portanto
perguntar-lhe, como se o senhor j tivesse morrido uma vez:
conde, custa muito?

Monte-Cristo fitava Morrel com indefinvel expresso de
ternura.

- Sim - respondeu. - Sim, sem dvida, custa muito se
quebrarmos brutalmente o invlucro mortal que deseja
obstinadamente viver. Se fizermos gritar a nossa carne nos
dentes imperceptveis de um punhal. Se furarmos com uma bala
ininteligente e sempre pronta a enganar-se no caminho o nosso
crebro, que o mais pequeno choque magoa. Claro que sofrer e
deixar odiosamente a vida, que no meio da sua agonia
desesperada lhe parecer melhor do que um repouso adquirido
to caro.

- Sim, compreendo - disse Morrel. - A morte, como a vida, tem
os seus segredos de dor e volpia: o principal  desvend-los.

- Exactamente, Maximilien; acaba de dizer a palavra certa. A
morte , conforme o cuidado que ponhamos em nos darmos bem ou
mal com ela, ou uma amiga que nos embala to suavemente como
uma ama, ou uma inimiga que nos arranca violentamente a alma
do corpo. Um dia, depois de o nosso mundo viver  mais um
milhar de anos, quando dominarmos todas as foras destrutivas
da natureza para as pormos ao servio do bem-estar geral da
humanidade; quando o homem conhecer, como voc dizia h pouco,
os segredos da morte, a morte tornar-se- to agradvel e
voluptuosa como o sono saboreado nos braos da nossa
bem-amada.

- E se o senhor quisesse morrer, conde, saberia morrer assim?

- Saberia.

Morrel estendeu-lhe a mo.

- Compreendo agora por que motivo me marcou encontro aqui,
nesta ilha desolada, no meio do mar, neste palcio
subterrneo, sepulcro capaz de fazer inveja a um fara: foi
porque gosta de mim, no  verdade, conde? Foi por gostar de
mim o suficiente para me dar uma dessas mortes de que me
falava h pouco, uma morte sem agonia, uma morte que me
permitir morrer pronunciando o nome de Valentine e apertando
a sua mo, conde?

- Sim, adivinhou, Morrel - respondeu o conde com simplicidade.
- E  assim que eu a entendo.

- Obrigado. A ideia de que amanh j no sofrerei  agradvel
ao meu pobre corao.

- No leva saudades de ningum? - perguntou Monte-Cristo.

- No - respondeu Morrel.

- Nem mesmo de mim? -- insistiu o conde, com profunda emoo.

Morrel deteve-se. Os seus olhos to puros embaciaram-se de
sbito; depois brilhou neles um relmpago desusado e uma
grossa lgrima brotou e rolou, deixando-lhe um sulco prateado
na face.

- O qu, leva uma saudade da Terra e quer morrer?! - observou
o conde.

- Suplico-lhe - pediu Morrel em voz fraca --, nem mais uma
palavra, conde; no prolongue o meu suplcio!

O conde julgou que Morrel traquejava.

Esta impresso momentnea ressuscitou em si a horrvel dvida
j vencida uma vez no castelo de If.

"Procuro", pensou, "restituir a felicidade a este homem e
encaro essa restituio como um peso posto na balana para
equilibrar o prato onde coloquei o mal. Mas se me enganasse,
se este homem no fosse suficientemente infeliz para merecer a
felicidade? Que seria de mim, que s posso esquecer o mal
praticando o bem?"

- Escute, Morrel: a sua dor  enorme, bem vejo; mas no entanto
voc cr em Deus e no quer arriscar a salvao da sua alma...

Morrel sorriu tristemente.

- Conde, bem sabe que no fao poesia a frio; mas juro-lhe que
a minha alma j no me pertence.

- Oua, Morrel: no tenho nenhum parente no mundo, como sabe.
Habituei-me a olh-lo como um filho. Pois bem, para salvar o
meu filho sacrificaria a vida e com mais forte razo a
fortuna.

-- Que quer dizer?

- Quero dizer, Morrel, que voc quer deixar a vida porque no
conhece todos os prazeres que a vida permite a uma grande
fortuna. Morrel, possuo cerca de cem milhes; dou-lhos. Com
semelhante fortuna, poder alcanar todos os resultados que se
propuser. E ambicioso? Todas as carreiras lhe estaro abertas.
Revolva o mundo, mude-lhe a face, entregue-se a prticas
insensata, seja criminoso se for preciso, mas viva.

- Conde, tenho a sua palavra - respondeu friamente Morrel; e
acrescentou, tirando o relgio: - So onze e meia.

- Morrel! Pensa morrer diante dos meus olhos, na minha casa?

- Ento, deixe-me partir - redarguiu Maximilien sombriamente -
ou julgarei que no gosta de mim por mim, mas sim por si.

E levantou-se.

- Est bem - disse Monte-Cristo, cujo rosto se desanuviou ao
ouvir aquelas palavras. - Voc assim o quer, Morrel, e 
inflexvel sim,  profundamente infeliz e, como disse, s um
milagre o poderia curar. Sente-se, Morrel, e espere.

Morrel obedeceu. Monte-Cristo levantou-se por seu turno e foi
buscar a um armrio cuidadosamente fechado e de que trazia a
chave suspensa de uma corrente de ouro uma caixinha de prata
maravilhosamente esculpida e cinzelada, cujos cantos
representavam quatro figuras curvadas, semelhantes a essas
caritides de ar desolado, figuras de mulheres, smbolos de
anjos que aspiram ao cu.

Pousou a caixinha em cima da mesa.

Depois abriu-a e tirou outra caixinha de ouro cuja tampa se
levantava comprimindo uma mola secreta.

Esta caixa continha uma substncia gordurosa, meio slida e de
cor indefinvel graas ao reflexo do ouro polido, das safiras,
dos rubis e das esmeraldas que guarneciam a caixa.
Era como que uma cintilao de azul, prpura e ouro.

O conde tirou uma pequena quantidade da tal substncia com uma
colher de prata dourada e ofereceu-a a Morrel, fitando-o
longamente.

Viu-se ento que a substncia era esverdeada.

- Aqui tem o que me pediu - disse. - Aqui tem o que lhe
prometi.

- Ainda vivo - disse o jovem tomando a colher das mos de
Monte-Cristo --, agradeo-lhe do fundo do meu corao.

O conde pegou noutra colher e meteu-a na caixa de ouro.

- Que vai fazer, meu amigo? - perguntou Morrel, detendo-lhe a
mo.

- Palavra, Morrel - disse-lhe sorrindo --, creio, Deus me
perdoe, que tambm estou to cansado da vida como voc, e uma
vez que se apresenta a oportunidade...

- Pare! - gritou o rapaz. - Oh, o senhor que ama e  amado, o
senhor que tem a f da esperana!... Oh, no faa isso! Da sua
parte seria um crime. Adeus, meu nobre e generoso amigo, vou
dizer a Valentine tudo o que fez por mim.

E lentamente, sem nenhuma hesitao, com uma presso da mo
esquerda que estendia ao conde, Morrel engoliu, ou antes
saboreou a misteriosa substncia oferecida por Monte-Cristo.

Ento, ambos se calaram. Ali, silencioso e atento, trouxe o
tabaco e os narguils, serviu o caf e desapareceu.

Pouco a pouco as lanternas empalideceram nas mos das esttuas
de mrmore que as empunhavam e o perfume dos defumadores
pareceu menos penetrante a Morrel.

Sentado diante de Monte-Cristo, que o olhava do fundo da
sombra, Morrel via apenas brilhar os olhos do conde.

Uma dor imensa apoderou-se do jovem; sentia o narguil
fugir-lhe das mos; os objectos perdiam insensivelmente a
forma e a cor; os seus olhos nublados viam abrir-se como que
portas e reposteiros na parede.

- Amigo, sinto que morro; obrigado.

Fez um esforo para lhe estender a mo pela ltima vez, mas a
mo, sem fora, caiu junto dele.

Ento pareceu-lhe que Monte-Cristo sorria, no j com o seu
riso estranho e assustador, que vrias vezes lhe deixara
entrever os mistrios daquela alma profunda, mas sim com a
benevolente compaixo que os pais tm para com os filhos
pequenos que fazem disparates.

Ao mesmo tempo, o conde cresceu a seus olhos; a sua figura,
quase duas vezes mais alta, desenhava-se nas tapearias
vermelhas. Atirara para trs os cabelos negros e surgia de p
e orgulhoso como um desses anjos com que se ameaam os maus no
dia do Juzo Final.

Vencido, dominado, Morrel caiu numa poltrona; um torpor suave
insinuou-se-lhe nas veias. Uma mutao de ideias
enriqueceu-lhe por assim dizer o crebro, tal como uma nova
disposio de desenhos enriquece o caleidoscpio.

Deitado, nervoso, arquejante, Morrel no sentia mais nada vivo
em si do que esse sonho; parecia-lhe entrar a todo o pano no
vago delrio que precede esse outro desconhecido chamado
morte.

Tentou mais uma vez estender a mo ao conde, mas desta feita a
mo nem sequer se mexeu; quis articular um supremo adeus, mas
a lngua enrolou-se-lhe pesadamente na boca, como uma pedra
que fechasse um sepulcro.

Os seus olhos carregados de languidez fecharam-se, mal-grado
seu. Contudo, atrs das plpebras agitava-se uma imagem, que
reconheceu apesar da escurido que julgava envolv-lo.

Era o conde que acabava de abrir uma porta.

Imediatamente unia imensa claridade que brilhava numa sala
contgua, ou antes num palcio maravilhoso, inundou a sala
onde Morrel se entregava  sua suave agonia. Ento viu
aparecer no limiar da sala, no limite dos dois aposentos, uma
mulher de uma beleza maravilhosa.

Plida e suavemente sorridente, parecia o anjo da misericrdia
conjurando o anjo das vinganas.

- Ser j o cu que se abre para mim? - murmurou o moribundo.
- Este anjo parece-se com o que perdi...

Monte-Cristo indicou com o dedo  jovem o sof onde repousava
Morrel.

Ela dirigiu-se para ele, de mos postas e com um sorriso nos
lbios.

- Valentine! Valentine! - gritou Morrel do fundo da alma.

Mas a sua boca no proferiu um som; e como se todas as suas
foras estivessem unidas naquela emoo interior, suspirou e
fechou os olhos.

Valentine precipitou-se para ele.

Os lbios de Morrel esboaram ainda um movimento.

- Chama-a - disse o conde. - Chama-a do fundo do seu sono
aquele a quem confiara o seu destino e de quem a morte a quis
separar. Mas por sorte eu estava l e venci a morte!
Valentine, daqui em diante no devem separar-se mais na Terra;
porque para a tornar a ver ele precipitava-se na sepultura.
Sem mim, morreriam ambos; restituo-os um ao outro. Assim possa
ter em conta a meu favor estas duas existncias que salvo!

Valentine pegou na mo de Monte-Cristo e, num impulso de
alegria irresistvel, levou-a aos lbios.

- Oh, agradea-me muito! - pediu o conde. - Repita-mo, sem se
cansar de mo repetir, repita-me que a tornei feliz? No
imagina quanto necessito dessa certeza.

- Sim, sim, agradeo-lhe de toda a minha alma - respondeu
Valentine. - E se dvida da sinceridade dos meus
agradecimentos, pergunte a Hayde, interrogue a minha querida
irm Hayde, que desde a nossa partida de Frana me tem leito
esperar pacientemente, falando-me do senhor pelo feliz dia que
brilha hoje por mim.

- Ama ento Hayde? - perguntou Monte-Cristo, com uma emoo
que em vo se esforava por dissimular.

- Oh, com toda a minha alma!

- Nesse caso, escute, Valentine - disse o conde. - Tenho um
pedido a fazer-lhe.

- A mim, Santo Deus? Merecerei tamanha felicidade?...

- Merece, sim. Chamou a Hayde sua irm; que ela seja sua irm
de facto, Valentine. Pague-lhe a ela tudo o que julga dever-me
a mim. Protejam-na, Morrel e a menina, porque... - a voz do
conde quase lhe morreu na garganta - de futuro ela estar
sozinha no mundo.

- Sozinha no mundo! - repetiu uma voz atrs do conde. - E
porqu?

Monte-Cristo virou-se.

Hayde estava ali, de p, plida e siderada, a olhar o conde
com uma expresso de mortal espanto.

- Porque amanh, minha filha, sers, livre - respondeu o
conde. - Porque retomars no mundo o lugar que te  devido.
Porque no quero que o meu destino obscurea o teu. Filha de
prncipe, restituo-te as riquezas e o nome do teu pai!

Hayde empalideceu, abriu as mos difanas como faz a virgem
que se encomenda a Deus e perguntou, com a voz embargada pelas
lgrimas:

- Quer dizer, meu senhor, que me deixas?

- Hayde! Hayde! s jovem e bela; esquece inclusivamente o
meu nome e s feliz.

- Est bem - respondeu Hayde --, as tuas ordens sero
cumpridas, meu senhor; esquecerei inclusivamente o teu nome e
serei feliz.

E deu um passo atrs para se retirar.

- Oh, meu Deus! - exclamou Valentine, amparando no ombro a
cabea adormecida de Morrel. - No v como ela est plida,
no compreende como ela sofre?

Hayde redarguiu-lhe com uma expresso pungente:

- Como queres que me compreenda, minha irm? Ele  o meu
senhor e eu sou sua escrava; tem o direito de no ver nada.

O conde estremeceu ao ouvir o tom desta voz, que fez vibrar
mesmo as fibras mais ntimas do seu corao. Os seus olhos
encontraram os da jovem e no puderam suportar-lhe o brilho.

- Meu Deus, meu Deus, ser ento verdade o que me deixaste
suspeitar? Hayde, serias feliz se me no deixasses?

- Sou nova - respondeu ela meigamente --, amo a vida que
sempre me tornaste to agradvel, e lamentaria morrer.

- Queres dizer que se te deixasse, Hayde...

- Morreria, meu senhor, morreria!

- Amas-me ento?

- Oh, Valentine, pergunta-me se o amo! Valentine, diz-lhe tu
se amas Maximilien!

O conde sentiu o peito dilatar-se-lhe, e com ele o corao.
Abriu os braos e Hayde soltou um grito e lanou-se neles.

- Oh, sim, amo-te! - exclamou a jovem. - Amo-te como se ama um
pai, um irmo e um marido! Amo-te como se ama a vida, como se
ama Deus, porque s para mim o mais belo, o melhor e o maior
dos seres da criao!

- Seja ento feita a tua vontade, meu anjo querido - respondeu
o conde. - Deus, que me instigou contra os meus inimigos e me
tornou vingador, Deus, bem o vejo, no quer que haja
arrependimento no fim da minha vitria. Queria castigar-me;
Deus quer perdoar-me. Ama-me, pois, Hayde! Quem sabe, talvez
o teu amor me faa esquecer o que devo esquecer.

- Que queres dizer com isso, meu senhor? - perguntou a jovem.

- Quero dizer que uma palavra tua, Hayde, me esclareceu mais
do que vinte anos da minha lenta aprendizagem. S te tenho a
ti no mundo, Hayde; por ti volto a prender-me  vida, por ti
posso sofrer, por ti posso ser feliz.

- Ouve-lo, Valentine? - atalhou Hayde. - Diz que pode sofrer
por mim! Por mim, que daria a vida por ele!

o conde recolheu-se um instante.

- Entrevi a verdade? Meu Deus, no importa! Recompensa ou
castigo, aceito o meu destino. Vem, Hayde, vem...

e passando o brao  roda da cintura da jovem, apertou a mo a
Valentine e saiu.

Passou cerca de uma hora, durante a qual, arquejante, calada,
de olhos fixos, Valentine permaneceu junto de Morrel. Por fim,
sentiu o corao dele bater, um sopro imperceptvel abrir-lhe
os lbios e o leve frmito que anuncia o regresso  vida
percorreu todo o corpo do jovem.

Por fim abriu os olhos, ao princpio fixos e como que
enlouquecidos; depois, a vista voltou-lhe, precisa, real, e
com a vista a sensao e com a sensao a dor.

- Oh, ainda estou vivo, o conde enganou-me! - exclamou com
acento de desespero.

E a sua mo estendeu-se para a mesa e pegou numa faca.

- Amigo - disse Valentine, com o seu sorriso adorvel --
acorda e olha para mim.

Morrel soltou um grande grito e delirante, cheio de dvidas,
mas deslumbrado como que por uma viso celeste, caiu de
joelhos.

No dia seguinte, ao amanhecer, Morrel e Valentine passeavam de
brao dado na margem. Valentine contou a Morrel como
Monte-Cristo aparecera no seu quarto, como lhe revelara tudo,
como lhe fizera tomar conhecimento do crime e finalmente como
a salvara miraculosamente da morte conseguindo que tudo
fizesse crer que estava de facto morta.

Tinham encontrado aberta a porta da gruta e sado; no cu
brilhavam no azul matinal as ltimas estrelas da noite.

Ento Morrel viu na penumbra de um grupo de rochedos um homem
que esperava um sinal para avanar e indicou esse homem a
Valentine.

-  Jacopo, o comandante do iate - disse ela. E chamou-o com
um gesto.

- Tem alguma coisa para nos dizer? - perguntou Morrel. - Devo
entregar-lhes esta carta da parte do conde.

- Do conde?... - murmuraram os dois jovens.

- Sim, leiam.

Morrel abriu a carta e leu:

Meu caro Maximilien:

H um falucho ancorado  disposio de ambos. Jacopo
lev-los- a Liorne, onde o Sr. Noirtier espera a neta para a
abenoar antes de ela o acompanhar ao altar. Tudo o que se
encontra nessa grata, meu amigo, bem como a minha casa dos
Campos Elsios e o meu palacete de Trport, so o presente de
casamento de Edmond Dants ao filho do seu patro Morrel.
Mademoiselle de Villefort poder ficar com metade, pois
suplico-lhe que d aos pobres de Paris toda a fortuna do lado
do pai, que enlouqueceu, e do lado do irmo, falecido em
Setembro ltimo juntamente com a me.

Diga ao anjo que vai velar pela sua vida, Morrel, que reze
algumas vezes por um homem que, qual Satans, se julgou por
momentos igual a Deus e que reconheceu, com toda a humildade
de um cristo, que s nas mos de Deus se encontram o poder
supremo e a infinita sabedoria. Talvez essas preces suavizem o
remorso que ele traz no fundo do corao.

Quanto a si, Morrel, aqui tem todo o segredo da minha conduta
para consigo: no existe felicidade nem infelicidade neste
mundo, existe apenas a comparao de um estado com outro e
mais nada. S aquele que experimentou o extremo infortnio se
encontra apto a experimentar a extrema felicidade. 
necessrio ter querido morrer, Maximilien, para saber como 
bom viver.

Vivam pois e sejam felizes, filhos queridos do meu corao, e
nunca esqueam que at ao dia em que Deus se dignar desvendar
o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residir nestas
palavras:

Esperar e ter esperana!

Seu amigo,

Edmond Dants,
Conde de Monte-Cristo.

Durante a leitura desta carta, que lhe revelava a loucura do
pai e a morte do irmo - morte e loucura que ignorava --,
Valentine empalideceu, escapou-lhe um doloroso suspiro do
peito, e lgrimas, que no eram menos pungentes por serem
silenciosas, rolaram-lhe pelas faces. A sua felicidade
saa-lhe muito cara.

Morrel olhou  sua volta com inquietao.

- Mas... na verdade, o conde exagera a sua generosidade;
Valentine contentar-se- com a minha modesta fortuna. Onde
est o conde, meu amigo? Leve-me  sua presena.

Jacopo estendeu a mo para o horizonte.

- O qu! Que quer dizer? - perguntou Valentine. - Onde est o
conde? Onde est Hayde?

- Vejam - respondeu Jacopo.

Os olhos dos dois jovens fixaram-se na linha indicada pelo
marinheiro, e nessa linha de um azul-escuro que separava no
horizonte o cu do Mediterrneo viram uma vela branca do
tamanho das asas de uma gaivota.

- Partiu! - exclamou Morrel. - Partiu! Adeus, meu amigo, meu
pai!

- Partiu! - murmurou Valentine. - Adeus, minha amiga!
Adeus, minha irm!

- Quem sabe se alguma vez os tornaremos a ver? - observou
Morrel, limpando uma lgrima.

- Meu amigo - disse Valentine --, o conde no acaba de nos
dizer que a sabedoria humana reside por completo nestas
palavras: Esperar e ter esperana!?


